SUMARÉ, SÊNECA E VOLTAIRE

   Do meu bairro eu podia ver os altos do Sumaré. A antena da Tupi ( ou seria da Cultura? ) que mandava para minha casa a misteriosa imagem da TV. Eu achava que dentro do aparelho moravam pequenos homens, e que nas válvulas se condensava o cenário. Era maravilhoso ver o técnico arrumar a televisão.
   Às vezes eu ia ao Sumaré. Velhinhas cruzavam a rua. Nas janelas de suas casas, velhinhas olhavam a rua. E fazia sempre frio. Vento. Garoa. A gente ia na igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde fui batizado. Sim, fui batizado e ainda acho, institivamente, um absurdo uma criança civilizada não ser batizada. Batismo é entrar na civilidade. Na Minha civilização.
   O bairro continua a ser um conjunto de ladeiras. E a ter suas pequenas velhinhas cruzando a rua. O ar tem muito de folhas verdes e de sombra. E há um silêncio que traz calma e também memória. Ao contrário do Morumbi que morreu ou do Itaim que se travestiu, o Sumaré continua vivo. Vento no alto do morro e a vista da cidade longe.
   Andando sinto a mão de minha mãe pegar a minha enquanto atravesso a rua. E a de meu pai me dando saudade. Eu briguei muito com ele. Eu briguei muito com todos aqueles que amei. Ainda brigarei mais. Fotografo as velhas casas. Eu ligo pra elas. Elas estão aqui pra vida.
   Sêneca disse que a vida não tem valor. Que a vida é um caminho sem valor em si. Que ao viver criamos seu valor, bom ou ruim. E que a vida só vale se for plena. Ela dura aquilo que vivemos. Viver não é uma benção e não é uma maldição. Depende. Certos bairros são vivos por terem duração. São diferentes e históricos. Existem como testemunhos. Para mim.
   Sêneca é um dos mais claros espíritos que o mundo viu. E eu continuo a andar. Uma feira. O cheiro dos legumes e das frutas. Cachorros me cheiram. Eles sempre sabem que sou um deles. Uma escola. Vozes de adolescentes. Eu sei que ainda serei sempre um deles. Como eles me percebem?
   A sombra some e eu sinto uma nova verdade. Sumaré ainda está aqui. Bom de andar. bom de tomar café e bom de olhar. Detalhes em detalhes: uma rachadura, uma flor, um enfeite no jardim. Casas com jardim. Um absurdo uma casa sem jardim. Casa sem jardim não é casa. Civilidade necessita de jardim. Como falava Voltaire, cultivemos nosso jardim.
   Estou cansado do romantismo. Chega de originalidades! Chega de novidades! Quero o bem feito, o hábil, o saber fazer. O prazer daquilo que é bonito. Chega de romantismos!
   Clássico Sumaré. Sem grandes emoções. Correto.
   Uma velhinha cruza a rua.

