ROBIN HOOD de Ridley Scott com Russel Crowe, Cate Blanchett e Max Von Sydow
Quanto deve ter sido estranho para Max estar aqui. Em 1956 ele visitava a idade média em O Sétimo Selo, e agora é a única figura real neste tolo e muito chato pastiche. Cate está terrivelmente chata e Crowe, ator excelente, não tem um personagem definido para atuar. O filme, longo demais, não emociona, não interessa, é um nada. Nota 2. Pelos cenários.
HOMEM DE FERRO 2 de Jon Favreau com Robert Downey, Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson
Após me acostumar com a arte refinada das cenas de ação dos filmes orientais, fica dificil aturar cenas de ação tão óbvias. Todas as lutas deste filme são cliché. Lá vai o bonequinho ( desculpem, mas é um desenhinho bem chinfrim ) voando, tiros e explosões, ele quase sifu, ele reage, explosão, ele sai voando.... caraca!!! Quem ainda aguenta esses filmes de hq???? Downey mostra porque nunca se tornou um ator classe A : aqui aparece sua enorme antipatia. Seria lindo ver Mickey dar uma surra nele ! Falha do filme : Mickey é muito mais interessante. Não dá pra torcer pelo mala do Stark. O filme é chato pra cacete !!!! Nota 2 pelo Ac/Dc na trilha.
UM ANO DE CÃO de Daniel Von Akon com Jeff Bridges
Um escritor em crise se isola da familia com seu cão-problema. Para quem ama cães é um prato fino. Jeff faz o personagem com muita preguiça e mal-humor. Gran Torino versão canina. A Rolling Stone reconheceu que Jeff em O Grande Lebowski tem uma das maiores atuações da história. Demorou ! Jeff Bridges é o cara ! Nota 5.
ONDINE de Neil Jordan com Colin Farrel e Aljcia Bacheda
Atenção: Colin sabe ser ator. Mas só quando o filme fala de sua terra, Irlanda. Aqui ele é um pescador que ao encontrar moça em rede quer crer ser ela uma sereia. A moça, Aljcia, é lindissima, mas muito má atriz. É uma delicia o sotaque da ilha, mas o filme não tem nada dentro de si. Quando vem a verdade ele desaba de vez. Pobre de idéias, pobre de coragem. Neil Jordan fez este filme para que? Nota 4.
THE RUNAWAYS de Flora Sigismondi com Kristen Stewart, Dakotta Fanning e Michael Shannon
Para quem gosta de rock é obrigatório. Nada alegre, nada levinho. Um drama sério e muito bem interpretado ( mesmo pela crepuscular Kristen ). A música das Runaways era de uma pobreza óbvia, mas o filme é tão bom que faz com que elas pareçam melhor ( ou será porque hoje o som delas é cult ? ). Meninos creiam, o mundo em 1976 era daquele jeito, e era muuuito divertido ! Depois vem o bode das drogas, mas o filme consegue não ser moralista demais. Nota 7.
RISCO DUPLO de Bruce Beresford com Ashley Judd e Tommy Lee Jones
Em época de Angelina, Nicole, Scarlett e Charlize, ninguém é mais bonita que Ashley. Certos closes chegam a fazer doer de tão bonita. E melhor, ela parece de verdade, real. É uma mulher. Bem... misture isso com a presença carismática de Lee Jones e temos um belo passatempo. É verdade: o filme é uma delicia tola ! O enredo, que tenta ser Hitchcock, é cheio de furos, mas Beresford é bom diretor, sabe levar a coisa no ritmo certo. E tem New Orleans, muito bem fotografada. Profissionalismo pop, e saiba, isso é muito raro. Nota 7.
AMORES PERROS de Alejandro Iñarritu
Uma poderosa obra-prima. De um niilismo cruel, ele jamais apela para o melodramático. A primeira parte é suja, dura, dificil de assistir. É a parte "classe baixa" com seus bebês jogados ao léu, sua violência latente, a ausência de pais e de paz. Na segunda parte vem a asfixia classe-média. A tentativa de ter amor, a falência desse amor, o desespero e o vazio absoluto. A última parte é um quase western e é nela que finalmente surge o herói. Que é um assassino. Um filme que permanecerá cravado na história do cinema. Nota DEZ !!!!!!!!!!!
LONGE DELA de Sarah Polley com Julie Christie e Gordon Pinsent
Nesta história de mulher com alzheimer que passa a não conhecer mais o próprio marido, vemos uma das situações mais tristes imagináveis. O marido, profundamente apaixonado por ela, é obrigado a testemunhar a transformação de seu amor em coisa desconhecida. Ele é agora um novo amigo. A dor no rosto desse admirável Gordon Pinsent é jóia inesquecível. Ele sofre calado, e é constante. Julie venceu dúzias de prêmios, perdeu apenas o Oscar para Piaf e Cotillard. Ainda bela, ela consegue mostrar essa transformação sem jamais sair do tom. Polley é uma das melhores direções do cinema atual. Não canso de dizer : enquanto voces prestam atenção apenas em Fincher, Nolan, Van Sant e Croenemberg, há uma dúzia de bons diretores sendo ignorados. O futuro irá os redimir ( como sempre faz ). Nota 8.
JUMPER de Doug Liman
E o roteirista de Clube da Luta ( Jim Ulhs ) nos dá esta insuportável mixórdia. É um dos piores filmes da década. Nota Zero.
US MARSHALS de Stuart Baird com Tommy Lee Jones, Wesley Snipes, Robert Downey Jr
Não é grande coisa. Os atores estão excelentes ( e esqueci de escrever que ainda tem Irene Jacob, linda de doer demais ), mas o roteiro só esquenta na meia hora final ( que é bem legal ). É fácil adivinhar quem é o bandidão e isso estraga tudo pois Lee Jones fica parecendo tapado por não perceber. Nota 4.
A CÂMARA 36 DE SHAOLIN de Lau Kar Leung com Gordon Liu, Wong You, Loh Lieh
Um grande clássico do cinema de aventura chinês. É o filme que transformou Liu em mito ( o Cahiers du Cinéma o considera o maior ator de kung fu da história ). Ver Gordon lutar é testemunhar uma arte milenar em seu estado mais puro. Coloca Jet Li e Bruce Lee pra correr. O filme, imenso sucesso, conta a saga real do primeiro homem a tirar o kung fu do meio budista e levá-lo para os leigos. Com isso esse herói ( San Ta ) tentava livrar a China do dominio de Cantão. A forma como os chineses vêem o cinema é diferente da ocidental: para eles a arte está na ação, todo o resto é secundário. Gordon Liu foi homenageado por Tarantino em Kill Bill. É ele o mestre que ensina Uma Thurman. Eu me apaixonei pelo filme. Ele faz com que nos tornemos muito mais exigentes. Bonequinhos virtuais voando perdem toda a graça então. Nota DEZ.
CREPÚSCULO de Catherine Hardwicke com Kristen Stewart e um menino
Creiam, eu devo já ter visto uns 5000 filmes. E já vi muito lixo. De Mazzaropis a gozações de terror, de westerns italianos a ficções pobres, já vi muito filme brega. E de alguns eu gostei. Muito. Mas jamais vi nada tão ruim. Deve ser uma gozação, não é possivel ter sido feito a sério. Os atores fazem caretas o tempo todo. Ela parece estar com dor de barriga e ele tem expressão de quem perdeu sua caixa de maquiagem no metrô. Eles não param de mexer a sobrancelha, fazer bico, balançar a cabeça... o que é isso ? Amor ? Não me faça rir !!! Nada há de vampiresco aqui ( perto disto os filmes de Christopher Lee parecem eróticos ), nada há de emocionante. Provávelmente é a pior coisa que já assisti ( mas toda semana descubro algo pior ainda ). O que me faz não entender nada é : Isto foi mesmo um sucesso ? Década miserável.... Sem Nota.
CELTAS X ROMANOS, UM NÓ GÓRDIO, ARMAND HOOG
Na introdução a edição de PERCEVAL que tenho, há um texto muito bom de Armand Hoog que me fez pensar muito. Vamos ao que ele diz ....
Que poetas e historiadores romanos, falemos a verdade, não emocionam ninguém. Seja epopéia, seja mitologia, tudo o que Roma nos deixou é feito de blá blá blá sem fim. Uma verborragia bela e vazia, fria e indiferente ao que sentimos.
Os contos, poemas e lendas que nos emocionam nascem na idade média em meio aos ditos bárbaros. São eles que nos deixam o que entendemos por "arte que emociona". Mas essa criação ( que tem no ciclo arturiano, nas canções de Rolando, em Tristão e Isolda e Perceval, seu nascimento ) não é pura. Assim como o dia 25 de dezembro é uma união de cristianismo adaptado a comemorações celtas, a arte poética que vem até nós dos tempos medievais, é uma mistura muito natural de mitos bárbaros tingidos com cores cristãs.
E isso se dá de forma natural e lógica. Roma odiava toda religião bárbara. E para os romanos, cristianismo era tão bárbaro ( e incompreensível ) quanto cerimônias vikings. Roma adapta o cristianismo a sua politica quando vê nele a nova força que poderá unir seu império, mas jamais entendeu o que ele fosse. Criaram a politica católica, mas nunca entenderam o que seja religião.
Há uma pobreza espiritual constrangedora no mundo romano. Seus deuses nada possuem de grandioso, nada exigem de transformador. O mundo de Roma é todo voltado para o exterior, para a vida a serviço do estado, da politica e da guerra. Nesse tipo de sociedade, onde tudo o que tem valor passa pelos olhos do outro, a vida interior é muito pobre, a alma confunde-se com a carne e portanto a arte aí produzida é fria, distante, nada visceral. Técnica apurada, e um blá blá blá sem fim.
Enquanto isso os bárbaros produzem uma arte muito mais tosca, sem grande técnica e sem muita elaboração. Mas tudo é pura emoção, abundam acontecimentos, a ação nunca cessa e o mistério, a noite, a fantasia estão sempre presentes. É arte vital.
Até os dias de hoje nós vivemos dentro desse conflito. A ordem romana contra a ebulição celta. Certos períodos de nossa história pendem para nosso lado racional, ambicioso, amante de jogos verbais, o lado romano. Outro momentos vêm o renascimento da luz celta, da arte do sonho, da individuação, do delirio, do frenesi.
Tudo no mundo romano é imperial. Estradas, cidades, exércitos e leis. Roma pensa sempre em expansão, em comunicação, em integrar. O pensamento bárbaro pensa em fortalecer o clã. E cada clã é isolado, fundado por laços de sangue. Roma institui o discurso, o senado, o jogo de poder. O chefe celta é sempre o patriarca, o depositário da história do clã.
Roma luta com legionários. E os legionários são disciplinados. São peça de um todo e nesse imenso organismo ele é anônimo. O exército celta é anarquista. Cada um tenta ser maior que o todo. Todo guerreiro tem seu uniforme particular, sua bandeira, sua honra. ( E escrevendo isto não há como não pensar em porque a Inglaterra venceu França e Espanha em guerras decisivas. A Inglaterra sempre foi a herdeira de Roma, assim como os EUA são hoje. Enquanto os fidalgos espanhóis pensavam em se exibir na batalha e os sires franceses não admitiam obedecer um lider, os soldados ingleses lutavam como operários da guerra, legionários bem treinados e anônimos ).
No vazio espiritual de Roma ( acredite, Roma criou o ateísmo ) se institui o circo. O vazio espiritual é preenchido pela hiper-valorização do corpo. Emoções para os olhos, para os ouvidos. Sexo ocasional, orgias de comida e bebida, carnaval. A violência torna-se espetáculo.
Mas o que dá sentido a vida da civilização romana ? O crescimento sem fim. O que define Roma e lhe dá sentido é a crença em que "tudo leva a Roma", a certeza de que eles são o único povo civilizado, de que são os criadores do futuro. Roma, como uma doença, só existe enquanto cresce. Um povo bárbaro não pensa em termos de crescimento. A guerra é para eles prova de valentia, rixa entre familias. Sua existência é justificada pela própria vida. Eles não se preocupam com futuro ou com certo e errado, tudo o que desejam é ser o que já se é.
