MÚSICAS NOVAS....

Simon Reynolds escreve no New York Times: Houve um tempo em que a música pop era algo com o qual voce podia identificar uma época. Assim, os 60 eram identificados pelo soul, pelo folk e pelo psicodélico. Os 70 pelo heavy-metal, o punk , o disco e o rock-progressivo, os anos 80 pelo rap, o tecno e o gótico, os 90 pelo grunge e o eletro. Bom.... Simon continua, e diz que no pop de hoje nada há que identifique este tempo. Tudo é xerox de algo já feito N vezes. Daí vem o fato de que a tecnologia seviu na verdade para estancar o avanço e criar o conceito de ATEMPORALIDADE. Tudo ao mesmo tempo agora. Assim, a molecada se liga em blues dos anos 30, soul dos 60 ou tecno alemão dos anos 70 e apenas recicla o que já existe. Simon ainda fala da mania de se comprar teclados de 1965, ampli valvulados de 1970 e guitarras de 1955.
Engraçado....
Uma das coisas que mais comprovam o tal inconsciente coletivo de Jung é essa coisa com a qual vivo me deparando: voce acha que só voce sente e pensa tal coisa, e aí percebe que existe uma onda mundial pensando exatamente o mesmo que voce. A tal ATEMPORALIDADE da internet, coisa com a qual me pego refletindo todo o tempo. Coisa deliciosa, mas que além de sua delicia tem o poder de destruir toda a espontaniedade em arte. Como?
Primeiro digo que Simon tenta ser otimista. O grunge e a música eletrônica dos anos 90 já não eram tão anos 90 assim. Na verdade vinham dos anos 80. E se voce pensar que os grandes nomes dos anos 90 eram Beastie Boys, Smashing Pumpkins, Oasis, Radiohead ou Pearl Jam, voce vai notar que nenhum deles trouxe algo de realmente novo. O que eles faziam era fazer de outro modo o que já havia sido feito antes. O que acontece então?
Como sou do tempo pré-informação, posso arriscar uma chave. A gente ouvia falar de novas bandas, e lia sobre grupos maravilhosos do passado, mas não tinha como os escutar. Eu fiquei dois anos lendo sobre o Velvet Underground sem ter escutado nada. Até encomendar no Museu do Disco o White-Light e finalmente o escutar ( e pirar ). Ao mesmo tempo lia sobre um tal de punk rock acontecendo, mas também sem poder ouvir disco nenhum ( só os Pistols ). O que essa condição de ilha humana fazia comigo? Fazia com que o vazio de não poder ouvir criasse a imagem do que deveria ter sido o Velvet. Ou do que era o Buzzcocks. Então eu pegava minha banda ( eu tinha uma ) e fazia um som furioso, tipo Velvet ( e que nada tinha de Velvet ). Quando os escutei, finalmente, percebi meu erro. E daí? Tentando criar "meu Velvet" eu fizera meu som.
Hoje um garoto de 12 anos pode escutar tudo o que existe agora e antes ( atemporalidade ). Nada resta para ele imaginar "como teria sido" ou "como deve ser". Ele é esmagado pela ousadia do Velvet, pelo poder do Led ou pela arte de Eno ainda na infancia. Ou pior que isso, é afogado por milhares de suas cópias, milhões de clones e cria a ideia de que "o rock e o pop são isso mesmo". Ele sabe tudo, ouve tudo, vê tudo, onde o espaço para imaginar/criar/errar?
A música de hoje nada cria de novo porque ela está ocupada descobrindo coisas como bossa-nova da letônia, punk das ilhas Fiji ou tecno da Croácia. Gente "nova" fazendo coisas velhas. Vejo ( e olhe que eu procuro...) N bandinhas novas inglesas e TODAS se parecem com Jam/Small Faces/Buzzcocks. Ou, quando piores, vão na linha Roxy/Eno/King Crimsom. Tudo com uma produzidinha à anos 90, claro. Na música negra a coisa é ainda pior. Marvin Gaye e Aretha Franklyn são as únicas referências. E tome Madonna clones.
Voce, menino, talvez não saiba, mas houve um tempo em que o hype não era por um novo nome, era por um novo estilo musical. Kraftwerk ou Mc5 criaram algo de diferente a partir de quase nada. E lembro do que era estranho ouvir Run DMC e Public Enemy em 1986. O que te pergunto é: existe hoje algum som que choque um cara de 30 anos? Não falo de músicas que revoltam por serem ruins, falo que causem reação por serem realmente jovens, inéditas e que ROMPAM com todo o passado. Que joguem Bowie, Dylan, Thom Yorke, Morrissey e Neil Young no lixo. Alguém tem essa ousadia? Como ter, se um moleque um dia vê no YouTube o grupo Love em 1967 fazendo aquilo que ele sonha em fazer?
Eu só consegui conhecer o Love em 1999. Sinal dos tempos. O Love se tornou minha "nova" banda favorita no começo do século XXI. No mundo atemporal, Beatles/Stones/Led e Dylan serão para sempre o máximo. E Velvet/ Stooges/Sabbath e Clash os exemplos a serem seguidos.
PS: No cinema a coisa é ainda mais grave. Ter tudo de todos os tempos, com boa imagem, a disposição, amassa as ambições de todo estudante de cinema. A cópia se torna uma imensa tentação. E Bogart/Brando/Kate e Audrey se fazem mais mitos que nunca.

