MEDO E AMOR, LONGE E DE PERTO, ROXY MUSIC- COUNTRY LIFE, O QUARTO DISCO, 1974

   Havia uma menina que eu conhecia...
   Havia uma banda que eu sempre ouvia, e existiam lugares onde eu ia...
   Ouvir certas bandas ás vezes é impossível. Isso acontece quando me sinto longe, distante, exilado do universo em que aquela banda habita. Tão longe que aquela lingua, que antes me seduzia, agora me irrita. Ou pior, me assusta.
   Roxy só é possível quando amo. E o amor se revela já revelado.
   Percebi... As pessoas sentem amor por aquele que ama. O que não deixa de ser uma ironia, para ser amado é preciso estar amando. Bobos vêm com essa conversa de que alianças atraem, de que mulheres gostam de quem está comprometido. Besteira! O amor é atraído pelo próprio amor.
   Então voce ama e passa a chamar olhares amorosos. ( E um dia poderá vir a tragédia, o amor se vai e sua dor passa a repelir ). Mas se voce alimentar, cultivar, embelezar...
   Porque tudo no mundo quer aquilo que o alimenta.
   O Roxy foi minha filosofia amorosa. Bem antes de Shelley ou de Keats, foi o Roxy que me ensinou que amar independe. Amar é ato de coragem e de disciplina.
   Tudo no mundo quer aquilo que o alimenta. Mas esse alimento tem um preço.
   Coisas fáceis não possuem valor. O amor pede muito. Exige.
   Houve uma menina em minha vida, por ela eu morri, por ela matei, por ela deixei de ser.
   E agora inteiro, pleno, cheio, eu posso voltar.
   O Roxy aqui, comigo, e indo, rondando, voando, conduzindo, guiando
   O amor ama apenas o amor.
   there`s a girl i used to know...

Roxy Music - A Really Good Time



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PRESTON STURGES/ VICTOR FLEMING/ JOHN TRAVOLTA/ JERRY LEWIS/ GENE TIERNEY/ HENRY JAMES

