AGORA ME DESCOBRI

Convoco voces para que saibam: Agora sou máquina. E como tal devo funcionar. Meus ossos serão lubrificados e minha pele será flexível. Funcionarei para fazer com que o Funcionamento das Funções do grande Organismo Mundial continue a Funcionar.
Meus pensamentos existem para alcançar um objetivo: Funcionamento. E quando eles se desviam, bem, cabe a mim-mesmo rearranjar meu equilíbrio químico para que tudo volte a sua clara e eficiente Função. O Pensar é uma troca de fluidos entre células e ele existe para dar uma direção ao corpo. Fora disso, tudo é Disfunção.
Descobri que houve um dia a Máquina Primeira. Uma partícula mecãnica que começou a funcionar e explodiu em energia. E que a maquinária daí advinda deu em mim-mesmo. Descobri que a Terra funciona! Correntes mecãnicas e fluidos quimicos que se adaptam ao lugar onde caem. Evoluem com a Sabedoria Funcional da Mecânica!  Tudo com a finalidade de funcionar, pois o que é a vida? Uma Energia mecãnica que Deve produzir mais vida.
Deus e Arte são falhas do sistema. Paramos às vezes para pensar em nossa finitude. E temos medo. Sim, Eis a maior das falhas em nosso sistema: Somos uma Máquina que Teme seu fim. O Temor é Tamanho que inventamos diversões. Nos distraimos enquanto funcionamos. Até pensamos que aquilo que vemos não seja a Verdade. A Verdade é nossa ação no Aqui e no Agora. A Verdade é nosso Trabalho. Eu Irei Partir, mas o Trabalho é Infinito.
Morrerei como uma máquina que sou. Enferrujarei e me tornarei esterco. Talvez um dia isso termine e consigam criar a Super-Máquina invencível. Mas até lá meu velho Modelo Anos 60 será destruído e substituído por novos modelos 2000 e alguma coisa.
Nosso comando descobriu que funcionamos melhor com música. A Música é um ritmo que faz com que nossos mecanismos funcionem mais harmoniosamente. E o Cinema é uma boa forma de se descansar de um dia de Funcionamento. Algumas dessas artes até fazem com que nossos fluidos neuroniais funcionem melhor.
O Sexo é uma forma funcional de se produzir novos modelos. É uma de nossas utilidades.
Animais são máquinas que têm um software mais antiquado. Serão inutilizados um dia. Não ha´razão nenhuma para a existência de um Tigre. Qual sua função?
Igrejas são ok. As mesmas máquinas que precisam de poesia, ou seja, Aquelas que apresentam falhas de funcionamento, precisam de Igrejas. Desde que sejam Igrejas úteis. Que façam a Máquina se Readaptar a sua Função. Assim como as Poesias sejam canções que elevem a maquinaria e as levem a sua função.
Ah! Maravilhoso Mundo Admirável ! Maquinário Concantenado! Graxas e Fluidos que me fazem Brilhar!
Máquina que Escreve e Funciona como aglutinador de Ideias. Ideias que são restos da Quimica que trabalha no Cérebro.
Agora sou Essa Máquina.

O PRIMEIRO LIVRO, A ILHA DO TESOURO, STEVENSON

Era uma coisa muito estranha... Ao passar meus olhos pelas linhas impressas na página branca eu via um garoto, via uma barrica de maçãs, via um navio de piratas. E de visão em visão acontecia aquilo que eu pensava ser impossível, lia as quase 200 páginas que me pareciam antes uma eternidade, e que agora eram como que uma viagem. De visões. Um milagre naquele ano ( mais um ), eu podia viajar no tempo, estava na Inglaterra de 17...
   Sim, foi meu primeiro livro. Eu sei, antes houve Renard, A Velha Raposa; mas esse eu não li de verdade, esse eu desvendei como um brinquedo. Porém este, A ILHA DO TESOURO, de Stevenson, esse foi tocado desde o inicio como um livro. A relação que tive/tenho com ele espelha a relação que tive/tenho com todos os livros. A possibilidade de uma passagem.
   Meu pai comprou pra mim. Anunciava na TV. Uma coleção da Abril, Clássicos Juvenis. Vinha embalado em plástico e a capa era uma beleza. Dura, mostrava um pirata subindo num navio. O mar escuro, o céu ameaçador. Um lampião nas mãos do pirata, o rosto era o de um assassino sujo. Era 1971, e em meio a meus amores, pela professora, pelos Monkees, pelos Hardy Boys e pelos desenhos do Pernalonga, mais um nascia, o amor pelas coisas que nos fazem voar. Principalmente as que vinham embaladas em forma de livro, com cheiro de papel e letras bem impressas.
   Eu tinha apenas 7 anos e a leitura foi lenta. Eu lia em voz alta, para meu irmão, que tinha 4 anos. Lia de manhã na cozinha, lia no quintal, debaixo do mamoeiro, debaixo da videira, junto ao poço. Lia no frescor do porão, lia na sala cheia de sol. Era um esforço, eu cansava, mas era um prazer, eu achava alguma coisa. Tinha nas mãos, só pra mim, um mundo paralelo.
   Jim era o menino. E quem me conhece perceberá o quanto meu gosto estético foi ditado por esse primeiro livro. A chuva de noite, a hospedaria. O mapa do tesouro, a morte. A viagem pelo mar e os tipos suspeitos. A fuga rumo à Ilha e a luta. O encontro do baú. Milhares de imagens que vão da velha Inglaterra suja e fria à ilha tropical e misteriosa. Os personagens, um velho doido perdido na ilha, o cozinheiro bandido, Black Dog.
   Hoje ele continua aqui comigo. O mesmo livro, agora com 41 anos de idade. Criou manchas amarelas, a lombada está cheia de pó. O tempo o marcou, da mesma forma que me marcou. Robert Louis Stevenson foi então o primeiro autor que li. E quinze dias depois veio o primeiro autor que chamei de "meu autor", TOM SAWYER, de Mark Twain. Mas essa é outra história...