ELIA KAZAN/ WARREN BEATY/ TOTÓ/ PAUL GIAMATTI/ GAINSBOURG/ MICKEY ROURKE/ RENE CLAIR/ BERGMAN

TOTÓ PROCURA CASA de Mario Monicelli e Steno com O Grande Totó
Que humorista foi esse tal de Totó!!!! Que rosto! Não espere elaboração dele. Não espere "humor sofisticado". Totó é um palhaço, como Mazzaropi, como Renato Aragão, como Buster Keaton e o Jim Carrey dos bons tempos. Seu humor é infantil, direto, simples, e portanto corajoso. Aqui o objetivo é o riso, só o riso, se seu público não ri o humorista falhou, daí sua coragem. Neste filme ( dos primeiros desse fenômeno chamado Monicelli ) ele é um pai de familia sem casa. O filme mostra ele tentando achar lugar para morar ( tenta uma escola, cemitério e até no Coliseu ele se aloja ). Uma chanchadona que é de um doce saudosismo. Totó foi um graaaande comediante! Nota 7.
CLAMOR DO SEXO de Elia Kazan com Warren Beaty e Natalie Wood
Crítica abaixo... É mais um belo retrato da América feita por esse tão importante diretor. Warren está muito bem como o jovem aluno inocente e rico ( é seu primeiro filme ). Natalie não está a sua altura na primeira parte do filme, depois ela cresce e acaba por nos comover. Drama de primeira. Nota 8.
FAY GRIM de Hal Hartley com Parker Posey e Jeff Goldblum
Talvez um Alphaville? Uma brincadeira de Hartley que lamentávelmente não dá certo. Parker está muito sexy ! Mas que roteiro é esse???? Nota 2.
NINHO DE COBRAS de Joseph L. Mankiewicz com Kirk Douglas, Henry Fonda e Warren Oates
Pois bem... este é um filme muuuuito errado! Explico o porque. Temos David Newman e Robert Benton, os dois mais brilhantes roteiristas da época. Eles escrevem uma história sobre um cowboy ladrão e uma prisão de desajustados. O roteiro, típico da época contracultural, atira em xerifes, racistas, mulheres, westerns etc. Mas, chamam para dirigir o filme Joseph L. Mankiewicz, o diretor, excelente, de A Malvada. Um grande nome, mas um estranho no ninho!!! O que acontece então? Nada. O roteiro, cheio de boas ideias, é asfixiado numa direção acadêmica. O resultado é morno. Kirk é perfeito para esse tipo de perverso/espertinho e Fonda brinca com seu tipo de americano/Lincoln. Mas é Hume Cronyn, fazendo uma espécie de debilóide que mais impressiona. Não é uma grande comédia, mas é ok. Nota 6.
PASSION PLAY de Mitch Glazer com Mickey Rourke, Megan Fox e Bill Murray
A capa do dvd promete: Rourke como um trompetista de jazz decadente. O ambiente é Utah. Fox é uma angelical esperança de redenção e Murray um empresário sacana. Atraente né? Pois é um drama risível de tão ruim. Deve ter sido escrito por algum fã de cinema com 8 anos de idade ( o roteiro macaqueia Asas do Desejo e um monte de filmes noir dos anos 40 ), o diretor, é flagrante, pensava estar fazendo um bom filme, deve ser um nerd de 11 anos e quem o produziu crê que o público de cinema é imbecil. Megan Fox é um anjo ( ela tem asas )..... e na última cena Mickey Rourke voa com ela rumo ao céu.... se aqui descrito parece ruim, creia-me, é bem pior na tela. Chega a ser cretino. Sem nota. Faz de conta que jamais o vi.
SLOGAN de Pierre Grimblat com Serge Gainsbourg e Jane Birkin
Um publicitário conhece em Veneza Jane Birkin. Ele é casado. Se amam, mas Jane o abandona. Pois é.... eu gosto muito de Serge e este é o filme em que ele conheceu Jane. Mas que lixo é este? Serge é péssimo ator e Jane chega a rir em cena !!! O filme é constrangedor de tão amador!!! Não é um filme, é muito mais um documentário sobre um flerte. Nota 1.
PORTE DE LILÁS de René Clair com Pierre Brasseur e Henri Vidal
Em favela francesa ( sim, são barracos em ruinas ) um assassino se esconde. Fica no porão de um cantor fracassado e é ajudado por um tolo ingênuo. O filme tem belas imagens, mas se perde em sua excessiva glamurização da pobreza. Clair funciona melhor em fantasias puras, onde ele pode "levantar vôo". Nota 5.
ATRAVÉS DE UM ESPELHO de Ingmar Bergman com Harriet Andersson, Max Von Sydow, Lars Passgard e Gunnar Bjorsson
Uma obra-prima, devastadora. Retrato de uma personalidade em crise ou retrato de nossa condição desde sempre? Bergman nada enfeita, nada exagera, nada dramatiza. Faz o que ele pensa dever ser feito, sem jamais mudar de rumo. É um filme de tristeza polar, mas também de uma beleza profunda, seca, perturbadora. Nota DEZ.
A MINHA VISÃO DO AMOR de Richard J. Lewis com Paul Giamatti, Dustin Hoffman e Rosamund Pike
Uma coleção de clichés. Acompanhamos a vida de um mala por 3 décadas. Cliché: a década de 70 e suas drogas, a esposa doidona, a vida como irresponsável flerte. Segundo cliché: a segunda esposa é uma chata judia à woodyallen... Já a terceira esposa é dos tempos atuais, mais cliché: gente que só pensa em saúde e equilíbrio. No final, supremo cliché: violinos e pianinho enquanto ele sofre de doença incurável.... Os críticos gostaram? Pobre crítica! Paul Giamatti imita Jack Nicholson. Faz exatamente o tipo que ele faz desde 1983. Mas é bom ator. É imitação de bom nível. Dustin nada tem a fazer. Fica lá, como um tipo de velho tarado. A direção é franciscana: pobre. O filme já nasce velho e com cheiro de reprise do SBT. Nota 3.

