O NÁUFRAGO - THOMAS BERNHARD

Ontem li na net um post onde um homem escreve sobre livros chatos que são bons. Os leitores do post citam entre os livros chatos que leram com imensa dificuldade coisas como O VELHO E O MAR, RUMO AO FAROL e IRMÃOS KARAMAZOV. Devo ser um bom leitor porque gente que acha esses livros dificeis deve ter lido muito pouco. Dificil é ler Laurence Sterne, Moby Dick e Ulysses. --------------- Amigo leitor, Bernhard é dificil apesar de não longo. Ele procura escrever como nós pensamos e isso tem um motivo, seu profundo pessimismo. Seus personagens não dialogam de fato, eles pensam. Para Bernhard o homem não é um bicho que fala ou que cria, ele é um ser que pensa sem parar. Daí a solidão de labirinto, daí o texto que roda em círculo, se repete, reprisa informações como tivesse alzheimer, titubeia, se perde, volta ao ponto de partida, é nosso modo de pensar. ------------- Aqui temos basicamente três homens, o narrador, seu amigo que acabou de se matar e Glenn Gould, sim, o famoso mito do piano, aqui transformado em personagem de ficção. Todos nasceram muito ricos, todos se conheceram no Mozateum de Salzburgo, no curso de piano de Horowitz. Todos são excelentes no piano mas Glenn é um gênio. O narrador para de tocar, após fazer 4 concertos, ótimos, porque nunca quis tocar, ser pianista foi ato de rebeldia contra a família. O amigo para de tocar também, pois se sente aniquilado pelo talento de Glenn. E Gould se torna Gould. O narrador recorda tudo isso enquanto viaja pela Austria, país onde nasceu e odeia. Bernhard odeia muito, odeia natureza, que ele vê como inimiga do homem ( concordo ), odeia o socialismo que ele vê como a corrente política que vulgarizou e aniquilou a Europa ( concordo ), odeia a Austria, que ele considera a morte do talento, odeia o piano, uma máquina que escraviza. Mas há uma coisa que Bernhard ama e ama muito, o homem, e para voce notar isso tem que pescar certas frases que ele deixa escapar, frases como "todo homem é único mas não vive sua indivdualidade", ou : " é o homem a obra de arte da natureza". ------------------ Boas histórias é o que procuro em livros policiais ou em biografias mas em romances eu procuro a surpresa, o estilo, a originalidade e isso Thomas Bernhard tem, tem muito. É um imenso autor.

LIVROS QUE DURAM E LIVROS QUE MORREM

Se um livro hoje for lembrado ou relevante por 5 anos pode ter certeza que se trata de coisa fora do padrão. Obras Primas são eternas e grandes livros duravam por volta de 50 anos, agora 5 anos é um bom limite. Qual o sinal de que o livro ainda está vivo? Reedições são a melhor pista, mas também há a adaptação para cinema, TV ou até mesmo citações em HQs ou músicas. Um bom sinal é também a procura em sebos, na net, em leilões de primeiras edições. Um livro respira enquanto é estudado em universidades, quando um novo autor fala de sua admiração por ele, ou quando dois amigos falam dessa obra. Autores que se fizeram eternos jamais perdem sua condição atemporal e esses eu creio que não preciso citar. São mais de 300 nomes e menos de 1000. Mas há aqueles que foram muito, muito respeitados e que hoje parecem afundar no mar do esquecimento. Sempre há a possibilidade de ressureição, isso aconteceu algumas vezes, mas esse renascimento é raro e nunca é inesperado para quem conhece literatura. ------------ Tennessee Willians e Arthur Miller eram figuras centrais do mundo cultural por 40 anos e hoje estão bastante anêmicos. Eugene O'Neill, primeiro americanos a ganhar o Nobel, ícone do teatro é figura morta em 2026. No teatro inglês há a múmia Bernard Shaw, o escritor mais famoso das letras inglesas do século XX, nome que festejou em fama por cerca de 60 anos e que hoje é mais antigo que Galsworthy ou Longfellow, outros dois nomes que sumiram. ------------------- Nenhum desses autores me causam nenhuma saudade, não lamento seu ostracismo. Mas fico triste por ver que livros como Zorba, O Grego ou No Fio Da Navalha não serem mais lidos. Kazantzakis foi famoso por 30 anos e Maugham por 40. A lista é infinita: onde se lê o nome de Dorothy Parker ser citado hoje? Sinclair Lewis, Upton Sinclair, John dos Passos, todos autores amados por antigos intelectuais e em 2026 encalhados em sebos. André Gide parece estar retornando, ele merece, mas cadê o ótimo Lawrence Durrel? Seus livros são fascinantes, exóticos, diabólicos, belos e terríveis, porque saíram de moda? Entre 1960-1980 ele vendeu como pão e era amado como Huxley. ------------- Mais recentemente, lembro que Martin Amis era O Cara da nova literatura inglesa, muito à frente de Ian McEwan ou Julian Barnes, seus colegas de geração, mas hoje quem leva Amis em conta? Assim como Tom Wolfe ou Vonnegut eram mitos nas letras da América nos anos 70 e hoje são desconhecidos por leitores sem cabelos brancos. Saul Bellow caiu após 40 anos de glória e temo que Updike e Roth sigam seu caminho. Mulheres como Iris Murdoch e Yourcenar têm a vantagem hoje de serem mulheres, mas mesmo elas perderam gás. Parece que há uma barreira de 40 anos de fama que só os gigantes conseguem ultrapassar. ---------------- E há as zebras, claro. Quando falei de Shaw lembrei que em seu início, por volta de 1890, Conan Doyle era aposta certa para o esquecimento, e eis que em 2026 Doyle continua sendo editado, já Shaw desapareceu. O que mostra que ser chamado de gênio não garante imortalidade à ninguém.