Quando irrompe a alta idade média temos o encontro entre a politica romana e o inconsciente bárbaro. A igreja se forma como politica romana, mas cheia de apelos e símbolos celtas. Todas as heresias dentro da igreja são sintoma dessa dualidade. O catolicismo tenta cumprir dois papéis : organizar o mundo real e aplacar a sede religiosa. Nunca consegue.
A sina do mundo ocidental passa a ser essa. Como conciliar em nós essa racionalidade romana e essa febre bárbara que pede mais vida e mais magia ?
Cavaleiros medievais, poetas romanticos, simbolistas, beatnicks e hippies, anarquistas, busca por religiões orientais, tudo é sinal da alma celta que insiste em crer, em criar e em rir. Tudo é essa raiva da conformação romana, da vida em cidade organizada, da vida em função do bem do estado.
Para terminar um adendo :
Se sofremos esse conflito na carne, imagine um africano, recém saído de mundo totalmente bárbaro, às vezes canibal, tribal. Como é sua adaptação a mundo romanizado que nem mesmo nós, antigos celtas, antigos árabes, aceitamos em paz ?
Que poetas e historiadores romanos, falemos a verdade, não emocionam ninguém. Seja epopéia, seja mitologia, tudo o que Roma nos deixou é feito de blá blá blá sem fim. Uma verborragia bela e vazia, fria e indiferente ao que sentimos.
Os contos, poemas e lendas que nos emocionam nascem na idade média em meio aos ditos bárbaros. São eles que nos deixam o que entendemos por "arte que emociona". Mas essa criação ( que tem no ciclo arturiano, nas canções de Rolando, em Tristão e Isolda e Perceval, seu nascimento ) não é pura. Assim como o dia 25 de dezembro é uma união de cristianismo adaptado a comemorações celtas, a arte poética que vem até nós dos tempos medievais, é uma mistura muito natural de mitos bárbaros tingidos com cores cristãs.
E isso se dá de forma natural e lógica. Roma odiava toda religião bárbara. E para os romanos, cristianismo era tão bárbaro ( e incompreensível ) quanto cerimônias vikings. Roma adapta o cristianismo a sua politica quando vê nele a nova força que poderá unir seu império, mas jamais entendeu o que ele fosse. Criaram a politica católica, mas nunca entenderam o que seja religião.
Há uma pobreza espiritual constrangedora no mundo romano. Seus deuses nada possuem de grandioso, nada exigem de transformador. O mundo de Roma é todo voltado para o exterior, para a vida a serviço do estado, da politica e da guerra. Nesse tipo de sociedade, onde tudo o que tem valor passa pelos olhos do outro, a vida interior é muito pobre, a alma confunde-se com a carne e portanto a arte aí produzida é fria, distante, nada visceral. Técnica apurada, e um blá blá blá sem fim.
Enquanto isso os bárbaros produzem uma arte muito mais tosca, sem grande técnica e sem muita elaboração. Mas tudo é pura emoção, abundam acontecimentos, a ação nunca cessa e o mistério, a noite, a fantasia estão sempre presentes. É arte vital.
Até os dias de hoje nós vivemos dentro desse conflito. A ordem romana contra a ebulição celta. Certos períodos de nossa história pendem para nosso lado racional, ambicioso, amante de jogos verbais, o lado romano. Outro momentos vêm o renascimento da luz celta, da arte do sonho, da individuação, do delirio, do frenesi.
Tudo no mundo romano é imperial. Estradas, cidades, exércitos e leis. Roma pensa sempre em expansão, em comunicação, em integrar. O pensamento bárbaro pensa em fortalecer o clã. E cada clã é isolado, fundado por laços de sangue. Roma institui o discurso, o senado, o jogo de poder. O chefe celta é sempre o patriarca, o depositário da história do clã.
Roma luta com legionários. E os legionários são disciplinados. São peça de um todo e nesse imenso organismo ele é anônimo. O exército celta é anarquista. Cada um tenta ser maior que o todo. Todo guerreiro tem seu uniforme particular, sua bandeira, sua honra. ( E escrevendo isto não há como não pensar em porque a Inglaterra venceu França e Espanha em guerras decisivas. A Inglaterra sempre foi a herdeira de Roma, assim como os EUA são hoje. Enquanto os fidalgos espanhóis pensavam em se exibir na batalha e os sires franceses não admitiam obedecer um lider, os soldados ingleses lutavam como operários da guerra, legionários bem treinados e anônimos ).
No vazio espiritual de Roma ( acredite, Roma criou o ateísmo ) se institui o circo. O vazio espiritual é preenchido pela hiper-valorização do corpo. Emoções para os olhos, para os ouvidos. Sexo ocasional, orgias de comida e bebida, carnaval. A violência torna-se espetáculo.
Mas o que dá sentido a vida da civilização romana ? O crescimento sem fim. O que define Roma e lhe dá sentido é a crença em que "tudo leva a Roma", a certeza de que eles são o único povo civilizado, de que são os criadores do futuro. Roma, como uma doença, só existe enquanto cresce. Um povo bárbaro não pensa em termos de crescimento. A guerra é para eles prova de valentia, rixa entre familias. Sua existência é justificada pela própria vida. Eles não se preocupam com futuro ou com certo e errado, tudo o que desejam é ser o que já se é.
Quando irrompe a alta idade média temos o encontro entre a politica romana e o inconsciente bárbaro. A igreja se forma como politica romana, mas cheia de apelos e símbolos celtas. Todas as heresias dentro da igreja são sintoma dessa dualidade. O catolicismo tenta cumprir dois papéis : organizar o mundo real e aplacar a sede religiosa. Nunca consegue.
A sina do mundo ocidental passa a ser essa. Como conciliar em nós essa racionalidade romana e essa febre bárbara que pede mais vida e mais magia ?
Cavaleiros medievais, poetas romanticos, simbolistas, beatnicks e hippies, anarquistas, busca por religiões orientais, tudo é sinal da alma celta que insiste em crer, em criar e em rir. Tudo é essa raiva da conformação romana, da vida em cidade organizada, da vida em função do bem do estado.
Para terminar um adendo :
Se sofremos esse conflito na carne, imagine um africano, recém saído de mundo totalmente bárbaro, às vezes canibal, tribal. Como é sua adaptação a mundo romanizado que nem mesmo nós, antigos celtas, antigos árabes, aceitamos em paz ?
ALDOUS HUXLEY NA TV CULTURA
Tenho percebido que a Cultura tem dado uma ressuscitada. Talvez seja a crise que está fazendo com que ela retorne a algum tipo de espírito "Tv Cultura anos 80".
Ontem ví Barbara Heliodora no Roda Viva. Ela é alta-classe. Formação inglesa, ela não admite teatro que não respeite a intenção do autor. Voce pode criar sobre o texto, desde que esse texto seja contado. Mais interessante é como ela explica o modo como se deve abordar uma obra : o crítico deve descobrir qual era a intenção do autor, e a partir daí, observar se o objetivo foi atingido. Exatamente o que dizia Pauline Kael e exatamente o que tento fazer.
Ela diz que Gielgud, Olivier e Redgrave foram os maiores.
Em seguida vem um documentário sobre Laura Huxley, a viúva de Aldous. Maravilhoso! Várias cenas de Huxley ( inclusive de sua vinda ao Brasil ). Laura tem uma presença estranha. Ele a considerava um tipo de anjo. Aos 95 anos, magérrima, ela é de fulgurante alegria, uma eterna criança, no sentido belo de ser criança : brincalhona, curiosa, cheia de vitalidade.
Conta das experiencias com LSD dos dois. Que o ácido não dá alucinações, ele faz com que portas se abram dentro de nós, coisas que jaziam dentro saiam para fora. Ela descreve a viagem dela e dele. O peyote inclusive.
Naquele tempo o LSD era legal, e toda faculdade americana tinha seu grupo de estudo sobre o ácido. Logo Timothy Leary veio com seu lema : Ligue-se, caia fora, saia de casa. Huxley foi contra esse desbunde. Ele pensava que o LSD deveria ser usado com muito cuidado. Bem... de qualquer modo, existem cenas históricas de Huxley com Leary e entrevistas na tv sobre LSD.
Há uma fala de Aldous profética. Ele diz que a publicidade está penetrando no inconsciente das pessoas. E que isso será devastador para aquilo que consideramos humano. Tudo o que se torna inconsciente se transforma em parte de nosso ser. E se uma mensagem publicitária se aloja em nosso inconsciente, deixamos de ser 100% humanos e nos fazemos mecanismo de consumo.
Diz ele que toda tecnologia é boa, desde que respeite a biologia do homem. O equilibrio biológico e quimico do ser deve sempre manter-se intocado. Nada que não seja humano deve penetrar dentro do homem. Ou haverá o desequilibrio.
Mostra-se a bela casa onde eles moravam ( em Hollywood ), as crianças, os livros, os quadros. Laura descreve a morte do marido, uma "passagem" tranquila sob efeito de LSD. Christopher Isherwood é várias vezes citado, cenas com o amigo Igor Stravinski, com Orson Welles e com George Cukor ( a nata do cinema frequentava a casa ). Mas o que mais brilha é a presença de Laura, com olhos de bruxa e voz de italiana da renascença.
Uma história do Brasil: em 1960, convidados por Kubistcheck, os dois vieram fazer conferências. Viajaram então ao interior do Mato Grosso, para conhecer os indios. No meio do nada, em meio a tribo que os recebeu bem, eis que um dos moradores, de olhos arregalados e mãos trêmulas, se adianta e maravilhado pergunta: "O senhor é Huxley? Contraponto? Huxley? Contraponto?" Aldous sorri emocionado. Laura diz ter sido essa uma das lembranças mais caras a Huxley.
Conclusão: em noites entediantes, com 102 canais a disposição, é na velha tv Cultura que ainda encontro alguma inteligência. Valeu!
Ontem ví Barbara Heliodora no Roda Viva. Ela é alta-classe. Formação inglesa, ela não admite teatro que não respeite a intenção do autor. Voce pode criar sobre o texto, desde que esse texto seja contado. Mais interessante é como ela explica o modo como se deve abordar uma obra : o crítico deve descobrir qual era a intenção do autor, e a partir daí, observar se o objetivo foi atingido. Exatamente o que dizia Pauline Kael e exatamente o que tento fazer.
Ela diz que Gielgud, Olivier e Redgrave foram os maiores.
Em seguida vem um documentário sobre Laura Huxley, a viúva de Aldous. Maravilhoso! Várias cenas de Huxley ( inclusive de sua vinda ao Brasil ). Laura tem uma presença estranha. Ele a considerava um tipo de anjo. Aos 95 anos, magérrima, ela é de fulgurante alegria, uma eterna criança, no sentido belo de ser criança : brincalhona, curiosa, cheia de vitalidade.
Conta das experiencias com LSD dos dois. Que o ácido não dá alucinações, ele faz com que portas se abram dentro de nós, coisas que jaziam dentro saiam para fora. Ela descreve a viagem dela e dele. O peyote inclusive.
Naquele tempo o LSD era legal, e toda faculdade americana tinha seu grupo de estudo sobre o ácido. Logo Timothy Leary veio com seu lema : Ligue-se, caia fora, saia de casa. Huxley foi contra esse desbunde. Ele pensava que o LSD deveria ser usado com muito cuidado. Bem... de qualquer modo, existem cenas históricas de Huxley com Leary e entrevistas na tv sobre LSD.
Há uma fala de Aldous profética. Ele diz que a publicidade está penetrando no inconsciente das pessoas. E que isso será devastador para aquilo que consideramos humano. Tudo o que se torna inconsciente se transforma em parte de nosso ser. E se uma mensagem publicitária se aloja em nosso inconsciente, deixamos de ser 100% humanos e nos fazemos mecanismo de consumo.
Diz ele que toda tecnologia é boa, desde que respeite a biologia do homem. O equilibrio biológico e quimico do ser deve sempre manter-se intocado. Nada que não seja humano deve penetrar dentro do homem. Ou haverá o desequilibrio.
