leia e escreva já!
KISS ME KATE!, COLE PORTER
Natal é tempo de agradecer. E de presentes também, como não? E todo ano aproveito esse tempo para agradecer a existência de gente como Cole Porter e dou presentes a mim mesmo vendo musicais.
Essa tradição começou em 1991, quando, meio high, assisti na TV, de madrugada, dia 25, a Alta Sociedade. O filme, very classy, tem trilha de Cole ( além das presenças luminosas de Frank, Bing, Grace e Louis ). Natal feliz casa desde então com musical chique. But...agora lembro que já no muito alegre natal de 1980 eu assistia West Side Story na TV! Well...Eu não creio em Papai Noel, eu acredito em Fred Astaire.
Kiss Me Kate foi o show da Broadway que tirou Cole de 10 anos de azar. Num resumo, Cole nasceu milionário, começou a fazer música em Yale, ficou famoso jovem, e passou a viver a fama e o glamour da Riviera. Passava férias com Picasso etc. Tudo muda quando ele sofre um acidente de equitação e tem as duas pernas esmagadas. Daí pra frente são dúzias de cirurgias e dor constante. Ainda vive mais vinte anos assim. Seus shows começam a fazer água, mas em 1953, Kiss Me Kate, baseado em A Megera Domada, de Shakespeare, estoura. Cole renasce. Irá morrer em 1964. Morrer em carne, suas canções, sofisticadíssimas, são pra sempre. Mesmo o mais besta dos ouvintes as conhece. ( Um adendo, em 66 muita gente dizia que Paul MacCartney era um novo Cole...não foi. Paul é um gênio, mas não cresceu para o lado urbano chique de Cole, ficou sempre sendo um filho de Liverpool ).
Então ontem começo a me dar presentes revendo este filme, de George Sidney, que leva fielmente o show para as telas. Em 3 D! Todas as músicas da Broadway foram mantidas, e Howard Keel faz Petruchio com maestria. Uma presença viril, irônica, magnética. Kathryn Grayson, linda, faz Catherine, uma fonte de ira. Adorável. Mas há mais! Números de dança estupendos, em vários estilos, com coreografia de Hermes Pan. Tommy Rall dá um show em ballet moderno e vemos a milagrosa e muito moderna estréia de Bob Fosse, ele faz um dos pretendentes de Bianca. Na tela vemos, já perto do fim do filme, o nascimento do estilo Fosse, o estilo que dá prioridade as mãos e ao chão. Corpo jogado no solo, dedos estalando, Bob Fosse, dançando com Carol Haney, estraçalha!
O filme não é só ele. É uma diversão deslumbrante. Tudo funciona e quando ele termina voce se pega cantando as canções, geniais, de Cole. O modo como ele faz rimas ainda não foi igualado. Kiss Me Kate é um grande e inesquecível presente.
Essa tradição começou em 1991, quando, meio high, assisti na TV, de madrugada, dia 25, a Alta Sociedade. O filme, very classy, tem trilha de Cole ( além das presenças luminosas de Frank, Bing, Grace e Louis ). Natal feliz casa desde então com musical chique. But...agora lembro que já no muito alegre natal de 1980 eu assistia West Side Story na TV! Well...Eu não creio em Papai Noel, eu acredito em Fred Astaire.
Kiss Me Kate foi o show da Broadway que tirou Cole de 10 anos de azar. Num resumo, Cole nasceu milionário, começou a fazer música em Yale, ficou famoso jovem, e passou a viver a fama e o glamour da Riviera. Passava férias com Picasso etc. Tudo muda quando ele sofre um acidente de equitação e tem as duas pernas esmagadas. Daí pra frente são dúzias de cirurgias e dor constante. Ainda vive mais vinte anos assim. Seus shows começam a fazer água, mas em 1953, Kiss Me Kate, baseado em A Megera Domada, de Shakespeare, estoura. Cole renasce. Irá morrer em 1964. Morrer em carne, suas canções, sofisticadíssimas, são pra sempre. Mesmo o mais besta dos ouvintes as conhece. ( Um adendo, em 66 muita gente dizia que Paul MacCartney era um novo Cole...não foi. Paul é um gênio, mas não cresceu para o lado urbano chique de Cole, ficou sempre sendo um filho de Liverpool ).
Então ontem começo a me dar presentes revendo este filme, de George Sidney, que leva fielmente o show para as telas. Em 3 D! Todas as músicas da Broadway foram mantidas, e Howard Keel faz Petruchio com maestria. Uma presença viril, irônica, magnética. Kathryn Grayson, linda, faz Catherine, uma fonte de ira. Adorável. Mas há mais! Números de dança estupendos, em vários estilos, com coreografia de Hermes Pan. Tommy Rall dá um show em ballet moderno e vemos a milagrosa e muito moderna estréia de Bob Fosse, ele faz um dos pretendentes de Bianca. Na tela vemos, já perto do fim do filme, o nascimento do estilo Fosse, o estilo que dá prioridade as mãos e ao chão. Corpo jogado no solo, dedos estalando, Bob Fosse, dançando com Carol Haney, estraçalha!
O filme não é só ele. É uma diversão deslumbrante. Tudo funciona e quando ele termina voce se pega cantando as canções, geniais, de Cole. O modo como ele faz rimas ainda não foi igualado. Kiss Me Kate é um grande e inesquecível presente.
SAGA DOS VOLSUNGOS- SAGAS ISLANDESAS.
Feira de Livros da USP. Não ia desde 1999. Melhorou muito e valeu muito a pena! Rocco e Companhia das Letras não foram. Mas eu comprei 12 livros! Nos meus cálculos, em preços da Cultura, teria gasto mais de mil e quinhentos reais. Na Feira gastei 400. Comprei livros de luxo. Um com fotos de SP no século XIX. A bio de Matisse. Um livro com fotos de Doisneau. O livro escrito por Capa, com imagens raras. O recém lançado livro sobre o glitter rock. A bio de Bergman com intro de Woody Allen. A bio de Pete Townshend. E mais Chaucer, Marlowe, um livro catalão Tirant Lo Blanc, um álbum de Snoopy, Guerra e Paz em capa dura, um sobre decoração, e ainda este livro, sobre sagas medievais da Islândia.
Porque Islândia? Na introdução de Théo de Borba Moosburger, fico sabendo que a Islândia ocupa um lugar privilegiado na história do romance europeu. Primeiro, foi o país que antes de qualquer outro escreveu em língua própria e não em latim; e segundo, escreveu em prosa e não em verso. Tolkien adorava essas sagas e muito de sua obra vem daqui. Do que trata? Da fundação da ilha islandesa, de seus primeiros reis e heróis. Um mundo que nos é quase incompreensível.
A primeira coisa que salta aos olhos: A ausência de clemência ou de piedade. Matar é coisa absolutamente corriqueira. Mata-se por que se gosta de matar, pois para se poder ir para o céu dos vikings era preciso morrer em luta. Morrer de doença ou velhice era ir para o reino de Hel, o inferno, morrer lutando era ir para Asgard, onde se podia lutar mais. Pois a vida era isso, uma briga sem fim. Sangue e vísceras. Um homem vivia pela espada, por sua familia e por seu rei.
Não posso nem discutir sobre sua coragem. Em barcos pequenos eles chegaram a Groenlandia e até a América!!! Eles eram mais que corajosos, não tinham noção alguma de preservação da vida. Tinham muitos medos, mas ao contrário de nós, seus medos não se ligavam a morte ou a dor. O maior medo era a desonra, ter o nome sujo, ser um fraco. Dor fisica e morte eram nada.
Algumas cenas espantam. Além de assassinatos sem culpa ( e não falo de guerra, as mortes eram em simples passeios na floresta ), o reino começa com um filho que é fruto de um casamento entre irmão e irmã. Sem qualquer culpa, a irmã seduz o irmão e têm um filho que será um rei e um herói.
Dragões, bruxas, adivinhações, tudo entra nessa saga como fato normal, conhecido, cotidiano. É um mundo pré-cristão e não-greco-judaico, é o mundo da mais pura raiz européia ( nos esquecemos sempre que Atenas e Judéia, Pérsia e Egito são reinos orientais. A Europa pura é a celta, ou seja, a dos vikings, suevos, francos, saxões, íberos ). Uma sociedade familiar, voltada para a guerra e para a magia.
O estilo da escrita, sem qualquer adaptação, traduzida a crú, é rústica. As coisas são narradas de modo direto. Nada de descrições, nada de ambiente, nada de clima. É ação e mais ação. Briga e mais briga, viagem e mais viagem, mortandade sobre mortandade.