   MARUJO INTRÉPIDO de Victor Fleming com Freddie Bartholomew, Spencer Tracy, Lionel Barrymore, Melvyn Douglas e Mickey Rooney
Se voce não conhece o cinema americano dos anos 30 e deseja saber porque ele é tão valorizado, comece por este filme. Baseado em obra de Kipling, conta a saga de um menino mimado, egoísta, milionário, que ao ser resgatado no mar por pescador de bacalhau, aprende a viver e a ser parte de uma equipe. O filme tem cenas documentais da pesca em mares frios que são fantásticas. A procução tem o luxo da Metro e a direção é de Fleming, o diretor que fez E O Vento Levou e OMágico de Oz, só isso. O elenco chega a ser covardia. Tracy, como o pescador Manuel, levou  o Oscar, mas todos os atores são o máximo dos máximos. O segredo desse tipo de cinema é aqui explicitado: cinema sem vergonha de ser Pop, mas esse Pop é feito com gosto, baseado em roteiro e estrelas. O modo econômico e direto com que se narra o roteiro é uma aula de direção e de produção. È um filme perfeito. Nota DEZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
   PELOS OLHOS DE MAISIE de McGehe e Slegel com Julianne Moore, Steve Coogan, Alexander Skarsgard e Onata Aprile
Livremente baseado em Henry James ( é seu livro mais seco e cruel ), o filme fala de uma menina jogada ao sabor das emoções de sua familia. A mãe é uma rockeira cheia de dinheiro que vive em meio a histeria e carência. O pai é um hedonista egoísta. O filme se põe no ponto de vista da menina. Vemos sua solidão e meio a casa imensa mas desleixada, os pais ocupados em serem felizes e o desarranjo geral. É um bom filme? Não. Tudo isso é temperado com musicas fofinhas, cenas infantilóides e uma sensibilidade gracinha que é irritante. Retrato de nosso tempo, é sintoma daquilo que denuncia, um mundo onde todos estão largados e perdidos em meio a prazeres sem valor. Nota 2.
   NATAL EM JULHO de Preston Sturges com Dick Powell e Ellen Drew
Segundo filme de Sturges, dura apenas 62 minutos. Mas que bons minutos! Um cara concorre num concurso de slogans. Colegas lhe pregam uma peça, mandam aviso dizendo que ele venceu. O trouxa passa a gastar o dinheiro que não tem. O roteiro de Sturges não poupa ninguém, todos são idiotas, e humanos. Na época, 1940, não se deixava um roteirista dirigir, Preston Sturges quebrou essa regra, abriu o caminho para Wilder e Huston. Finalmente recebendo hoje o valor que lhe é devido, ele foi um mestre da comédia. O filme tem um final tão bem preparado que é impossível não rir. Nota DEZ.
   BORN FREE de James Hill com Virginia McKenna e Bill Travers
A trilha do gênio John Barry levou Oscar. Não há quem não a conheça. O filme mostra um casal na África criando um filhote de leão, uma leoa. Nada de gracinhas, em 1966 animais ainda eram filmados como bichos e não como bebês. O filme, cheio de falhas, tem ainda encanto. Nota 6.
   TEMPORADA DE CAÇA de Mark Steven Johnson com Robert de Niro e John Travolta
Os primeiros vinte minutos prometem um bom filme. De Niro vive isolado no campo, vemos seu cotidiano. Um tipo de Jheremiah Johnson. Mas como o filme é de 2013, logo surge o super-mal, na figura de Travolta, um sérvio que deseja se vingar do ex-soldado De Niro. Travolta vai ao campo e começa a ação. O filme passa a exibir cena sobre cena de torturas, sangue, sadismo e exageros. Porque? Porque esta é a cultura do sensacional, e também porque estamos sendo educados a tolerar a violência. De Niro está ok, Travolta está ridiculo. Usa um sotaque hilário, maquiagem pesada, tudo errado. Adoro Travolta quando ele é apenas Travolta, um tipo, como Willis ou Gibson. Quando tenta atuar vem o desastre. O filme é pior que lixo, é mal intencionado. Nota ZERO.
   ALLOSANFAN de Paolo e Vittório Taviani com Marcello Mastroianni e Lea Massari
Um homem no tempo imediatamente pós revolução francesa. Ele é um tipo de ex-terrorista. Tenta voltar a ser um homem tranquilo de familia, mas o passado o persegue e lhe cobra ação. Começa muito bem e Marcello é sempre ótimo, mas os Taviani se perdem do meio para o final. Bela fotografia. Nota 5.
   VELOZES E FURIOSOS 6 de Justin Lin com Vin Diesel, Michelle Rodriguez e Paul Walker
Gostei do primeiro e do terceiro. O quinto foi um lixo, este é ainda pior. Tentam fazer drama, tentam dar alguma profundidade ao que era apenas diversão sem peso. Erram. O roteiro é cheio de furos, voce tem de aceitar decisões sempre erradas. Posso dizer que é uma porcaria de filme. Diesel começa a envelhecer e ao contrário de Willis, envelhece mal. Nota ZERO.
   A FARRA DOS MALANDROS de Norman Taurog com Jerry Lewis, Dean Martin e Janet Leigh
Ruy Castro diz que em 1956, para sua geração, a separação da dupla Martin e Lewis foi tão doída quanto seria a separação Lennon e MacCartney em 1969. Eles foram os ídolos top dos teens de então. Essa popularidade é atestada, hoje se fazem filmes na TV sobre a dupla. E quando fui um teen, nos anos 70, Jerry Lewis ainda era uma hiper-estrela, um Will Smith exagerado. Seu estilo é puro Jim Carrey, mas um Carrey ainda mais infantil. Martin era o rei do cool, sempre calmo e paquerador. Envelheceu melhor. Este filme não é bom. Jerry finge estar contaminado por radiação e é mimado pela imprensa. Nota 3.
   THE GEISHA BOY de Frank Tashlin com Jerry Lewis
Porque Jerry não ousou crescer? Ele era tão bom, inventivo, mas sempre insistiu em não sair dos 12 anos. E essa mania de agradar, de imitar o pior de Chaplin, a melança... Este tem seus momentos, mas quando ele começa a tentar nos comover...socorro! Nota 4.
   ELA QUERIA RIQUEZAS de Rouben Mamoulian com Gene Tierney e Henry Fonda
Às vezes me perguntam: Qual a atriz mais bonita do cinema? Respondo, Grace Kelly. Mas falo isso porque esqueço de Gene Tierney. Ela foi a mais linda e aqui está divina, mais simples e menos fria. Não é um grande filme apesar dos nomes envolvidos. Na verdade ninguém queria fazer esta obra farsesca. Gene dá golpes em namorados ricos, Fonda não é rico, o resto é facil de prever. Mamoulian fez filmes deliciosos, não é este o caso. Fonda está distante, este filme fez com que ele começasse a desistir do cinema. Sobra Gene, que parece se divertir. Nota 4.
   O CAPANGA DE HITLER de Douglas Sirk
Muito pobre, é um dos primeiros filmes americanos de Sirk. Sem Nota.

