David Bailey - Clip 3-4



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DAVID BAILEY, O CRIADOR DO NOVO GLAMOUR

    Quando falamos em Inglaterra temos de ter sempre em vista seu sistema de classes. Mesmo que hoje isso seja muito mais disfarçado, continua havendo no país a consciência de que voce é o local onde nasceu e os amigos que frequentou. Thatcher pode ser de origem simples, mas sua imagem sempre foi a de uma sólida e educada vitoriana. Obama está longe de ter seu equivalente inglês. Um primeiro ministro indiano ou jamaicano...nem pensar. Falo tudo isso para que voces tenham uma ideia aproximada do que foi David Bailey. Um rapaz nascido no bairro mais pobre de Londres, cercado de amigos simplórios, tornou-se em poucos meses o ditador do novo glamour mundial, o rei da fotografia de moda. Se até hoje as bandinhas inglesas copiam aquele espirito boêmio da swinging London, saibam que seu rei não foi Jagger ou Terence Stamp. Foi David, com suas fotos desglamourizadas e seu estilo de vida surrealista.
   Ele queria ser Picasso, descobriu Bresson e em 63, após apenas 7 meses no mundo fashion, foi contratado pela Vogue e lançou o tipo de style que seria copiado de NY a SP. Que estilo? O estilo animal. Bailey era fanático por aves e são elas que inspiram suas fotos. As modelos deixam de ter poses classudas e artificiais e passam a posar como animais, longas, esticadas, decaídas, e muito sexys. São colocadas na rua, no metrô, em ação "não posada". Com sua origem trabalhadora, Bailey uniu o mundo da alta informação ( Picasso, Bresson, Dali ) com as ruas e os climas reais da vida urbana.
   Ver suas fotos é ver ícones dos últimos 50 anos em suas melhores poses. Andy Warhol, Cassius Clay, Lennon e Paul, Polanski e Sharon Tate, Fellini, Visconti, BB, Godard e uma imensa profusão de fotos dos Stones, que eram seus modelos favoritos. Todas as melhores fotos desses nomes citados têm em David seu melhor autor.
   Tornou-se famoso o modo como Bailey fotografava. Ele seduzia a modelo enquanto clicava. Era uma profusão de "Linda! Fantástica! Gorgeous! Behave! ", tudo temperado pelo seu famoso "Yeah Baby! Yeah!" Se voce pensou nos filmes de Austin Powers acertou, Mike Myers usou Bailey como um de seus modelos ( o outro foi o jovem Michael Caine ).
   David tornou-se um superstar. Antonioni o usou como molde para o personagem fotógrafo de seu Blow Up ( O diretor chegou a convidar Bailey para fazer o papel, David não aceitou por pura preguiça. ) A Londres arrogante e hiper-ativa de 1966 tem dois reis: David Bailey e Mick Jagger. Que aliás andam juntos, Bailey é na época o best friend de Mick. David se casa com a belíssima Catherine Deneuve e Mick, lógico, é o padrinho. São maravilhosas as fotos do casamento. Um casal muito jovem, muito belo e de uma desglamurização absoluta. Mas atente, chic em último grau. Impressiona como o cabelo e as roupas de Bailey são up até hoje. Well... O casamento não durou, Catherine gostava mesmo era de Mastroianni e Bailey da super-model Jean Shrimpton.  Ele começou a ficar de saco cheio do mundinho e passou a dirigir filmes, documentários experimentais. Há um com Andy Warhol que é fantástico. Aliás David sempre foi cinemaníaco, John Ford é seu ídolo.
   Falei do sistema de classes inglês. Observe que a banda mais pop da época eram os Beatles, mas eles tinham uma dificuldade imensa de penetrar no mundo da alta moda e do chic, mundo que era dominado pelos Stones. Não vamos esquecer: John e Paul eram suburbanos de Liverpool, caipiras. Mick era da classe média de Londres, formado e cheio de informação sobre moda e exposições de arte. Esse povo fashion adorava seu ar de desafio, andrógino, meio sujo, sexy. Estilo que tinha muito de David Bailey.
   Hoje Bailey é um senhor irriquieto. Acha Kate Moss a única modelo do mundo com estilo, a única que poderia sobreviver nos swinging sixties. Continua paquerador, e trocou sua fascinação por pa´ssaros, por uma nova mania por caveiras, ossos, flores mortas e cemitérios. Ele sabe que sua morte se aproxima e se prepara pra ela.
   Uma imensa quantidade de caras que fotografam foram e são inspirados por esse irriquieto senhor londrino. Um brinde a David Bailey!