Mostra-se a bela casa onde eles moravam ( em Hollywood ), as crianças, os livros, os quadros. Laura descreve a morte do marido, uma "passagem" tranquila sob efeito de LSD. Christopher Isherwood é várias vezes citado, cenas com o amigo Igor Stravinski, com Orson Welles e com George Cukor ( a nata do cinema frequentava a casa ). Mas o que mais brilha é a presença de Laura, com olhos de bruxa e voz de italiana da renascença.
Uma história do Brasil: em 1960, convidados por Kubistcheck, os dois vieram fazer conferências. Viajaram então ao interior do Mato Grosso, para conhecer os indios. No meio do nada, em meio a tribo que os recebeu bem, eis que um dos moradores, de olhos arregalados e mãos trêmulas, se adianta e maravilhado pergunta: "O senhor é Huxley? Contraponto? Huxley? Contraponto?" Aldous sorri emocionado. Laura diz ter sido essa uma das lembranças mais caras a Huxley.
Conclusão: em noites entediantes, com 102 canais a disposição, é na velha tv Cultura que ainda encontro alguma inteligência. Valeu!
AMORES PERROS - ALEJANDRO GONZÁLEZ IÑARRITU
Concordo com Houllebecq. O mundo não está em decadência, ele já decaiu. Ontem, vendo as nevascas em NY, me veio um insight : tudo nos prepara para o fim. Abandonaremos o mundo e viveremos em buracos. Toda a nossa tecnologia nos prepara para essa vida em buracos isolados. E no futuro eles dirão : "Pobres humanos de 2010! Sabia que eles viviam ao ar livre ? Imagine que inferno ! Eles tinham contato com o sol e a chuva !"
O homem só pode viver sem nenhum tipo de repressão se for nobre como tigre na selva. Se tiver seu espaço de ação preservado e usufruir da liberdade de ser essa fera. Tendo de viver como homens em sociedade, sem politica, arte ou igreja, é o absoluto vazio. Kaos.
A vida real é esta. Não me venha com frescuras. Mundo sem a figura do pai. Irmão mata irmão, a mãe é apenas um objeto lamuriento. E a fantasia de que um tesão vulgar é o tal do amor.
E a violência vem. O grande tema destes dias não é o facebook. Ele é apenas para aqueles que já desistiram e vivem no buraco. O tema é o sangue.
Mas existe o cão.
Alguém percebeu ? Fazemos do cão aquilo que desejamos sem saber que ele nos paga pelo que desejamos.
Se voce o treina para a violencia, ela virá em paga. E se voce o fragiliza como um fru fru ele será vítima de um buraco absurdo. ( A prisão da não-reação ).
O cão é sua alma baby...
O filme, o filme que abriu Hollywood para os latinos, o verdadeiro grande filme latino- americano dos anos 2000 ( é mais verdadeiro que Cidade de Deus ) é devastador. Chega perto do insuportável, mas o que o redime é que ele jamais nega sua raiz. É do México de Octavio Paz, terra que cometeu o maior genocidio da história e que convive com isso até hoje. Terra onde não há paz.
Tal qual os filmes de Paul Thomas Anderson, há aqui um cristianismo sem igreja, um cristianismo puro. Os dois percebem a vida como purgação, como via crucis, sofrimento que só tem sentido se for aprendizado. Alejandro nos faz desejar a chuva de sapos que nos redima. Ela vem de outro modo.
Vem na figura do tigre que criou seu espaço. Naquele que se afastou do kaos criando seu reino particular. Do único personagem que observa, pensa, está à parte de tudo.
E do único que sabe lidar com seu cão ( que são vários e vivem livres para cachorrar ).
Esse tipo de anjo vingador coloca irmão de frente a irmão. Lida com a podridão sem perder sua integridade ( mesmo sendo um assassino ), ainda tem o amor ( amor a filha e aos cães ) como norte.
Na cena final, tendo reencontrado sua alma verdadeira ( na figura do cão que assassina cães, um sobrevivente como ele é ), como John Wayne em Rastros de Òdio, ele parte rumo a vastidão. O único possível herói é ainda Perceval e também um cowboy.
Demorei dez anos para ter a coragem de ver este filme. Temia as cenas de crueldade com os cães ( não há ). Vendo-o agora, sob a perspectiva da década que felizmente termina, constato que ele é central, poderoso, influente e muito corajoso. Alfonso Arau é um diretor mexicano melhor. Mas ninguém pode negar que este é um imorredouro clássico. Clássico que tem dúzias de cenas grandiosas, que não teme a patetice do amor "feio" entre garota idiota e garoto imbecilizado, filme que tem atuações de magnitude infinita ( a cena da dor com a descoberta do massacre dos cães é de antologia ). Que exibe mundo abandonado, vazio, onde a violência é futil.
Perturbador.
O homem só pode viver sem nenhum tipo de repressão se for nobre como tigre na selva. Se tiver seu espaço de ação preservado e usufruir da liberdade de ser essa fera. Tendo de viver como homens em sociedade, sem politica, arte ou igreja, é o absoluto vazio. Kaos.
A vida real é esta. Não me venha com frescuras. Mundo sem a figura do pai. Irmão mata irmão, a mãe é apenas um objeto lamuriento. E a fantasia de que um tesão vulgar é o tal do amor.
E a violência vem. O grande tema destes dias não é o facebook. Ele é apenas para aqueles que já desistiram e vivem no buraco. O tema é o sangue.
Mas existe o cão.
Alguém percebeu ? Fazemos do cão aquilo que desejamos sem saber que ele nos paga pelo que desejamos.
Se voce o treina para a violencia, ela virá em paga. E se voce o fragiliza como um fru fru ele será vítima de um buraco absurdo. ( A prisão da não-reação ).
O cão é sua alma baby...
O filme, o filme que abriu Hollywood para os latinos, o verdadeiro grande filme latino- americano dos anos 2000 ( é mais verdadeiro que Cidade de Deus ) é devastador. Chega perto do insuportável, mas o que o redime é que ele jamais nega sua raiz. É do México de Octavio Paz, terra que cometeu o maior genocidio da história e que convive com isso até hoje. Terra onde não há paz.
Tal qual os filmes de Paul Thomas Anderson, há aqui um cristianismo sem igreja, um cristianismo puro. Os dois percebem a vida como purgação, como via crucis, sofrimento que só tem sentido se for aprendizado. Alejandro nos faz desejar a chuva de sapos que nos redima. Ela vem de outro modo.
Vem na figura do tigre que criou seu espaço. Naquele que se afastou do kaos criando seu reino particular. Do único personagem que observa, pensa, está à parte de tudo.
E do único que sabe lidar com seu cão ( que são vários e vivem livres para cachorrar ).
Esse tipo de anjo vingador coloca irmão de frente a irmão. Lida com a podridão sem perder sua integridade ( mesmo sendo um assassino ), ainda tem o amor ( amor a filha e aos cães ) como norte.
Na cena final, tendo reencontrado sua alma verdadeira ( na figura do cão que assassina cães, um sobrevivente como ele é ), como John Wayne em Rastros de Òdio, ele parte rumo a vastidão. O único possível herói é ainda Perceval e também um cowboy.
Demorei dez anos para ter a coragem de ver este filme. Temia as cenas de crueldade com os cães ( não há ). Vendo-o agora, sob a perspectiva da década que felizmente termina, constato que ele é central, poderoso, influente e muito corajoso. Alfonso Arau é um diretor mexicano melhor. Mas ninguém pode negar que este é um imorredouro clássico. Clássico que tem dúzias de cenas grandiosas, que não teme a patetice do amor "feio" entre garota idiota e garoto imbecilizado, filme que tem atuações de magnitude infinita ( a cena da dor com a descoberta do massacre dos cães é de antologia ). Que exibe mundo abandonado, vazio, onde a violência é futil.
Perturbador.
THE RUNAWAYS - FLORA SIGISMONDI ( MUITO MELHOR DO QUE FIZERAM VOCE PENSAR )
Quantas cabeças de criancinhas indefesas David Bowie literalmente "fodeu" nos anos 70 ? Eu estava lá e eu vi. E tem um monte de filmes sendo feitos agora sobre isso. Posso citar CRAZY, e também PLUTÃO de Jordan, e ainda ( bem mais velho ) VELVET de Haynes. Penso que na verdade o rock se divide em antes e depois de Bowie. ( Quem discordar depois eu explico porque ). E este filme, este surpreendente filme ( que nada tem de artístico ) tem uma cena linda : Dakota Fanning ( excelente atriz ) fazendo Cherie Lunghi ( vocalista das Runaways ) dublando Lady Grinning Soul num breguérrimo show de escola. Pintada de Bowie aos 13 anos. Uma criança perdida no mundo de Ziggy Stardust. No filme ela usa umas camisetas de David que eu daria minha coleção de dvds para as ter !!!!
Bem.... é preciso dizer, eu lembro meninos e meninas, de quando as Runaways surgiram. E eu recordo que ninguém as levou a sério. Foram, como os New York Dolls, o tipo de banda que se torna famosa antes de gravar e é esquecida após o fiasco do primeiro disco. ( Menos no Japão, que as adorava ). Elas nada mais eram que um tipo de Glitter made in USA. Suzi Quatro para yankees. Mas não dá pra negar, foram pioneiras num tipo de atitude que é dominante hoje, em 2010. Os olhos de Joan Jett e o cabelo de Cherie é moda entre adolescentes rocknroll com 15 anos em todo o planeta. Elas riram por último.
Se Cherie é uma comovente caipira americana tentando ser Bowie, Joan Jett é Iggy Pop. ( E quantos filmes usam música de Iggy nesta década ??? Um ziggylhão ??? ) Kristen Stewart também dá um show e tem cena em banheira que é atestado de boa atriz. Rebelde radical, perdida em sua agressividade, se torna um tipo de heroína rocker, uma Keith Richards com vagina.
Mas o filme ainda tem Michael Shannon fazendo Kim Fowley. Para os mocinhos nascidos recentemente cabe explicar: Fowley era uma estrela. Naquele tempo, auge de vendas de discos, produtores se tornaram estrelas. Tempo de Bob Ezrin, de Chris Thomas, Tony Visconti, Eno, Gus Dudgeon, Guy Stevens e de Kim Fowley, um tipo de flamboyant hiper pop com acentos rocker. O retrato dele é exato. Ego cruel e estranhamente amador. Era o tempo em que todos comiam na mão das gravadoras.
Mas eu testemunhei a ascenção ( que nunca houve ) e a queda ( melancólica ) das meninas. Sumiram sem deixar um só traço em meio aos punks, que cumpriram tudo o que elas insinuavam. E fui pego de surpresa com o sucesso de Joan Jett em 1981, ironicamente usando o caminho aberto por Chrissie Hynde. Eu vi crianças.... eu tava lá.
O filme não mente. As meninas são trituradas. E o balão bolado por Kim Fowley murcha antes de subir. O filme, excelente, respira pelas atuações irretocáveis e pelo retrato do aturdimento de vida ansiada e detestada. Para quem gosta de rock é obrigatório !
Estranho é ver as Runaways, hoje, como um tipo de grupo cult. Estaremos em fase tão ruim assim ?
Bem.... é preciso dizer, eu lembro meninos e meninas, de quando as Runaways surgiram. E eu recordo que ninguém as levou a sério. Foram, como os New York Dolls, o tipo de banda que se torna famosa antes de gravar e é esquecida após o fiasco do primeiro disco. ( Menos no Japão, que as adorava ). Elas nada mais eram que um tipo de Glitter made in USA. Suzi Quatro para yankees. Mas não dá pra negar, foram pioneiras num tipo de atitude que é dominante hoje, em 2010. Os olhos de Joan Jett e o cabelo de Cherie é moda entre adolescentes rocknroll com 15 anos em todo o planeta. Elas riram por último.
Se Cherie é uma comovente caipira americana tentando ser Bowie, Joan Jett é Iggy Pop. ( E quantos filmes usam música de Iggy nesta década ??? Um ziggylhão ??? ) Kristen Stewart também dá um show e tem cena em banheira que é atestado de boa atriz. Rebelde radical, perdida em sua agressividade, se torna um tipo de heroína rocker, uma Keith Richards com vagina.
