EROTISMO, ALLAN BLOOM, ROUSSEAU

   Voce pode fazer uma pesquisa e divulgar os dados de quantas trepadas a população dá em média por mês. Voce pode até mesmo tabular quem teve orgasmo. Quem é hetero, gay e bi. Mas voce não tem como perguntar ou responder NADA sobre o erotismo. Sexo se aplica a pesquisa científica, erotismo nunca. Porque sexo pode ser reduzido ao ato sexual. Erotismo é o que?
  No mundo da ditadura cientifica, o sexo, como tudo o mais, é reduzido. A ciência trabalha com quantidades e com medidas, o sexo pode ser simplificado ao máximo e reduzido ao que se pode medir e contar matematicamente. O erotismo não. Na verdade, no mundo da ciência, Eros nem sequer existe.
  O relatório Kinsey começou o trabalho de morte do erotismo. O sexo foi colocado a luz e tudo se reduziu ao comum. Todos passaram a pensar em ser como todos. Se vinte por cento são assim, eu também posso ser assim. Mais, o homem jogou o erotismo no lixo e passou a seguir a massa: saudável é ter cinco orgasmos? Eu os terei !
  Freud nos brochou antes. Pensou que criatividade fosse sublimação, quando na verdade criatividade é ser humano. Sublimação é palavra criada por Rousseau e seu sentido vem de sublime. Sublime é o ato, apenas e tão somente humano, de se tomar um ato físico ou uma coisa e torná-la sublime, mais do que aquilo que ela é na natureza. É quando o homem se apropria de algo natural e o torna humano. Seja dando contornos de deus ao mar, sendo fazendo de mármore uma obra de arte ou transformando uma necessidade física, como o sexo, em algo sublime, o erotismo.
  Nosso tempo vive o capítulo final deserotização do homem. Mulheres esqueléticas ou bombadas, homens meninos ou frágeis demais. Pornografia. Aulas de sexo seguro. O orgasmo discutido com a mãe no café da manhã. Esquecemos que o sexo nivela os homens aos bichos, e que o erotismo nos define.
   O bicho trepa. Com qualquer fêmea. O homem imagina. Pensa ser aquela mulher a única. A única que poderá lhe dar prazer verdadeiro. E para ela, ele cria música, poema e luta para ser mais sedutor. Ao contrário dos bichos, o gozo passa a ser secundário, toda a história é um grande prazer. Ele imagina e a imaginação é o homem. 
   Rousseau antecipa o amor burguês. O amor viria a ser um contrato. Muito mais próximo de um advogado que de um poeta. Ele sabia que Eros era questão de amor-próprio. Que o homem vivia pelos olhos dos outros, que o amor-próprio dependia do que ele pensa que os outros pensam de si. E que no erotismo o homem joga com aquilo que ele imagina que ela seja e aquilo que ele imagina que ela sente por ele. Politica enfim. Rousseau sabia que quando a politica morresse o erotismo iria junto. ( Hoje politica é pornografia. Há quanto tempo não se ouve um discurso que signifique alguma coisa? ). 
   Sedução é dar espaço a que o outro imagine algo sobre nós.
   ( Há quanto voce não vê um belo beijo em um filme? ).
   Animais vivem no amor -por-si. Amor por sobreviver e sem levar em conta a opinião dos outros sobre ele. Um cachorro não pensa no que a cadela acha ou sente sobre ele. Nós sim. Até quando? 
   Nossos mestres em amor são cantores de funk. Ou intelectuais que nada sabem sobre Eros. Sabem apenas teorias reducionistas que mecanizam tudo. Como faz a pornografia. 
   O amor deve ser ensinado por aquele que ama. Simples assim. Pelos seres eróticos, pelos grandes amantes, pelos sedutores. 
   PS- Não à toa o melhor livro sobre erotismo que já li foi escrito por Frank Sinatra.

O MESMO HOMEM. NO AMOR E NA GUERRA. EVELYN WAUGH E GEORGE ORWELL, BIO ESCRITA POR DAVID LEBEDOFF.