O MUNDO PERDIDO- ARTHUR CONAN DOYLE

   1912, ano de lançamento deste livro. Tempo em que ainda se podia acreditar em "lugares da Terra onde o mistério impera". Os Pólos, a Mongólia, ilhas do sul, interior da Austrália, Terra do Fogo, quase toda a África, todas essas eram terras mal conhecidas, pontos em branco nos mapas, mistérios, lugares de gente corajosa. E o Brasil, claro. Esta aventura se passa na Amazônia, e como diz seu narrador, Amazonas e Mato Grosso, duas imensas regiões que ainda não foram mapeadas.
   Então é para lá que vão nossos aventureiros, atrás de pistas de um local onde ainda vivem dinossauros. Não só dinos, como homens-macaco, os primeiros mamíferos e peixes excêntricos. Lá eles verão a repetição do momento decisivo da evolução humana, o momento em que o homem inteligente aniquila o homem besta.
   Conan Doyle tinha um grande ressentimento de Sherlock Holmes. Passou a vida tentando se livrar do estigma desse personagem. Aqui ele lança um de seus livros "não Holmes". Uma aventura corrida, direta, e porque não, imaginativa. É uma das fontes do cinema fantástico.
   PS: Quando eu era criança,e juro que não faz tanto tempo, ainda era um mistério ir lá pros lados de Mato Grosso. Uma viagem sob risco de vida. Não por causa de bandidos, mas por causa de doenças, indios e cobras. Um vasto mundo sem estradas e sem mapas. E lembro que o litoral sul de São Paulo era um imenso deserto, pontilhado por vastas áreas sem estradas e cheias de aldeias de indios. Ir para Cananéia era voltar a 1500.
   Sinto falta de saber que lugares assim ainda existem.
  

INOCÊNCIA E CULPA. CORAÇÕES LOUCOS, FILME CORAGEM DE BERTRAND BLIER

   Aviso que muitas pessoas irão abominar este filme. Por estarmos em 2012, muitos estarão desacostumados a ver um filme que é absolutamente anti-politicamente correto. Vê-lo é como ler Pondé. Na verdade bem melhor que lê-lo. Feito em 1974, esta obra, amada por Pauline Kael, é uma comédia. Mas uma comédia como não existe mais. Uma comédia ofensiva. Principalmente às mulheres. Vamos ao roteiro.
  São dois amigos. Pobres, sujos e obcecados por sexo. Estamos com eles no mundo da liberdade pura, e por serem assim, mesmo que voce goste do filme, não gostará deles. Pessoas mais "sensíveis" os acharão bobos. Pior, maus. Durante uma hora eu adorei o filme e os detestei. Mas Blier consegue algo mágico: súbito passamos a compreendê-los e a os aceitar. Então o filme revela sua grandeza, é uma obra-prima.
  Os dois vivem soltos e portanto se viram. Roubam, aplicam golpes e tentam transar com toda mulher que encontram. O estupro é sempre uma possibilidade. Mas o filme nunca é violento, ele é mais que isso, é revolucionário. E nunca politico. Eles são malandros mas não são simpáticos. Nada possuem de "charmoso", são toscos, reais, exagerados, burros e bastante egoístas.
  Filho de meu tempo ( 2012 ), passei o filme tentado a colocar neles um rótulo. Psicopatas? Se fosse feito agora, eles seriam um caso psiquiátrico, e com esse diagnóstico tudo estaria explicado e domesticado. Mas não aqui. Eles não são doentes. Volto a dizer, são livres, e pensam que ser livre é ser um tipo de troglodita. Assumem isso. E existem nesse estado de anarquia. Se querem um carro, o pegam; se desejam sexo, seguem uma mulher até pegá-la.
  Bertrand Blier é um dos mais interessantes diretores franceses. Seus filmes são sempre provocativos. Aqui temos quatro atores, na época desconhecidos, e que se tornaram símbolos sexuais em 1974. Gerard Depardieu, magro e bonito, é o mais forte dos dois amigos. Chega a sodomizar o companheiro e se suaviza ao se apaixonar por mulher mais velha. Uma atuação histórica. Suas cenas de sexo nos fazem rir, riso com raiva pois sabemos que o que ele faz é nojento. Seu amigo é feito por Patrick Dewaere e vale aqui uma apresentação. Com este filme Patrick virou mania na França. Fenômeno era seu rótulo. Mas logo se viciou em heroína e morreu muito jovem. Ele faz o amigo mais azarado, ainda mais burro que Depardieu. É apaixonante. E asqueroso!
   Há uma mocinha que não consegue gozar, então ela transa com qualquer um. Papel feito por Miou-Miou, uma atriz que se fez estrela também aqui. Se voce só conhece cenas de sexo feitas no cinema atual, repare nestas. Nada há de falso aqui. Nenhuma luz especial, nada de música sexy ou clima de neurose. É simples ato animal, despudorado, natural, tolo, desglamurizado, banal. As cenas de sexo são todas deliciosas, engraçadas e violentas, infantis.
   Após vê-los praticar vários crimes, fiquei com medo que viesse o castigo, ou pior, uma explicação racional de seus atos. Mas não. O filme não tem o menor traço de moralismo. Eles não são punidos, não são heróis e não vêem a luz. Apenas se viram na estrada. A fala final de Depardieu é perfeita. Dewaere pergunta: Então ficaremos assim pra sempre? De lá pra cá, sem parar? E Depardieu responde simplesmente: -PORQUE NÃO?
   Não se fazem mais filmes assim. Blier fala da liberdade e filma livremente. E leva seus atores com ele.
   Repito: é uma obra-prima e é um dos mais saudáveis filmes já feitos.
   PS: Há uma adolescente que perde a virgindade com eles depois de ajudá-los a roubar o próprio pai. É Isabelle Huppert. Maravilhosamente desafiante. Sua carreira também começava aqui.