Anti-europeus gostam de falar que a Europa e sua cultura são violentas, a mais violenta do mundo. Não sei. A China nunca foi um mar de rosas e Maias ou Incas estraçalhavam os inimigos sem dó. Talvez a velha cultura judaica, os cartagineses e os hindús tenham sido menos cruéis. Talvez. Mas nos choca muito ver um massacre inutil de crianças e mulheres ser louvado como ato heróico, o que ocorre todo o tempo aqui. Para passar o tempo, o herói vai a uma cidade para "saquear e matar um pouco".
Jung estudava muito essas histórias medievais e via nelas a raiz de sonhos e de sintomas. Se ele estiver certo, chega a ser aterrador a imensa carga de violência que temos em nosso sangue. Porque neste mundo, o grande, o supremo prazer é o de matar. Se assim for, nosso mundo cristão e pós-cristão cometeu uma obra ainda maior do que eu pensava. A substituição da guerra pela convivência e do sangue pela fé. Mas o guerreiro, o doido e sem freio assassino, o irrefletido e puro impulso, o vaidoso e inconsequente está lá, está cá e está em todo canto. Desse duro ponto de vista, um moleque briguento e ladrão está muito mais perto da verdade humana que um dinamarquês hiper-civilizado e do bem. Não a toa o alto indice de suicidio na Suécia, o reino dos vikings tendo se transformado no país da paz e da sociedade justa.
É um livro dificil.
Porque Islândia? Na introdução de Théo de Borba Moosburger, fico sabendo que a Islândia ocupa um lugar privilegiado na história do romance europeu. Primeiro, foi o país que antes de qualquer outro escreveu em língua própria e não em latim; e segundo, escreveu em prosa e não em verso. Tolkien adorava essas sagas e muito de sua obra vem daqui. Do que trata? Da fundação da ilha islandesa, de seus primeiros reis e heróis. Um mundo que nos é quase incompreensível.
A primeira coisa que salta aos olhos: A ausência de clemência ou de piedade. Matar é coisa absolutamente corriqueira. Mata-se por que se gosta de matar, pois para se poder ir para o céu dos vikings era preciso morrer em luta. Morrer de doença ou velhice era ir para o reino de Hel, o inferno, morrer lutando era ir para Asgard, onde se podia lutar mais. Pois a vida era isso, uma briga sem fim. Sangue e vísceras. Um homem vivia pela espada, por sua familia e por seu rei.
Não posso nem discutir sobre sua coragem. Em barcos pequenos eles chegaram a Groenlandia e até a América!!! Eles eram mais que corajosos, não tinham noção alguma de preservação da vida. Tinham muitos medos, mas ao contrário de nós, seus medos não se ligavam a morte ou a dor. O maior medo era a desonra, ter o nome sujo, ser um fraco. Dor fisica e morte eram nada.
Algumas cenas espantam. Além de assassinatos sem culpa ( e não falo de guerra, as mortes eram em simples passeios na floresta ), o reino começa com um filho que é fruto de um casamento entre irmão e irmã. Sem qualquer culpa, a irmã seduz o irmão e têm um filho que será um rei e um herói.
Dragões, bruxas, adivinhações, tudo entra nessa saga como fato normal, conhecido, cotidiano. É um mundo pré-cristão e não-greco-judaico, é o mundo da mais pura raiz européia ( nos esquecemos sempre que Atenas e Judéia, Pérsia e Egito são reinos orientais. A Europa pura é a celta, ou seja, a dos vikings, suevos, francos, saxões, íberos ). Uma sociedade familiar, voltada para a guerra e para a magia.
O estilo da escrita, sem qualquer adaptação, traduzida a crú, é rústica. As coisas são narradas de modo direto. Nada de descrições, nada de ambiente, nada de clima. É ação e mais ação. Briga e mais briga, viagem e mais viagem, mortandade sobre mortandade.
Anti-europeus gostam de falar que a Europa e sua cultura são violentas, a mais violenta do mundo. Não sei. A China nunca foi um mar de rosas e Maias ou Incas estraçalhavam os inimigos sem dó. Talvez a velha cultura judaica, os cartagineses e os hindús tenham sido menos cruéis. Talvez. Mas nos choca muito ver um massacre inutil de crianças e mulheres ser louvado como ato heróico, o que ocorre todo o tempo aqui. Para passar o tempo, o herói vai a uma cidade para "saquear e matar um pouco".
Jung estudava muito essas histórias medievais e via nelas a raiz de sonhos e de sintomas. Se ele estiver certo, chega a ser aterrador a imensa carga de violência que temos em nosso sangue. Porque neste mundo, o grande, o supremo prazer é o de matar. Se assim for, nosso mundo cristão e pós-cristão cometeu uma obra ainda maior do que eu pensava. A substituição da guerra pela convivência e do sangue pela fé. Mas o guerreiro, o doido e sem freio assassino, o irrefletido e puro impulso, o vaidoso e inconsequente está lá, está cá e está em todo canto. Desse duro ponto de vista, um moleque briguento e ladrão está muito mais perto da verdade humana que um dinamarquês hiper-civilizado e do bem. Não a toa o alto indice de suicidio na Suécia, o reino dos vikings tendo se transformado no país da paz e da sociedade justa.
É um livro dificil.
O AMOR EM TEMPOS DE LENTIDÃO
Que engraçado! Ontem numa festa, conversando com uma mulher da minha geração, lembrei de uma coisa que parece medieval...ou da renascença. Nas baladas de 1980, o objetivo era pegar o máximo de telefones possíveis! Ninguém beijava na balada, a não ser gente que voce já conhecia de outro dia. O que se fazia era chegar numa estranha, conversar e a muito custo pegar o telefone ( que muitas vezes era fake ). Daí voce voltava pra casa e no dia seguinte, após ensaiar um discurso que se perdia ao primeiro alô, telefonava para a menina. E então, se a conversa engrenasse, talvez se marcasse um cinema, uma lanchonete, ou um reencontro no mesmo lugar. Era a idade dos talvez. Andávamos no escuro, nunca sabíamos o que ia rolar.
Então, depois de 3 telefonemas, voce a levava ao cinema. De rua. Pagava um drops e entrava. E sentia o medo. Que fazer? Conversar? Ver o filme? Assistia o filme e na saída tentava umas piadas. E andava com ela, a mão, de vez em quando, roçando de leve na mão dela. A acompanhava até em casa e dizia que queria repetir a saída, claro, se ela quisesse...
E ela falava "claro, adorei conhecer voce!"" E então a volta pra casa, a pé, para durar mais, era a coisa mais feliz, mágica, exultante e louca do mundo! É aí que o abismo entre gerações se faz, porque a gente voltava cantando e dançando na rua, e é por isso que caras de menos de 40 nada entendem do que seja um musical, o mais real dos tipos de filme.
O primeiro beijo ainda está na cabeça e no peito. A ansiedade é imensa. Quando vou beijar essa menina? Entenda, um beijo equivalia a um pedido de namoro. Beijar era compromisso. Podia durar uma semana, mas era um tipo de pacto, um estamos juntos, ISTO É UMA HISTÓRIA, que será recordada e contada mais tarde. Éramos loucos por histórias, sem saber, a gente compunha sagas todo o tempo. Éramos anti-práticos.
Voce pode estar nos achando puritanos. Não era isso. Podia-se beijar duzias de meninas em um mês, mas uma história tinha de ser composta. Sair com prostitutas era a saída sem história, sair com meninas era contar um conto.
Cartinhas com desenhos, o papel lindo que as meninas usavam! Com perfume, cheiro de quarto de menina! E afinal o beijo! No meio de uma frase, de sopetão, de loucura, um tipo de "não aguento mais segurar"...Beijo que vinha sempre com um "Voce é linda"e um Ëu te Amo!"...e saiba, todos foram sinceros.
A gente era apaixonado por amor. Falava-se muito nele. Amor, amar, amava, o verbo era o mais usado. Nenhuma vergonha em amar. Um amor novo por mês, trabalhoso, dificil, contido, e sempre era pra sempre.
Sei lá, me parece que a molecada hoje tem paixão por "catar"e um imenso medo de amar. Será?