OS MOEDEIROS FALSOS- ANDRÉ GIDE

Dizem que Aldous Huxley leu este livro antes de escrever CONTRAPONTO. Estranha sina a de Gide. Até os anos 70 ele era tão grande/famoso quanto Mann ou Joyce. Agora, em 2011, há quem goste de livros e não o conheça ( como desconhece Malraux, Claudel ou Colette ). Porque? Eu não sei.
Os Moedeiros é seu grande livro e vale dizer que em 1948 Gide ganharia seu Nobel. O livro é de 1926.... O que havia com a década de 20? Se pensarmos que entre 1921 e 1929 foram lançados os melhores livros de Heminguay, Fitzgerald, Faulkner, Joyce, Eliot, Lorca, Yeats, DH Lawrence, Dos Passos, Stein, Cocteau e ainda as pinturas de Picasso e Matisse, Chagall e Miró.... Que década! E ainda Bunuel, Lang, Murnau, Buster Keaton, Chaplin, Jean Renoir e René Clair... e o jazz, e Cole Porter, Irving Berlin, os Gershwin... Paul Klee e Kandinski.... Murilo Mendes e Oswald, mais Mario de Andrade e Fernando Pessoa... Como seria viver em mundo com tanto talento vivo e produzindo? Thomas Mann e Hesse, Proust e Valéry, Ezra Pound e Kafka. Bem...
Mas o livro....
Gide é moderno. Seu livro não tem enredo. Tem vários personagens que vivem. Gide os segue e cria algo de muito dificil de se fazer ( e o faz bem ) livro dentro do livro: um dos personagens escreve o livro que lemos. Enquanto a história corre, Edouard descreve o livro que prepara, o livro se chama OS MOEDEIROS FALSOS. Assim, enquanto lemos o livro, um dos personagens o comenta. E nos fala aquilo que dá certo, o que foi um erro, que personagens merecem mais espaço, quais devem sumir. Essa técnica, que poderia ser pedante ou hermética, funciona por ser natural em Gide. Não nos chóca, nos surpreende.
A base do livro é Edouard, um escritor que se apaixona por seu sobrinho, um adolescente brilhante. Há ainda Laura, amiga de Edouard que fica grávida de Vincent apesar de casada com outro. Vincent é irmão de Bernard, adolescente amigo de Olivier ( o sobrinho de Edouard ). Bernard foge de casa e prega a anarquia. Mas ao se apaixonar por Laura muda de opinião e seu crescimento espiritual é a melhor coisa do livro. Ele percebe que sua raiva era uma convenção, que ser rebelde pode ser um hábito, uma moda. Sua mudança é maravilhosamente bem escrita. Muitos outros personagens habitam o livro: condes decadentes e sórdidos, escritores vaidosos, putaines bem sucedidas, crianças desequilibradas... O mundo gay é mostrado sem bandeirices ou exageros, há inveja, há paixão, há timidez. André Gide foi militante, seus livros eram abertas confissões sem culpa ( e não vamos esquecer que André Gide, que morreu em 1951, ainda teve tempo de conhecer e ser amigo de Oscar Wilde, o que mostra como Wilde poderia ter vivido mais e o quanto deveria ter produzido ). Há um fato no livro que irritará meus amigos psicólogos. Gide mostra o quanto a psicanálise tem de "otimismo cristão". A fé na compreensão, na ajuda, no descobrimento do bem, na confissão, no "bom espírito". Ele diz que o trabalho desses profissionais é útil como consolo a almas atormentadas, mas não diferente de qualquer outra fé. Se o paciente não possuir a fé cega em seu guia, adeus ciência.
Mas não pense que Gide é um anti-freudiano. Ele usa essa dúvida em relação a tudo. Inclusive as paixões. O quanto não escolhemos aquilo que gostamos, aquilo que desejamos, e mais, o quanto nossos sofrimentos não são papéis que escolhemos seguir. Gide nos joga essa dúvida no meio de seu livro, para ao final demonstrar que pode não ser assim. Talvez não tenhamos poder algum sobre sentimentos, vida, destino, gostos, afetos e repulsões. A vida como escolha de explicações, sempre falhas, consolos, falsas teorias. O que sabemos?
Ah.... esses franceses! É o mesmo tipo de escrita de Camus, Malraux, Sartre ou Lolita Pille. Uma montanha de pensamentos, tudo analisado a exaustão, derrotas e medos, dúvidas, e aquele enorme EU no centro de tudo. Esse tipo de narrativa não conta uma história, ela analisa e reanalisa os personagens, os disseca, os explica, e os faz perder. Me cansa. Nos cansa. É febril.
André Gide pode um dia voltar a moda. Georges Bernanos voltou. E Bernanos e bem mais árduo. Ler Gide não nos faz felizes. Mas pode abrir algumas portas. Vá lá....

AMY WINEHOUSE, EXPLICA-SE?

Terminei um livro de André Gide. Interessante. Ele diz em certo momento que tudo em nossa vida depende de querer acreditar. Voce acredita no que voce escolhe, nunca na verdade. Damos explicações estapafúrdias para aquilo que não tem explicação. Mas, como não suportamos um mundo irracional, criamos crenças para consolo de nossa consciencia. Dito isso....
Amy Winehouse morre e iremos crer que foi "a pressão da fama", que a matou. Que foi o vazio de ter muito jovem "chegado ao topo". Ou que foi "a solidão da fama".... Voce escolhe crer no que preferir engolir. Mas saiba, nada explica. Nada. E é isso que voce teme, ver que a vida não tem razão, ela é feita além de nosso entendimento.
Se a pressão da fama mata, então Os Beatles teriam se matado. Se a chegada ao topo muito rápido mata, então Marlon Brando ou John Travolta teriam se matado. E se a solidão da fama é fatal, bem, Mick Jagger deveria ser um melancólico suicida. Mas não. O que une Morrison a Keith Moon, Gram Parsons a John Bonham ou Hendrix a Kurt Cobain? Nada. Considerar a idade como um sinal é computar só os que morreram aos 27 e esquecer o resto. Amy, uma bela voz, morre porque as pessoas morrem. Morrem de acidentes, de cancer, de droga ou de tédio. Morrem aos 12, aos 30, aos 88. Morrem.
O que me enoja é tratar esse mortos como heróis simplesmente por terem morrido. Hendrix é maior que Jimi Page não por ter morrido. Mas Keith Richards é um herói num nível que Jim Morrison jamais poderia ser. Keith sobreviveu. Ousou ficar velho. E jamais pagou por sua loucura. Não se arrependeu, não se sacrificou. E NUNCA chorou seus erros num disco. Como Iggy, Ozzy, Lou.
Amy deveria ter conversado com os sobreviventes. Só isso.

ATRAVÉS DE UM ESPELHO-INGMAR BERGMAN, O OLHAR IMPASSÍVEL DE DEUS.

