GAUGUIN - LAWRENCE E ELISABETH HANSON
Uma vasta biografia de Gauguin em edição de Portugal publicada em 1976. Felizmente eles não romantizam, o pintor francês surge como aquilo que foi, um enigma. Tendo passado cinco anos no Peru, quando criança, Gauguin jamais esqueceu a cor e o calor do país americano. Vaidoso, silencioso, ele foi corretor bem sucedido na Bolsa de Paris e se casou com uma dinamarquesa que jamais o entendeu. Pai de vários filhos, começou a pintar e não parecia ter talento. Larga tudo aos 35 anos e se faz artista como ocupação integral. A partir daí, a vida de Gauguin é uma luta sem fim por dinheiro e por reconhecimento. Dos seus contemporâneros, Monet e Renoir o desprezaram, Degas viu seu valor, Cézanne o detestava. Van Gogh o via como mestre e irmão. Gauguin não era fácil. Orgulhoso, achava que as pessoas deviam o ajudar, se via como nobre, como ser especial. Mas ao mesmo tempo, ele era sincero, fiel à família, sempre otimista, sempre crendo em sua arte e que tudo iria mudar. Tivesse vivido mais 5 anos, apenas 5 anos, teria dado a volta por cima, sua arte passou a ser apreciada quando Matisse e Picasso surgiram para o mundo. Mas ele morreu antes, no Tahiti. ------------------ Quando se fala em Gauguin logo se pensa em ilhas do sul, mas na verdade ele passou relativamente pouco tempo por lá. Gauguin era irriquieto e viveu em Paris, Copenhaguem ( odiou ), na Bretanha, no sul da França, no Tahiti e na Martinica. Ainda trabalhou no canal do Panamá e foi marujo na pós adolescência. Ele procurava a simplicidade, o básico, o real, o primitivo. Dizia que só as crianças e o selvagem entendem a vida. Era um anti intelectual, apesar de culto, um europeu que amava e odiava a Europa e nisso foi um precursor. Gauguin foi um hippie quando ainda ser hippie era um risco de vida, um absurdo, uma loucura. Quando não havia a moda de se cair na estrada, de se romper com a civilização. Ele, em 1880, 1890, inconformou-se com a sociedade, rompeu com a arte de então e viveu de acordo com aquilo que ele era: um buscador. --------------- Todo adolescente inteligente, se conhecer Gauguin irá se identificar com ele. Livre e irriquieto, ele foi e ainda é o sonho de muita gente, mesmo que sua vida tenha sido um pesadelo. Ele não posava de artista rebelde porque esse modelo ainda não existia, foi criado por ele. Mais que Manet ou Courbet, é Paul Gauguin quem cria o persoangem do pintor que se isola e cria arte. Do artista que fez fama após morto, do homem que não se vendeu. É uma figura admirável e dos poucos artistas que podem ser chamados de heroi, no caso, anti heroi.
PRA QUE SERVE A ARTE?
A arte faz a vida valer a pena. Eis tudo. A arte, mesmo quando fala da morte, da dor ou do tédio, faz a vida valer a pena ser vivida. Isso porque o artista se interessa pela morte, pela dor ou pelo tédio, e faz assim com que mesmo isso pareça ter um sentido. Nem que seja o não sentido. Observe bem o que eu disse: o artista se interessa. Essa a diferença da arte verdadeira do engodo artístico. O artista se interessa, se enamora, se atraca com seu tema. Ele o conhece, tanto quanto um apaixonado, ele o investiga, penetra, dorme e sonha com seu tema. Não há nada de blasé aqui. Como na paixão, ele "acontece", não escolhe. Ele é levado, não vai. E assim faz com que algumas pessoas, seu público, sintam que aquilo é interessante, talvez apaixonante, e a vida se revela na obra. ----------------- Quantas pessoas Matisse não guiou para o interesse? Fazendo-as simplesmente olhar e ver a vida. Apaixonar-se pela cor. Janelas, folhas, mulheres, cadeiras, cortinas, peixes, pássaros, tudo lá, mostrados para nossos olhos e assim nos ensinando a ver e ao ver nos fazendo olhar. E ver. Não via símbolo, Matisse não era simbolista, mas sim vendo o que há para se ver, a verdade da presença das coisas. Há muito para ver, duas cadeiras é muito para ver, um peixe no aquário é o bastante. Engolir com os olhos. ------------- Leio o livro da esposa de Picasso, Françoise Gilot, MATISSE E PICASSO, ela recorda os anos que esteve casada com o espanhol feroz e foi amiga do pintor francês discreto. Ela própria foi pintora e viveu até os anos de 1990. O livro, inspirador, nos dá desejos de viver e de fazer coisas. De criar. Como Gauguin, Matisse sabia que havia um paraíso dentro de si, mas ao contrário de Gauguin, ele não discursava em sua obra, ele mostrava a realidade da cor e dos volumes. Quem olhasse que sentisse a presença da vida. ----------------- Quando Gilot conheceu Matisse ele já era um velho que convaslecia de um câncer. Henri ainda viveu 20 anos pós doença, mas era uma vida dentro de casa, com muitas visitas, muito trabalho, e ocasionais viagens em busca do sol. Picasso o admirava intensamente e ao mesmo tempo sentia ciúmes. Picasso era intenso e inseguro, possessivo e expansivo, amedrontador e vulnerável. Não era fácil. Ele procurava briga e Matisse prezava a paz. ------------------ A partir de um certo momento, talvez os anos de 1920, a arte passou a se orgulhar de ser chamada de " perturbadora". Quando alguém, como eu, ousa falar na utilidade da arte, parece que o artista atual se incomoda. Como se utilitarismo fosse um valor burguês. Eles não aceitam que mesmo uma arte que ofende ou perturba tem a utilidade de nos acordar. Ou irritar. Ao odiar uma arte pornográfica eu passo a valorizar a arte refinada e isso é útil. Mas entenda que essa arte "violenta" ou pornô só será real se for feita por "interesse profundo" e não por outro motivo qualquer. Arte feita por convenção ou para vender uma ideia ou um valor é facilmente esquecida. Como um casaco, nos encanta ao ser visto na vitrine, nos alegra ao ser comprado, e logo desaparece dentro do guarda roupa. ------------------ Quando eu tinha 30 anos de idade e descobri Matisse, ele me trouxe uma vitalidade que eu necessitava muito então. Ele me despertou para a alegria do sol, das cores fortes e do poder do olho. Não foi pouca coisa.