MARIGOLD/ KLINE/ ERROL FLYNN/ WYLER/ JOE CARNAHAM/ MAGGIE SMITH/ CURTIZ

   O EXÓTICO HOTEL MARIGOLD de John Madden com Judi Dench, Bill Nighy, Maggie Smith e Tom Wilkinson
Fez algum sucesso no começo deste ano este filme que traz uma seleção de veteranos atores da Inglaterra. Todos são excelentes, mas o filme é um tédio! Madden se inscreve na lista dos piores diretores a um dia terem ganho o Oscar. Lembro de Delbert Mann, John G. Alvidsen, Anthony Minghela, Danny Boyle e provávelmente Bigelow entrará nessa lista. Um grupo de aposentados vai à India na esperança de se hospedar em belo hotel. O hotel é um lixo, eles se envolvem com a vida caótica do lugar e etc etc etc. Maggie Smith é eterna. Quando comecei a me interessar seriamente por cinema, lá por 1978, ela já era uma anciã!!!! Foi revelação no grupo de Olivier, em 1962.... Que ela ainda viva muito!!!! Nota 1.
   OS ACOMPANHANTES de Shari Springer Berman e Robert Pulcini com Kevin Kline, Paul Dano, Katie Holmes e John C. Reilly
Um jovem que é fascinado por Fitzgerald e os anos 20. Ele se hospeda com um excêntrico autor de teatro que trabalha como acompanhante de velhas ricas. O jovem não sabe se é gay ou hetero. Se veste de mulher. Well....é o mundo dos filmes alternativos made in Hollywood. Mas este até funciona. Não sei se ainda está em cartaz em SP, se estiver vale ver. Principalmente por Kevin Kline. Ele compõe um dos mais deliciosos personagens de sua rica e longa galeria. Kline não é muito do hype. Nunca foi doidão e sempre preferiu o teatro. Mas é o maior de sua geração ( aquela de Malkovich, William Hurt, Ed Harris, Dennis Quaid e Kevin Costner ). O modo como ele fala, se move e cria tiques e toques, e sempre mantendo o modo realista do personagem, nunca fazendo dele um cartoon, é fantástico. Veja e se divirta. Nota 6.
   FAUSTO de Alexander Sokurov
Eu jamais verei este filme de novo. Passada uma semana, do que me lembro? Nuvens, brumas, frases confusas, sujeira. Sokurov fez sua opção e a levou até o fim. Errou. Nota 2.
   CARAVANA DE OURO de Michael Curtiz com Erroll Flynn, Miriam Hopkins, Randolph Scott e Humphrey Bogart
Para curar a mente das bobeiras do "cinema de arte", nada como o cinema dos anos 30. O que define esse tipo de filme é sua falta de afetação. Observe este western. Um milhão de coisas acontecem em hora e meia. Lembro de aos 30 minutos pensar: "Caramba! Quanta coisa já aconteceu!" É um cinema de roteiro, de narrativa. Aqui estamos na guerra de secessão. Agentes do sul planejam levar ouro de estado do norte. Flynn é o nortista espião. Leva o filme com sua característica leveza. Ele é o paradigma daquilo que conhecemos como herói-bem humorado. Bogart faz um bandido de bigodinho. O filme foi feito antes de Casablanca e a Warner ainda não sabia do ator-ouro que tinha nas mãos. Há uma cena em carruagem onde Bogey assalta Flynn, Scott e Miriam. Eu juro que dá pra sentir o carisma de Bogey faiscar. Ele rouba a cena de Flynn, o que é muito dificil. O filme é uma delicia. Nota 8.
   A PERSEGUIÇÃO de Joe Carnaham com Liam Neeson
Tinha esperanças. Alguns criticos botaram nas nuvens esta pretensa aventura. Neeson e outros estão perdidos no Alasca após a queda de seu avião. Lobos os perseguem. Carnaham tem vergonha de fazer um filme de "mera aventura". Entope as cenas de "invenção". Um pé no saco! Nota ZERO
   INFÂMIA  de William Wyler com Merle Oberon, Miriam Hopkins e Joel McCrea
É um dos filmes que melhor exibe a maldade da infância. Duas amigas fundam uma escola feminina no campo. Uma das alunas inventa uma calunia sobre elas e as duas perdem tudo. O filme dá raiva. Odiamos a menina e seu sadismo. Wyler, tenho de dizer de novo?, é considerado o mais inteligente dos diretores da América. Ganhou 3 Oscars na carreira e é o recordista de indicações. Um mestre. Este filme é baseado em peça de Lillian Hellman. No palco a acusação era de lesbianismo, neste filme de 1936, se amenizou tudo e a acusação é de "triângulo amoroso". Nos anos 60 Wyler refez o filme, com menos censura, e o resultado foi ainda melhor. Mas mesmo assim este é um drama que consegue ainda despertar raiva, muita raiva. Nota 7.