Não há maior prazer em arte que ver um mestre dispor de seus elementos e exibi-los a nosso olhar. O que temos aqui é a radiografia de uma crise, e também a questão que funda nossa civilização.
Sven Nykvyst fotografa o filme. Temos a ilha, o universo limitado, o isolamento. Horizonte sem fim. Temos uma familia. Moradores únicos daquele mundo. Últimos ou primeiros seres. O filme, como tudo em Bergman, começa expondo seus personagens, sem apelação, sem atropelos, com musical crescendo.
Karin é a filha. Ela acabou de voltar de hospital. Seu caso psiquiátrico é incurável. Karin está em um de seus bons momentos. Aparentemente. Com ela vem seu namorado, que realmente a ama e sofre com ela. Há um irmão mais jovem, assustado com aquela situação e o pai, escritor famoso e distante da familia. Bergman em 80 minutos nos mostra esse drama cósmico, de quebra ganha seu segundo Oscar e modifica o alcance do cinema para sempre.
O filme é dedicado a esposa de Bergman ( uma das várias ) e é fácil perceber que o pai distante é Bergman. Mas na verdade ele é também Karin e sua loucura, o namorado amoroso e o irmão que odeia as mulheres ( e é fascinado por elas ). O filme em primeira visão é retrato de uma alma ilhada em conflito consigo mesma. Fosse apenas isso seria um ótimo filme, mas sendo muito mais alcança uma estatura de obra-prima ( isso se voce possuir a mente capaz de ver o que lhe é mostrado. Não indico o filme a meninos e inteligentinhos. Fiquem com a tola obviedade pornô de Cisne Negro/Anticristo e que tais ).
Karin começa a voltar a seu mundo dividido. E em quarto da casa "tenta entrar na parede". Alguma coisa a chama. A sutileza impera. Bergman não grava vozes a chamando, não usa trilha sonora de suspense, não exagera coisa alguma. Karin parece "normal", não somos invadidos por sua loucura, somos convidados a compreender e observar. Começamos então a sentir um incômodo imenso, vazio, começamos a sentir, suavemente, a loucura de Karin.
Há uma cena brilhante dentro de um barco encalhado. Chove, e os dois irmãos se escondem lá dentro. A água escorre pela madeira, eles se abraçam e se encolhem. Eis uma das mais belas cenas da história do cinema. O que vemos ali é toda a condição humana, desamparo,crise, e então voce começa a perceber o alcance do filme. A partir daí ( em seus vinte minutos finais ) o que temos é superlativo. Como gênio que é, Bergman traz a tona, sem estardalhaço, a questão fundamental de nossa civilização.
Karin volta ao quarto. A voz que a chama é Deus. E ela quer ir a seu encontro. Uma porta se abre e Ele vem a seu encontro. Karin grita, foge, se apavora. Ela é levada por sua familia e medicada. E diz: Eu vi Deus e Ele é como uma aranha, um terrível animal que me olhou com seu impressionante olhar frio, ausente, vazio. Karin optará por voltar ao hospital. No conflito de seus dois mundos, ela escolhe a loucura.
Mas o filme continua. E é nesse final que o toque do mestre se faz. Mas antes um comentário.
Deus seria uma aranha, a vida a teia em que Ele nos captura. Somos insetos em sua teia, presos. Mas não é apenas isso. O pai, numa cena crucial, diz que observa Karin, sem se envolver em seus problemas. Eis outra imagem de Deus, alguém que nos observa, indiferente, rompido com os homens. O filme tange a ideia de que somos um tipo de experimento que não deu certo, Deus nos virou as costas.
O irmão reclama logo no inicio que o pai não fala com ele, o ignora. Após Karin ir embora, rumo ao hospital, o irmão pergunta ao pai se Deus existe. O pai diz que não sabe, mas que o amor existe, com certeza o amor existe. O irmão pergunta se Deus não seria esse amor. O pai responde que isso não importa, o que interessa é que Karin está cercada pelo amor de sua familia. Esse diálogo, breve, é feito à luz de uma janela. O pai sai de lá e o filho, sózinho, diz com um quase sorriso: "Meu pai falou comigo!" Imediatamente o filme se encerra. Sem música, sem The End, sem nada, simplesmente vem o final. Seco.
Quem já tentou produzir arte, seja romance, pintura ou música, sabe o quanto é dificil chegar a simplicidade plena. Como é árduo conseguir dizer muito falando pouco. Impressionar sem chocar e despertar emoções sem violência. Quando o rapaz diz sua fala final, todo o drama de pais e filhos, de mestres e discípulos, de fiéis e Deus, cai sobre mim. Cubro meus olhos com a mão e choro. E peço a meu pai que fale comigo. Fale comigo como jamais falou. Fale comigo. Eis o drama central de toda a nossa civilização, esse pungente pedido de que alguém fale conosco, nos olhe, preste atenção, afirme que existo.
Karin foi sacrificada ( auto-sacrificada ) para chegarmos a esse encontro de pai e filho. E o mar, liso, vasto, magnífico, a tudo assiste sem se importar. A ilha permanecerá a mesma, mas aqueles quatro seres terão chegado perto de um sentido.
O que mais algum filme pode dizer?