É PRECISO APRENDER A VER?

    Crianças sabem ver. Olham.
   O vidro gordo de Toddy. A cor marrom e a tampa de lata. O rótulo com a cara de um menino que ri. As letras que dão voltas e curvas. A redondez da embalagem pesada.
   O tom de azul de uma ilustração do Peter Pan. Um azul profundo dos céus noturnos de uma Londres que nunca existiu. O azul mais profundo e salpicado de luzes brancas e de pontos dourados. O azul infinito, o mais lindo tom da mais linda noite. Cor que se esparrama das folhas de papel perfumadas de novidade para minhas mãos.
   O formato das bolachas doces em forma de bichos. O desenho sinuoso da girafa e a forma compacta do rinoceronte. O leão que parece rugir e a hiena que é feia. A cor sem graça das bolachas e a dureza da forma simples. Algumas são mais escuras, e essas são as melhores.
   Melhor que ver as imagens na tela de TV é ver o belo móvel de madeira amarela. As pernas longas e finas, pretas, com pés dourados. Os botões redondos, de madeira preta e que são enfeitados com metal. A tela de vidro verde, arredondada, que reflete o meu rosto. O brilho da madeira lustrada, com cheiro de lustra-móveis Shell. E detrás dela um mundo de segredos. Uma placa de papelão e entre as frestas posso ver as válvulas acesas. Elas brilham amarelas, fios se aquecem e fazem um zumbido discreto. Será dentro dessas válvulas que vivem os homens que aparecem na TV?
   As paredes com sua geografia de linhas pintadas de azul claro. Lá no alto há uma moldura de madeira que corre por todo o quarto. O lustre é um imenso guarda-chuva de ferro, cheio de furinhos, azul. A parede á áspera e vejo uma aranha minúscula passear. As cortinas voam com a brisa da manhã preguiçosa.
   Um cesto de roupas velhas. De palha. Dentro dele tem paletós antigos e panos vários. E lá mora um ratinho branco que nunca vi. Abro o cesto e me enfio lá dentro. Nele exsitem coisas para se ver que nunca ninguém viu. E eu quero ver o que nunca ninguém viu. Dentro.
   Cada flor guarda seu inseto. O vermelho faz "zuuummmm" e uma doçura que não provo se esparrama para fora. Por entre as folhas verdes o sol pinta círculos que tocam minha cara. No chão as formigas correm para fugir do tempo. Joaninhas nas folhas, marimbondos voam. A terra úmida tem uma confusão de folhas perdidas.
   Em cada pedra há uma vida.
   Os pássaros voam em círculos que toda tarde são os mesmos. E toda tarde eu observo e vejo. E toda tarde é um todo. Conheço cada um deles. O que tomba para a direita, o que tenta ir à frente, aquele que pia mais alto. As nuvens tem um deus que me olha. Isso eu sei e ninguém me disse.
   Depois eu pedi essa nuvem pra mim e tirei o deus de lá.
   .......Então a gente para de ver.
   E hoje eu mal sei como é seu rosto.
   A arte nada mais é que a tentativa de se voltar a ver. A poesia é a lingua da visão.
   Frase de Picasso: "Passei a vida inteira tentando reaprender a ver como era quando criança".
   E eu? Tenho passado as últimas três décadas tentando ver como via antes......
   A janela do porão era suja e quebrada. Ficava ao rés do chão de quem passava fora. No vidro imundo e quebrado uma teia de aranha. Ela era vermelha, redonda, e me dava medo. Mas a vontade de ver era maior. A teia parecia pó e carregava um monte de insetos já secos. Tudo naquele cenário parecia úmido. No beiral da janela tinha um dedal. E uma bolinha de gude. Quando chovia a aranha sumia. Eu pensava que ela se encolhia até ficar um nada. Um nada que morava lá. A chuva batia no vidro e algumas gotas entravam no porão. Era um lugar precário. Um rato passou lá fora um dia. Olhou pro vidro e correu. Um dia pintaram tudo.

ARTE OU DIVERSÃO, O QUE É O CINEMA? 007 E COSMÓPOLIS.

