O FALSO E O VERDADEIRO. O ÚLTIMO SUSPIRO DO ROMANTISMO REVOLUCIONÁRIO- OUVINDO O BANQUETE DOS MENDIGOS E TRAVESTINDO-SE NA VERDADE

   Foi um longo caminho de 1776 até 1968. E ninguém nunca vai saber se valeu a pena. Foi uma lenta, às vezes nem tão lenta, construção. A derrocada da igreja e o erguimento do Homem como dono de sua dor. A glamurização do jovem entediado como Ser Superior. E isso levou muito tempo.
   Doeu pra caramba. Porque o preço pago foi incalculável. Um monte de jovens se foderam. E todas as redes de segurança espiritual se rasgaram. Mas cabelos compridos, calças de veludo e copos de veneno se tornaram dominantes desde então. Uma estrada que parecia ser sem fim. As estações se chamavam simbolismo, anarquismo, socialismo, dadaismo, existencialismo, beatniks. E todos esses movimentos explodiram em meio a uma juventude com tempo livre, grana no bolso e tédio na cabeça. Em meio a maio, ´mês de verão.
   Ninguém entendeu melhor o que acontecia. Nem Kundera. Jagger e Richards entenderam na hora qual era o desejo que desde sempre enfeitiçava os romanticos revolucionários do planeta. Mas antes de dizer qual era eu vou falar qual não era.
   Para Dylan era a vontade de justiça e de liberdade. Para Lennon era o sonho de paz e amor. Bláaaaa.
   Então voce tem 14 anos e escuta este disco pela primeira vez e percebe que o desespero contido nele é quase suicida. Todas as faixas falam de se estar perdido, de vazio e solidão, de satã e de raiva, muita raiva. Perigosamente voce, embutido do romantico apelo de poetas sinceros, crê em tudo aquilo, crê nas frases ditas. Voce, jovem idealista, sente uma vontade grande de quebrar e se quebrar. Mas depois, bem mais tarde, voce percebe o que Jagger e Richards perceberam antes. O desejo sempre foi um só: sexo, sexo e sexo. Todo o tempo, livremente e sempre que se desejar. E quando o vazio pós-coito vier, uma garrafa de bebida e a paz de um corpo cansado.
   Em 1968 Godard fez um filme com os Stones. Jean-Luc acreditou no que era dito no Banquete. Levou ao pé da letra. Jagger enrolou Godard. Riu dele e o filme é um lixo. Mick nunca teve nada a dizer. Seu discurso estava simbolizado nos requebros de seus quadris. Nada precisava ser dito. Ele falava que maio de 68 era o último suspiro ingênuo de adolescentes entediados que queriam mais sexo e menos familia. Se em 1776 essa energia fez um país e criou uma forma de vida, em 1968 ela só poderia criar moda. E criou.
   O disco é sublime. É extremamente cortante e extremamente suave. As guitarras parecem navalhas, não há disco em que elas soem tão metálicas. Parecem de lata enferrujada. E ao mesmo tempo há arranjos como o piano em No Expectations que é belo como o sorriso e a flor.  É um Banquete que recapitula tudo: de Beethoven até Stravinski. De Byron à Rilke. Jagger nunca cantou tão bem. E ele enterra a década de 60 dois anos antes de seu fim. A revolução estava encerrada. O ganho: Todos poderíamos ser Mick Jagger. Eternos adolescentes entediados.
   Brian Jones não pode tocar. Ficava dormindo num canto do estúdio. Dizem que Clapton e Steve Marriott tocaram guitarras. Sei lá. É um disco travado. Pra se ouvir de dentes cerrados. Ele marca o arranco da banda. Serão 4 anos insuperáveis.
   Em meio ao Kaos de tijolos e policiais, muitos caras caíram na real. A última revolução era um acerto de contas entre voce e voce-mesmo. O mundo já era dos jovens e o sexo já não era tabú. O que restava era saber lidar com o spleen, o vazio da vida, o nada a dizer. O Eu.
   Mick Jagger, de forma maravilhosamente intuitiva, soube disso muito antes. O que restava era montar uma banda e tentar chamar a atenção.
   Este disco é um porrete.
  