Mas o filme ainda tem Michael Shannon fazendo Kim Fowley. Para os mocinhos nascidos recentemente cabe explicar: Fowley era uma estrela. Naquele tempo, auge de vendas de discos, produtores se tornaram estrelas. Tempo de Bob Ezrin, de Chris Thomas, Tony Visconti, Eno, Gus Dudgeon, Guy Stevens e de Kim Fowley, um tipo de flamboyant hiper pop com acentos rocker. O retrato dele é exato. Ego cruel e estranhamente amador. Era o tempo em que todos comiam na mão das gravadoras.
Mas eu testemunhei a ascenção ( que nunca houve ) e a queda ( melancólica ) das meninas. Sumiram sem deixar um só traço em meio aos punks, que cumpriram tudo o que elas insinuavam. E fui pego de surpresa com o sucesso de Joan Jett em 1981, ironicamente usando o caminho aberto por Chrissie Hynde. Eu vi crianças.... eu tava lá.
O filme não mente. As meninas são trituradas. E o balão bolado por Kim Fowley murcha antes de subir. O filme, excelente, respira pelas atuações irretocáveis e pelo retrato do aturdimento de vida ansiada e detestada. Para quem gosta de rock é obrigatório !
Estranho é ver as Runaways, hoje, como um tipo de grupo cult. Estaremos em fase tão ruim assim ?
O ROMANCE DO GRAAL - CHRÉTIEN DE TROYES ( O HOMEM DONO DA FELICIDADE )
Chrétien de Troyes escreveu este livro em 1180. França, região de Champagne. Trata-se de centro daquilo que podemos chamar de "REINO DE NOSSO INCONSCIENTE". Rico de símbolos, rico de ação, criatividade exuberante onde tudo pode acontecer e acontece, ler esse livro é experiência de estranhamento : lendo-o nos sentimos em sonho e ao mesmo tempo, aliás como acontece no sonho, tudo nos é magicamente conhecido, é como reencontrar uma verdade perdida. Tudo é surpresa, e tudo é familiar. E lemos como quem sonha e do sonho não deseja acordar.
Uma verdade perdida. É exatamente esse o legado da verdadeira idade média ( aquela que vai de 800 a 1250 ). Para muitos , única época histórica ( ou seja, após a criação da escrita, de 5000 a/c para diante ) em que o homem foi "verdadeiramente sí-mesmo" e portanto, feliz. Não me importa discutir se isso é verdade ou não. Jamais o saberemos. Tudo será imaginação otimista ou dúvida pessimista. O que é fato é que uma sociedade que cria relatos como este só pode ser chamada de saudável. Na época de Chrétien a neurose está ausente e não é dificil entender o porque.
Pouco se teme a morte. Quando hoje, descrentes e sem objetivos maiores, pensamos nas baixas médias de vida daquele tempo, imaginamos ser aquele povo medroso, fanático, triste e fatalista. Não. Para eles, morrer é terrível só se for morte em desgraça, morrer como covarde ou sem a absolvição da igreja. Para eles, suprema, e para nós irrecuperável felicidade, morrer é apenas mudar de condição, transformar-se. Eles temem o inferno, não o morrer.
Outro fato pouco neurótico: as emoções livres. Amigos se beijam ao se encontrar ( na boca ) várias vezes, e ao se abraçar rolam no chão rindo e cantando. Conversam de mãos dadas. Quando feliz, o homem desse tempo rí alto, gesticula, dança e pula. Toda emoção é LIVREMENTE EXPRESSA PELO CORPO QUE VIVE. E na tristeza eles choram, arrancam os cabelos, socam paredes, e desfalecem. Não existe o pensamento de se controlar uma emoção. O homem nobre é aquele que as vive, e quanto maiores elas forem, maior é seu coração.
E o coração é o centro da vida.
O amor é um compromisso conscientemente dado a um símbolo. A mulher é perfeita. É um anjo que dá ao homem o direito de se alçar ao céu. Então podemos pensar que se trata de amor casto. Mas me surpreendo ao ler a quantidade de vezes em que os amantes se cobrem de beijos, de caricias e quantas donzelas se dirigem ao leito do herói para lá dormir. O compromisso é o de se defender a dama, honrá-la de qualquer ofensa, cuidar de seu bem, ser seu CAVALEIRO E ELA SER SUA DAMA. E cabe a dama honrar esse campeão, sendo sua inspiração, o motivo de sua partida ( sim, ele parte por ela ), o objetivo de seu fim.
Mas antes vem a estrada. E toda aventura é uma estrada em que em cada bosque há um perigo ou uma sorte. O livro esgota todo o arsenal de aventuras que até hoje usamos. De damas traiçoeiras a poços sem fundo, de castelos prisão até encantamentos, de rivais mentirosos à reencontros com mães. E a estrada inaugura o tempo. É nesse período que se institue o tempo do ocidente. E esse tempo é uma estrada, um caminho. Adiante para sempre.
Jung bebeu tudo nesta fonte. Ele dizia que o caminho do homem, hoje e sempre, é o caminho da individuação. Tornarmo-nos nós mesmos. Nesta saga, Perceval começa como tolo jovem egoísta e após seu amadurecimento ele tem a "lembrança" de seu nome : SOU PERCEVAL ! Note : ele não ganha um nome, ele o recorda. Nos tornamos individuos não pela graça de outro, mas por nosso mérito. Recordamos aquilo que sempre fomos.
É AQUILO QUE UM DIA SUCEDERÁ AO PLANETA : LEMBRAREMOS O QUE NUNCA DEIXAMOS DE SER.
A aventura mais conhecida de Perceval ( e a que mais intrigava Jung ) era aquela em que ele adentra o reino do Rei Pescador. Rei ferido, aleijado, que não pode mais caçar. Carregado a beira de rio, ele usa anzol e pesca. O que significa cada peixe que ele pega ? Nesse reino há uma lança que sangra e o GRAAL, taça maravilhosa que dá vida e cria o homem. Perceval vê as duas passarem diante de seus olhos, mas se cala e não faz a pergunta que salvaria o Rei Pescador. Ele não pergunta o porque do sangue e para onde vai o graal.
Para vários artistas, psicólogos, poetas, essa imagem é o centro do simbolismo ocidental. A lança, a taça e o rei que pesca.
Perceval depois é hipnotizado por 3 gotas de sangue sobre a neve branca....
Eu poderia então escrever laudas e laudas sobre a riqueza de tudo isso. Mas a fé no símbolo se manifesta pela não explicação de sua força. Que cada um tire dele o que conseguir.
Cito ainda a divisa que norteia o que seria desejável num homem :
BELO, CORAJOSO, MODESTO, SEM AMBIÇÃO E LEAL. E o livro demonstra o quanto se valoriza a beleza física de homem e mulher. A do homem estando ligada a agilidade e rapidez e a beleza feminina a jóias e animais ( olhos de rubis, pele de pérola, corpo de gazela ). Estamos a séculos da valorização da ambição, esperteza e volubilidade. Para eles, ser ambicioso é ser mau, ser esperto é desonrar e ser volúvel é mentir. Não se mata um inimigo inutilmente ( e muitos se tornam amigos ), captura-se esse rival. E não se nega a palavra dada ( e tudo é palavra ). O que se diz ainda tem peso.
Chrétien de Troyes faz aqui a gênese da nobreza. O momento em que o mundo se abre como caminho que leva a aventura, e aventura que nada mais é, que o reconhecimento do símbolo. O recordar-se daquilo que sempre se soube. Perceval, tolo galês que se torna o mais adorado dos cavaleiros ( por ser corajoso, belo e puro ) demonstra a todos nós a via do homem, a saga da Europa e tudo o que perdemos desde então.
A influência deste livro é inescapável.
Uma verdade perdida. É exatamente esse o legado da verdadeira idade média ( aquela que vai de 800 a 1250 ). Para muitos , única época histórica ( ou seja, após a criação da escrita, de 5000 a/c para diante ) em que o homem foi "verdadeiramente sí-mesmo" e portanto, feliz. Não me importa discutir se isso é verdade ou não. Jamais o saberemos. Tudo será imaginação otimista ou dúvida pessimista. O que é fato é que uma sociedade que cria relatos como este só pode ser chamada de saudável. Na época de Chrétien a neurose está ausente e não é dificil entender o porque.
Pouco se teme a morte. Quando hoje, descrentes e sem objetivos maiores, pensamos nas baixas médias de vida daquele tempo, imaginamos ser aquele povo medroso, fanático, triste e fatalista. Não. Para eles, morrer é terrível só se for morte em desgraça, morrer como covarde ou sem a absolvição da igreja. Para eles, suprema, e para nós irrecuperável felicidade, morrer é apenas mudar de condição, transformar-se. Eles temem o inferno, não o morrer.
Outro fato pouco neurótico: as emoções livres. Amigos se beijam ao se encontrar ( na boca ) várias vezes, e ao se abraçar rolam no chão rindo e cantando. Conversam de mãos dadas. Quando feliz, o homem desse tempo rí alto, gesticula, dança e pula. Toda emoção é LIVREMENTE EXPRESSA PELO CORPO QUE VIVE. E na tristeza eles choram, arrancam os cabelos, socam paredes, e desfalecem. Não existe o pensamento de se controlar uma emoção. O homem nobre é aquele que as vive, e quanto maiores elas forem, maior é seu coração.
E o coração é o centro da vida.
O amor é um compromisso conscientemente dado a um símbolo. A mulher é perfeita. É um anjo que dá ao homem o direito de se alçar ao céu. Então podemos pensar que se trata de amor casto. Mas me surpreendo ao ler a quantidade de vezes em que os amantes se cobrem de beijos, de caricias e quantas donzelas se dirigem ao leito do herói para lá dormir. O compromisso é o de se defender a dama, honrá-la de qualquer ofensa, cuidar de seu bem, ser seu CAVALEIRO E ELA SER SUA DAMA. E cabe a dama honrar esse campeão, sendo sua inspiração, o motivo de sua partida ( sim, ele parte por ela ), o objetivo de seu fim.
Mas antes vem a estrada. E toda aventura é uma estrada em que em cada bosque há um perigo ou uma sorte. O livro esgota todo o arsenal de aventuras que até hoje usamos. De damas traiçoeiras a poços sem fundo, de castelos prisão até encantamentos, de rivais mentirosos à reencontros com mães. E a estrada inaugura o tempo. É nesse período que se institue o tempo do ocidente. E esse tempo é uma estrada, um caminho. Adiante para sempre.
Jung bebeu tudo nesta fonte. Ele dizia que o caminho do homem, hoje e sempre, é o caminho da individuação. Tornarmo-nos nós mesmos. Nesta saga, Perceval começa como tolo jovem egoísta e após seu amadurecimento ele tem a "lembrança" de seu nome : SOU PERCEVAL ! Note : ele não ganha um nome, ele o recorda. Nos tornamos individuos não pela graça de outro, mas por nosso mérito. Recordamos aquilo que sempre fomos.
É AQUILO QUE UM DIA SUCEDERÁ AO PLANETA : LEMBRAREMOS O QUE NUNCA DEIXAMOS DE SER.
A aventura mais conhecida de Perceval ( e a que mais intrigava Jung ) era aquela em que ele adentra o reino do Rei Pescador. Rei ferido, aleijado, que não pode mais caçar. Carregado a beira de rio, ele usa anzol e pesca. O que significa cada peixe que ele pega ? Nesse reino há uma lança que sangra e o GRAAL, taça maravilhosa que dá vida e cria o homem. Perceval vê as duas passarem diante de seus olhos, mas se cala e não faz a pergunta que salvaria o Rei Pescador. Ele não pergunta o porque do sangue e para onde vai o graal.
Para vários artistas, psicólogos, poetas, essa imagem é o centro do simbolismo ocidental. A lança, a taça e o rei que pesca.
Perceval depois é hipnotizado por 3 gotas de sangue sobre a neve branca....