ARNOLD J. TOYNBEE

Durante todo o século XX, Toynbee foi o intelectual mais citado do mundo. Sim, pois é, a moda muda e hoje voce deve achar que dezenas de outros eram mais citados. Toynbee foi diplomata e historiador e lembro que Paulo Francis o citava muito embora não concordasse em tudo com o inglês. Morto em 1975, Toynbee foi gradualmente entrando em ostracismo e hoje é visto com desdém por historiadores que se dizem sérios. Por que? Ele não levava em conta motivos de gênero e tinha em alta conta as razões religiosas para a história. Para Toynbee, a história se explica pelo conflito entre religiões. Nada mais fora de moda em 2026, não? ---------------------- Arnold era mestre em cultura grega e romana e para ele era um prazer sentir que sua alma fazia parte desse mundo antigo e não do mutável e superficial mundo moderno. Viajou muito, chegou a ir até a China, em tempo em que o país era fechado ao mundo, ìndia e claro, dezenas de estadias na Grécia, Turquia e Itália. Para Toynbee, a região que vai do sul da França até a Turquia, da Macedônia ao Líbano, de Israel à Croácia é o mundo que importa. Essa é a civilização real, eterna, verdadeira. É aí que reside nosso espírito. O resto do mundo, seja Inglaterra, Russia, EUA ou Africa, é o mundo bárbaro, incivilizado, que em seu melhor copia Atenas, Roma ou Bizâncio. Em seu pior, são simples iletrados. -------------------- Tenho em mãos dois livros dele, um de memórias ( onde ele fala muito mais do mundo que dele mesmo ) e outro sobre a situação mundial nos anos 60. O que mais me impressiona é a imensa mudança que as duas guerras mundiais causaram ao planeta. Na primeira, metade dos amigos de Toynbee morreram, e na segunda todo o resto de otimismo que ainda havia foi por água abaixo. Toynbee percebe que após Hitler e Stalin nunca mais houve liberalismo no planete, mesmo países que se dizem democratas, como EUA e Inglaterra, possuem uma vigilância estatal que seria inimaginável em 1890 por exemplo ( fico pensando no que ele escreveria sobre 2026 ). --------------------------------- Por fim, se Toynbee exagerava o poder das religiões ( será que exagerava ? ), hoje chega a ser patético o modo como tentam diminuir a importância da crença, chegando ao ponto de ignorar que o conflito entre Israel e Irã é religioso e não econômico. Mesmo no Brasil de agora, muito do que aqui acontece tem um fundo conflituoso entre uma visão de mundo que segue regras religiosas e outra onde Deus morreu e vale tudo, ( quando não o próprio culto à figuras demoníacas, realidade que intelectuais negam ). Não advogo Toynbee, mas ignorar o papel central da fé religiosa na história do mundo ( as cruzadas foram uma guerra entre Maomé e Cristo, nada havia de valioso para se obter no deserto árabe ), é como falar que os conquistadores não se horrorizavam com o canibalismo por motivos de crença. Aliás, marxismo, existencialismo ou paganismo sempre foram questões de crença. Né não? ( n'est pas? )