Mary Poppins - Supercalifragilisticexpialidocious The English Way



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MARY POPPINS ( É POSSÍVEL SE FAZER UM FILME ASSIM HOJE? )

   Julie Andrews trabalhou no vaudeville inglês desde criança. Adulta, criou o personagem de Eliza Doolittle no MY FAIR LADY original. Brilhou depois na Broadway, nesse que foi o maior fenômeno de sua história. Mas quando Jack Warner resolveu filmar MY FAIR LADY resolveu dar o papel de Eliza para Audrey Hepburn. Julie Andrews reagiu como uma lady.
   Ao mesmo tempo, após passar vinte anos tentando convencer a autora P.L.Travers a ceder os direitos, Walt Disney, em pessoa, preparava Mary Poppins. Uma noite na Tv, viram Julie Andrews numa cena de CAMELOT, ao lado de Richard Burton. MARY POPPINS seria o primeiro filme de Julie Andrews. E em sua estréia lhe daria o Globo de Ouro e o Oscar. Vencendo...Audrey Hepburn em MY FAIR LADY...
   O filme conta a história de uma babá que na Londres de 1910 vai cuidar de um casal de crianças. Elas são filhas de um pai que só pensa no trabalho e de uma mãe "politizada". O que Mary Poppins fará com as crianças? Liberará TODA a sua fantasia. E nesse processo o filme pode ser visto de dois modos.
   Como obra-prima do cinema para crianças ( mas não infantil ), ele valoriza a inocência. Mas não é a inocência passiva, é sim a ativa fé na criatividade, no jogo e na fantasia. Ter sido  criança e ter visto este filme no cinema se revela uma experiência para o resto da vida. Mary mostra aquilo que toda criança tem em si-mesma. Ela joga com imagens, com palavras e com as emoções. Mas há no filme uma visão adulta também, e essa se revela muito rebelde.
   Feito em 1964, no inicio da contra-cultura, o filme antecipa em dois anos o que seria dominante na swinging London de 1966. Mary Poppins voa quando quer, tira objetos imensos de sua bolsa, viaja pelas tardes de sol. E se não houver sol, ela faz com que ele surja. Mais que isso, ela ensina a se imaginar a vida, a se criar a própria realidade. Mas é no personagem de Dick Van Dyke que mora a contra-cultura.
   Bert, esse personagem, é pintor, limpador de chaminés, músico e poeta. É um hippie de 1910. Tudo para ele pode ser divertido. E trabalho tem de ser visto como coisa criativa, ou não vale a pena. O filme, pasmem, feito para crianças, prega abertamente a inutilidade do trabalho, a morte que existe na rotina cotidiana. O pai, pobre coitado, só pensa na moral vitoriana, naquilo que é util e racional. Mary Poppins instaura o reino da irracionalidade e do maravilhoso inutil.
   Cena das mais hippies é aquela do velho Uncle Albert, um homem que ri sem conseguir parar e que ao rir sai voando pelo quarto. Quem pensou em maconha acertou.
   A trilha sonora é dos irmãos Sherman. Richard morreu semana passada. É uma trilha genial. As músicas têm todas o sabor do music hall inglês, são como cançõe de pub, para se cantar em grupo e dando piruetas. Tanto Julie como Dick fazem com que nos apaixonemos por elas. Voce vai dormir pensando no que viu e acorda cantarolando.
   Porque não se faz mais um mísero filme como este? Tão feliz, alegre, pra cima, que faz com que seu público se sinta inspirado, confiante, leve?
   Ele foi um fenômeno de bilheteria e penso que hoje seria um sucesso na Broadway mas jamais nas telas. Ele pede gosto de seu público. Bom gosto e ausência de cinismo. Além do que não temos uma Julie Andrews dando sopa por aí. E nem compositores como os Sherman. Muito menos Walt Disney. Musicais são os mais trabalhosos dos filmes. Eles precisam de dezenas de grandes talentos. Ou o fiasco se faz. Um musical precisa de atores que cantem e dancem e que possuam simpatia avassaladora. Precisam de frases curtas e leves. De um diretor que entenda de ritmo e de harmonia. De excelentes cenógrafos. De músicas que grudem e conquistem em um minuto. E de muita fantasia. Mas os musicais precisam acima de tudo de um público que se permita flutuar. Que se solte. Educado para a poesia dos musicais.
   MARY POPPINS tem cinco canções que são obras-primas. Cinco. Uma delas levou o Oscar de canção. Ela é cantada até hoje. Quem lembra da canção que venceu no ano passado?
   Candidatos a melhor filme em 1964:
   DOUTOR FANTÁSTICO de Kubrick; MY FAIR LADY de Cuckor; BECKETT de Peter Glenville; MARY POPPINS de Robert Stevenson e ZORBA O GREGO de Cacoyannis. Eu só não conhecia Mary Poppins. Já conheço. Os cinco mereciam vencer.  E só pra humilhar, os atores daquele ano foram Richard Burton, Peter O'Toole, Peter Sellers, Anthony Quinn e Rex Harrison. Tá bom?
   Uma cena como aquela do telhado em que dezenas de limpadores de chaminés dançam de tarde, ou um final como aquele das pipas vale por cada centavo gasto em sua produção. Que delicia de filme!!!!