O tempo traz coisas boas e leva coisas boas. São trocas. E eu realmente não me lembrava de nada disso até ter ontem essa conversa. Em 1980 se faziam rituais para sair e para conhecer alguém. Talvez por nossa vida ser muito mais lenta, com menos coisas sendo oferecidas, menos apelos aos desejos, todo contato e toda aventura"tinha um valor de coisa única. A gente tinha a consciência ( ou seria a ilusão? ) de que tudo era só uma vez e nunca mais.
Ontem de noite tocou a minha música, Born to be Alive, e foi ela que nos fez voltar no tempo.
Eu tinha um diário. E todas elas também.
Isso fazia muita diferença! As coisas eram para sempre. Sempre.
Então, depois de 3 telefonemas, voce a levava ao cinema. De rua. Pagava um drops e entrava. E sentia o medo. Que fazer? Conversar? Ver o filme? Assistia o filme e na saída tentava umas piadas. E andava com ela, a mão, de vez em quando, roçando de leve na mão dela. A acompanhava até em casa e dizia que queria repetir a saída, claro, se ela quisesse...
E ela falava "claro, adorei conhecer voce!"" E então a volta pra casa, a pé, para durar mais, era a coisa mais feliz, mágica, exultante e louca do mundo! É aí que o abismo entre gerações se faz, porque a gente voltava cantando e dançando na rua, e é por isso que caras de menos de 40 nada entendem do que seja um musical, o mais real dos tipos de filme.
O primeiro beijo ainda está na cabeça e no peito. A ansiedade é imensa. Quando vou beijar essa menina? Entenda, um beijo equivalia a um pedido de namoro. Beijar era compromisso. Podia durar uma semana, mas era um tipo de pacto, um estamos juntos, ISTO É UMA HISTÓRIA, que será recordada e contada mais tarde. Éramos loucos por histórias, sem saber, a gente compunha sagas todo o tempo. Éramos anti-práticos.
Voce pode estar nos achando puritanos. Não era isso. Podia-se beijar duzias de meninas em um mês, mas uma história tinha de ser composta. Sair com prostitutas era a saída sem história, sair com meninas era contar um conto.
Cartinhas com desenhos, o papel lindo que as meninas usavam! Com perfume, cheiro de quarto de menina! E afinal o beijo! No meio de uma frase, de sopetão, de loucura, um tipo de "não aguento mais segurar"...Beijo que vinha sempre com um "Voce é linda"e um Ëu te Amo!"...e saiba, todos foram sinceros.
A gente era apaixonado por amor. Falava-se muito nele. Amor, amar, amava, o verbo era o mais usado. Nenhuma vergonha em amar. Um amor novo por mês, trabalhoso, dificil, contido, e sempre era pra sempre.
Sei lá, me parece que a molecada hoje tem paixão por "catar"e um imenso medo de amar. Será?
O tempo traz coisas boas e leva coisas boas. São trocas. E eu realmente não me lembrava de nada disso até ter ontem essa conversa. Em 1980 se faziam rituais para sair e para conhecer alguém. Talvez por nossa vida ser muito mais lenta, com menos coisas sendo oferecidas, menos apelos aos desejos, todo contato e toda aventura"tinha um valor de coisa única. A gente tinha a consciência ( ou seria a ilusão? ) de que tudo era só uma vez e nunca mais.
Ontem de noite tocou a minha música, Born to be Alive, e foi ela que nos fez voltar no tempo.
Eu tinha um diário. E todas elas também.
Isso fazia muita diferença! As coisas eram para sempre. Sempre.
PETER O`TOOLE/ ALFONSO CUARÓN/ SINATRA/ ROBERT RODRIGUEZ/ FELICITY JONES/ OS DOUGLAS
GRAVIDADE de Alfonso Cuarón com Sandra Bullock e George Clooney
Ao contrário do que fez Isabela Boscov, não vou comparar este filme de aventuras com a peça de arte conceitual chamada 2001. O filme de Kubrick está no mesmo saco dos filmes de Malick, são refelxões sobre a vida. No caso, 2001 talvez seja o mais profundo dos filmes. Este belo filme do muito bom Cuarón, está na senda de Star Wars ou de Alien, apuros espaciais. E eu adorei isto aqui. Há alguns anos escrevi que o cinema moderno nada mais era que um retorno ao cinema mudo. Primeiro tivemos a era de imagem e ação, filmes de Keaton, Chaplin, Murnau e Lang. A pureza do visual, as elaborações de cenários, atores que eram acrobatas e mestres em maquiagem. Depois veio a época do falado, a arte dos grandes diálogos, das belas vozes, de Mankiewicz, de Wilder, Bergman e Woody Allen. Gênios continuaram a misturar os dois, o visual e a voz, Fellini, Welles, Kurosawa etc. E hoje o que temos, já desde algum tempo, é a primazia da imagem sobre a voz. Os filmes que não revisitam o passado, que não tentam reviver Altman, Scorsese, Godard ou Peckimpah são visual e movimento a serviço do deslumbramento. Quem quiser entender o cinema de hoje deve procurar, e levar a sério, esse tipo de filme. São eles que contam nosso testemunho sobre este mundo. A verborragia dos anos 50 e 60 está viva apenas nos pseudo-novos cineastas cultores de um passado muito distante. Cuarón sabe disso. Seu filme, de uma simplicidade de A General, mostra uma habilidade com a câmera ( Emmanuel Luzbecki, Oscar certo ), raras vezes igualada. Os rodopios no espaço são um ballet dos mais apurados, belíssimos. A Terra é linda! A luz angelical do Sol banhando todo nosso organismo, tudo o que existe na nossa morada. E há o final, claro. Sandra Bullock na cápsula como um bebê com seu cordão umbilical, o parto, dificil, que é a queda na Terra e a saída da água, um nascer, um estar vivo. Ela anda hesitante, e o que sentimos é a alegria pelo nosso mundo existir. O filme atinge seu alvo, ao final estamos gratos pela vida. Confesso que chorei, um lago e uma árvore nunca me pareceram tão lindas. Esse final, uma simplificação do bebê de 2001, é perfeito. O filme, símbolo nobre daquilo que só o cinema ainda pode ser, é um filme anti-tv, deve e precisa ser visto. Nota DEZ.
MACHETE MATA! de Robert Rodriguez com Danny Trejo, Michelle Rodriguez, Charlie Sheen, Sofia Vergara, Antonio Banderas e Mel Gibson
Uma decepção. O primeiro é uma divertida festa de violência camp e nudez alegre. Este é mais sério e bem menos inspirado. De bom só o presidente feito por Sheen e o vilão, ótimo, de Gibson. Chega a ser bem chato e parece looooongo....Nota 3.
UM NOVO FÔLEGO de Drake Doremus com Guy Pearce e Felicity Jones
Um músico, cello, recebe em intercâmbio uma aluna inglesa ( ele dá aulas ). Óbvio que os dois vão se apaixonar. Óbvio que a familia vai vencer e os separar. E um diretor que se chama Drake Doremus!!! se acha um artista e vai filmar como tal. Ou seja, é um filme lento, triste, frio, mal filmado e silencioso. Há um desejo imenso de ser Bergman, mas o roteiro nada tem a dizer, então fica sendo um Bergman burro. Os atores estão muito bem, Felicity tem uma beleza de gente de verdade.Não passou aqui, mas deve passar lá por março ou abril. Nota 3.
OS 4 HERÓIS DO TEXAS de Robert Aldrich com Sinatra, Dean Martin, Ursula Andress
Aldrich foi um grande diretor de filmes de ação. Mas aqui, a serviço da turma de Sinatra, ele nada pode fazer. Sinatra filmava só para se divertir, e ás vezes ele se esquecia do público. Acontece isso aqui, ficamos vendo Frank e Dean, como dois cowboys, se divertirem com tiros, piadas, muitas mulheres e cavalgadas. Mas nós não nos ligamos em nada! Parece com assistir uma festa pela janela. Nota 1.
AVATAR de James Cameron
Reassisti Avatar. Belo visual, história sem emoção. O filme é gelado como um picolé...de xuxú. Não há nada com que se apegar e a história é a mesma de milhares de westerns pró-indio dos anos 50. Belas imagens a serviço do tédio. Nota 4.