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO- ALDOUS HUXLEY

Nesse mundo a velhice não existe. Fisicamente e mentalmente, voce é o mesmo dos 19 aos 60 anos. Pensar e agir aos 60 como aos 19, eis uma conquista de feliz realidade. Mais, nesse mundo voce deve se portar como adulto no trabalho, e ser uma criança no resto do tempo. Ser uma criança por toda a vida, uma conquista a ser conseguida.
Ser promíscuo é a regra. Quem não possuir cinco ou seis pessoas diferentes por semana será considerado estranho. Pior, uma ameaça ao bem comum. Transar muito e não se apegar, jamais. Saber então que voce e eu somos cambiáveis. Mais que isso: entre o desejo e a satisfação não pode haver um buraco. Ao querer, ser imediatamente satisfeito. Desejo que se demora faz pensar, faz sofrer, faz questionar. Faz com que voce seja diferente.
O passado não existe. O que é velho deve ser esquecido por ser velho. Pois conhecer o passado faz com que tenhamos como comparar e avaliar o presente. Poesia e religião são abolidos então. A realidade é o visível, o não-perceptível não existe. O real pode ser vendido e controlado, o subjetivo não.
A solidão é odiada. Tudo é feito em grupo. Introspecção e silêncio são temidos. Existir é estar em grupo. Quem ama a solidão é defeituoso. Música incessante, ruídos, gente, espaço preenchido.
Todo contato social tem apenas um objetivo: transar. Sai-se para fazer sexo. Qualquer outra coisa seria surpreendente. Conversar, flanar ou fazer nada seria excêntricidade.
As mulheres são todas magras e os homens altos.
A liberdade é plena. Voce é livre para se divertir todo o tempo. O prazer é ilimitado. Para que mais serviria a liberdade?
Nada pode ser arrumado, remendado, construído em casa. Tudo deve ser jogado fora e comprado de novo. Coisas, seres e vidas são trocadas com alegria. A alegria é o único objetivo da vida.
Joga-se, vai-se ao cinema e ingere-se Soma. A vida é isso.
Aldous Huxley não escreveu em 1932 uma obra-prima. O livro não é perfeito. Não é sequer bem escrito ( e ele sabe disso. A leitura da introdução escrita em 1946 é muito reveladora ). Mas é um livro forte, objetivo e de leitura obsessiva. Li-o em poucas horas, com prazer e ao mesmo tempo impressionado pelos acertos de Huxley.
Ele erra ao prever um sistema de castas. O mundo tem uma tendencia contrária: a abolição de diferenças e a absorção de todos os grupos diferentes. Desde que se tornem uma coisa só. O que vemos é a destruição de diferenças, aristocratas, proletários, tendem a sumir. Uma imensa classe média e meia dúzia de donos-do-mundo. E só. Fora disso, vácuo.
Mas não há como não se impressionar com seus acertos. A eterna juventude mental negando o amadurecimento da idade. O passado jogado ao esquecimento ( e tudo isso já é fato. Conheço quem leia apenas a literatura de Salinger pra cá e assista só o cinema de Spielberg em diante. Há quem pense que a música começou com os Beatles. Arte sem passado é arte sem comparação, arte fácil de enganar e de vender, ignorância bem-vinda, onde toda a cópia-pobre parecerá sempre rica-original ).
A poesia, assim como a religião ( verdadeira ), faz das pessoas seres pensativos/distanciados, que não dão coragem-alegria aos outros, e pior, deixam de desejar- consumir. Descobrem que há outra coisa além da matéria. E é o sexo desenfreado que ocupa o vazio deixado pela arte e pela religião. Tudo é o corpo. E o corpo deseja, deseja coisas que podem ser avaliadas, vendidas, estragadas.
No livro surge um selvagem: John. Uma de suas melhores tiradas é essa: tudo o que existe nesse "admirável mundo novo" é destrutível. Muda, se esvai, acaba. Nada é feito para durar, e ao homem nada pode restar a não ser um gozo efêmero. Ele também percebe que a vida pode não ser "busca de felicidade", mas talvez "busca de algo mais".
John conhece textos de Shakespeare. As pessoas riem com Shakespeare. Não conseguem entender mais seu mundo e riem do que não entendem. Têm horror a palavra família e acham a palavra "mãe" pornográfica. Pois em mundo de bebês de laboratório, sexo com procriação é pornografia, coisa de bestas.
Huxley vai fundo em sua raiva. E um dos momentos mais interessantes é quando uma mulher "civilizada" se apaixona pelo selvagem. Como os poetas e a Bíblia, a paixão também foi banida. Mas essa moça sente essa coisa esquisita pelo fato de que o selvagem é "estranho". Ele não a pega e satisfaz logo seus desejos. Ele demora, fala coisas complicadas, sente veneração, culpa. Essa demora, essa não-praticidade desperta nela a paixão. Que logo morre pela incapacidade de ser vivida. O selvagem, cheio de culpa, se refugia em martírio e ritos mal compreendidos.
Na introdução Huxley diz que se reescrevesse o livro faria diferente. Como está, ou o selvagem aceita a loucura da Utopia, ou volta ao barbarismo de onde veio. Huxley crê ser possível uma terceira via, a sanidade, onde a ciência se adapta ao homem e a religião existe para levar a consciência ao limite do conhecimento. Se o reescrevesse faria do livro algo mais filosófico...
Mas do jeito que está, da maneira seca, breve, compacta que está, ele obriga a que nós façamos mentalmente sua parte filosófica, ele nos instiga a pensar e pensar melhor.
Esse futuro de drogas para ser feliz, de imagens para sentir "uma nova sensação", de viagens para transar e de alegria "infinita" é nosso conhecido. A liberdade para ser consumido, as novidades que são vazias, os entorpecentes.... A estranheza que já nos causa quem fala em amor familiar, fidelidade absoluta, tradição artística, deveres e pecados... Ler o livro dá uma perturbadora sensação de que o mundo-pesadelo de Huxley está próximo demais.
Afinal, se meu avô estivesse aqui ele acharia loucura um mundo onde pessoas ficam trancadas em frente a tv vendo pessoas em casa trancada, onde se paga para ver gente em tela grande ser destruída, violada e torturada, mundo em que amigos se encontram para jogar jogos em tela e ficam calados em sua amizade fria, mundo em que lunáticos abrem um lap-top e se absorvem numa virtualidade passiva, e em que espertamente tudo é logo permitido e assimilado, desde que não ponha em risco o consumo e o movimento incessante da roda do futuro.
Admirável mundo novo!!!!

CLAMOR DO SEXO- ELIA KAZAN ( EXEMPLO DO MAIOR DOS PECADOS )

