Al Green- How Can You Mend a Broken Heart (Live on Soul!, 1972)



leia e escreva já!

Harry Nilsson - Don't Forget Me (Audio)



leia e escreva já!

AQUELAS CANÇÕES DE AMOR

Eu sei que bandas indie continuam fazendo musiquinhas fofas. E que o rythm n blues ainda tem cantores falando de sexo e namoro. Mas houve um tempo, mais ou menos entre 1969-1979, em que 80% do que vendia muito era sobre o amor romântico, aquele que vem direto dos menestréis. Adolescentes, e mesmo crianças como eu era então, consumiam essas dores de amor. Como dizia Nick Hornby, ninguém passa por isso impunemente. Somos a geração mais vidrada em amores frustrados da história recente. Nós, que hoje temos entre 50-60 anos, somos viciados em amar errado. Hey, foi Cazuza quem disse isso! E ele teria 60 se vivo fosse. Claro que sempre houve música de rádio romantica. Sinatra fez a fama assim. Mas era diferente, era adulta. Por mais que Sinatra em Bewitch sofra, há controle naquilo. Frankie pode estar quase cortando os pulsos, e estava, mas ele mantém a pose. Virilidade era o nome disso. E maturidade também. Era um tempo em que aos 15 anos um moleque acendia um cachimbo e imitava Bing Crosby. Ser adulto era cool. Mas então vieram, adivinha quem, os Beatles. E de repente todo mundo passou a querer ser Peter Pan. E assim, as canções românticas passaram a ter o desespero adolescente. Uma canção de amor não falava mais de um homem e uma mulher, falavam de um garoto e de uma garota. E como todo amor juvenil, o coração se abria na canção. Era ingênuo. Era puro idealismo. E era às vezes lindo de morrer. Daydream Believer dos Monkees foi a primeira canção desse tipo que eu amei. Pasmem, eu tinha 8 anos. Com essa idade eu já me emocionava com o mel dessa canção ( que hoje me parece tão boboca ). Depois veio If, do grupo Bread, aos 9 anos. Acho incrível o fato de como as pessoas amavam essas músicas tão tristes. As tears go by dos Stones, Hamburg dos Procol Harum, Nights in White Satin, dos Moody Blues. São milhares. Aos 12 comecei a colecionar discos e eu amava Elton John por causa de sua melancolia. Eu e toda a torcida do Flamengo. O que Elton vendia era Your Song e Dont Let The Sun Go Down On Me, Goodbye Yellow Brick Road e Candle in the Wind, não seus rocks espertos como Bitch is Back. Nunca vou saber o quanto, mas crescer ouvindo no radio, dia e noite, All By Myself do Eric Carmen e Mandy do Barry Manillow muda sua vida. Mesmo artistas mais frios, mais artísticos, como Bowie ou Lou Reed, tinham seu sucesso garantido pela balada de amor. A hora do choro. A parada da Billboard começava em Without You do Nilsson, em 1972, e ia até My Love, com Paul e Wings. Ter 10 anos de idade era começar a sofrer por amor. Aqui no Brasil era ainda mais forte esse romance de mel e fel. Roberto Carlos, Antonio Marcos, Morris Albert, os sambas de amor de Martinho, Paulinho e Tom e Dito, Benito ah eu vou embora...tinha coisas lindas, de um romantismo sem pudor, assumido, inteiro. Não era uma geração da depressão, era a época do exagero e da histeria, que seja.

