STEAMPUNK POE....EDGARD ALLAN POE E BASIC + SUMBERAC

Gosto muito do movimento Steampunk. É coisa típica do "final do tempo". Na hiper conectividade da era digital, onde o tempo deixa de fazer sentido, mistura-se era vitoriana com tecnologia dark, maquininhas a vapor com roupas pós-punk, cenários góticos industriais com veículos futuristas. Ìcones? Vapor. Relógios. Vombates. Polvos. Na literatura: Poe e Conan Doyle, Hoffmann e Tieck, Baudelaire e Melville. Adolescentes deprimidos amantes de tecnologia e de filmes góticos de horror misturaram tudo. Dizem sonhar viver em 1860. Mas como não abrem mão de seu PC e de seus jogos, vivem como se houvesse um ontem e hoje sincrônicos. Nada muito profundo. Mas me agrada. Muito. Aos 15 anos eu já vivia dentro desse mundo. Como era um tempo sem PC, eu misturava gótico Morro dos Ventos Uivantes + Poe com rock e TV. Nada é mais gótico que o livro de Bronte. Eis este livro. Alguns contos de Poe com ilustrações de uma dupla croata. Os desenhos são maravilhosos. Infantis ( Peter Pan é um menino steampunk ), dark, ricos em detalhes, escuros, e profundamente eróticos. Não há um só desenho de sexo ou de corpos em poses sensuais, mas as trevas são sempre eróticas. O medo é vizinho do sexo. Nós sabemos disso. Harold Bloom não gosta de Poe. Muito crítico americano acha-o um autor de segunda. Já os franceses acham ele o máximo. Foi Baudelaire quem o fez ficar famoso. Eu o acho um mal escritor. Sua prosa é redundante e pobre. Sua fama vem de seus temas e não de sua arte, de sua execução. Poe mergulhou no gótico, no medo, no horror. Autores alemães e ingleses fizeram o mesmo antes, mas Poe foi mais explícito. O americano aumentou a adrenalina e diminuiu o elitismo. Movimento típico da democracia. No fim do livro há duas traduções de O Corvo. Uma de Machado de Assis. Outra de Fernando Pessoa. O luso dá de 10 a zero. Para quem gosta de Poe aconselho que vá atrás de A Outra Volta do Parafuso, de Henry James.

