RAGA, LIVRO DE J.M.G. LE CLÉZIO

Primeiro ele narra uma viagem. Uma familia de ilhéus numa das maiores aventuras da saga humana: piroga no oceano, perdida, indo de ilha a ilha. E a nova terra, a praia.
O livro, curto, eu o li em uma manhã de frio, é delicioso. Deliciosamente interessante, porém é de dor que ele fala. Crimes cometidos pela Europa sobre a Oceania. Hediondos.
Mas antes Le Clézio anda pela ilha. E percebe a angústia sempre presente nessas ilhas que turistas tolos chamam de "paradisíacas". Nunca foram um paraíso. Nunca. A história desses mundos é de fugas: fugir da fome, fugir dos vulcões, fugir dos inimigos. Se aventurar ao mar, descobrir nova ilha. E depois a maior da dores, a chegada de navios brancos, a captura de seus filhos, de suas mulheres, a escravidão. Le Clézio anda pela ilha com uma missionária católica, e vê nela a primeira pista de um novo mundo num novo século... Qual mundo?
Antes do novo ele narra as lendas. A fertilização do mundo, a sexualização da vida. Lendas que são surpreendentes. Terra que nunca foi de ninguém, ilhéus que sempre viram a terra como dona da vida, o homem como companheiro da terra, parte dela e não seu dono. Mas a vela branca do navio europeu é vista ao largo, e a fuga se faz. Para dentro da mata. Os europeus tomam posse da terra, dos corpos e dos deuses, é a chegada do eu.
Homens que se jogam fazendo "o gol " ( o nome é esse, nós o chamamos de bugee jump ), mulheres que trançam esteiras. Pássaros que anunciam a vida. Estrelas. E o mar, sempre o mar.
Mas agora é hoje e Le Clézio sempre narra de hoje, não se perde no passado. E constata o futuro das ilhas, o futuro da Terra, deste planeta. Um novo cristianismo mestiço, uma nova forma de ver a vida.
E é pela língua que a coisa se anuncia ( meu professor de linguística adoraria este livro ). Línguas miscigenadas, criolas, que são não um erro mas sim uma vingança. Línguas como o foram um dia o francês e o português, línguas que eram reações de tribos contra o opressor romano ( o latim culto ). O final do livro é uma antecipação desse futuro: eles são hoje a vitalidade que fomos um dia. Eles têm a curiosidade de quem é novo. Tudo querem ver, tudo provam, e principalmente, tudo misturam. Misturam músicas, adicionam temperos, fazem uma sopa de línguas. O futuro é mestiço ( sempre foi ). Porque o francês é um mestiço ( de romanos, celtas, normandos, bretões ), o português é um mestiço ( de romanos, íberos, celtas, suevos e árabes ), mas são mestiços já esquecidos de suas origens, o sangue impuro acomodado em não-memória, em não-sonho. Mas nas ilhas, na Oceania, como no Caribe e como na África, a mestiçagem é viva, é agora, nasce. E eles se espalham pelo mundo, porque têm viva na mente a dor da opressão, porque têm a violência na alma, porque precisam vingar a injustiça.
Sim, há uma violência latente nesses lugares. Que é uma reação e nunca uma ação. Seus avôs foram massacrados, raptados, estuprados, sua cultura foi apagada, seus deuses ofendidos, sua cara foi amordaçada. Nunca houve dor maior no mundo. Não foi a dor ( terrível ) da guerra, pior, foi a dor da aniquilação. Exemplo: em 1910 na África do Sul ainda se organizavam expedições de caça ao negro. Na Austrália, de caça ao aborígene. Forma européia de vencer o tédio...
A reação violenta está na língua, cheia de termos crús, estúpidos, agressivos. A reação está no modo como eles viajam, viajam com o intuito de voltar, de explorar o explorador. Eles foram dizimados, são violentos e resistentes. Pois seus deuses voltam e o que desejam é lembrar.
Mestiços, povos que amam provar tudo e que assim amam a tecnologia, as novidades, a moda, mas que ao mesmo tempo impregnam tudo de deuses, de manhas, de ritos e de mistérios. Lêem as linhas do tempo. Resistem.
Franceses e portugueses foram massacrados um dia. Foram escravos e perderam sua religião, sua terra. Mas não souberam resistir, se renderam. Essa dor nos foi roubada. Mas não eles, sua dor é deles, é mantida e é celebrada. Identidade.
O futuro de toda nação passa pelo saber ser mestiça. Os aborígenes, ( assim como os negros e os outros povos misturados ), quem diria, são o futuro da vida. Se eles deixarem de resistir estaremos mortos.
Pequeno grande livro.

O sétimo selo - diálogo de Antonius Block com a Morte



leia e escreva já!

O SÉTIMO SELO, UM BERGMAN FEROZ ( RELIGIÃO X ARTE ).