OS TEMPLÁRIOS - PIERS PAUL READ

Este livro tem um problema fatal: ele transforma os templários no tema menos interessante de tudo que ele aborda. O autor começa falando dos antecedentes do cristianismo, e isso é muito interessante. Daí ele passa aos primeiros cristãos, e isso é mais interessante ainda. Há uma exposição das várias heresias cristãs, e esse é o mais interessante dos temas, e então vemos o nascimento do islã, interessante mas nem tanto. Quando afinal surgem os templários, na primeira cruzada, nos decepcionamos. O livro cai na monotonia. Piers Paul Read não sabe descrever batalhas, não consegue criar suspense e filosoficamente, em comparação ao que lemos até então, os templários parecem pobres. Os templários eram nobres que foram viver a vida de monges. Com o tempo eles se tornaram cavaleiros religiosos, seguidores de rígidas regras monásticas, que guardavam as rotas dos peregrinos rumo à Jerusalem. Eles eram a guarda mais temida e mais corajosa dentre os cristãos, isso por serem de longe os mais disciplinados. A ordem se tornou rica, começou a emprestar dinheiro aos reis europeus, e não é dificil imaginar que seu fim se deveu à cobiça dos reis. Eles não só deram um calote nos templários como os difamaram e tomaram suas terras. Todas as lendas sobre a ordem templária é difamação pura e simples. O lado bom do autor é que ele nos alerta todo o tempo sobre a diferença fundamental entre 2020 e os anos de 800 à 1.300 = a religião. Nós tendemos a não entender mais a importância que a religião tinha então e transformamos tudo em questão financeira. As cruzadas davam enormes prejuízos à Europa ( sim ! Incrível né ). O que movia os reis e nobres era o medo do inferno. Todos levavam vida de pecado e ir às cruzadas era a garantia de ter seus pecados perdoados. Isso era sério. Era mortal. O que move nossa vida é o dinheiro, mas naquele tempo o que os movia era a religião, e fé era questão de vida eterna. Para nós isso é tão difícil de aceitar como seria para eles entender uma guerra por petróleo. Read dá uma boa explanação sobre Maomé e o islã. Óbvio que ele não os trata como vilões, mas....caramba, é inegável que se trata da religião mais simplificada do mundo. Daí sua popularidade. Já o judaísmo quase é pintado como uma coisa não confiável. O papel dos judeus no livro não fica muito claro. Falei das belas páginas do começo do livro, não falei? São fascinantes. As histórias dos primeiros 500 anos do cristianismo são maravilhosas.

PRA ONDE VAMOS?

A prova de que não há individualidade entre povos antigos, na verdade uma das provas, é que voce não verá entre eles um só menino que se recuse a passar pelas provas de iniciação. Pensando como o grupo pensa, não há sequer a sombra de um NÃO dentro de sua cabeça. E nós sabemos que a individualidade começa pelo uso do não. Assim como não haverá uma mulher que dirá não a seu esposo. Dos vários acertos de Jung, um dos mais brilhantes é o de ter percebido que a modernidade caminha não para a extroversão, mas sim para a introversão. Essa afirmação pode chocar quem pensa superficialmente, pois tendemos a achar nosso tempo interconectado muito mais voltado ao fora que ao dentro. Mas eu te provo nossa interioridade agora... Voce se considera religioso, mas não vai á igreja. Voce crê em Deus, mas no seu Deus interior. Voce não segue o dogma de fora, mas sim aquele que seu íntimo te prescreve. Voce tem uma esposa-esposo, namorada-namorado, mas seu vínculo não é ditado por algum compromisso social, mas sim enquanto o amor durar. Voce acha um absurdo em caso de guerra ter de defender seu país. Não vê onde o fato de morar aqui te obrigue a defender uma terra que nem sua é. Suas diversões se tornam cada vez mais caseiras não é? TV e não cinema. Namoro on line. Jogos on line. Seu corpo físico é apenas um detalhe do exterior, seu sexo é definido pelo seu íntimo. Lá dentro voce se sente mulher, é sua verdade, pouco importando sua carne e muito menos o que os outros pensam ou percebem. Ninguém fora tem o poder de te falar o que seja belo. A beleza vive dentro de sua vontade e de seu gosto íntimo. O mesmo vale para a moral. Voce realmente crê que querer é poder e que seu único inimigo é voce mesmo. Há um grande orgulho no fato de voce achar que dizer não é um ato de afirmação. Pra voce todo governo é ruim. Rua é pra voce um lugar por onde voce precisa passar, e não um lugar para estar. O inferno é cheio de outros. Essa frase, tão tola, de Sartre, te parece hiper correta. O homem é o mal do planeta. Ou seja, tudo que te é externo é ruim, apenas seu interior angelical vale alguma coisa. Toda a história, todas as realizações concretas do homem ativo são lixo. Se todas essas frases não te provarem para onde estamos indo, o mais dentro de dentro, sinto muito. Voce não escuta mais.

Wittgenstein Ludwig at a Cambridge class



leia e escreva já!

Bertrand Russell - Mensagem para o futuro. Legendado



leia e escreva já!

