LISTA DA ROLLING STONE SOBRE OS 500 MELHORES DISCOS DA HISTÓRIA
Eu comprei em 2003 a revista com a primeira lista. E só agora, na net, vejo que tem uma segunda,
de 2013. Sou maluco por listas, não dou mais valor algum pra críticos, saquei qual é a deles, mas
sou curioso, e comparo as duas mesmo que seja pra rir. E pra ver qual a tendência desses bobos no
século XXI.
Tiraram dois discos do Roxy Music. Saíram Country Life e Avalon, já For Your Pleasure e Siren continuam
onde estavam. Bowie perdeu muito! Tiraram Low! Uma lista sem Low não pode ter valor. Mas além disso, se
foram Heroes e Young Americans. Para a nova lista, a fase de Berlin de Bowie não existe. Ficaram ainda
Hunky Dory, Ziggy, Station To Station e Alladin Sane. Beatles, Dylan e Stones não mudaram nada. São os que
têm mais discos. Beatles só não estão na lista For Sale e Magical Mystery Tour, todo o resto está lá. Dos
Stones tem tudo que eles fizeram de 65 até 72, menos o Satanic, e ainda botaram Some Girls e Tattoo You.
Bandas como MGMT, Arctic Monkeys, LCD Soundsystem, MIA, My Morning Jacket, estão todos lá. Muitas coisas
entraram. Jay Z tem quatro discos e Kanye West, cinco. O disco que mais subiu de uma lista para outra foi
o primeiro dos Strokes. Subiu 80 posições.
Nick Drake perdeu um disco. Gram Parsons perdeu um e ficou com um. Beach Boys perderam dois e agora só
constam dois na lista. Mas Pet Sounds continua sendo o segundo. Dos 30 primeiros nada mudou.
A Rolling Stone não muda. Continua aquele monte de discos de Simon e Garfunkel na lista. E bandas de metal
são muito mal representadas. Dois discos do Metallica, dois do AC DC e nada mais. Judas Priest, Iron Maiden,
Deep Purple ou Slayer não existem para eles. Mas há dois Kiss e dois Aerosmith. O prog tem apenas Jethro Tull.
Se voce considera Pink Floyd prog, tem 4 discos dos caras. Genesis, Yes, King Crimson ou Peter Gabriel são
ignorados, mas está lá o rock da California, a praga dos anos 70, Linda Ronstadt, Joni Mitchell, Randy Newman.
A lista inglesa da NME é pior ainda, um dia falo dela. Mas caramba! Cadê o rock alemão? Um Kraftwerk e mais
nada! Enfiaram os Stone Roses na lista, mas nem sombra de Primal Scream ou Happy Mondays. Radiohead tem 3
discos e Smashing Pumpkins sumiu.
Graças aos bons deuses nada foi tirado de Elton John, estão lá seus 4 discos. Mas considerar que o melhor disco do
dos Led Zeppelin merece apenas um 35 lugar? Tá mal heim revistinha!
QUANDO VOCE TEM SEDE DE SABER O QUE A VIDA É E TUDO QUE TE DÃO É O VERBO TO BE
Quando voce é jovem o seu cérebro se abre como uma flor carnívora. Ele tem fome, é um vazio
que precisa ser ocupado. Então voce, a partir dos 3 anos, absorve cores de casa, figuras de livros,
palavras dos seus pais, cheiros e toques. E depois imagens na tela, toda tela, canções, bichos,
ruas, ruídos. E mais tarde, aos 6, histórias na TV, jogos no PC, textos simples. E vem a escola.
Fascinado por cores e sons, movimentos e emoções, sensações novas, vem uma mulher entediada ou um moço
afetado te ensianar coisas que voce já sabe, ou pior, não quer saber. Algo na sua intuição diz que nos
próximos 12 anos voce vai aprender coisas chatas, inuteis, tolas até. Tudo simbolizado pela repetição,
ano após ano, do verbo to be.