DIVAGANDO, ANDANDO, COMPRANDO, LENDO

   Cheguei então aos 2.500 dvds. Todos devidamente divididos em gêneros. Está dificil comprar novos títulos. Vários que já tenho são relançados e as caixas que eu tanto gostava não são mais produzidas. Olho e olho as novidades e não há nada....
   Estou na livraria. Ouço um cara falar que finalmente terminou "EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO". E uma mulher, bonita, pergunta por "A NOITE DE SÃO LOURENÇO" dos irmãos Taviani. Um menino olha um livro sobre Billy Wilder e um barbudo leva tudo de Buster Keaton.
    Alguém escreveu que o cinema ( adulto ), é hoje um tipo de "teatro". Meia dúzia de adoradores que estão sempre discutindo e revendo os Beckett/ Pinter e Brecht de sempre. Uma espécie de igreja pagã. Acho que todos os fiéis estavam hoje na livraria. Uma menina comprou um filme silencioso de Griffith.
   Madonna dirigiu um filme e o roteirista diz que ela é louca por Jean-Luc Godard. Madonna não é baladeira, fica em casa vendo filmes. Já viu "tudo" e adora a nouvelle-vague. Tenho saudades de quando comprei meus dvds de nouvelle-vague. Redescobrir a NV é uma experiência deliciosa. Dá a sensação de que dá pra se fazer tudo em cinema. Voce se sente livre. Tem um monte de diretores de quarenta anos que endeusam BANDE A PART ou WEEK-END. É a sedução da liberdade.
   Vejo numa revista que Hilda Hist morava isolada com 90 cães. Ela leu um livro de Niko Kazantzakis que dizia que a solidão é primordial ao criador. Então ela largou amores e badalações e se isolou pra criar. E conseguiu. Eu conheço esse livro do Kazantzakis. É TESTAMENTO PARA EL GRECO, um livro que todo mundo devia ler. Nele, Niko está em crise. Deixa de ser cristão e vira budista. Mas descobre que Cristo, Buda, Maomé são todos o mesmo. Ele se isola, e tenta conciliar com esse isolamento seu interesse pelo mundo. Ele segue Lenine, ele se interessa pela história, conhece a guerra. O livro exibe esse conflito. Uma alma que deseja a solidão para encontrar a criação e o Criador. E um homem que deseja a vida ativa, o mundo, os seres. Preciso reler. Li esse livro em 1989. Nunca o reli.
   Walter Carvalho fala que toda a criatividade de um cara se faz entre o fim da infância e o inicio da adolescência. Entre os 11 e os 13 anos. É verdade. É a genuína verdade.
   Compro A NOVIÇA REBELDE. Nunca vi esse filme. É aquele que bateu o recorde de bilheteria de E O VENTO LEVOU, em 1965. Nunca tive vontade de ver. Mas ele está sendo reavaliado e estou curioso. Julie Andrews é adorável. E compro também o DIVÓRCIO À ITALIANA, que saiu finalmente em dvd e que aconselho a todo mundo. É uma obra-prima da comédia humanista italiana. E tem um dos três maiores desempenhos de Mastroianni. Ele faz um conquistador de cidade pequena, super vaidoso, machista, tolo. É uma coisa de impressionar. Marcello foi um rei dos reis. O bigode que ele usa já vale o filme.
   Lançaram as bios de Pedro Nava. São milhares de páginas com as lembranças de Pedro. Ele escreve à Proust. Lerei um dia.
   Tudo sempre passa por Marcel Proust. Nosso mundo é um círculo em que as coisas retornam e se desfazem. Para depois serem retomadas. E reinterpretadas. É como se tudo fosse sempre agora.
   Tem um Henry Fielding em capa dura e ilustrado que muito me interessa. Fielding de luxo no Brasil....É um país estranho pacas.
   Terminei de ler MINHA VIDA DE MENINA, de Helena Morley.
   Helena era filha de ingleses. Escreveu entre os 12 e os 13 anos um diário. O livro, extraordinário, é esse diário. É hoje um clássico, traduzido entre outros por Elizabeth Bishop para o inglês. Morley mostra o que era o interior de Minas em 1895. Muita igreja, muita fruta roubada no pé, pescarias e uma familia imensa.
   Os filhos eram criados por mãe, pai, tia, avó, primos, vizinhos, padres e professores. Hoje quem os cria? Na época do livro ficar só no quarto era uma coisa de gente louca. Comer sózinho era impensável. São conversas longas à noite, idas às festas, casamentos e enterros. E os negros.
   As pessoas pegavam negrinhos pra criar em casa. A escravidão não existia mais, mas os negros estavam sem posição, meio perdidos. Então a gente lê sobre montes de negros, alguns morando nas casas grandes, fazendo bicos, e tendo filhos que os brancos recolhem.
   É um mundo longe de nós. Tudo o que as meninas querem é comida. Doces e brincadeiras são toda a felicidade da vida. E a figura paterna, sempre distante. Livro bonito.
  