MILES DAVIS - DOO-BOP
Mais que o beat, aquilo que define o jazz é o diálogo entre os músicos. Eles tocam e conversam, ou brigam, ou fazem amor. Pois bem, aqui não há diálogo nenhum. Sobre uma base eletrônica fixa, Miles sola. A impressão não é a de um diálogo, é de um discurso. Mas o que digo é: So what? ------------------------ É preciso ser mais humilde. Miles Davis sempre falou que nunca olharia para trás. Mercurial até a alma, ele não queria saber de nada que lembrasse seus tempos de cool jazz, bop ou mesmo as improvisações livres funk dos anos de 1970. Em 1991, ao lado do rapper Easy Mo Bee, Miles queria fazer dançar. ---------------- O disco é assustadormante bom. Demorou para eu o escutar porque todos diziam ser bem ruim. Gravado pouco antes da morte de Miles, foi lançado quando ele já havia se ido. Easy Mo Bee pouco aparece como rapper, o que há são bases, funcionais, de funk, para os solos, bons, de Miles. Em 1991 eu teria adorado esse disco. Combinava com aquilo que eu ouvia então: C and C Music Factory, Snap!, Soul II Soul, Neneh Cherry. Ouvindo isso em 2026 ele não faz feio. É boa música Pop. Nada lembra o Miles elétrico de 1975. ----------------- Miles Davis morreu em 1991 com 65 anos de idade. As pessoas gostam de imaginar o que ele teria feito se tivesse vivido mais 10 anos. O certo é que ele não teria tentado fazer nada que fez nos anos 80 ou 70 ou 60 ou 50. Então esqueçam o disco acústico, o disco com Prince ou um disco com Santana. Eu acho que ele seguiria uma estrada parecida com aquela de Jeff Beck. Discos de house, jungle, drum and bass. Mas não aconteceu. Pena.
O LIVRO DOS ESNOBES - W.M. THACKERAY
Escrito em um modo delicioso, este livro é composto por uma série de artigos que Thackeray escreveu para a revista Punch. Thackeray foi, durante a era vitoriana, um dos dois ou três autores mais famosos em língua inglesa. Hoje ele é lembrado por causa do filme de Kubrick, Barry Lyndon, Lyndon é um romance de Thackeray. ------------------- Há muita influência de Thackeray em gente que escreve ou escrevia bem. Paulo Francis tentava parecer com ele, e com Shaw também. Toda a leva de escritores satíricos americanoa dos anos 20 e 30 tem muito de Thackeray. Isso porque ele era leitura obrigatória para gente culta. Divertido e extremamente bem escrito. --------------------- Como disse, o que temos aqui são artigos de revista, cada um descrevendo um snob. Assim, um capítulo se chama " Sobre snobs do campo", outro "Snobs de clube" e por aí vai. Mas o que vem a ser um snob? ------------------ Acima de tudo é preciso ser rico. E desejar chamar atenção. Não se importar com os sentimentos dos outros. O snob não é necessariamente brega, mas não possui bom gosto, pois não é discreto. Fala muito ou fica emburrado. Costuma reclamar da vida e pouco ri. Pode gostar de arte, mas exibe isso como fosse uma bandeira. Preocupa-se com dinheiro e acha todos os outros tolos ou revanchistas. Na verdade vê a vida como uma guerra, onde ele precisa ser o general. ------------------ O snob de hoje é chamado de "celebridade". Isso porque todo snob em 2025 une às descrições de Thackeray, o desejo imperioso de ser famoso. O milionário que foge da mídia não é snob. Aquele que sorri para câmeras e transforma tudo em evento social é um snob. Ele vê os outros não como pessoas, mas como fãs ou rivais. --------------- Leve e divertido, é uma leitura que civiliza.
