MÚSICA QUE CONVERSA
Simon Phillips é um desses bateristas que já tocou com todo mundo. Em casa tenho um vinil em que ele toca, aos 18 anos, com Eno e Manzanera e outro com Jeff Beck. Num post recente ele diz que acha estranho o fato de que a maioria das bandas atuais tocar sem olhar um para o outro. Não há comunicação no palco entre os membros da coisa. Desse modo, a música não flui inesperada, ela não acontece naquele momento exato, ela se faz como foi ensaiado. A vida não acontece, ela está pronta. -------------- Ele recorda de ter visto um show de Chick Corea quando adolescente e do modo como Corea jamais olhava para seu piano. Colocado em um ponto do palco onde ele podia ver e ser visto, seus olhos observavam e falavam com os músicos que lá estavam. O show, completamente livre, comunicava energia entre os músicos e esparramava luz para a plateia. ---------------- Simon vai logo no ponto mais extremo, jazz não existe sem comunicação entre músicos. Mas sim, o rock tinha uma expontânea comunicação entre músicos que é rara nos dias de hoje. Cada músico é um indivíduo e isso é reflexo do fato de que vivemos em bolhas interligadas. Estamos juntos em nossa bolha, todos em um grupo que faz a mesma coisa, mas ao mesmo tempo, voltados para uma tela que nos isola do aqui e do agora. É exatamente a postura de um músico de 25 anos numa banda comum. ------------------- Uma banda é reflexo do momento em que ela nasce. Assim, Beatles era um grupo de amigos sorridentes festejando a vida porque essa era a atitude dos baby boomers nascidos na segunda guerra. Se o Led Zeppelin eram hedonistas arrogantes se exibindo em um palco, isso era reflexo da revolução do EU e do mundo de fartura e sexo de então. Sex Pistols era uma juventude entediada sem sonhos e quando nos anos 80 surge o tecnopop, aí começa um individualismo blasé. Até a revolução punk se observa a total interação no palco. Os músicos se olham, se tocam, falam um com o outro. A partir de 1980 começam a nascer grupos onde os músicos parecem sozinhos no palco. Ignoram o público e ignoram-se. Era uma atitude estética, uma busca pelo cool, hoje é uma verdade existencial, um isolamento real. Cada um toca sua parte e por favor não me atrapalhe. -------------- Músicos que possuem alguma influência de jazz ou punk ainda interagem e muito, afinal, eles querem parecer Sly Stone ou Iggy Pop. Mas é cada vez menos natural. ----------------- Eu, quando vejo um show, fico fascinado, quando noto um guitarrista solando e ao mesmo tempo mandando dicas para o baixista, sobre o lugar onde o solo irá aportar. Música, música que vale à pena, é uma conversa. Se os músicos se calam ela não tem porque.