MAHLER

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GUSTAV MAHLER, O FILME DE KEN RUSSEL E A SINFONIA NÚMERO 9

É quase um milagre. O final da Sinfonia número nove de Mahler. Escrita em momento terrível, Mahler brigado com a Sinfônica de New York, a saúde muito fragilizada, ele adivinhou ou intuiu que aquela seria sua última obra. São mais de 80 minutos de despedida, de dor, de luta e de absoluta e tétrica beleza. O final desta obra prima, quase silencioso, arrasa sua alma e ao mesmo tempo te dá nova força. Por isso, um milagre. -------------------------- Aviso: se voce tem dificuldade para ouvir Brahms esqueça Mahler, ele exige ainda mais atenção. O modo como Mahler faz música é nada simples. Melodias são criadas como se fossem independentes, e então misturadas. São várias "músicas" executadas como se ao mesmo tempo, o risco de caos é imenso, mas, ninguém sabe como, Mahler harmonizava e fazia dar certo. Para quem tem dificuldades com música erudita, Mahler é torturante. A sensação é de falta de melodia, de bagunça, de música que ameaça nascer e não nasce. Na verdade há muita melodia, tudo organizado e as músicas nascem e morrem o tempo todo, sem parar. Mahler queria criar a música da Terra e por isso suas sinfonias são assim: como passear pela Terra e ver tudo: passado, futuro, animais, tempestades, mares, tragédias, mortes, nascimentos. É a mais universal das músicas e a mais terrestre entre todas. ---------------- Estranho destino teve Mahler! Ficou rico e famoso mas não como ele queria. Seu desejo era ser um grande compositor, mas sua fortuna foi como maestro. Foi um superstar no tempo em que maestros eram superstar ( entre 1880-1910 ). Regeu em New York por uma fortuna e até hoje é considerado o maior maestro da história. Mas...enquanto vivo, suas composições eram tratadas como "mera curiosidade de um grande maestro que insiste em compor". Morto ainda no auge, longe da velhice, por problemas crônicos de coração, foi chorado como maestro e apenas como tal. E então algo aconteceu... a partir da década de 1960, lentamente, primeiro apenas entre os mais cult, Mahler começou a ser descoberto como compositor e então na década de 1980 veio a virada, Mahler passou a ser visto como um dos cinco maiores músicos da história, um igual a Wagner, Bach ou Beethoven. Desde então sua fama só cresceu. Em 2026 ele é, após Beethoven, o autor mais tocado em salas de concerto. Mesmo sendo tão dificil e exigindo orquestras imensas. ------------------ Mahler fez a ponte entre a música do século XIX, a de Beethoven, Brahms e Wagner, e a do século XX, a de Debussy e Stravinsky. Ele era romântico como Liszt e moderno como Ravel. Demorou muito para eu o entender, várias vezes o escutei sem entender, sem entrar em seu universo. O filme de Ken Russel, feito em 1974, ajudo. -------------------- Tentei ver esse filme anos atrás e detestei, parei em 20 minutos. Agora fui em frente e ele me tocou. Tem um dos finais mais tristes da história e a música é sublime. O filme nos faz entender a música de Mahler e isso não é pouco. Do meio para o fim ele cresce muito e algumas cenas são memoráveis. Claro, há o velho exagero cafona de Ken Russel, a cena com a nazista é grotesca, mas é um filme belo, digno do artista. Mahler, egocêntrico, revela no final quem ele de fato foi e isso nos toca. Alma, sua esposa, finalmente entende o marido e nós sentimos o que ela sente. --------------------------- Que houve naquele canto da Europa entre 1880-1910? Entre Munique e Vienna, Praga e Budapeste? Wittgeinstein e Kafka, Musil e Klimt, Mahler e Freud, Bartok e Mann. Seria o Danúbio? A mistura de línguas? A cultura judaica colocada ao lado dos ciganos e germanos? Ninguém sabe. ----------------- O CD que ouço traz Claudio Abbado em 1999 regendo a Filarmonica de Berlin. Abbado havia quase morrido em infarto e voltava ao trabalho. O CD, gravado ao vivo, traz os aplausos finais. Gravaram dois minutos onde se escutam vários Bravo! e muitas palmas. Leio que duraram 12 minutos. 12 minutos de aplausos. A gravação é sublime.