    Vou falar de dois filmes que vi ontem e os dois não poderiam ser mais diferentes.
    A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE é o mais desprezado dos filmes de James Bond. Isso porque ele carrega o peso de ser o primeiro sem Sean Connery. Em 1969 esse foi um assunto tão importante quanto o fim dos Beatles em 1970.
    Connery saiu do papel porque ele não queria passar a história como "o ator que é James Bond". Sean era ambicioso e assim que saiu foi logo fazendo um filme nada pop com Martin Ritt. Quem assumiu o papel? Chamaram um australiano de nome George Lazenby. Esse tal de George seria o único Bond a fazer apenas um filme. Ele foi execrado, ridicularizado, perseguido. Só agora, eu que adoro Bond, vejo George nesse papel. Ruim? O filme é ótimo. George faz um 007 deselegante, meio brega, tosco até. De certa forma ele antecipa Daniel Craig em seu tom anti-glamour.  O problema é que em 69 todo mundo lembrava de Connery... ninguém iria engolir Craig assim como não admitiram Lazenby. Connery voltaria em mais um filme e depois viria a era do gozador Roger Moore.
   Cada James Bond explicita seu tempo. Sean Connery era machista, cruel, politicamente incorreto e frio como aço. Sexista e sexy, nada bonito, muito bom ator. Roger Moore espelha os anos 70. Moore era gozador. Não levava nada a sério e brincava com o papel. Timothy Dalton foi a cara dos anos 80: insosso, arrumadinho, sem originalidade. Pierce Brosnan era indefinido. Mezzo Roger Moore, mezzo Dalton. E agora Craig, a cara de nosso tempo: Musculoso, frio, objetivo e bastante violento. Nada de elegãncia ou de safadeza, ele é um trabalhador.
   Quanto ao filme de Lazenby, ele tem cenas de ação enlouquecedoras. O estilo já é o hiper-editado, vemos flashs de ação, mas sem exagero, ainda dá pra saber quem é quem. Perseguição em esquis, perseguição em carros, perseguição em trenós. E a melhor Bond-girl da história: Diana Rigg, atriz que era mito na TV inglesa e que por isso foi chamada. Bond se casa com ela no final. E temos ainda a trilha do gênio John Barry. ( Aliás, 1962, ano da estreia de Bond, foi o ano das históricas trilhas sonoras de Bond, de Pink Panther por Henry Mancini e de Breakfast at Tiffanys... )
   Esse é o cinema diversão, hiper profissional e que eu considero dificílimo de fazer. No outro extremo temos o cinema arte, o cinema que pretensamente ignora o público.
   COSMÓPOLIS transpira "arte" em cada fotograma.  Tudo nele é artístico: os cenários, a trilha, a luz, e principalmente as falas. Ele tem aquele ar tristinho, escurinho-tipo: luz de geladeira, que todo filme de arte tem atualmente. Como julgar um filme tão "superior"?  Tão antenadinho? Superior em ambição, Cronenberg quer fazer uma crônica sobre tempos ruins. Portanto se em Bond o que nos pedem é: Divirtam-se; aqui ele pede: Pense. Pensamos, como pensamos. Pensamos tanto que dormimos. O filme é constrangedor. Explico.
   O que ele fala? Que o capital flui pelo mundo como um tipo de sangue venenoso que corrompe nossas vidas. Impessoal, ele obedece regras próprias. O carro flui pelas ruas, navega pelo oceano do mundo real, que sendo real é antigo, pois o mundo do dinheiro virtual é sempre o mundo do futuro. Vemos um tipo de vampiro, um morto vivo que flui nessa odisséia sem herói em busca de nadas que nada trazem. É um filme morto, tão vazio quanto seu tema. Cronenberg critica o mundo virtual, mas nada oferece em troca. Pior, coloca na boca dos personagens frases de um primarismo constrangedor. Personagens que são tão artificiais quanto um Schwarzenegger empunhando uma bazuca. Ah sim, o diretor de filme de arte sempre pode falar: "Tudo é proposital! Voce é que não entendeu"...Uma pinóia! Seu filme-funeral está longe de ser arte sem aspas, ele nada cria de novo, nada cria de perturbador, e passa longe da beleza, mesmo da beleza do horror. Há quem o aplauda. Como nos piores filmes de pseudo-arte, este filme possibilita a que qualquer um projete em suas imagens sentidos e simbolismos que ele não tem. Filmes de arte ruins podem ser como espelhos.
   O cinema atinge seu zênite quando une a arte de verdade com a diversão. Quando consegue perturbar e fazer o tempo voar. Quando o filme faz pensar e ao mesmo tempo dá prazer. O prazer do pensamento, da descoberta, da beleza ou da catarse.
   007 dá prazer e não faz pensar.
   Cosmópolis é um buraco. Masturbação chique travestida de discurso fatalista.
   Prefiro o prazer.