Vão te falar de Pitágoras, mas só do triângulo e não da harmonia das esferas. Vão te falar de história,
mas sem herois ou suspense, a geografia será apenas uma lista de dados e não um mecanismo fabuloso,
a biologia será um mapa celular e jamais o mistério do mecanismo perfeito. Todo ensino terá o sabor
de uma decepão e não de um mistério. Sua língua vai se tornar um arcabouço de regras e não uma festa
de sentidos. É uma educação da impotência, feita para te desiludir, decepcionar, chatear. Na escola
voce aprende que a vida é um tédio. Será essa a tal educação para a revolução? Formar alunos irritados
e prontos para "mudar o mundo"?
Poderiam mudar a educação e mostrar que aprender é travar íntimo contato com o mistério, a emoção e
o maravilhamento. História sem suspense, matemática sem deslumbre, ciência sem ilumação súbita, não
valem a pena.
PONCHE DE RUM - ELMORE LEONARD
Saul Bellow, Martin Amis e Stephen King eram todos fãs de Elmore. Todos eles sentiam admiração
pelo modo como Leonard usava diálogos. Ele usa muitos diálogos, sempre coloquiais e precisos,
conseguindo descrever o caráter do personagem pelo modo como ele fala. Elmore jamais diz que Ordell e Louis
são burros. A gente nota pelo modo como eles falam.
Ele dizia ter aprendido isso com Heminguay, seu autor favorito. Mas ele tinha uma crítica à Hem...
Seu coração mole. Heminguay era piegas. Estragava tudo com seu coração. Eu acho o mesmo. Ernest Heminguay
é maravilhoso enquanto não começa a se lamentar.
Ponche de Rum é de 1992. Leonard escreveu livros às toneladas. Nos anos 50 e 60 escrevia livros de faroeste.
Alguns viraram filmes ruins. Um só deu um bom filme. Depois, a partir dos anos 70, começou a escrever livros
policiais. Vários deram filmes horríveis. Três deram bons filmes. Get Shorty é o melhor filme. Irresistível
Paixão é outro ótimo filme. E Jackie Brown, do Tarantino, é este Ponche de Rum. O livro é melhor que o filme.
Jackie Brown aqui se chama Jackie Burke e é loira. Max Cherry, o pagador de fianças, é o centro do livro,
no filme não. Tarantino ama Elmore porque foi ele quem o ensinou a escrever diálogos.
O segredo dos livros dele serem tão bons é a calma. Ele desenvolve a ação com muito vagar, sem pressa,
por isso o cool se mostra. As primeiras páginas são para conhecermos todos eles. E só então descobrimos
qual o foco do livro, o que vai acontecer. É Heminguay de fato, o que vale é o diálogo, o caráter criado
pelo autor. A ação é consequencia daquilo que cada um deles é. Voce une Ordell mais Louis e dá um desastre.
Voce une Cherry mais Jackie e dá um acerto. É química.
Quero mais!
0 CRIME, BEBÊ, É O CRIME
O crime é o grande tema de hoje.
Alguém disse isso, não lembro quem.
A história da idade média e da renascença pode ser escrita pela igreja. O comportamento cotidiano
das pessoas, a arquitetura das cidades, a arte, era todo ditada pela igreja. O marco central da alma
e da cidade era a catedral.
Nos séculos XVII e XVIII tudo é a corte. O centro da alma e da cidade é o palácio real. Com ele, vem
a arte, a guerra e a política. A história dessa época é a história das cortes e suas intrigas.
Nos séculos XIX e XX tudo pode ser contado pelo trabalho. Agora as cidades são espelhos do trabalho.
Não se esqueça que a ciência é um trabalho. Estradas, metrôs, horários, tudo é feito e planejado em
favor do trabalho. Voce mora perto do emprego, planeja a vida pelo tempo de trabalho, se define como
profissional.
A história do ocidente, entre mais ou menos 1810-1980, pode ser descrita como a história do trabalho. Das
fábricas, das guerras por mercados, da política sindical.