Casanova



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CASANOVA, MUITO ALÉM DE UM GRANDE SEDUTOR - IAN KELLY

Ao final desta biografia, Ian Kelly diz que Casanova viveu na beira do abismo. Seu mundo morria ao mesmo tempo que sua vida se extinguia. Ele viveu, para Ian Kelly, em um dos raros momentos na história do ocidente, em que a alegria era maior que a tristeza. Nasceu no início dos anos 1700 e morreu nos últimos anos do século. A revolução francesa matou o universo que ele conheceu. O mundo de Casanova é irrecuperável. Para Ian Kelly, ótimo escritor, nosso momento histórico é muito parecido: o mundo que conhecemos termina aqui. E por incrível que pareça, iremos sentir saudades dos últimos 50 anos do século XX. Casanova foi filho de pai e mãe atores venezianos. Nada nobre. Perdeu a virgindade com duas irmãs, aos 17 anos. Sua vida exemplifica o que havia de tão especial em seu tempo. Ele jamais teve uma casa. Nem endereço. Bonito e curioso, aprendeu cinco línguas, travou contatos com as amantes dos nobres e através delas, penetrou nos meios mais seletos da Europa. Não havia fronteiras. Em todos os sentidos. Um homem culto podia e devia estudar física, poesia, música, química e história. Pessoas viajavam sem parar pelo continente. Casanova viveu em Dresden, Paris, Londres, São Petersburgo, Praga, Roma, Veneza, Madrid...Ficou milionário ao criar a loteria francesa ( Lotto ), perdeu tudo em jogo e amantes. Participou de duelos, foi estudioso da Cabala, alquimia, astrologia, numerologia. E escreveu uma auto biografia com 4000 páginas. Ian Kelly a considera uma obra-prima muito adiante de seu tempo. Casanova fala tudo: doenças venéreas, atos sexuais, comida, bebida, jogo, descreve as estradas, a vida dos reis, festas, condições das cidades, e principalmente, se auto analisa. As 4000 páginas foram escritas ao fim da vida e elas antecipam o método psicanálitico, pela primeira vez alguém escreve concientemente para vencer a depressão. Eu consegui achar um dos volumes, são 12, e achei a leitura uma delícia. Há prazer em viver em cada linha. Casanova foi feliz por toda a vida, apenas na velhice, impotente, doente, ele entristeceu e por isso, escreveu. Teve convívio com Voltaire, Mozart, Rousseau, Catarina da Russia, Frederico da Prússia, Louis XV. Fez sexo com mulheres famosas e com empregadas de café. Amava comida, café e chocolate. Dominava a arte da conversa. Foi o molde do que seria o malandro, o safo, o esperto. Fugiu da prisão, foi famoso em todo o mundo,fez sexo a quatro, cometeu incesto, explorou mulheres mais velhas, usou homossexuais apaixonados, tudo sem a menor culpa. Como demonstram tantos romances da época, foi um tempo que conseguia unir a mais depravada vida sexual, com a mais contida etiqueta social. Fazer amor era uma arte para Casanova, e ao contrário de seus colegas de então, ele dizia só fazer sexo quando apaixonado. Casanova antecipou nisso o romantismo. Ele sofreu bastante por amor. Mas era por pouco tempo, ele logo partia para outra. Muitas outras! Ian Kelly ama o personagem de seu livro. E consegue nos fazer ama-lo. Que mais pode se querer de uma biografia? Ian

ONE FINE DAY ( UM DIA ESPECIAL ). CRIANÇAS CRESCERAM E HOJE TÊM 30 ANOS

Esse é aquele filme que voce já viu na Sessão da Tarde. Bem feito, Michael Hoffman dirigiu direitinho. Tem uma dupla adorável, Michelle Pfeiffer e George Clooney. Era a fase em que Clooney imitava Cary Grant. Olhava com o queixo encostado no peito, bufava quando contrariado, deixava a cabeça pender de lado quando pensava. Tudo isso é o carygrant way...No filme ele tem uma filha, e ela um filho. Os dois têm as profissões mais chiques dos anos 90: ela é arquiteta e ele é jornalista. O roteiro faz os dois se odiarem e depois se apaixonarem, tudo em um dia. Mas não é sobre isso que desejo falar. É sobre as crianças. O menino é um pequeno crápula. Ele passa o filme todo sendo "adorável". Faz beicinho, tem saudades do pai, chora, geme e não para um segundo de dar trabalho. Ele quebra coisas, destroi o trabalho da mãe, nunca faz o que ela pede, jamais. E o que a mãe faz? Diz que o ama e o abraça. Mais ou menos 2000 vezes no filme ela diz que o ama!!!!! Anos 90 né? Paz amor e rave. Hoje esse menino tem mais ou menos 30 anos. E é um desses adultos que esperam que a cada erro cometido alguém lhe diga: O mundo te ama cara! Ele desconhece a palavra não. Para ele não existe proibição. Limite? Isso depende da minha vontade bro! One Fine Day pode ser visto como duas crianças tratando seus pais como dois serviçais patéticos.