INTELIGÊNCIA PODE SER CULTIVADA?

Os países do norte europeu estão trazendo o lápis e o caderno de volta à sala de aula. Perceberam que tablets não desenvolvem a inteligência. Quando as pessoas vão aceitar que quando uma coisa existe por tanto tempo é porque há uma ótima razão para ela existir? Nossa civilização cresceu com textos feitos à mão. Nosso cérebro cresceu unido ao uso das mãos. É óbvio que escrever manualmente é um exercício cerebral melhor que a digitação. ---------------- Assim como ler livro de papel. O contato com a página impressa é a ginástica que construiu a mente da era moderna. Um filósofo que gosto muito diz que ler, ouvir música erudita e ver filmes é tudo que voce precisa para desenvolver sua mente. Mas há uma regra: não seja interrompido. Quando voce lé, ouve música séria ou mergulha em um filme, seu cérebro se expande em outro universo. A interrupção destroi aquilo que era construído dentro de voce. Isole-se, escolha seu canto e entre nesse outro mundo. -------------- Na internet não existe isso, pois voce será interrompido pela conexão que cai, um comercial ou o apelo do próprio meio, a internet pede que voce mude logo de página e pesquise alguma coisa ligada ao que voce faz ( tentei ouvir ópera no youtube e logo me vi pesquisando o maestro, a soprano e o tema da obra ). ---------------- O cérebro é alma a alma é cérebro e ele, como a alma, vive em ambiente etéreo. A criatividade embala-o e faz com que ele respire. Como ato de amor ele pode ser perdido em qualquer ruído. A inteligência nasce e cresce no idílio, você e a obra, voce e o texto. É ass

FANNY E ALEXANDER, UM OUTRO MODO DE OLHAR UM GRANDE FILME

Escrevi sobre este filme centenas de posts atrás, se quiser veja no índice. Feito em 1982, revi-o ontem de noite e encarei as 3 horas com grande tranquilidade. Como todo grande filme, cada novo encontro é como se fosse uma outra obra. O que vi dessa vez eu não vi antes. -------------- A base do filme, que é a base da vida de Bergman, é a guerra entre arte e religião. No mundo da arte temos cores fortes, tapetes, pinturas, exuberância; já o mundo da religião é austero, minimalista, cinza. Bergman, claro, toma o partido da arte e lhe dou total razão. Mas quero aqui fazer um adendo. A religião de que Bergman fala, que é aquela onde ele foi criado, é o luteranismo puro da Suécia. Mundo onde apenas a música era tolerada. E mesmo assim deveria ser música que glorifica Deus. Penso que se ele houvesse nascido na Itália por exemplo, sob o catolicismo, sua visão de religião seria bem outra. Pois no catolicismo cores, pinturas, exageros barrocos, panos, ouro, carnes fartas, tudo está presente e é permitido. O catolicismo promovia e patrocinava arte, de Michelangelo à Rafael. E essa arte era tão viva como o mundo da arte que Bergman mostra em seu filme. O luteranismo era reação contra aqueles anjos com bundas redondas de fora. ---------------- Há uma cena no filme que eu havia esquecido totalmente, é toda a sequência na casa do judeu. E é a melhor do filme. A exuberância visual daquela casa é ainda maior que na casa da viúva ligada às artes. Naquela velha religião Bergman mostra magia e dubiedade, medo e suspense. E é nela que surge aquele ser hermafrodita que não consigo entender porque. ( Um anjo? ). ---------------- Ingmar Bergman exemplifica a teoria do livro que li recentemente. Ele é um ateu, pois não crê em Deus, mas é religioso, pois sabe que a vida é mistério e magia. Bergman olha para o universo e percebe a beleza, terrível e assustadora, que há nele. É portanto um universo religioso, pois é algo que fica além da razão. Mas, para ele, sem Deus. Talvez no judaísmo, raiz de toda religião do Ocidente, Bergman veja a união, rompida, de arte e fé, de tradição e medo, de repressão e criação. Talvez... Bergman foi um grande artista, e por isso, muita coisa que ele criou nem ele mesmo pode entender. Aconteceu e ele registrou.