   George Orwell era um solitário. Um socialista que odiava o comunismo. Para os comunistas era então um direitista e para os conservadores era um comuna. Ateu, era excluído do hall dos crentes, mas defendia a igreja e assim era ridicularizado pelos ateus. De origem classe média, culto, sotaque e modos de cavalheiro, era um estranho entre os pobres e um plebeu entre os ricos. Viveu uma infância muito feliz, segundo ele conheceu o paraíso, e a partir da adolescência conheceu a crueldade do sistema de classes inglês. Foi estudar em Eton, a mais exclusiva e elitista das escolas inglesas. E lá foi tratado como subalterno. Entenda, o pai era bem de vida, mas não tinha origem aristocrata. Orwell, que na verdade se chama Eric Blair, passou a lutar toda a vida contra esse sistema. 
  Não quis Oxford e foi servir na Birmânia. Em solidão, no meio da selva, cinco anos. Pegou tuberculose. Voltou e vagabundeou pela Europa. Lavava copos e restaurantes de luxo. Escolheu ser pobre. Foi voluntário na revolução espanhola. Ao contrário de Heminguay, lutou de verdade. Se feriu. E percebeu que os comunistas eram tão ruins quanto Franco. Foi perseguido pelos comunas espanhóis por ser socialista. Conseguiu fugir com a esposa. Milagrosamente. 
  Ainda conseguia tempo para ler uma média de quatro livros por semana. Entre seus favoritos estava Waugh. Começou a escrever. Não conseguia vender. Artigos que estão entre os melhores de sempre. Se isolou em casa de campo. Lança A Revolução dos Bichos. Enorme sucesso. Perde a esposa para a doença. Logo depois de terem adotado um filho. Com esse filho, que ele adora, vai para uma ilha da Escócia. Uma ilha fria, agreste, deserta. Sua tuberculose, claro, piora. Lá escreve 1984. 
  O filho brinca livremente. É feliz. Volta após 4 anos para Londres. O novo livro vende aos milhões. Morre de tuberculose aos 46 anos. Seu filho se torna fazendeiro. Se forma em agricultura. É feliz. E tem orgulho de seu pai. Orwell escolheu a vida que teve e por isso foi realizado. Jamais se arrependeu de nada. Quis viver na "realidade social", foi 24 horas por dia um "homem politico", e escreveu, segundo Lebedoff, um livro muito melhor que Admirável Mundo Novo, de Huxley ( que foi seu professor em Eton ). Orwell antecipou o que seria o mundo dominado pela esquerda. Huxley antecipou o mundo da direita. Nosso mundo atual é uma mistura dos dois. 
  Orwell, como Waugh, amava o passado, detestava o presente e temia o futuro. Mesmo sendo ateu, Orwell pensava que toda a civilização ocidental fora edificada pelo cristianismo. Se a igreja cristã fosse retirada do mundo, se os homens parassem de se guiar pela esperança em outra vida e pela transcendência, se eles passassem a ver a vida como apenas um eterno tempo presente, sem futuro além e sem passado relevante, a moral se tornaria relativa e tudo seria reduzido a satisfação de desejos corporais imediatos. Viver se tornaria satisfazer o corpo. A vida seria estar vivo e nada mais que isso. Cada ato se faria um ato gratuito. Um instante sem história e sem repercussão. A queda de Deus e do espírito faria da sociedade um bazar. Onde tudo vale em nome do prazer. 
  Orwell nunca deixa de apontar os crimes da igreja, mas diz que sem ela esses crimes, como mostrou o nazismo, seriam ainda piores. Sem a ideia de vida maior, de pós e antes da vida, o homem se vê vazio, entediado e sem porque. Orwell, que não tinha fé, se via assim? Não, porque ele abraçava a moral racional da igreja. A justiça, o bem e a bondade, sem relativismo algum. 
  Vale dizer que mesmo muito doente Orwell fez de tudo para lutar na segunda-guerra. E como Waugh, ele percebeu que apesar de derrotados, o mundo do pós-guerra seria o mundo do totalitarismo. Falarei mais dessa verdade após falar de Waugh, alguém tão diferente de Orwell e que Lebedoff vê como um igual.
  Evelyn Waugh ( Evelyn na Inglaterra é nome masculino ), nasceu também em familia classe média. Mas não foi para Eton. Foi para um colégio pouca coisa pior. Seus modos não eram tão bons quanto os de Orwell e sempre foi um aluno ruim. Sarcástico, ele era o baixinho enfezado. Lider de gangue. Entrou em Oxford e lá ele se deslumbrou. Decidiu ser o "homem mais alta classe da Inglaterra". Fez amizades com as familias mais exclusivas, se vestia como um dandy, sabia tudo sobre vinhos, cavalos e tradição. Festas e bebidas. A imagem que se tem de Oxford se deve a Waugh. E Oxford só foi Oxford nos tempos de Waugh. Jovens de sangue azul, cheios de dinheiro, dando festas e fazendo de tudo para não se entediar.
