COMPLEXO DE PORTNOY - PHILIP ROTH ( E UMA PALAVRA SOBRE A ADOLESCÊNCIA )
Acabo de reler Complexo de Portnoy. É um vômito. Não conheço retrato melhor sobre a figura do judeu intelectual americano fim dos anos 60. A voz desse povo era Saul Bellow. Roth aqui se junta a ele. Bellow me parece melhor como artista. Roth tinha mais humor. Este livro é engraçado, muito engraçado; mas é também horrível, trágico e um pesadelo.
Alex Portnoy conta sua vida ao seu terapeuta. Ele fala tudo. Seu ódio ao pai, à mãe, aos amigos, à vida, á Deus. Portnoy odeia. Ele ama odiar e não percebe isso. Há cenas no livro, muito poucas, onde seu lirismo ameaça surgir. Principalmente quando fala do pai. Alex ama seu pai. Mas seu pai é fraco, burro, limitado, uma vergonha. Então ele o odeia. Odeia muito.
Lemos o livro e temos a impressão que Alex passou a vida no banheiro. Cenas e mais cenas de masturbação. E da prisão de ventre do pai. A família, hilária, se encontra em discussões dentro do banheiro. E tudo é motivo para gritos. Alex não come, Alex não tem fé, ele é mal educado e fala coisas sujas. O texto, nervoso, apocalíptico, adolescente até o osso, nos deixa agitados. Ele vomita palavras. Sua vida é uma piada.
Teens são sensíveis. Mesmo os que parecem duros. O coração, ou a mente do jovem está em formação. Absorve tudo e sente as coisas profundamente. Dor e prazer ao cubo. Eu li Complexo de Portnoy aos 14 anos. Foi meu primeiro livro adulto. E agora, o relendo, percebo o quanto ele se gravou em minha alma. Para voce ter uma ideia: Tudo o que imagino que seria " meu romance" é ao estilo deste livro. Sempre que tento criar ficção, me pego escrevendo um Portnoy parte dois sem perceber. Uma confissão apocalíptica.
Passei décadas vendo meu pai como Alex percebe o pai dele. Usei sentimentos e racicínios que estão no livro. Digo, com certeza, que eu seria outro não tivesse comprado Portnoy numa banca de jornais em 1976. Lembro de como o devorei, onde eu estava sentado, como me senti, o clima que fazia então. Vejo, hoje, em 2020, que há frases inteiras de Roth que estiveram gravadas em mim por toda minha vida. Sentenças que eu penso sem saber de onde vieram, como se eu mesmo as houvesse criado. O que lemos aos 14 anos é muito importante. Por isso digo que aquilo que os teens vêm hoje na net se torna parte de suas almas. A coisa é muito séria. Para o bem ou para o mal, Portnoy sou eu. E se não o tivesse lido, seria outro eu.
Com o tempo Philip Roth perdeu muito do que tem aqui. Mas é compreensível, não é possível escrever dois Portnoy. Esta é a confissão sem censura de uma pessoa. A coisa foi feita. Fim. Tudo indica que o Nobel não veio porque não dariam o prêmio a mais um judeu americano falando de sua família judaica. Saul Bellow venceu em 1975. O Nobel é assim.
MEMÓRIAS DE GIACOMO CASANOVA
Divertido. Muito divertido. Casanova não tem sangue nobre, mas vive entre eles como um deles. Seu dinheiro vem de um benfeitor e do jogo. Pode-se dizer que Casanova é um jogador e portanto o amor é para ele uma questão de apostar e vencer.
Para quem tem por volta de 20 anos, é Casanova ainda sinônimo de conquistador? Para minha geração ele é um mito. Há quem ache que ele foi uma lenda, tão imaginário quanto Robin Hood ou Arthur. Mas ele foi real sim, um símbolo dos costumes do século XVIII. Veneziano, ele era mezzo iluminista mezzo monarquista. O centro de sua vida é a mulher e o modo como ele as seduz pode te chocar, mas pense bem...mudamos tanto assim?