AMOR

  O amor existe e não é porque casais não dão certo que ele não existe.
  De volta ao Reino do Amor, estou em casa e como Ulysses volto a minha Ítaca e a minha Penélope.
  Argos...
  Pouco me importa se ela está aqui ou lá
  Pouco me importa se irei ficar
  O Amor volta a viver em mim
  E isso é o que vale!
  Deixo cair do céu a loucura sobre mim
  Deixo que o mar venha me levar
  Deixo que tudo vá me deixar
  Mas o Amor está aqui.
  Acordo agora da vida que não é vida
  Ergo meus olhos e posso ver a nova vida
  Eu continuo onde sempre estive ( e não sabia )
  Reino do Amor.
  PS. Sim, eu sei que o texto é ruim. Sim, mel com sentimentalismo. Eu sei. Acontece que eu sou sentimental e tenho vivido em mel. E conheço, sorry, O Reino do Amor.
  Se voce assistir os dois videos que postei abaixo. Roxy cantando Roxy e Bryan cantando Dylan...quem sabe voce entenda.
  Porque Amor existe. E tem seu mundo, sua lingua e seu ritual.
  O mundo numa flor.

Bryan Ferry - Make You Feel My Love



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Roxy Music - For Your Pleasure [Live at the Apollo, London 2000]



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O AMOR E A RAZÃO

   1
 + 1 = 2. Isso é verdade. Se eu somar um grama de ouro com um grama de ouro serão dois gramas. Mas no universo não existe um grama de ouro. O que existe é ouro, incontável em sua quantidade. Para contá-lo e estudá-lo precisamos separá-lo do todo. Nossa mente não consegue trabalhar sobre o absoluto. Por ser limitada, ela, para entender algo, deve reduzir e particularizar.
   Podemos somar a Terra a Marte e teremos dois planetas. É uma verdade, fato científico. Mas no cosmo não existe um planeta, o que existem são infinitos números de planetas. Assim como nada na realidade é um. Ou dois. Ou mil. O número, invenção que nos permite trabalhar sobre a matéria é arbitrário. Sempre. Voce nunca irá encontrar uma árvore. O que existem são árvores. Sua mente para poder compreender minimamente o que seja árvore irá particularizar e contar cada uma. Mas fora de sua mente não existe a árvore um e a dois...ou a bilhão.
   Se um dia contarmos todos os planetas, todas as estrelas e todas as pessoas do mundo, mesmo assim serão incontáveis. O resultado será arbitrário. Porque Mundos terão surgido no processo, outros desaparecido, pessoas nascido e morrido, e, mais perturbador, teremos de lidar com o Tempo futuro e o tempo passado. E o Tempo, esse dividimos em segundos ou em milênios. Mas fora de nós, como ele se divide?
   Não se divide. É uma continuidade infinita.
   Então, sim, é certo, para nossa razão 1 + 1 é 2. Isso se chama ciência. Reduzir o todo e dividir tudo em partes cada vez menores.
   Saber que o 1 e que o 2 são criações arbitrárias inventadas por nós e desconhecidas no universo fora de nós...isso se chama filosofia.
   Pensar na não existência do 2. Pensar que tudo é um incontado Um. Isso se chama religião.
   Intuir que no 1 existe um universo de possibilidades e que o 2 pode ser o inverso do todo...Isso é poesia.
   E  no extremo oposto da ciência, usar a Alquimia que transmuta o 2 em 1.
   Isso se chama Amor.