SOBRE UM FILME MUITO RUIM, NINGUÉM SEGURA ESSAS MULHERES, E PORQUE ELE HOJE TEM UM VALOR IMENSO
Esse filme, que postei abaixo, era impossível de ser achado, mas foi disponibilizado no youtube. Até quando? Não é uma pornochanchada, ele é um dos muitos filmes em episódios que se fazia então, cópias do cinema que a Italia fazia desde os anos 50. Filmes que tinham um pouco de humor, drama e uma pitada de sexo. Produzido por Silvio Santos, em 1976, o cinema era então um bom negócio no Brasil, mesmo sem ajuda financeira estatal, a Embrafilme fazia apenas filmes dificeis, é um filme bem ruim. Mas que agora, passados 50 anos, meio século!, se tornou um documentário sobre um mundo que não existe mais. Há a curiosidade de se ver Tony Ramos em papel de malandro sexy, ou Miele fazendo Miele. O elenco é todo de famosos de então, inclusive com a mãe de Luciana Gimenez, Vera. Mas as histórias são bobas, óbvias, sem porque. O que vale, hoje, é o que não se dava valor então. ----------------- Eu, em 1976, ano do filme, tinha 14 anos, então é humanamente compreensível, haver saudade de um tempo em que eu era tão jovem. Mas não pense que eu era feliz. Passei toda a adolescência sofrendo com uma timidez mortal e uma neurose que me fazia sentir e pensar como fosse um velho. Memórias de minha adolescência são cinzentas e sempre invernais. Mas... não há conhecimento nenhum, entre jovens, do que foi o Brasil de 1976. Ao contrário da Europa ou dos EUA, onde há uma imensa profusão de filmes, séries, clips, discos do período, aqui há quase nada sobre a época, e quando há é sempre uma visão que coloca a ditadura como centro da vida. O Brasil era imenso, bem maior que hoje, e a vida era muito vasta. Jovens irão estranhar tudo neste filme. ---------------- Havia praia livre e gente sorria nas calçadas. Se andava mais devagar e se falava com menos ansiedade. Não tinha tanque do exército nas ruas e nem polícia ostensiva. Sim, se podia fazer festas e não havia toque de recolher. Gente reconhecidamente de esquerda, Caetano, Gil, Dias Gomes, Saldanha, Jorge Amado, ia à praia sem o menor constrangimento. Não eram xingados ou vaiados pelos conservadores. Apesar da repressão contra a guerrilha, o brasileiro ainda ostentava o rótulo de cordial. Sabíamos que havia uma luta entre militares de direita e guerrilheiros de esquerda. Onde? Sei lá. Em 1976 a guerrilha já havia sido sufocada e o regime relaxava. Por pressão de Jimmy Carter, os generais começariam a deixar os líderes radicais, aqueles que pegaram em armas, voltar. Brizola pedira por uma guerra civil, Gabeira sequestrara um embaixador. Dilma participara do fuzilamento de um soldado. Todos seriam zerados. Limpos. E indenizados. -------------- Esse era o Brasil que vemos nesse filme, por detrás das histórias bobas. Parecia que ainda poderia dar certo. Coreanos do sul ainda vinham para cá, em fuga da miséria se seu país. De Taiwan também. Quem imaginaria que em mais 20 anos eles nos passariam? ------------------ Basta olhar o filme e ver o Rio ainda com chances de ser aquilo que nasceu para ser, aquilo que Dom João plantou quando veio para cá: civilizado. Gentil. Da paz. -------------- Experimente pegar um filme de 1985, por exemplo, um filme bobo como este. Popular. E note como tudo mudou em apenas 9 anos. O humor parece mais agressivo. As pessoas mais ansiosas. O Rio já tem algo de incivilizado, de perda de rumo, de descontrole. Não há mais a figura do gozador, agora é o aproveitador. Saudade? Não é uma questão de saudade. O Brasil de então estava muito longe de ser uma maravilha. Hospítais eram tão ruins como sempre. Os transportes eram pavorosos. Mas tinhamos algo que se perdeu para sempre, esperança. Sabíamos que íamos dar certo. Era inevitável. Não tinha como dar errado. Em 1990 seríamos primeiro mundo. Para isso não acontecer, algo de muito errado teria de ser feito. O Brasil teria de fazer muita força para dar errado. ------------------- Fez. Ele fez.
PS: O gozador, marca maior do brasileiro de então, é um ser que não leva nada a sério. Irresponsável, leva tudo na brincadeira. Seu objetivo único é se divertir. Rir. E conquistar mulheres. Ele espalha confusão. O aproveitador, que toma poder nos anos 80, é um faminto por dinheiro. Usa tudo que pode para se dar bem. Tudo nele é uma questão de status. Ele quer parecer rico, parecer poderoso, parecer ter muitas mulheres. Se vê como líder inatacável. Blindado. É um destruidor.
MÚSICA QUE CONVERSA
Simon Phillips é um desses bateristas que já tocou com todo mundo. Em casa tenho um vinil em que ele toca, aos 18 anos, com Eno e Manzanera e outro com Jeff Beck. Num post recente ele diz que acha estranho o fato de que a maioria das bandas atuais tocar sem olhar um para o outro. Não há comunicação no palco entre os membros da coisa. Desse modo, a música não flui inesperada, ela não acontece naquele momento exato, ela se faz como foi ensaiado. A vida não acontece, ela está pronta. -------------- Ele recorda de ter visto um show de Chick Corea quando adolescente e do modo como Corea jamais olhava para seu piano. Colocado em um ponto do palco onde ele podia ver e ser visto, seus olhos observavam e falavam com os músicos que lá estavam. O show, completamente livre, comunicava energia entre os músicos e esparramava luz para a plateia. ---------------- Simon vai logo no ponto mais extremo, jazz não existe sem comunicação entre músicos. Mas sim, o rock tinha uma expontânea comunicação entre músicos que é rara nos dias de hoje. Cada músico é um indivíduo e isso é reflexo do fato de que vivemos em bolhas interligadas. Estamos juntos em nossa bolha, todos em um grupo que faz a mesma coisa, mas ao mesmo tempo, voltados para uma tela que nos isola do aqui e do agora. É exatamente a postura de um músico de 25 anos numa banda comum. ------------------- Uma banda é reflexo do momento em que ela nasce. Assim, Beatles era um grupo de amigos sorridentes festejando a vida porque essa era a atitude dos baby boomers nascidos na segunda guerra. Se o Led Zeppelin eram hedonistas arrogantes se exibindo em um palco, isso era reflexo da revolução do EU e do mundo de fartura e sexo de então. Sex Pistols era uma juventude entediada sem sonhos e quando nos anos 80 surge o tecnopop, aí começa um individualismo blasé. Até a revolução punk se observa a total interação no palco. Os músicos se olham, se tocam, falam um com o outro. A partir de 1980 começam a nascer grupos onde os músicos parecem sozinhos no palco. Ignoram o público e ignoram-se. Era uma atitude estética, uma busca pelo cool, hoje é uma verdade existencial, um isolamento real. Cada um toca sua parte e por favor não me atrapalhe. -------------- Músicos que possuem alguma influência de jazz ou punk ainda interagem e muito, afinal, eles querem parecer Sly Stone ou Iggy Pop. Mas é cada vez menos natural. ----------------- Eu, quando vejo um show, fico fascinado, quando noto um guitarrista solando e ao mesmo tempo mandando dicas para o baixista, sobre o lugar onde o solo irá aportar. Música, música que vale à pena, é uma conversa. Se os músicos se calam ela não tem porque.