O que há de mais chocante é o modo como Casanova trata algumas de suas conquistas. Para as mulheres pobres apenas sexo e desprezo, para as ricas, romance e depois a vida que segue. Dá incomodo forte uma história em que ele pouco se importa com uma possível gravidez. O filho, se vier, que seja dado ao asilo. Sinto asco, mas penso com lógica: Quantos homens ricos eu conheci que já namoraram ou tiveram algo com uma mulher da favela? O abismo de classe mudou? Onde? Quantos não tiveram uma noite de sexo em um baile e depois, por ela ser pobre, cortaram qualquer chance de futuro? Filho? Hoje não se usa o asilo, se paga um aborto e se esquece o caso. Sim meu caro, eu gosto de pensar que o homem não mudou tanto assim. Basicamente somos sempre o mesmo.
Choca também, mas isso eu já sabia, a liberalidade sexual do século de Casanova. Amantes emprestam amantes, namorados se excitam vendo sua amada transar com outro, lesbianismo como parte da educação sexual, freiras devassas, mocinhas de 15 anos espertas, masturbação. É um mundo sem escrúpulos sexuais, mundo que seria censurado, por pouco tempo, pela tal moral burguesa do século XIX. Não se engane leitor, toda pessoa que hoje prega a total liberação sexual é inconscientemente um saudosista. Ele tem a nostalgia do tempo de Casanova. Sexo anônimo em Veneza, entre mascarados, eis algo bem comum na época. Casanova chega a pedir que uma de suas amantes transe vestida de menino. Muito moderno esse italiano!
O livro que leio é apenas o volume dois de suas memórias. No total são cinco volumes grossos. Aqui ele tem entre 24-28 anos. Como toda a elite de então, ele é um homem da Europa. Está em casa na Russia ou na
Espanha, em Viena ou em Paris. Não há fronteiras, não há passaporte, não há patriotismo. Ele é súdito de Veneza porque ama a cidade e ama sua casa real. Apenas isso. Suas memórias são as histórias de alguém que viaja.
Romance? Sim, ele ama e sofre pelas mulheres. Mas nada dura muito. Seus casos mais longos vão do verão ao outono. O que o atrai numa mulher: a beleza. Casanova ama a beleza da mulher. Para ele, em todo
universo, nada se compara a uma bella donna. Mas o livro não é só isso, Casanova é digno de sua época, ele sabe um pouco de tudo. E curioso.
Delicioso.
GIACOMO CASANOVA ( E UM COMETÁRIO SOBRE O TRABALHO À MODA DE RUSSELL )
Vou negociar em um sebo. É uma das coisas que mais gosto de fazer. Com tempo livre hoje, vasculho o imenso sebo e acabo encontrando coisas realmente valiosas. Saibam então que conforme for lendo, logo livros interessantes serão aqui comentados. Já estou lendo as MEMÓRIAS DE CASANOVA. Comecei a lê-lo na cama e não consigo parar. Foram 70 páginas numa levada só.
Creio que infelizmente vocês não acharão essa obra com facilidade. A edição que adquiro é da editora José Olympo, de 1945. Capa dura e páginas escuras de tão velhas. Vejo ser o volume dois. Suas memórias são em cinco volumes. Mas não faz mal, as aventuras do famoso italiano podem ser lidas em qualquer ordem. Aqui tenho os anos de 1750-1760. Ele está em Paris, Dresden e Viena.
Casanova passou a posteridade como sinônimo de atleta sexual, e realmente ele vai à cama de muitas mulheres, casadas ou não, nobres e plebeias. Mas ele é muito mais que isso, ele é um curioso. Inteligente ao extremo, maravilhoso escritor, ele procura conhecer. se interessa por tudo, ele vive plenamente. O livro é acima de tudo um manual de como viver bem.