  Festa de Mozart, festa dos travestis, um dia na Idade média, festa de mendigos... Arruaças de rua, brigas, festas que duravam quatro dias inteiros. Waugh achou que era um deles. Mas um dia um professor, irritado, disse a verdade. Que ele não passava de um "homem de negócios", um vulgar inferior. No mundo de Oxford de 1920, nada era pior que gente que lidava com dinheiro. Waugh ficou tão bravo que passou a perseguir esse professor. Acabou com a sanidade dele. Sério! Esse professor acabou no hospicio.
  Devo dizer que antes de tudo isso Waugh tentou lutar na primeira guerra. Mas tinha apenas 14 anos!
  Ao contrário de Orwell, Evelyn Waugh se tornou famoso muito jovem e logo em seu primeiro livro. Para Lebedoff ( para mim também ), ele é o melhor escritor inglês do século XX. Em seus livros ele satiriza o mundo. Usando o humor ( menos em Brideshead, seu livro sério ), ele desmascara o novo mundo, mundo onde o dinheiro e a vaidade imperam. Ou seja, são os mesmos alvos de Orwell mas usando outra arma. Todos os livros de Waugh vendem muito bem e sua fama atinge o mundo inteiro. Mas eu disse que ele queria ser o mais alta-classe dos ingleses. Conseguiu?
  Sim. Ele desejou e conseguiu se casar com a herdeira do brasão mais exclusivo do país, uma autêntica Herbert. Com ela teve seis filhos e foi um pai ausente porém amado. Muito rico, se tornou a imagem do inglês dono de terras, gordo, de tweed, cachimbo e sorriso. E em Brideshead adivinhou, como Orwell, que o mundo que conhecera fora vencido pelo totalitarismo. 
  O mundo que eles conheceram era injusto, eles lutaram contra a divisão de classes. Mas esse mundo tinha uma vantagem, ele tinha alvos claros e se podia lutar contra eles por serem claramente injustos. No novo mundo os alvos seriam camuflados e o conformismo iria imperar. Pão e circo. Seria um mundo em que o objetivo único seria satisfazer o corpo e distrair  a mente. Acalmados, indolentes, as pessoas passariam a confundir felicidade com prazer. 
  E quais seriam os lideres? Aí vem o pior, Seriam os rancorosos. Os invejosos, os revanchistas. A classe, terrível para Orwell e para Waugh, dos especialistas. Gente "competente"que saberia tudo de administração, de economia, de sociologia, e nada sobre a vida. Se um aristocrata usufruia a injusta segurança de nascer em berço de ouro, ele ao menos tinha a vantagem da honra, de não poder sujar o nome da familia e de sentir um certo dever a sua tradição. No novo mundo a tradição e o dever são abolidos. Mata-se o passado e o dever é apenas aquele de produzir mais prazer. Sem passado não se tem lealdade a nada e a ninguém. O especialista deve contas apenas a sua ciência, nunca a gente real. É o mundo totalitário, onde tudo é feito pelo 'BEM"de todos, onde o AMOR impera. Como lutar contra burocratas sem rosto? Como ir contra quem só fala em bem e amor? Como inflamar uma população que não pode abrir mão de seus brinquedos? Eis o mundo que Orwell, Waugh e Huxley intuiram. 
  Devo ainda dizer que ao contrário de Orwell, Waugh se converteu ao catolicismo, o que na Inglaterra é um ato bastante incomum. Ele acreditava em Deus, e como Orwell, pensava que o começo do fim se dera com a morte da igreja. Sem os deveres para com Deus e sem a certeza de uma outra vida, a humanidade se tornaria nada mais que máquina de repetição. Atos do dia a dia sem consequência e sem história nenhuma. Nada de sofrimento real, nenhuma possibilidade de crescimento e de felicidade. 
  David Lebedoff, professor americano, lutador contra o politicamente correto, escreve simples, escreve bem e comenta sem medo. O livro me deu um prazer do qual já sinto falta. Filho que sou de minha época, não tenho a coragem de ser como Orwell e nem a fé para ser como Waugh. Indolente, entediado e covarde, passo pelos dias, todos o mesmo, sem um só instante de dor ou de felicidade. Mais ou menos forever.
  Mas ainda penso. 