PRIMAVERA DE CÃO - PATRICK MODIANO
Um moço e sua namorada são fotografados por um artista. O moço passa a organizar o arquivo desse artista. O tal artista é um fotógrafo da Magnum, foi amigo de Robert Capa. Mas esse homem é um solitário, enigma que escapa da vida. Se ausenta até desaparecer no México. Trinta anos depois, o moço recorda. ---------------- Modiano, prêmio Nobel de 2014, o que hoje nada significa, escreve um livro breve sobre breves momentos. O que ele tenta mostrar é a importância de uma ausência. Como cães, somos pessoas que esperam aquele que partiu e sem ele ficamos perdidos em conjecturas. O ausente cresce em nós. ----------------- Modiano escreve como um francês, frio, analítico. É uma tese. O livro não é ruim e pode-se o ler em uma manhã de ócio. Ou de espera?
A ERVA DO DIABO - CARLOS CASTANEDA
O Brasil de 1975 era muito estranho. Havia uma ditadura, pois não podíamos votar para presidente. Havia censura, alguns filmes não podiam ser exibidos, mas ao mesmo tempo voce achava Karl Marx exposto em vitrines, cantores contra o regime tinham músicas em novelas e ganhavam milhões e nas escolas as aulas davam um viés marxista a tudo. Como disse um filósofo de direita, o regime militar perseguiu e executou a guerrilha, mas deixou a esquerda tomar conta da cultura à vontade. Eram ditadores burros. Foi uma ditadura à brasileira. ---------------- Basta dizer que eles exilaram JK, Janio e destruíram Carlos Lacerda, nomes de direita ou no mínimo liberais. Mas o que eu via, em 1975 eu tinha 13 anos, eram bancas de jornais cheias de livros como este, A ERVA DO DIABO. Hippies liam isso. Sidharta também. Nelson Rodrigues, Jorge Amado, Erico Verissimo, pareciam estar em todo canto. Até supermercados vendiam livros. Eu lia outras coisas. -------------------- Lançado em 1968, por um antropólogo peruano que vivia na California, este livro vendeu milhões e milhões de exemplares. No lançamento foi bastante elogiado. Ele acertava em cheio o espírito da época, o desejo de explorar a mente e ver outras realidades. Mas a coisa mudou a partir de 1972, quando se percebeu que tudo ali era ficção. Vendido como experiência real, ao descobrirmos que tudo é invenção, vemos em nossas mãos o livro perder todo valor. Fosse testemunho de efeito real de uma droga haveria um interesse jornalístico. Como história inventada, é fraco, bem fraco. ---------------- Um jovem conhece Dom Juan ( tão óbvio que esse homem é inventado ), um índio mexicano. Esse índio lhe administra peyote e o livro narra as viagens mentais do jovem. Welllll..... eu li esperando algo de poético, ou místico, ou plástico, ou sei lá. Mas não. As viagens são monótonas, estranhamente entediantes. E as descrições são escritas sem nenhum sendo de poesia. Filosoficamente ele não tem nada de nada. É um livro banal. Nada maluco, nada ousado, nada instigante. Então porque em 1968, 1970, hippies o amavam? Porque fala de drogas. Só isso. Assim como nos anos de 1930 qualquer livro que falasse de sexo parecia bom, em 1968 tudo que falasse de drogas era considerado relevante. Desse modo, muitos discos, filmes e livros ruins foram alçados ao status de cult só por terem relação com a cultura da droga alucinógena. É certo que em 2025 há muita coisa ruim sendo vista como cult por tocas no assunto desta época. ----------------------- Esqueçam Carlos Castaneda.