Os melhores intelectuais do século XX eram apaixonados pelo século XVIII. Não o seu final, a revolução, mas sim seus começos, a época do absolutismo e do iluminismo. Muita gente se diz iluminista sem fazer a menor ideia do que seja isso. Os mais idiotas pensam que significa ser ateu ou então vagamente anarquista. Nada mais absurdo! Voltaire acreditava em Deus mas odiava a igreja. Iluminismo é ser curioso. Esse o passo fundamental: desprezar dogmas em prol de saber mais. Casanova é assim. Ele escreve no fim do seu século, naquele estilo simples e direto de Voltaire, muitas coisas acontecem sem parar, e tudo que lhe importa é saber. Suas conquistas sexuais são simplesmente atos de curiosidade: como aquela mulher ama? Como é seu corpo?
Bertrand Russell disse que a guerra de secessão americana foi acima de tudo a luta entre puritanos do norte e aristocratas do sul. Lendo Casanova um aspecto nos choca: ninguém trabalha! Produzir alguma riqueza é ideia completamente distante. A fortuna vem às toneladas, gasta-se, e não se preocupa com isso. Com tempo livre, todo o tempo do mundo, os piores passam sua vida em fofocas e bebida, jogo e caça. Os melhores vivem adquirindo cultura. Eis Casanova. Para os puritanos ingleses, os mesmos que fizeram os EUA e venceram a guerra civil, nada é mais pecaminoso que a vagabundagem. Mesmo rico, um homem deve trabalhar. É ordem de Deus. Eis a filosofia americana. Observe que mesmo milionários de lá continuam indo ao escritório ou administrando fundações. O playboy ou o sheik árabe que vive só pelo lazer, lá são inimagináveis. Esse modo de viver, republicano, é a grande herança americana. É um país que odeia a nobreza. Não é o caso do Brasil. Nosso sonho é poder viver sem trabalhar. Bem...divago...divago como Casanova faz.
Escrevo mais sobre este delicioso livro em outro post.
Creio que infelizmente vocês não acharão essa obra com facilidade. A edição que adquiro é da editora José Olympo, de 1945. Capa dura e páginas escuras de tão velhas. Vejo ser o volume dois. Suas memórias são em cinco volumes. Mas não faz mal, as aventuras do famoso italiano podem ser lidas em qualquer ordem. Aqui tenho os anos de 1750-1760. Ele está em Paris, Dresden e Viena.
Casanova passou a posteridade como sinônimo de atleta sexual, e realmente ele vai à cama de muitas mulheres, casadas ou não, nobres e plebeias. Mas ele é muito mais que isso, ele é um curioso. Inteligente ao extremo, maravilhoso escritor, ele procura conhecer. se interessa por tudo, ele vive plenamente. O livro é acima de tudo um manual de como viver bem.
Os melhores intelectuais do século XX eram apaixonados pelo século XVIII. Não o seu final, a revolução, mas sim seus começos, a época do absolutismo e do iluminismo. Muita gente se diz iluminista sem fazer a menor ideia do que seja isso. Os mais idiotas pensam que significa ser ateu ou então vagamente anarquista. Nada mais absurdo! Voltaire acreditava em Deus mas odiava a igreja. Iluminismo é ser curioso. Esse o passo fundamental: desprezar dogmas em prol de saber mais. Casanova é assim. Ele escreve no fim do seu século, naquele estilo simples e direto de Voltaire, muitas coisas acontecem sem parar, e tudo que lhe importa é saber. Suas conquistas sexuais são simplesmente atos de curiosidade: como aquela mulher ama? Como é seu corpo?