DESBRAVANDO O OESTE de Andrew V. McLaglen com Kirk Douglas, Robert Mitchum, Richard Widmark e Sally Fields
Uma Sally Fields adolescente faz aqui sua estreia em tela grande. Bonita e com rosto de caipira do sul, ela enfrenta um trio de atores muito fortes. Kirk faz um deputado rico, que leva bando de colonos para o Oregon. No caminho, indios, desertos, montanhas e neve. Mitchum faz o guia, um mestiço cool que está ficando cego. Widmark é o explosivo rival de Kirk, um cara do povão. Os cenários são maravilhosos, faz com que a gente pensa nos estragos que tais lugares devem ter causados em europeus de 1800 acostumados aos cenários civilizados de sua terra. Tudo aqui é vasto, sem fim, extremo. O roteiro não dá conta de tanto assunto. Coisas se perdem sem serem desenvolvidas. Dá pro gasto e esses atores são como parentes queridos, é bom os ver na sala de casa. Nota 6.
A ESTALAGEM VERMELHA de Claude Autant-Lara com Fernandel
Fuja. Nota 1.
A JÓIA DO NILO de Lewis Teague com Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny de Vito.
Continuação do ótimo Tudo Por Uma Esmeralda, um dos grandes sucessos dos anos 80. Este é bem pior. Turner é raptada por um árabe e Douglas vai atrás. A dupla é ótima, Douglas nasceu para ser um herói safado e Turner foi a maior estrela do inicio dos anos 80. Mas o roteiro tem aquele que é o pior defeito dos anos 80, é metido a ser mais chique e engraçado do que é na verdade. Nota 4.
WHATS NEW PUSSYCAT?de Clive Donner com Peter O`Toole, Romy Schneider, Peter Sellers
Revi como homenagem ao grande Peter O`Toole. Roteiro de Woody Allen e uma trilha sonora espetacular de Burt Bacharach. Um retrato do que era o tal espirito groovy da época. Peter estava no auge da fama, e o cinema inglês nunca mais teve tantas estrelas ( e bons atores ). Alan Bates, Michael Caine, Sean Connery, Richard Burton, Richard Harris, Oliver Reed, Terence Stamp, Peter Sellers, Tom Courtenay, James Mason, Laurence Olivier, Michael Redgrave, John Hurt, Albert Finney, todos em forma e trabalahndo muito. O Oscar esnobou todos eles. Boa diversão ingênua. Nota 6.
Ao contrário do que fez Isabela Boscov, não vou comparar este filme de aventuras com a peça de arte conceitual chamada 2001. O filme de Kubrick está no mesmo saco dos filmes de Malick, são refelxões sobre a vida. No caso, 2001 talvez seja o mais profundo dos filmes. Este belo filme do muito bom Cuarón, está na senda de Star Wars ou de Alien, apuros espaciais. E eu adorei isto aqui. Há alguns anos escrevi que o cinema moderno nada mais era que um retorno ao cinema mudo. Primeiro tivemos a era de imagem e ação, filmes de Keaton, Chaplin, Murnau e Lang. A pureza do visual, as elaborações de cenários, atores que eram acrobatas e mestres em maquiagem. Depois veio a época do falado, a arte dos grandes diálogos, das belas vozes, de Mankiewicz, de Wilder, Bergman e Woody Allen. Gênios continuaram a misturar os dois, o visual e a voz, Fellini, Welles, Kurosawa etc. E hoje o que temos, já desde algum tempo, é a primazia da imagem sobre a voz. Os filmes que não revisitam o passado, que não tentam reviver Altman, Scorsese, Godard ou Peckimpah são visual e movimento a serviço do deslumbramento. Quem quiser entender o cinema de hoje deve procurar, e levar a sério, esse tipo de filme. São eles que contam nosso testemunho sobre este mundo. A verborragia dos anos 50 e 60 está viva apenas nos pseudo-novos cineastas cultores de um passado muito distante. Cuarón sabe disso. Seu filme, de uma simplicidade de A General, mostra uma habilidade com a câmera ( Emmanuel Luzbecki, Oscar certo ), raras vezes igualada. Os rodopios no espaço são um ballet dos mais apurados, belíssimos. A Terra é linda! A luz angelical do Sol banhando todo nosso organismo, tudo o que existe na nossa morada. E há o final, claro. Sandra Bullock na cápsula como um bebê com seu cordão umbilical, o parto, dificil, que é a queda na Terra e a saída da água, um nascer, um estar vivo. Ela anda hesitante, e o que sentimos é a alegria pelo nosso mundo existir. O filme atinge seu alvo, ao final estamos gratos pela vida. Confesso que chorei, um lago e uma árvore nunca me pareceram tão lindas. Esse final, uma simplificação do bebê de 2001, é perfeito. O filme, símbolo nobre daquilo que só o cinema ainda pode ser, é um filme anti-tv, deve e precisa ser visto. Nota DEZ.
MACHETE MATA! de Robert Rodriguez com Danny Trejo, Michelle Rodriguez, Charlie Sheen, Sofia Vergara, Antonio Banderas e Mel Gibson
Uma decepção. O primeiro é uma divertida festa de violência camp e nudez alegre. Este é mais sério e bem menos inspirado. De bom só o presidente feito por Sheen e o vilão, ótimo, de Gibson. Chega a ser bem chato e parece looooongo....Nota 3.
UM NOVO FÔLEGO de Drake Doremus com Guy Pearce e Felicity Jones
Um músico, cello, recebe em intercâmbio uma aluna inglesa ( ele dá aulas ). Óbvio que os dois vão se apaixonar. Óbvio que a familia vai vencer e os separar. E um diretor que se chama Drake Doremus!!! se acha um artista e vai filmar como tal. Ou seja, é um filme lento, triste, frio, mal filmado e silencioso. Há um desejo imenso de ser Bergman, mas o roteiro nada tem a dizer, então fica sendo um Bergman burro. Os atores estão muito bem, Felicity tem uma beleza de gente de verdade.Não passou aqui, mas deve passar lá por março ou abril. Nota 3.
OS 4 HERÓIS DO TEXAS de Robert Aldrich com Sinatra, Dean Martin, Ursula Andress
Aldrich foi um grande diretor de filmes de ação. Mas aqui, a serviço da turma de Sinatra, ele nada pode fazer. Sinatra filmava só para se divertir, e ás vezes ele se esquecia do público. Acontece isso aqui, ficamos vendo Frank e Dean, como dois cowboys, se divertirem com tiros, piadas, muitas mulheres e cavalgadas. Mas nós não nos ligamos em nada! Parece com assistir uma festa pela janela. Nota 1.
AVATAR de James Cameron
Reassisti Avatar. Belo visual, história sem emoção. O filme é gelado como um picolé...de xuxú. Não há nada com que se apegar e a história é a mesma de milhares de westerns pró-indio dos anos 50. Belas imagens a serviço do tédio. Nota 4.
DESBRAVANDO O OESTE de Andrew V. McLaglen com Kirk Douglas, Robert Mitchum, Richard Widmark e Sally Fields
Uma Sally Fields adolescente faz aqui sua estreia em tela grande. Bonita e com rosto de caipira do sul, ela enfrenta um trio de atores muito fortes. Kirk faz um deputado rico, que leva bando de colonos para o Oregon. No caminho, indios, desertos, montanhas e neve. Mitchum faz o guia, um mestiço cool que está ficando cego. Widmark é o explosivo rival de Kirk, um cara do povão. Os cenários são maravilhosos, faz com que a gente pensa nos estragos que tais lugares devem ter causados em europeus de 1800 acostumados aos cenários civilizados de sua terra. Tudo aqui é vasto, sem fim, extremo. O roteiro não dá conta de tanto assunto. Coisas se perdem sem serem desenvolvidas. Dá pro gasto e esses atores são como parentes queridos, é bom os ver na sala de casa. Nota 6.
A ESTALAGEM VERMELHA de Claude Autant-Lara com Fernandel
Fuja. Nota 1.
A JÓIA DO NILO de Lewis Teague com Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny de Vito.
Continuação do ótimo Tudo Por Uma Esmeralda, um dos grandes sucessos dos anos 80. Este é bem pior. Turner é raptada por um árabe e Douglas vai atrás. A dupla é ótima, Douglas nasceu para ser um herói safado e Turner foi a maior estrela do inicio dos anos 80. Mas o roteiro tem aquele que é o pior defeito dos anos 80, é metido a ser mais chique e engraçado do que é na verdade. Nota 4.
WHATS NEW PUSSYCAT?de Clive Donner com Peter O`Toole, Romy Schneider, Peter Sellers
Revi como homenagem ao grande Peter O`Toole. Roteiro de Woody Allen e uma trilha sonora espetacular de Burt Bacharach. Um retrato do que era o tal espirito groovy da época. Peter estava no auge da fama, e o cinema inglês nunca mais teve tantas estrelas ( e bons atores ). Alan Bates, Michael Caine, Sean Connery, Richard Burton, Richard Harris, Oliver Reed, Terence Stamp, Peter Sellers, Tom Courtenay, James Mason, Laurence Olivier, Michael Redgrave, John Hurt, Albert Finney, todos em forma e trabalahndo muito. O Oscar esnobou todos eles. Boa diversão ingênua. Nota 6.