OS VISITANTES DA NOITE, FILME DE MARCEL CARNÉ. O AMOR É O QUE?

O Diabo se ressente. Ele odeia vozes de gente e o som dos sinos. Adora o silêncio, o estar só e o fogo.
Um casal chega a um castelo. Estamos em 1400. Esse casal se apresenta como dupla de cantores. E fazem parar o tempo. São dois enviados do Diabo.
Seduzem o dono do castelo. Seduzem a noiva de um barão. Seduzem o barão. Brincam com essa sedução. Tudo vai em seus conformes, mas o amor é um enigma. E é então que o filme cresce.
O diabo usa o amor para o mal. Mas o amor pode vencer o mal. Como entender isso? O amor é um bem ou um mal?
Foi pouco antes do tempo em que o filme se passa que o amor revolucionou a mente dos homens. O amor como o conhecemos, o amor das canções e da renúncia, é criado pelos menestréis e pelos franciscanos. Mas que amor é esse que fez de nós seres obcecados por ele? Ele nos é natural ou foi por nós criado?
Um dos enviados do Diabo se apaixona de verdade. Rompe seu pacto. E o próprio Demo em pessoa vem ao castelo intervir. O Diabo torturará seu enviado, atormentará a jovem donzela. Ele se irrita com esse amor, zomba dele, joga com ele.
Conseguirá vencer. Ou não? Em amor nunca se sabe o que é vitória ou o que seja uma derrota.
Marcel Carné fez aquele que é considerado o maior filme francês do século ( O Boulevard do Crime). Este foi feito três anos antes e tem como em Boulevard, roteiro de Jacques Prévert. O que? Voce não conhece Prévert? Bom...Prévert foi poeta, pintor, músico. Da turma de Picasso, é considerado um dos grandes da França. Ele sabe do que fala. As canções de amor são lindas. E medievais.
Voce pode definir uma posição perante a vida de acordo com suas escolhas em cinema. Scorsese ou Altman. Bergman ou Fellini. Kurosawa ou Ozu. Ford ou Hawks. De Sica ou Rosselini. Truffaut ou Godard. E Carné ou Jean Renoir. Prefiro Marcel Carné. Ele é sempre simbólico. Renoir era realista.
Bergman adorava Carné e bebeu muito neste filme. O Olho do Diabo é sua versão desta obra.
O filme é hiperbólico, teatral, artificial, e tem uma assinatura de esteta. É belo. Adulto.
O que seria esse tal de filme adulto de que tanto falo?
Simples. Ele só será entendido por quem amou de verdade. Por quem já foi um "diabo". Por quem tem algum passado. O filme infantil dispensa qualquer prévia experiência. E qualquer cultura também. O filme adulto pede que voce se erga e vá à ele. O infantil se dá barato.
Pleno de milhares de conexões ( não seria nosso mundo, de solitários silenciosos, um mundo do diabo? ), Os Visitantes da Noite é um grande filme.
E é um alivio voltar a meus velhos clássicos.