Bertrand Russell disse que a guerra de secessão americana foi acima de tudo a luta entre puritanos do norte e aristocratas do sul. Lendo Casanova um aspecto nos choca: ninguém trabalha! Produzir alguma riqueza é ideia completamente distante. A fortuna vem às toneladas, gasta-se, e não se preocupa com isso. Com tempo livre, todo o tempo do mundo, os piores passam sua vida em fofocas e bebida, jogo e caça. Os melhores vivem adquirindo cultura. Eis Casanova. Para os puritanos ingleses, os mesmos que fizeram os EUA e venceram a guerra civil, nada é mais pecaminoso que a vagabundagem. Mesmo rico, um homem deve trabalhar. É ordem de Deus. Eis a filosofia americana. Observe que mesmo milionários de lá continuam indo ao escritório ou administrando fundações. O playboy ou o sheik árabe que vive só pelo lazer, lá são inimagináveis. Esse modo de viver, republicano, é a grande herança americana. É um país que odeia a nobreza. Não é o caso do Brasil. Nosso sonho é poder viver sem trabalhar. Bem...divago...divago como Casanova faz.
Escrevo mais sobre este delicioso livro em outro post.
ESTE LADO DO PARAÍSO - F. SCOTT FITZGERALD
Scott teve um azar terrível. Seu primeiro livro, este, lançado em 1920, quando ele tinha apenas 23 anos, foi um sucesso. Criou enorme expectativa sobre o que viria a seguir. Ele foi chamado de coisas como " Símbolo de sua Geração" e de " Futuro autor do Grande Livro Americano". Símbolo ele foi. Hoje a tal "era do jazz" é o tempo de Scott. O Grande Livro Americano dizem que até hoje ninguém o escreveu.
Caramba, já fazem cem anos! O tempo é realmente ilusório. Quando comecei a ler romances, em 1977, cem anos atrás era o tempo de Rimbaud e de Dostoievski. 1977- 1877. Agora, cem anos atrás é Fitzgerald, Joyce e Proust...
Amory Blaine é o centro deste livro. Acompanhamos sua vida dos 8 aos 24 anos de idade. Nasce rico, apegado à mãe, bonita e chique, e distante do pai, pai frio e sem graça. Menino hiper vaidoso, ( o livro ia se chamar A Vida de um Egotista. Max Perkins, seu editor, preferiu Este Lado do Paraíso ), Amory cresce exibicionista, egocêntrico, protegido, mimado, esnobe, chique, farrista, inconsequente. Vai estudar em Princeton. Joga futebol. É bonito e alto. Atrai as meninas. Deveria ser feliz. Todo o romance é ao estilo Henry James. Harold Bloom dizia que Scott era Henry James simplificado, ( Heminguay seria Mark Twain renovado e Faulkner um Melville em novo estilo ), e desse modo, Scott descreve procurando sempre um detalhe que nos surpreenda. Sua prosa é rica, farta, filigranada, e como autor novato, ele às vezes se perde, parece ser tomado por vaidade e exibicionismo, exagera, mas sempre o lemos com gosto e me peguei admirando muito este livro.
Amory deveria ser feliz, mas não é. Ele quer ser especial. Ele quer fazer algo. Mas na verdade não sabe o que. Amory tem talento, mas não tem vontade. Ele não tem força. Desse modo o vemos desfilar pelas páginas sem se envolver muito com nada. Ele parece se apaixonar por algumas meninas, quatro, mas vemos que ele se esquece delas logo ( menos uma, Rosalind, a única que feriu sua vaidade ). Achamos que ele ama seus amigos, mas se cansa deles rapidamente. A mãe morre e ele pouco reage, e mesmo a pessoa que ele mais respeita, um cardeal católico, quando falece, Amory sente no funeral uma certa liberação. Nada em Amory parece real, tudo é estilo, tudo é pose. Fake.
Várias vezes Amory fala mal dos poseurs, mas ele é o maior dos poseurs. Ele posa de criança amorosa, depois de estudante inadaptado, então vira o ídolo do esporte, o bêbado boêmio, o bom partido, vira um poeta de futuro, vai para a guerra, se torna um apaixonado desesperado, e termina o livro como um socialista pobre. Mas nada disso parece ser Amory Blaine. Ou melhor, ele é nada disso.