O MARTIR E O BODE EXPIATÓRIO
Leio texto de Flavio Gordon, forte como sempre, onde ele diz que o Brasil vive um embate entre o paganismo e o cristianismo autêntico. Como acontece em sociedades sob forte crise ( eu chamaria de esquizofrenia aguda, o Brasil está em transe esquizoide profundo ), as forças do inconsciente pagão irrompem e essas forças passam a ditar a vida diária. Como elas se manifestam? O primeiro sintoma é o desprezo pela razão. O pensamento mágico se torna absoluto e deixa-se de observar o que de fato acontece em prol de uma crença mágica. O que tromba com a crença é desprezado. Segundo sintoma é a violência. Exige-se um bode expiatório, e esse bode deverá ser eviscerado em praça pública. Coloca-se sobre o bode tudo aquilo que não deu certo em sua vida. O bode passa a ser o culpado. E não basta matar o bode, ele precisa sofrer, sofrer muito. Flavio aponta o fato de como Bolsonaro é tratado pelos fanáticos como esse bode. Há todo um ritual pagão de acusação ao bode, prisão, evisceração, sofrimento, injúria e morte. O bode é culpado pela sua fome, pela sua mulher que o trai, pelo crime, por tudo que irrita o pagão. E ao cuspir, apedrejar o bode, magicamente voce sente alívio. Passageiro. Por isso o bode não pode morrer. E mais interessante, não pode haver dúvida. Qualquer sinal de piedade pode desfazer o transe orgiástico. ------------------------------- No outro lado temos os cristãos antigos, amantes da martirização, seguidores do líder que sofre sem parar. Esses conhecem a piedade e não entendem como é possível que pagãos sejam tão crueis. O líder é inocente, e de fato é, portanto não adianta acusar os cristãos de não terem piedade por assassinos ou ladrões, pois a primeira característica do mártir é sua falta de malícia, a ausência de malandragem. O mártir caminha para o sacrifício sem tentar fugir. É como se ele soubesse ser preciso tornar-se o bode expiatório para conseguir vencer. ------------------------- Recentemente, entrevistado por revista americana, o grão sacerdote Alex I, disse ser seguidor de Exu e Xangô. Observa Flavio que os dois são da guerra e não da justiça. Alex se vê como um guerreiro e não como um neutro julgador. Na guerra pagã é preciso o sacrifício do bode. Seu sangue lava o mal. ----------------------- Me incomoda sempre na direita do Brasil a sua passividade tonta. Ela não usa meios sujos, não é esperta, malandra, sacana. Bolsonaro poderia ter calado a boca de meia dúzia de veículos de imprensa com dinheiro e poder. Poderia ter falado aquilo que a classe média chique queria ouvir. Poderia ter contratado marqueteiros. Poderia ter financiado alguns cantores prostitutos. E principalmente, poderia ter feito o jogo dos bancos. Itaú e Bradesco, os que mandam aqui. Mas não. Xucro, sem pensar, caminhou para o altar do sacrifício, sem fugir e sem mudar uma frase do que foi dito. É a alma cristã em 100% de seu fanatismo. Deus assim quis e eu não vou ceder "ao mal". Observe que os dois grupos acabam por não agir na relaidade histórica. A direita cristã passou pelo poder sem deixar herança nenhuma. O Brasil não mudou em nada. E os pagãos, a esquerda, continua no seu transe orgiástico, feito de sexo, roubo, drogas e crenças infantis, enquanto a realidade do Brasil permanece a mesma, sem educação, sem renda, sem paz. ---------------- Se Jung vivesse e estivesse no Brasil ele teria muito o que escrever. O modo como o inconsciente se revelou aqui. A aversão pagã pela culpa, pela piedade, pelo cristianismo e a aversão cristã pela ação objetiva, por jogar o jogo sujo. ( A igreja católica joga sujo desde que se tornou uma instituição política, espero que voce saiba que falo da igreja como espiritualidade pura, abstrata, filosófica ). ----------------- Não haverá reconciliação porque o paganismo e o cristianismo são incomunicáveis. O que pode haver é a volta do paganismo para o inconsciente e o Brasil voltar a fingir ser um país unido e de bom coração. Mas isso eu não consigo crer. A fratura é grande demais e um dos lados terá de aniquilar o outro. Sinto, infelizmente, que o paganismo já venceu e que o destino será a incultura, a incivilidade e a transformação deste território em tribos conflitantes. Voltaremos ao universo do mais forte rouba, a magia existe e quem aponta o mal será destruído. ------------- Não gostou deste texto? Volte a se sentir bem. Fure a barriga do bode e faça-o sofrer um pouco mais. Seu alívio será imediato. --------------- ps: A Alemanha passou por momento igual. O paganismo do nazismo e o bode sendo todo judeu. Como foi resolvido? O transe passou na dor da guerra e na humilhação da derrota. Súbito, todo cidadão que aplaudia a perseguição ao judeu "esqueceu" tudo o que havia feito. Mas, e esse é o grande "mas", a Alemanha nunca trouxe os judeus de volta. A limpeza étnica teve pleno êxito. A cultura judaica alemã morreu em 1936 ao ser transformada em bode expiatório. No sonho da esquerda brasileira há esse paraíso: um Brasil sem um só direitista. Conseguirão?