A FILOSOFIA NA ALCOVA - MARQUÊS DE SADE

Que lixo medonho! Não falo isso por moralismo, em tempo de filme pornô on line a pornografia de Sade é apenas mais do mesmo. Incesto, crueldade, sujeira, muito sexo anal, homossexualismo de monte, pedofilia, está tudo aqui e dito de modo nú e crú. Mas...que coisa chata! Sade não tem erotismo, é pornografia mecânica. As pessoas são artefatos de madeira que transam sem parar. Entre as ladainhas sexuais há a política de Sade. Ele xinga Jesus Cristo, e com isso xinga família, lei e ordem. Parece um adolescente bem louco de 14 anos em sua primeira farra de sexo, alcool e cocaína. O raciocínio de Sade é primitivo, bárbaro: tudo vale e viva o crime! Ele defende o assassinato, o roubo, a morte de bebes, sexo com os pais etc etc etc...O que me espanta é gente séria o ter em conta. Sade não é sequer um escritor ruim, ele não é um escritor. O que ele faz é propaganda. Como disse, um jovem querendo irritar papai e mamãe. Ele xinga. O tédio se revela até nessa mania, boba, de usar a antiguidade como álibi. Roma fazia isso, a Grécia fazia aquilo, então também posso fazer, eba! Esse tipo de autor sempre faz isso, escolhe no supermercado da história o que lhe absolve. Pega de Roma os bacanais, mas se esquece da obrigação militar; traz dos gregos o homossexualismo, mas "esquece" a noção de virilidade do cidadão. Falar que Cristo era um efeminado que foi sodomizado pelos sábios judeus é apenas uma ofensa tola. Nada significa. Lendo Sade percebo uma ironia dos tempos atuais: conservadores defendem noções de estado e família que na verdade são modernas, e os radicais defendem um tipo de liberdade que na verdade é tão antiga quanto é a barbárie. Todo anarquista sonha com um mundo tribal, mas ele esquece que esse mundo era o reino do medo e da violência como ato legal e cotidiano. Todo conservador sonha com o mundo da civilidade dos costumes, a continuidade do mundo dos avôs, mas ele se esquece que esse mundo não existe mais, e que a história, que ele defende, não pode regridir. Sade era nada mais que um sintoma.

INCONSCIENTE

Vou considerar apenas o DNA. Nada de alma portanto. Por 200 mil anos, no mínimo, vivemos a experiência de ver lobos trucidarem nossos companheiros. E ao anoitecer sentíamos o pavor indizível da hora da fera. Escondidos em árvores e depois em cavernas, encostados, passávamos a noite escutando urros, gritos, guinchos. Todo amanhecer era a alegria de mais uma vitória. Por 200 mil anos, na verdade mais, matávamos quem roubasse nossos grãos, matávamos por nossa área de caça, matávamos por nossa mulher, tomada. Se esperava de nós que assassinássemos bem. Capturamos bichos. Plantamos muito depois, e mesmo como agricultores, lutávamos para manter a terra. Por 200 mil anos, ou mais, bem mais, jogávamos ao lixo nossos bebês defeituosos. Sobrevivia quem podia ajudar a sobreviver, os doentes atrapalhavam. Nossos corações viviam encharcados de adrenalina, nossos ouvidos sempre alerta, prontos para fugir ou para brigar. Todo o tempo. Não havia família. Enquanto fosse forte um homem procriava com quem pudesse. Quando fraco, que se escondesse. Os filhos eram das mulheres, só ao crescer o pai os tomava e os levava à caça. E a guerra. Não havia propriedade. Tudo era do clã. E o clã tinha seu chefe. Esse chefe era aquele que melhor matava. Simples assim. Para poder comer, ou ter um teto, voce se submetia ao clã. A religião era a explicação da vida. Uma defesa contra o medo. A arte era sempre religiosa. Tudo era exterior. Eternamente em luta, não havia tempo de olhar para dentro. Não mais de 5000 anos de civilização como a conhecemos. E civilizar é sempre reprimir. Voce não vai tomar e estuprar sua vizinha. Voce não vai fugir da defesa do grupo. Será mantida uma lei, e ela tem por objetivo dar rumo e ordem ao grupo. A lei necessita história, tradição, costume. Nossa mente começa a ser ocupada por regras, novos hábitos, obrigações. Para onde vai o homem antigo? Para a caverna da mente, a zona escura, o inconsciente. Não se apaga essa herança por simples vontade. Ficou escrito em algum gene: matar, fugir, se esconder, estuprar, grunhir. Medo. Muito medo. Voltando no tempo somos 100 mil pessoas no planeta. Ou menos, claro. Tivemos as mesmas experiências. Por milênios. Somos todos parentes. Temos portanto o mesmo inconsciente. Coletivo. Esse inconsciente está a espreita. Eis ele surgindo em sonho. Numa doença mental. Num ato gratuito. Na arte. Na fala involuntária. No transe. Num crime. Numa guerra. Saúde é conseguir harmonizar consciente-civilização com o inconsciente-barbárie. Como? Nunca pela palavra. Por atos. O inconsciente não fala, faz. Simbolize.