DEZ FRASES IRRITANTES ( E NÃO VERDADEIRAS? )

   Eu tive um amigo que uma vez "mandou"eu parar de falar em politica. Segundo ele, eu não tinha esse direito por não ser de esquerda. Segundo ele, só quem é de esquerda pode falar de politica. Porque só quem é de esquerda sabe a verdade.
   Respondi que ele falava como os fanáticos religiosos que ele tanto esculhamba. Tipo, "só os escolhidos irão pro céu". Ele riu com desprezo ( esquerdistas são mestres em desprezar tudo aquilo que não conhecem ). Creio que hoje, anos depois, ele deve continuar relendo as mesmas cartilhas e repetindo tudo aquilo em que ele foi catequizado. Ele evita pensar. Dá trabalho. E trabalho duro nunca foi coisa de gente da esquerda. Eles pensam. Pensam que pensam. 
   Listo agora dez coisas que irritavam esse meu amigo. Nunca direi que são dez verdades, porque ao contrário dele, eu admito que não sou dono de verdade nenhuma. 
  
   1-  Sem os EUA estaríamos sob uma ditadura nazi, comuna ou islâmica. 
   2-  No mundo nazi, comuna ou islamita, voce nunca poderia defender o casamento gay, a droga ou a informação livre.
   3-  Todo ser humano quer se destacar da massa, seja tentando ser o mais bonito, mais inteligente ou liderando os fracos.
   4-  Todo revolucionário é totalmente surdo.
   5-  Socialismo é uma forma de capitalismo envergonhado. O que existe é capitalismo e comunismo. O resto é perfume.
   6-  Violência é violência, não importa o objetivo. E toda violência gera mais violência.
   7-  Cuba pode até ser pobre por causa do bloqueio americano, mas os EUA nunca pediram para Fidel fuzilar gays, dissidentes e pessoas que tentam sair da ilha.
   8-  Comunismo é a divisão da mediocridade entre os ressentidos.
   9-  Me mostre um artista de esquerda que eu te mostrarei um invejoso.
   10- Instinto versus domesticação. O capitalismo educa o instinto e faz dele uma força de trabalho, o comunismo tenta matar o instinto e fazer dele castração dócil. Educar não é domesticar, educar é despertar o pensamento.
   11-  ( Sou ruim de contas ), Todo reacionário é mais feliz.
 

BERLIN, LOU REED, A SEDUÇÃO DO QUE TE DÁ MEDO.

Berlin não termina nunca...Porque ele diz as coisas mais horríveis da forma mais bela possível. Suicídio, genocidio, infanticidio, Lou fala horrores com sua voz fria, sem nenhuma emoção. Lou recorda suas sessões de eletrochoque, tardes de pesadelo ordenadas por seu pai. Lou consegue fazer do pesadelo, arte e dessa arte beleza.
Alguma coisa pode ser mais bela que The Kids? Alguma coisa pode ser pior? How Do You Think It Feels? O disco é um pesadelo sedutor. É escuro é úmido e é gelado.
Luxuriante. Caroline se mata e agora não mais sentirá amor por quem a surrava. Oh Lou...Oh Jim...
O disco começa em dissonancias jazzistas e termina em orquestrações de amor nas nuvens. Bob Ezrin produziu daquele modo apocalíptico no qual ele era mestre. Jack Bruce, Steve Hunter, Dick Wagner estão aqui. E Lou canta o refrão de Frankenstein: Sad Song...
Após o sucesso de Transformer ele quis assassinar sua carreira e fez Berlin. E conseguiu. Os criticos de então o arrasaram. Os mesmos que destruíram Led II e discos de Eno. Os críticos dos anos 80 botaram tudo em seu devido lugar, para sempre. Berlin é uma obra-prima da mais pura arte moderna. E é um lixo.
Berlin nunca termina. Lou era um vampiro que está por aí sugando sangue de meninos.
Como se pode criar tanta vida falando de morte? Berlin nunca termina...O reencontro agora, trinta anos depois da última vez em que o escutara. Tinha medo dele. E o medo sai e sinto o que eu não pensava querer sentir. A sedução. Berlin.
Merda. Porque tudo que é melhor custa tanto?

BERKELEY E A REALIDADE

   George Berkeley fez um estrago enorme na minha cabeça quando o li pela primeira vez. Ele bateu na grande dúvida que sempre tive: Afinal, existe a realidade? Grosso modo o que Berkeley diz é que essa coisa que chamamos de realidade é criada em nossa mente e que nossa mente pode ser manipulada. Vemos aquilo que nosso tempo nos permite ver. Isso até a época de Berkeley, após o totalitarismo ( invenção do século XX ) vemos o que desejam que vejamos.
  Se levarmos essa teoria ao extremo podemos dizer que houve um tempo em que podíamos ver anjos e fantasmas e que agora essas entidades não mais fazem parte de nós. Foram tiradas da realidade. Não estou defendendo a ideia de que anjos ou fantasmas são reais, estou dizendo que eles foram um dia tão reais quanto hoje é real o Taleban ou o Buraco Negro. Nunca vi nenhum dos dois, mas fazem parte de nossa realidade.
  Se Sócrates, Shakespeare ou mesmo Nietzsche caíssem neste nosso mundo, agora, quantas coisas que nos são absolutamente reais não seriam irreais para eles? E quantas coisas eles perceberiam que não mais conseguimos notar? Essa teoria de Berkeley é basicamente anti-democrática também. Pois ela postula que no fundo a minha realidade sempre será diferente da sua. O que vejo, percebo e tomo como certo é diferente de tudo o que voce percebe. O gosto de uma maçã para mim será sempre o gosto da maçã para mim. Eu jamais saberei qual a sua experiência da maçã. E se formos mais longe direi que o modo como amo, detesto ou sofro jamais poderá ser dividido com alguém. A realidade em que vivo é minha, e ELA É TÃO FALSA COMO É A SUA E A DE TODOS.
  Um nó.
  Tudo isso me foi recordado num excelente livro que estou lendo que entrelaça a biografia dos dois mais interessantes autores ingleses do século XX, Evelyn Waugh e George Orwell. Ambos, apesar de aparentemente tão opostos, tinham essa visão de que a realidade não pode ser conhecida. Ambos detestavam o futuro e espezinhavam o presente. Um deles usava o humor mais cruel possível, o outro o pesadelo mais asfixiante. Os dois liam Berkeley.
  Conto mais um dia desses.