Eu poderia então escrever laudas e laudas sobre a riqueza de tudo isso. Mas a fé no símbolo se manifesta pela não explicação de sua força. Que cada um tire dele o que conseguir.
Cito ainda a divisa que norteia o que seria desejável num homem :
BELO, CORAJOSO, MODESTO, SEM AMBIÇÃO E LEAL. E o livro demonstra o quanto se valoriza a beleza física de homem e mulher. A do homem estando ligada a agilidade e rapidez e a beleza feminina a jóias e animais ( olhos de rubis, pele de pérola, corpo de gazela ). Estamos a séculos da valorização da ambição, esperteza e volubilidade. Para eles, ser ambicioso é ser mau, ser esperto é desonrar e ser volúvel é mentir. Não se mata um inimigo inutilmente ( e muitos se tornam amigos ), captura-se esse rival. E não se nega a palavra dada ( e tudo é palavra ). O que se diz ainda tem peso.
Chrétien de Troyes faz aqui a gênese da nobreza. O momento em que o mundo se abre como caminho que leva a aventura, e aventura que nada mais é, que o reconhecimento do símbolo. O recordar-se daquilo que sempre se soube. Perceval, tolo galês que se torna o mais adorado dos cavaleiros ( por ser corajoso, belo e puro ) demonstra a todos nós a via do homem, a saga da Europa e tudo o que perdemos desde então.
A influência deste livro é inescapável.
KAZAN/ ZHANG YIMOU/ MICHAEL BAY/ PIETRO GERMI/ JACKIE CHAN
MEUS CAROS AMIGOS de Pietro Germi e Mario Monicelli com Ugo Tognazzi, Philippe Noiret, Gastone Moschin e Adolfo Celi
Germi faleceu em meio as filmagens e Mario o completou. Dá para perceber onde cada um deles trabalhou. A abordagem de Pietro é muito mais amarga, Monicelli é mais eufórico. Os dois são mestres. O filme fala de bando de amigos, cinquentões, que insistem em ser adolescentes. Vemos então suas "artes". Tumultuam hospital, entram de penetras em festa, envolvem otário em mentira mirabolante. Mas acima de tudo, vivem. Há uma frase que traduz a mensagem do filme. É quando o personagem de Moschin diz : " Estar entre homens é tão bom que é uma pena eu não ser um bruto de uma bicha! " Desculpem moças, mas esse é um honesto pensamento masculino. Somente gays adoram a companhia feminina "todo o tempo". O filme é ode à amizade viril. É machista, grosseiro, porco, idiota e ao mesmo tempo é poético e tem um final lindo. É no enterro, em que eles seguram o riso. O riso diante da tragédia. Meninos tenderão a odiar este filme. Ele nega TUDO o que esses flácidos querubins adoram. Além do que é uma comédia, uma comédia melancólica. O elenco é absurdamente bom. A cena na estação de trens é de uma estupidez hilária !!!! E é um filme que serve como aula sobre a alma do homem. Uma quase obra-prima. Nota 9.
BOOMERANG de Elia Kazan com Dana Andrews
Excelente policial. Um promotor deixa de acusar um réu, pois começa a ter dúvidas de sua culpa. Nós também queremos que ele não seja condenado. Mas dái vem a dúvida : ele é realmente inocente ? É um belo filme ! Kazan dirige com economia, urgência, fogo. Somos absorvidos. Daí para a frente, com Um Bonde e depois Sindicato de Ladrões, Elia Kazan dominaria a tela dos EUA nos anos 50. Nota 7.
CARGA EXPLOSIVA I de Cory Yuen com Jason Statham
O terceiro é o melhor. Mas é um bom filme de lutas ( Jason não é um novo Willis ou Stallone. Sua praia é a mesma de Jet Li, artes marciais. Willis tem o humor que ele não tem e Stallone a força estúpida e sem sutileza que Jason jamais usa. ) Nota 5.
THE BUCCANEER de Anthony Quinn com Yul Brynner, Charles Boyer, Claire Bloom
Fracasso. Única direção de Quinn, este filme de piratas dá todo errado. Apesar do ótimo elenco, o filme deixa de lado o que é básico em filmes de aventura : leveza. Ele jamais voa. Nota 2.
THE GOOD, THE BAD, THE WEIRD de Kim Jee-Woon
A cena no vagão do trem é uma obra-prima de técnica. O resto do filme é estonteante. Em termos de habilidade física e modernismo é supremo. A câmera flutua e tudo é velocidade. Há humor, a história surpreende e Kim homenageia Sergio Leone. Uma deliciosa aventura improvável que faz com que a esperança no cinema renasça. Se perdemos os gênios, que vivam os palhaços ! Nota 8.
UMA FILHA PARA O DIABO de Peter Sykes com Christopher Lee e Nastassja Kinski
Em tempos menos patrulhados, Nastassja, com 13 anos, aparece nua. Ela já demonstra a beleza hipnótica que desenvolveria. Mas o filme, sobre satanismo, é de uma obviedade atroz. Nota 2.
HERÓI de Zhang Yimou com Jet Li, Tony Leung, Maggie Cheung Zhang Zyi e Donnie Yen
Apenas os filmes de Kurosawa e de Bergman ( alguns ) têm visual mais belo. Fotograficamente é uma obra-prima. Mas ele é mais que imagem. A ação é espetacular, balé de movimentos impossíveis. A cena do duelo "de pensamentos" é sublime. O filme, o primeiro de ação feito por Yimou, é além de tudo, uma aula sobre a China. Disciplina e dualidade, força física e pensamento correto, ritual como filosofia. Jet Li nunca esteve tão bem e mesmo atores "não atletas" como Leung e Cheung se saem muito bem. Uma saga imensamente bela que realmente impressiona. É um dos grandes filmes dos anos 2000, sem dúvida. Nota DEZ.
TRANSFORMERS de Michael Bay com Shia LaBoeuf, Megan Fox, Tyrese e Jon Voigt
Vamos lá..... Existem dois tipos de filme de ação: aquele que mostra um homem contra um sistema e aquele que é um sistema contra um invasor. No primeiro caso temos a série Duro de Matar, Yojimbo, os Dirty Harry e afins. E é daí que costumam sair os bons filmes de ação. Por quê ? Porque eles trazem em seus genes a saga do cowboy solitário, o cara marcado pelo destino contra um meio que dele quer distãncia. Os filmes de Jason Statham, de Tarantino, de Jet Li seguem essa linha. E existem aventuras como este tal Transformers, as aventuras que glorificam o status quo, que são odes ao comodismo, ao exército, ao grupo organizado. Michael Bay faz sempre o mesmo filme: jatos decolando, armas modernas e telas de computadores. Soldados sarados e comandantes do bem. É de um fascismo intencional. Me dá nojo ! Tudo aqui é calculado para alucinar os adolescentes nerds ressentidos. Eles podem se ver no papel de Shia e sonhar em ter acesso àquele mundo de foguetes e computadores do Pentágono. Este filme podia ter sido dirigido por qualquer burocrata de lá. Nota ZERO farenheit.
CARGA EXPLOSIVA II de Louis Leterrier com Jason Statham
E aqui ele é um chauffeur que salva família vítima de terroristas/traficantes. Exemplo do que falei acima: é o herói contra o meio hostil. Por isso é simpático e podemos torcer sem culpa. Dos filmes da série é o pior, mas ainda diverte. Nota 5.
RESIDENT EVIL de Paul W S Anderson com Milla Jovic e Michelle Rodriguez
Video-game nas telas. É ruim demais ! Nada acontece, os caras ficam presos numa tal de colméia e tentam escapar dos zumbis. Mas nada tem suspense, clima ou humor. Nota ZERO.
O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE de Mario Monicelli com Vittorio Gassman, Gian Maria Volonté e Catherine Spaak
Fazem três dias que tudo que penso é : branca branca leone leone !!!! Uma comédia que nos deixa felizes. Dá muita pena quando o filme termina, queremos continuar na companhia daquela armada. Um grupo de maltrapilhos adoráveis. Por quê só os italianos conseguiam fazer comédias assim ? Uma obra-prima como cinema e talvez a melhor comédia já feita. Nota UM ZILHÂO!!!!!
OS ETERNOS DESCONHECIDOS de Mario Monicelli com Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Renato Salvatori e Claudia Cardinale
Mas há este filme. Sobre pobretões que armam golpe perfeito. Totó participa, gênio ! Todos os personagens são magníficos, quando os recordamos, sorrimos de seus rostos. Os italianos tinham a voz e o rosto para a comédia, e quando esses rostos são de grandes atores... aí a coisa fica inigualável ! Este filme, admirado por Scorsese, Woody Allen e Soderbergh, é obra-prima de roteiro, de vitalidade, de realismo. Maravilhoso!!!! Nota UM BILHÃO !!!!!!!!
MR NICE GUY de Samo Hung com Jackie Chan
Nosso Buster Keaton em boa aventura australiana. Jackie tem carisma, é engraçado e tem agilidade inacreditável. Este filme marca a volta de sua parceria com Hung, um mito na China. Bela diversão pop. Nota 6.
Germi faleceu em meio as filmagens e Mario o completou. Dá para perceber onde cada um deles trabalhou. A abordagem de Pietro é muito mais amarga, Monicelli é mais eufórico. Os dois são mestres. O filme fala de bando de amigos, cinquentões, que insistem em ser adolescentes. Vemos então suas "artes". Tumultuam hospital, entram de penetras em festa, envolvem otário em mentira mirabolante. Mas acima de tudo, vivem. Há uma frase que traduz a mensagem do filme. É quando o personagem de Moschin diz : " Estar entre homens é tão bom que é uma pena eu não ser um bruto de uma bicha! " Desculpem moças, mas esse é um honesto pensamento masculino. Somente gays adoram a companhia feminina "todo o tempo". O filme é ode à amizade viril. É machista, grosseiro, porco, idiota e ao mesmo tempo é poético e tem um final lindo. É no enterro, em que eles seguram o riso. O riso diante da tragédia. Meninos tenderão a odiar este filme. Ele nega TUDO o que esses flácidos querubins adoram. Além do que é uma comédia, uma comédia melancólica. O elenco é absurdamente bom. A cena na estação de trens é de uma estupidez hilária !!!! E é um filme que serve como aula sobre a alma do homem. Uma quase obra-prima. Nota 9.
BOOMERANG de Elia Kazan com Dana Andrews
Excelente policial. Um promotor deixa de acusar um réu, pois começa a ter dúvidas de sua culpa. Nós também queremos que ele não seja condenado. Mas dái vem a dúvida : ele é realmente inocente ? É um belo filme ! Kazan dirige com economia, urgência, fogo. Somos absorvidos. Daí para a frente, com Um Bonde e depois Sindicato de Ladrões, Elia Kazan dominaria a tela dos EUA nos anos 50. Nota 7.
CARGA EXPLOSIVA I de Cory Yuen com Jason Statham
O terceiro é o melhor. Mas é um bom filme de lutas ( Jason não é um novo Willis ou Stallone. Sua praia é a mesma de Jet Li, artes marciais. Willis tem o humor que ele não tem e Stallone a força estúpida e sem sutileza que Jason jamais usa. ) Nota 5.
THE BUCCANEER de Anthony Quinn com Yul Brynner, Charles Boyer, Claire Bloom
Fracasso. Única direção de Quinn, este filme de piratas dá todo errado. Apesar do ótimo elenco, o filme deixa de lado o que é básico em filmes de aventura : leveza. Ele jamais voa. Nota 2.
THE GOOD, THE BAD, THE WEIRD de Kim Jee-Woon
A cena no vagão do trem é uma obra-prima de técnica. O resto do filme é estonteante. Em termos de habilidade física e modernismo é supremo. A câmera flutua e tudo é velocidade. Há humor, a história surpreende e Kim homenageia Sergio Leone. Uma deliciosa aventura improvável que faz com que a esperança no cinema renasça. Se perdemos os gênios, que vivam os palhaços ! Nota 8.