SOPHIA LOREN/ BILL MURRAY/ DASSIN/ BORZAGE/ ZINNEMANN/ HENRY KING

   UM FIM DE SEMANA NO HYDE PARK de Roger Michell com Bill Murray, Laura Linney, Samuel West e Olivia Colman
Que filme esquisito!!! Fala de um final de semana em que o rei da Inglaterra vem aos EUA com a rainha a fim de visitar o presidente Roosevelt. O rei deseja convencer os EUA a entrar na guerra. Adendo histórico: até então a politica americana era toda isolacionista. O país pouco ligava para a Europa. É aqui que o mundo muda e a América passa a se envolver com o planeta. O encontro é cômico. Roosevelt os recebe na casa de sua mãe, no campo. A realeza é abrigada em quarto comum e vão a pic nic. Esperteza de Roosevelt, assim a opinião pública americana, que odiava reis e Europeus, passa a ver o rei como "gente". O filme é esquisito por ser um  misto de drama e comédia, poesia e arte. É bonito de ver e tem ótimas atuações. Murray tem aqui seu melhor papel. Faz um presidente humano, simpático e mulherengo. Ele mantém um harém ao seu redor. O ator Samuel West faz o mesmo rei que Firth fez no ótimo Discurso do Rei. West está excelente. Hesitante, assustado, reprimido. Uma das amantes de Roosevelt morreu aos 100 anos e foi só então que encontraram esta história com ela. O filme é contado por seu ponto de vista. Aviso que ele começa meio chato e de repente te pega. Nota 6.
   O ÍDOLO DE CRISTAL de Henry King com Gregory Peck e Deborah Kerr
Uma chatice sobre Scott Fitzgerald e sua namorada Sheila Graham. Peck, que não está mal, bebe e bebe e bebe. Kerr é a amante que tenta o salvar. O filme é flácido, embolado, tolo. Nota 1.
   O CASTELO SINISTRO de George Marshall com Bob Hope e Paulette Goddard
Sátira aos filmes de horror. Tem um belo clima e é agradável. O humor de Hope envelheceu mal, o filme é alegre mas não nos faz rir. Dá pra ver. Nota 5.
   UMA AVENTURA EM PARIS de Jules Dassin com Joan Crawford, John Wayne e Philip Dorn
Assisti a caixa com seis filmes sobre a segunda-guerra. Dois deles são tão ruins que não consegui ver. Portanto não falo deles aqui. Este é bom. Mostra a Paris ocupada. Wayne é um piloto que tenta sair da cidade. Crawford ama um 'traidor". Dassin se tornaria depois um diretor maravilhoso. Aqui ele entrega um filme que se deixa ver. Há um belo suspense ao final. Nota 6.
   TEMPESTADES D'ALMA de Frank Borzage com James Stewart e Margaret Sullavan
Este é quase uma obra-prima. Na Alemanha, no começo do nazismo, vemos uma familia ser destruída. Filhos se tornam nazistas, crêem em Hitler e passam a perseguir amigos e vizinhos. Há um pai que é expulso da faculdade onde dava aula e acaba morto em campo de concentração. Stewart, sempre ótimo, é um vizinho que foge do país. Ele volta para salvar sua namorada. O final é bem triste. É um lindo filme. Borzage foi um dos grandes diretores do começo do cinema falado e do fim do silencioso. Nota 8.
   HORAS DE TORMENTA de Herman Shumlin com Bette Davis e Paul Lukas
Roteiro de Dashiell Hammet baseado em peça de Lillian Hellman. Paul Lukas ganhou um absurdo Oscar de melhor ator, batendo Bogey em Casablanca. O filme se passa na América e fala de refugiados. Lukas é um guerrilheiro anti-fascismo que é chantageado por canalha. O filme tem cena forte em que o canalha é morto a sangue-frio. Mas está longe de ser um grande filme. Nota 5.
   A SÉTIMA CRUZ de Fred Zinnemann com Spencer Tracy
Zinnemann sabia do que falava. Ele acabara de fugir do nazismo quando fez este filme. O futuro de Fred seria brilahnte: Julia, Um Passo Para a Eternidade, Matar ou Morrer... Tracy foge de campo de concentração com companheiros e tenta sobreviver. Todos são pegos e executados, ele não. Um achado do filme é mostrar sua reumanização. Algumas pessoas lhe ajudam e ele vai recuperando a fé nos homens. É um belo filme. Nota 6.
   A CIDADE DOS DESILUDIDOS de Vincente Minelli com Kirk Douglas, Edward G.Robinson, Cyd Charisse e Dahlia Lavi
Kirk é um ex-astro que está em clínica psiquiátrica. Tem alta e volta a ativa, Vai a Roma fazer filme com diretor americano decadente. O filme é tétrico. Todos são fracassados, destrutivos, amargos e vazios. Minelli via que seu tempo passara e faz um tipo de auto-retrato cruel. Estranho porque ele sempre foi um diretor amado pelo sistema que ele cospe em cima. Nota 3.
   JOÃO E MARIA CAÇADORES DE VAMPIROS de Tommy Wirkola com Jeremy Renner
Já esqueci deste filme. É um samba do crioulo doido. Se passa na idade média mas tem metralhadoras e roupas à Matrix. Eles NÂO caçam vampiros, são bruxas! Nota 2.
   SUAVE É A NOITE de Henry King com Jennifer Jones, Jason Robards e Joan Fontaine
Henry King novamente no mundo de Fitzgerald. É o último trabalho deste grande diretor. Robards faz o Dr. Diver que se destrói ao salvar Nicole da loucura. O filme se passa entre os muito ricos, hedonistas, futeis. A tragédia de Diver é lutar contra esse mundo, não aceitar o dinherio de sua esposa muito rica. O filme passa longe do romantismo de Scott, mas tem alguns momentos belos, fortes. Bons atores. Nota 7.
   PENA QUE SEJA UMA CANALHA de Alessandro Blasetti com Sophia Loren, Marcello Mastroianni e Vittorio de Sica
Marcello é um taxista. Sophia uma ladra e Vittorio o pai que rouba malas na estação de trens. Apesar de ser sempre feito de trouxa por Sophia, Marcello não consegue a odiar e cai irremediávelmente em suas artimanhas, sempre. O filme é alegre, leve, bom de ver. Atinge magnificência no trabalho dos atores. Sophia, muito jovem, está linda e atua de modo tão fácil, tão prazeroso que faz com que sua arte pareça a coisa mais simples do mundo. O esforço é o que diferencia o talento do gênio. O talento demonstra esforço, o gênio faz o grande com facilidade, como a brincar. Sophia é genial. Assim como Marcello. Que estupendo bobo é esse taxista! Ele passa todo o filme resmungando contra Sophia, tentando se livrar dela, mas sempre volta, vencido, ingenuo, absurdo. Amamos Mastroianni. E há De Sica, o malandro veterano, playboy, fino e mentiroso. O filme mostra uma Itália onde todos são ladrões e todos são feitos de bobos por uma bela mulher. Verdade? Nota 7.

GOETHE, SUA CONCLUSÃO

   Goethe viveu muito. E se hoje ele está fora de moda é porque nós estamos longe e muito longe de seu mundo grande. Ele foi o último a naturalmente unir arte e ciência, mito e razão, romance e filosofia. Se interessou por tudo, foi clássico e foi romântico. Do teatro a botãnica, da física a magia, de poesia a história. E acima de tudo, si-mesmo. Um egoísta que usou amores e amigos em função de sua arte.
   E no fim da vida, aos 83 anos, eis a brilhante conclusão de Goethe...
   O Mundo é a ação permanente do Deus-natureza.
   De dissolver em espírito a matéria
   E conservar para sempre, como se fosse matéria
   Os produtos do espírito.
  