A REALIDADE
As pessoas evitam a realidade. Li um livro sobre isso. De um tal de Keppe que eu não conhecia. Ele me parece um charlatão, mas essa ideia é boa. Acho ele charlatão porque ele não fala o porque de evitarmos a realidade. Consegue demonstrar que realmente a evitamos, mas não diz o motivo. Penso que isso acontece porque o homem é o bicho que teme a morte. Tentamos esquecer dela e para isso criamos distrações. Aterrorizados, somos o único bicho que entende o fim de tudo, lutamos para esquecer a morte e no processo negamos a vida real, a vida onde a morte espreita. Explicação simples, ele evita falar isso e acaba não dando motivo algum. Mas o resto de sua exposição é válida. ------------------ Toda infelicidade decorre da não aceitação da realidade e quanto mais vivemos na fantasia, na imaginação, mais infelizes somos. Toda alegria vive no mundo real, o mundo onde vive nosso corpo. Toda tristeza doentia é fruto de criação cerebral, invenção. Eis a armadilha: desenvolvemos a imaginação para evitar sofrer, e sofremos por perder a vida real. Hoje isso se radicalizou. As pessoas não só imaginam a vida, elas tentam criar uma vida imaginária. Se a realidade é a vida do corpo, e as crianças vivem isso em plena alegria, cada vez mais o corpo é negado, a evidência do que se vê é cancelada em favor de algo criado na mente. Não há a menor possibilidade de alegria nessa condição. Pelo fato, cruel, de que a pessoa passa o tempo todo brigando com o que seu corpo diz. Os olhos dizem: Belo, mas a mente cria um discurso para provar que o belo não existe. O corpo saliva de fome, mas a mente diz que aquilo não é bom para o fígado. O corpo diz quero, a mente dá argumentos para não querer. O corpo vê azul, a mente não aceita e fala verde. -------------- Se voce não entendeu, corpo é seu olho, seu ouvido, sua mão. Corpo é também seu sistema nervoso, seu desejo, seus genes, sua química interna, seus hormônios. Tudo isso fala sem precisar inventar nada e essa liberdade de se inserir na realidade é a única maneira de ser feliz. O corpo adoece e sente dor, morre, sim, isso é triste, mas não é absurdo, não é sem sentido, não é loucura ou neurose. O corpo, como a realidade, tem uma narrativa, um modo de contar o tempo, uma dança. A imaginação apressa isso, ou pior, ignora. Aí a infelicidade. --------------- Então caia na realidade neste novo ano. E não tema ver o que está aí, na sua frente. A verdade.
COMO SER FELIZ
Em 1950, aos 24 anos, chegado ao Brasil, meu pai viu seu primeiro filme. Até então, tudo o que ele vira fora sua aldeia em Portugal. Todas as ruas do mundo eram as ruas de sua aldeia e todas as mulheres do mundo eram aquelas poucas que ele vira. Imediatamente, meu pai descobrira que havia um lugar chamado Arizona e que cem anos antes, cowboys andavam pelo deserto. Meu pai nunca havia visto um deserto. Nunca havia visto um americano. Ele nem mesmo sabia que havia gente com 1.85 de altura. Mais importante, meu pai não sabia que havia mulher tão bonita como Rita Hayworth. ----------------------------------- Meu pai, em 1950, assim como acontecera com grande parte da humanidade a partir de 1920, entrava em um univero duplo: de um lado aquilo que era real, que ele podia tocar, sentir na pele, estar dentro, se relacionar, e de outro o mundo da imaginação, aquilo que era apenas luz, inefável, e que entrando dentro de sua mente modificava o funcionamento de seu cérebro. Não haveria volta. Depois viria a TV. ---------------------------- Uma psicóloga diz que nosso cérebro é uma Harley Davidson, ele foi feito para andar a no máximo 80 por hora. É uma máquina que aprecia o entorno, que flui devagar, que absorve em seu tempo próprio. Hoje, com a hiper conexão à tudo, nossa mente se vê obrigada a andar como um fórmula 1. O repouso é a 120 por hora, o desejo corre a 300. Em um dia, vemos mais mulheres que um homem de 1900 via em toda sua vida. Repito, em um dia, na rua, na TV, na Net, vemos mais mulheres que um homem via em toda sua vida. Nosso cérebro é o mesmo, o que o excita não. Mais enervante para ele, essas centenas de mulheres vistas em 24 horas o atraem, porque todas tentam ser atraentes. Algumas estão nuas. Em um dia ele verá mais corpos nus que Casanova viu em toda sua vida. A ansiedade se impõe. -------------------- Quem se recorda de 1960, ou mesmo 1980, sabe, as pessoas eram mais lentas. Andar era menos apressado, falar era mais pausado. Ouvia-se mais. O tempo era mais longo. Se voce duvida basta ver um filme ou uma série de então. O tempo que ali se faz é mais acelerado que o tempo real da rua e se voce acha o filme ou a série lenta, creia, na rua a lentidão era maior. Esse tempo longo era devido ao fato de que ainda se podia desligar a TV. E não ir ao cinema. Na rua, no ônibus, no trem, voce não levava a tela com voce. Nem mesmo o telefone. Então, quando voce estava na rua voce estava na vida real, queira ou não. Andar de ônibus era ouvir os companheiros de viagem, ouvir o motor, ver a rua, sentir o sol na pele, sentir o calor. Cheiros. Seu cérebro entrava no fluir da vida ao redor, real, voce a tocava, a mastigava, cheirava, ouvia. Na praia o relaxamento era total: vozes distantes, cherio de mar, de comida, ondas quebrandO, o cérebro mergulhado no beira mar. Absoluto. -------------------- Voce poderá dizer, mas e daí? Qual o problema? Que se acelere. Que se veja tudo na tela. ---------------------------- Sim, voce pode escolher isso. Pode? Escolhemos o que queremos fazer mas não escolhemos, nunca, o que desejamos. Isso é Schopenhauer. Desejamos nos ligar, nos informar, saber, e desejamos velocidade, tudo rápido, pra ontem. Produzimos. Produzimos muito. E sofremos. Como nunca antes. Por que? Porque o mundo real, pela primeira vez, parece pouco. ------------------------- As pessoas se expõe nas redes sociais porque desejam fazer parte do mundo que parece melhor, o virtual. Voce viu a menina de 18 anos que comprou um iate, voce viu o homem de 40 que fez um bilhão e voce deseja ser como eles. De repente sua vida, a real, não importa mais. Ela parece limitada, lenta, sem emoção. Voce sabe que existe Uganda e viajar para o Pantanal é pouco. Voce viu a mulher fazer sexo no porn videos e sua esposa não sabe transar. Seu pau parece