Visão de Aniversário com Fernanda Young ....SARTRE, SIMONE, SAINT EXUPERY E UMA BOINA



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AQUILO QUE ME MANTÉM DE PÉ. AQUILO QUE CREIO. REI ARTUR E SEUS CAVALEIROS- TOMAS MALORY, O NASCIMENTO DO HERÓI QUE CONHECEMOS

   Após mergulhar nessas teorias e crenças, mundo do diabo, mundo de anjos maus, homens-canibais, humanismo reduzido a pura questão celular, repenso e reavalio aquilo que creio e percebo em meio a tudo isso o que fica, firme, para mim.
   Se a matéria é feita por Mefisto, nossa alma não é. E sei que todo o mal nasce sempre quando as aparências tomam posse das certezas. Tudo o que nasce nas profundezas da alma é verdade. Tudo. Todo o resto é material perecível, mutável e sem valor.
   Se os homens são canibais e apenas a religião consegue reprimir esse impulso em nós, bem, que essa repressão se torne cada vez mais forte e que se transforme em magnífico delirio. Chamarei esse delirio de canção. Faz muito tempo que sei que a repressão às vezes é necessária. Mais que isso, nos define.
   Se todo humanismo irá um dia ser esquecido, e tudo irá se reduzir a um conjunto de células ( há uma lógica nisso pois a história é redução. De filhos de deuses nos tornamos filhos da evolução, de centro da criação somos hoje dejetos e acidente ), se o homem do futuro é simples ser-vivo em funcionamento, cabe a nosso tempo dar vida potente ao que resta do humanismo. Reafirmar os valores do homem. Homem fora da natureza e da biologia. Homem que cria e é cultura.
   Relendo Artur.
   A estupenda revolução que ocorreu nos séculos IX e X. O nascimento do homem como herói. Mas não mais o herói grego. Odisseu era vitima dos deuses. O novo herói é dono de seu caminho. Ele vai atrás das aventuras, elas não são ciladas. Seu objetivo não é o dinheiro, não é a posse de uma dama, não é o troféu. Seu objetivo é ser o mais perfeito cavaleiro. E o que é essa perfeição?
   Perfeição que dominará nossos sonhos por mil anos e que entrará em declinio só agora. Perfeição que vem do valor de nascença. O homem é o lugar onde ele nasce. Defenderá seu nome. Elegerá uma dama e fará dela a rainha de suas ações. Atenção: não existe o fim em casamento. Esse amor, que será cantado e chorado é puro ideal. O cavaleiro sabe que ele não deverá jamais se realizar. E nisso eles foram bem mais sábios que nós. Sabiam que sua realização, sua queda ao mundo real, seria seu fim. O amor é ideal.
   Um cavaleiro deveria ser sempre sincero e só combater quem fosse de sua altura. Defender os fracos e todas as mulheres, ser poeta e músico, saber caçar e viver sempre em movimento. Embrenhar-se em florestas, procurar oponentes, lutar. Manter a palavra, ser fiel, nunca se render.
   Desse modelo vieram todos os nossos heróis. Dos cowboys aos detetives, dos Batmans e Wolverines aos heróis do espaço e poetas estradeiros. Todos os nossos modelos, modelos que começam a morrer mais ou menos de 1970 pra cá, foram criados e nascidos nesse ciclo Bretão, mitos da Bretanha francesa.
   Lógico que poucos foram heróis na vida real. Não é esse seu valor. O que importa é a força que criou esse mito. Um mito heróico que é em tudo opósto ao nosso mito de hoje, que talvez seja o "homem bem sucedido". Poucos são bem sucedidos, mas é esse o modelo que ficará de nosso tempo. Os povos do futuro nos verão idealmente como "homem bem sucedido".
   Essas imagens, Lancelot apaixonado pela esposa do Rei e sofrendo calado; Tristão vivendo isolado e anônimo, enlouquecendo de amor e perdendo a memória; Merlin e sua magia, enterrado vivo numa rocha; Percival e sua inocência, puro de coração e de corpo, errando pelo mundo atrás do Santo Graal, são todas imagens que segundo Jung habitam o inconsciente ocidental, nos dão criação, medos, desejos, doenças e motivação de viver. Todos eles renascem em nossos sonhos, nos filmes que vemos, nas músicas que cantamos, nos livros que lemos. Morgana e seu ódio invejoso, Isolda e seu amor que foge, A Dama do Lago protegendo e inspirando Artur, Guinevere e o triângulo amoroso com Artur e Lancelot. Os gigantes, os combates, os torneios. O confronto dos campeões, as mortes honradas, o perdão.
   O melhor de nosso mundo está todo lá. Tudo o que vale a pena nasce nesse momento. E é nisso que acredito, é isso que me dá toda a força e a minha vida é reafirmação daquele mundo.
   Todo o resto não me interessa.