O CEPTICISMO ( ASSIM, COM P )

   Cresci como cético. E essa descrença foi tâo forte que marcou meu rosto. Minha face é cética, minha expressão transparece ironia. Tenho enormes dificuldades em convencer mulheres de meu amor.
    Jamais acreditei em Papai Noel. E com oito anos já desconfiava da alma ou da existência do céu. Cresci, e na adolescência eu não acreditava na vida. Tudo acabava em morte e então nada tinha valor. Pra que isso se tudo termina em nada? Passei vinte anos nessa absoluta certeza.
    Mas eu sobrevivi, porque para viver precisamos de ajuda. Usei a arte. Sentia orgulho de meu niilismo. Acreditava em heróis. Homens que viveram em calmo desespero, esses eram meus heróis. Gauguin, Picasso, Heminguay, Tolstoi...músicos de jazz...
    Ao ficar mais adulto comecei a procurar teorias que me fizessem entender a vida. Budismo ( a corrente de reencarnações explica tudo! ), Freud ( o instinto sexual explica a vida ! ), Darwin ( somos bichos e a biologia é nossa sina! ), Jung ( tudo é tão complicado que nada podemos saber )... Mas, cético ao extremo, logo percebia que todos eles dependiam de fé, fé que nunca tive. Voce precisava jogar fora a dúvida e acreditar num sistema arbitrário. Como? Crer em reencarnação é como fazer uma aposta. Nada pode provar seu resultado. Crer no Édipo de Freud é ignorar que nosso instinto básico é a fome. O bebê ama a mãe porque ela tem seios cheios de leite. O pai não. Isso é tão óbvio! Darwin nos obriga a acreditar num poder de transformação que chega ao ponto da magia. E Jung não consegue consolar ninguém porque ele próprio se perde em dúvidas. ( Na verdade Jung é o anti-Freud. Um era tão neurótico que via em tudo o horror do sexo, o outro era tão doido que via  na vida alucinações ).
   No meu extremo ceticismo eu duvidava. Só podia aceitar aquilo que eu-mesmo vivenciara, ou seja, quase nada. Então, quando me deparei com a morte, momento que tudo define e desnuda sua cara, algo aconteceu. Passei a desacreditar de minha própria descrença. Cheguei ao paradoxo: Cético em relação aos céticos.
   Se nada há para se crer, e mesmo assim tudo continua a ser inexplicável, então tudo pode ser válido, tudo pode ser verdade. Acho que foi Bergson que formulou isso: Ou voce descrê de tudo ( e nesse tudo entra até a ciência e a razão ), ou voce crê em tudo ( e nesse tudo entra a ciência e a magia ). O meio termo é sempre tolice, abrir um olho e fechar o outro, tatear.
   Hoje não posso dizer que creio em tudo. Mas a princípio nada condeno. Minha vivência e minha inteligência são limitadas, o que posso pretender saber?
    A única certeza que tenho é a de que ninguém sabe coisa alguma sobre as questões mais importantes. O que conhecemos é aquilo que cabe em nossa pequena e assustada mente. Vemos, sentimos, e pouco compreendemos. Respeito então os darwinistas, freudianos, junguianos, budistas ou ateus radicais. Todos precisam de algum sistema, de algum tipo de explicação PARA AQUILO QUE OS ATERRORIZA. Todos precisam negar o que os assusta e crer naquilo que os consola. Como eu.
   Na pequenez redutora diante da imensa verdade da morte, eu me vi como sou e entendi o porque da necessidade da humildade. Saber que nada se sabe e se deixar nas mãos da vida.
   PS: Claro que continuo aqui divagando sobre meus conhecimentos de cinema, livros, quadros, filosofias, poesia e coisas assim. Sei um pouco dessas coisas. Mas tenho a consciência de que tudo isso é apenas brincadeira, coisas de criança, sonhos ou ilusões bacanas. A vida, a verdade, o estar-aqui e o estar-sempre são coisas bem além de tudo isso.

Animus-Anima in Jungian psychology



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MISSA DE SÉTIMO DIA ( TEXTO ESCRITO EM 2008 E READAPTADO EM 2013 )