A juventude da época amou o estilo de vida do romance. Se identificaram. Viam em Amory o anti século XIX. Se antes tudo era certeza vitoriana, solidez, aqui estava um jovem que era tudo e nada. Sem compromisso, sem certeza alguma, sem rumo nenhum. Viram nele uma existência de festas e loucuras, de amores descompromissados e luxo sem fim. Esse novo homem, vazio, já tinha sido anunciado em autores menos populares, foi Fitzgerald quem deu popularidade ao tipo e o colocou no meio universitário. O novo jovem não era da boemia, ele era o cara de Princeton. Em 1980 ele ainda era o cara predominante. Seu lema era o famoso "Não sei o que desejo, mas sei aquilo que não quero". Amory Blaine vive esse lema integralmente. Em 1920, isso era muito, muito novo. Tudo que ele quer é esquecer o seu vazio e para isso ele inventa uma personalidade e procura, toda noite, por algum inédito prazer.
Em 2020 não é mais assim. Um jovem hoje sabe o que deseja. Mesmo que seja um querer imposto à ele, sua mente e seu coração estão comprometidos com algum desejo. "Sei o que desejo e sei o que não quero". Voltemos ao livro...
Scott Fitzgerald passou os próximos 15 anos vivendo como Amory Blaine. Ele escreveu seu próprio perfil neste livro. Muito autor faz isso. O problema é que ele não foi adiante. Escreveria Gatsby, livro ainda melhor, Suave é a Noite, excelente, mas continuou a viver e a querer ser, para sempre, Amory Blaine. Até nisso Fitzgerald antecipa tudo o que todos fariam nas décadas futuras do século: Scott jamais quis sair da universidade. Adolescência para sempre. Ter um futuro imenso e passado bem curto. Joyce, por exemplo, começa como ele, Retrato do Artista quando Jovem é seu Este Lado do Paraíso. Mas depois ele larga isso e vira adulto. Ulysses é um livro de um homem de 40 anos. E ao fim da vida Joyce escreve como um velho marujo de 90 anos. Até Heminguay encarou a idade e aos trancos e barrancos se tornou um homem de meia idade machão. Fitzgerald não. Apaixonado por aquilo que ele foi aos 20 anos, jamais saiu dessa armadilha. Um lamentável desperdício. Como prova este livro, seu talento era sem limite. Mas sua nostalgia o matou.
Caramba, já fazem cem anos! O tempo é realmente ilusório. Quando comecei a ler romances, em 1977, cem anos atrás era o tempo de Rimbaud e de Dostoievski. 1977- 1877. Agora, cem anos atrás é Fitzgerald, Joyce e Proust...
Amory Blaine é o centro deste livro. Acompanhamos sua vida dos 8 aos 24 anos de idade. Nasce rico, apegado à mãe, bonita e chique, e distante do pai, pai frio e sem graça. Menino hiper vaidoso, ( o livro ia se chamar A Vida de um Egotista. Max Perkins, seu editor, preferiu Este Lado do Paraíso ), Amory cresce exibicionista, egocêntrico, protegido, mimado, esnobe, chique, farrista, inconsequente. Vai estudar em Princeton. Joga futebol. É bonito e alto. Atrai as meninas. Deveria ser feliz. Todo o romance é ao estilo Henry James. Harold Bloom dizia que Scott era Henry James simplificado, ( Heminguay seria Mark Twain renovado e Faulkner um Melville em novo estilo ), e desse modo, Scott descreve procurando sempre um detalhe que nos surpreenda. Sua prosa é rica, farta, filigranada, e como autor novato, ele às vezes se perde, parece ser tomado por vaidade e exibicionismo, exagera, mas sempre o lemos com gosto e me peguei admirando muito este livro.