RAUL SEIXAS NO COLEGIO OBJETIVO 1983 COMPLETO PARTE 2/4



leia e escreva já!

CONTOS DE RAYMOND CARVER

   Muitos filmes foram feitos em cima de textos de Carver. E pelo menos um deles é uma obra-prima. Dizem que grandes livros não dão grandes filmes porque para filmar voce tem de cortar tanto que o estilo e a complexidade vão pro lixo. Carver, assim como Elmore Leonard, serve bem ao cinema porque na adaptação nada há pra se cortar. O texto é tão enxuto que na verdade o roteirista precisa acrescentar coisas.
  Eu leio Elmore com prazer. Como leio Chandler e Hammett, que também ficam bem em filmes. Patricia Highsmith too. Mas Carver é um pé no saco! Seus contos são tão esqueléticos que cansam por excesso de facilidade. Os personagens são tipos, nunca gente, e as situações são vistas como se as pessoas fossem medíocres atores cool. Para Carver as pessoas são manequins animados.
  A impressão é a de que seja muito fácil escrever como Carver. Basta descrever, sem detalhes, aquilo que voce vê num bar, na rua ou na escola. Daí voce imagina o que esse cara do bar, da rua ou da escola faz em casa. Nada de especial, tudo bem óbvio. Bota uns diálogos banais e chama isso de minimalismo. Tá pronto pra imprimir. Sam Shepard faz igual. Dentre dezenas de milhares de outros.
  Eu poderia fazer livros como os de Carver. O problema é que eu me entediaria. Seria como ter de viver numa mina de carvão. Trabalho escravo que iria contra tudo que eu acredito. Nada pode ser mais anti-Henry James que Carver. Porque mesmo que ele seja um crítico do vazio, mesmo que ele esteja tirando uma da mediocridade da vida, ele faz isso usando meios vazios e medíocres. Quem quer saber do regime de uma garçonete ou da conversa entre pai e filho que nada têm a dizer?
  Certos livros são de calar!

C.S.LEWIS, DO ATEÍSMO ÀS TERRAS DE NÁRNIA, BY ALISTER MCGRATH

    Leio com surpreendente prazer a bio deste escritor, professor e famoso apologista inglês. Hoje, com certeza, mais famoso por sua série de livros infantis sobre Nárnia, Lewis foi durante os anos 40 e 50 uma celebridade na Inglaterra e nos EUA. 
   Nasceu em lar de razoável conforto e logo cedo perdeu a mãe. Mesmo assim viveu uma bela infância, livre, gasta em brincadeiras com o irmão. O pai lhe deu o amor aos livros, mas os dois nunca se deram bem. Lewis enfrenta as trincheiras na Primeira Guerra e é ferido. Estuda em Oxford e depois se torna professor de literatura inglesa na mesma escola. Sua predileção é pela idade média e renascença. Faz amizade com Tolkien, que também leciona em Oxford. Ateu exaltado, racionalista, lentamente se converte ao cristianismo. Como? 
  Na verdade nada acontece de espetacular. Lewis se torna cristão por questões literárias. Ele vê Deus como um tipo de sol. Com a presença de Deus a realidade se ilumina, as coisas ficam mais claras e as obras de arte são melhor entendidas. Lewis diz que a absoluta falta de fé leva a arte ao vazio. Obras sem vida, frias e mal executadas, personagens ralos, textos que falam apenas do autor que os escreve, textos mortos. 
  Na Segunda Guerra ele faz uma série de programas para a BBC. No rádio se torna famoso. Fala sobre Deus às pessoas, aos soldados. Lança livros sobre religião, sua fé e a do cristianismo "puro e simples", independente de igrejas. Sua fé e sua fama fazem dele um solitário em Oxford. Perde a amizade de Tolkien, que se sente roubado quando ele lança a saga sobre Nárnia, que estoura em vendas nos anos 50. Sai de Oxford e é chamado por Cambridge. Morre em 1963, no mesmo dia em que Kennedy é assassinado. Crítico feroz dos tempos modernos, é logo esquecido nos anos 60, visto como um velho inglês conservador e ultrapassado. Renasce nos anos 90. Volta a moda no século XXI.
  Alister McGrath escreve de modo leve, mas nunca tolo. Também professor, em Oxford, tem flagrante carinho por Lewis, mas não deixa de demonstrar as falhas em seu pensamento. Lewis tenta demonstrar que a razão foi um dia irmã da criatividade. As duas se separaram logo depois da renascença e com o correr do tempo se fizeram inimigas. Essa a grande tragédia da modernidade. A razão deve ser aliada da imaginação e saber que criar é saber. A verdade está naquilo que imaginamos. Mitos, lendas, sagas, sinais de verdades, pistas de sabedoria, modos de tornar claro aquilo que vai além da miopia da razão.
  Devemos conhecer aquilo que não conhecemos. Ler o que não lemos, ir onde não fomos, tomar contato com formas alternativas de pensar e de sentir. AUMENTAR NOSSA VISÃO. IR ALÉM DA NOSSA JANELA.
  Cabe a imaginação reorganizar a realidade, colocar o real em novo arranjo e assim torná-lo inteligivel. Só fala em Mundo sem Sentido aquele que não consegue ou não quer ver a realidade iluminada da vida. 
  O mundo faz sentido para Lewis. Deus o fez ver o sentido. Iluminou a vida e lhe deu a liberdade de criar. Lewis fez mapas que nos ajudam a perceber onde estamos e de onde viemos. Se ele estava certo ou errado jamais o preocupou. Porque ele criou e nessa criação achou a vida real.
  O que mais uma filosofia pode nos dar?