TIPOS PSiCOLÓGICOS - JUNG

"Em épocas arcaicas não havia individualidade. Rousseau estava errado. O homem primitivo não era livre. Ele sofria a pressão da coletividade de forma absoluta." " Esse poder opressor está vivo dentro de nós. Estado e igreja são a exteriorização do poder que internalizamos em nosso passado mais arcaico. O poder dos dois não é tão forte quanto permitimos que seja". " Para a força coletiva nada é mais odioso que a individualidade. Para o barbarismo tudo tem de ser feito para todos. O indivíduo é uma criação da cultura ". " Para o introvertido, Deus é procurado dentro de si mesmo. Para o extrovertido, Deus se encontra no mundo, Ele é um encontro fora de si". " Duas mentalidades opostas: Uma procura fazer do mundo aquilo que ela pensa ser o certo, outra olha o mundo e procura tirar proveito daquilo que se apresenta. São inconciliáveis. " " O individualismo nasce com a creça cristã de que cada um possui uma fagulha divina e que cada um é responsável por sua salvação. " " Uma das certezas mais ilusórias de nosso tempo é crer que a religião pode ser banida de nossa vida com um simples desejo de negação. Ela faz parte de nosso modo de sentir, pensar, e formar nossa ideia de vida. E assim como o paganismo, ela está incrustada em nosso inconsciente". " Artistas e filósofos, os verdadeiros, trazem sua ideia do inconsciente. Têm acessa á essa fonte. Por isso logo o mundo os segue, pois eles apenas antecipam aquilo que o inconsciente pede à todos". " No mundo tecnológico, QUANTO MAIS O HOMEM COLOCA SUA LIBIDO EM SEUS OBJETOS, MENOS LIBIDO ELE TERÁ EM SI MESMO. Haverá um esvaiziamento interno e um excesso de libido na máquina ". Estes são frases coletadas dessa imensa, difícil, compensadora obra de Jung. Lançada em maio de 1920, temos então seus 100 anos. Dos gregos aos primeiros cristãos, depois Schiller, William James, Nietzsche, Schoppenhauer, Spitteler, a cultura de Jung é imensa. Eis um volume que vale por enciclopédia. Procure e leia.

ALMA LIBIDO E ANIMA

Ande comigo minha alma, anima, sombra que espreita minha vida. Se falo demais, então é voce calada, se penso demais, então é voce impulso. Espelho, imagem invertida, se sou viril é voce pura feminilidade. Fértil. Olhe para mim alma que me dá libido, libido que não é sexo apenas, é investimento, energia que injeto em algo que está em mim. Ou não. Mulher que vejo na rua agora, e onde projeto a minha alma. Invisto energia. Libido feito imagem fora de mim. Beijar minha alma em voce. Ouvir minha alma em voce. Unir. Se eu sou a pedra é voce água. Se eu sou mudança é fixa sua presença. Indomável alma, feminina alma, todo homem tem alma mulher, toda mulher tem alma homem, abraça-me. Imagem à janela que me encanta desde que vim ao mundo. Olhar lânguido que é um lago e uma fonte. Alma minha eu sou seu.

DOIS TIPOS DE POETAS

Yeats é um tipo introvertido. Whitman um tipo extrovertido. Yeats vê dentro de sua mente uma paisagem enevoada, e dessa paisagem ele tira uma narrativa. Whitman vê soldados em meio à guerra civil, e disso ele desenvolve sua poesia. Yeats joga sobre a torre, real, em Sligo, aquilo que dentro dele ele vê. Yeats sente que o mundo vive em sua alma. Whitman olha para o mundo e do mundo ele absorve aquilo que dentro dele entrará. Ele é parte do mundo. Yeats acharia Whitman muito ativo demais. Talvez rude demais. Quem sabe até mesmo ríspido. Whitman veria Yeats como um delicado. Egocêntrico demais. Idealista que não sente o gosto do mundo real, como ele é. Todos nós somos os dois, e é claro que os dois tiveram seu lado contrário. Mas um dos lados nos domina por um tempo maior. Nos traimos por nossas ações mais planejadas, pela nossa rotina, pelo que nos interessa. Observe: Yeats não parecia ligar para o sucesso. Whitman queria ser a voz de sua nação. Tudo nele está voltado ao outro, ao cidadão. Yeats escrevia para as fadas. Para si mesmo. E no máximo cinco amigos. Whitman falava com um país inteiro. É arriscado e ingênuo querer falar da personalidade de duas almas tão complexas e distantes de nós. Mas a obra de ambos nos dá essa chance. ( baseado em Jung mas ele não usa esses exemplos )