William Inge, no auge do teatro dramático americano, foi um dos grandes. Se Tennessee Willians e Eugene O'Neill dominaram a cena, ele e Arthur Miller vieram logo após. Edward Albee surgiria na sequencia e Thorton Wilder merece um lugar à parte. Neste filme de 1961, Inge consegue tocar num dos mais dificeis temas de qualquer drama: o mal sem intenção, o maior dos pecados: o sofrimento imposto a inocentes.
Estamos em 1928, nos cafundós do Kansas. Bud é o filho bacana do líder local. Dean é sua namorada. Os pais concordam com o namoro, os dois se amam, ninguém tem qualquer doença ou problema econômico e mesmo assim o sofrimento do dois é insuportável. Porque?
O pai de Bud é um ex-jogador de futebol, agora aleijado. Um macho milionário que deseja o "bem" do filho. Eis o primeiro problema: seu ego amassa o amável ego de seu favorito. Segundo problema: Dean é boa aluna e ama seus pais. Mas sua mãe vê nela um bebê e seu pai deixa tudo a cargo da mãe. Dean luta para ser sempre uma "dama", uma lady, o orgulho dos pais. Vem daí um terceiro e atroz problema: o casal se ama, se adora, mas não pode fazer sexo. Bud quer, Dean não. Depois, ao final, Dean quer, mas Bud não pode, afinal, ela não é uma puta...
A conselho do pai, Bud arruma uma amante, "para se aliviar". Bud detesta fazer isso, pois ela "não é Dean ", mas se conforma. Isso destrói Dean. O longo caminho da inocente garota rumo ao inferno, a forma desajeitada como ela tenta se tornar "fácil" é de cortar o coração. ( Confesso que chorei muito... ). Ao fim do filme, sem final feliz, mas doce a seu modo, fica uma terrível lição: nada temos de controlável na vida. Bud e Dean nasceram um para o outro, mas terminam com outras pessoas, distantes, conformados. Tudo dá errado.
Mas o que me emociona no filme não é isso. É o modo como é demonstrado o maior pecado humano ( sim inteligentinho, pecados irremediáveis existem. E são imperdoáveis. ) O pecado da difamação da inocência. O amor dos dois é real, é inocente, é forte. E todos, sem saber e querer, destroem esse amor. Cada palavra da mãe e do pai, sempre bem intencionados, é uma facada, um pecado irremediável. Dean enlouquece e é internada. Bud empobrece e se casa. Nosso coração é cortado ao meio.
Warren Beaty faz Bud. É seu primeiro filme. Quem leu o livro "Sex, drugs e rocknroll" de Peter Biskind, sobre a revolução em Hollywood, sabe o quanto Warren foi/é importante para o cinema que se faz agora. Seu Bud é correto, mas nas cenas finais, na fazenda, é brilhante. Natalie Wood faz Dean. E a partir das cenas de enlouquecimento ela nos dá uma atuação emocionante. O modo como ela olha e conversa com o psiquiatra e a maneira como ela corre e pula nos jardins do hospital são inesquecíveis. Para quem conhece a triste sina que Natalie viveu na vida real, ver o filme é ainda mais cortante.
Mas todo o elenco é superlativo. Não houve diretor de elenco como Kazan. O homem que lançou Montgomery Clift, Brando, James Dean e Warren Beaty, faz um filme de pungente beleza e emoção que se acumula até explodir. Belíssimo!

HISTÓRIAS MEDIEVAIS- HERMANN HESSE

Na década de 1920, Hesse traduziu e comentou uma série de contos medievais de Cesarius Von Heilsterbach, escritos originalmente por volta de 1240. Leio esses contos e me assombro com aquilo que um dia fomos. ( Fomos? )
Todos são contos de feroz moralidade. Não há neles a menor dúvida: o pecado existe e quem peca sofrerá no inferno para sempre. Essa verdade é verdade completamente aceita ( como hoje nos é aceita a evolução do macaco ou o big bang ), nada é questionado. Essa certeza leva então o homem medieval a se preocupar acima de tudo com sua alma, com o possível castigo, com suas culpas e sua vida no além. Tudo é pesado em face do que será, da eternidade. Todo ato, toda obra, toda ação é PARA SEMPRE. Não existe o esquecimento.
Um marxista moderno dirá simploriamente que isso se ajusta ao jogo de poder da classe dominante. Mas o que esse inteligentinho não dirá é que essa classe dominante também sofre essa culpa e esse medo. Montanhas de nobres arrependidos se enfiam em mosteiros, partem para a mendicancia, vão lutar nas cruzadas. O cerne da questão é bem mais complexo.
Um inteligentinho do tipo "numa boa", dirá que tudo era questão de liberdade sexual, que a igreja reprimia a sexualidade, e que essa repressão se tornava culpa. Esquece o inteligentinho que hoje, na era do sexo numa boa, continuamos criando culpas, medos, dores e doenças. E então?
Hesse foi um escritor do tipo mais perigoso que existe ( e que mais falta nos faz hoje ), o escritor que prova de tudo, que procura o que é oculto, o verdadeiro peregrino. Ele sabe que não se explica a idade medieval, o que se faz é se penetrar nela e perceber não seus porques mas seus comos. Como é essa culpa, como é esse pecado, como é essa visão de vida.
A época medieval durou mil anos. Nossa época tem pouco mais de duzentos ( começamos em 1789 ). Não estaria em toda mente européia, reprimida e latente, toda essa imensa história de trevas e de vida? E quanto mais voce, ó doce menino inteligentinho, reprime essa memória, não estaria mais a mercê dela? Pois o que voce vê no cinema, seja Batman, Harry Potter ou Von Trier, não são imagens e mitos medievais pobremente e envergonhadamente reelaborados?
Desconfio muito de todo mocinho anti-medieval. É como alguém de sapatos novos que nega seus pés sujos. E desconfio mais ainda do puro ser racional. Esse tem o fanatismo de monge travestido em objetividade vã. É preciso ser um homem completo, sem amputações. É preciso ter antiguidade, era medieval, renascença e modernidade vivas em si. Negar uma delas é fanatismo, cegueira, e pior, é se fazer refém dela.
Hesse andou por todas essas vias. Se encontrou no hinduismo, no budismo... provou sua vida, abriu suas ideias, tentou ser si-mesmo. Este pequeno livro é parte de seu caminho.

TRÊS CONTOS- HENRY JAMES

OS QUATRO ENCONTROS. James, dentre outras coisas, é o grande autor da impotência, dos planos que dão em nada. Neste conto, o narrador encontra moça que sonha em conhecer a Europa. Isso é uma obsessão para ela. No segundo encontro ela está na Europa e os outros dois encontros prefiro não os contar. James, mestre supremo, leva a história com sua costumeira sutileza, logo visualizamos o narrador, a moça, o ambiente e os outros três personagens decisivos. Uma frase de James exibe sua argúcia: " As pessoas viajam, a maioria, não para encontrar algo de novo, mas apenas para confirmar o que já sabiam."
O DISCÍPULO mostra o lado quase gótico do genial autor anglo-americano. Um professor se envolve afetivamente com jovem aluno e acaba por ser explorado pela decadente família "nobre" do tal aluno. Aqui surge outro aspecto de James, o enredamento da vida, o modo como nos vemos em situações insolúveis sem saber como entramos nessa cilada. Sentimos grande desconforto ao ler esse conto, nos revolta a mansa passividade do professor. Mas é o menos memorável conto do livro. O mais perfeito é O MENTIROSO, uma curta obra-prima de elegante prosa. Fala de um famoso pintor, que em jantar reencontra uma ex paixão. Ela está casada com simpático coronel, homem famoso por seu vicio: a mentira. O narrador passa o conto tentando descobrir se a esposa do mentiroso partilha seu vicio. Aqui é demonstrado outro talento de Henry James, o estilismo, a escrita refinada, bem pensada, cuidadosa. Essa habilidade do autor se transfere ao leitor em prazer de ler. Ninguém me dá maior prazer em leitura.
Bela introdução para novos possíveis leitores desse mestre das letras. Usufrua.