   Todos somos carne, mas nem todos produzem espírito.

O ILUMINISMO E A REVOLUÇÃO POR CARPEAUX, AFINAL QUAL É A TUA?

   Um dos mistérios benditos do mundo: Porque o homem não consegue, não pode se acomodar? Uma pessoa tem de ser muito imbecil para gastar toda a vida numa fé estática. Sim, esse é o credo do romantismo, do pré-romantismo ( que nada tem de romantico ) e do iluminismo também. São 3 modos de pensar que se negam, se chocam, mas que, como bem o prova Carpeaux, se complementam. Não haveria um sem a existencia do outro.
  O iluminismo é racional. Portanto ele escreve em regras bem claras e definidas. O texto é limpo, nada de emoção desregrada. O bom gosto manda. É aristocrático, dirigido a nobres. Contradição: Nunca é conservador, é revolucionário, porém se expressa em formas rígidas e antigas. No iluminismo, que é o classicismo, não se pensa em gênio, em inspiração ou em originalidade, se pensa em termos de clareza, elegãncia e saber fazer. Aqui é preciso cultura.
  Tudo muda no universo do pré-romantismo. Surge a ideia do gênio, da súbita inspiração. Para isso não é mais necessário ter um saber, é preciso ser um escolhido, um gênio. A obra deve ser original, emocional, imperfeita, diferente, única. Estranho, são obras esquisitas feitas com fins conservadores. Tudo aqui é passado, criação de mitos, convulsões íntimas, isolamento.
   Otto Maria Carpeaux demonstra, neste que é seu melhor livro da série, todos os fatos históricos que contribuíram para essa mudança. Um ato como o de Richardson, que esnobou o apoio de um mecenas nobre para poder escrever para as massas, mostra essa mudança com clareza. As novas religiões influenciando a formação de países ( a Alemanha luterana, país onde na vida politica tudo é regra e ordem e na vida cultural tudo é liberdade e criação ), a calma e prática Inglaterra, com a religião anglicana ditando um modo de ser em que tudo se arranja sem grandes traumas, e a França calvinista, com a dúvida fazendo parte da própria fé. Sobre todas essas forças inconscientes, a nova burguesia, com seu desprezo a escritores e religiosos, poetas e andarilhos, gente que não produz coisas que se vendem, pior que isso, gente que não os respeita. Desde então ( 1750/ 1800 ) se institui essa briga entre o mundo burguês, materialista, produtivo, trabalhador, e o mundo aristocrático da arte, imaterial, não produtivo, atemporal. Essa briga, que nasce aqui vive até o modernismo ( 1920 ), hoje se percebe que a arte de certo modo capitulou.
   Otto relembra o fato de que até o iluminismo cientistas eram artistas. Galileu ou Bacon eram grandes escritores, e ao se fazer uma máquina de fábrica ou uma usina se pensava em beleza e harmonia.  A máquina tinha enfeites, arabescos, beleza "inutil". É aqui que se dá a separação entre arte e ciência, o homem de ciência pouco se preocupando com a escrita ou com o belo. As fábricas se tornam galpões horrendos, as mãquinas mecanismos monstruosos. O pré-romantismo se ergue contra isso, dái seu passadismo, sua saudade.
   Shakespeare como o conhecemos nasce aqui. Ele é traduzido para todas as linguas e se torna o Gênio, o mito a ser seguido, o homem sem regras, sem freios, sem grande cultura que criou magia a partir do nada, o homem que foi pura inspiração. Um mito claro, mas o romantismo ama os mitos, crê neles e jamais no óbvio. O óbvio não é arte, não é vida e nunca será novo.
   Carpeux desenterra nomes meio esquecidos: Shaftesbury, Galiani, Vauvenargues. Todos grandes otimistas que acreditaram na nobreza do homem, na contínua evolução do mundo, não pela ciência e técnica, mas sim por ações baseadas em bondade e coragem. Esses nomes, melancólicos ativos, tristes otimistas, tiveram uma influência continental em seu tempo, foram centro de debates, mudaram a vida.
   É claro que Otto fala de Rousseau, de Voltaire, Jane Austen, Schiller, Sterne, Fielding, Defoe, Goethe, Vico, Choderlos de Laclos, nomes centrais, conhecidos até este século, reeditados ao infinito. Mas é nos pequenos casos, nos nomes outrora grandes e agora esquecidos que reside a magia deste belo livro.
   E fica uma lição: A arte só voltará a ser protagonista quando ela voltar a ser 100% arte. Quando ela deixar de cortejar a ciência e o trabalho e retornar a sua condição de aristocrata, de vagabunda, de religião sem igreja e principalmente de cultora do belo e do inutil.  Enquanto não renascer essa coragem, que ridiculo, continuaremos a a ver essa arte que cultua o útil, o esforço e o ser como todos são.