NOVIDADES BABY

É por isso que tenho a sensação de já ter visto as novidades baby. Eu as vi em 1979.
Bowie com Klaus Nomi em 1979... sei lá, depois disso eu até que me interesso por rock de raiz, tipo White Stripes ou por misturas de rock com rap ou com funk. Até que me interesso por regressivos como Chris Isaak ou Amy Winehouse.
Mas não vem me falar de nomes "artísticos" ou "relevantes". David Bowie fez antes e fez melhor.
Novidades baby? Que novidades? O sonho de todo "artista" é ser Bowie ( como o de todo "elegante" é ser Ferry ).
Um presentinho pra voces, jovens babys, aí embaixo. Quem ainda tem salvação...que faça bom uso.
PS: David Bowie me dá sempre a sensação de ser o único cara na história do rock a saber quem é Jean Cocteau.

David Bowie on Saturday Night Live-Boys Keep Swinging



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David Bowie - The Man Who Sold The World (1979 Saturday Night Live)



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HUGO/ SPIELBERG/ KIRK DOUGLAS/ JOHN WAYNE/ MUPPETS

   A INVENÇÃO DE HUGO CABRET de Martin Scorsese com Ben Kingsley
São os mais belos cenários digitais da história. E Martin demonstra um amor inocente ao cinema. O filme é um imenso cartão postal para Georges Méliés. E tem cenas comoventes com Buster Keaton. Mas eu duvido que alguém vá gostar do cinema que Martin homenageia só por ter gostado deste filme. O público que predomina nas salas de hoje está pouco se lixando para o que seja a tal "arte cinematográfica". Se lixa menos ainda para o que seja sua história, sua origem. Eles querem emoções simples, rasteiras e óbvias. De agora. Mas devo dizer que com toda essa beleza e nobres intenções, é um filme com miolo enjoativo, cheio de momentos chatos. De qualquer modo seu terço final é bastante bom. Para cinéfilos é fascinante ver a recriação dos estúdios de Méliés e dos bastidores de seus filmes. Nota 7.
   O CAVALO BRANCO de Albert Lamorisse
Curta de diretor que depois se tornaria famoso com O Balão Vermelho. Aqui ele fala de garoto que tenta domar cavalo selvagem. De melhor há a paisagem da Camargue, região do estuário do rio Rône. Um pântano sem fim, plano e muito agreste. Nota 5.
   TINTIM de Steven Spielberg
Se voce gosta de Hergé, fuja. Nada há aqui do visual limpo, elegante, solar do desenhista belga. Pior que isso, o capitão Haddock se tornou um patético alcoólatra. O filme nem sequer usa suas blasfêmias. Em tempos moralistas, fizeram de um bêbado simpático, um doente chato. O filme é barulhento, histérico, excessivo. A ação nunca consegue empolgar, o filme não tem humor e não tem suspense. Pior que tudo, o roteiro acaba por se revelar mal cosido. Nota 2 por algumas belas paisagens.
   GIGANTES EM LUTA de Burt Kennedy com Kirk Douglas e John Wayne
Já foi feito no ocaso do western. É sobre um plano de assalto a diligência. Wayne e Kirk são ex-inimigos que resolvem agir juntos. O filme é ok. Tem ação e tem leveza. Mas tem principalmente a verve safada de Kirk Douglas. Ele adora fazer esse tipo de mulherengo sujo, mentiroso e sorridente. Gostamos de vê-lo na tela. Wayne está cansado. Deixa que o filme fuja de suas mãos. Apenas está lá, sendo o mito da velha América. Para quem ama westerns é uma bela diversão. Nota 6.
   OS MUPPETS de James Bobin
É o recente filme dos geniais bonecos de Jim Henson. E este filme prova o dom único de Jim. Caco é comandado por outra pessoa, Henson já morreu. E juro que dá pra notar que não é ele. Caco perde em humanidade, os movimentos estão mais duros, a mão se move com menos precisão. O filme em si é muito fraco. O problema não é o fato das novas gerações não conhecerem os bonecos, o problema é o roteiro muito ruim. Nota 1.
   O CAÇADOR de Daniel Nettheim com Willem Dafoe
Como cinema é banal. Filmado sem emoção e sem criatividade. Mas ele tem duas coisas que o notabilizam: o cenário e o tema. É filmado na Tasmânia, um lugar que não se parece com nehum outro do planeta. E fala de um caçador que é contratado por uma corporação cientifica para matar o último Tigre da Tasmânia e recolher suas vísceras e sangue para pesquisas. O que vemos é toda a caçada desse homem calado, e sua súbita tomada de consciência. O final é bem triste. O tema mexeu bastante comigo. É o tipo de filme comum ( mas nada ruim ), que dá margem a horas de conversa. Nota 5.
   QUASE FAMOSOS de Cameron Crowe
Não gosto de pensar neste filme e revê-lo foi uma experiência ruim. Ele me dói. Fico louco de saudades daquilo que fui, daquilo que presenciei e daquilo que a gente perdeu. A inocência só se perde uma vez. O mundo nunca mais será ingênuo. Restam as músicas, a trilha do filme é covardia, tá tudo aqui, de Neil Young à Thin Lizzy. Absolutamente deslumbrante. Mas me dá uma tristeza cruel.... Nota 9.
   JOVEM NO CORAÇÃO de Richard Wallace com Janet Gaynor, Douglas Fairbanks Jr e Paulette Goddard
Uma familia que vive de golpes malandros, envolve uma velhinha solitária em suas tramóias. Os atores são excelentes e fazem tudo aquilo que dele se espera. Temos Douglas sendo jovial, Janet como uma doce mulher e ainda Roland Young fazendo seu ótimo tipo excêntrico. É gostoso de ver, mas às vezes cai num melô forçado. A senhora solitária é boazinha demais. Nota 5.