MULHERES APAIXONADAS/ REGINALDO FARIAS/ WILLIS/ CLIVE OWEN/ BATMAN/ PIRATAS PIRADOS

   MULHERES APAIXONADAS de Ken Russell com Alan Bates, Glenda Jackson, Oliver Reed
A prosa de DH Lawrence desaparece aqui. E nem poderia ser diferente. Como levar para a tela a profusão de ideias, de imagens e de pensamentos tortuosos que abundam no livro? Lawrence é infilmável. Ken Russell tem aqui o momento mais famoso de sua carreira ( concorreu a Oscar de direção ). Seu estilo se faz presente: exagerado, ácido, desagradável, sem nenhuma noção. E estranhamente fascinante. Não esquecemos de suas imagens. Há uma profusão de cores, de gritos, de cenas fortes, de tentativas apaixonadas. O filme, como o livro, que é o melhor de Lawrence, fala de dois casais: um par de amigos e uma dupla de amigas. Eles se conhecem e se envolvem. Glenda está magnífica. Para quem não sabe ela foi a grande atriz da época ( 1969/1976 ),  no auge da fama abandonou o cinema para fazer politica na Inglaterra. Neste filme ela é Gudrun, a mulher que na década de 20 quer viver plenamente. Alan Bates, um de meus atores ingleses favoritos, é Birkin, um homem insatisfeito, rebelde, livre, que se envolve com a amiga de Gudrun. Oliver Reed faz o ricaço e violento amigo, que se apaixona por Gudrun. Necessário dizer que o filme passa longe do convencional. Nenhum casal chega ao namoro normal. Todos se comportam como loucos, como bichos ou como queria Lawrence, humanos estéreis em alma. O que me fez pensar no seguinte: Como o mundo mudou em dez anos! Um filme como este seria impossível em 1959. Cheio de cenas de nú frontal masculino,´tem a famosa cena dos dois amigos lutando boxe pelados. Lawrence escreveu um livro sobre a sede por um novo mundo. Lawrence queria um novo sexo, novas relações e nova religião. O filme de Russell não passa perto disso. É mais um tipo de histerismo abobado sobre um quarteto doido. Mas é um bom filme. Irritante, inflado, pedante, e forte. Nota 7.
   CRUPIÊ de Mike Hodges com Clive Owen
Em 1971 Mike Hodges fez um dos melhores filmes do cinema inglês: Get Carter, onde Michael Caine fazia um bandido extra-cool. Era uma pelicula que antecipava o cinema de Danny Boyle e de Guy Ritchie em 25 anos. Em 1973 Hodges fez o fascinante Homem Terminal, uma sci-fi cabeça que fracassou. E então sumiu. Já com 65 anos, ele volta em 1998 e faz este filme sobre um observador. O crupiê é um escritor que se coloca à parte da vida. Para ele existem dois tipos de humanos: os jogadores e os crupiês. Os jogadores vivem, jogam, se arriscam. O crupiê observa, vê o que rola. Mas o filme, fascinante, vai além disso. Ele segue regras, não mente, gosta de coisas bem feitas, corretas. Se parece muito com um cavaleiro medieval, e creio que é assim que ele se vê, um tipo de cavaleiro etéreo, com seu código de honra rigido. Hodges mostra aqui seu absoluto dominio de imagem. O filme é soberbo. Tenho absoluta convicção de que Mike Hodges foi um grande diretor. Nota 8.
   POSSESSÃO de Neil LaBoute com Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart
O filme se passa entre ratos de bibliotecas. Vemos livros, manuscritos raros, estantes repletas. É o mundo fechado dos eruditos, dos pesquisadores, dos amantes de letras. E paralelamente se mostra a vida de poetas românticos de 1850. É o ambiente que mais adoro. Mentalmente é onde vivo.  Mas tenho de confessar a verdade: fora isso o filme nada tem a dizer. Fica sendo um tipo de Ghost para ratos de biblioteca. Não tem um porque, não faz sentido, não emociona. É um absoluto fiasco. La Boute sempre foi um enganador. Nota 2.
   CÓDIGO PARA O INFERNO de Harold Becker com Bruce Willis e Alec Baldwin
No cinema em 1998 já era fraco. Em dvd agora é quase um nada. Bruce, de quem gosto, vinha do mega sucesso de Sexto Sentido e fez este policial bobo, filme que tenta criar emoção com as figuras de um policial decadente e uma criança autista. A trama é muito fraca, pior, inverossímil, e Bruce não pode usar o que tem de melhor, seu humor. Becker foi um dia uma promessa...fez pluft...Nota 3.
   PIRATAS PIRADOS de Peter Lord
Animação sobre piratas bem doidos. Divertidíssimo! O filme é uma explosão de bom-humor e de gozação saudável. Leve e colorido, ele cumpre plenamente seu propósito: fazer rir sem jamais parecer grosso. Os tipos são todos bem delineados e as tiradas funcionam em tempo exato. Mais uma grande animação.  7.
   BATMAN de Leslie H. Martinson com Adam West e Burt Ward
Quem em criança viu Batman jamais irá conseguir levar a sério um herói de malha justa e capa negra de morcego. É uma figura ridicula, seja aqui ou seja com Tim Burton/ Chris Nolan. Este é o longa que nasceu com o sucesso da série de TV. Visto hoje ele é chato pacas. Nota 3.
   ASSALTO AO TREM PAGADOR de Roberto Farias com Reginaldo Farias
Um grande sucesso do cinema brasileiro e uma aventura que ainda funciona muito bem. Um trem é assaltado. Acompanhamos o destino dos assaltantes. O ambiente é a favela. O filme faz pensar: o que mudou? Estão lá os barracos e o povo mal vestido. A diferença é que hoje a favela não tem mais o jeitão rural que tem aqui. Vemos árvores e porcos nas vielas e muita criança pelada. Hoje a violência cresceu, os barracos têm TV e geladeira. Uma mudança de atitude: aqui todos querem sair da favela, têm vergonha de viver nela. Hoje há um orgulho, uma "alegria" por ser favelado ( da comunidade ). Isso significa o que? Aumento de auto-estima ou comodismo? Eu não sei. Um fato: em mais de 40 anos elas continuam lá. O povo que lá vivia em 1966 lá continua. O filme tem ação e drama, é bom. Nota 6.
   O MONGE de Dominik Moll com Vincent Cassell
Lixo. Num mosteiro um monge milagreiro se envolve com sexo. O mal invadiu o lugar, em quem esse mal vive? Logo percebemos que o mal está no monge que lá foi criado. Não espere nada de sério. O filme tem um tom pomposo, mas é raso como um pires. Pior de tudo, é chatíssimo! Nota ZERO.

Kraftwerk Ruckzuck (live on WDR TV in 1970) QUANDO O FUTURO SURGE...O TEMPO, UMA QUESTÃO....



leia e escreva já!