Cada vez mais a história é agora a saga do crime. Nossas casas são anti crime, nossos jovens fingem, em
roupas e modo de ser, serem criminosos. Nossa arte é bandida, e mais que tudo, nossa política, guerras,
direção geral, é ditada pela promiscuidade entre crime e poder. Nada gira mais grana que drogas e armas,
todos estão de algum modo envolvidos com o crime, seja maconha recreativa, seja contrabando de aparelhos.
O escritor, o artista relevante, irá falar sobre isso. Mesmo que ele seja do tipo introvertido, filosófico,
ele em certo momento irá trombar com o ato criminoso.
O grande embate do mundo atual deixou de ser faz décadas entre capital e social ou entre realismo e
idealismo. Ele é entre crime e ordem, justiça e mentira. Há um cinismo abominável em negar isso,
ou pior ainda em relativizar. Crime é matar. Promover a morte. Enganar. O próprio cinismo é um crime.
No futuro nossos filmes relevantes serão os que falam disso. Nossos livros estudados os que se situam
no meio do fogo cruzado. Nossos herois lembrados serão aqueles que mantem alguma integridade.
GRAVAÇÃO
Era assim: Um rádio, mono, sintonizado na Difusora ou na Excelsior. Muito raramente na América. Das 9 até as 13 horas. Depois do almoço eu ia pra escola. Um gravador Aiko. Com um microfone. Uma fita k7 TDK ou Basf. E o suspense. Toda manhã, o suspense. Será que eles iriam tocar a música que eu queria gravar? E se enquanto eu estivesse na Excelsior ela tocasse na Difusora? As músicas das paradas de sucesso eram faceis de ouvir, mas e aquelas do ano passado? E se durante a gravação minha mãe entrasse na sala e fizesse barulho? E se o cão latisse, a campainha tocasse ou um carro buzinasse? Pior de tudo: e se o apresentador falasse alguma coisa no meio da música, tipo "Excelsior, a Máquina do Som" ou "Di Fu So Ra, Jet Music"?
Todas as músicas eram gravadas sem os primeiros segundos, que era quando o cara falava: " Harold Melvin and The Blue Notes!!!! " ou " A nova de Billy Paul!" O final também era cortado, para evitar o "Voce ouviu David Bowie com Young Americans". Era uma luta! Mas, como toda luta, com derrotas horrendas e vitórias que me dão prazer até hoje.
Lembro por exemplo de mudar para a Difusora e ouvir os últimos segundos de Sugar Sugar, canção dos Archies, então já antiga, e que eu sonhava gravar a meses. Com ódio gravei só o último refrão. Lembro de perder Sorrow, do Bowie, que eu caçava a mais de um ano, por ter ido ao banheiro. Pior eram aquelas que eu não conhecia, escutava e sentia que devia ter gravado. Já era. Algumas só voltei a ouvir já neste século, graças à net.
Mas existiam as vitórias. E a emoção era a mesma de um caçador conseguir capturar um tigre branco. Com 12 anos eu já tinha várias canções velhas, que eu havia ouvido aos 8 ou 10 anos, e que rezava para que tocassem e eu pudesse gravar. Uncle Albert do Paul MacCartney foi uma enorme alegria. Na Difusora, Flash Back era a sessão, eu apertei o REC-Play com o coração na garganta: Thank You God! Eu ia poder ouvir agora quantas vezes eu quisesse. Fã dos Monkees desde os 7 anos, um dia tocou She na rádio Excelsior e eu gravei aos pulos. Que vitória! Lembro ainda de uma sequência que gravei numa TDK aos 13 anos: Sweet-America-Suzi Quatro-Alice Cooper-David Essex-Casa das Máquinas e Left Side, típica play list da Excelsior.
Cada emissora tinha um estilo: a Excelsior era mais rock inglês, lá tocava glitter, alguma coisa de rock pauleira e muito rock nacional. A Difusora era mais black music, tinha muito Stylistics, Commodores e Barry White. Mas também tocava Rebel Rebel do Bowie, Bad Company com cant get enough e Grand Funk com Locomotion. Era uma salada, no meio de Stevie Wonder e John Lennon rolava um Benito di Paula e Originais dos Samba. A gente se educava assim.