Ingmar Bergman tem raiva. A repressão sofrida na infância ( como mostra Fanny e Alexander ) lhe deixou a marca da dúvida, da angústia e da dor. Nenhum cineasta tratou melhor desses temas, e nenhum cineasta foi mais independente. Bergman fez sempre o que desejou fazer. Na arte e na vida. O Sétimo Selo fez dele uma estrela intelectual, no ano em que além desse filme-marco, ele lançou Morangos Silvestres e preparou O Rosto ( meu favorito ).
De qualquer modo, para o bem ou para o mal, aquilo que conhecemos como "cinema de arte" nasce aqui. Antes de O Sétimo Selo, lógico, existia arte em Dreyer, Ozu ou Renoir, mas a relação do cinéfilo com tal tipo de filme se dá aqui. Desde este filme, "filme de arte" se tornou um gênero à parte.
Ninguém entendeu melhor a idade média ( opinião que compartilho com N críticos ). E neste filme estamos em momento chave da psique humana: a volta das cruzadas e a peste negra. Vários autores relatam que é no retorno da cruzada que se faz a crítica primeira ao cristianismo. Os horrores cometidos e a visão de reinos mais evoluidos que os europeus, fez com que a dúvida se entravasse na mente dos cavaleiros. Porém, mais importante que isso é a peste.
Uma de cada quatro pessoas morreu na peste. Seria como se hoje 2 bilhões de pessoas no mundo morressem em dois anos. Corpos jogados nas ruas apodrecendo, cidades sendo evacuadas, gente gritando pelas ruas, a certeza de que o mundo iria terminar. Psicólogos e filósofos que admiro dizem que foi momento de tamanho horror, que a angústia moderna perante a morte tem sua origem nesse momento. O idílio do paganismo/cristianismo primitivo morre com o horror da peste, com o medo sem fim. O europeu se torna grave, sisudo, angustiado, covarde.
Dois homens acabam de voltar da cruzada e encontram a Europa em terror. A morte acompanha um deles e os dois jogam xadrez. Essa morte nada tem de religiosa. Ela acontece, ceifa vidas, mas nada sabe do que faz. O cavaleiro que joga com ela ( um enigmático Max Von Sydow, que voce viu no filme recente de Scorsese ), é um questionador. Ele quer saber porque Deus não fala com ninguém. O outro que o acompanha já é um homem da renascença, ele tem suas respostas e todas são negações: Deus não existe, o Diabo não existe e os homens não são livres.
Os dois andam e encontram um casal de atores. Eles criam um filho e são muito simples em sua arte mambembe. O ator tem visões e numa bela cena ( que remete a Morangos Silvestres ) ele vê a Virgem Maria com um bebê. O cavaleiro se faz amigo dos dois enquanto um terceiro ator se envolve com mulher casada. Há uma bela cena em que o casal se apresenta cantando e são interrompidos por uma procissão religiosa. Bergman mostra a oposição entre a leveza criativa vital da arte e o peso mortal e tétrico da igreja. Mas ele não é um criador simplório e voce deve sempre duvidar do que Bergaman parece dizer. Pois a pergunta que essa cena traz ( e todo o filme ) é: Onde está a verdade? Se o masoquismo da procissão é ato de histerismo e cegueira, na arte há também algo de ilusório e falso. Ou não?
Uma das mais belas cenas é de uma jovem bruxa sendo queimada ( que remete a Carl Dreyer ). O cavaleiro quer saber se ela, naquele momento final, consegue ver o demônio. Aturdido, ele percebe que os olhos dela nada vêem, apenas o medo e o horror ( ou não? ).
Como todo gênio, Bergman não responde, pergunta. Tudo o que ele sabe é que viver dói. E que existem momentos de alivio que compensam a dor. O casal de atores sobrevive. Mas o outro ator, que fugiu com a mulher casada, em cena de humor cruel ( o filme tem humor quase todo o tempo, humor medieval ) tem sua árvore derrubada pela morte. Morte que trabalha sem cessar.
A cena final é uma das mais conhecidas, os mortos dançando atrás do ceifador. Mas não é esta a cena derradeira, há ainda uma breve tomada do casal partindo. Mais vida e arte irá nascer. Para então morrer.
Porque Bergman, mesmo falando de morte, me faz feliz? Fácil responder: minha alma vibra ao presenciar talento verdadeiro. Por mais triste que seja o tema, eu me alegro ao ver como um homem de gênio lida com essa dor. Nada de falso, nada de artifício, nenhuma apelação. Filmes simples e que jamais se esgotam. O Sétimo Selo seria tema para infindáveis conversas. Penso no jovem Woody Allen vendo esse filme em NY-1956 e pirando para sempre. Vejo-o hoje, em 2011, Brasil, e mais uma vez sinto uma coceira mental, uma vontade de pensar e de perguntar.
Ingmar Bergman é um gênio, seu talento está além do cinema.

LUIZ FELIPE PONDÉ E EU, MEDIEVAIS OU BARROCOS? ROMÂNTICOS?