APRESENTAÇÃO DA FILOSOFIA- ANDRÉ COMTE-SPONVILLE. PARA QUEM QUER COMEÇAR A SABER PENSAR

   A filosofia não responde a nada. E nem se importa com isso. O que ela nos dá é um método de pensamento. Impossível filosofar sem conhecer filosofia. Sem ela voce pensa em círculo e não clareia nada. Filosofar é conversar com as ideias que vieram antes. Por isso é necessário, para filosofar, ler filosofia. Mas livros de filosofia são árduos. Porque eles não dão respostas, antes demonstram a construção, passo a passo, de uma pergunta. André Comte-Sponville nos dá aqui uma bela introdução à filosofia. Seu público alvo são aqueles que sentem o desejo de filosofar. Mas que não conseguem, por enquanto, ler filosofia.
   Na tarefa de popularização do pensamento filosófico existem dois caminhos possíveis. A pura picaretagem e a didática. Picaretas são vários e Alain de Bottom é o menos ruim deles. Didáticos são honestos. No didatismo voce pode contar a história da filosofia ou explicar o ato de se filosofar. Bertrand Russell tem uma excelente breve história da filosofia. Apesar de ignorar Schopenhauer e Marcel, é a melhor exposição histórica breve que já li. Sponville não fala de história, fala das doze grandes questões filosóficas. Cada capítulo aborda em seis ou sete páginas um desses tópicos. Ele não vulgariza.
   1- A Moral. A moral é individual. Não há uma moral que possa ser imposta. O que é a sua moral? André usa a parábola de Platão: Se voce tivesse um anel que te fizesse invisível, o que voce faria? Mataria? Roubaria? Estupraria? O que voce, mesmo sem ser visto, Não se permitiria fazer? Eis sua moral. Se voce não mataria ou mataria, eis a moral. Ela é sua e não depende de castigo ou de recompensa.
   2- A Politica. Politica é história. Moral do grupo. Tudo é politica e não fazer politica é assumir uma não-humanidade. A politica só existe na história de um grupo. Ela é o que o grupo foi e pensa ser. Acordo que nos livra da animalidade.
   3- O Amor. André fala de Eros, o amor que falta, o desejo do que não se tem. De Phillia, o amor ao que se tem, o amor feliz, o amor que protege e cuida. E de Ágape, o amor que dá e não recebe, o amor que é caridade, que defende e alimenta a tudo aquilo que é vida. Tudo que nos une a vida é amor: amor a si-mesmo, amor ao dinheiro, ao poder, aos livros, a natureza. Amor ao amor que se tem, ao amor que se dá e o amor que nega o que se é em favor daquele que se ama. Amor que é potencia.
   4- A Morte. O paradoxo da morte. A grande questão da filosofia. O que ela é? Como algo que existe ( a morte ) pode não ser? O que seria a vida sem a morte? Porque vivemos se morremos? Como pode a vida ter nascido do nada? E se havia o nada, porque surgiu algo?
   5- O Conhecimento. É possível conhecer algo? Voce conhece o que? Sua rua? Mas voce conhece mesmo sua rua? Sua história, sua materialidade, quem vive nela, cada grão de pó, cada mancha, tudo o que ela é, foi e poderá ser. Voce conhece voce-mesmo?
   6- A Liberdade. Existe? Se existe, o que é ser livre? Fazer o que quiser? Liberdade é fazer ou ser? André demonstra a ilusão da liberdade e a verdade da liberdade. Eis o que o livro tem de bom: Ele demonstra sempre mais de um lado, mais de dois, mais de três.
   7- Deus. Se Deus existe porque existe o mal? Que Pai é esse que nos deixa sofrer? Sponville é ateu, mas fala que afirmar a não existência de Deus é uma imbecilidade. Como afirmar a existência é também uma imbecilidade. Explica o que é um agnóstico, o paradoxo da fé.
   8- O Ateísmo. O que é o ateísmo, as formas de ateísmo. O ateu e o agnóstico, o mistério. Não há prova sobre Deus, nada nos leva a aceitar sua existência. O que é o materialismo?
   9- A Arte. É o mais satisfatório dos capítulos. O que é a arte? Porque ela existe? André dá a mais perfeita explicação do que seja um gênio: É alguém que cria algo de novo e de diferente, mas, que ao contrário do mero novidadeiro ou charlatão, deixa atrás de si um contingente fértil de seguidores, de discípulos. Eis a superioridade da arte: Se Newton jamais tivesse existido, suas leis com certeza teriam sido descobertas por algum outro. A gravidade estaria lá. Mas se Shakespeare, ou Beethoven, ou Michelangelo jamais tivessem existido, toda sua obra, todos seus seguidores, tudo aquilo que eles, e só eles, criaram, jamais teria nascido. Com certeza o mundo seria outro e nós nos veríamos de modo diferente: menor. Há uma bela definição: Toda verdadeira arte é poesia, pois a poesia é essa linguagem plástica que toca a  explicação do que seja a vida.
   10- O Tempo. Tempo....o passado e o futuro: existem? Tudo é o presente. Tudo é uma abstração. E se não houvesse gente...haveria tempo? Existe tempo no Cosmos? E pode haver ação sem tempo? O que é a eternidade?
   11- O Homem. O que é um homem? Eis um capítulo perturbador. Se um homem é razão, então uma criança deficiente ou vegetativa é o que? Se um homem é comunicação, então um animal que se comunique será humano? Sponville diz que para ele, homem é aquele que nasceu de um homem. Portanto, tudo o que é gerado por dois humanos é humano. Perigo apontado por ele: o dia em que homens puderem nascer de uma criação artificial, de uma fábrica, será isso ainda um homem? Se ele for sem falhas, sem dúvidas, sem medo, será homem?
   12- A Sabedoria....
   Esses os 12 capítulos. Que são os doze temas mais questionados desde sempre. E todos eles irrespondíveis. Jamais chegaremos a uma conclusão sobre a sabedoria, o homem, o tempo etc e etc. E nem devemos, pois o que tem conclusão está morto, está aprisionado. A ciência lida com conclusões, não a filosofia que não é ciência e nem é arte. ( Mas a ciência pode ser filosófica, assim como a arte ).
   Sponville não conclui portanto. Joga questões, as explica, aposta algumas teses ( filosofar é um jogo sem vencedor ), cita alguns filósofos.
   Se voce quer começar, eis seu livro.