QUASE FAMOSOS-CAMERON CROWE

   Andei acompanhando a coluna de André Barcinski pós-Oscar. O que ele mais falou foi sobre o fato de que filmes que nos anos 70 fariam sucesso hoje passam batido. São poucos bons filmes que se produzem agora, e esses poucos são ignorados. O gosto se tornou tão medíocre, que Chinatown ou Mash hoje seriam provávelmente, um fracasso. E os dois foram big-hits em seu tempo. Scorsese, Altman, Polanski ou Bergman tiveram muita sorte de nascer quando nasceram. Nascidos vinte anos mais tarde seriam hoje diretores "alternativos" com uma filmografia minúscula. O cinema se tornou coisa de quem tem 12 anos.
   Existe um momento na vida de um diretor em que ele dá a grande cartada. É o momento em que sua carreira se define. Se acertar, nasce uma nova etapa, nova vida. Se errar, sua carreira se torna confusa, irregular, e pode até se encerrar. Bergman viveu isso ao fazer Persona, Fellini com Oito e Meio e Kurosawa com Os Sete Samurais. Acertaram, se fizeram novos artistas. Mas há os que erraram, e pagaram o preço. Scorsese errou em O Rei da Comédia, e se perdeu por quase dez anos. Coppolla fez Apocalypse e morreu como diretor popular. Tim Burton jogou tudo em Big Fish e desde então está preso a refilmagens e perdeu seu fogo. E há o caso trágico deste Quase Famosos.
   Quando foi lançado a expectativa de crítica e estúdio era de um super sucesso. Já se contava com seu Oscar de melhor direção. Mas o fracasso de público foi tão grande que tudo que a academia pode lhe dar foi o prêmio de roteiro. Foi a partir daí que eu comecei a perceber que o filme que seria um sucessão em 1973, em 2003 seria um fiasco. Desde então Cameron se perdeu e Kate, Billy... todos tiveram sua ascensão interrompida. Porque? Eu não sei.
   Nunca o Led Zeppelin permitiu que suas músicas fossem usadas em cinema, aqui temos várias. Isso porque Cameron foi aquele garoto do filme. Ele seguiu o Led na adolescência cobrindo a excursão da banda para a Rolling Stone. E é maravilhoso vermos aquele bando de doidos fazendo uma revista que se mantém até hoje. O filme tem dezenas de cenas maravilhosas, dúzias de músicas soberbas, e interpretações inspiradas. Voce se apaixona pelas goupies, pelos músicos, pelo rapaz e até pela mãe. É um filme solar, claro, dourado, pra cima, e jamais parece tolo. Trata a adolescência com respeito. É um grande filme, mesmo para quem não gosta de rock. ( Assisti na época com minha namorada que odiava rock. Ela adorou o filme ).
   A banda retratada combina a fama do Led com o jeitão dos Eagles. No roteiro há pitadas de Who e The Band. O cantor que foge e se joga na piscina é Robert Plant e o batera que se diz gay no avião em pane é Keith Moon. Cameron estava lá, ele sabe o que diz. O filme não pega pesado em drogas, em sexo e não tem violência e nem gente no hospital... acho que é por isso que fracassou.