RORTY E A DEFESA DA FICÇÃO

   Richard Rorty, filósofo morto em 2007, foi dos últimos a ter um pensamento corajoso. Pois em sua filosofia se encontra um dos mais intragáveis tabús para todo filósofo dito sério. Rorty defende o saber poético. Para ele, o mundo deveria ser regido pela imaginação e nunca pela razão. Ele explica.
   Toda a filosofia ocidental é filha de Platão. Na verdade, como se diz muito no atual século, toda a filosofia ocidental é apenas comentário de Platão. Ora, Platão tentou e não conseguiu ser um poeta. Viu todas as suas tentativas darem em nada e talvez venha daí a condenação total que ele faz a prática poética. ( Atenção, Rorty nunca foi poeta ). Rorty desconfia dessa opção filosófica. A razão jamais leva em conta tudo aquilo que possa ser subjetivo. Pior, todo filósofo tem apenas um objetivo, ser o dono da verdade, o homem que não pode ser contradito. Nada pode ser mais anti-democrático que um filósofo. A república de Platão é uma tirania onde apenas um pensamento pode existir, o platônico.
   O mundo do romancista é muito mais aberto. Ao escrever um texto ficcional, o autor se obriga a tomar contato com vários pontos de vista, várias vozes e várias situações. O verdadeiro ficcionista é quase proibido de ser um tirano. Traz dentro de si uma multidão de pensamentos que se contradizem.
   Isso passa para o leitor. O leitor de ficção será normalmente mais aberto e mais receptivo a novidades. Ele toma contato com pessoas e coisas que não são as suas. Ele se deixa ser habitado por personagens amáveis ou odiáveis. Deixa de ser si-mesmo e não se torna partidário do autor ( no máximo será seu amigo ou seu fã ).
   Já a filosofia exige atenção e submissão. Voce é enredado no pensamento do autor. Ouve sómente a ele, toma contato com uma única voz, uma única visão. Nada há de livre aqui, Voce o aceita ou o repele, não há meio termo.
   Torna-se fácil perceber então o aberto leitor de ficção e o fechado leitor de teses e de afirmações. Um escuta e dá voz, o outro afirma e julga.
   Richard Rorty foi diagnosticado com um câncer fatal. Disse ele, pouco antes de morrer, ter encontrado alivio ao desespero apenas na poesia. Religião ou filosofia de nada lhe valeram. Mas a poesia lhe deu um sentido para a morte. E era isso que ele sempre intuira:
   Se a filosofia cria homens cheios de si, e se a ficção do romance cria homens curiosos, a poesia cria a compreensão. Nesse terceiro estágio o homem passa a entrar em comunhão com as coisas, não em sentido religioso comunitário, mas em sentido pessoal e solitário. A poesia dá ao homem um entendimento do que seja a vida e a morte intuitivamente, algo que é completamente incompreensível pela via da razão filosófica. O poeta vai além do saber das coisas, ele passa a entender as coisas e a vivê-las plenamente.
   A filosofia será sempre parcial e excludente. A poesia é por natureza abrangente. Essa é a sua vantagem. Ela pode unir opostos e apostar em conflitos. Para a filosofia, presa em dogmas da razão, a abrangência é impossível.
   Richard Rorty por fim, dizia seguir o pensamento de Milan Kundera. Kundera dizia preferir pensar que o nascedouro dos tempos modernos se deu em Cervantes e não em Descartes.  O que explica o mundo são narrativas e nunca as teorias. Narrativas formam nossa auto-afirmação como seres privados e abertos. Teorias nos subjugam. O sonho de Rorty era uma sociedade regida por Walt Whitman ou por Homero e nunca por Kant e Platão.

OS CANIBAIS SÃO O FUTURO

   Rodrigo Petronio é professor de filosofia e poeta. Na revista Filosofia Ciência e Vida, ele escreve texto hiper-pessimista sobre aquele que deverá ser o futuro do homem. Não darei minha opinião. Apenas cito-o. Vamos a ele:
   Como disse Villém Flusser, genial filósofo da linguagem e da tecnologia, o sentimento religioso em nosso tempo finalmente se tornou geral. Todos partilham a mesma fé, a absoluta crença no vazio. O nada se torna o valor dominante e geral. Religiosamente, cultivamos essa absoluta falta de sentido, de finalidade e de fundo. Tudo pode ser tentado, pois tudo é sem qualquer sentido.
   Estamos no porvir da era do pós-humano. Assim como aconteceu a transição do macaco ao humano, teremos a transição do humano ao pós-humano. Se um dia um macaco se olhou na água e criou uma consciência, o homem olhará a sequencia biológica e se tornará pós-humano. A nova espécie será aquela dos homens feitos biologicamente. Nosso modo de nascer, fecundação ao acaso, em que sorte e deuses dão seu veredito, será considerada arcaica, simiesca. O pós-humano nasce em laboratório, sem acasos, sem falhas, perfeito, sem fados e deuses. Após o mundo teológico, em que espirito e arte mandavam, e o mundo antropológico, do engenho e da cidade, teremos o mundo biológico, onde tudo será visto não na perspectiva de Deus ou do homem, mas na visão de células e proteínas.
   Nesse mundo pós-humano, o primeiro a ser sacrificado será o cristianismo. E logo a seguir a filosofia e a arte. Ora, é exatamente o cristianismo que operou a amputação de um dos mais fortes apetites humanos: o canibalismo. Se homens podem comer seus primos macacos, pós-humanos comerão homens. Eis nosso destino. Tudo o que for "humano" será risível, tolo, infantil. O pós-humano se verá como o cume da evolução: a ameba, o ser que não mais tem vontades, não mais tem dor e velhice, que se alimenta e se reproduz sem traumas. Ele romperá a história que nos liga a Homero e Platão. Será indiferente, passivo, produtivo e bonito. E muito envergonhado de seu passado humano.
  No mundo do século XX a morte foi a plena realização da inteligência. A guerra e o campo de extermínio foram o apogeu da razão e da eficiência. No mundo do século XXI a técnica e o progresso produzem a neurose de massa. A tecnologia de guerra já se fez obsoleta, ela hoje só traz prejuízos, mas a doença mental não, ela é necessária para mover o trabalho, o consumo, a produção. Escravos da neurose, como já fomos da guerra, obedecemos a sociedade na esperança de nos livrarmos do medo, da solidão e da dor. Não percebemos que ela é que nos dá essa doença. Se faz o círculo.
  No mundo pós-humano não haverá mais a produção de neurose. O que manterá a sociedade em movimento será o canibalismo. Amebas se alimentarão de homens. Único modo de salvar a vida na Terra. Os humanistas poderão se queixar...que humanistas? Na visão de um cientista a vida humana tem valor idêntico a qualquer outra vida.´Somos todos filhos do acaso evolutivo. Que mal pode haver no canibalismo?
   Tudo no mundo moderno nos prepara para esse futuro canibal. A partir do momento em que vemos o homem como mera máquina biológica, em que tiramos dele tudo o que possa existir de único, de transcendente e de "humano", abrimos as portas para um futuro em que o homem passa a ser menos que pós-humano, alimento, como são os macacos, os coelhos ou os bois.
   Afinal, o pensamento "religioso" atual nos diz que somos uma poeira na poeira da poeira....que mal pode haver em comer poeira?