pequeno. A vida dos outros, a que voce vê nas telas, é fascinante, a sua não importa. Dá pra ser feliz? ------------------------- Nossas melhores lembranças da infancia são aquelas em que estamos completamente ligados ao real. Temo que pessoas com menos de 30 anos não tenham tido essa sensação, mas se voce tem 35 ou 40 sabe do que falo. Aos 6 ou 7 anos, voce está no quintal e a chuva está chegando. Voce sente o cheiro dela e a temperatura cai. O ar fica úmido. Pássaros saem voando. Voce relaxa e ao mesmo tempo sente apreensão. Alguma coisa vai acontecer. O céu escurece, tons de roxo e de cinza. Então as gotas começam a cair. Voce corre pra casa enquanto sua cabeça molha. São esses os momentos da infancia que valem a pena. O que aconteceu? ------------------------ Nosso cérebro, seja obra Divina, seja obra da natureza, é parte deste planeta. E este planeta tem seu modo. Nossa mente, como nosso corpo, tem limites. A realidade é o que nosso cérebro é. Ele processa de um modo analógico, biológico, em seu tempo e seu lugar. Ele é envolvido por sentimentos. Ele aprecia, sente, saboreia, e procura conforto. Para esse saborear, esse conforto, ele precisa usar as mãos, os olhos, os ouvidos. Sentir. Com tempo, seu tempo. O tempo biológico e não o digital. ----------------------------- As mãos são parte central do processo e por isso existe uma diferença imensa entre pegar o papel e desenhar com uma caneta e tocar uma tela, a mesma, sempre a mesma, seja para desenhar, escrever ou ver um filme. Há uma diferença de experiência tátil entre procurar, tirar o disco da capa, ligar o aparelho, colocar o disco para rodar e ouvir a música, ou digitar uma faixa na tela. Ir à estante pegar um livro, segurar ele aberto, sentir o cheiro e o tato da folha ou olhar a mesma tela de sempre. O real é sempre uma questão de toque, de habilidade manual, de aprender a pegar. Isso é o cérebro. -------------------------- Voltando a meu pai, ele sempre soube que aquilo que via na TV era apenas TV. Ele falava isso. Só na TV isso acontece. Outra frase dele era: só em filme.... Por ser de uma geração pré cinema, o real estava sempre presente. E esse real lhe bastava. Havia nele a dor de todo ser vivo, mas em meu pai eu jamais identifiquei a ansiedade ou a depressão que são marcas comuns em todos os meus contemporâneos. Eu brigava muito com ele exatamente porque eu não aceitava seu "comodismo", comodismo que hoje sei ter sido a adaptação ao mundo como ele é, real. Eu era e sou agitado, nervoso, neurótico, sempre insatisfeito. Ele dormia relaxado e um bom almoço o fazia ser feliz. Por que diabos ele era assim? ----------------------- Poque até os 24 anos, meu pai nasceu em 1926, ele nunca fora tentado pelo virtual. Seu mundo era sua aldeia e seu mundo lhe bastava. Houve um choque ao ver o Arizona, o Alasca e Ava Gardner, mas sua mente estava ancorada no bom e velho mundo biológico. Ele não imaginava ser John Wayne. Ele adoraria ser, mas ele sabia que querer ser John Wayne era bobagem. E fim de papo. Sua atenção, e aqui encerro este texto, era toda do mundo real. Muito melhor que John Ford era o bife na mesa. Mais excitante era sua mulher na cama que uma estrela na tela. Ir andar na rua era mais bonito que imagens de Star Wars. Porque sua mente, viva no real, sabia TODO O TEMPO: isso é só um filme. ------------------ Lembro que quando eu tinha 13 anos, meu pai achou uma Playboy escondida no meu quarto. Minha mãe nem sabia que mulheres posavam nuas e meu pai veio conversar comigo. A frase que ele mais me falava era: ISTO É SÓ PAPEL. VOCÊ NÃO VÊ PAULO? SÓ PAPEL. Ah meu velho....voce era saudável....que saudade de gente como voce.....
BLIND FAITH, A BANDA
Quando em 1968 um bando de caipiras do Canadá lançou um disco chamado Music From The Big Pink muita gente ficou atônita. Hoje, tanto tempo depois, nós não entendemos mais o que havia de tão diferente em um disco pop. É preciso entender. Imagine que voce tem 22 anos em 1967 e que tudo que voce escuta são coisas como The Doors, Hendrix, Cream, Traffic, Grateful Dead, Love e o soul music da costa leste. A moda era coisas groovy, ou seja, bem louco. Solos de guitarra, efeitos de estúdio, sons orientais, o mellotron, cítaras, flautas, viagens de LSD. Então no auge de tudo isso, tempo em que até Bee Gees e Neil Diamond soavam sob drogas, surge esse disco sem drogas, sem viagens astrais, sem sons esquisitos, sem solos longos, sem nada que lembrasse hippies. Eram canções que falavam de voltar pra casa, ter amigos, formar um lar. Era a sanidade em meio ao caos. Todo mundo, inclusive Beatles, absorveu The Band, e Eric Clapton mudou sua vida para sempre. Desde então toda sua carreira, de 1969 até hoje é uma homenagem à The Band. Sua mudança foi radical e começa aqui, com o grupo Blind Faith. --------------------- Clapton sai do Cream, cheio das ego trip, dos fâs que mal ouviam o som, dos solos de 15 minutos. Cansado, ele começa a fazer jams com Stevie Winwood, o cantor tecladista do Traffic. Ginger Baker aparece e pronto, surge um super grupo. Gravam um disco e fazem alguns shows e como esperado, não dá certo. Ginger continuava na trip hippie de solos longos e Winwood não abria mão das influências groovy. Eric logo pulou fora, se unindo a Delaney e Bonnie, um duo americano raiz. Este disco, caótico, chuta pra todo lado e erra alvos. Nem um produtor fera como Jimmy Miller conseguiu salvar a produção. O som é ruim, flácido, preguiçoso. Eles erram, acham que o som de The Band é light, soft, esquecem que ele é viril, musculoso. Blind Faith passa desleixo onde devia haver feeling. ----------------- A primeira faixa já entrega tudo, o riff, ótimo, precisava de mais ensaio. O vocal, de Winwood, está todo errado. E a batera de Ginger tenta dar beat a um som sem alma. Cant find my way home é puro Winwood. Bela, delicada, quase perfeita. Im all right é uma cover de Buddy Holly e é bem ok. Presence of the Lord é o grande momento de Eric na banda. O solo é sublime. As duas últimas faixas são psicodélicas. Tem até um solo de Ginger. --------------------- Acabei elogiando as faixas, mas todas juntas não funcionam. E a preguiça mata tudo. Um detalhe: a capa do LP é hoje totalmente censurada. Parece que a liberalidade de nosso tempo é de araque.