   Rod Stewart e Elton John são resgatados em duas cenas poéticas e tristes, mas Sparks do Who está na cena símbolo do filme: quando ele descobre os discos da irmã. É lindo.
   O filme deveria ter feito de Kate uma estrela e de Billy um star. Não fez. Pena. Eles brilham como astros. Amam seus papéis. O tempo fará justiça a este filme como faz a suas músicas. Não, não vou falar de minhas lembranças pessoais desse tempo. Foi o tempo em que o rock era uma religião, e em que ele ditava as regras da arte. Ao mesmo tempo, foi o momento em que o lixo de hoje se instituiu: drogas, infantilidade e individualismo extremado. O filme mostra isso: amamos aquela banda porque eles fazem o que sempre sonhamos em fazer- ser adolescentes para sempre. Um playground do tamanho de um estádio. Estamos no furgão deles até hoje.
   É um puta filme.
  

VIDA

   O que mais temos para aprender com a Europa? Entenda, eu amo a cultura européia, mas o que posso ver de realmente novo nos gregos, latinos ou celtas? O que me revolucionará no romantismo, existencialismo ou na psicanálise? Nada, absolutamente nada. Amar a Europa como eu amo é amar uma rememoração eterna. É amar o já conhecido. Museu.
   Quantas civilizações foram apagadas antes de as conhecermos? Quantas lendas e histórias eu poderia ter escutado? Uma visão original de mundo extinta. Modos de explicar a vida que me foram roubados.
   Secamos aos poucos, morremos em repetição sem fim. Uma visão de vida em um único mundo homogêneo. Uma resposta para cada única pergunta. Um ditatorial modo de vida. E mais nada.
   Cada tribo aborigene que se vai é uma liberdade de viver a menos que se nos dispõe. O planeta que sempre foi uma sopa de vidas se faz um bloco de concreto puro. O que aprender de Nietzsche ou de Platão? A vida ansia por conhecer o que é diferente. Onde? Se aquela gente que tinha uma original história sobre a criação se foi para sempre?
   Chegará um tempo em que a única verdade repousará no MIT. E em que não mais saberemos o que seja a palavra liberdade. Livre será um cara sobre uma bike numa ciclovia em meio a cidade. Acharemos que isso é ser livre. E em que os únicos bichos conhecidos serão os de fazenda e os pets. Pensaremos que um cão de rua é livre. Tudo no mundo será humanizado e então, sem ver mais deiferença em nada, teremos chegado a solidão absoluta. A solidão de quem vê espelhos em tudo. Máquinas e bichos "humanos" e gente que pensa e faz tudo como todos fazem.
   Eu quero saber de gente que vem de onde eu não vim. E que pensa completamente diferente de quem eu conheço. Outra história, outra crença e outras verdades. Opções de liberdade.
   Não quero que a ciência reviva o Tigre da Tasmânia. Se o fizer, ele será apenas um ser da ciência a ser usado pela ciência. Este mundo não é mais o dele e não o merece. O que eu quero é que a vida seja amada. A vida em toda sua crueza e complexidade. Respeitada amplamente.
    Temos tudo a aprender com um macaco, um peixe ou um velho indio.
    Um professor da Sorbonne não nos salvará.