JUNG, TIPOS PSICOLÓGICOS

Estou lendo o TIPOS PSICOLÓGICOS de Jung. Aviso que não irei destrinchar o livro. Ele é vasto e toda redução o empobreceria demais. Farei vários textos, curtos, em que citarei uma ideia do livro. Voce que pense sobre ela. A obra tem 600 páginas, estou na 170, agora ele analisa Nietzsche e o conceito de Apolo x Dionísio que o alemão escreveu. Antes disso, Jung, sempre uma mente enciclopédica, falou sobre filósofos medievais, gregos primitivos e Schiller. Destaco aqui duas afirmações: 1- A história do mundo e da civilização se explica pela divisão, dentro de nós e fora de nós, entre tipos INTROVERTIDOS E EXTROVERTIDOS. O conflito tem sido insolúvel, e é nessa guerra que se faz a história. Ideal contra prático. O idealista pensa e depois olha o mundo. E busca adaptar o mundo àquilo que ele crê ser a verdade. O prático vê o mundo e depois o conhece. Tenta se adaptar àquilo que o mundo é. Neste momento histórico, se voce pensou em esquerda e direita acertou. Jung, como Schiller e Nietzsche, sabe que são modos de ver o objeto inconciliáveis. Não há comunicação entre essas duas visões. Mas não se engane! Na vida pública hiper exposta e hiper calculada de 2020, o que parece ser introvertido pode ser um extrovertido oportunista; e um que se mostra como extrovertido, ser um idealista confuso. Jung adverte que saber qual seu "time" é ato de muito difícil diagnóstico. Uma dica: auto análise aqui está fadada ao fracasso. 2- A religião surge sempre como criação inconsciente que visa equlibrar o mundo. Desse modo, óbvio que uma religião como a cristã, baseada em amor ao próximo, revela que dentro do homem cristão existe o impulso pelo ódio ao próximo. Jung escreveu em 1920, pós primeira guerra: " Não me surpreende que dentro da civilização do pacifista Jesus Cristo, ocorra a pior das guerras " Imagine o que Jung pensou em 1945! Portanto, Jung sabe que se os gregos, por exemplo, criaram a religião clara e heroica do Olimpo, era porque eles se sentiam acossados por uma vida cheia de medo e de escuridão. E chega aqui.

SONHO E SERRA DO MAR

Alguns momentos em minha infância foram reais, hoje eu sei, mas durante anos me pareceram ser sonhos. O mais fantástico foram as cenas que eu lembrava do filme SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO, de 1932, cenas que vi na TV, talvez aos 4, 5 anos de idade, e que cresci, até os 45 anos, pensando ter sonhado aquelas cenas. Pois bem...sempre que desço a Serra do Mar, seja pela Anchieta ou pela Imigrantes, tento entender de onde tirei as imagens, mágicas, que guardo daquela descida. Vejo dentro da minha memória uma estrada sinuosa, que passava roçando nas folhas das árvores. Um caminho onde eu sentia o cheiro da mata e ouvia, muito de perto, sons de insetos e de pássaros. O carro percorria as curvas com vidros abertos, o bafo úmido da floresta invandindo nossos corpos. Lembro de cachoeiras onde dava quase pra molhar as mãos. Descendo a Serra, lugar que mais amo no mundo, sinto prazer, mas ao mesmo tempo fico intrigado: sonhei esse outro caminho? Vejo no Youtube um video da velha estrada de Santos, aquela que Kipling conheceu. Aqui está meu sonho! Minha mãe assiste comigo e me conta: Sim, até os seus 11 anos era esse o caminho que fazíamos. Seu pai preferia usar a Anchieta, mas todas as vezes que fomos no carro de outras pessoas elas foram por aí, por ser mais bonito. A viagem levava quase 3 horas, contando tudo, e quando voce tinha 7 anos, a primeira vez que voce viu o mar, descemos por aí, de noite, chovendo, numa Kombi. Nunca senti tanto medo....Voce desceu comendo bolachas e rindo. Houve um domingo, eu tinha 9 anos então, em que subíamos para São Paulo, de taxi. Cheio de sono e calor, eu vi macacos nas árvores e enormes pássaros voando tão perto....em certo trecho os galhos caídos de uma árvores roçavam os vidros do velho Chevrolet. Crianças quando felizes sentem essa alegria na barriga. Como um calor suave. A falta de passado faz isso. A satisfação é nova, estala de tão perfeita. Eu fechei os olhos e dormi ouvindo os pneus rolando. Desde então essa é minha imagem da felicidade perfeita.