UMA FILHA PARA O DIABO de Peter Sykes com Christopher Lee e Nastassja Kinski
Em tempos menos patrulhados, Nastassja, com 13 anos, aparece nua. Ela já demonstra a beleza hipnótica que desenvolveria. Mas o filme, sobre satanismo, é de uma obviedade atroz. Nota 2.
HERÓI de Zhang Yimou com Jet Li, Tony Leung, Maggie Cheung Zhang Zyi e Donnie Yen
Apenas os filmes de Kurosawa e de Bergman ( alguns ) têm visual mais belo. Fotograficamente é uma obra-prima. Mas ele é mais que imagem. A ação é espetacular, balé de movimentos impossíveis. A cena do duelo "de pensamentos" é sublime. O filme, o primeiro de ação feito por Yimou, é além de tudo, uma aula sobre a China. Disciplina e dualidade, força física e pensamento correto, ritual como filosofia. Jet Li nunca esteve tão bem e mesmo atores "não atletas" como Leung e Cheung se saem muito bem. Uma saga imensamente bela que realmente impressiona. É um dos grandes filmes dos anos 2000, sem dúvida. Nota DEZ.
TRANSFORMERS de Michael Bay com Shia LaBoeuf, Megan Fox, Tyrese e Jon Voigt
Vamos lá..... Existem dois tipos de filme de ação: aquele que mostra um homem contra um sistema e aquele que é um sistema contra um invasor. No primeiro caso temos a série Duro de Matar, Yojimbo, os Dirty Harry e afins. E é daí que costumam sair os bons filmes de ação. Por quê ? Porque eles trazem em seus genes a saga do cowboy solitário, o cara marcado pelo destino contra um meio que dele quer distãncia. Os filmes de Jason Statham, de Tarantino, de Jet Li seguem essa linha. E existem aventuras como este tal Transformers, as aventuras que glorificam o status quo, que são odes ao comodismo, ao exército, ao grupo organizado. Michael Bay faz sempre o mesmo filme: jatos decolando, armas modernas e telas de computadores. Soldados sarados e comandantes do bem. É de um fascismo intencional. Me dá nojo ! Tudo aqui é calculado para alucinar os adolescentes nerds ressentidos. Eles podem se ver no papel de Shia e sonhar em ter acesso àquele mundo de foguetes e computadores do Pentágono. Este filme podia ter sido dirigido por qualquer burocrata de lá. Nota ZERO farenheit.
CARGA EXPLOSIVA II de Louis Leterrier com Jason Statham
E aqui ele é um chauffeur que salva família vítima de terroristas/traficantes. Exemplo do que falei acima: é o herói contra o meio hostil. Por isso é simpático e podemos torcer sem culpa. Dos filmes da série é o pior, mas ainda diverte. Nota 5.
RESIDENT EVIL de Paul W S Anderson com Milla Jovic e Michelle Rodriguez
Video-game nas telas. É ruim demais ! Nada acontece, os caras ficam presos numa tal de colméia e tentam escapar dos zumbis. Mas nada tem suspense, clima ou humor. Nota ZERO.
O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE de Mario Monicelli com Vittorio Gassman, Gian Maria Volonté e Catherine Spaak
Fazem três dias que tudo que penso é : branca branca leone leone !!!! Uma comédia que nos deixa felizes. Dá muita pena quando o filme termina, queremos continuar na companhia daquela armada. Um grupo de maltrapilhos adoráveis. Por quê só os italianos conseguiam fazer comédias assim ? Uma obra-prima como cinema e talvez a melhor comédia já feita. Nota UM ZILHÂO!!!!!
OS ETERNOS DESCONHECIDOS de Mario Monicelli com Vittorio Gassman, Marcello Mastroianni, Renato Salvatori e Claudia Cardinale
Mas há este filme. Sobre pobretões que armam golpe perfeito. Totó participa, gênio ! Todos os personagens são magníficos, quando os recordamos, sorrimos de seus rostos. Os italianos tinham a voz e o rosto para a comédia, e quando esses rostos são de grandes atores... aí a coisa fica inigualável ! Este filme, admirado por Scorsese, Woody Allen e Soderbergh, é obra-prima de roteiro, de vitalidade, de realismo. Maravilhoso!!!! Nota UM BILHÃO !!!!!!!!
MR NICE GUY de Samo Hung com Jackie Chan
Nosso Buster Keaton em boa aventura australiana. Jackie tem carisma, é engraçado e tem agilidade inacreditável. Este filme marca a volta de sua parceria com Hung, um mito na China. Bela diversão pop. Nota 6.
OS ETERNOS DESCONHECIDOS - MARIO MONICELLI
Lí o texto de André Barcinski sobre este filme e me deu vontade de o rever. Que belo presente de natal !
Filme amado por Woody Allen, Scorsese e por Soderbergh, narra a história de bando de miseráveis que armam um plano de assalto perfeito. O filme é então uma sátira aos milaborantes filmes de crime. Mas é muito mais. Porque não é nos erros que se faz o humor desta obra-prima, é no cotidiano desses tipos tão verdadeiros, nada excêntricos, e tão adoráveis.
Vittorio Gassman é o galã. Galo inflado, se vê como homem inteligente e belo. Marcello Mastroianni é um pai sensível, sempre às voltas com o bebe que chora. Renato Salvatori é um jovem malandro das ruas, apaixonado pela irmã de outro ladrão, a jovem Claudia Cardinale. O irmão, siciliano com rosto de eterna briga, um " tá olhando o que?" nos olhos, é hilário. Temos ainda as cenas na prisão, todas bufonas, italianadas, faiscantes.
Mais personagens surgem : o velhinho que passa o tempo a comer, e Totó, o grande gênio Totó, como o mestre de arrombamento de cofres, um pretensioso. Totó foi provávelmente o maior ator cômico do mundo ( e incluo Tati e Keaton nisso ). Seu rosto é obra de intuição de mestre.
Esse bando de perdedores faz o roubo e o que acontece então deixo para voces descobrirem. Basta que eu diga que o final é perfeito. Termina como devia terminar e termina em chave de surpresa.
Monicelli morreu aos 93 anos se jogando da janela do hospital. Riu por último. O mundo não terá outro igual. Para ele a vida era hilária por ser tosca, mal feita, sem razão.
Eu o chamo de mestre.
Filme amado por Woody Allen, Scorsese e por Soderbergh, narra a história de bando de miseráveis que armam um plano de assalto perfeito. O filme é então uma sátira aos milaborantes filmes de crime. Mas é muito mais. Porque não é nos erros que se faz o humor desta obra-prima, é no cotidiano desses tipos tão verdadeiros, nada excêntricos, e tão adoráveis.
Vittorio Gassman é o galã. Galo inflado, se vê como homem inteligente e belo. Marcello Mastroianni é um pai sensível, sempre às voltas com o bebe que chora. Renato Salvatori é um jovem malandro das ruas, apaixonado pela irmã de outro ladrão, a jovem Claudia Cardinale. O irmão, siciliano com rosto de eterna briga, um " tá olhando o que?" nos olhos, é hilário. Temos ainda as cenas na prisão, todas bufonas, italianadas, faiscantes.
Mais personagens surgem : o velhinho que passa o tempo a comer, e Totó, o grande gênio Totó, como o mestre de arrombamento de cofres, um pretensioso. Totó foi provávelmente o maior ator cômico do mundo ( e incluo Tati e Keaton nisso ). Seu rosto é obra de intuição de mestre.
Esse bando de perdedores faz o roubo e o que acontece então deixo para voces descobrirem. Basta que eu diga que o final é perfeito. Termina como devia terminar e termina em chave de surpresa.
Monicelli morreu aos 93 anos se jogando da janela do hospital. Riu por último. O mundo não terá outro igual. Para ele a vida era hilária por ser tosca, mal feita, sem razão.
Eu o chamo de mestre.
O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE - MARIO MONICELLI
BRANCA BRANCA...LEONE LEONE !
Carlos Rustichelli fez a maravilhosa trilha sonora. A música já instaura o riso. Voce nunca mais deixará de sorrir quando dela se recordar. A fotografia é de Carlo di Palma e o visual de Piero Gherardi. A Itália, em passado distante, teve os melhores técnicos do mundo.
Estamos na idade média, e em sua primeira cena o filme mostra o que era a violência ( covarde ) dos tais cavaleiros. Dois maltrapilhos ficam com documento de posse de feudo e encontram Brancaleone para ir com eles administrar essas terras. A aventura se faz. O filme, imensamente criativo, narra dúzias de peripécias, todas hilárias, todas encantadoras. É uma comédia, talvez a melhor já feita, mas é também uma das maiores aventuras filmadas. A grandeza da comédia de gênio é essa : fazer rir, mas acima de tudo, narrar uma história.
Vittorio Gassman, um gênio, cria esse bufão nobre. Seu Brancaleone é uma das maiores criações da história do cinema. Após dois minutos em cena já estamos apaixonados por ele. Brancaleone é idealista, sonhador, galante e muuuuito tolo. A voz que Gassman usa, a expressão do rosto, tudo traduz um ator de gênio em ação. Mas há mais...
Nada no filme força o humor. Monicelli não faz seus atores irem ao puro circo, ao absurdo. Ele não vende sua história por um riso. Sua meta é fazer um filme cômico, o riso virá com o filme e nunca às custas dele. Monicelli não humilha os atores, ele os ama, e ele ama seus brilhantes personagens.
Houve um tempo em que os melhores atores do mundo eram italianos. Personagens como o do velhinho judeu com sua arca são obras de ourivesaria. Não são só hilários, são reais.
Age, Scarpelli e Monicelli criaram esse roteiro que não pára nunca de surpreender. As aparições do monge fanático são das coisas mais brilhantes já escritas. Crítica à igreja com humor e com verdade. Peste, sarracenos, duelos, virgens, bizantinos, cruzadas, todo o universo medieval é aqui representado. E, susrpresa, com honestidade. O mundo que aqui vemos é de verdade, é a idade média real. Como disse, Monicelli não trai a arte pelo riso.
Em sua cena final, mágica, sentimos tristeza por termos de sair da companhia da Armada Brancaleone. E percebemos alí a função do humor : os personagens, absolutos párias, insistem em crer na vida, riem da desgraça, avançam rumo a aventura. E nós, pobres testemunhas, percebemos o que significa dançar e rir diante da morte. Monicelli era um gênio. Brancaleone é a maior comédia da história do cinema.
Carlos Rustichelli fez a maravilhosa trilha sonora. A música já instaura o riso. Voce nunca mais deixará de sorrir quando dela se recordar. A fotografia é de Carlo di Palma e o visual de Piero Gherardi. A Itália, em passado distante, teve os melhores técnicos do mundo.
Estamos na idade média, e em sua primeira cena o filme mostra o que era a violência ( covarde ) dos tais cavaleiros. Dois maltrapilhos ficam com documento de posse de feudo e encontram Brancaleone para ir com eles administrar essas terras. A aventura se faz. O filme, imensamente criativo, narra dúzias de peripécias, todas hilárias, todas encantadoras. É uma comédia, talvez a melhor já feita, mas é também uma das maiores aventuras filmadas. A grandeza da comédia de gênio é essa : fazer rir, mas acima de tudo, narrar uma história.
Vittorio Gassman, um gênio, cria esse bufão nobre. Seu Brancaleone é uma das maiores criações da história do cinema. Após dois minutos em cena já estamos apaixonados por ele. Brancaleone é idealista, sonhador, galante e muuuuito tolo. A voz que Gassman usa, a expressão do rosto, tudo traduz um ator de gênio em ação. Mas há mais...
Nada no filme força o humor. Monicelli não faz seus atores irem ao puro circo, ao absurdo. Ele não vende sua história por um riso. Sua meta é fazer um filme cômico, o riso virá com o filme e nunca às custas dele. Monicelli não humilha os atores, ele os ama, e ele ama seus brilhantes personagens.
Houve um tempo em que os melhores atores do mundo eram italianos. Personagens como o do velhinho judeu com sua arca são obras de ourivesaria. Não são só hilários, são reais.