SHAKESPEARE, WHISKY E MULHERES, PETER O`TOOLE PARTIU E FOI PARA UM NOVO PUB
Meu amigo Nelson Granja tem The Ruling Class como filme mais importante da vida. Que sensacional Nelson, isso só demonstra o quanto voce é diferente. O filme é uma ousada e brilhante celebração da originalidade. Postei cenas do filme abaixo.
Eu já havia avisado, os tempos daqui em diante serão cruéis. Todos aqueles que fizeram este mundo, em seu melhor, começariam a partir. Mesmo que voce pense que o cinema começou em 1999 com Matrix e Magnólia, ou que o rock foi inventado pelo Oasis, saiba que esse mundo, de PT Anderson e Liam foi feito alguns anos antes. Por gente como Robert Altman, Lou Reed, Raymond Carver, e um vasto etc.
Peter O`Toole se foi ontem. E não me doi, ele já estava semi-aposentado desde os anos 80. Seu interesse principal era a bebida. E em segundo lugar a bebida. Depois vinham as mulheres, Shakespeare, e mais bebida. Foi um dos atores mais famosos nos anos 60. Teatro e cinema. Mas, como aconteceu com tantos, um excesso de filmes ruins destruiu seu desejo de fazer mais filmes. Uma pena...
Peter me conquistou quando o vi, na tv, por volta de 1988, em O Assalto de Um Milhão de Dólares. Um filme de William Wyler, com Audrey Hepburn. Ali ele fez um papel tipo Cary Grant de um modo inglês e dandy. O filme, sim, sobre assalto, foi refilmado nos anos 2000, e colocaram Matt Damon para fazer o papel de Peter...Isso diz muita coisa sobre o cinema de hoje...
Peter, que era irlandês, brilhou em O Leão no Inverno, uma das maiores atuações que já vi, dor e violência em cada gesto e no olhar sempre sombrio; e em Becket, talvez seu grande papel. Nesse filme, ele e Richard Burton, grande amigo de copo, duelam sem parar e apesar da genialidade de Burton, quem vence é Peter. O tormento de um rei mimado é exibido com vigor. O filme marca como ferro em brasa.
Eu, apesar de minha veneração por Olivier, Steve McQueen, Bogart, Flynn e Cary Grant, tinha Peter como ator favorito. Porque ele unia em si, nos seus grandes momentos, a classe de Cary Grant com a arte de Michael Redgrave.
Os anos 60 fizeram mal, ao fim das contas para Peter. O sucesso o estragou. Se tornou um playboy colecionador de casos e figura assídua em bares e festas. Ele e Burton destruíram copos. E durante o processo ele bateu, também com Burton, o recorde de indicações ao Oscar sem vitória nenhuma. Se não me falha a memória foram sete. Até dá pra aceitar sua derrota em Lawrence da Arábia, pois Peck estava imbatível naquele ano. Mas Becket foi sacanagem! E O Leão no Inverno era vitória certa!
Não faz mal, Chaplin também perdeu todas.
Peter O`Toole, como todo bom whisky, é para poucos. Sempre será.
Saudades e Descanse em paz.
Eu já havia avisado, os tempos daqui em diante serão cruéis. Todos aqueles que fizeram este mundo, em seu melhor, começariam a partir. Mesmo que voce pense que o cinema começou em 1999 com Matrix e Magnólia, ou que o rock foi inventado pelo Oasis, saiba que esse mundo, de PT Anderson e Liam foi feito alguns anos antes. Por gente como Robert Altman, Lou Reed, Raymond Carver, e um vasto etc.
Peter O`Toole se foi ontem. E não me doi, ele já estava semi-aposentado desde os anos 80. Seu interesse principal era a bebida. E em segundo lugar a bebida. Depois vinham as mulheres, Shakespeare, e mais bebida. Foi um dos atores mais famosos nos anos 60. Teatro e cinema. Mas, como aconteceu com tantos, um excesso de filmes ruins destruiu seu desejo de fazer mais filmes. Uma pena...
Peter me conquistou quando o vi, na tv, por volta de 1988, em O Assalto de Um Milhão de Dólares. Um filme de William Wyler, com Audrey Hepburn. Ali ele fez um papel tipo Cary Grant de um modo inglês e dandy. O filme, sim, sobre assalto, foi refilmado nos anos 2000, e colocaram Matt Damon para fazer o papel de Peter...Isso diz muita coisa sobre o cinema de hoje...
Peter, que era irlandês, brilhou em O Leão no Inverno, uma das maiores atuações que já vi, dor e violência em cada gesto e no olhar sempre sombrio; e em Becket, talvez seu grande papel. Nesse filme, ele e Richard Burton, grande amigo de copo, duelam sem parar e apesar da genialidade de Burton, quem vence é Peter. O tormento de um rei mimado é exibido com vigor. O filme marca como ferro em brasa.
Eu, apesar de minha veneração por Olivier, Steve McQueen, Bogart, Flynn e Cary Grant, tinha Peter como ator favorito. Porque ele unia em si, nos seus grandes momentos, a classe de Cary Grant com a arte de Michael Redgrave.
Os anos 60 fizeram mal, ao fim das contas para Peter. O sucesso o estragou. Se tornou um playboy colecionador de casos e figura assídua em bares e festas. Ele e Burton destruíram copos. E durante o processo ele bateu, também com Burton, o recorde de indicações ao Oscar sem vitória nenhuma. Se não me falha a memória foram sete. Até dá pra aceitar sua derrota em Lawrence da Arábia, pois Peck estava imbatível naquele ano. Mas Becket foi sacanagem! E O Leão no Inverno era vitória certa!
Não faz mal, Chaplin também perdeu todas.
Peter O`Toole, como todo bom whisky, é para poucos. Sempre será.
Saudades e Descanse em paz.
A HISTÓRIA TRÁGICA DO DOUTOR FAUSTO- CHRISTOPHER MARLOWE
A primeira versão em teatro moderno é esta, de 1589, feita por este genial e misterioso dramaturgo inglês. Marlowe foi espião, beberrão, assassino, erudito, scholar, lenda, poeta, e morreu assassinado ainda em inicio de carreira. Um rival de Shakespeare? Claro que isso é bobagem, pois quando Marlowe morreu, apesar de ele e Shakespeare terem a mesma idade, Marlowe já era um autor considerado grande, enquanto William Shakespeare era um autor ainda médio. O crescimento de WS começa após a morte de CM.
Fausto, um intelectual que sabe tudo, vende a alma ao diabo. Como bem diz Dirceu Vilella, Goethe trata o satanismo de um modo muito mais infantil que Marlowe. O Fausto de Marlowe ambiciona o poder e só o poder, o de Goethe deseja o conhecimento. Traços românticos abundam no texto do alemão, já o autor de Canterbury é muito mais seco, direto e sem piedade alguma. Fausto se dana, se perde, tenta se arrepender, não consegue e termina no inferno, sem remissão. Marlowe crê em sina, em responsabilidade, o Fausto de Goethe já é um homem dúbio, duvidoso, sem decisão, pós-Hamlet.
A peça inglesa tem o estilo elizabetano, estilo que seria levado a perfeição por WS. Mistura horror e comédia grossa, poesia e filosofia, diversão e dor. Em seu original, nas apresentações da época, o palco era invadido por raios, fogo, explosões e monstros. Cinema de 1600. A fascinante era do exagero.
Muito se diz, e Burgess é um deles, que Marlowe, se tivesse morrido após os 50 seria maior que WS. Como saber? Existem autores que dão tudo no começo e depois murcham. E existem aqueles como WS, que crescem sem parar até o final.
O que sabemos é que Marlowe foi invulgar, grande, ousado e um homem de seu tempo.
Vale!
Fausto, um intelectual que sabe tudo, vende a alma ao diabo. Como bem diz Dirceu Vilella, Goethe trata o satanismo de um modo muito mais infantil que Marlowe. O Fausto de Marlowe ambiciona o poder e só o poder, o de Goethe deseja o conhecimento. Traços românticos abundam no texto do alemão, já o autor de Canterbury é muito mais seco, direto e sem piedade alguma. Fausto se dana, se perde, tenta se arrepender, não consegue e termina no inferno, sem remissão. Marlowe crê em sina, em responsabilidade, o Fausto de Goethe já é um homem dúbio, duvidoso, sem decisão, pós-Hamlet.