PONDÉ, YEATS, MARTELL, POLITICA E CINEMA COM ALMA

   Pondé citou Yeats na segunda-feira. O poema em que o irlandês fala da terrível certeza que todo canalha tem, e das hesitações que acometem os justos e bons. Dá até vontade de crer nos gnósticos e dizer que nosso mundo é obra do mal. Porque, como bem notou Yeats e como Pondé crê, quem segue o mal sente-se forte, duro, "em casa"; enquanto que o que segue o bem sempre sofre uma sensação de inadaptação, de fraqueza e de dúvida. Terroristas nunca hesitam.
  Ler Bernanos dá muito medo.
  O mal cobra um preço a quem ousa ser bom. Essa a raiz, terrível, do catolicismo puro. O bem só pode sobreviver a custa de nosso sacrificio. Nada pode ser mais antipático que dizer essa verdade.
  Falando de coisas mais amenas....
  Um amigo fala do voto. A questão é simples meu amigo. Assim como a arte e a religião perderam sua aura ( de acordo com Benjamin ), ou seja, não significam mais transformação e não mais repercutem, não têm identidade, a politica também se transformou em mera ciência. Voce vota e elege alguém. Pura mecânica. Um partido faz o papel de polo positivo e outro de negativo. Um precisa do outro para existir e um repele o outro. Entorpecido nesse campo magnético, cheio de eletricidade e de "verdade", voce aperta um botão. Veja bem, até aqui, você aperta um botão...
   É só isso, um ato banal.
   É claro que se voce tiver alguma cultura, todo o passado da politica vem a sua cabeça ( como vem o passado da arte ou das igrejas ), mas é mero flash-back. No eterno agora a politica nada mais significa. Não há a possibilidade de história, de reflexão ou de consequência. Politica-no-eterno-agora, como arte e igreja no eterno- agora, nada mais tem a dizer. Torna-se mera ferramenta.
  Pondé citou Yeats e um dia citou O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, em seu melhor texto. Bom gosto ele possui.
  Um outro amigo me diz que anda cheio de vontade de rever A PALAVRA de Dreyer. Bem... Ebbert sempre fala que todo amante de cinema chega um dia a Dreyer, Ozu e Bresson, e descobre que os três são os "santos" do cinema. Austeros, profundos e capazes de milagres com quase nada. Dreyer transformava um filme em catedral de silêncio e de horror=Sublime ( para quem não sabe, o Sublime é a união do terrível com o belo ). Ozu fazia o milagre de conseguir de um nada de roteiro uma épica sobre gente comum. Ele transformava familias banais e sentimentos vulgares em atos de profunda nobreza. E Bresson dava aulas sobre o sentido da vida em imagens reais. Ele modificava o real sem que percebêssemos. Fazia documentários sobre a alma.
   Questão de aura. Mas ainda têm público?
   Leio comentários no youtube sobre A VIDA DE PI. Quase ninguém entendeu uma saga tão simples. Somos uma geração que sabe tudo sobre o efêmero e nada entendemos sobre o atemporal.
   Perdemos nossa aura.

A VIDA DE PI- YANN MARTEL

Yann Martel nasceu na Espanha. Foi plantador de chá, lavador de pratos, segurança. Esteve na India e agora vive no Canadá. Em 2001 ganhou o Booker Prize com este livro. Sucesso de vendas, sua versão em cinema será lançada agora, em novembro, por Ang Lee. É o filme mais aguardado do ano. Como tudo em Lee, será sublime como Tempestade de Gelo, ou lamentável como Hulk. Ele não tem meio termo.
O livro é no mínimo inesquecível. Original. Se Paulo Coelho fosse bom escritor seus livros seriam como este. Falo isso porque o tema de Yann é o mesmo de Coelho, com uma diferença crucial: Yann é muito criativo. E sabe escrever. Este livro é sempre uma surpresa, nunca faz o que esperamos.
Um autor em crise vai a procura de Pi. Na verdade esse tal de Pi se chama Piscine e foi um menino indiano que teve a sorte de crescer em Zoológico. ( Penso se o filme de Cameron Crowe já não foi um pouquinho inspirado aqui ). Acompanhamos o escritor que ouve o relato de Pi.
Primeiro a vida no zoo e um belo e longo relato sobre sua adolescência e o que é a vida de um animal num zoológico. Nessa parte o livro é risonho. Um prazer leve e claro acompanha sua leitura. Piscine cresce e se interessa por religião. Em relato humorístico, vemos sua conversão ao hinduísmo, depois ao catolicismo e por fim ao islã. Todas sinceras e todas naturais. A vida é feliz para Piscine. Seu pai ama o esporte e a mãe é o que uma mãe deve ser.
Mas vem a guinada. O zoo fecha e eles embarcam os bichos para o Canadá. Mas o navio afunda. Piscine deverá sobreviver num bote, no Pacífico, com uma zebra, uma hiena, uma orangotango e um tigre. Pi irá passar quase um ano à deriva.
Todo esse trecho do livro é um pesadelo. Os animais se comem, ele se desespera, mas vive. Por fim sobram ele e o tigre.
Não contarei o resto. O que posso falar é que o fim é extremamente surpreendente. Yann Martel dá um nó na história e na nossa cabeça. Torce a conclusão, usa duas suposições, dá um toque de ironia suprema. Se voce for ateu achará o final "como deve ser". Se for religioso, achará o final "como deve ser" também. O modo como voce reagir à conclusão mostrará quem voce é.
Gosto de livros com linguagem mais elaborada. Como bom estudante de letras, pouca importância dou ao tema, o que me seduz num autor é seu estilo ( daí meu amor por Henry James e Proust, autores que são puro estilo ). O estilo aqui é o do best-seller, simples, comum, sem firulas de lingua e imagem. Mas o que o salva, e o ergue, é sua criatividade. Yann Martel tem o que falar, não é mais um autor falando sobre o tédio, mais um cara que escreve sem ter nada para dizer. Ele tem muito pra narrar. Conta uma bela história.
Raras vezes choro com um livro. Belos filmes me fazem chorar, literatura me eleva, me espiritualiza, mas não provoca lágrimas ( ou risos ). Este tem uma linha que me emocionou muito. É um "Eu te Amo". Dito perto do fim do livro. Quem ler saberá.
Até lá.