KIAROSTAMI/ BINOCHE/ DEPARDIEU/ BECKER/ GROUCHO/ SCORSESE/ CLAIR/ DASSIN/ ROSSELINI

CÓPIA FIEL de Abbas Kiarostami com Juliette Binoche e Willian Shimell
Eric Rhomer ( de quem gosto ) fez filmes em que as pessoas falam e "nada acontece". Mas Rhomer tem um segredo: seus personagens são gostáveis. Torcemos por eles. Um americano ( quem? Linklater? ) fez um filme em que um casal conversa. É uma versão teen de Rhomer. Aqui temos Kiarostami fazendo uma versão adulta de Linklater ( se não for Linklater, sorry... ). Binoche continua bonitona. Shimell é ok. Mas o filme é um pé no saco! Motivo: os dois são detestáveis! O crítico de arte é de uma frieza nojenta e Juliette faz a típica divorciada amarga. São reais? Sim, são. O jogo de ocultamento/revelação é bem sacado? Sim, é. Mas e daí? Tudo se perde ( inclusive uma atuação perfeita de Binoche ) numa antipatia, uma chatura insuportável. Quando o personagem feminino desaba ao fim do filme, tudo de pior num relacionamento e num certo tipo de cinema cabeça vem a tona. É duro! Mas vale uma notinha pela atuação de Juliette. Nota 3.
DUCK SOUP de Leo McCarey com Margaret Dumont e os Irmãos Marx
Após o porre de sentido, de relevância e de seriedade vazia de Kiarostami, nada como a falta de senso de Groucho, Chico e Harpo para nos salvar. Este é o filme "politico" dos Marx. Freedonia que é governada por Groucho e entra em guerra "porque o campo de batalha já foi alugado". Amar os Marx é saber que viver é não fazer sentido. Nada neles faz sentido, nada. Seus filmes são carnavais sem enredo e comissão de frente. Duca! Nota DEZ!!!!!!!!!!!!
QUEM BATE A MINHA PORTA? de Martin Scorsese com Harvey Keitel
É o primeiro filme de Martin. Começou a ser filmado em 1965, e foi encerrado só em 68. Todo o seu estilo já está aqui: câmera em movimento, retrato de jovens perdidos, música pop. Impressiona o fato de que é um filme ainda moderno, lembra o estilo de Tarantino, Ritchie e vasto etc. Como todo novato Scorsese erra ao dar mais valor às imagens que ao roteiro, o filme às vezes se perde em sua história. Mas é uma refrescante visão de um imenso talento em seu nascimento. Nota 6.
O CÍRCULO VERMELHO de Jean-Pierre Melville com Alain Delon, Bourvil e Gian Maria Volonté
Por falar em Tarantino... Mais um dos filmes vigorosos de Melville. Mundo de ladrões, policiais e cabarets baratos. É um filme frio, duro, com uma contida violencia sempre latente. Delon é perfeito nesse papel de bandido sem alma. Melville foi um gigante, seus filmes jamais envelhecem. Virilidade em dose cavalar. Nota 7.
A BELEZA DO DIABO de René Clair com Gerard Philipe e Michel Simon
Finalmente vejo um filme em que o talento de Philipe me é exibido! Para quem não sabe é ele o grande mito do teatro e cinema francês. Morreu jovem... Aqui ele faz Mefistófeles, numa adaptação, em ritmo de farsa, do mito de Fausto. Simon é outro ator de gênio e é um prazer vê-lo em seus pulinhos de diabo bem-humorado. Clair, um dos cinco gigantes da França, tem o amor sincero pela poesia onírica do cinema. Sabia filmar sonhos e delirios. É uma obra invulgar, solta, febril e irreverente. Mas às vezes ela se perde em sua ambição. Clair era maior quando mais simples. De qualquer modo, é maravilhoso que filmes como este sejam lançados em dvd. Nota 6.
MINHAS TARDES COM MARGUERITTE de Jean Becker com Gerard Depardieu e Gisele Casadesus
Gerard Depardieu quando quer é um grande ator! A prova está aqui, neste filme que passou em nossas salas em Abril e que quase ninguém viu. Porque filmes tão bons quanto este são tão pouco vistos? Porque são adultos? Ou porque não são sensacionais? Não apelativos? É um filme discreto, elegante, simples, solar e muito feliz. Tudo o que hoje não dá ibope. Depardieu é um "burro", um homem de inteligência limitada, um bronco. Ele conhece uma velhinha que ama ler e os dois se tornam amigos. Nesse processo ele não se torna mais inteligente, mas adquire confiança em si. Tudo no filme funciona. Os amigos do bar, a namorada jovem, e principalmente a relação de Depardieu com a mãe não-maternal, mostrada em flash-back. O modo como Depardieu fala e se move, suas mãos imensas e suas hesitações são trabalho de gênio. Eu não gostava muito dele, mas este filme mudou meu conceito. É também um dos raros filmes de agora que consegue mostrar a verdadeira França e o verdadeiro francês. Espero que os americanos não o refilmem. Fariam do personagem central um viciado ou um caso psico, e da velhinha uma louquinha tarada. Fariam desta pequena jóia um filme "sensacional". Jean Becker é filho de um dos meus diretores favoritos, Jacques Becker. Os filmes que ele tem feito ultimamente são todos assim: maravilhosos. Veja!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Nota 9.
O RETORNO A CÂMARA 36 DE SHAO LIN de Lau Kar Leung com Gordon Liu e Johnny Wang
Produção do mitico estúdio Shaw Bros. Liu, espetacular, faz comédia como um mentiroso que se torna mestre de Kung Fu e salva trabalhadores de patrão cruel. Kill Bill é dedicado a Liu, um mito chinês. Lutas fantásticas num filme que dignifica o cinema pop. Os chineses viam o cinema como circo, como festa. É isso que temos aqui, uma festa. Nota 7.
ALEMANHA ANO ZERO de Roberto Rosselini
Em 1947, em ato de coragem, Rosselini foi a Berlin, filmar a vida na cidade vencida. O filme sempre irá impressionar: Berlin é um imenso lixão, onde pessoas esfomeadas vendem o que possuem. Temos aqui um ex-nazista, moças prostitutas, ex-professor pedófilo, velho agonizante. E principalmente um menino perdido, retrato da Alemanha de então, que rouba, foge, tenta se comunicar e acaba por matar seu pai. É um dos filmes mais tristes já feitos. O cinema de Rosselini continua a ser influência num certo tipo de cinema de hoje ( os iranianos, os palestinos, os africanos ), é cinema da pobreza, da crueza, e da ausência de emoção. Rosselini tenta ficar a distância, observa e não se envolve. O que salta aos olhos hoje é o absurdo de destruição que se fez em Berlin, creia, a cidade ficou completamente destruída. Nota 7.
PROFANAÇÃO de Jules Dassin com Melina Mercouri e Anthony Perkins
Primeiro: Dassin é um super diretor! Seja em policiais ou em dramas, seja em comédias ou em noir. Aqui ele pega a história de Fedra e a coloca na Grécia moderna, no mundo dos milionários armadores ( Onassis? ). Melina é a esposa de rico armador que se apaixona por seu enteado. Perkins, o jovem e frágil ator de Psicose, faz o enteado. A trilha é de Mikis Theodorakis, maravilhosamente trágica. Dassin vai fundo na tragédia grega, sem medo e sem pudor. O que vemos é a destruição de todos pela força da paixão cega. Mas a habilidade de Dassin é tanta que o filme nunca perde ritmo, suas imagens e sua edição dando suspense ( e nervosa beleza ) ao todo. Melina nasceu para esses papéis: seu rosto é máscara de tragédia. Anthony Perkins traz o desamparo de menino mal amado. O filme é poderoso. Nota 8.