Tiepolo paintings



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CARNAVAL, TEATRO E VENEZA

Ian Kelly diz que para entendermos o século XVIII devemos ter em mente que ele é definido pelo teatro, pelo carnaval e pela cidade de Veneza. Todas as relações sociais e os costumes são ditados pelo palco. As pessoas se vestem, falam e até mesmo sentem como se tudo fosse um imenso cenário. Isso explica aquelas roupas e perucas, a maquiagem ostensiva e os casos de amor tão cheios de "lances" cômicos e dramáticos, inclusive os duelos e as cartas imensas. No tempo de Shakespeare já havia grande teatro, óbvio, mas voce sabe que o teatro de então era puro texto, sem cenários e grandes construções mecânicas. No século XVIII nascem as divas, as grandes estrelas, e os gigantescos teatros. Veneza por exemplo, tinha um teatro por bairro e ingressos eram dados à população. Não se esqueça de incluir a Ópera como parte disso tudo. Vivia-se e morria-se como numa peça. O carnaval de Veneza, que então começava em outubro e ia até a páscoa, era o ponto máximo dessa teatralidade. Durante quase metade do ano, só se podia andar na rua com máscara. Veneza, a mais irreal das cidades, é o símbolo do século. Fazia-se muito amor, sexual e casto, mas sempre tendo em mente uma performance para um palco. O século seguinte é o do romance, e a vida passa a ser vivida não mais como uma festa sobre um palco, mas sim como se sua vida fosse um livro. As roupas não importam tanto, a maquiagem desaparece, o que vale é "viver", e viver significa ser uma personagem. Voce é um tipo, um caráter, uma figura. Penso que é quase lógico então que o século XX é o do cinema. Todos estamos em um filme ou em um programa de TV. Se no século XVIII era Veneza e Paris, e se depois foi Londre, agora era Nova Iorque e Los Angeles. Decoramos casas, vamos à bares e boates, onde tudo remete à algum filme. Falamos como numa série, ansiamos em ser antes Tarzan, um cowboy, agora um viajante das estrelas ou um rei do crime. Beijamos e sofremos como vimos na tela, compramos roupas de tal tipo de personagem e dirigimos nossos carros como no Texas ou no Arizona. Mas atenção! assim como o tempo do romance vai até os anos de 1920, ainda estamos no final da era da imagem de cinema ou TV. Nascidos em 2000 já estão em outra época. Qual? Em 2030 vamos saber.

JUSTINE - LAWRENCE DURRELL

Talvez voce não saiba, mas nos anos 60 era lawrence Durrell um dos cinco escritores mais famosos do mundo. Ainda em 1984, seu Quinteto de Avignon foi um dos acontecimentos literários do ano. Morreu em 1990, velho e rico, sempre irriquieto. Como Paul Bowles, Durrell foi um desses saxões que correram mundo atrás do sol. Inglês, ele se apaixonou pelo Mediterrâneo, mas não o lado chique desse mar, seu mundo era o lado árabe. Justine se passa em Alexandria e inaugura seu Quarteto de Alexandria. Este livro foi best seller em 1958. Bons tempos em que num ano o best seller era Nabokov e no outro Durrell ou Bellow. Justine conta a história de um inglês que vive no lado paupérrimo de Alexandria. O livro não especifica, mas parecem ser os anos 40. Esse inglês se envolve com uma dançarina do lugar e depois se apaixona por Justine, uma ninfomaníaca casada com um árabe rico. Ela é uma terrivelmente auto destrutiva seguidora do gnosticismo. O mundo do livro é repleto de gays, lésbicas, cirandas de sexo. O estilo é solto, nunca sabemos onde estamos e para onde vamos, o tempo retrocede, avança, para e acelera. Fala-se da gnose, da Cabala, mas o clima é de descrença, dúvida e muito desespero. Não é leitura de prazer, Durrell é difícil, negro, pegajoso, não busca a beleza, ele busca o não morrer. Há calor aqui, mas nunca sensualidade. Durrell relaciona sexo com espírito. A paixão como morte da alma. Na gnose toda a vida da matéria seria um erro, o mundo material como criação de um anjo renegado e não de Deus, que teria criado a alma mas não o mundo visível. Paixão e sexo são matéria e portanto fadados sempre ao erro e a tristeza. Isso é Justine. Se voce usar cadernos culturais de jornal como guia de leitura jamais irá chegar à Durrell. Este não é meu livro favorito dele, mas procure nos sebos da vida.