Age, Scarpelli e Monicelli criaram esse roteiro que não pára nunca de surpreender. As aparições do monge fanático são das coisas mais brilhantes já escritas. Crítica à igreja com humor e com verdade. Peste, sarracenos, duelos, virgens, bizantinos, cruzadas, todo o universo medieval é aqui representado. E, susrpresa, com honestidade. O mundo que aqui vemos é de verdade, é a idade média real. Como disse, Monicelli não trai a arte pelo riso.
Em sua cena final, mágica, sentimos tristeza por termos de sair da companhia da Armada Brancaleone. E percebemos alí a função do humor : os personagens, absolutos párias, insistem em crer na vida, riem da desgraça, avançam rumo a aventura. E nós, pobres testemunhas, percebemos o que significa dançar e rir diante da morte. Monicelli era um gênio. Brancaleone é a maior comédia da história do cinema.
A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS - KAWABATA
Um senhor muito respeitável. Visita casa onde adolescentes dormem com seus clientes. Dormem e oferecem seu corpo como templo de adoração. Sim, templo. O senhor, confuso em seu desejo soberbo, adora cada centimetro da pele explorada. O sexo se revela ato de beleza, de transcendencia, de veneração.
Esse homem jamais é analisado pelo autor. Nada o condena e nada o absolve. Estamos em universo que desconhece dogmas, sejam cristãos ou sejam freudianos. Ele deseja e adora religiosamente. O mundo se torna uma menina que dorme.
Sim, pois ela dorme. O que ele quer é um corpo inconsciente, objeto que se torna cosmo e portanto eterno. Sua relação não se dá entre velho e menina, é um contato de consciência que se sabe em seu final e pele jovem, clara, saudável, macia. Há muito de vampirismo.
Kawabata ganhou o Nobel de 1968. Sua escrita é nipônica em tudo. Cada palavra é um acorde de koto. Há delicadeza e ritual, mas há também a violência latente. Sexo e morte, seu mundo é apenas isso, sexo e morte ( apenas ? ).
Milagre : ele faz com que sintamos o que aquele senhor sente. Livro de sensualidade hipnótica. A pele da menina se torna o papel do livro. O cheiro dela é transportado em cada linha. Preto sobre branco, tinta e papel. Nós também a tocamos.
O livro explicita a diferença, imensa, entre erótico e pornográfico. Uma pequena jóia da escrita.
PS : Em mundo de imagem digital e de imediatismo urgente, só a pornografia é possível. Sem o toque do papel e a escrita feita com tinta sobre página clara, o sensualismo morre e a objetividade da pornografia impera.
Esse homem jamais é analisado pelo autor. Nada o condena e nada o absolve. Estamos em universo que desconhece dogmas, sejam cristãos ou sejam freudianos. Ele deseja e adora religiosamente. O mundo se torna uma menina que dorme.
Sim, pois ela dorme. O que ele quer é um corpo inconsciente, objeto que se torna cosmo e portanto eterno. Sua relação não se dá entre velho e menina, é um contato de consciência que se sabe em seu final e pele jovem, clara, saudável, macia. Há muito de vampirismo.
Kawabata ganhou o Nobel de 1968. Sua escrita é nipônica em tudo. Cada palavra é um acorde de koto. Há delicadeza e ritual, mas há também a violência latente. Sexo e morte, seu mundo é apenas isso, sexo e morte ( apenas ? ).
Milagre : ele faz com que sintamos o que aquele senhor sente. Livro de sensualidade hipnótica. A pele da menina se torna o papel do livro. O cheiro dela é transportado em cada linha. Preto sobre branco, tinta e papel. Nós também a tocamos.
O livro explicita a diferença, imensa, entre erótico e pornográfico. Uma pequena jóia da escrita.
PS : Em mundo de imagem digital e de imediatismo urgente, só a pornografia é possível. Sem o toque do papel e a escrita feita com tinta sobre página clara, o sensualismo morre e a objetividade da pornografia impera.
HERÓI - ZHANG YIMOU
E eles dançam diante da morte. Apuradamente eles se preparam para matar ou morrer. Cada gesto é refinamento de um pensamento perfeito. E o filme, obra-prima do cinema chinês, consegue ser aventura do corpo e saga de almas em busca dessa dança ao abismo.
Não falarei o óbvio: que o apuro visual remete a RAN de Kurosawa ( Ran é o mais belo filme colorido já feito ) ou que a luta marcial chinesa é hoje o único equivalente à maestria estética do grande musical americano de Astaire e Gene Kelly ( mas não só os dois ). E que o fato de que o musical vinha envolto em ingenuidade e comédia e o filme marcial vir envolto em sangue e morte exemplifica muito as diferenças entre as duas épocas.
Prefiro falar da saga desses heróis que se aprumam para morrer de modo estético e ético e que na cultura oriental ética e estética caminham sempre entrelaçadas.
Direi que o sonho está sempre presente e que sim, houve tempo em que um grande herói podia voar. Nós aprendemos a descrer disso e em ditadura da ciência é risivel levar a sério o heroísmo. Teorias sociológicas explicam grandes homens e seu ato se vê desmistificado. Mas o herói é diferente de nós, por mais que digam sermos todos iguais. Ele ousa onde eu recuo. Ele crê onde duvido. Ele segue firme onde me recolho.
Mira a morte. É o tigre na floresta.
Todas as cenas são de deslumbre para a vista e de concentração para a mente. Mas a luta de pensamentos em preto e branco humilha toda tentativa que outros filmes fazem de nos impactar com aviões, tiros e explosões. Tudo é de absoluta sutileza.
Há uma trilha sonora que é obra-prima de ritmo e de criação e somos absorvidos pelo andar filosófico deste gigantesco e muito simples espetáculo. Porque aqui chegamos ao coração da aventura : se dar a uma paixão e arriscar tudo por essa meta. Quando vemos um espadachim se exercitar na caligrafia estamos observando a alma afiar-se na antecipação do embate.
Terreno fértil para heróis é a terra que acredita naquilo que eles fazem/fizeram.
Agora tudo pede pelo tímido comodismo de quem pega tudo pronto. Mas os heróis nos aguardam, sua volta acontecerá, a urgência do trágico será recuperada um dia ( por poucos ) e a vida valerá aquilo que a faz ser nobre : o riso ao abismo. O salto dançarino à espada fria.
Não falarei o óbvio: que o apuro visual remete a RAN de Kurosawa ( Ran é o mais belo filme colorido já feito ) ou que a luta marcial chinesa é hoje o único equivalente à maestria estética do grande musical americano de Astaire e Gene Kelly ( mas não só os dois ). E que o fato de que o musical vinha envolto em ingenuidade e comédia e o filme marcial vir envolto em sangue e morte exemplifica muito as diferenças entre as duas épocas.
Prefiro falar da saga desses heróis que se aprumam para morrer de modo estético e ético e que na cultura oriental ética e estética caminham sempre entrelaçadas.
Direi que o sonho está sempre presente e que sim, houve tempo em que um grande herói podia voar. Nós aprendemos a descrer disso e em ditadura da ciência é risivel levar a sério o heroísmo. Teorias sociológicas explicam grandes homens e seu ato se vê desmistificado. Mas o herói é diferente de nós, por mais que digam sermos todos iguais. Ele ousa onde eu recuo. Ele crê onde duvido. Ele segue firme onde me recolho.
Mira a morte. É o tigre na floresta.
Todas as cenas são de deslumbre para a vista e de concentração para a mente. Mas a luta de pensamentos em preto e branco humilha toda tentativa que outros filmes fazem de nos impactar com aviões, tiros e explosões. Tudo é de absoluta sutileza.
Há uma trilha sonora que é obra-prima de ritmo e de criação e somos absorvidos pelo andar filosófico deste gigantesco e muito simples espetáculo. Porque aqui chegamos ao coração da aventura : se dar a uma paixão e arriscar tudo por essa meta. Quando vemos um espadachim se exercitar na caligrafia estamos observando a alma afiar-se na antecipação do embate.
Terreno fértil para heróis é a terra que acredita naquilo que eles fazem/fizeram.
Agora tudo pede pelo tímido comodismo de quem pega tudo pronto. Mas os heróis nos aguardam, sua volta acontecerá, a urgência do trágico será recuperada um dia ( por poucos ) e a vida valerá aquilo que a faz ser nobre : o riso ao abismo. O salto dançarino à espada fria.
AMY WINEHOUSE e LUIZ FELIPE PONDÉ
Cito texto da revista Serafina de domingo: ( escrito por Luiz Felipe Pondé )
E Amy não faz ridiculo de boazinha, coisa rara na cultura dominada pela breguice.
...haja saco para roqueiros que cantam em nome de um mundo melhor.
A imagem de astros pop morrendo de overdose nos anos 60/70 fazia parte da ética contra o sistema. De lá para cá a caretice de se preocupar com o corpo tomou conta do mundo. E artista bonzinho é artista fraquinho.
Não é que se morrer de overdose voce é talentoso. Pode ser apenas mais um idiota da fila.
A virtude básica da tragédia é a coragem de viver sabendo-se amaldiçoado pela finitude e pela falha trágica, ou seja, a desmedida ( hybris, em grego antigo ). A desmedida é o passo que leva o herói a maldição, o exagero passional, a revolta diante do destino.
Estamos todos condenados a gargalhada da morte. A DIFERENÇA É QUEM RI DE VOLTA PRA ELA, DANÇANDO OU QUEM CHORA DE MEDO.
Por isso Nietzsche dizia que o que move a vida da maioria é o RESSENTIMENTO DIANTE DA GARGALHADA DA MORTE QUE NOS HUMILHA.
Aristóteles já dizia que o terror trágico ( a desmedida, o desespero, a morte ) que toma conta dos heróis nas tragédias gregas, nos contamina e nos ENLOUQUECE DE PAIXÃO ( pathos ) por eles. Mas por que ?
SIMPLESMENTE PORQUE ELES NÃO PARECEM TER MEDO COMO NÓS.
Magnífico e simples este texto.
Escrevi sómente alguns trechos. O que acrescentar ?
Poderia dizer que o herói vive por nós aquilo que ansiamos mas tememos viver. Poderia ainda acrescentar que a morte nos humilha por sempre vencer no final, ela está invicta nessa competição.
Pois até Cristo teve de se submeter a ela ( e vencer na prorrogação ).
A desmedida é a medida do herói. E penso que o grande talento sem a desmedida poderá ser genial, mas jamais um herói. É a diferença entre Henry James e Tolstoi. Entre Shelley e Wordsworth.
Rir de volta e dançar diante da morte. Equilibrar-se no abismo. É essa a imagem dos melhores westerns. Brincar com o terror, bailar diante dos tiros, sorrir ao inimigo.
Nada define melhor a condição humana : o que dança ( Zorba ) e o que assustado e acovardado empurra canetas, digita besteiras, ou muito pior, ri daquele que ousa o desmedido.
Fica claro então que aquele que zomba do herói trágico, do apaixonado radical, do dançarino no abismo, aquele que zomba por medo, por rancor, por covarde despeito, esse se coloca ao lado da morte, no time do cinza sem vida, e é irônico que por covardia diante da morte esse tolo bunda mole opte por ser um semeador de coisas mortas.
Nada define melhor para onde caminhamos.
PS: Tão necessário quanto ouvir Amy Winehouse é ler a bio de Patti Smith. Tudo o que faz da vida ato de desafio está lá escrito.
E Amy não faz ridiculo de boazinha, coisa rara na cultura dominada pela breguice.
...haja saco para roqueiros que cantam em nome de um mundo melhor.
A imagem de astros pop morrendo de overdose nos anos 60/70 fazia parte da ética contra o sistema. De lá para cá a caretice de se preocupar com o corpo tomou conta do mundo. E artista bonzinho é artista fraquinho.
Não é que se morrer de overdose voce é talentoso. Pode ser apenas mais um idiota da fila.
A virtude básica da tragédia é a coragem de viver sabendo-se amaldiçoado pela finitude e pela falha trágica, ou seja, a desmedida ( hybris, em grego antigo ). A desmedida é o passo que leva o herói a maldição, o exagero passional, a revolta diante do destino.