SUAVE É A NOITE- F.SCOTT FITZGERALD, A MELANCOLIA DA JUVENTUDE

   Assisti ontem pela primeira vez o filme de Henry King baseado no livro de Scott Fitzgerald e fico pasmo. O filme erra todo o tempo, é Fox de cabo a rabo, último filme da longa carreira de King que já estava cansado. Mas o livro é tão bom que mesmo assim o filme tem sublimes qualidades. Uma melancolia ácida na história do psiquiatra que se apaixona por sua paciente milionária e tem sua vida destruída por ela. Os dois se amam sempre, mas são infelizes all the time.
   Li o livro a mais de vinte anos e nunca o esqueci. É melhor que Gatsby. Nicole fez com que me apaixonasse por ela. E o Dr. Diver nos cativa. Fitzgerald perseguiu ávidamente a genialidade. Sua meta era o sublime e na verdade ele jamais o tocou. Ele tinha uma ambição maior que seu talento e essa é a maior maldição que um escritor de talento pode sofrer. Ele se media com Tolstoi e Stendhal, mas seu dom, grande e belo, era da altura de Huxley ou de Hesse. Grande, nunca genial. Isso fez com que Scott desenvolvesse uma melancolia persistente, derrotismo suave, uma doce dor de ser jovem e já desencantado. A América amou e ama essa imagem. O jovem rico e belo que se perde.
   Era um romântico sem fé e um idealista sem coragem. E escrevia bem. Muito bem. Todas as primeiras cem páginas de Suave é a Noite são brilhantes. Ele nos faz sentir tudo aquilo que ele sente diante de suas criações. Que não são tão "criadas" assim. Não é preciso dizer que temos aqui a reescrita de sua história com Zelda. Se há hoje um culto a memória de sua esposa louca, injustificado, isso se deve a habilidade que Scott teve em fazer dela um personagem irresistível. Algumas doidas dizem que ela tinha mais talento que o marido. Qual a prova?
   Fitzgerald teve um doloroso insight: Percebeu que a América amava sua juventude. Que seu mundo era apaixonado por beleza juvenil, festas, dinheiro e glamour. Mas que essa juventude seria sacrificada nos altares do paganismo moderno. Eles seriam o tributo pago aos deuses. E foram. Daí sua melancolia. Afinal, Heminguay se tornou um patético drunk, Wolfe morreu jovem e ele e Zelda sofreram em alcóol e clínicas caras. Todo o espetáculo dado por astros das telas e reis do rock, seus pesadelos via telas e rádios, foi pressentido por Scott. Carne jovem e bela no altar da América.
   O Dr. Diver caminha firme e decidido rumo a destruição. Fácilmente ele poderia mudar seu destino. Não muda. Alguma coisa quebra dentro dele, alguma coisa que na verdade sempre esteve para quebrar.
   O filme tem glamour, glamour quadrado que às vezes se solta e voa. O livro é maravilhoso. Vinte anos e zilhões de livros depois ainda não o esqueci. Fitzgerald...a vida é isso não é? Um momento de beleza e um infinito de dor e de lembranças...

BAUHAUS E SHOPPING CENTER

   No SESC Pinheiros tem exposição da BAUHAUS. Quando Gropius e seus amigos criaram a coisa no início do século XX tinham otimismo na alma e criação a espalhar pelo mundo. Uma usina de design, coisa hoje tão vulgarizada. Livraram as casas de paninhos, tapetões, veludos, mil cortinas, arabescos. Mataram o lar vitoriano, tipo de decoração que insiste em renascer. Erraram na sua fixação pelo concreto armado, mas seus tubos de aço, vidro, muito branco e espaços livres são must até hoje. E ainda agregarm em seu time Kadinsky, Klee e Mondrian, os mais elegantes artistas plásticos da época ( de todas as épocas? ).
   Indo a um Shopping após a exposição tive uma ideia.
   O homem tem uma ansiedade por beleza. Não cabe aqui dizer porque ( tenho uma tese ), mas ele, em toda a história, sempre esteve procurando viver, produzir, idealizar coisas belas. Coisas que lhe dessem a sensação de equilíbrio, harmonia e direção. Claro que não estou falando do sublime, passo seguinte a beleza, falo do belo cotidiano. Vejam, em nosso mundo o belo simples, livre, do dia a dia nos foi roubado. Essa beleza, consciente a todo homem, havia nas flores da primavera, nos pássaros, no sol se pondo, nos rios, nas colinas. Depois foi produzido em festas populares, nas catedrais, nos monumentos e nas praças das cidades. Dificil encontrar essa belezas em SP. Well.... Cruzo uma menina no Shopping e vejo seu olhar brilhar na vitrine de uma loja de sapatos. Beleza! O belo!!! Um relógio é belo. Assim como um paletó bem cortado, um sofá ou uma jóia. Um carro tem beleza. São nossos sóis se pondo.
   Encontrávamos essa beleza perdida também no cinema, mas ele se recusa a ser belo. Um filme bonito é o pior dos pecados para os inteligentinhos. Assim como não mais se pode fazer música meramente bela. A beleza fica reduzida a produtos, a objetos de desejo, a aço e plástico que brilha em harmonia, que parece calmo, correto e com sentido.
   Se a natureza foi exilada e as ruas nada mais têm de idilico, o que nos resta a apreciar são as vitrines que exibem a fina construção da beleza.