Que Pondé é um meu irmão espiritual todos que me lêem sabem. E neste texto de 4 de julho ele só confirma isso. Do cacete!
É hilária a forma como ele chama os "meninos" ( meninos são seres anódinos, felizinhos e fofos, que adoram tudo o que é moderninho e ousadinho ), de "inteligentinhos". Inteligentinhos, devo dizer, é melhor que meninos. Mas, como não sou plagiador, continuarei a chamar esses fãs de festivais de cinema e de festinhas louquinhas de meninos. Afinal, assim como os inteligentinhos, os meninos pensam estar livres da Idade Média. Passam pela vida dormindo em caminhas de seda azul.
Não sei se sou medieval ( para quem não leu, o tema de Pondé é Bernanos, o pecado e a era medieval. Pondé, como eu e Jung, sabe que a idade média é para sempre. Que quanto mais voce a nega e renega, mais ela fica louca e forte em seu sub sub sub ).
E que frases de Pondé!!!!!
A salvação dos meninos é como a salvação da Bela Adormecida.
O pecado é nossa substância.
Dois minutos na companhia de um inteligentinho é morrer de tédio.
A liberdade é um tormento.
O pecado é uma paixão pela aniquilação do ser.
ESSES BONS MOÇOS NADA ENTENDEM DA VIDA, E POR ISSO TIRAM DE NÓS NOSSA ÚNICA DIGNIDADE: A LUTA INTERIOR CONTRA NÓS MESMOS.
Sou um medieval graças a Deus. Não acredito no homem e muito menos em mim mesmo.
Eu sei que sou feito do mal, e voce, inteligentinho, se acha do bem, eis sua miséria. Voce é uma folha de alface, eu sou um réptil.
Todas essas frases estão no texto de Pondé. Mas ele fica ainda mais terrível ao dizer que são os pecados que fazem com que nos conhecemos. Penso eu mais que isso: são eles que nos fazem homens.
A avareza, com seu culto ao dinheiro e ao corpo perfeito ( que Bernanos chama de câncer da alma ); a luxúria e seu culto ao gozo, luxúria que nos faz mudos; ambição que traz a cegueira e a inveja que ao desejar tudo dos outros destrói tudo o que temos. Pecados que são de todos e que os inteligentinhos, belas adormecidas, pensam não ter. Eles pensam que pecado é invenção cristã, culpa inculcada para dominar os outros... tolos meninos, quem já leu textos pré-cristãos sabe que toda civilização tem pecado e castigo.
O que me surpreende é saber que existe gente que nega o pecado. Absurdo sofista, relativismo vazio, síndrome de avestruz! Então não existe pecado? Somos todos seres puramente biológicos sem conceito de moral que vivem numa boa? Ao contrário do que o muito perdido Nietzsche percebia ( queria perceber ), a força não está na amoralidade, a força heróica está na consciência da falha, do pecado e da falta. Ser um bicho nada tem de heróico. E Nietzsche queria apenas isso: absolvição para seus pecados negando o pecado e o castigo. Coisa de menino inteligentinho.
Mas Pondé a horas tantas diz ser niilista. Descrê em tudo, inclusive nele mesmo. Seria então ainda um medieval? Ou esse conflito não faria dele um barroco, época de dúvida e da união de opostos inconciliáveis? O medieval tem certeza em seu pecado, mas crê na igreja e em seu rei. Não seria então Pondé um barroco, com suas dúvidas e medos? Romântico, talvez seja essa a resposta. Um ser solitário e revoltado, uma pedra no caminho dos meninos.
O que me importa é o bem e o mal, a dor e a dádiva, a alma e a carne.
Amor sem preço? Prazer sem dor? Vitória sem dilaceramento? Isso existe?
Sirvo a reis e procuro pelo deus que não conheço ( e duvido ). Creio em palavras medievais como missão, paixão, maldição, azar, benção e abnegação. Se elas, assim como o pecado, são invenções culturais, pouco muda, somos seres de cultura.
Pecadores entre névoas de maldição, almas sombrias divididas entre medo e desejo, heróis lidando com egos ditatoriais, e um Deus, quer exista quer não, regendo as idéias que nos atormentam.
PS: no RODA VIVA de ontem ( dia 4 de julho ) um escritor angolano, jovem, amigo de Mia Couto, cujo nome me fugiu. Em dado momento ele fala do mistério da escrita, da inspiração como posse, mistério..... um entrevistador sorriu e balançou a cabeça. Eis a imagem do inteligentinho ( estéril e beladormecida ), e o artista xamânico/medieval, seu oposto.
Eis tudo.

AMAR OU SER AMADO

Um amigo me pergunta se é melhor amar ou ser amado. Digo, de primeira, que é melhor amar. Pois não tem valor algum ser amado por quem não se ama. Se ser amado por quem não se ama fosse felicidade nenhum casal se separaria. Mas... será?
Quando amamos, quando conseguimos amar, tudo ao nosso redor se faz amoroso. Passamos a sentir afeto e carinho pela vida. Mas e se esse nosso amor for repelido? Amar sem ser amado....
Tenho então duas coisas a dizer.
Primeiro: Falo de Amor e não de casamento. Sentir que se ama não significa realizar esse amor. Me parece que as pessoas confundem muito isso. Muitas não conseguem sentir Amor. Sentem desejo, carência, medo e solidão. Falo do dom de se sentir o calor do amor, o querer bem, o torcer pela amada, a constância do afeto. Amor nobre, que acaba se expandindo para amigos, bichos, ambiente. Amor que faz com que quem o sente torne-se caloroso, expansivo, sorridente, bonito, em resumo: Amável. E reafirmo então, mesmo que esse amor não se faça carne, é dele que guardamos nossas mais ricas lembranças. Mais, é o que faz a vida valer a pena.
Segundo: Tragédia do homem: para ser amado é preciso ser amável e para ser amável é preciso amar. Converse com alguém que está amando. Faça-o falar desse amor. Repare em como voce sente estar diante de alguém realmente vivo e em como voce deseja estar perto dessa vida calorosa. E não é preciso ser o Amor do tipo cupido. Ouvir alguém falar com amor, com entusiasmo, de seu hobby, de seu trabalho, de sua cidade favorita, de qualquer coisa que ele ame, faz com que essa expansão aconteça diante de nossos olhos. A pessoa começa a brilhar e seu rosto fica expressivo. As mãos se movem em vida, o peito se enche de ar, a voz se afirma. O amor pela vida nasce e voce quer estar ao lado daquele que Ama.
Mas há o ser que foge do amor. O Vampiro que nega a luz e o calor e pensa no amor como tola ilusão, armadilha, futilidade diante da morte. Não percebe que ele ama a morte e amar a morte é também amor. Amor pra dentro, rancoroso, travado, secreto e doído. Para esse tipo de ser, ter alguém que o ame é indiferente. Normalmente ele sabe ser amado, mas pouco importa, ele não quer, esqueceu de amar.
Ser amado é uma dádiva maravilhosa. Mas saber, querer, ousar amar, isso é estar vivo.