Amory deveria ser feliz, mas não é. Ele quer ser especial. Ele quer fazer algo. Mas na verdade não sabe o que. Amory tem talento, mas não tem vontade. Ele não tem força. Desse modo o vemos desfilar pelas páginas sem se envolver muito com nada. Ele parece se apaixonar por algumas meninas, quatro, mas vemos que ele se esquece delas logo ( menos uma, Rosalind, a única que feriu sua vaidade ). Achamos que ele ama seus amigos, mas se cansa deles rapidamente. A mãe morre e ele pouco reage, e mesmo a pessoa que ele mais respeita, um cardeal católico, quando falece, Amory sente no funeral uma certa liberação. Nada em Amory parece real, tudo é estilo, tudo é pose. Fake.
Várias vezes Amory fala mal dos poseurs, mas ele é o maior dos poseurs. Ele posa de criança amorosa, depois de estudante inadaptado, então vira o ídolo do esporte, o bêbado boêmio, o bom partido, vira um poeta de futuro, vai para a guerra, se torna um apaixonado desesperado, e termina o livro como um socialista pobre. Mas nada disso parece ser Amory Blaine. Ou melhor, ele é nada disso.
A juventude da época amou o estilo de vida do romance. Se identificaram. Viam em Amory o anti século XIX. Se antes tudo era certeza vitoriana, solidez, aqui estava um jovem que era tudo e nada. Sem compromisso, sem certeza alguma, sem rumo nenhum. Viram nele uma existência de festas e loucuras, de amores descompromissados e luxo sem fim. Esse novo homem, vazio, já tinha sido anunciado em autores menos populares, foi Fitzgerald quem deu popularidade ao tipo e o colocou no meio universitário. O novo jovem não era da boemia, ele era o cara de Princeton. Em 1980 ele ainda era o cara predominante. Seu lema era o famoso "Não sei o que desejo, mas sei aquilo que não quero". Amory Blaine vive esse lema integralmente. Em 1920, isso era muito, muito novo. Tudo que ele quer é esquecer o seu vazio e para isso ele inventa uma personalidade e procura, toda noite, por algum inédito prazer.
Em 2020 não é mais assim. Um jovem hoje sabe o que deseja. Mesmo que seja um querer imposto à ele, sua mente e seu coração estão comprometidos com algum desejo. "Sei o que desejo e sei o que não quero". Voltemos ao livro...
Scott Fitzgerald passou os próximos 15 anos vivendo como Amory Blaine. Ele escreveu seu próprio perfil neste livro. Muito autor faz isso. O problema é que ele não foi adiante. Escreveria Gatsby, livro ainda melhor, Suave é a Noite, excelente, mas continuou a viver e a querer ser, para sempre, Amory Blaine. Até nisso Fitzgerald antecipa tudo o que todos fariam nas décadas futuras do século: Scott jamais quis sair da universidade. Adolescência para sempre. Ter um futuro imenso e passado bem curto. Joyce, por exemplo, começa como ele, Retrato do Artista quando Jovem é seu Este Lado do Paraíso. Mas depois ele larga isso e vira adulto. Ulysses é um livro de um homem de 40 anos. E ao fim da vida Joyce escreve como um velho marujo de 90 anos. Até Heminguay encarou a idade e aos trancos e barrancos se tornou um homem de meia idade machão. Fitzgerald não. Apaixonado por aquilo que ele foi aos 20 anos, jamais saiu dessa armadilha. Um lamentável desperdício. Como prova este livro, seu talento era sem limite. Mas sua nostalgia o matou.
HARD RAIN - BOB DYLAN E A ROLLING THUNDER REVUE
1976 foi o ano mais legal do século XX. O filme do Richard Linklater, Dazed and Confused diz isso. E todo mundo tipo Tarantino, Anderson e Burton concorda comigo. Well...voce pode dizer: Vocês acham isso porque em 1976 tinham 12, 15 anos...OK. Daí eu te respondo: Faz as contas e veja em que ano voce tinha 12. E me conta: Voce acha que foi o melhor ano de todos?