A peça inglesa tem o estilo elizabetano, estilo que seria levado a perfeição por WS. Mistura horror e comédia grossa, poesia e filosofia, diversão e dor. Em seu original, nas apresentações da época, o palco era invadido por raios, fogo, explosões e monstros. Cinema de 1600. A fascinante era do exagero.
Muito se diz, e Burgess é um deles, que Marlowe, se tivesse morrido após os 50 seria maior que WS. Como saber? Existem autores que dão tudo no começo e depois murcham. E existem aqueles como WS, que crescem sem parar até o final.
O que sabemos é que Marlowe foi invulgar, grande, ousado e um homem de seu tempo.
Vale!
O MELHOR FUTEBOL DO MUNDO
E descubro que ainda dói. Numa noite de sábado, em 2013, revejo, mais uma vez, o jogo da minha geração, Brasil 2X3 Itália, na ensolarada e muito alegre Espanha, julho de 1982.
A ESPN tem reprisado jogos de Copa inteiros. Esses jogos fazem com que alguns mitos vão por terra. Por exemplo, Brasil e Holanda em 74 foi um dos piores jogos da história. Uma violência imensa e um jogo onde o que se viu foram discussões, provocações e entradas para matar. O pior jogo da Holanda de então. Outro mito? Este jogo, em 82.
Dizem que o Brasil não sabia defender. O que vejo é o oposto. Todo o time defende. Os atacantes marcam, de verdade. E logo percebo que o time de 82 jogava o futebol mais moderno do mundo. Até hoje. Não a toa é modelo do Barcelona e agora do Bayern. O gênio Telê Santana fez a ponte do futebol da Holanda para o Brasil. Na concentração ele exibia lances de Cruyjff, atacar bem e defender bem. Foi o que o Brasil fez. Leandro entra pela esquerda, Cerezo de centro-avante, Sócrates de zagueiro, Oscar de meia, Junior na ponta direita, eles giram e giram e giram... Perdeu porque a Itália foi nossa Alemanha. Jogou muito bem, uniu vontade com habilidade e nunca errou. O Brasil errou duas vezes e nas duas os italianos estavam ligados. Aproveitaram.
Antero Greco comenta o jogo e diz ao final que o jogo foi tão eletrizante que ele se pega ainda torcendo, achando que vai dar, que a bola vai entrar. Eu torci de novo, parece que o tempo ficou parado, vai dar, vai dar, tem de dar!
Revendo o jogo percebo que aquele foi o melhor time do Brasil. Muito melhor que o sortudo time de 2002 e melhor que o aplicado time de 94. Tirando Pele, talvez melhor que o de 1970, sim senhor! Cerezo foi melhor que Clodoaldo, Falcao equivale a Rivellino. Gerson ganha de Socrates, Zico perde de Pele e Tostao foi muuuuuuuuuuuuuuito maior que Eder. Mas a defesa toda de 82 era bem melhor que a de 70. E Tele vence Zagalo...Basta olhar. A bola rolando redonda, mesmo em meio a um mar de marcadores. O futebol de Brasil e Italia se parece, muito, com o de hoje, muito mesmo, não é lento e sem defesa como se pensa, os dois jogam como o melhor futebol de hoje joga. Velocidade e movimentação, simplicidade. Com uma diferença em relação a 2013, a técnica brasileira ainda é refinadíssima, e a seleção italiana é a melhor de sua história. Perto desta a campeã de 2006 fica como um bando de pernas de pau. Ninguém dá chutão.
Naquele dia, em 7 de julho, fazia muito calor em Barcelona e sol no inverno daqui. Todo mundo sabia que o Brasil ia ganhar, o que importava era saber de quanto. O campeonato era nosso. Certeza que nunca mais tive. Nem agora, em casa. Foi a mais bela copa, com jogos que nunca esqueci, com 4 times que tinham futebol digno de vencer. Afinal, foi uma copa que tinha Zico, Socrates, Falcao, Rossi, Cabrini, Zoff, Scirea, Platini, Giresse, Rummenigge, Breitner, Boniek, Milla, Maradona, Passarela, jogadores lembrados ainda agora.
Perdeu.
E a derrota mudou todo o nosso futebol. Ficamos cada vez mais italianos. E os europeus, encantados, eu fui pra lá em julho, dia 18, ouvi os comentários, se tornaram alunos aplicados de Falcão, Zico, Junior, Cerezo e Sócrates.
A ESPN tem reprisado jogos de Copa inteiros. Esses jogos fazem com que alguns mitos vão por terra. Por exemplo, Brasil e Holanda em 74 foi um dos piores jogos da história. Uma violência imensa e um jogo onde o que se viu foram discussões, provocações e entradas para matar. O pior jogo da Holanda de então. Outro mito? Este jogo, em 82.
Dizem que o Brasil não sabia defender. O que vejo é o oposto. Todo o time defende. Os atacantes marcam, de verdade. E logo percebo que o time de 82 jogava o futebol mais moderno do mundo. Até hoje. Não a toa é modelo do Barcelona e agora do Bayern. O gênio Telê Santana fez a ponte do futebol da Holanda para o Brasil. Na concentração ele exibia lances de Cruyjff, atacar bem e defender bem. Foi o que o Brasil fez. Leandro entra pela esquerda, Cerezo de centro-avante, Sócrates de zagueiro, Oscar de meia, Junior na ponta direita, eles giram e giram e giram... Perdeu porque a Itália foi nossa Alemanha. Jogou muito bem, uniu vontade com habilidade e nunca errou. O Brasil errou duas vezes e nas duas os italianos estavam ligados. Aproveitaram.
Antero Greco comenta o jogo e diz ao final que o jogo foi tão eletrizante que ele se pega ainda torcendo, achando que vai dar, que a bola vai entrar. Eu torci de novo, parece que o tempo ficou parado, vai dar, vai dar, tem de dar!
Revendo o jogo percebo que aquele foi o melhor time do Brasil. Muito melhor que o sortudo time de 2002 e melhor que o aplicado time de 94. Tirando Pele, talvez melhor que o de 1970, sim senhor! Cerezo foi melhor que Clodoaldo, Falcao equivale a Rivellino. Gerson ganha de Socrates, Zico perde de Pele e Tostao foi muuuuuuuuuuuuuuito maior que Eder. Mas a defesa toda de 82 era bem melhor que a de 70. E Tele vence Zagalo...Basta olhar. A bola rolando redonda, mesmo em meio a um mar de marcadores. O futebol de Brasil e Italia se parece, muito, com o de hoje, muito mesmo, não é lento e sem defesa como se pensa, os dois jogam como o melhor futebol de hoje joga. Velocidade e movimentação, simplicidade. Com uma diferença em relação a 2013, a técnica brasileira ainda é refinadíssima, e a seleção italiana é a melhor de sua história. Perto desta a campeã de 2006 fica como um bando de pernas de pau. Ninguém dá chutão.
Naquele dia, em 7 de julho, fazia muito calor em Barcelona e sol no inverno daqui. Todo mundo sabia que o Brasil ia ganhar, o que importava era saber de quanto. O campeonato era nosso. Certeza que nunca mais tive. Nem agora, em casa. Foi a mais bela copa, com jogos que nunca esqueci, com 4 times que tinham futebol digno de vencer. Afinal, foi uma copa que tinha Zico, Socrates, Falcao, Rossi, Cabrini, Zoff, Scirea, Platini, Giresse, Rummenigge, Breitner, Boniek, Milla, Maradona, Passarela, jogadores lembrados ainda agora.
Perdeu.
E a derrota mudou todo o nosso futebol. Ficamos cada vez mais italianos. E os europeus, encantados, eu fui pra lá em julho, dia 18, ouvi os comentários, se tornaram alunos aplicados de Falcão, Zico, Junior, Cerezo e Sócrates.
MEMÓRIA PAULISTANA, EDIÇÃO DE CARLOS AUGUSTO CALIL
No final de 1974 o acervo fotográfico de SP foi transferido para o recém inaugurado MIS, na avenida Europa. Ao se mexer nos arquivos, descobriu-se, ao acaso, um tesouro, fotos de 1862, da cidade de SP, tiradas por Militão Augusto de Azevedo. E mais, fotos da década de 1890, de Valério Vieira. Editou-se um livro em 1975 com esse material. Trinta e cinco anos mais tarde, em 2010, o livro é reeditado.