   Na primeira fila, lá adiante, vejo três pessoas. Apesar de cercadas por uma pequena multidão de amigos, e de estarem recebendo toda a companhia que carne e alma podem oferecer, essas três pessoas estão sós. E sabendo de sua condição solitária elas se agarram uma a outra. E eu. descobrindo aquilo que me nego saber, posso apenas observar. É na morte que a vida mostra sua verdade. Nesse momento os que aqui ficam exibem para si-mesmos a sua verdadeira alma. O que é importante prevalece.
   Nada em nosso mundo medíocre existe para essa hora. Químicos, físicos, mercadores ou arquitetos nada sabem falar sobre a morte. A ignoram ou tecem comentários frívolos que nada dizem e nada ajudam. Sobre uma caixa de cebolas chamada vaidade, bradam com sua inteligência masturbatória que a morte é isso ou seja aquilo. Pensam ser coragem o que nada mais é que exibicionismo e narcisismo. Falam como crianças e nunca encaram a dor. Não vivem a simpatia e a compaixão. Para aqueles três lá adiante, unidos em sua dor, voces nada têm a dizer. Na verdade nem sabem sobre o que estou a falar.
   A religião é um consolo e esse consolar é uma verdade. A fé é a única coisa que pode diminuir a solidão daqueles três diante de mim e de todos presentes. A presença minha e dos outros nada significa se não for o testemunho de uma outra presença. Ele, que se foi cedo, aqui permanece. Essa certeza nos une. O mundo lá fora nos separa.
   Há aqui e agora uma leveza que nasce dessa dor que tudo coloca na verdade. Porque nesta sala tudo o que é transitório se exclui. Vaidades ou medos, distrações ou sonhos tolos, tudo é descolorido nesta hora. A vida se mostra, e ela é aqueles três que se unem. Quando a filha lê sua mensagem toda sua vida se desenrola. Ela é, mais que nunca, aquela que lá está. Sua dor nos une. Mas ela está sózinha.
   Eu sou um homem antigo. A velocidade da vida para mim é desconhecida. Não sou ambicioso, sou preguiçoso. E como tudo o que é antigo, desconheço o tempo. Revendo os que revejo percebo que nem um só minuto passou. Sou um homem medieval. As pessoas são sagradas e os sentimentos atemporais.
   Posso ver as almas de quem lá esteve. Posso as ver porque quero vê-las. E esse poder confirma sua veracidade. Fora de lá o mundo parece infantil. Crianças presunçosas brincando de desvendar enigmas que já foram desvendados desde sempre.
    Ele morreu. E sua morte abre portas para aqueles que com ele tiveram comunidade. E fecha possibilidades também. Como homem medieval eu desconheço a morte como fim. Leio em sua dor a continuação de uma narrativa. Leio na morte dele a abertura de outro livro. É preciso sofrer para poder ser feliz e é preciso morrer para se descobrir a vida.
    Saio para a noite e estou inteiro. As asas, minhas, se abrem e posso voar outra vez. Na comunidade da misericórdia, na união pelo amor, na certeza do que é certo, todos podem abri-las.
    Torço por todos voces.
    Meu barco singra por aqui...

LISTAS ( FILMES FAVORITOS DE DEL TORO, ANDERSON E ... )