Estamos todos condenados a gargalhada da morte. A DIFERENÇA É QUEM RI DE VOLTA PRA ELA, DANÇANDO OU QUEM CHORA DE MEDO.
Por isso Nietzsche dizia que o que move a vida da maioria é o RESSENTIMENTO DIANTE DA GARGALHADA DA MORTE QUE NOS HUMILHA.
Aristóteles já dizia que o terror trágico ( a desmedida, o desespero, a morte ) que toma conta dos heróis nas tragédias gregas, nos contamina e nos ENLOUQUECE DE PAIXÃO ( pathos ) por eles. Mas por que ?
SIMPLESMENTE PORQUE ELES NÃO PARECEM TER MEDO COMO NÓS.
Magnífico e simples este texto.
Escrevi sómente alguns trechos. O que acrescentar ?
Poderia dizer que o herói vive por nós aquilo que ansiamos mas tememos viver. Poderia ainda acrescentar que a morte nos humilha por sempre vencer no final, ela está invicta nessa competição.
Pois até Cristo teve de se submeter a ela ( e vencer na prorrogação ).
A desmedida é a medida do herói. E penso que o grande talento sem a desmedida poderá ser genial, mas jamais um herói. É a diferença entre Henry James e Tolstoi. Entre Shelley e Wordsworth.
Rir de volta e dançar diante da morte. Equilibrar-se no abismo. É essa a imagem dos melhores westerns. Brincar com o terror, bailar diante dos tiros, sorrir ao inimigo.
Nada define melhor a condição humana : o que dança ( Zorba ) e o que assustado e acovardado empurra canetas, digita besteiras, ou muito pior, ri daquele que ousa o desmedido.
Fica claro então que aquele que zomba do herói trágico, do apaixonado radical, do dançarino no abismo, aquele que zomba por medo, por rancor, por covarde despeito, esse se coloca ao lado da morte, no time do cinza sem vida, e é irônico que por covardia diante da morte esse tolo bunda mole opte por ser um semeador de coisas mortas.
Nada define melhor para onde caminhamos.
PS: Tão necessário quanto ouvir Amy Winehouse é ler a bio de Patti Smith. Tudo o que faz da vida ato de desafio está lá escrito.
THE JEAN GENNIE - DO CARA MAIS INFLUENTE DE TODO O ROCK
Vamos e venhamos, para um cara do Brasil, de 11 anos de idade, que estava acostumado a Beatles, Monkees e Elton John, ver Bowie na tela cantando Jean Gennie foi uma coisa decisiva.
Nelson Motta apresentou a nova sensação inglesa "bem louca, bicho", um tal de David Bowie e suas Aranhas de Marte. E tava lá, na tela ( e tudo o que veio depois, de Sex Pistols a Boy George, de Lady Gaga a Freddie Mercury, de Johnny Greenwood a Damon Albarn e Paul Weller bebe na fonte pinky de Bowie ), tava lá na tela aquele rosto maquiado com unhas pintadas de preto e aquele cabelo orange com calças de prata e botas plataforma.
Mas não era tudo jeans e cabelão sujo ???????
Mas não era tudo radicalismo politico ( Lennon, Dylan ) ou pop fofo ( Elton, Paul ) ?
Esse tal de Bowie não era nada disso. Não era de esquerda e não era pop. Ele era um "artista". Bowie pegava ( foi o primeiro a fazer isso ) um monte de coisas que não eram rock ( pintura, dadaismo, fotografia, existencialismo ) e misturava no pop/rock.
Ele era tudo menos roqueiro. Foi pioneiro nisso. Com ele morre o blue jeans.
Mas na época eu não sabia nem o que era homossexual, o que era glitter ou o que fosse distanciamento brechtiniano. O que eu sabia é que o cara era muito diferente de tudo, novo, divertido, que Mick Ronson tocava uma guitarra do caraca e que o clip, com cenas de Angie Bowie na rua me enfeitiçava.
Me apaixonei por ela. ( Angie era bonita então ). O diretor do video era Mick Rock.
Depois disso nada nunca mais foi como era antes.
( E eu estava a anos luz de saber que a tal de Jean Gennie era Iggy Pop ! )
Bowie é o cara.
Nelson Motta apresentou a nova sensação inglesa "bem louca, bicho", um tal de David Bowie e suas Aranhas de Marte. E tava lá, na tela ( e tudo o que veio depois, de Sex Pistols a Boy George, de Lady Gaga a Freddie Mercury, de Johnny Greenwood a Damon Albarn e Paul Weller bebe na fonte pinky de Bowie ), tava lá na tela aquele rosto maquiado com unhas pintadas de preto e aquele cabelo orange com calças de prata e botas plataforma.
Mas não era tudo jeans e cabelão sujo ???????
Mas não era tudo radicalismo politico ( Lennon, Dylan ) ou pop fofo ( Elton, Paul ) ?
Esse tal de Bowie não era nada disso. Não era de esquerda e não era pop. Ele era um "artista". Bowie pegava ( foi o primeiro a fazer isso ) um monte de coisas que não eram rock ( pintura, dadaismo, fotografia, existencialismo ) e misturava no pop/rock.
Ele era tudo menos roqueiro. Foi pioneiro nisso. Com ele morre o blue jeans.
Mas na época eu não sabia nem o que era homossexual, o que era glitter ou o que fosse distanciamento brechtiniano. O que eu sabia é que o cara era muito diferente de tudo, novo, divertido, que Mick Ronson tocava uma guitarra do caraca e que o clip, com cenas de Angie Bowie na rua me enfeitiçava.
Me apaixonei por ela. ( Angie era bonita então ). O diretor do video era Mick Rock.
Depois disso nada nunca mais foi como era antes.
( E eu estava a anos luz de saber que a tal de Jean Gennie era Iggy Pop ! )
Bowie é o cara.
THE GOOD, THE BAD, THE WEIRD- KIM JEE-WOON
1967.
Como diz Keith Richards em sua hilariante biografia, foi em 67 que tudo se definiu. Os moldes se criaram. E em 1967 todo cinéfilo se dividiu entre WEEK-END de Godard e BONNIE E CLYDE de Arthur Penn. E ainda havia Mike Nichols com A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM e Antonioni com BLOW-UP. Filmes que criaram os nichos onde os diretores pretensiosos se instalam até agora. Godard e Antonioni criando o filme "não entendi nada", Nichols dando ao mundo o primeiro filme de "adolescente nerd gracinha" e Penn o filme de "ação com cérebro".
Pouca gente em 1967 notou que o grande sucesso popular daquele ano, THE GOOD THE BAD THE UGLY de Sergio Leone, era possivelmente o melhor filme. Não só o melhor, mas sim o mais atemporal.
2008.
Toda uma geração de cinéfilos jovens cultua o filme de Leone. A obra desse italiano genial é estudada, copiada, citada, amada, divulgada. E cria-se uma certeza, a de que existem dois tipos de cinéfilos : os que amam Leone e os que apenas adoram Leone.
2010.
Cineastas, muitos, principalmente na América, continuam a estudar Godard. E Penn, Nichols, mas não Antonioni, que continua restrito a Europa. Mas eles copiam principalmente Leone.
E Leone idolatrava Kurosawa.
Fecha-se o circuito. O oriente olha para a obra do italiano. E vem esta homenagem. Este filme coreano, este espetáculo.
A corrida atrás de um mapa. Sangue e algum humor. Kim Jee-Woon não tem o dom de poesia que Leone tinha. Mas este não é um século poético. Este filme chupa o sangue do filme de 67, mas é um filme absolutamente de hoje, de agora, já!
O cinema americano está cansado. Mesmo quando surge um grande filme, há uma sensação geral de que ele pode ser o último, ou pior, a de que foi um acaso. A linha histórica de grandes obras e grandes mestres foi desfeita. O cinema ocidental não requer mais grandes cérebros originais. Ele pede grandes comunicadores. O que é beeeem diferente. O que importa é vender seu produto, mesmo que ele pareça anti-comercial ( só pareça ).
No oriente existe a vitalidade. Lá ainda se crê na festa que o cinema é. Ainda se tem a sensação de que HÁ MUITO POR SE FAZER. Os roteiros não têm medo. Vão fundo no ridiculo, na farsa, no pastiche e em outro extremo, no hermético. Seja China, Japão, Coréia, Irã ou Tailandia, o cinema do oriente corre riscos, propõe exageros, vai além da pasmaceira. Tem cor, ainda.
Este filme é uma festa. Deixaria o Spielberg de 1981, deixaria o Tarantino de agora, extasiados. Seu único defeito é a trilha sonora terrível. Mas ele tem tanta ação, criatividade, suspense, cor, ritmo, inteligencia, arrojo, que nos sentimos como em festa, festa de cinema.
Vejo que ele faz parte do livro 1001 FILMES PARA SE VER ANTES DE MORRER. E foi enorme sucesso na Europa e Ásia. Kim Jee-Woon. Guarde esse nome. O cara sabe tudo....
Como diz Keith Richards em sua hilariante biografia, foi em 67 que tudo se definiu. Os moldes se criaram. E em 1967 todo cinéfilo se dividiu entre WEEK-END de Godard e BONNIE E CLYDE de Arthur Penn. E ainda havia Mike Nichols com A PRIMEIRA NOITE DE UM HOMEM e Antonioni com BLOW-UP. Filmes que criaram os nichos onde os diretores pretensiosos se instalam até agora. Godard e Antonioni criando o filme "não entendi nada", Nichols dando ao mundo o primeiro filme de "adolescente nerd gracinha" e Penn o filme de "ação com cérebro".
Pouca gente em 1967 notou que o grande sucesso popular daquele ano, THE GOOD THE BAD THE UGLY de Sergio Leone, era possivelmente o melhor filme. Não só o melhor, mas sim o mais atemporal.
2008.
Toda uma geração de cinéfilos jovens cultua o filme de Leone. A obra desse italiano genial é estudada, copiada, citada, amada, divulgada. E cria-se uma certeza, a de que existem dois tipos de cinéfilos : os que amam Leone e os que apenas adoram Leone.
2010.
Cineastas, muitos, principalmente na América, continuam a estudar Godard. E Penn, Nichols, mas não Antonioni, que continua restrito a Europa. Mas eles copiam principalmente Leone.
E Leone idolatrava Kurosawa.
Fecha-se o circuito. O oriente olha para a obra do italiano. E vem esta homenagem. Este filme coreano, este espetáculo.
A corrida atrás de um mapa. Sangue e algum humor. Kim Jee-Woon não tem o dom de poesia que Leone tinha. Mas este não é um século poético. Este filme chupa o sangue do filme de 67, mas é um filme absolutamente de hoje, de agora, já!
O cinema americano está cansado. Mesmo quando surge um grande filme, há uma sensação geral de que ele pode ser o último, ou pior, a de que foi um acaso. A linha histórica de grandes obras e grandes mestres foi desfeita. O cinema ocidental não requer mais grandes cérebros originais. Ele pede grandes comunicadores. O que é beeeem diferente. O que importa é vender seu produto, mesmo que ele pareça anti-comercial ( só pareça ).
No oriente existe a vitalidade. Lá ainda se crê na festa que o cinema é. Ainda se tem a sensação de que HÁ MUITO POR SE FAZER. Os roteiros não têm medo. Vão fundo no ridiculo, na farsa, no pastiche e em outro extremo, no hermético. Seja China, Japão, Coréia, Irã ou Tailandia, o cinema do oriente corre riscos, propõe exageros, vai além da pasmaceira. Tem cor, ainda.
Este filme é uma festa. Deixaria o Spielberg de 1981, deixaria o Tarantino de agora, extasiados. Seu único defeito é a trilha sonora terrível. Mas ele tem tanta ação, criatividade, suspense, cor, ritmo, inteligencia, arrojo, que nos sentimos como em festa, festa de cinema.
Vejo que ele faz parte do livro 1001 FILMES PARA SE VER ANTES DE MORRER. E foi enorme sucesso na Europa e Ásia. Kim Jee-Woon. Guarde esse nome. O cara sabe tudo....
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