JOHN DONNE E O DIABO DA TASMÂNIA

Concordo com John Donne. Mais que isso, sinto na carne e no osso aquilo que ele diz. Cada ser que morre na Terra é parte de mim que morre junto. Falo ainda, há uma agoniante sensação de pobreza e de fracasso quando sabemos que um componente do teatro terrestre pode estar se indo. Para sempre.
Vida interior é alma. Vidas externas que se refletem dentro de mim mesmo. Elas dançam e repercutem em meu interior e se fazem componente desse eu. Quando um desses eus deixa de existir é meu eu que morre. Um pouco, e muito.
O encanto do filme de Woody Allen é o de se ver um homem que por amar outros seres fora de si-mesmo, ama a vida e amando a vida ama Paris e o mundo. Disso bem entendo, pois sei, muito, o que é amar Londres por Thackeray ou Ferry, Paris por Proust e Gauguin e o sul dos EUA pelo jazz e pelo blues.
Só que mais forte é amar a Serra do Mar por seus micos e seu verde sombrio, é amar a Austrália pelos dingos e pelos cangurús. E se os tigres estão por um fio, se o mar deixará de ter golfinhos, é evidente que a vida, nossa vida, será de um vazio abissal. O homem que ama Tokyo porque Tokyo tem aparelhinhos e luzes não percebe que ele ama coisas mortas. E hoje se ama Nova Iorque e Amsterdam por coisas sem vida. Não por Cole Porter ou Rembrandt.
O Diabo da Tasmania está se indo. Um fungo que se torna cancer facial destrói a espécie. Inteira. Quando ele estiver vivo apenas em memória de tolos como eu, saiba, e tenha a certeza, de que a Vida neste planeta estará ainda mais pobre e mais futil. Porque voce e eu somos ele também.
John Donne sabia.