RONNIE VON, FERNANDA YOUNG, TELEVISÃO, BICHOS E ESTRELOS

   Ás vezes em meio a enorme quantidade de lixo-execrável a gente encontra alguma surpresa deliciosa na Tv. Fico zanzando por mais de 80 canais e percebo certas coisas. Em programas sobre bichos hoje a atração é o estrelo que apresenta a coisa e não o animal. E tome close da cara do bacana. Houve um tempo em que filmes apelativos e programas de Tv muito pop usavam melô pra pegar audiência. Era um tal de cenas bonitinhas e coisinhas gracinhas bem cor de rosa. Agora o que agrada é a violência. Todo filme tem de ter sangue e socos e tiros e explosões. Ou mesmo que nada disso apareça vai ter suicidio, gritos, doença terminal ou tapas na cara. Isso se reflete na Tv. Bichos comendo bichos. Todo o tempo. Nada mais de filhotes brincando ou belas cenas em paz. Como acontece até em programas de humor e novelas, violência vende. Então voce tem de ver o chato-estrelo se arriscando entre cobras e lobos...um saco.
   Outra coisa esquisita é a quantidade de programas que mostra gente trabalhando. Emocionantes cenas de corretores tentando vender casas, de machos arrumando encanamentos, policiais prendendo, mecânicos em ação e veterinários operando. Me parece que as pessoas estão num estado tão adiantado de domesticação para o trabalho, que agora até o lazer se faz em ver gente trabalhando. É como se fora do work nada mais importasse. Tem programas de culinária onde o cara tem de fazer 800 refeições em seis horas e um outro onde uma equipe tem de vencer outra equipe. O simples prazer de se ver um chef preparar um caprichoso prato já era. Culinária com competição, stress, pressa, sem frescura. Sem arte. O mundo está se tornando uma praça de alimentação.
   E passando en passant, vejo aquele monte de séries com imagens escuras bem pastel, falas ditas bem baixinho e closes em rostos sempre bonitinhos ( mas não muito ) vivendo seus draminhas tão chatinhos... E tome Ratinho gritando, e tome um traveco sendo analisado na La Gimenez. E o CQC posando de "inteligentes" mas sendo tão apelativos quanto tudo e tão frenéticos como um video clip onde a cantorinha vende seu corpo e nunca sua voz. O pior é esse futebol brasileiro, onde toda jogada acaba em cruzamento torto e tentativa de enganar o juiz.
   Mas em meio a toda essa coisa tem o programa do tio Ronnie. E Fernanda Young foi ontem o homenagear. Titio fazia anos. E digo pra voces que foi dos vinte minutos mais deliciosos em dias. Fernanda, que estava linda, tomou posse do programa e comandou a atração. Tentou ser fina como Ronnie e se perdeu, errou, atrapalhou-se, riu.  Fez-se o humor carinhoso, suave, sem querer. E ela, sempre esperta, deu o tom. Disse que o programa de Ronnie é anacrônico. Deliciosamente anacrônico. Todos sabemos Fernandinha. Tempo de lentidão onde não existe violência ou mundo cão ( que nunca é real na verdade ). Ronnie até lembrou de sua juventude em Niterói, quando posava de beatnik, cavanhaque e boina, apaixonado por Sartre e Simone. E é engraçado perceber que Fernanda é também sempre desse tempo chic e anárquico. Porque imediatamente antes do anglicismo de Beatles e Stones e do americanismo de Elvis e Dylan, houve o galicismo de Trenet, Gainsbourg e Vian. Tio Ronnie era um beatlemaníaco que ainda mantinha os acentos sofisticados da Rive Gauche.
   Depois na Tv Cultura passou um doc sobre Lacan. Mas quando começaram a tratar Lacan como um tipo de João Batista do deusinho Freud....Bien, eis o pior lado da França....O deslumbre com o dogma ( desde que pareça bem descartiano, n'est pas? ).
   Desliguei e fui pra cama. Titio Ronnie e a fada aflita Fernanda nos vingaram.
   Bons sonhos.