SOBRE A PORNOGRAFIA ( O TAL LIXO SÉRVIO )

George Lucas disse em 1973 que é muito fácil criar Sensação: basta filmar um gatinho sendo esmagado ao vivo. Criar emoção é bem mais complicado.
Isso explica, à perfeição, o que é o cinema de hoje e para onde caminhamos. Esse filme sérvio de horror que a Folha reporta hoje ( 18/07 ) é, na verdade, exemplo de nosso futuro. Cenas de sexo misturadas com horror. Tira-se do sexo seu lado bom: sensualidade, prazer, libertarismo; e rouba-se do horror aquilo que ele pode ter de bom: suspense, emoção, surpresa.
O mundo está se reduzindo a grande bazar onde vale tudo para ser o camelô da vez. Se transar com feto ou matar um bebê "funciona", então é válido. Dar à isso um verniz de denúncia política é papo furado para captar a atenção dos meninos inteligentinhos. Na tese de George Lucas podemos dizer que o gatinho esmagado "representa o esmagamento das inocências". Bláaaaah!
O mundo globalizado, onde todos os cinemas são americanos, todos os times jogam à italiana e todas as músicas são novaiorquinas, traz a apatia e o tédio. Para tentar vencer esse estado mineral se usa o caminho da sensação sensacional: porradas e choques elétricos na letargia.
Triste civilização que precisa de cacetadas para se sentir viva.

CONSIDERAÇÕES SOBRE DEZ MINUTOS DE TV EM 1982.( FUTEBOL, CARROS E CIGARROS )..

Tento não falar sobre o futebol, minha intenção é falar de um momento do país, momento em 1982, demonstrado pela propaganda. Mas não resisto e falo: um time de homens que não se preocupa com cortes de cabelos e sobrancelhas lapidadas. Turma de gente que ainda se parece com os caras do buteco ou da esquina... Era um time mais bonito...
Em 1982 a ordem no Brasil, saindo da repressão, era só uma: hedonismo. Politicamente demos com os burros n'água, Tancredo morreria em 85 e Sarney instituiria o vale tudo. No futebol o jogo ingênuo seria enterrado e a época do jogo de resultados valeria para sempre.
É engraçado ouvir Luciano do Valle ainda com voz e é fantástico observar o jogo destravado, sem tosqueira. Vêm as propagandas:
Bamba, tênis. Dançarinos. Nada de esporte radical. Eles rodopiam em disco. Hedonismo puro. Hedonismo de desbunde. Depois o Fusca. Um desenho infantil, corações. Nada de futurismo, nada da fria eficiencia do mundo cinza, apenas corações e infantilismo. Coca-Cola. Na praia. Praia que tem uma abundancia de sorrisos. Hedonismo de sorrisos, ainda não se fez a ditadura dos tanquinhos. Continental mostra um jogo. Aí o contraste se exarceba. Em 2010 se falava em TIME DE GUERREIROS, neste anúncio de 1982 todo o destaque é dado ao drible e ao jogo de pés. Caráter do Brasil. El Gol, é anúncio que marcou época, carro que é um touro. Nada de jovens frios com seu jeito de robot, apenas emoção quente e solar. Hollywood: esportistas fumando???? Eu sei o mal que havia nesse tipo de propaganda. Mas o que quero dizer é que me parece estranhamente saudável um mundo que exibe o esporte como um grande foda-se... Hedonismo de novo, velejar é um prazer, nada competitivo aliás.
É necessário repetir uma giria antiga que é usada na peça da Coca: curtição. Curtição é usufruir com prazer, usufruir com o espirito do foda-se. Nossos anúncios não pregam mais a curtição, eles pregam a hiper-eficiencia, e pior, nosso futebol não é feito para ser curtido, é exibição de egos eficientemente propagados.
O mundo da curtição jamais voltará. Mas caraca! Um pouco menos de seriedade e eficiencia!
PS: e não deixa de ser interessante uma copa sem o patrocinio de um banco e de cerveja.

Intervalo Copa 1982 - Brasil x Argentina (RBS - Rede Globo Porto Alegre ...



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