   Wes Anderson é um cineasta de bom gosto. Um amigo me manda um post onde ele declara que MADAME DE..., obra-prima de Max Ophuls é seu filme favorito. Descobri esse filme em dvd a cerca de 3 anos. Escrevi sobre ele em alguma parte neste blog. O filme tira nosso fôlego. Ele é tão refinado, tão chic, tem imagens tão belas que nos sentimos extasiados. O mais impressionante é o uso que Ophuls faz da câmera. Muito crítico diz que ele usava o cinema como uma caneta. Ele conseguia escrever com cortes e movimentos de câmera. Travellings que nos dão um prazer imenso. O interessante é que eu havia escrito que os filmes de Wes, assim como os de Baz Lurhman, são devedores dessa corrente estética, corrente que vai de Ophuls à Powell. Mas atentem, os filmes de Wes e de Baz estão anos luz abaixo dos filmes desses gênios da beleza.
   No mesmo post leio que o filme favorito de Steve Buscemi é Billy Liar de John Schlesinger. Esse vi na TV Cultura em 1978 e nunca mais. Comprei o DVD a um mês. Ainda não o revi. Tem Julie Christie e Tom Courtney. Courtney é o ator sublime do filme operísitico de Dustin Hoffman. Filme que é um prazer celestial.
   Guillermo del Toro tem como número um três filmes de Kurosawa: Ran, Trono Manchado de Sangue e Céu e Inferno. Nada vou dizer sobre esses filmes. Kurosawa foi o maior diretor da história. Os 3 são gigantescas obras sobre o mal.
   Jane Campion escolhe como melhor filme da história Os 7 Samurais. Do mestre Kurosawa. Coitada de Jane. Se ela sonhava em fazer algo dessa grandeza.... Aliás, na mesma lista, Adam Yauch, dos Beastie Boys escolhe também Os 7 Samurais.
   Nicolas Refn também vai de Japão, Tokyo Drifters de Suzuki, um filme sessentista e que lembra muito seus filmes. Alec Baldwin vai de Z de Costa-Gavras e Diablo Cody escolhe Faça a Coisa Certa de Spike Lee.
   Well... só pra recordar, tenho aqui outra enquete:
    Clint Eastwood escolhe Yojimbo de Kurosawa; Gore Verbinski escolhe Chinatown de Polanski e Tarantino elege The Bad, The Good and The Ugly de Sergio Leone.
    Sidney Lumet vai de Os Melhores Anos de Nossas Vidas, filme sobre ex-soldados da segunda guerra, direção de William Wyler; Mike Newell escolhe The Apartment de Billy Wilder, mesmo filme escolhido por Cameron Crowe e digo que o cinema de Newell e de Crowe lembra muito esse filme doce e amargo de Wilder.
   Michael Mann elege Apocalypse Now de Coppolla e Richard Linklater vai de Robert Bresson, Au Hazard du Balthazar. Sam Mendes fala de Kane de Welles e James Mangold ama Oito e Meio de Fellini.
   Talvez eu escolhesse L'Atalante de Jean Vigo, esse é o favorito de Jim Jarmusch. Scott Hicks elege Ivan de Tarkovski enquanto Milos Forman prefere Amarcord de Fellini.
   Dou um picolé pra quem descobrir onde se vê algo de Fellini em Mangold ou algo de Tarkovski em Hicks.
   Mas amar um filme não significa imitar esse filme. Se eu fosse cineasta dificilmente eu faria algo na linha de Vigo, ou de Powell e muito menos de Kurosawa. Meu temperamento me levaria mais ao estilo Hawks, ou Wilder ou Huston. O segredo não é a admiração, é a história pessoal do cineasta e seu temperamento.
   Afinal, Scorsese admira a idolatria The Red Shoes de Powell mas seus filmes nada lembram a obra prima do inglês. É isso.

KARL PILKINGTON E JIM HOLT, A INQUISIÇÃO LAICA.

   Leio em alguma revista que Jim Holt lança um novo livro que discute a única questão filosófica que me importa: Por que o mundo existe?
   Essa é a questão levantada por Leibnz em 1710. Uma questão base de toda a filosofia, matemática, física modernas. Holt evita cuidadosamente toda religião. Ateu, tenta abordar a metafísica sem invocar nada de sagrado. Óbvio que não consegue. Toda questão que se coloca além da nossa escala temporal/material se torna religiosa. O preconceito de Holt faz com que ele se limite. Mas o livro serve para deixar ateus mais nervosos e religiosos em dúvida sobre seus dogmas.
   Vamos a questão. Por que o Nada originaria algo? Se houve um Nada, uma situação em que não existia matéria, tempo e espaço, como desse Nada poderia advir algo? Por outro lado, se sempre existiu alguma coisa, de onde ela surgiu? Mais além, se esse Algo existe desde sempre, então o tempo não pode ser real pois esse Algo desconhece tempo e tamanho.
   Se houve uma explosão primordial por que ela aconteceu? E o que havia antes desse momento Um?
   Voltamos a questão: Se havia um Nada, o que o fez Ser?
   Religiões muito antigas falam de chuva de fogo que originou a vida. De guerra entre deuses terminadas em kaos e explosões. Cobras que comem a própria cauda. Vida como continuação do Nada, sendo o Nada a realidade e o Aqui a ilusão. Essa a falha de Holt. Mesmo ateus devem estudar as religiões porque elas se colocam essa questão desde sempre. Incapazes de raciocinar em termos simbólicos, eles e prendem às imagens de deuses e heróis e não conseguem perceber que são imagens, versos num narrativa, modos de se contar uma percepção.
   Se tudo é movimento por que há a ideia de repouso?
   Se tudo foi repouso, o que causou o movimento?
   Afinal, o que sabemos sobre aquilo que realmente importa
   Mudando de assunto.
   João Pereira Coutinho é hoje o melhor da Folha. Ele escreveu sobre Karl Pilkington, ator-personagem de uma série inglesa. Nessa série, Karl, que abomina viajar, é levado a lugares como China ou Egito. E, que beleza!, ele detesta tudo. A série é um hit, o que leva Coutinho a perguntar o porque de uma figura tão rabugenta fazer sucesso. ( Não esquecemos de WC Fields ).
   Sua coclusão é a de que Karl Pilkington nos alivia da atual "FOGUEIRA DAS INQUISIÇÕES LAICAS". Ele fala que comer baratas é coisa de gente suja e louca, que o calor e a miséria nada têm de "charmoso" e que hotel ruim e costumes ridículos são RUINS e RIDÍCULOS. Ele é um ocidental, mais que isso, um inglês, que tem a coragem de ser o que é. Orgulhoso de seu conforto, seu desenvolvimento e de sua civilização. Adoraria ter uma caixa dessa série.
    Porque tenho sofrido na pele as chamas dessa inquisição.
   