DONOVAN, A FLOWER IN THE GARDEN



leia e escreva já!

DONOVAN



leia e escreva já!

FERRAGUS- HONORÉ DE BALZAC

   Existem alguns autores, poucos, que são uma literatura completa. Desse modo, ler Tolstoi é como ler todo um capítulo, longo, da história do romance mundial. Se voce ler as quatro principais obras de Tolstoi e mais nada em toda a vida, voce poderá reinvidicar conhecimento em romance e em literatura mundial. Conhecer Tolstoi equivale a ler centenas de bons escritores. É assim com muitos poucos. Romancistas tão grandes, livros tão infinitos que os conhecer aumenta nossa alma, estica a nossa inteligência, dá sabedoria a nossa leitura. Depois deles voce lê melhor.
   Balzac é assim. Ler Balzac é ler toda uma literatura. Mais que isso, ele é inexplicável. Como podemos explicar um homem que escreveu sempre para tão apenas ganhar dinheiro, pagar suas contas, e que mesmo assim fez arte absoluta? Como desvendar um autor que escreveu como máquina, dezoito horas por dia durante dez anos, mais de 80 livros publicados, e que mesmo com essa produção industrial conseguiu ser único? Veja o caso de Ferragus...
   Publicado em capítulos, no jornal, virou febre em França, um tipo de novela das oito em papel. Balzac escrevia com essa intanção, a de vender, e conseguia sucesso. A história fala de ciúmes, de medo, de vingança e sempre de amor. Uma sociedade secreta, gente rica e gente pobre. Ladrões e nobres. E Paris. A cidade é o grande personagem. E como escreve Balzac!!!! Vielas e boulevares, casas sórdidas, palacetes, a lamacenta, fétida, imunda cidade. Putas, bêbados, loucos, devassos, jogadores. Becos para se perder, a cidade que Balzac odeia, e ama, e não se cansa de descrever. Gênios vivem lá e diabos.
   Balzac é diabólico! Me vejo doido para voltar pra casa e ler. Seus personagens nos capturam! Queremos ler sobre eles, conhecê-los cada vez mais. Flanar com eles. As páginas correm. Cores diante de nosso olham. Balzac pinta, faz música, narra e descreve. Seu estilo é a mescla de romance e realismo, de verdade e fantasia. Ele serve o prato completo. Domina sua arte, sabe tudo, sua escrita não tem limites.
   Que escritores passam essa impressão? O dom soberbo de tudo poder escrever, de poder criar milhares de personagens, todos individualizados, todos de verdade. O poder de dar cenário a cada página, de nos fazer ver, escutar e principalmente, querer prosseguir querendo mais e mais. Sensual Balzac, nos pega pelos sentidos.
   Eu admiro Henry James e amo Cervantes, mas Balzac me dá prazer, puro prazer, absoluto prazer. Eis um autor que pode te curar de uma ressaca de más leituras, de páginas mal escolhidas, de indicações da moda.
   Como ocorre com todo grande autor, Balzac é uma prova: Não gostar dele é revelar ao mundo e a si-mesmo a ignorância de um mal leitor.
   Devoro o gênio francês.

