SOBRE UM FILME MUITO RUIM, NINGUÉM SEGURA ESSAS MULHERES, E PORQUE ELE HOJE TEM UM VALOR IMENSO

Esse filme, que postei abaixo, era impossível de ser achado, mas foi disponibilizado no youtube. Até quando? Não é uma pornochanchada, ele é um dos muitos filmes em episódios que se fazia então, cópias do cinema que a Italia fazia desde os anos 50. Filmes que tinham um pouco de humor, drama e uma pitada de sexo. Produzido por Silvio Santos, em 1976, o cinema era então um bom negócio no Brasil, mesmo sem ajuda financeira estatal, a Embrafilme fazia apenas filmes dificeis, é um filme bem ruim. Mas que agora, passados 50 anos, meio século!, se tornou um documentário sobre um mundo que não existe mais. Há a curiosidade de se ver Tony Ramos em papel de malandro sexy, ou Miele fazendo Miele. O elenco é todo de famosos de então, inclusive com a mãe de Luciana Gimenez, Vera. Mas as histórias são bobas, óbvias, sem porque. O que vale, hoje, é o que não se dava valor então. ----------------- Eu, em 1976, ano do filme, tinha 14 anos, então é humanamente compreensível, haver saudade de um tempo em que eu era tão jovem. Mas não pense que eu era feliz. Passei toda a adolescência sofrendo com uma timidez mortal e uma neurose que me fazia sentir e pensar como fosse um velho. Memórias de minha adolescência são cinzentas e sempre invernais. Mas... não há conhecimento nenhum, entre jovens, do que foi o Brasil de 1976. Ao contrário da Europa ou dos EUA, onde há uma imensa profusão de filmes, séries, clips, discos do período, aqui há quase nada sobre a época, e quando há é sempre uma visão que coloca a ditadura como centro da vida. O Brasil era imenso, bem maior que hoje, e a vida era muito vasta. Jovens irão estranhar tudo neste filme. ---------------- Havia praia livre e gente sorria nas calçadas. Se andava mais devagar e se falava com menos ansiedade. Não tinha tanque do exército nas ruas e nem polícia ostensiva. Sim, se podia fazer festas e não havia toque de recolher. Gente reconhecidamente de esquerda, Caetano, Gil, Dias Gomes, Saldanha, Jorge Amado, ia à praia sem o menor constrangimento. Não eram xingados ou vaiados pelos conservadores. Apesar da repressão contra a guerrilha, o brasileiro ainda ostentava o rótulo de cordial. Sabíamos que havia uma luta entre militares de direita e guerrilheiros de esquerda. Onde? Sei lá. Em 1976 a guerrilha já havia sido sufocada e o regime relaxava. Por pressão de Jimmy Carter, os generais começariam a deixar os líderes radicais, aqueles que pegaram em armas, voltar. Brizola pedira por uma guerra civil, Gabeira sequestrara um embaixador. Dilma participara do fuzilamento de um soldado. Todos seriam zerados. Limpos. E indenizados. -------------- Esse era o Brasil que vemos nesse filme, por detrás das histórias bobas. Parecia que ainda poderia dar certo. Coreanos do sul ainda vinham para cá, em fuga da miséria se seu país. De Taiwan também. Quem imaginaria que em mais 20 anos eles nos passariam? ------------------ Basta olhar o filme e ver o Rio ainda com chances de ser aquilo que nasceu para ser, aquilo que Dom João plantou quando veio para cá: civilizado. Gentil. Da paz. -------------- Experimente pegar um filme de 1985, por exemplo, um filme bobo como este. Popular. E note como tudo mudou em apenas 9 anos. O humor parece mais agressivo. As pessoas mais ansiosas. O Rio já tem algo de incivilizado, de perda de rumo, de descontrole. Não há mais a figura do gozador, agora é o aproveitador. Saudade? Não é uma questão de saudade. O Brasil de então estava muito longe de ser uma maravilha. Hospítais eram tão ruins como sempre. Os transportes eram pavorosos. Mas tinhamos algo que se perdeu para sempre, esperança. Sabíamos que íamos dar certo. Era inevitável. Não tinha como dar errado. Em 1990 seríamos primeiro mundo. Para isso não acontecer, algo de muito errado teria de ser feito. O Brasil teria de fazer muita força para dar errado. ------------------- Fez. Ele fez. PS: O gozador, marca maior do brasileiro de então, é um ser que não leva nada a sério. Irresponsável, leva tudo na brincadeira. Seu objetivo único é se divertir. Rir. E conquistar mulheres. Ele espalha confusão. O aproveitador, que toma poder nos anos 80, é um faminto por dinheiro. Usa tudo que pode para se dar bem. Tudo nele é uma questão de status. Ele quer parecer rico, parecer poderoso, parecer ter muitas mulheres. Se vê como líder inatacável. Blindado. É um destruidor.