PRA QUE SERVE A ARTE?
A arte faz a vida valer a pena. Eis tudo. A arte, mesmo quando fala da morte, da dor ou do tédio, faz a vida valer a pena ser vivida. Isso porque o artista se interessa pela morte, pela dor ou pelo tédio, e faz assim com que mesmo isso pareça ter um sentido. Nem que seja o não sentido. Observe bem o que eu disse: o artista se interessa. Essa a diferença da arte verdadeira do engodo artístico. O artista se interessa, se enamora, se atraca com seu tema. Ele o conhece, tanto quanto um apaixonado, ele o investiga, penetra, dorme e sonha com seu tema. Não há nada de blasé aqui. Como na paixão, ele "acontece", não escolhe. Ele é levado, não vai. E assim faz com que algumas pessoas, seu público, sintam que aquilo é interessante, talvez apaixonante, e a vida se revela na obra. ----------------- Quantas pessoas Matisse não guiou para o interesse? Fazendo-as simplesmente olhar e ver a vida. Apaixonar-se pela cor. Janelas, folhas, mulheres, cadeiras, cortinas, peixes, pássaros, tudo lá, mostrados para nossos olhos e assim nos ensinando a ver e ao ver nos fazendo olhar. E ver. Não via símbolo, Matisse não era simbolista, mas sim vendo o que há para se ver, a verdade da presença das coisas. Há muito para ver, duas cadeiras é muito para ver, um peixe no aquário é o bastante. Engolir com os olhos. ------------- Leio o livro da esposa de Picasso, Françoise Gilot, MATISSE E PICASSO, ela recorda os anos que esteve casada com o espanhol feroz e foi amiga do pintor francês discreto. Ela própria foi pintora e viveu até os anos de 1990. O livro, inspirador, nos dá desejos de viver e de fazer coisas. De criar. Como Gauguin, Matisse sabia que havia um paraíso dentro de si, mas ao contrário de Gauguin, ele não discursava em sua obra, ele mostrava a realidade da cor e dos volumes. Quem olhasse que sentisse a presença da vida. ----------------- Quando Gilot conheceu Matisse ele já era um velho que convaslecia de um câncer. Henri ainda viveu 20 anos pós doença, mas era uma vida dentro de casa, com muitas visitas, muito trabalho, e ocasionais viagens em busca do sol. Picasso o admirava intensamente e ao mesmo tempo sentia ciúmes. Picasso era intenso e inseguro, possessivo e expansivo, amedrontador e vulnerável. Não era fácil. Ele procurava briga e Matisse prezava a paz. ------------------ A partir de um certo momento, talvez os anos de 1920, a arte passou a se orgulhar de ser chamada de " perturbadora". Quando alguém, como eu, ousa falar na utilidade da arte, parece que o artista atual se incomoda. Como se utilitarismo fosse um valor burguês. Eles não aceitam que mesmo uma arte que ofende ou perturba tem a utilidade de nos acordar. Ou irritar. Ao odiar uma arte pornográfica eu passo a valorizar a arte refinada e isso é útil. Mas entenda que essa arte "violenta" ou pornô só será real se for feita por "interesse profundo" e não por outro motivo qualquer. Arte feita por convenção ou para vender uma ideia ou um valor é facilmente esquecida. Como um casaco, nos encanta ao ser visto na vitrine, nos alegra ao ser comprado, e logo desaparece dentro do guarda roupa. ------------------ Quando eu tinha 30 anos de idade e descobri Matisse, ele me trouxe uma vitalidade que eu necessitava muito então. Ele me despertou para a alegria do sol, das cores fortes e do poder do olho. Não foi pouca coisa.