DONEN/ CARY GRANT/ BURT LANCASTER/ AL PACINO/ POWELL/ CAPRA

ARABESQUE de Stanley Donen com Gregory Peck e Sophia Loren
No inicio dos anos 60 foi moda fazer filmes do tipo "mistério-policial-chic". Donen fez em 63 o melhor deles: Charada. Aqui ele tenta fazer um filme tão bom quanto aquele. Infelizmente não consegue ( Pudera! ninguém mais conseguiu fazer outro Charada.) Mas este Arabesque não é ruim. Diverte e é bonito de se ver. Sophia nunca esteve tão perfeita e Peck é sempre ok ( Embora não sirva pra comédia. Suas cenas de humor naufragam ). Stanley Donen é o soberbo diretor que ajudou Gene Kelly a fazer Cantando na Chuva e que depois provou sua maestria com Sete Noivas para Sete Irmãos. Donen sabia dar a seus filmes um toque sublime de leveza, brilho, chique, humor e muita inteligencia. Em 1994 foi homenageado no Oscar e sua dança com seu prêmio é dos melhores momentos da academia. Nota 6.
NIGHTFALL de Jacques Tourneur com Aldo Ray, Brian Keith e Anne Bancroft
Ótimo policial noir. Tourneur foi um daqueles caras que sabia fazer qualquer tipo de filme. O que ele dava a todos os seus trabalhos era senso de ação, clima, e boas interpetações. Este filme tem tudo isso, e mais um enorme fatalismo pessimista. Tudo dá errado para seus personagens vulgares. Uma excelente diversão. Nota 8.
O LADRÃO DE BAGDÁ de Michael Powell com Sabu, June Duprez
Em que pese a maravilha de foto ( Georges Perinal ), o filme é muito irregular. Na verdade Powell dirigiu apenas um quarto do filme. Korda e Whelan dirigiram o resto. Isso lhe dá uma alternancia de ritmos, climas que não evoluem. Mas funciona como fantasia solta e tem seus momentos. Mas não espere demais. Nota 5.
ESTE MUNDO É UM HOSPICIO de Frank Capra com Cary Grant, Peter Lorre, Raymond Massey
Um filme que é todo falho. É a versão nas telas de peça de imenso sucesso. Fala de duas velhinhas que aliviam a vida de velhos solitários: elas matam esses infelizes. Mas a comédia não funciona. O motivo? Todos os personagens são irritantemente histéricos. Mesmo o maravilhoso Cary Grant está fora do tom. Dá para se perceber seu desconforto. Nota 4.
O HOMEM DE ALCATRAZ de John Frankenheimer com Burt Lancaster e Telly Savallas
Baseado em fatos reais. Um homem anti-social, ruim, é preso. Ele odeia as pessoas e idolatra sua mãe ( uma assustadora/edipiana Thelma Ritter ). Na prisão, um diretor passa a persegui-lo ( um odiável Karl Malden ), porque ele não se encaixa em seu plano de prisões ultra-racionais. Por acidente, esse preso cria um canário na cela, e passa, com o tempo, a ser uma das maiores autoridades do mundo em ornitologia. Sem jamais sair da prisão. O filme é muito dificil. Todo filmado dentro das celas, sem sol, sem alegria, nada apelativo. Lancaster está contido, seco, bastante viril e o resto do elenco está a sua altura. Frankenheimer, um dos grandes da época, sabe filmar esse tipo de tema. A câmera testemunha, não julga, mostra e jamais escancara. Não é fácil acompanhar vida tão árdua, mas caraca! Vale muito a pena. Nota 7.
O IMPÉRIO DAS ARANHAS de John Bud Cardos com William Shatner É um thrash fuleiro sobre aranhas que matam e aprontam. É versão pobre de Os Pássaros. Voce se senta e se deixa ver, e de repente se pega gostando. Nota 5.
ANNA CHRISTIE de Clarence Brown com Greta Garbo
Peça de Eugene O'Neill, ou seja, pessimismo ao extremo. Garbo prova mais uma vez ser grande atriz. Faz um papel sem nenhum glamour. Mas o filme, feito no inico do cinema falado tem um enorme problema: seu peso. No começo do falado, os aparelhos de gravação de som eram imensos, isso fazia com que câmera e atores não pudessem se mover. O que temos são longas cenas sem movimento ( isso seria resolvido no ano seguinte ). Chato pacas! Nota Zero.
JUSTIÇA PARA TODOS de Norman Jewison com Al Pacino, Jack Warden e Christine Lahti
No tempo em que o cinema americano era adulto, se fez este filme. É sobre um advogado que tem de defender de processo por estupro, o juiz que ele mais detesta. O roteiro de Barry Levinson mistura drama pesado e comédia louca, funciona e muito. Jewison, diretor engajado, mostra a vida de travestis, pequenos ladrões, julgamentos falhos e escritórios cheios de processos infindáveis. Pacino vai enlouquecendo e sua atuação é das melhores coisas que ele já fez. A explosão que ele sofre no final é das cenas mais citadas pelos jovens atores. Mas há mais: o filme é maravilhosamente rico. Um juiz que tenta se enforcar, um outro fascista, um advogado que enlouquece, um travesti sensível, todos são meio loucos neste filme que parece faiscar em mil direções, mas que jamais se perde. Posso dizer que se voce é daqueles meninos que ainda não descobriram o cinema adulto dos 70, que ainda pensa que Rede Social e Cisne Negro são o máximo...bem, veja este filme e depois a gente conversa. Há aqui uma complexidade fílmica não afetada maravilhosa. E há Pacino. Nota 9.
NESTE MUNDO E NO OUTRO de Michael Powell com David Niven e Kim Hunter
Uma obra-prima. Fantasia pura e poesia soberba em filme que trata de espíritos e anjos sem jamais ser fofo ou lacrimoso. Sério e socialmente nobre, Powell era um gênio. Este filme, diferente de tudo o que voce já viu, é testemunho de alma sem igual. Ver e crer. Nota DEZ!!!!!!
PARALELO 49 de Michael Powell com Laurence Olivier, Raymond Massey e Leslie Howard
Um grupo de nazis, perdidos no Canadá, tentam escapar. Coragem de Powell, o filme, feito durante a segunda guerra, tem nazis como personagens centrais e mostra os alemães como não-vilões. O filme, claro, ataca o nazismo, mas exibe o fato de que os alemães não são todos ruins e mais, que há soldados alemães inocentes. Fora isso, é uma aventura de primeira com deslumbrantes paisagens canadenses. Mais um show de Powell. Nota 7.

FIAM: UM LUGARZINHO MUUUUUITO ESTRANHO...