O PRÍNCIPE DAS TREVAS OU MONSIEUR- LAWRENCE DURRELL

   Durrell foi um daqueles ingleses que odiavam a Inglaterra. E fugiam do país em busca de se encontrar. No caso dele, seus lugares eram Egito, Provence, India e Veneza. Amigo de Henry Miller, ele vai mais longe que Miller em seu texto cheio de palavras bem urdidas e gostos amargos. O que Durrell realmente pensava é dificil saber. O que podemos é imaginar o que ele não foi. Conformista.
   Este livro teria problemas se escrito hoje. Voce logo saberá porque.
   Um homem viaja num trem rumo à Avignon. Lá, ele tentará saber do porque do suicidio de seu amante, Piers. Piers tem uma irmã, Silvie, que está num hospício. Ela também é amante do narrador. Um triângulo feliz, apesar dos pesares. Então vamos na memória do narrador. Ele recorda uma viagem ao Egito. No deserto eles conhecem Akkad, mestre em gnosticismo. Navegam pelo Nilo. O livro dá um salto a Veneza e lá ficamos sabendo que agora quem narra é o verdadeiro autor, um muito solitário veterano cuja esposa o abandonou por uma mulher. Em mais um salto, vamos brevemente a Viena e depois de volta a Provence, onde quem narra é um autor de best-sellers. Bem...acredite-me, Durrell consegue orquestar todos esses pontos de vista sem nunca parecer confuso. Porque ele faz isso? Mero capricho? Não, a mudança de narrador, de estilo, de ponto de vista é o próprio livro, já que seu tema é a ilusão, o real e o irreal, o que somos e o que não somos.
   Aprendi em linguistica que na verdade todos os livros ( e filmes ) têm sempre o mesmo tema: vida e morte. Durrell tenta ter uma unidade, ele fala da morte e não da vida. O livro pode ser entendido como a tentativa de se entender o que seja morrer. Não há uma resposta. Ainda bem...mas várias tentativas se fazem, e todas são terríveis. ( Um adendo: eu juro que o livro é alegre ).
   Durrell teria problemas hoje por se arriscar a ser chamado de anti-semita. Akkad, o gnóstico, diz que Deus foi destronado e o mundo que conhecemos tem apenas um criador e mestre, o Diabo. Toda a realidade é obra dele e isso é fácil de perceber, pois a vida nada mais é que guerra, fome, dor e morte. E uma grande ilusão, as religiões. E a mais ilusória seria o judaísmo e tudo o que ela trouxe: catolicismo, protestantismo, islamismo, e até mesmo Marx e Freud que nada mais são que filhos da velha Biblia hebraica. Tudo isso sendo um mundo de materialismo, usura, ouro, falo, sede, repressão e dogmas.
   Confesso ser dificil ler essa parte. Principalmente quando Akkad diz que ir contra essa obra do mal é não obedecer a vida. Não ter filhos, não lutar por nada, e morrer com alegria e de forma consciente. Perceber a ilusão que há nessa vida criada pelo mal e só pelo mal. Weeelllll..... Depois o livro dá seu golpe de classe. Ele próprio vai contra tudo o que falou. O novo narrador não pode crer nessa, segundo ele, "besteirada", ( mas deixa uma dúvida no ar ) e foge dessas questões. O que ele expõe é o massacre ocorrido no dia 13 de novembro de 1345, em que 5000 gnósticos da Europa foram presos, julgados e queimados, por ordem de Filipe, o Belo. Porque?
   Apesar de tema tão dificil ( todas as cerimônias são cheias de drogas alucinógenas ), o livro é solar. Durrell descreve o mundo, nosso, condenado a destruição e dominado pelo mal absoluto, e ao mesmo tempo dá descrições soberbas da Lua, do Sol, dos animais e das estradas. O texto é belo, vitalista, há prazer em ler. Esse seu grande mérito, ele fala de coisas terríveis, mas jamais se faz um peso.
  Após a leitura ficamos confusos. Qual a verdade? Quem nos controla?  Deus, Jesus, os Santos...ilusões do mal? Ou Jesus seria alguém que tentou lutar contra as trevas ( sabendo serem elas invencíveis, e portanto sendo um gnóstico ao escolher sua morte ). Não há solução e nunca haverá. O que fica é a sensação do ridiculo da presunção científica ( respondem sem responder nada ) e um gosto de Matrix na boca, azedo.

The Stolen Child - W.B. Yeats



leia e escreva já!