MASTROIANNI/ SOPHIA/ 1941/ JOSH BROLIN/ ANTHONY QUINN/ DEANNA DURBIN

   GI JOE, RETALIAÇÃO de Jon M Chu com Channing Tatum e Dwayne Johnson
A equipe é traída pelo governo. Aquelas coisas, voce disfarça a patriotada com alguns politicos "do mal". O enredo é primário, mas a ação é bem ok. Dá pra ver sem se irritar. Depois de dois minutos terminado voce não lembra de mais nada. Não é exatamente isso que o povo quer? Nota 3.
   O PREÇO DE UM COVARDE de Andrew V. McLaglen com James Stewart, Dean Martin, Raquel Welch e George Kennedy
Martin é um ladrão. Pego pelo xerife é salvo da forca pelo irmão, Stewart. O xerife, que é um puritano, os persegue pelo deserto. Os bandidos levam Welch com eles, como refém. Stewart e Martin formam um boa dupla. Um já velho e bom moço, o outro amargo e rebelde. Concordo com Tarantino, Dean Martin foi um ator subestimado. O filme é legal e de todos os westerns de McLaglen que vi, diretor que erra muito, é o melhor. Bela diversão! Nota 7.
   1941 de Steven Spielberg com Dan Akroyd, John Belushi, Toshiro Mifune
É o filme que quase destruiu a carreira de Spielberg. Caríssimo, foi um hiper fracasso de bilheteria e de crítica. É um comédia histérica e muito sem graça. O humor parece aquele de meninos de 11 anos. Mais que grosseiro, ele é bobo. Bons atores são desperdiçados e atores ruins ganham papéis grandes. Após os sucesso de Jaws e de Close Encounters, Spielberg se dava mal. ET seria sua salvação na sequência. Fuja!
   UM RAIO DE SOL de Henry Koster com Deanna Durbin, Charles Laughton e Robert Cummings
O maravilhoso ator inglês Charles Laughton faz um milionário que está morrendo. Seu filho apresenta uma desconhecida como sua noiva ( ele não encontra a noiva verdadeira que está fazendo compras ). O velho se apaixona pela falsa noiva. O filho precisa manter a farsa. Henry Koster, o diretor do sublime Harvey, faz aqui aquilo que fazia melhor, filmes para se sentir bem. Tudo é artificial, falso, ingênuo? Que bom! Porque não podemos crer em nossa própria ingenuidade? Durbin foi a atriz que salvou a Universal da falência nos anos 30. Aqui, adulta, ela exibe sua leveza etérea de sempre. O filme é uma delicia. Nota 7.
   A 25# HORA de Henri Verneuil com Anthony Quinn e Virna Lisi
Quinn faz mais uma vez Zorba. Impressionante! Não conheço caso de ator que ficou mais preso a um grande papel. Após 1964, quando fez Zorba, Quinn passou trinta anos fazendo variações sobre Zorba. Aqui ele é um romeno que na segunda guerra é confundido com um judeu. Vai preso. Depois o confundirão com várias "raças" até que ao final vai a julgamento como um nazista!!! O filme é tão improvável, tão absurdo que se torna até cômico. Uma bobagem gigantesca. Ah! No começo Quinn dança! Como Zorba, claro! Nota 4.
   SOLARIS de Andrei Tarkovski
Poucos filmes mexeram tanto comigo. Ele me deixou muito introspectivo, triste, me sentindo isolado. A verdade é que me identifiquei com o personagem central. O filme fala das coisas que mais me absorvem: tempo, memória, amor e imaginação. É um filme chato, preciso dizer isso. Mas que consegue nos dar alguns momentos de beleza sublime. Romântico então, verdadeiramente romântico. Nota 9.
   CAÇA AOS GANGSTERS de Ruben Fleischer com Josh Brolin, Ryan Gosling, Sean Penn e Nick Nolte
Pessoas que nada entendem de filmes falaram que este era um film noir. Onde? É um filme de gangster! O filme noir tem um homem sózinho, confuso, tentando desvendar um mistério. O filme de gangster, que foi criado em 1930 com Scarface e Public Enemy, fala de grupo de tiras lutando contra uma organização criminosa. É este o caso. E devo falar que é um bom filme. O roteiro é bastante fraco mas ele é salvo pela direção cheia de ritmo e sem frescuras de Ruben. Josh Brolin é perfeito. Tem voz e rosto de homem, passa a sensação de verdade. Já Ryan está no filme errado. Parece um menino vestido com o terno do pai e fumando escondido. Sean Penn imita De Niro em seus piores dias. Parece Dustin Hoffman em Dick Tracy. Mesmo assim este filme, de visual lindo, diverte e nunca cansa. Um adendo: Que época é esta em que vivemos? Cenas de violência são mostradas em detalhes pornô e cenas de sexo são feitas com lingerie e puritanismo. Why? Porque sexo só pode existir em filme "doentio"? Sempre vindo em embalagem de mal, de distúrbio e de doença? Porque seios, bundas e pênis nunca surgem em filmes alegres, leves e pop? Mas corpos dilacerados e sangue jorrando podem? Welll....Dito isto, este filme vale um 6.
   UM DIA MUITO ESPECIAL de Ettore Scola com Sophia Loren e Marcello Mastroianni
Quase um milagre. Scola consegue fazer um filme tristíssimo que não entristece. Um filme hiper dificil que nunca aborrece. Um filme tipo teatro que não parece sufocar. Ele se passa em dois apartamentos e a trilha sonora é feita pelos sons do dia em que Hitler veio visitar a Itália de Mussolini. Sophia é mãe de filhos fascistas e tem um marido do partido. Marcello é um homossexual que foi expulso do trabalho por não ser " marido, pai e soldado". Os dois se conhecem e uma mudança acontece nela. Ou não? Scola dirige com uma delicadeza exuberante. Toda cena é suave, dolorida, desbotada. Nos assustamos com um fato: Como pode aquilo ocorrer? Todos, alegremente fascistas, comentando a beleza de Hitler, a sabedoria do Duce. Bem, falo agora dos dois atores. Sophia é uma grande atriz. Nas cenas finais ela comove em sua derrota. Ela está vencida, presa, humilhada. Mas é Marcello que atinge o sublime. Nunca assisti um retrato tão perfeito de um homossexual. Em cada movimento de suas mãos, de seus olhos, percebemos sua homossexualidade, sem caricatura, sem exagero, sem nada de ofensivo, natural. Quanta melancolia naquele homem, quanta raiva muda. Lembro que em 1977 ele concorreu ao Oscar e o perdeu para Richard Dreyfuss em The Goodbye Girl. Dreyfuss estava ótimo, mas isso aqui é histórico! Um belo filme. Nota 8.