BELA BARTOK

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PROKOFIEV

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CONCERTOS PARA PIANO DE BARTOK E DE PROKOFIEV

Bartok e Prokofiev nasceram e morreram quase na mesma época. Saíram de sueus países e viveram nos USA, mas nunca se encontraram. Não consigo decidir de qual dos dois eu mais gosto. Bartok tem a exuberância de sua terra, a Hungria. Ele é eslavo, ele é cigano, ele é folclórico e ao mesmo tempo é pura inteligência. Seu concerto para piano número três soturno e é violento, é festivo e é profundamente misterioso. Ele usa a orquestra como numa sinfonia e o piano é integrado ao som de cordas, metais e muita percussão. O centro não é o pianista, é a obra construída. Uma obra prima. -------------------- Prokofiev é russo até os ossos. E como russo ele não esconde nada, a música nasce como parto explosivo. Exuberante, ele usa tudo o que pode para criar vida. Prokofiev é sempre belo, mas nunca é uma beleza óbvia, ela é estridente, efusiva, vasta e cheia de defeitos bem vindos. Um gigante da música, Prokofiev é um prazer que nunca decepciona. ----------------- Georg Solti, húngaro como Bartok, rege a Filarmônica de Londres na versão do CD que consegui ( por dois dólares ). Já Prokofiev é regido pelo famoso André Previn. O pianista em ambas as obras é Vladimir Ashkenazy e não há pianista maior que ele. Nunca lento demais, jamais histérico, Ashkenazy tem volume e tempo certos. --------------- Leio que as pessoas estão voltando a comprar CDs e que os preços começam a subir. O que as motiva é querer poder ouvir aquilo que desejam onde e quando quiserem e também o fato de certas obras serem muito dificeis de se achar na net. Eu penso que o motivo principal é uma mistura de esnobismo e desejo de posse. Eu quero TER um Bartok e eu tenho vários Prokofiev, voce não. O fato desse renascimento do CD começar pelo público dos eruditos não é casual. Nós somos todos esnobes sim.

RELIGIÃO SEM DEUS - RONALD DWORKIN

Dworkin foi um famoso juiz de direito americano. Este livro, lançado em 2013, pouco antes de sua morte, tem uma imensa ambição, mostrar que ateus, que não acreditam em Deus, podem ser, e a maioria é, religioso. Para conseguir demonstrar isso, Dworkin vai de Leibniz à teoria quântica, de Einstein à Russel, da Constituição americana aos mais extremos pensamentos da física atual. Dworkin não fala por falar, ele conhece ciência, filosofia e direito, história e religião. Neste livro ele não advoga nada, embora não se furte de demonstar a tolice de certas ideia bíblicas. Por outro lado ele exibe para nossos olhos o modo como a ciência se torna uma questão de fé e como a religião tem seu fundo científico. Como assim? -------------------- Ciência é indagar sobre os porques das coisas, é tentar explicar a realidade. A religião se torna ciência quando tenta explicar o que é a vida, de onde veio e qual seu sentido. Não importa se as respostas são falhas, a pergunta foi feita. Do mesmo modo, a ciência se torna fé quando deixa de perguntar e apenas encerra a questão. Ao se recusar a propor perguntas como " O que havia antes do Big Bang?", ou " O que há além do infinito?", a ciência se faz simples questão de fé. ----------------------- A atitude religiosa é aquela que vê sentido na vida e que se maravilha com o Cosmos e a natureza. Isso é básico em toda religião, mas existem ateus que têm certeza de que a vida tem um porque e se maravilham com o universo. São ateus porque não acreditam em um Deus que tenha criado a vida, mas sua atitude é a do religioso, sentem a sagrada verdade do mundo. Sem Deus, mas com beleza, sentido, verdade. O ateu sem religião fala que o universo é um acidente, a vida não faz sentido e a beleza é ilusória. ------------------ Um interessante livro de um homem interessante.