O TEMPO REDESCOBERTO, PROUST EM FILME DE RAOUL RUIZ

   Proust cura. As palavras em vertigens e as páginas que se embaralham fazem com que percebamos, sem perceber não é ? , que tudo permanece em lugar sempre vivo chamado memória. Cada dia e toda pessoas está para sempre aqui e em lugar nenhum, portanto em todo lugar. O que se vive é decisivo. Como filmar isso? 
  Schlondorff filmou em 1988 e fez um dos piores filmes de sempre. Confundiu Proust com esnobismo mórbido e destruiu o que era um monumento. Visconti acalentou a ideia de o filmar, mas morreu sem achar o momento certo dentro de seu tempo. Renoir, Ophuls, Resnais, todos poderiam ter levado o gênio de Marcel para as telas. E então assisto as seis da manhã de um sábado a versão de Raoul Ruiz, o diretor chileno que tanto insistiu que virou francês. É Proust ? Não, não é Proust, e essa é a vitória de Ruiz. Não é mas poderia ter sido se Marcel fosse menor. O rastro da tinta e da ansiedade de Proust está no filme, ( que é de uma beleza plástica tão extremada que poderia enjoar. Não enjoa. ), Ruiz optou por misturar as cartas e joga-las todas de uma vez sobre a mesa que é nossa mente. Não tente seguir a história, se deixe ir nas sensações impressionistas que flutuam frente nossos olhos como se fossem sonhos nossos.
  Quem disse que grandes filmes são como sonhos? Que lembramos deles como se tivéssemos sonhado aquele filme? Eis um filme que é todo sonho. As festas e as roupas, as casas e as taças, não podem ser reais. Mais que presentes elas vivem dentro de nós. Como Proust sabia, aquilo que vive dentro nunca perece pois não obedece a ordem do que mora fora.
  John Malkovich beira o milagre. Charlus como Charlus foi imaginado. Mas todo o elenco faz milagres. A fotografia de Ricardo Aronovich também. 
  Claro, o filme explicita a politica que Proust sugere e nunca escancara. E encolhe as delicadezas da infância sagrada. Cadê Swann que não o encontro?
  Eu reli Proust a cerca de quatro anos e ele é um dos livros que me consolou pela perda de um pai. O tempo mora onde? No fluxo infinito de rostos e de frases a gente se perde e percebe que tudo está. E tudo pode ser. Indo. A hipnose se opera para quem se deixa ir e fico rodopiando entre as linhas negras e a corrente desse rio que fala. E canta.
  O filme termina em mar.
  Pra sempre.
  Se voce é poeta sabe.

WILKER

   José Wilker foi louco. Veja bem, não o tipo de louco que temos hoje. Ele não era o cara que briga em bar ou que se vicia em pó. Ele tinha atitude. E ator com atitude é cada vez mais raro.
   Sempre remou contra a maré. No teatro ele arrasou, e no cinema encontrou seu meio. Conseguia dar uma dose de cinismo esperto até a tola novela em que estivesse. Misturava elegância com doideira e charme com perigo. Foi um grande. Em país carente de estrelas, foi nosso Jack Nicholson e nosso Warren Beaty. 
  Fará imensa falta e sinto pena das gerações que não o conhecerão. É mais um que me educou. Me ensinou a vestir, falar e a não ser besta.
  O palco agora é noutro lugar.