AMADEUS, FILME DE MILOS FORMAN REVISTO HOJE

Biografias...há alguma que faça justiça ao retratado? As melhores são aquelas que disistem de biografar e passam a criar algo novo a partir do biografado. Não sei se deu pra entender, mas é tipo Lawrence da Arábia: já que lendo seu imenso livro, OS SETE PILARES DA SABEDORIA, nada se descobre sobre ele, e T.E.Lawrence permanece inescrutável, então que se faça uma aventura a partir de Lawrence. Lean e Robert Bolt fizeram então um filme que USA Lawrence, mas que não o BIOGRAFA. Peter Shaffer, autor da peça de sucesso e roteirista deste filme, faz o mesmo. Este filme não mostra de verdadeiro sobre Mozart. Mas homenageia o gênio da música. Nada aqui tem relação com sua vida. Salieri nunca foi um vilão, não tramou contra Amadeus e muito menos o matou. Mozart era feliz, tinha tara por traseiros femininos e adorava falar de fezes e gases. Nisso o filme chega perto, mas ele NÃO ERA um boboca com risos de tonto. Realmente Mozart não tinha o comportamento de um gênio, mas isso por um motivo muito simples: ninguém até sua época tinha. O perfil do gênio veio na geração seguinte à dele, com Byron, Goethe e Beethoven. Antes do tempo dos românticos, gênios como Rembrandt, Leonardo ou Bach eram como Mozart: artesãos preocupados com dinheiro. Produziam. Tinham plena conciência de sua superioridade, mas não carregava nas costas a maldição de ser um gênio, essa invenção egocêntrica de romanticos magoados com o mundo real. Mozart fazia música sabendo ser excelente no que fazia. Fora isso, jogava muito, bebia e era doido pelo traseiro de sua mulher. Suas crises com a nobreza eram as mesmas de qualquer um que deles dependesse. Eu amei este filme quando o vi pela primeira vez, nos anos 80. O visual é magnífico. Hoje jamais fariam um filme com tanto luxo e tanto detalhe. Praga faz o papel de Vienna e é fotografada, por Miroslav Ondriceck, de modo sublime. Para completar, o foco do filme é a música, não há melhor, e ainda temos Twyla Tharp coreografando tudo. Perfeição. Como todo mundo na época, eu era um esteta e o filme foi um estouro de bilheteria. Todo mundo ia ver. Filas. Revi mais duas vezes: na TV nos anos 90 e em dvd já neste século. Sempre gostei. Ontem menos, bem menos. Milos Forman, bom diretor, estraga o filme com sua mão pesada. Salieri demais, Deus demais, século XX demais, paralelos com o partido comunista da Tchekolovakia demais. Assisti pensando: chega de Amadeus como rock star! Chega de Salieri como Dracula! Chega dos reis como líderes do PC Tcheco! Onde está o século XVIII? Não está. Nem mesmo nas cenas de ópera que são coreografadas como shows da Broadway. Tudo seria válido se assumisse sua condição de diversão, de homenagem, de pastiche. Mas não. Forman SEMPRE faz filmes com mensagens. E lá vem mais uma cena pseudo séria com Salieri. Por fim, a cereja do carnaval: Mozart dita seu Requiem para Salieri. Ama deu.

Rod Stewart - I Don't Want To Talk About It (from One Night Only! Live a...