PEDAÇO DE PLÁSTICO

Eu vi um homem descendo a Serra com um pedaço de plástico na frente do rosto. Assim como um outro de frente ao mar com um outro pedaço de plástico na frente dos olhos. Diante de um show, onde coisas aconteciam no palco, uma mulher manteve a cara detrás do plástico todo o tempo. E vi um casal, à mesa, olhando cada um para seu plástico enquanto não observava mais nada. O poder, esse adora o pedaço de plástico, porque logo notaram que as pessoas não iriam querer mais nada. Nem livros, nem carro, nem casa, nem posse nenhuma, apenas um pedaço de plástico na frente da cara para dar a sensação de se ter tudo. ---------------- Não, voce nunca esteve na Koreia e não é modelo, pois jamais posou para nada a não ser para o pedaço de plástico. Voce não é um escritor pois escreve apenas no plástico, ninguém te paga, não te criticam, não pensam naquilo que voce escreve. Quando voce morrer voce deixará de ser. Não, fora do plástico voce é apenas um homem vestido de mulher, são seus amigos do plástico que te chamam de ELA, mas na vida biológica voce é o que nasceu. Voce jamais deu um tiro, por mais que esteja em guerras virtuais, é apenas um pedaço de plástico, e voce não é um jogador de poker, pois nunca pisou em um cassino. É só o plástico onde voce olha. -------------------- Suas emoções nascem e morrem nesse plástico, nessa tela, nesse pedacinho de nada. Olhe pra fora dele e veja que voce não tem nada, não fez nada, não vê nada. É só lixo plástico, não é mais nada.

MOZART, MASS IN C MINOR - FILARMÔNICA DE BERLIN, CLAUDIO ABBADO

Um amigo me diz que esta obra de Mozart, para ele a maior Missa da história, não combina com a regência de Abbado. Diz ele que falta punch, pegada nas partes do coro. Eu discordo. Não consigo imaginar nada melhor. ---------------------- Para quem não é íntimo da coisa, Missa é um tipo de obra que acompanha o sacramento da missa, ponto a ponto. Do século XVII ao XVIII foi uma forma muito usada, a partir do século XIX menos e no XX se tornou rara, embora existam obras maravilhosas feitas nos últimos cem anos. --------------------- A música surge poderosa, majestosa, celestial e se despeja de uma vez só sobre nosso corpo atingindo a alma e o espírito de imediato. Como é obra de Mozart, ela nos seduz como arte e não como religião. Faltava à Mozart a fé indiscutível de Bach. Mas o efeito musical é o mesmo, beleza ao extremo. As vozes são mais que belas, são atemporais. Me faz pensar em como a voz humana pode ser o maior e melhor dos instrumentos. A cada vez que a voz surge nos sentimos enlevados. ------------------- Mozart é o maior enigma da história musical. Ele talvez não seja o mais genial ou o mais criativo, mas ele é aquele que parece mais bem dotado. Sua música, mesmo a sacra, parece vir sem esforço, sem luta, sem preocupação. Esta obra-prima é um presente para todos nós. O que podemos fazer? Ouvir e agradecer. É tudo.

MOZART, ABBADO, MISSA EM C MENOR

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OTTORINO RESPIGHI - PINI DI ROMA, FONTANE DI ROMA, FESTE DI ROMA, NBC SYMPHONY ORCHESTRA, ARTURO TOSCANINI

É impossível dizer qual o melhor maestro da história, Furtwangler, Bruno Walter, Solti, Karajan, Abbado, Munch, Kleiber...a lista é sem fim, mas Toscanini foi o mais poderoso e o mais famoso. Italiano, ele começa sua carreira quando nasce o século XX e nos anos de 1940-50 ele ajuda a popularizar a música erudita nos EUA, fazendo transmissões ao vivo pelo rádio e depois pela TV via NBC. Era uma figura POP que vivia no mundo da mais alta cultura. Tenho aqui um CD com esta obra prima do italiano Respighi, numa gravação de 1953 com som muito bom. ----------------- Toscanini sempre rege com brio, e esse seu estilo se casa muito bem com a música que temos aqui. Se eu fosse definir a obra de Respighi eu diria a palavra VITAL. Maravilhosamente viva, é música que é água, é terra, é fogo e é gente. Os metais brilham como fossem incandescentes, mas são as cordas que trazem a sensação de magia voadora à esta obra prima. A música surge como aparição mágica e envolve nossa alma levando-a ao além do Cosmos. Giramos com ela e nos sentimos entontecidos. E perdidos, deliciosamente perdidos. --------------- Esta obra, 70 anos atrás, era extremamente popular e eu não sei se ainda a conhecem. A música, quando grande, é mais que magia ou mistério, é cura espiritual. Esta é uma das poções.