MÚSICA DE 15 MINUTOS
Em 1970 Bernie Taupin tinha 17 anos e era virgem. Morava com Elton John na casa dos pais do pianista. Dormiam no mesmo quarto apertado. Bernie era hetero e sonhava em seu cowboy na América. Em namorar uma americana liberal que lhe tirasse a timidez. Então Bernie escreveu uma letra e a mostrou a Elton. O pianista foi à cozinha e em 15 minutos criou a melodia e a mostrou para Bernie. Essa canção se chamava Your Song.
Numa monótona noite de sábado, entediado, boto a TV no canal BIS e vejo um programa com e sobre Elton. Tem depoimentos de gente que ama Elton: James Blunt, Eddie Sheehan, Boy George, Billy Joel, Sting, um cara dos Scissors Sisters, Nick Rhodes, Rod, Jon Bon Jovi, Sharon Osbourne, Lady Gaga...noto mais uma vez que Elton fez a trilha da minha geração e da mais nova e mais velha que eu. Um ator novo que não conheço diz que transou a primeira vez ouvindo Dont Let The Sun Go Down on Me, outro fala que casou com Tiny Dancer na igreja. A música de Elton une, comunga, é simples e perfeita, é um segredo.
Amo dezenas de canções dos dois, Elton e Bernie, mas é Rocket Man minha favorita. Sharon diz que Ozzy é maníaco por ela e Nick Rhodes conta que é a canção que o despertou para a beleza da música. Para mim Rocket Man é como um oceano: é profunda, assustadora, linda, sem limites, rica e nascedouro. Mas...foi em 1974, criança ainda, ouvindo rádio num Motoradio ridículo, que descobri com Your Song aquilo que o amor devia ser. O tal segredo. A idealização suprema. Your Song foi e é uma epifania. Para mim e para todos.
Último ponto: não confie em quem não se emociona com pelo menos cinco ou seis canções de Elton e Bernie. Não têm coração. Ou pior, o trocaram por um esnobismo morto e fedido. Pro bem ou pro mal, Your Song criou a figura do cantor sensível e delicado. Odeio esse tipo de molde. Mas sou apaixonado por aquilo que Elton fez durante dez anos.
Era uma cozinha ridícula numa rua fria em Londres. Um moleque bonito de 17 anos escreve uma letra à lápis. Ele conta o que imagina ser o amor. Pois esse moleque nada sabe de meninas ou de amor. Um gordinho reprimido pega esse papel e faz uma melodia. Como ele diz em 2017, foram os 15 minutos mais bem gastos de sua vida.
Deuses olharam aquela cozinha e deram uma piscada para os dois. Fez-se o milagre.
PEIXE GRANDE, LIVRO DE DANIEL WALLACE ( PAI )
Nossa época está jogando no lixo um dos símbolos mais sublmes que a humanidade amou: O Pai. Por culpa de homens fracos e acomodados, ruiu a beleza desse ser que se dividia em dois papéis: O Provedor protetor e o Homem da Lei. Ele era o duro mestre do conceito de realidade e ao mesmo tempo o Maravilhoso Mago que promovia milagres.
Lembro que meu pai era o cara que trouxe um dia uma tartaruga pra casa, e isso foi um milagre. Ele apareceu com um grande carro vermelho e nos levou pela cidade inteira à noite, nos conduzindo por luzes e sombras e vazios imensos. Isso era magia. Quando doente eu me curava ao escutar sua voz em casa e era mandado ao inferno quando ele brigava comigo e me dava um de seus olhares frios. Sim, eu odiei meu pai profundamente. Não houve no mundo alguém que eu tenha odiado tanto. Me senti morrer de tanto ódio. E no entanto, morto a já 12 anos, é dele o amor mais constante e vivo e claro e bonito que sinto. O amor entre pai e filho é sagrado. Diferente do amor de mãe que é só carinho e aconchego, é um amor feito de raiva e disputa, ciúmes e dor, ódio e bondade. A nobreza vive neste campo.