CONFISSÕES- W. SOMERSET MAUGHAM

   Memórias do famoso autor inglês escritas quando ele tinha sessenta anos. Ainda viveria mais vinte, vindo a morrer em 1965. Não espere encontrar a intimidade do autor aqui. Ele quase nada fala de sua vida física. Estas memórias são espirituais, estando assim próximas daquilo que Montaigne e Rousseau escreveram. Maugham fala de seus livros e de suas peças. Dá muitos conselhos e percebemos o ressentimento que ele tem em relação a crítica. Crítica que jamais lhe deu o valor devido.
   Maugham foi um autor de imenso sucesso popular. Seus livros e suas peças fizeram dele um homem rico. E muitas obras ainda se tornaram filmes bem sucedidos. Nascido inglês, ele passou seus primeiros sete anos na França, seu pai era do corpo diplomático. Quando seus pais morreram foi para a Inglaterra, onde foi educado por um tio, severo, frio e religioso. Maugham jamais se sentiu confortável em seu país. Suas influências são francesas, Maupassant e Flaubert, e seus favoritos também, Stendhal e Balzac. Já adulto, ele irá estudar na Alemanha e sua vida será feita de viagens. Os Mares do Sul foram sua viagem mais importante.
   Algumas estocadas que ele dá em ingleses são certeiras. O fato de que eles pouco se interessam por sexo e que têm relações sentimentais e nunca apaixonadas. Ingleses gostam de lembrar de seu canto, gostam de manter uma quente amizade, mas são incapazes de arroubos românticos. Sexo é uma desagradável obrigação. São comerciantes, povo feito para o ganho monetário, sem a poesia de alemães e o dom hedonista dos latinos. Se isso é verdade ou puro ressentimento não cabe a mim dizer, o que posso falar é que sua literatura é realmente marcada pelo "bom-tom" e uma falta de sexualidade vibrante. Falam de bons e velhos tempos, do campo e da escola, de amor espiritual, mas raramente contam abertamente casos de pura luxúria ou de tara. Mesmo nos liberais anos de 1970, suas descrições "apimentadas" sempre soam falsas ou pior, violentamente culpadas. É uma literatura insuperável na arte de descrever a natureza, de contar a infância, de lidar com aventura, mas não consegue ser filosófica ou carnal.
   O melhor de Maugham são suas descrições de suas leituras de adolescência. A aventura de um novo livro, a emoção inesquecível. São páginas em que me vi. Mas devo dizer que não é um grande livro. Maugham enrola, estica, pula, edita, acaba por fugir.
   Um tímido. Ele fala que gosta de estar só, apenas a observar a vida. Pena que aqui ele apenas flutuou pelos temas, sem os tocar e arranhar.
   

ABAIXO O MUNDO REAL, LUCIA GUIMARÃES, ONTEM NO ESTADÃO

   Ela escreveu um texto que saiu ontem no Estado. Assustador. Descreve uma propaganda do Facebook. Uma reunião de familia em que uma Parente, Velha, Gorda e Feia fala sem parar. Enquanto isso uma Adolescente, Magra e Bonita, em seu Face, dá as costas a velha e a ignora com solos de bateria, guerra de bolas de neve, imagens na tela do PC que são MAIS REAIS QUE A REALIDADE.
   A mensagem que Lucia Guimarães percebe: Celebremos a autoabsorção no eu. O desprezo pela refeição comunal, o desprezo pelos feios, o desprezo pela realidade, o mundo belo e sem perigo da virtualidade. O veredito foi dado: O mundo é feio, velho e deprimente. Voce só pode ser feliz no Face. Lucia recorda a missão oficial que o hiper-fascista Zuckerberger ( hiper-ressentido com a natureza, diria eu ) advogou em seus começos: Dar poder as pessoas para tornar o mundo mais aberto e conectado. Hahahahahaha! Lucia fala que nesse mundo feliz do Face conversar com alguém que está a sua frente é pura perda de tempo. Cool é desprezar o que não é cool. É um tipo de escapismo não-romântico, sem risco, sem o sublime, previsível e controlado. A solidão, estado em que podemos criar e refletir, fica abolida. Lucia descreve estudantes do campus onde o terrorista de Boston estudava. Esses estudantes, ANTES de pensar em entregar o assassino, apagaram todas as pistas virtuais dos PCs do rapaz. O mundo real NÃO podia entrar naquele mundo virtual do campus, então, antes da policia, apaga-se tudo. Salva-se o cool perfeito do feio e imperfeito.
   Notei isso já em 2007. O mundo atual favorece a divisão dos homens em guetos isolados e estáticos. Explico. No mundo do rádio e da TV sem cabo, do jornal impresso e da revista volumosa, voce era exposto a vários mundos que não eram o "seu". Assim, eu era exposto a samba e funk para poder ouvir rock. E acabava por conhecer e ocasionalmente apreciar samba e funk. Antes de ver o filme de Fellini na Globo às 23 hs, assistia As Panteras e Chico City. Meu poder de edição da vida era mínimo. Na escola eu não podia escapar numa tela do meu colega chato ao lado ou da gordinha nerd atrás de mim. Isso tudo era bom? A pergunta não é essa. A pergunta é: O que esse mundo não virtual me trouxe? Conhecimento.
   Tenho amigos hoje que podem passar toda a vida ouvindo apenas as mesmas músicas, vendo os mesmos filmes e vivendo em um mundo onde só vivem pessoas da mesma turma. Conectados, TODOS gostam das mesmas coisas, consomem os mesmos produtos. E ilhados, longe de gostos e modos de ser diversos, crêem burramente que eles são ALTERNATIVOS, afinal, são DIFERENTES. Diferentes do que?
   Na tela voce protesta contra o desemprego. E gente cool como voce vai a rua fazer um lance cool onde voce diz o que não quer, mas não consegue formular o que deseja. Na verdade o que os cool da Espanha e da Grécia querem é poder ficar no Face sem se preocupar com a vida real.  Grana para poder viver para sempre entre gente cool em lugares cool. Não importa como esse dinheiro venha.
   Vejo em filmes italianos de 1950 o quanto os avôs dessa geração lutaram. Filas para comida, barracos e curtiços, improviso dia a dia, solidariedade entre vizinhos, espirito de grupo. Seus netos e bisnetos são mimados. Babys de fraldas em forma de bermudas pinky. O desejo deles chega só até a tela de seu brinquedo, o espaço de seu berço tem forma de apê e as brincadeirinhas infantis travestidas de sexo sem consequência. Seu mundo TEM DE SER de bebês para bebês. Daí o horror ao velho ( velhos livros, velhos filmes e velhos cool ), ao não-controle e a solidão. Bebês precisam de babás 24 hs ao dia.
   Mas o pior é: QUEM CONTROLAR, OU AO MENOS ENTENDER O MUNDO LÁ FORA, dominará com facilidade essa turminha cool. Fácil assim.
   Platão again. A teen toda cool está na caverna entretida com suas sombras. Lá fora tem o mundo de verdade. Quem diria....Platão escreveu sobre o futuro.