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Al Green- How Can You Mend a Broken Heart (Live on Soul!, 1972)



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Harry Nilsson - Don't Forget Me (Audio)



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AQUELAS CANÇÕES DE AMOR

Eu sei que bandas indie continuam fazendo musiquinhas fofas. E que o rythm n blues ainda tem cantores falando de sexo e namoro. Mas houve um tempo, mais ou menos entre 1969-1979, em que 80% do que vendia muito era sobre o amor romântico, aquele que vem direto dos menestréis. Adolescentes, e mesmo crianças como eu era então, consumiam essas dores de amor. Como dizia Nick Hornby, ninguém passa por isso impunemente. Somos a geração mais vidrada em amores frustrados da história recente. Nós, que hoje temos entre 50-60 anos, somos viciados em amar errado. Hey, foi Cazuza quem disse isso! E ele teria 60 se vivo fosse. Claro que sempre houve música de rádio romantica. Sinatra fez a fama assim. Mas era diferente, era adulta. Por mais que Sinatra em Bewitch sofra, há controle naquilo. Frankie pode estar quase cortando os pulsos, e estava, mas ele mantém a pose. Virilidade era o nome disso. E maturidade também. Era um tempo em que aos 15 anos um moleque acendia um cachimbo e imitava Bing Crosby. Ser adulto era cool. Mas então vieram, adivinha quem, os Beatles. E de repente todo mundo passou a querer ser Peter Pan. E assim, as canções românticas passaram a ter o desespero adolescente. Uma canção de amor não falava mais de um homem e uma mulher, falavam de um garoto e de uma garota. E como todo amor juvenil, o coração se abria na canção. Era ingênuo. Era puro idealismo. E era às vezes lindo de morrer. Daydream Believer dos Monkees foi a primeira canção desse tipo que eu amei. Pasmem, eu tinha 8 anos. Com essa idade eu já me emocionava com o mel dessa canção ( que hoje me parece tão boboca ). Depois veio If, do grupo Bread, aos 9 anos. Acho incrível o fato de como as pessoas amavam essas músicas tão tristes. As tears go by dos Stones, Hamburg dos Procol Harum, Nights in White Satin, dos Moody Blues. São milhares. Aos 12 comecei a colecionar discos e eu amava Elton John por causa de sua melancolia. Eu e toda a torcida do Flamengo. O que Elton vendia era Your Song e Dont Let The Sun Go Down On Me, Goodbye Yellow Brick Road e Candle in the Wind, não seus rocks espertos como Bitch is Back. Nunca vou saber o quanto, mas crescer ouvindo no radio, dia e noite, All By Myself do Eric Carmen e Mandy do Barry Manillow muda sua vida. Mesmo artistas mais frios, mais artísticos, como Bowie ou Lou Reed, tinham seu sucesso garantido pela balada de amor. A hora do choro. A parada da Billboard começava em Without You do Nilsson, em 1972, e ia até My Love, com Paul e Wings. Ter 10 anos de idade era começar a sofrer por amor. Aqui no Brasil era ainda mais forte esse romance de mel e fel. Roberto Carlos, Antonio Marcos, Morris Albert, os sambas de amor de Martinho, Paulinho e Tom e Dito, Benito ah eu vou embora...tinha coisas lindas, de um romantismo sem pudor, assumido, inteiro. Não era uma geração da depressão, era a época do exagero e da histeria, que seja.