El último tigre de Tasmania (Tilacino)



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O TIGRE DA TASMÂNIA

   Quando tempos atrás andei lendo relatos sobre descobridores, os homens que desbravaram mares e continentes lá pelos séculos XVI ou XVII, o que mais me chocou foi a indiferença que eles tinham à vida. Em cada praia que eles aportavam acontecia um alegre massacre. Focas eram mortas aos milhares, pinguins esfaqueados, pisoteados, esmagados, mortos às cacetadas. Bichos, que por jamais terem visto um homem, tolamente não os temiam, eram trucidados. Pássaros eram mortos aos milhões ( sim, voce leu direito, milhões ). Há uma cena em que ao chegar a uma ilha os marinheiros se divertem matando focas às cacetadas. A praia se enche de sangue e os marujos só param quando ficam totalmente cansados. E a diversão recomeça no dia seguinte. Ler essas páginas, que na época deveriam ser divertidas, é insuportável. São homens que eu não aceito como meus irmãos.
   Foi nesse processo que se aniquilou o pássaro Dodô e o Tigre da Tasmânia. O Dodô foi extinto por volta de 1700, mas o Tigre é mais duro de aceitar, ele desapareceu em pleno século XX. Madeireiros e mineradores da Austrália se divertiam em matar e exibir o corpo do animal. Existem fotos desse festim. Existe um filme do último Tigre vivo. Ele está preso numa jaula, é 1920, e ele é o último dos últimos.
   Pense. Se um dia o último homem desaparecer, com ele "o mundo" morrerá. Com esse homem, toda a visão de mundo da espécie irá deixar de existir. Pior, será como se ele jamais houvesse existido. Quando uma espécie deixa de existir, todo aquele mundo, dela, se vai embora com ela. E o mundo que resta fica mais banal, menos multi-facetado, empobrecido.
   Daí voce pode pensar: E daí? Tudo tem seu tempo.
   Mas se os dinossauros nada tiveram a ver conosco, saiba que quando matamos e perseguimos um bicho até sua extinção, é à vida que massacramos. E por mais que tentemos ignorar, temos consciência do mal que é feito. Matamos e aniquilamos, e depois nos sentimos indignos da vida. E cheios de nojo, matamos o que resta. Seja numa visão religiosa, ou seja numa visão ciêntifica, é um crime. Roubar da vida uma espécie, riscar da história uma trilha evolucionária, é imperdoável.
   Cada vez mais tenho a certeza de que estamos aqui para cuidar da vida. Se somos os únicos seres com habilidade o bastante para amparar, remediar e prevenir a morte, temos a obrigação de preservar a vida. É o único ato que pode nos dar sentido. Deixar que um ser seja o último, é o pior dos crimes.
   Sim, somos por natureza violentos, egoístas, vorazes e muito covardes, sei de tudo isso. Mas sei também que temos a liberdade de lutar contra nós mesmos. De sermos pacifistas, altruístas e preservacionistas. Quem empaca apenas na constatação de nossa maldade tem uma postura preguiçosa, conformista, morta. Somos e temos sido maus. Mas temos a obrigação de lutar contra isso.
   Obrigação perante o que? Perante a vida. Toda a nossa história tem sido uma história de morte, massacre e egoísmo. E não tem dado certo. Somos infelizes e estamos sempre com medo. Se apostamos na morte, e é o que fizemos sempre, apostamos errado. O Tigre da Tasmânia é a prova de nossa burrice.
   O dia em que, em meio aos massacres, um marinheiro parou e olhou para uma foca e sentiu compaixão, esse dia foi especial. Alí nascia uma nova visão. Criava-se uma ponte entre duas espécies distintas. Um mamífero primata sentia algo por um mamífero absolutamente distante de seu meio. Esse marinheiro sentia aversão pela morte.
   Preservar a vida e jamais permitir que um ser seja o último de um mundo. É o que nos dá valor. É o ato de nobre heroísmo de hoje.