IMAGINAÇÃO

   O amor que sinto por minha mãe é inquestionável. E ela as vezes, triste ou doente, poderia ser ajudada por certas coisas que eu poderia fazer ou falar. Mas ela pensa que me conhece, e na imagem formada que ela tem de mim, um homem frio, distante, indiferente, se fecha a minha palavra. Não posso a ajudar porque ela não me escuta. Quando tento falar ela não me entende, não me ouve, não me quer por perto. 
  E espero então, só posso esperar que um dia ela olhe e me veja e entenda aquilo que posso lhe dar: Ajuda.
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  Ando lendo a bio de  Lewis. E ele fala de como entende o amor de Deus. 
  Acho que o entendo.
  Jamais terei a certeza.

  A vida pode ser o desejo de poder. A vida pode ser o instinto sexual. Mas eu penso que não. A vida é ansiedade. A ânsia por algo que conhecemos e não conseguimos ver. 
  Não somos como bichos. Mas podemos amar os bichos. Eles nunca nos ajudarão. E se podemos os ajudar, temos o dever de os ajudar.
  O homem pode ser cruel. A vida pode ser um inferno. Mas se conseguimos imaginar a bondade, se pudermos sentir saudades da paz, então temos o dever moral de crer na paz e na bondade. Se um dia criamos a moral, temos a missão de a afirmar.
  A vida não é feita de relativismos. Existe o mal, existe o bem. E fora do futil jogo de palavras sabemos o que seja bom e o que seja mal. Como sabemos o que é a paz, a beleza e a felicidade. Mesmo que estejamos exilados.
  
  Tenho me tornado um babaca religioso. Porque eu não sei. Mas ser babaca é hoje a maior das coragens. Não é cool ser babaca. E nem é fácil.
  
  Enquanto houver violência no mundo não haverá sono. 
  
  Aquilo que se imagina foi, é agora ou será um dia.
  Viver é imaginar a vida que se vive.
  O resto é morte.

A COLEÇÃO DE DVDS

   Foram anos incríveis. Desde 2004 até 2010 vivi aquilo que a geração de Godard viveu nos anos pós-guerra, uma avalanche de filmes que me educaram para o resto da vida. Foram os anos em que formei minha coleção de 3000 dvds, os anos em que realmente entendi o que o cinema poderia ser.
  Lewis diz que pelo fato de nos ser impossível conhecer o futuro, o único parâmetro que temos para avaliar o presente em que vivemos é conhecendo o passado. Se eu falo que tal filme é ótimo, falo isso em relação a algum outro filme, mas se esse outro filme tem como aquele outro a vantagem do frescor, de estar cercado de uma propaganda e de um bando de fãs, sua avaliação se torna quase impossível. Uma obra só pode ser avaliada com frieza se for comparada a ALGUMA OBRA JÁ ESTABELECIDA, QUE JÁ PASSOU PELO CRIVO DO TEMPO. Hoje minha cinefilia esfriou. Vejo menos filmes, fico menos comovido. Talvez eu já tenha visto todos os grandes filmes e só reste para mim a sorte, cada vez mais sovina, de encontrar em um ano um filme como A GRANDE BELEZA ou BRANCA DE NEVE.
  Nesses anos eu conheci tanta coisa! Primeiro foi todo o cinema americano dos anos 30. As comédias, os policiais. Depois os filmes noir dos anos 40. Então mergulhei em Bergman e pirei. Veio a coleção de Kurosawa e o neo-realismo italiano.
  Topei com os franceses: Clair, Carné e Cocteau. Depois Ophuls e Bresson. E Clouzot!!!  E Vigo !!!!  A Noite solene em que conheci e caí de amor por Powell. Foi tanta coisa mais! Foram anos de caça, de usufruir o melhor, de luxo e de calma. Mas agora sinto que a estrada foi percorrida. Sim, ainda tenho algum Powell, algum Bresson, algum Losey que não vi. Mas a tempestade, a chuva de uma obra-prima por noite passou. A doce febre baixou. Ficou uma saudade. 
  O cinema foi grande. O cinema ocasionalmente pode ser grande. Em frente...