OS TEMPLÁRIOS - PIERS PAUL READ

Este livro tem um problema fatal: ele transforma os templários no tema menos interessante de tudo que ele aborda. O autor começa falando dos antecedentes do cristianismo, e isso é muito interessante. Daí ele passa aos primeiros cristãos, e isso é mais interessante ainda. Há uma exposição das várias heresias cristãs, e esse é o mais interessante dos temas, e então vemos o nascimento do islã, interessante mas nem tanto. Quando afinal surgem os templários, na primeira cruzada, nos decepcionamos. O livro cai na monotonia. Piers Paul Read não sabe descrever batalhas, não consegue criar suspense e filosoficamente, em comparação ao que lemos até então, os templários parecem pobres. Os templários eram nobres que foram viver a vida de monges. Com o tempo eles se tornaram cavaleiros religiosos, seguidores de rígidas regras monásticas, que guardavam as rotas dos peregrinos rumo à Jerusalem. Eles eram a guarda mais temida e mais corajosa dentre os cristãos, isso por serem de longe os mais disciplinados. A ordem se tornou rica, começou a emprestar dinheiro aos reis europeus, e não é dificil imaginar que seu fim se deveu à cobiça dos reis. Eles não só deram um calote nos templários como os difamaram e tomaram suas terras. Todas as lendas sobre a ordem templária é difamação pura e simples. O lado bom do autor é que ele nos alerta todo o tempo sobre a diferença fundamental entre 2020 e os anos de 800 à 1.300 = a religião. Nós tendemos a não entender mais a importância que a religião tinha então e transformamos tudo em questão financeira. As cruzadas davam enormes prejuízos à Europa ( sim ! Incrível né ). O que movia os reis e nobres era o medo do inferno. Todos levavam vida de pecado e ir às cruzadas era a garantia de ter seus pecados perdoados. Isso era sério. Era mortal. O que move nossa vida é o dinheiro, mas naquele tempo o que os movia era a religião, e fé era questão de vida eterna. Para nós isso é tão difícil de aceitar como seria para eles entender uma guerra por petróleo. Read dá uma boa explanação sobre Maomé e o islã. Óbvio que ele não os trata como vilões, mas....caramba, é inegável que se trata da religião mais simplificada do mundo. Daí sua popularidade. Já o judaísmo quase é pintado como uma coisa não confiável. O papel dos judeus no livro não fica muito claro. Falei das belas páginas do começo do livro, não falei? São fascinantes. As histórias dos primeiros 500 anos do cristianismo são maravilhosas.

PRA ONDE VAMOS?

A prova de que não há individualidade entre povos antigos, na verdade uma das provas, é que voce não verá entre eles um só menino que se recuse a passar pelas provas de iniciação. Pensando como o grupo pensa, não há sequer a sombra de um NÃO dentro de sua cabeça. E nós sabemos que a individualidade começa pelo uso do não. Assim como não haverá uma mulher que dirá não a seu esposo. Dos vários acertos de Jung, um dos mais brilhantes é o de ter percebido que a modernidade caminha não para a extroversão, mas sim para a introversão. Essa afirmação pode chocar quem pensa superficialmente, pois tendemos a achar nosso tempo interconectado muito mais voltado ao fora que ao dentro. Mas eu te provo nossa interioridade agora... Voce se considera religioso, mas não vai á igreja. Voce crê em Deus, mas no seu Deus interior. Voce não segue o dogma de fora, mas sim aquele que seu íntimo te prescreve. Voce tem uma esposa-esposo, namorada-namorado, mas seu vínculo não é ditado por algum compromisso social, mas sim enquanto o amor durar. Voce acha um absurdo em caso de guerra ter de defender seu país. Não vê onde o fato de morar aqui te obrigue a defender uma terra que nem sua é. Suas diversões se tornam cada vez mais caseiras não é? TV e não cinema. Namoro on line. Jogos on line. Seu corpo físico é apenas um detalhe do exterior, seu sexo é definido pelo seu íntimo. Lá dentro voce se sente mulher, é sua verdade, pouco importando sua carne e muito menos o que os outros pensam ou percebem. Ninguém fora tem o poder de te falar o que seja belo. A beleza vive dentro de sua vontade e de seu gosto íntimo. O mesmo vale para a moral. Voce realmente crê que querer é poder e que seu único inimigo é voce mesmo. Há um grande orgulho no fato de voce achar que dizer não é um ato de afirmação. Pra voce todo governo é ruim. Rua é pra voce um lugar por onde voce precisa passar, e não um lugar para estar. O inferno é cheio de outros. Essa frase, tão tola, de Sartre, te parece hiper correta. O homem é o mal do planeta. Ou seja, tudo que te é externo é ruim, apenas seu interior angelical vale alguma coisa. Toda a história, todas as realizações concretas do homem ativo são lixo. Se todas essas frases não te provarem para onde estamos indo, o mais dentro de dentro, sinto muito. Voce não escuta mais.