Ficava em meio a uma zona residencial. Na época, bastante deserta. Choveu muito naquele ano, e estranhamente, só me recordo de dias frios. O prédio era um antigo depósito de um supermercado, e lá dentro nos sentíamos como um tipo de produto perecível. Corredores inclinados, de concreto, labirintos.
Fernando Davino usava gola rulê, blusa justa cor de rosa e devia ter por volta de 102 anos. Muito magro, dava suas aulas de pé, no centro da sala. Amava suas teorias. Ana Teresa deu uma aula de redação em que o tema era O Bolero de Ravel. E ainda havia uma professora de psicologia com óculos fundo de garrafa. Estarão vivos? Aqui eles estão.
Era uma época snob. Tudo parecia aspirar a Londres e New York. E Londres/New York eram Londres e New York. Mas também era o tempo da explosão das marcas de surf no Brasil. Town and Country, OP, Redley, Natura... Então a classe era dividida entre surfistas ( toneladas ), o povo dos jardins e alguns aliens ( eu entre eles ). Nos anos 80 as tribos não se misturavam. Eu tinha de rebolar para andar entre todas elas. Acabava não sendo de nenhuma.
Meninas de cabelo punk e garotos de roupa preta e coturno. Esses eram os veteranos. Ao meu lado se sentou um cara de bigode que espirrou e se encheu de muco ao dizer "Presente!" Aquela foi a última era dos bigodes. Ele virou um brou e estava sempre chapado. Pasmem!!!! Era permitido fumar marijuana dentro da faculdade! Meia sala assistia às aulas chapada. A professora falava "Quietos!" E todos riam sem parar. O líder dos malucos era um cara com rosto do mal. Penso hoje: O que a gente estava fazendo lá? Eu sei o que eu fazia: Me apaixonava. Toda semana....ser garoto não é fácil.....
Festas em lugares com nomes engraçados: Radar Tantam, Pool, Victoria Pub, Rose Bom Bom, Madame Satã. Meu niver foi no Satã. Um desastre! Ninguém se sentiu bem num lugar sujo e sinistro, onde gente vomitava na sua cara e uma moça cuspia repolho em voce. Além de um porão úmido com cheiro de suór e punks querendo surrar quem não fosse punk. Mas as músicas eram ok. Eletro da época, teclados Casio.
Como seriam as amizades se na época existisse o msn? Não usaríamos o telefone e com certeza sentiríamos menos vontade de se ver. Porque a gente se via muito, e quando eu gostava de alguém, eu adorava esse alguém ( mesmo que durasse um nada ).
Snobs... eu pensava ser o novo Heminguay! E tinha amigos que queriam ser um Picasso, um Dior ou um Kerouac... Um dizia sonhar em beber champagne no alto do Empire State e se jogar de lá então.... outra queria comprar um título inglês e se tornar Lady qualquer coisa. Zoomp, Yes Brasil, Soft Machine e Elle et Lui. Um certo clima de deprê fake, deprê bonita, chic.
Amigos...eu não fui um bom amigo. Naquele ano eu estava doido, totalmente doido. Na verdade tinha um distúrbio que depois virou moda ( sempre na vanguarda, Tony Roxy ), síndrome do pânico, amada e odiada síndrome.... Mas eu ia vivendo, aos trancos e barrancos!
Fizemos uma peça de teatro para marcar o fim desse glorioso ano. Uma peça sem texto definido, sem nenhum ensaio e sem palco! Mas fizemos! E nela eu recordo de um Sheriff judeu ( Mel Brooks !!!! ), de índios de sunga cantando Martinho da Vila, de um bandido de preto e botas de bico fino ( eu ) e de uma cena de dança ( eu sempre desejei ser Bob Fosse ). Uma menina elegante tirando fotos, uma outra rindo, um ator de smoking e um frio cruel naquele auditório escondido.
De onde veio tanta coragem? Foi o ridiculo sublime! Grotescamente ousado! Ego- trip sem culpa.
Depois esse elenco se foi, o tempo os levou rumo a erros e, espero, muitos acertos. Outros anos vieram, outras peças menos carnavalescas e outras salas mais quentes e mais homogêneas. Mas aquele foi o ano zero da minha adultês. E daquele primeiro dia, com o cara de bigode e uma súbita paixão pela menina de roxo, até o último dia, com o cara de branco e a paixão pela menina de cabelo liso, ficou um rastro de riquesa e de risos que esse mesmo tempo não apagou, antes, valorizou.
Quem estava lá sabe... mauricio, romeu, giba, baker, ricardo n, fachinni, nelson, roberto, renata, moara, flavia, roberta, patricia, monica, andrea, paula.......

NESTE MUNDO E NO OUTRO- MICHAEL POWELL ( DIRETOR CULTUADO POR DE PALMA, SCORSESE E COPPOLLA...E POR MIM. )

Um dos maiores prazeres de um cinéfilo é ver os filmes de Michael Powell. Com Hitchcock é ele o melhor diretor que a Inglaterra já teve ( David Lean e Carol Reed vêm atrás ). O que mais impressiona em Powell é seu arrojo. Todos os seus filmes são originais, diferentes, arriscados. Ele nunca é hermético, nada tem de intelectual, mas Powell corre riscos, chega perto do grotesco, tange o mal gosto, e sempre vence. É um gênio. Dos cinco maiores que o cinema já possuiu.
Do que trata este filme? De guerra, amor, morte, responsabilidade, das relações entre EUA e Inglaterra, de heroísmo e de ilusão. Ele começa com imagens do espaço sideral ( a foto, deslumbrante, é de outro gênio: Jack Cardiff ), e chega a Terra e então a Inglaterra, em meio a segunda guerra. Um avião está caindo e seu piloto se despede da vida. Mas há um erro e o além se esquece de levar sua alma para o céu. Em cena belíssima, ele acorda na praia e pensa estar morto. Mas não, sobreviveu a sua queda. Na sequencia ele se apaixona por americana, tem seu cérebro operado e recebe visitas de enviado do além que faz o tempo parar. Parece comédia? Pois não é. Parece melodrama? Nunca é. Filme pra chorar? Jamais. Não tem uma única cena feita para as lágrimas. O que é então? Poesia. O cinema de Powell é sempre profundamente poético, não no sentido de "belo" ou de "emocionante", mas sim no sentido de simbólico/sublime/imenso.
Perto do final há um julgamento no céu. Serve para vermos se ele deverá morrer ou permanecer vivo. E o que assistimos é a um surpreendente julgamento da nação inglesa. Irlandeses, Sul-africanos, americanos e russos julgam esse inglês e julgam seu país. É um momento breve, e tremendamente arriscado.
Várias vezes durante o filme me peguei sentindo o mesmo tipo de coisa que sinto ao ver os melhores desenhos feitos hoje. Por que? Porque Powell não teme nunca parecer ingênuo, tolo, infantil. Como ocorre com esses desenhos, ele não tem compromisso algum com o mundo adulto, com parecer adulto, ser artístico ou engajado. Powell filma aquilo que deseja, aquilo que quer dizer e jamais faz concessões ao que seria elevado ou comercial. O fácil não existe para ele.
Quem assistir este filme esperando uma bela história de amor ou um filme sobre almas do além estará comprando gato por lebre. O filme não se parece com nada que voce viu antes. E mais surpreendente: é deliciosamente popular.
Enumerar as Obras-Primas deste diretor é enumerar mais de dez filmes. O que posso dizer é que em 1960 ele destruiu sua carreira ao fazer o filme mais neurótico que já vi: Peeping Tom, filme sobre voyeur assassino que estava vinte anos além de seu tempo. Mas ele ainda conseguiu fazer em 1968 um de meus filmes favoritos: A Idade da Reflexão, possivelmente o filme mais feliz que já vi. Esquecido por toda a década de 60/70, Powell viveu para se ver reabilitado em 1980, graças as homenagens dos diretores citados acima. Casou-se então com a montadora dos filmes de Scorsese e foi premiado em Veneza. Morreu em 1988, aos 82 anos. Feliz.
Para quem dirigiu filmes como: OS CONTOS DE HOFFMAN, CORONEL BLIMP, OS SAPATINHOS VERMELHOS, NARCISO NEGRO e tantos mais, sua vida foi retrato fiel do mundo que retratou.
Michael Powell foi um poeta no cinema. Ele não narrava histórias. Fazia poesia. Como ele, ninguém mais.