JUSTIÇA SEJA FEITA AO ISLÃ, PRIMEIRA IMPRESSÃO SOBRE A VIDA DE PI

   No originalíssimo livro de Yann Martel, A Vida de Pi, fala-se sobre 3 religiões: o hinduísmo, o catolicismo e o islamismo. Martel defende as três e assim conseguiu me fazer pensar coisas novas sobre esse tema.
   Primeiro o modo como um oriental vê o cristianismo. O que mais os surpreende, e que lhes é incompreensível, é como pode o filho de um Deus ter vindo a Terra como um fraco. Um filho de divindade deve ser poderoso, forte, imenso. Um Deus que é humilhado, incompreendido, e pasmem! Morto!!!! Um Deus que morre!!!! Isso é absurdo!
   Outro fato que eles estranham é a pressa que os cristãos têm. Deus fez o mundo em 7 dias!!!! Para o Oriente o mundo é obra de milhões de anos. E mais, a vida de um fiel é decidida em um segundo, um ato, um pensamento. Orientais têm infinitas encarnações para se refinar, um cristão tem poucos anos e um ato único. Para um oriental, o cristão vive na pressa e num eterno Agora. ( Ah, ele diz que cristãos possuem obsessão por Letras Maíusculas.... )
  Mas o que mais me surpreendeu é a beleza do islã.
  Confesso que é a religião que menos me interessa. Preconceito?
  Talvez Yann jogue uma luz sobre isso.
  Quando vemos imagens do Irã ou do Paquistão, o que vemos? Primeiro: Eles nunca estão sós. Andam em grupos, abraçados, conversando, rindo ou orando, sempre sem a solidão que nos aterra e nos seduz.
   Isso nos irrita. Estamos acostumados a pensar em individualismo como condição de brilho e inteligência. Afinal, até Jesus foi um incompreendido solitário.
   Segundo. Todos se parecem. E é isso. Eles Não Desejam ser diferente. Barbas e roupas brancas. Para serem todos iguais. Nomes próprios que se repetem ( Muhammad aos milhões ), a busca é pela não-individuação.
   Terceiro. A simplicidade. Nada de supérfluo. A verdade está no Alcorão e tudo deve ser simples e claro. Seja o pensamento, a arquitetura, a roupa.
   Se voce unir tudo isso, vida em grupo, anonimato e simplicidade, voce obterá tudo aquilo que nosso complicado e individualista mundo mais nega.
   Fosse só por isso, o livro de Martel já valeria muito.
   Mas o melhor, é divertido pacas!

GOTTFRIED KELLER E O ROMANTISMO A QUE ESTAMOS FADADOS

   Quanto mais o homem é amassado pelo anonimato, pelo medo ou pelo puro desespero, mais ele tende a reafirmar a presença de seu ego. É simples: se tudo grita a seu redor que voce é um nada, mais e mais voce vai berrar: Eu existo e eu sou Eu.
   Esmagaram toda a história e tudo o que era "homem" no século XVIII. De repente nada era mais o que era certo, tudo virara nada. Que reação poderia nascer a não ser a afirmação desesperada da única coisa que se mantinha " ao lado" ( aparentemente confiável e fiel ), o Ego. Pois veja então....
   Até então a paisagem onde uma criança nascia seria a mesma de sua velhice. E se ele nascia rico, morreria rico, se pobre seria pobre. Ele teria a profissão do pai ou de um tio e se casaria com uma vizinha ou uma prima. Seria batizado, casado e enterrado na mesma igreja. Teria a proteção do mesmo barão e lutaria uma guerra que seria certamente justa. O mundo era conhecido, imutável, confiável e principalmente vivido em grupo. Todos saberiam quem voce era: filho de seu pai.
  A indústria trouxe novos cenários. Fábricas, sujeira, fumaça e a derrubada de bosques. O progresso mudou a vila, o bairro. E seu futuro já não seria o de seu pai. Na fábrica voce não seria filho de ninguém. Voce seria mais um. Estradas, trens, bancos, desemprego, fuga do campo.
  Assustado, o homem precisa se reerguer. Nasce o romantismo. Se voce não é mais filho de seu pai, então será filho de sua nação, da história de seu país, de seu folclore. Seu Ego é seu mundo, e nesse mundo voce cria fantasias. O amor é livre, escolhe e luta, Deus agora é amor, o Amor manda. A vida não é mais algo dado a cada um, ela agora terá de ser conquistada. É imperativo viver e deixar sua marca no mundo.
   Penso que tudo isso sobrevive. Jamais voltaremos ao mundo pré-romantico. Onde nossa vida era do grupo. Assinamos tudo o que fazemos, lutamos para nos afirmar. Somos todos romanticos.
   Gottfried Keller era suiço. Leio duas novelas: O TRAJE FAZ O HOMEM trata de um alfaiate pobre, que por ser belo e bem vestido. vê-se confundido com um conde. A trama segue deliciosa, ele tenta resistir a mentira, mas vai mergulhando fundo e acaba, claro, por se apaixonar.
   A outra novela é ROMEU E JULIETA DO CAMPO, que traz um belo retrato dos camponeses de então. A infelicidade surge entre vizinhos que brigam e a vida de ambos se desfaz em dividas e rancor. Os filhos se apaixonam e fogem. Acabam por ter um destino trágico. No final dessa novela há toda a confirmação do ego romântico. Os dois se amam por uma noite e se deixam afogar, juntos, afirmando assim sua vontade de "eternidade". Se precisam ser conformados a vida familiar, preferem antes morrer.
   Nunca mais alguém se conformaria a ser e ter aquilo que seu pai foi e possuiu. Nunca mais viver seria apenas continuar a "doce rotina" da eternidade. A rotina doce fora corrompida, a inocência se perdera, e como bem sabemos, quando se deixa ir a inocência, nunca mais a reencontramos.
   Aldous Huxley afirma em seu livro " A FILOSOFIA PERENE" que a função sublime da religião é exatamente destruir esse ego, trazer ao ser a conciência de que ele é parte de um todo, de que nada ele pode possuir e que toda posse é dor. Incrível!!!! Com toda sua adoração por magos, bruxas, vampiros, celtas e druidas, os romanticos são dos menos religiosos dos seres. Percebem o mundo como um espelho e ansiam por um amor que é posse egoísta. Alimentam o eu, inflam, sentem pena de si-mesmos, se imaginam como seres hiper-sensiveis e especiais. Deixam de lado toda chance de paz e de serenidade.
   Se nosso mundo é uma ponte ao anonimato, somos todos pequenos romanticos com nossos blogs, nossas bandas de rock e nossos videos bombando. Em meio a bilhões de seres tentamos fazer nosso ego sobressair. Gritamos: Estou aqui ! Sou diferente! Existo!!!!Tenho opinião!
   Huxley e todos os seus santos, gurus e xamãs devem estar com piedade de nós.