EU SOU UM PÁSSARO DODÔ

   No século XVIII marinheiros acabaram com todos os pássaros Dodos. Como jamais haviam sido caçados, eles ficavam parados, não se defendiam, e assim eram mortos a pauladas. Nunca mais veremos um Dodo. Eles eram grandes. O comérico marítimo foi a novidade que extinguiu esses pássaros. Comércio global e pássaros Dodos não podiam viver num mesmo planeta.
    Gente também entra em extinção. E não falo apenas de tribos que viam espíritos ou de nações que não percebiam perigos. Pessoas ocidentais, de grandes cidades, desaparecem a toda hora. Eu por exemplo.
     Algumas pessoas de minha geração são dos últimos espécimes que ainda insistem em ver sentido nas coisas. Nosso modo de pensar é todo construído de forma linear. Começo, meio e fim. Somos da Era do romance e a vida para nós é escrita, tem um enredo. Mesmo que essa história seja absurda, seja irônica ou simbólica, ela tem sentido e cabe a nós o desvendar. Uma vida é uma narração. Cômica, trágica ou poética.
    Minha espécie cobra sentido de tudo. E mesmo quando não cremos na razão, cobramos um sentido exotérico. Não haver sentido é pensar em sentido sem-sentido. Sentido aleatório ainda é sentido. Eu falo. Eu conto. E vejo a vida como fato cheio de personagens. Mas sei que me unirei aos Dodos, aos Tylacinos, aos Tigres.
    Meu trabalho me obriga a conviver com jovens de 11 a 22 anos. E como os vejo como seres cheios de sentido, procuro os conhecer. Falo com todos. Me comunico e percebo que eles são de outro mundo. Seus atos são flashs que não fazem parte de algo linear. Eles pensam em termos de agora. Não existe uma certeza em relação ao futuro e muito menos uma consciência de passado. O que se faz aqui e agora é ato isolado. Muito mais livres que eu e meus iguais, os atos deles não apresentam consequência. A ação existe como ação e não como narração.
   Ninguém está preocupado com os personagens da vida, com a busca pelo enredo. Pelo significado. É um mundo que desconhece filosofia e religião ( mas ama o imediatismo de igrejas e soluções mágicas ). O eterno aqui e já. Como num PC, voce acessa conteúdos simultãneos, não lê linearmente.
   Amizade existe como momento. Assim como o amor deixa de ser uma história a ser recontada e passa a ser uma sensação a ser usufruída. Filmes passam a ser pura sensação, busca não de enredo mas sim uma desenfreada busca pela emoção mais forte. Esses novos humanos não toleram ter de ver ou ouvir uma história, eles querem e só compreendem o imediatismo da sensação objetiva e pronta.
   Sensação objetiva e pronta? Ora, acabo de descrever o mundo da droga. A droga está em casa aqui. Não a droga alucinógena, a droga que é uma narrativa enviesada, mas sim a droga sensacional, a droga do prazer, a droga que nada narra. O puro estar bem aqui e agora.
    Minha espécie precisa contar histórias. Sem as sagas e as narrativas, sem contarmos nossa história para nós mesmos, inexiste vida. A vida para nós é o ato de contar a vida.
    A nova espécie sente. Viver é sentir a vida. Momento por momento, um de cada vez e todos ao mesmo tempo. O antes morreu, o depois nunca nasce. Já.
    Espero pela minha paulada.