O MORGADO DE BALLANTRAE- ROBERT LOUIS STEVENSON

Existem 3 tipos de livros: aquele que voce lê para saber o que acontecerá a seguir. Seu interesse é no enredo e em seus personagens. Existe um outro tipo em que o interesse é na forma como o texto é escrito. O interesse principal é no modo como o autor diz aquilo que será/é dito. E há um terceiro modo. Nele acontece a integração dos dois primeiros modos, ou seja, voce lê interessado nos personagens e ao mesmo tempo nunca deixa de se impressionar com o estilo do escritor. Apenas como exemplo cito Machado de Assis como mestre desse terceiro modo.
O escocês Stevenson é mestre do primeiro modo. Seus livros não são livros da arte da escrita, são histórias bem contadas que nos prendem pelo enredo bem urdido. Aqui acompanhamos a história de dois irmãos, um muito bom, outro muito mau. O modo como eles disputam herança, poder e amor é o cerne do livro. Mas atenção, é livro muito original. Em meio a toda aquela aventura ( piratas, casas frias e escuras, expedições à floresta, tempestades ) há uma fina análise de caráter. O bom filho acaba por nos exasperar, o mau nos seduz por sua esperteza. Ficamos em conflito: de quem gostar? Fato estranho, na verdade todos os personagens são falhos de caráter. Na bondade há muito de odioso. E o mal é revoltante.
A primeira metade do livro é das coisas mais prazerosas que já li. Ação e drama sem parar. E um soberbo clima de tragédia. Depois Stevenson se detém para esmiuçar o caráter da familia. No fim volta a ação. O final é negro, sujo e muito forte. É um livro que mereceu imensos elogios de Borges, Henry James e de Chesterton.
Stevenson foi um aventureiro em vida. Escritor arisco, viajou meio mundo e faleceu de súbito, nos mares do sul. Foi dos primeiros europeus a ver o surf dos reis havaianos. O livro é digno de quem teve tal vida.
Em tempo. Stevenson escreveu Jeckyl and Hyde... não seriam estes dois irmãos faces da mesma alma?

ALGUÉM AINDA OUVE MÚSICA? ( A CRISE ANUNCIADA )

Tem muita gente reclamando: "Ninguém mais escuta um cd inteiro!" Acho que esse povo não sabe o que diz. A molecada deixou de escutar uma música inteira! E qual a novidade? A novidade é a tal da sensação. Vamos por partes....
Primeiro: Elvis não gravava lps. O que ele fazia era juntar um monte de singles e lançar um album. Os fãs ouviam tudo, mas o povão comum queria só os hits. Mesma coisa com Sinatra, Pat Boone ou Chuck Berry. Lp como obra integrada foi coisa artificial criada por Bob Dylan em 1965 com Blonde on Blonde. Vaidade talvez. Mas voce tinha de ouvir os 4 lados do disco duplo para "entender" a mensagem. Logo, todo mundo começou a deixar o single de lado e a pensar em lps. Foi a época mais egotrip da história do pop. Mas deve ter sido muito bom pra eles...
Na era da disco music ( 76/78), o single voltou com tudo, mas os anos 80 ainda são tempo de lps. U2, Prince ou REM pensavam sua música em termos de "encadeamento de faixas". A tecnologia e o culto da sensação mataram isso.
Quando em 1964, Kinks, Yardbirds ou Them lançavam singles e se concentravam só em singles era porque os fãs não tinham dinheiro para comprar lps. Mais: eles se pensavam como moleques fazedores de riffs. Jamais como artistas. Quando o Led Zeppelin lança Physical Graffitti em 1975, eles se enxergam como "mestres" de seu som. Possuem uma mensagem e seus seguidores ansiam por mais e mais e mais. Nesse onze anos ( 64/75), a tecnologia acompanha a ambição, o sentido é de menos para mais, mais ego e mais liberdade de ousar ( mesmo que isso signifique mais chatura, vide Yes ou Gentle Giant ).
Entre 2000/2011, o sentido é inverso, a tecnologia dirige tudo ao rumo do mais para o menos, menos expansão e menos atenção. É a tal cultura da sensação. Explico.
Seja música, seja cinema, o que se procura agora é uma sensação e não uma emoção. Emoção requer preparação e tempo, desenvolvimento de climas e de expectativas, já a emoção vem e vai com rapidez, não necessita tempo, elaboração, e nada deixa de resto. É inofensiva. Esse modo "novo" de usufruir a "arte" é o que faz a glória de filmes como Cisne Negro ( uma coleção de sensações fortes sem sentido nenhum ). E é isso que faz com que a molecada ouça um mesmo riff por todo o tempo. Porque hoje não se escuta nem sequer um single, não se deixou de ouvir apenas um lp inteiro, se deixou de escutar uma canção inteira, ou de se ter paciência para os tempos aparentemente mortos de um filme.
Com seus mp a molecada ouve batidas que se repetem indefinidamente e a graça é sua repetição. Em um minuto a música tem de se resolver e voltar a seu riff original. E é isso: uma constante mudança de faixas que levam sempre à mesma faixa.
Deve ter sido realmente bom fazer lps em 1975 e ter suas dezenove faixas escutadas uma por uma com total idolatria. Eu escutei Physical Graffiti inteiro durante dois meses todos os dias. Mas hoje, quando pego um disco para ouvir me vejo enervado e logo pulando faixa por faixa....
Uma banda jovem hoje tem seu ganha pão nos palcos e só nos palcos. Shows que na verdade são grandes pretextos para azaração e pulação ( alguém ouve com atenção? ). Duvido muito que alguma delas pense em termos de arranjos, encadeamento de faixas ou design de album. Essa época de semi-deuses passou e jamais irá voltar. Gravam-se 3 faixas de trabalho e o resto é enganação. Mais que isso: faz-se uma faixa de clip e as outras duas são mix.
Um momento de choque, de rápida e breve sensação, que se repete ao infinito. A arte hoje é isso.