DENNIS LEHANE E NELSON RODRIGUES
Nós somos um puxadinho do Partido Democrata dos USA. Toda nossa lacração é cópia, servil, do que os democratas fazem por lá. De um modo pobre, aculturado, ogro, nosso funk é xerox ridículo da cultura do rap de Miami. Nossas pautas esquerdistas, aborto, trans, drogas, é a mesma do Partido de lá. Até a invasão fajuta do Capitólio nós imitamos, até as datas são quase a mesma ( lá dia 5, aqui dia 8 ). A diferença é que os USA possuem ainda um STF isento e um Partido Republicano que garante alguma racionalidade. Se voce usar quatro neurônios vai perceber que a diferença entre os dois partidos é a razão. Os Republicanos se apoiam na tradição da lógica e os Democratas viajam na maionese todo o tempo. Infelizmente aqui não temos tradição nenhuma lógica, então nos úmtimos 30 anos o Brasil é um hospício onde os ladrões tomaram o poder. Mas cara, porque voce está falando isso? Explico. ---------------------- Lehane é o típico irlandês americano de Boston. Sobre Meninos e Lobos virou filme do Clint. Este livro, Coronado, tem alguns contos e uma peça de teatro. O clima é aquele, frio, raivoso, ressentido, pubs e crimes. A linguagem é aquela dos USA branco atual: crispada, seca, objetiva, com gosto de cerveja forte. Gelada. Mal se percebe algum laço familiar quente. Okay? O que acontece é que um brasileiro, que nada tem a ver com essa merda, tenta hoje escrever desse jeito. E pior, viver desse modo. A vida de gangue. A vida de briga. A frieza do sexo sem sentimento algum, apenas a vontade de ejacular. A droga. ------------------------- Nelson Rodrigues é o Brasil antigo, o de 1950, ano em que meu pai chegou por aqui. Tudo em Nelson é paixão. É quente. Ódio, inveja, desejo de posse, tesão, raiva, pecado, muito pecado. As peles escorrem suor. A linguagem faz com que a gente sinta o cheiro dos corpos. Os homens são machos egoístas ou gays disfarçados. Cornos todos o são. As mulheres têm bundas fartas e todas são putas em potencial ou em realidade. Mentem, todos mentem, para si mesmo ou para o mundo. A realidade brasileira está toda alí. A do feijão. Do ônibus. Do batom. Do trabalho ao sol de 40 graus. O bigode. As lorotas. Nelson escreve breve e fácil e sempre como só no Brasil é possível. Não é porutuguês de Portugal. Não é português que tenta parecer cool ( inglês ). É a língua do Rio de então, a língua da classe média de Copacabana. ---------------------- Isso se perdeu neste século. Não há Brasil nos livros e menos ainda no cinema, TV, música. Há uma produção cultural que cria o artificial. Uma favela de gangue de Los Angeles, uma rua de bazar de Miami, sexo como em pornô made in NY. Nossa produção não cheira porque nossa rua, nossa vida se tornou UMA FALSIDADE. Somos um sub puxadinho de Oakland USA. Nossa prosa parece tradução do inglês. --------------------- Nelson seria cancelado hoje. Completamente. Ele era reacionàrio. Um conservador perto dele parece um liberal. Dificilmente ele conseguiria publicar. E emprego em jornal, esquece. Suas peças e textos estão desaparecendo da midia. E quando são levadas a cena se foca apenas no sexo e não na moralidade do autor. Tenta se esconder seu partido. ------------------- Me pego rindo ao ler Nelson. Rindo muito. Ele faz algo difícil de se conseguir, mergulha tão fundo no drama, no patético, que a dor se torna ridícula e brota o paroxismo do humor. Surge o tal brasileiro, ser que não existe mais. O brasileiro, um caldo de vaidade, medo, insegurança, malandragem e prosa rica. O mundo de Caymmi, Cartola, Moreira da Silva e Garrincha. Nelson Gonçalves e Cauby. Zé Trindade e Costinha. Chacrinha e Ary Barroso. Gente que só no Brasil poderia existir. ---------------------- Nelson só existe aqui. E aqui agora não tem linguagem própria e sem isso nada parece único, só possível por aqui. Morou?
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