Tim Burton leu este livro quando seu pai morrer e fez o filme para ele. Daniel Wallace o publicou em 1998 e não é um grande livro. Mas é bonito. E eu chorei lendo as últimas cinco páginas. E enquanto chorava tudo que conseguia pensar era Pai eu Te Odeio! Como te odeio, amor da minha vida, desgraça da minha vida, exemplo da minha vida, estúpido, teimoso, frio, amoroso, meu pai.
O livro fala de um filho. Seu pai está à morte e ele recorda das incríveis histórias que seu pai lhe contava. Um pai distante, que viajava só, que voltava e ria de sua próprias piadas. Wallace usa o exagero e a fábula. As histórias são fantásticas. Wallace acerta o tom: é um filho de 40 falando com o sentimento de um filho de 7. E aos 7 anos, até os centavos que seu pai te dá para os doces são moedas mágicas. Elas vêm do mundo lá de fora, daquele mundo vasto e incrível onde seu pai vive. Ele tem a chave.
Meu pai morreu brigado comigo. E a última coisa que ele me disse, horas antes de partir, foi : Filho, me dê um copo de água....Quem ler o livro entenderá porque chorei tanto.
BE COOL
Em 2005 lançaram a continuação do ótimo filme Get Shorty, o nome era Be Cool. Foi, ao contrário do filme de 1995, um fracasso em box office e crítica. Quanto ao espírito cool, foi perdido.
Escrevi no post abaixo sobre a bela fase dos filmes cool feitos nos anos 90. Foi uma década em que o ponto exato desse tipo de produção foi acertada. A raiz do estilo cool são os filmes de assalto e de "golpes" feitos no final dos anos 60 e começo dos anos 70. Trilha sonora, diálogos, tipo de ator, ambientes, tudo é reciclado para o clima do fim do século. Mas, neste bobíssimo filme de F. Gary Gray, a referência deixa de ser Bullit ou O Golpe de John Anderson e se torna o espírito do rap. E o rap ama acima de tudo o Scarface de Al Pacino. Sai Steve McQueen e assume o Pimp.
John Travolta é um péssimo ator sempre que se envolve em um péssimo roteiro. Ele não é o tipo que salva um filme. Seu personagem, Chili Palmer, tão genial no filme anterior, é quase um idiota aqui. Não fala nada que se aproveite, não tem muito o que fazer, serve de escada para uma cantora comum ( Cristina Milian ). Uma Thurman tem ainda menos o que fazer. Os dois têm uma cena de dança medíocre ao som de Sergio Mendes. Homenagem constrangedora à Pulp Fiction. Vince Vaughn faz um produtor de discos que pensa ser um negro. Vice imita Gary Oldman no filme de Tony Scott, aquele com roteiro de Tarantino. Porém, Oldman dá uma atuação de gênio naquele belo filme de 1993. Aqui Vince é Vince, um humorista sem graça. O filme tem ainda Cedric The Entertainer, André do Outkast, e The Rock fazendo um guarda costas gay. Steven Tyler aparece no filme. E rolam 3 clips da tal Milian. Sentiu o anti cool de Be Cool?
Um filme cool jamais faz força para ser engraçado. Nunca tem frases que parecem propositalmente cool. A discrição e o comedimento são a regra. Aqui tudo é festivo. Um desastre.
FILME COOL
No momento em que o Oscar comete seu definitivo harakiri, quero lembrar de um momento genial na história de Hollywood. O filme cool dos anos 90.
Assisti ontem GET SHORTY e ele simboliza bem tudo que foi feito nesse estilo durante a década. Uma trilha sonora esperta e brilhante ( John Zorn mais Morphine com Booker T e US3 ), roteiro baseado em Elmore Leonard, atores carismáticos em papéis malandros e acima de tudo diálogos brilhantes. O filme fala de um agiota que sai de Miami para ser produtor de cinema em LA. Mas, como em todo bom filme cool, o tema não importa, o que vale ouro são os toques, os temperos, os momentos de imenso prazer. Posso falar da barbearia em Miami, a cena, de gênio, de Chili Palmer vendo A Marca da Maldade no cinema, Chili ensinando Martin Weir a interpretar um gangster, o modo como Chili anda e fuma, a morte de Yayo, o diretor B dando nos dentes...são várias cenas que misturam cenários e roupas, som e atores em perfeição. Mas acima de tudo são diálogos inteligentes, que revelam o personagem em ação.