Lindo, bem feito, ele traz além das fotos, pequenos textos que comentam a cidade. Lemos uma deliciosa descrição de SP por Castro Alves. O poeta fala que a cidade, fria, úmida, escura, é uma Heildelberg misturada a Andaluzia. Um acidente hediondo. O mesmo diz Alvares de Azevedo. Reclama do frio, do céu sempre cinza e do tédio, o tédio paulista.
Depois lemos reclamações de sua feiúra, das calçadas ( já em 1900!!! ), das casas feias, da vocação para o triste e o cabisbaixo.
Fotos dos emigrantes. Não há como não sentir pena daqueles italianos e japoneses sem esperança. Sim, desesperançados, pois eles chegavam sem grandes planos e sem grandes chances. E logo eram pegos por malandros e agenciadores. Viravam escravos, nada mais que isso.
Fotos das guerras de 24 e de 30. Barricadas, fachadas metralhadas, mortos. Textos sobre o crescimento. Em 1930 já se reclama do fim das praças, da derrubada de árvores, da fumaça fedida.
Na avenida Paulista, uma guerra de socos entre uma multidão de comunas e uma tropa de integralistas. E fotos, lindas, de familias ricas. A mais bela é a de meninas e meninos tocando piano e cordas numa sala chic. Paulista? Higienópolis? Não tem o endereço.
Tivesse sido planejado e hoje teríamos uma cidade melhor que Buenos Aires ou Chicago. Mas em 1920 um autor reclamava que se abriam ruas sem se pensar onde elas iriam dar. O mapa da cidade se fazia torto, derrubavam-se palácios e igrejas, abriam avenidas, atolavam rios.
Fotos de moças jogando tênis no Paulistano. Em 1919. E moços ricos fazendo pic-nic as margens do Tietê. Dezenas de barcos passando pelas águas. Era o ano novo de 1921.
Nas últimas fotos, de Rosenthal, década de 40, a cidade já se parece com aquilo que é agora. O centro tomado pela sombra de prédios feios. O trânsito sendo a única prioridade desde sempre.
Este foi um dos livros que comprei na ótima Festa dos Livros da USP. Paguei menos da metade de seu preço. Vale ouro. Uma beleza.
Lindo, bem feito, ele traz além das fotos, pequenos textos que comentam a cidade. Lemos uma deliciosa descrição de SP por Castro Alves. O poeta fala que a cidade, fria, úmida, escura, é uma Heildelberg misturada a Andaluzia. Um acidente hediondo. O mesmo diz Alvares de Azevedo. Reclama do frio, do céu sempre cinza e do tédio, o tédio paulista.
Depois lemos reclamações de sua feiúra, das calçadas ( já em 1900!!! ), das casas feias, da vocação para o triste e o cabisbaixo.
Fotos dos emigrantes. Não há como não sentir pena daqueles italianos e japoneses sem esperança. Sim, desesperançados, pois eles chegavam sem grandes planos e sem grandes chances. E logo eram pegos por malandros e agenciadores. Viravam escravos, nada mais que isso.
Fotos das guerras de 24 e de 30. Barricadas, fachadas metralhadas, mortos. Textos sobre o crescimento. Em 1930 já se reclama do fim das praças, da derrubada de árvores, da fumaça fedida.
Na avenida Paulista, uma guerra de socos entre uma multidão de comunas e uma tropa de integralistas. E fotos, lindas, de familias ricas. A mais bela é a de meninas e meninos tocando piano e cordas numa sala chic. Paulista? Higienópolis? Não tem o endereço.
Tivesse sido planejado e hoje teríamos uma cidade melhor que Buenos Aires ou Chicago. Mas em 1920 um autor reclamava que se abriam ruas sem se pensar onde elas iriam dar. O mapa da cidade se fazia torto, derrubavam-se palácios e igrejas, abriam avenidas, atolavam rios.
Fotos de moças jogando tênis no Paulistano. Em 1919. E moços ricos fazendo pic-nic as margens do Tietê. Dezenas de barcos passando pelas águas. Era o ano novo de 1921.
Nas últimas fotos, de Rosenthal, década de 40, a cidade já se parece com aquilo que é agora. O centro tomado pela sombra de prédios feios. O trânsito sendo a única prioridade desde sempre.
Este foi um dos livros que comprei na ótima Festa dos Livros da USP. Paguei menos da metade de seu preço. Vale ouro. Uma beleza.
NOS CONFINS DO MUNDO- HARRY THOMPSON, UMA GRANDE AVENTURA!
Qual o segredo de um grande best-seller? Mais que isso, qual o grande segredo de um best-seller que se revela boa leitura? Olhe este livro. Lançado em 2005, logo se tornou um campeão de vendas. E, além disso, foi indicado ao Booker Prize. O autor, jovem, infelizmente faleceu de câncer em seguida. O cara sabia contar uma boa história!
Acompanhamos as aventuras do novato capitão FitzRoy, que no meio do século XIX, conduz seu barco, o Beagle, pelas águas terríveis do sul do Atlântico. Tempestades, fome, doenças, morte, solidão. As cenas são desenvolvidas com precisão, mas onde o autor se revela melhor é nos diálogos. Acertam a mosca. Correm. O livro cheira a mar.
Mais para frente, o Beagle recebe a bordo um tal de Charles Darwin, e então, o que era bom fica ótimo! Thompson faz com que a gente creia na verdade de sua criação. O livro não é histórico, é romance. Dos bons!!
Diacho! Eu queria ter esse dom para criar personagens, personagens que interessam, que nos conquistam.
Leiam! É um prazer.
Acompanhamos as aventuras do novato capitão FitzRoy, que no meio do século XIX, conduz seu barco, o Beagle, pelas águas terríveis do sul do Atlântico. Tempestades, fome, doenças, morte, solidão. As cenas são desenvolvidas com precisão, mas onde o autor se revela melhor é nos diálogos. Acertam a mosca. Correm. O livro cheira a mar.
Mais para frente, o Beagle recebe a bordo um tal de Charles Darwin, e então, o que era bom fica ótimo! Thompson faz com que a gente creia na verdade de sua criação. O livro não é histórico, é romance. Dos bons!!
Diacho! Eu queria ter esse dom para criar personagens, personagens que interessam, que nos conquistam.
Leiam! É um prazer.
HOME, SWEET HOME
O mundo tem destruído progressivamente nossa noção do que seja LAR. Talvez porque estar em casa significava estar fora do mundo e hoje somos impedidos de ficar fora daquilo que rola NAS RUAS, sem parar.
Porque a casa encolheu, ela se tornou nada mais que uma cama, uma geladeira e algumas telas. Tudo dirigido para o descanso do trabalho e para o contato com o mundo de fora. A vida do lar, daquilo que era HOME, adeus! Morte da secreta interioridade.
Nada de janela para a paisagem. A função prática da janela agora é proteger da rua e deixar entrar alguma luz. Nada mais de espaço interno para as crianças brincarem. Elas devem desde cedo interagir com o mundo, o quarto de brincar onde ela criava um universo próprio morreu. Criança não fica mais sonhando a toa. Ela faz coisas. Em grupo, sempre.
Jardins e quintais se foram. Todo jardim, onde se plantava vida e se olhava o tempo transformar, foi trocado por mais vagas para a coisa de lata chamada carro. Jardim é luxo maior que um Audi. Poucos percebem isso.
Minha casa é um mundo de segredos. É cheia de velhos brinquedos, livros, fotos, quadros e muitos objetos. Cada um é uma história, um amigo, um incentivo. Minha casa é reflexo e parte daquilo que eu sou e só eu sou. Não é impessoal, tem memória, tem particularidades.
Jamais poderia viver num apartamento já decorado com 80 metros quadrados. Cadê a minha sujeira? O cheiro de minhas marcas? Eu sou bicho e bicho marca território!
O Lar morre porque o mundo moderno odeia tudo o que ele é. Isolamento, individualidade, proteção e memória. O ideal para esse mundo é que estejamos todo o tempo no Shopping, num Resort, num Aeroporto ou na Balada. Consumindo em grupo. Todo o tempo on line.