ARTURO TOSCANINI - RESPIGHI

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O CENTAURO - ALGERNON BLACKWOOD

Já aviso que é um livro muito ruim. Blackwood, que foi figura tão famosa na midia inglesa que foi convidado para a primeira transmissão da BBC TV, em 1936, teve uma vida muito interessante, tendo viajado muito, se envolvido em negócios que não deram certo, publicado bastante, participado do movimento exotérico que foi moda na Europa da virada do século. Seu trabalho, mesmo o de ficção é todo de divulgação de sua filosofia. O Centauro é um romance e é muito mal escrito. Ou talvez mal traduzido. De forma pretensiosa e enfadonha, somos obrigados a participar da viagem de um homem estranho, acompanhado por um amigo esquisito e que conhece no navio um russo muito soturno. Tudo isso, em conversas sem fim, para advogar a ideia de que a Terra é um organismo vivo que possui consciência e inde nós somos pequenas fagulhas da consciência universal. Se o assunto parece interessante, informo que tudo tem ar de pesadelo e tédio. Uma enorme decepção.

A PORNOGRAFIA

Não há nada mais chato que a pornografia. Meu limite é 10 minutos. Logo me cansa e entedia aquela repetição de atos, corpos e rostos sempre iguais. Se voce deseja excitação, irá se iludir com o cardápio pornô que promete variedade mas que na verdade é sempre mais do mesmo. Nada é menos erótico que a falta de criatividade. Nada menso excitante que a ausência de surpresa. Por isso procuro, e não acho, algo que traga narrativa, história, surpresa, o suspense do sexo. Mas não é isso que o consumidor de pornografia típico quer. Ele deseja mais do mesmo. --------------- Então é daí que nasce o vício. O viciado em pornografia, como o viciado em alcool ou jogo, finge desejar a quebra da rotina da vida, mas na verdade ele procura o anestesiamento, a completa ausência do inesperado, do novo. Há na pornografia a repetição infindável da rotina, e assim, penso, a mente e o desejo do adicto se livram do pavor do risco e do inesperado. Esse pavor é tão grande que não admite risco-surpresa-quebra do óbvio, mesmo no universo virtual. A pornografia conforta aquele que quer mais do mesmo.

SE FOI A CASA DAS ROSAS

Derrubaram a casa cor de rosa da esquina. Ela tinha uma linda janelas com losangos de ferro e um jardim bem cuidado, cheio de rosas brancas e vermelhas. Havia uma cadeira onde uma senhora tomava sol e as janelas estavam sempre abertas para deixar o sol entrar. Passei lá ontem e vi no lugar um terreno vazio. A terra lisa, sem um só capim e os tijolos retirados e levados embora. O silêncio agora tomou conta daquela esquina. --------------- Antes: Passei em frente aquela mesma casa e eu andava pelas ruas com uma canção na cabeça. Eu a cantava baixo, entre os dentes. Uma menina saía da casa acenando para a mãe. No outro lado da rua, em frente, um homem lavava seu carro, água de mangueira. Era setembro. Três mulheres vinham trazendo o pão nas mãos e uma delas mancava. Dois meninos se deixavam levar pelas bicicletas. Mais adiante a grama era cortada e um caminhão estava quebrado. Pela porta da sala se podia ver a mesa posta para o café da tarde e em outra porta se via a televisão ligada. Um cachorro pulava o portão voltando de alguma fuga. A menina que eu conhecia vinha pela calçada com os livros contra o peito. Ali um garoto gritava o nome Walter. Lá a mãe, de quem?, chamava o moleque para apanhar de cinto. Na rua de baixo estavam jogando taco, ouvia os gritos. A velha japonesa andava devagar com a sombrinha aberta. Eu parava pra ver o sapateiro martelar a sola de uma bota. Esses bairros tinham um tesouro, suas crianças, e por isso todos cuidavam delas. O filho da Fernanda, o filho do Mario, a filha da Clélia. Todo lugar era estar em casa, toda casa era o lugar certo para estar. Quando o calor apertava havia o porão de casa ou a beira do córrego. Sempre havia água por perto, lagoa, bica, poço. Dentro de casa era chato. ------------------- Mas agora a esquina está vazia e o que farão lá não vai ter água e nem porão. Nem rosas e muito menos velhas com pão. O bairro não terá tesouro algum. E quando derrubarem, no futuro, o que lá agora irão fazer, ninguém haverá de lamentar.