John Travolta tem seu segundo melhor desempenho da vida. O melhor foi em 1977, voce sabe em que filme. Chili Palmer é rei do cool sem parecer caricato. Danny de Vito é o ator narciso, tolo e seguro, bobo e bem sucedido, Gene Hackman está estupendo como o diretor B, é uma mistura de ousadia mentirosa e covardia histérica. Há ainda Rene Russo, bonita e centrada e Delroy Lindo, um bandido que se perde. James Gandolfini tem ótimas cenas como um capanga. Barry Sonnenfeld acerta o tom, nunca tenta ser engraçado, não exagera a violencia, dá ritmo sem jamais correr.
Esse tipo de filme teve seu momento entre 1993-2002. Depois saturou. Começaram a forçar o humor, a encher tudo com sangue, a errar no casting.
HERESIA
Estamos em novo século. E como sempre acontece, este irá desmentir o século anterior. O XIX foi aquele das revoluções e dos romances, da ópera e do panfleto, dos soldados e da ferrovia. O XX foi o da velocidade e da imagem, da aldeia global, do cinema e da TV, da moda para todos e não só para a elite, o século da psicanálise e da new age, da mistureba religiosa e do sexo como atividade puramente física. Século do esporte.
Um século não começa em seu ano 1. O XIX durou até 1918 e o XX tem se misturado ao XXI desde 1990. Mas neste ano o novo tempo se afirma de vez. O XX está morto, e morreu tarde.
A história saberá o que é este tempo quando ele houver acabado. Nossa mente só consegue lidar com aquilo que terminou ou que está congelado. Mas eu arrisco alguns palpites.
Tenho um amigo que nasceu em 1999. E o conheço desde 2010. Estava ontem conversando com ele e falávamos de música. Ele é músico e faz faculdade de artes plásticas. É uma das pessoas com quem mais filosofo. Eu falava do tempo. De que para sua geração o tempo tem um significado diferente. Dei um exemplo musical.
Em 1975 o YES lançou um disco chamado Relayer. No rádio tocava Soon, faixa do disco. Em 1976, Relayer estava morto. Se eu não tivesse comprado o disco em 1975, em 1976 não teria mais como o comprar, e assim, não haveria como o escutar. As coisas passavam, voce as pegava enquanto elas nasciam, observava elas se apagarem e desaparecerem. O único modo de o YES continuar vivo era excursionar sem parar e lançar um novo disco todo ano. Sem isso, em dois anos uma banda era completamente esquecida.
Meu amigo me diz que para ele isso é impensável. Ele descobriu o YES em 2011 e escutou todos os discos em uma semana, POR VONTADE PRÓPRIA. Nenhum crítico musical comentou sobre o grupo velho e ultrapassado. Nenhum amigo indicou ou emprestou discos. Ele simplesmente PESQUISOU.
Posso afirmar então que o poder da crítica ACABOU. Os guardas do bom gosto não apitam mais no trânsito dos desejos. Sou expert para falar disso porque fui um escravo do BOM GOSTO.
Em 1975 disco do YES não tinha vez aqui. Nem Aerosmith ou mesmo Black Sabbath. Eu comprava, SEM ESCUTAR ANTES, aquilo que Okky de Souza ou Big Boy indicavam. Depois, em 1977, seguia Zeca e Ana Maria. Eles ouviam. Eles mandavam comprar. Eu obedecia. Todo garoto que se achava antenado fazia isso. PRECISÁVAMOS DE UM INTERMEDIÁRIO ENTRE NÓS E O OBJETO. Meus amigos não pretensiosos se contentavam em consumir o que rolava no rádio. Mas eu e os nerds de então líamos jornais e nos guiávamos pelos críticos. Cinema era igual.
Falo
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