J J CALE

JJ surgiu do nada e já meio velhaco. Nunca foi hippie. E penso que nem mesmo rocker. Sempre foi um tipo de cowboy. Todas as suas canções têm cheiro de estrada. TODAS. Mas é uma estrada diferente. Não é a rota 66. É o litoral da Florida, palmeiras e ritmos que às vezes são caribenhos. Mas é um cowboy. Sujo. E sua voz confirma isso. Canta rouco, não é nunca simpático. Não é nunca alegrinho. É sempre sério. E sem choro nem vela.
Nada de rockstar. Não pense em poeta-dylan-cohen-simon-young. Não. Nada disso. JJ é prosa. É Twain. Poe às vezes. Eu adoro JJ e quero ser um dia JJ. Lembro de ouvir JJ em 1985. Onde hoje tem uma praça tinha barracos e campos de futebol. E naquele tempo eu me dilacerava de amor e de desejo e de sexo e de coisas químicas. E JJ era um alivio, um bálsamo. Ele interrompia minha dor e minha doideira. Sem fazer de mim um cara frio ou angelical. Ele me fazia homem. Não tem som mais de homem que o de JJ.
JJ é anti frescura.

JJ Cale - devil in disguise - studio live



leia e escreva já!

TWELVE DREAMS OF DR. SARDONICUS- THE SPIRIT, ATEMPORAL

   Existem bandas que se negam a fazer parte de qualquer tipo de hype. E nem tomam para si a pose de "alternativas". Ficam num tipo de limbo, pois não são nem pop e nem "arte", não fazem parte de uma tendência e nem tentam ditar novidades.
  Veja o Spirit. Randy California, seu guitarrista, aos 15 anos já fazia jams com Jimi Hendrix e aos 17 já era o lider do Spirit. Mas mesmo com essa raiz, o som dele nunca é o de um guitar-hero. Nem psicodélico. E nem pop-anos-60. Na banda temos ainda seu padastro ( sim, step-father ), Ed Cassady. Um careca, na época já quarentão, e que tocara com Zoot Sims e Dexter Gordon. Ou seja, jazz. Mas o Spirit nunca lembra jazz. Então o que é a banda?
   Tenho cinco discos do grupo e são todos diferentes entre si. O primeiro é plácido, maconheiro; o segundo é mais técnico, frio, e bastante criativo. Este, que agora comento, é sua obra-prima, e vários experts e músicos jovens o adoram. Porque?
   A primeira coisa que se nota é sua atemporalidade. É um disco de 1970, mas poderia ser de 2012 ou de 1992. Principalmente de 92. Em vários momentos a sensação é a de estarmos diante de um disco grunge. Pearl Jam e Stone Temple Pilots. When I Touch You antecipa em 22 anos o som de Eddie Vedder. Mas o disco é mais que isso. Nature's Way, Animal Zoo, Mr.Skin... são várias as músicas que impressionam já de primeira. Variam entre introspecção e celebração, todas são pra cima.
   Entre os amigos de Randy, Neil Young era um dos maiores e na casa de Neil ( nas montanhas ), Randy começou a pensar no disco. O guitarrista de Neil o produziria. Há bastante de Young na sonoridade de algumas canções. Mas é um Neil Young menos angustiado, mais californiano, solar.
   O que causa espanto é o fato deste disco não ter sido um hiper-hit. Todas as faixas poderiam ter sido sucessos. Não foram. O Spirit acabou na vala das bandas cult ( o que não impediu a eleição de Ed Cassady como o segundo batera mais querido do mundo em 70, à frente de Ringo e de Ginger Baker ). Escutado hoje, Twelve Dreams respira como recém nascido.
  No efêmero mundo do rock, nada pode ser mais relevante que isso. O Spirit não é de ontem e nem de agora. É de sempre.