MILES DAVIS - DOO-BOP

Mais que o beat, aquilo que define o jazz é o diálogo entre os músicos. Eles tocam e conversam, ou brigam, ou fazem amor. Pois bem, aqui não há diálogo nenhum. Sobre uma base eletrônica fixa, Miles sola. A impressão não é a de um diálogo, é de um discurso. Mas o que digo é: So what? ------------------------ É preciso ser mais humilde. Miles Davis sempre falou que nunca olharia para trás. Mercurial até a alma, ele não queria saber de nada que lembrasse seus tempos de cool jazz, bop ou mesmo as improvisações livres funk dos anos de 1970. Em 1991, ao lado do rapper Easy Mo Bee, Miles queria fazer dançar. ---------------- O disco é assustadormante bom. Demorou para eu o escutar porque todos diziam ser bem ruim. Gravado pouco antes da morte de Miles, foi lançado quando ele já havia se ido. Easy Mo Bee pouco aparece como rapper, o que há são bases, funcionais, de funk, para os solos, bons, de Miles. Em 1991 eu teria adorado esse disco. Combinava com aquilo que eu ouvia então: C and C Music Factory, Snap!, Soul II Soul, Neneh Cherry. Ouvindo isso em 2026 ele não faz feio. É boa música Pop. Nada lembra o Miles elétrico de 1975. ----------------- Miles Davis morreu em 1991 com 65 anos de idade. As pessoas gostam de imaginar o que ele teria feito se tivesse vivido mais 10 anos. O certo é que ele não teria tentado fazer nada que fez nos anos 80 ou 70 ou 60 ou 50. Então esqueçam o disco acústico, o disco com Prince ou um disco com Santana. Eu acho que ele seguiria uma estrada parecida com aquela de Jeff Beck. Discos de house, jungle, drum and bass. Mas não aconteceu. Pena.