FAUSTO SOKUROV, O CINEMA DE ARTE É NOSSA SINA

   Toda forma de arte ao nascer e em toda sua fase mais pura não possui a divisão entre popular e artístico. Shakespeare era assistido por açougueiros e mestres de filosofia, e Haydn compunha para reis e ciganos. A divisão na literatura se dá por todo o século XIX e na música nos fins desse mesmo século. Mas isso aconteceu também com a pintura a dança e até com a culinária. No cinema, como com o jazz e o rock, isso aconteceu em poucos anos. O jazz dos anos 30 era uma coisa só. Duke Ellington ou Count Basie faziam arte ( em alto nível ) mas eram ao mesmo tempo populares. O be- bop faz a ruptura. No rock, Beatles ou Dylan foram simples e soberbos até 1967, e então se fizeram complicados e às vezes fascinantes. Com o cinema a coisa é bastante triste.
  Quando Fritz Lang ou Murnau faziam seus filmes eles não faziam filmes de arte. Eles faziam cinema. Renoir e Clair, Chaplin e Keaton, Dreyer e Ford não viviam em guetos separados com rótulos fixos. Eles navegavam entre o popular e o erudito. Agradavam, às vezes, o operário e o filósofo. Isso se manteve até os anos 60.
  Billy Wilder e Hitchcock jamais pensaram em fazer arte. Eles faziam filmes, aqueles que queriam fazer, e eram filmes "fáceis de ver" e ao mesmo tempo, cheios de sentidos, de pistas, de arte enfim. Mas esses dois campos foram se afastando por toda a década de 50. Essa culpa, se é que é uma culpa, pode ser creditada a Bergman. Mas também a Kurosawa e Buñuel. A crítica e os festivais começaram a tratar esses cineastas como a "realeza" do cinema. Os comparavam a Tolstoi e Proust e de repente, ser simplesmente um "cineasta" passou a parecer pouca coisa. Era preciso ser Bergman, um artista. E infelizmente, muitos diretores geniais como Hitchcock e Huston passaram a tentar ser "artistas". E se deram mal. Eles eram cineastas.
  Esses dois mundos se separaram cada vez mais, mas uma corda fina se esticou entre eles. Os artistas foram se tornando cada vez mais pedantes, os cineastas, cada vez mais cínicos. E alguns, os melhores, tentavam corajosamente, se equilibrar sobre essa corda que une os dois mundos. Fellini fazia isso, como fazia Truffaut, Coppolla e Malle. O que os artistas não percebiam é que Bergman sempre fez isso. E Kurosawa também. Por esse motivo eles são cineastas antes de serem artistas.
  Hoje a corda se transformou numa navalha. Cineastas artistas fazem filmes que não são mais cinema. São instalações, teses sociológicas, exibicionismos, experiências com imagens. E cineastas fazem filmes que procuram ser o mais cinemáticos possível, ou seja, ação e som que são apenas ação e som. O popular se faz hiper-popular, o artístico se faz como "filme de festival". Não se misturam. Claro, alguns poucos abnegados, que são inspirados pelo passado do cinema, tentam reatar os dois mundos. Tarantino, Soderbergh, Joel Coen, PT Anderson, Almodovar... procuram unir o popular e a arte. `As vezes acertam.
  Adoro A ARCA RUSSA de Sokurov. Fausto é um dos filmes mais chatos desta década de filmes chatos. Nem Von Trier consegue ser tão bocejante. O filme de Sokurov exala em cada fotograma uma afirmação: -Isto é ARTE. Se eu fosse Paulo Francis eu diria, "O mundo Jeca que nos deu Bjork e José Saramago chega à Russia".
  Tem até que ideias boas o tal filme. E não pense que o mundo do filme é o mundo de Goethe. É nosso mundo. Fausto em Goethe deseja o saber. Ele quer conhecer o segredo de tudo. Quer ser Deus. O Fausto de Sokurov, de 2012, quer ser feliz. Ele quer dormir, comer e amar. E ter dinheiro, poder. É um Fausto muito menos fascinante, sem coragem. O Fausto de Goethe foi o modelo para o homem moderno, um Titã à procura do saber. O Fausto 2012 é um deputado de Brasilia.
   O filme, como em Goethe, tem uma visão gnóstica do mundo. Deus existe e criou a vida, mas todo este universo é obra de Mefistófeles, o anjo negro. Se Sokurov não fosse tão artista, ele faria Mefisto como um sedutor. Mas ele pensou que isso seria pop, e fez dele um monstrengo fedido. Porque? A beleza é muito diabólica. Welllllll.....
   Há uma cena de beleza transcendente no filme ( que me levou às lágrimas ), é um longo close silencioso de Margarida. A luz a invade e ela se torna um anjo. Se Fausto pudesse ser salvo ele teria sua beatificação naquele momento, mas ele faz o contrário, estupra Margarida e faz dela uma puta. Em Goethe isso simboliza a destruição do bem pelo conhecimento, mas também pode ser a destruição da natureza pelo homem. Margarida é natural, Fausto é inatural.
  Mas de que adianta o filme ter um momento de tanta beleza se temos de caminhar horas de tédio até alcançar esse cume? Em A Arca Russa temos duas horas de incessante prazer, e o filme tem tanta profundidade quanto Fausto. Ou mais.
   Bem, de qualquer modo este filme tem uma bela função. Serve para que aqueles caras que odeiam e desprezam bons filmes pop ( westerns, comédias, romances ) sejam obrigados a passar por seu grande obstáculo: Hey, voce que se acha um intelectual só por ter adorado Clube da Luta ou Peixe Grande, saiba que aquilo é cinemão, popular como Homens de Preto ou Avatar. Isto é que é a tal arte para poucos. E então? Gostou? 
  Quanto mais entendo de cinema mais tenho a certeza de que nada foi melhor que o cinema dos anos 30.