SE VOCE NÃO SUPORTA ASTROLOGIA NÃO LEIA ISTO

Não há como um planeta, por exemplo Vênus, influenciar a vida aqui nesta Terra. Eu jamais cheguei perto de crer nisso. Porém há algo de simbólico na astrologia que me diverte ( divertir é a palavra exata e nela nada há de irônico ). Por uma estranha coincidência, ou sabedoria antiga, existem pessoas que são taurinas ou cancerianas, que apresentam o perfil como o do dito signo. Jamais penso que isso se deve ao fato de fazeram aniversário dia 12 ou dia 31, o que imagino é que ocorra aí alguma espécie de intuição ou coincidência que não tenho como entender ou provar. Me envergonho de gastar tempo pensando nesse assunto? Não. Na pior da hipóteses se trata de um brinquedo, na melhor é uma intuição arcaica. ----------------- Na astrologia, talvez a mais interessante das coisas, é que eles dividem os ciclos da história em períodos de 2 mil anos e esses ciclos caminham no sentido inverso ao astrológico. Cada 2 mil anos um signo começa a reger a história humana e esse relógio caminha em sentido inverso. Então desde o ano zero de nossa era, o nascimento de Cristo, estivemos sob a regência de peixes, e agora começamos o caminho de aquário, que durará 2 mil anos. É interessante observar isso. Antes de Cristo vivemos dois mil anos sob o signo de aries e isso faria da vida na Terra algo radicalmente diferente do que conhecemos. História, religião, arte, política, tudo teria sido tingido pelas cores de Marte, ou seja, militarismo e guerra. Os maiores nomes seriam os de guerreiros, as relações humanas se dariam por valores como dever, honra e coragem e tanto o mundo do espírito como o da carne teriam a prevalência da agressividade egoísta de aries. Coincide? Parece que sim e eu não sei o porque. ------------------ Já sob peixes teria havido uma virada. O militarismo deixa de ser o centro da vida ( continua a haver, lógico, mas de outro modo ), a religião passa a ser o assunto central do planeta. Teríamos vivido dois mil anos de auto sacrifício, de humildade, de culto da passividade, de humanismo espiritualizante. Em peixes se encontra criatividade e fé, mas também preguiça e medo. Teria sido a mais frágil das eras. Será? --------------------- Agora estaríamos adentrando um mundo absolutamente diferente de peixes, radicalmente oposto ao que vivemos até aqui. E talvez venha daí nosso mal estar. Religião, arte, amor, guerra continuarão a existir como sempre existiram, mas tudo isso terá um caráter aquariano e como seria esse caráter? Inumano. O amor aquariano é um amor ao geral e uma completa frieza ao indivíduo. Aquário ama conceitos, a humanidade e não o homem como ser separado do todo. A religião seria científica, assim como a arte teria de possuir uma função social. Entenda, nada do que entendemos como arte seria "a arte" desta nova era. A arte de peixes é a arte da alma, do espírito, e agora a arte seria do bem comum, de todos. Se algo no que falo faz voce pensar em ditadura voce acertou. Para aquario ditadura ou democracia não faz sentido, o que importa é o funcionamento do organismo social como ser vivo. Não importa a liberdade ou mesmo a felicidade, o que interessa é o conceito de progresso. Progresso como vitória sobre as necessidades e carências biológicas. Aquário criará o pós humano, o homem que não mais é escravo da biologia. -------------- Será? Parece que sim e não deixa de ser bela coincidência observar que aquário casa com isso.