A vingança do Lar vem. Cada vez mais a imagem do Lar Vitoriano se faz um tipo de sonho paradisíaco. Então as pessoas compram baús antigos, brinquedos quebrados, sofás de couro, porta guarda-chuvas e armários envelhecidos. Tentam recuperar o que perderam, história pessoal, individualidade. Compram as memórias de gente que não conheceram ou memórias que nem sequer existem. Esquecem que uma velha escrivaninha só poderá ser reconfortante se ela envelhecer com voce. Ou com sua tia. Ter seu cheiro.
Nesse mundo desmemoriado e oco, cada vez venderemos mais a história de outros. Memórias inventadas. Ilusões. Amaremos cada vez com maior ilusão o passado que nunca vivemos. E pagaremos cada vez mais caro por isso.
Feliz Natal.
Porque a casa encolheu, ela se tornou nada mais que uma cama, uma geladeira e algumas telas. Tudo dirigido para o descanso do trabalho e para o contato com o mundo de fora. A vida do lar, daquilo que era HOME, adeus! Morte da secreta interioridade.
Nada de janela para a paisagem. A função prática da janela agora é proteger da rua e deixar entrar alguma luz. Nada mais de espaço interno para as crianças brincarem. Elas devem desde cedo interagir com o mundo, o quarto de brincar onde ela criava um universo próprio morreu. Criança não fica mais sonhando a toa. Ela faz coisas. Em grupo, sempre.
Jardins e quintais se foram. Todo jardim, onde se plantava vida e se olhava o tempo transformar, foi trocado por mais vagas para a coisa de lata chamada carro. Jardim é luxo maior que um Audi. Poucos percebem isso.
Minha casa é um mundo de segredos. É cheia de velhos brinquedos, livros, fotos, quadros e muitos objetos. Cada um é uma história, um amigo, um incentivo. Minha casa é reflexo e parte daquilo que eu sou e só eu sou. Não é impessoal, tem memória, tem particularidades.
Jamais poderia viver num apartamento já decorado com 80 metros quadrados. Cadê a minha sujeira? O cheiro de minhas marcas? Eu sou bicho e bicho marca território!
O Lar morre porque o mundo moderno odeia tudo o que ele é. Isolamento, individualidade, proteção e memória. O ideal para esse mundo é que estejamos todo o tempo no Shopping, num Resort, num Aeroporto ou na Balada. Consumindo em grupo. Todo o tempo on line.
A vingança do Lar vem. Cada vez mais a imagem do Lar Vitoriano se faz um tipo de sonho paradisíaco. Então as pessoas compram baús antigos, brinquedos quebrados, sofás de couro, porta guarda-chuvas e armários envelhecidos. Tentam recuperar o que perderam, história pessoal, individualidade. Compram as memórias de gente que não conheceram ou memórias que nem sequer existem. Esquecem que uma velha escrivaninha só poderá ser reconfortante se ela envelhecer com voce. Ou com sua tia. Ter seu cheiro.
Nesse mundo desmemoriado e oco, cada vez venderemos mais a história de outros. Memórias inventadas. Ilusões. Amaremos cada vez com maior ilusão o passado que nunca vivemos. E pagaremos cada vez mais caro por isso.
Feliz Natal.
BILLE AUGUST/ DIRK BOGARDE/ GUY RITCHIE/ BERTOLUCCI/ COLIN FIRTH/ SOPHIA LOREN
TREM NOTURNO PARA LISBOA de Bille August com Jeremy Irons, Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Melanie Laurent e Christopher Lee.
Em outro filme seria um elenco de tirar leite de pedra. Aqui, neste roteiro flácido, nada pode ser feito. É menos que pedra, é lama. Jeremy Irons foi um grande ator. Nunca me esqueço de sua melancolia em Brideshead Revisited. Nos anos 80 ele era considerado maior que Day-Lewis. Courtenay é mais velho e igualmente grande. Da geração genial de O'Toole, Finney, Hurt e Holm. Este filme é lixo. Parece novela das 9. Os atores, coitados, parecem quase fazer comédia. A gente não consegue crer em nada do que vê. E olhe que o tema é ótimo: a repressão salazarista em Portugal. Deve entrar em cartaz, afinal, um filme que vi a meses com Bill Murray que fala da visita do rei inglês a Roosevelt durante a guerra. Vejam! Eu já escrevi sobre ele e não vou escrever outra vez. Isto aqui, esqueçam. Nota zero.
DUAS NOITES COM CLEÓPATRA de Mario Matolli com Sophia Loren e Alberto Sordi
Foram filmes como este, chanchada para o povão, que criaram o capital para que Fellini ou Pasolini pudessem filmar. O cinema funcionava assim. Hoje o dinheiro do cinema pop vai para o bolso dos acionistas. Evitem este dvd. A imagem está estragada. Não dá pra ver.
JOGOS, TRAPAÇAS E DOIS CANOS FUMEGANTES de Guy Ritchie com Jason Statham, Vinnie Jones, Jason Flemyng e Sting
Ainda é o melhor filme de Guy Ritchie. E acho este filme melhor que Transpotting de Boyle, feito quase na mesma época. Puro Tarantino, menos cabeça ( Guy não tem nada de Leone ou de Godard ), muito menos violento. A trama, boa, fala de armas colecionáveis, dívida de jogo, roubo e vingança. O clima é quase de Monty Python. Ótima edição, ótima trilha sonora, os atores estão excelentes. Já dá pra ver o futuro, bom, de Statham. Um Steve McQueen de segunda. Quero mais filmes de Vinnie!!! Nota 8.
BELEZA ROUBADA de Bernardo Bertolucci com Liv Tyler, Jeremy Irons, Rachel Weisz, Sinead Cusak e Jean Marais
Como é bom ver o grande Jean Marais! Pra quem não sabe, ele foi o muso de Cocteau, ator em seus filmes. E o vemos aqui, gloriosamente forte em 1996! Fora isso não há muito mais o que ver aqui. ( Talvez apenas a discreta nudez de Rachel Weisz ). Liv foi péssima escolha e o filme é arrastado, chato, sem porque. Não o via desde os anos 90. Continua o mesmo. Chato. Nota 2.
ARTHUR NEWMAN de Dante Ariola com Colin Firth, Emily Blunt e Anne Heche.
Adoro Firth. É meu ator favorito de agora. Então consegui o filme, novo, pra ver. O tema prometia, um cara que abandona sua vida antiga, muda de nome, sai pelo mundo e encontra um mulher doida-down no caminho. Mas...o pretensioso diretor estraga tudo! Não há uma única cena que não grite em nossa cara: "Vejam! Isto é Arte!" O caramba de arte!!! É um lento, bobo, silencioso, vazio, sonolento filme. Blunt está bacana, mas fazer o que com um papel que já foi feito milhares de vezes só neste século? Firth fica sonolento em meio as falas ralas e vazias. Nota? Nada.
A SOMBRA DO PECADO de Lewis Gilbert com Dirk Bogarde e Margaret Lockwood
Um pequeno filme inglês sobre um odiável malandro que mata sua esposa rica e muito mais velha. Se casa de novo e quer repetir a dose. Suspense e clima. Bogarde foi um ídolo do cinema inglês dos anos 50. Quando assumiu sua homossexualidade passou a filmar coisas como Morte em Veneza de Visconti. Gilbert iria dirgir alguns dos melhores James Bond. Nota 6.
AOS 7 E AOS 40- JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA
O menino narra, em primeira pessoa, sua história. O homem tem narrada sua vida. O fato do menino dizer tudo como um "eu", e o homem como um "ele" já dá a pista. A vida do menino é agora. É o fazer sem questionar. Estar e ver tudo sem a distância da análise. O homem vive longe das coisas. E para nós, adultos, o agora é sempre um depois.
Cada capítulo tem por centro uma voz. Fala o menino. Fala o homem. ( Que é o menino aos 40 anos ). O menino faz amigos, vai à escola, tem contato com a morte. Alguns capítulos beiram a magia. O do vizinho com suas gaiolas de passarinhos é de antologia. Aos 40 o homem se separa da mulher. Sem brigas, apenas um desgaste. A dor da solidão e da distância do filho. O final é um retorno que não se faz. As coisas não voltam. Morreram. Ou não?
O autor é grande. No Brasil ninguém escreve hoje assim. Ele sabe olhar. Nada de neuroses. O homem sofre, o menino tem medo, a mãe chora, o pai é humilhado, mas tudo é "normal". Não é a tal literatura da falta de sentido. Não existe exagero, hiper-drama e também não há a pequenez de gente morta-viva. São pessoas como eu, como voce, gente comum, simples, da média. E na visão de João, elas são dignas, fracas, grandes, bonitas, banais, únicas.
Tem de ler.
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