A ARTE DE AMAR- OVIDIO ( COMO PEGAR MULHER )

Alguma coisa mudou em 2000 anos?
O jovem Ovidio escreve um tratado sobre paquera e sobre sexo e suas dicas são as mesmas que seriam dadas hoje. É isso o que mais impressiona, o encontro dos sexos continua sendo exatamente igual.
Fala de onde encontar as mulheres mais belas ( circo, certas ruas, festas, teatro ), e como saber se ela está disponível. O tipo de abordagem mais indicada ( sempre com humor, mulheres são pegas pelo sorriso ), e como cuidar do visual masculino ( deve-se ser magro, cabelos e barba bem aparada, nada de feminilidades: sem maquiagem e sem pernas depiladas, roupa limpa e bem passada, músculos duros e não exagerados, dentes claros ). A mulher é conquistada por aquele que parecer mais confiante, por aquele que sabe ser desejado, que se sente desejado.
Simples assim. Mas Ovidio avisa: seus conselhos são para os jovens pobres, pois àquele que tem dinheiro basta exibir seu poder.
Na parte final Ovidio se dirige às mulheres. Fala de quais são as melhores posições para o gozo, e ensina a como atrair seu homem. Deve a mulher parecer desinteressada, mas sem jamais desencorajar. Interessante é ele diferenciar o caso furtivo, do namoro: para o namoro é necessário o sofrimento, algo que impeça e adie o livre usufruir dos corpos.
Dica para os homens: quando com sua mulher faça-a sempre feliz. Quando longe, faça-a sofrer. A mulher se apaixona apenas por quem a faz sofrer. Mas deve ser uma dor bem medida, nunca em excesso. Dica às mulheres: se dê sem reservas. Mas jamais seja vulgar.
Ovidio, grande amante quando jovem, na parte final da vida se voltaria para outro tipo de interesse. As Metamorfoses contaria a história dos deuses ( escrito em tempo em que esses deuses já eram passado ). Roma era uma área de flertes sem fim e o grande interesse era seduzir e se deixar seduzir. Nesse jogo, escrito em forma poética mas sem meias palavras, o grande desejo é ser valorizado e ter seu poder reconhecido.
O texto é dos primeiros anos de nossa era. E volto a dizer: mudou o que?

Roxy Music - Mother Of Pearl



leia e escreva já!

ANDRÉ FORASTIERI E O ROXY MUSIC

Jamais eu esperaria que Forastieri tecesse odes aos Roxy. Mas sim!
Lí ontem isso. Ele escreve sobre uma coleção de rock, encartes de jornal com cds, que ele foi incumbido de escrever, e que deu em nada. A foto que ele usa para ilustrar esse texto é do Roxy. Ferry, Eno, Manzanera, MacKay e Thompson em 1973. E André diz: "Uma história do rock sem o Roxy Music é inimaginável. Por isso os coloquei no começo deste post."
André Forastieri no começo dos anos 90 era o cara dos escritos sobre rock. Texto de fã, cultura de jornalista sério. Mas nunca pensei que ele gostasse do Roxy. O que me leva a dizer que existem certas coisas que têm que acontecer. E que qualquer pessoa que realmente ame música pop ou rock vai um dia topar com os caras de lamê e botas espaciais, os Roxy.
Porque tudo que é feito agora é filho pobre do Roxy. Tudo. De Lady Gaga à bandinha mais obscura da Islandia. O rock será pensado em termos de visual/ironia e glamour decadente. E se falará de amor/festa/beleza. E do romantismo caleidoscópico de uma época que tudo oferece e nada doa. Se repetirá aquilo que o RM já dizia e experimentava, tanto tempo atrás....
Mas, o que é o tempo para uma banda que é maior que o contar de dias e noites?
Ferry é o protótipo de todo cantor que se entrega aos fãs com frio sofrimento e alegre distanciamento. E o som da banda é a mistura de soul/rock e eletrônica que é o que existe agora e desde 1979.
Filhos do Roxy Music, eu vos desprezo a todos.
Roxy Music, eu vos amo.