NUMA MESA DE BAR ( MULHERES, BACH E O BLUES )

   Uma conversa com um amigo à mesa de um bar na noite de um domingo terrível em seu tédio soberano. Então tudo aqui escrito pode ser caótico, ou não, porque um dos meus defeitos mais chatos é a falta de desarrumação.
   Mulheres, claro. Meu amigo teve mais um relacionamento errado. Pelo menos ele tem relacionamentos. São mais que contatos futeis, regra de hoje entre adultos. Pobres mulheres! Na ditadura de SEX AND THE CITY em que elas vivem, quem ganha somos nós que agora temos mulheres livres. Não precisam de nossa ajuda e de nossa proteção. E elas têm de levar os filhos a escola, fazer ginástica, trabalhar, ficar bonitas e ainda ir às baladas da noite. Têm de ser mães, trabalhadoras, sexys e livres. E elegantes sempre. Coitadas...Nós apenas aplaudimos. E sentimos falta de uma mulher mais lenta e relaxada, que não imite Sarah Jessica Parker. Menos piadinhas e mais bom humor, please!
   Não sou comuna. Aliás acho comunas ingênuos. Tão ingênuos como coroinhas de igreja. Mas devo dizer que o capitalismo conseguiu atingir seu mundo perfeito. Pense e veja... Existem séries de TV que têm como atração o trabalho. Sim! Voce fica em casa, após trabalhar todo o dia, vendo gente na TV trabalhando!!! Não é incrivel??? Voce assiste um funileiro consertar um carro, um cozinheiro fazer um banquete para 500 pessoas. Voce assiste um bombeiro em seu cotidiano de work, voce vê uma corretora vender casas e um maquiador maquiar. É o sonho do hiper-capitalismo, transformar o trabalho em show, em desejo, em espetáculo. E tome médicos operando, advogados advogando e vendedores vendendo. Falo que isso é absurdo, muito absurdo. Imaginem numa mesa de bar quatro  amigos conversando: "Cara, quero ser um funileiro e usar minha serra e serrar muito!", "Eu quero pegar meu carro e vender casas! Muitas casas! Yeah!"  Na TV são workers bonitões, glamurosos...Bláh!  Vamos falar a real: Cara, trabalho é uma merda! A gente trabalha porque é obrigado, porra! Não vem o bacana da NBC ou da CBS me dizer que a vida de um peão é excitante. Bullshit!!!
   Meu amigo e eu andamos meio downs. A gente conhece isso: Blues. A verdade é que ninguém ouve blues por anos e passa impune por isso. Voce fica sabendo as coisas.
   A vida é toda imperfeição. O amor é sempre torto. Não adianta negar, amamos aquilo que não temos. Se voce percebe que aquilo é 100% seu, bem, já era, voce perde o tesão. Se voce começa a babar por uma mulher e a ligar pra ela toda hora, logo voce vai ver o que te acontece. Parece bobo falar isso, mas é o que é.
   Mães amam seus filhos porque sabem que vão perdê-los um dia.
   A arte é perfeita. O mundo da arte e do pensamento é perfeito. E mentiroso. Eu passei anos atrás do amor que existia na arte, atrás do sentido que há na filosofia, atrás da beleza que há na pintura e da harmonia que vive na música. NECAS! Isso não existe. Platão estava certo. A vida é sombra. As ideias são a perfeição. A matemática é perfeita. O mundo não é matemático.
  Meu amigo, lembro que voce ouvia Bach e vivia em paz maior. Tá na hora de voltar a Bach.