UMA PÁGINA DE MEU DIÁRIO ( COMEÇO DE ABRIL DE 2014 )

O soco explodiu na minha mandíbula. Socos sempre aparecem como cometas, explodem e a gente não sabe de onde veio. Mas não caí, eu nunca desabo. Avancei sobre o cara e rindo disse que seu soco parecia um soco de menina. Ele ficou ainda mais louco e me deu um pontapé. Como disse, eu não caio. Disparei um desafio e me voltei de costas. Andei, devagar, para a sala da direção. Aturdidos, todos olhavam boquiabertos.
Depois que a policia chegou percebi um homem sentado ao canto. Sabia que o conhecia, de onde? Me aproximei a falei com ele. Era pai de um aluno. Viera ver a escola em fevereiro, e por acaso passara por lá essa noite. 
Uma professora me diz o que eu não sabia ( depois que esse homem se vai ), ela diz que o cara, um cara de 25 anos, quando eu me voltara de costas, pegar um skate e fora para cima de mim, transtornado. Ele ia me acertar a nuca com a quina do skate. Mas o pai do aluno, que surgira dentro da escola ninguém sabe de onde, agarrara o cara e salvara minha cabeça. Talvez ele tenha salvo minha vida.
Se eu fosse um niilista eu diria: Merda.
Se eu fosse um existencialista: Destino que pedi.
Se eu fosse um freudiano: Desejo de punição.
Se eu fosse um jungiano: Arquétipo de cowboy.
Se eu fosse um poeta: Jogo de dados com a sorte.
Se eu fosse crente: Poder de Deus.
Mas eu sou eu: Foi um anjo que soprou os ouvidos daquele homem...

A LITERATURA E A MORTE DE DEUS

   Tenho lido a biografia de C.S.Lewis. Tenho um profundo amor por essa turma, esses ingleses que viveram entre 1890/1940, essa época de Eduardo, de George. Lewis tinha uma vida dupla, era um dos mais destacados professores de Oxford, um dos melhores críticos literários e talvez o melhor leitor de seu tempo. E ao mesmo tempo escrevia livros populares, é ele o autor da saga de Nárnia. Não por acaso, um de seus melhores amigos era outro grande professor de Oxford, J.R.R.Tolkien. O que seus contemporâneos não conseguiram entender é algo que nosso tempo, felizmente, consegue compreender um pouquinho melhor ( mas ainda com muita ignorância ), Lewis tentava unir a razão a criatividade, um casamento que foi um dia a regra entre artistas, mas que no mundo moderno havia sido cada vez mais raro. Ele e Tolkien procuravam salvar a literatura da asfixia onde ela se encontrava. Que asfixia era essa?
 Há que se dizer que nos seus primeiros trinta anos de vida foi Lewis um racionalista. Em seu diário ele diz que conseguia deixar cada coisa numa gaveta separada de seu cérebro. E mesmo a experiência na Primeira Guerra, ele esteve nas trincheiras, foi colocada em lugar seguro, longe da parte central de sua vida. 
 Ateu convicto, Lewis começou a perceber, em seus estudos literários, ele logo seria um dos melhores professores de literatura inglesa, que os autores ateus, céticos, os que colocavam todo campo espiritual de lado, tinham sempre uma prosa limitada. Esses escritores não conseguiam criar vida. Seus livros são como teatro de bonecos, os personagens jamais parecem reais, o que esses relatos transmitem é sempre a voz do autor, em total isolamento, lutando para criar vida, e sendo sempre derrotado. Porque isso acontece? Porque a criatividade desses escritores é sempre castrada, truncada, tristemente árida? E porque escritores como Sterne, Dickens, Dostoievski, Tolstoi, Balzac, Stendhal, conseguem criar tanta vida, tantos personagens que falam, agem, vivem como se fossem gente de carne e de osso? Mais que isso, porque esses escritores parecem ter tanto interesse na REALIDADE? Descrevem árvores, cidades, guerras, rostos, bichos e mares como se os conhecessem em profundidade. O que eles, assim como Huxley, Lawrence, Waugh, têm que Wolff ou Dreiser não têm?
 Lewis percebeu então que o que unia os autores criativos era a não negação do mundo espiritual. Para eles a ruptura entre razão e criatividade nunca se deu COMPLETAMENTE. Eles não dissecavam a criatividade, não extirpavam o maravilhoso da razão, em suma, e para seu espanto de ateu, eles jamais mataram Deus. Podiam blasfemar, duvidar, amaldiçoar, mas não ignoravam Deus. Lewis ficou aterrado ao se deparar com isso. Tendo Deus dentro de seu mundo, autores como Dante e Cervantes conseguiam criar como jorro, eram completamente férteis. Criar para eles não era um problema, era um dom divino, uma herança bendita. Com a morte de Deus a criação começa a ser tomada por algo de herança maldita. Ser criativo se torna uma ilusão, uma doença, um problema e deve assim ser analisado, domesticado ou negado. Como a religião, o homem da razão deve ENTENDER a criatividade a luz da razão e nunca com a colaboração da razão. Criação e razão se divorciam. Dois antagonistas. Toda criação deve ter um porque, um motivo, um símbolo. Nessa aridez a criatividade morre, daí a secura mórbida de tantos autores modernos. Fez-se com o ato criativo aquilo que se fez com o Criador. 
  O resto, que tem surpreendentes semelhanças com meu processo espiritual incompleto, deixo para futuro post.