1976 foi cool porque via o nascimento de disco e punk ao mesmo tempo. Não era mais hippie, mas ainda era free. Foi nascimento da moda esporte também, principalmente skate e surf. Essas duas ondas ainda eram alternativas. O cinema clássico ainda estava vivo, mas já era moda Spielberg, Lucas, Alan Parker tava dando as caras, assim como Ridley Scott, John Carpenter, James Cameron, e a comédia tipo Saturday Night Live. Os atores quentes eram Paul Newman, Al Pacino, Burt Reynolds e Clint Eastwood. Em 1976 ver TV era muito bom, apesar de só ter 6 canais. Tinha uma montanha de séries: Baretta, Kojak, Columbo, SWAT, As Panteras, Starsky e Hutch, Cannon, O Homem do Fundo do Mar, MASH, Kolchak, Bill Cosby, Mary Tyler Moore, Happy Days.
1976 foi o bicentenário dos EUA e houve festa o ano todo por lá. Pra comemorar, BOB DYLAN excursionou o ano inteiro dentro do país. Ele tocou em New York, mas também em cafundós do Idaho ou de Iowa. A excursão recebeu o nome de The Rolling Thunder Revue e muita gente seguiu ele por todo o país. Dylan comemorou a América como cowboy, Whitman e beatnik, tudo ao mesmo tempo. Ele levava uma banda fixa de cinco músicos, mas dependendo do lugar, às vezes tinha 30 pessoas no palco. Alguns shows contaram com Neil Young. Outros com Joni Mitchell. Teve show com Van Morrison. Ou Gordon Lightfoot. Paul Simon. Robbie Robertson ou Neil Diamond. Os shows duravam 4, 5 horas. Não tinha roteiro. Podia acontecer até um desastre em meio a erros e chuva pesada.
Gravaram um disco. Hard Rain. Eu o comprei em maio de 1977. Matando aula, tava frio pacas. Fui numa loja de discos, faz tempo, ainda existia isso, na rua Teodoro Sampaio, e peguei um Eric Clapton, No Reason to Cry, um Robin Trower, Live, e o Hard Rain. Odiei. Muita gente odiou. A mixagem do disco era horrenda! Som de lata, de radinho de pilha. Era impossível ouvir aquela bagunça onde a voz zumbia como um pernilongo rouco e a bateria havia sumido. Era um disco sujo, porco, mal feito. Recordes de devolução. Fiquei puto. Foi meu primeiro Dylan e abominei.
1976 foi época de muito gibi. O Homem Aranha e O Demolidor estavam em fase ótima! A Abril tinha umas 15 revistas mensais e a EBAL mais de 25. Era quadrinho de monte! De Tarzan à Mandrake, eu lia tudo. E ainda colecionava as revistas de mulher pelada: Homem, Status, Ele e Ela, Fiesta e Lui. A gente ficava muito na rua.
2020 tem uma pandemia. E eu pego num sebo o cd de Hard Rain. Meu vinyl de 1976 eu troquei faz séculos. Ouço. Mick Ronson, da banda do Bowie, toca em Maggies Farm. Quer saber? Bob nunca esteve tão bem. Aos 36 anos ele estava tinindo. Quer saber? Minha imagem da América é o país de 1976: Josey Wales nas telas e os Eagles em primeiro lugar nas paradas. Dr J nas quadras.
1976 nunca acabou não é?
1976 foi cool porque via o nascimento de disco e punk ao mesmo tempo. Não era mais hippie, mas ainda era free. Foi nascimento da moda esporte também, principalmente skate e surf. Essas duas ondas ainda eram alternativas. O cinema clássico ainda estava vivo, mas já era moda Spielberg, Lucas, Alan Parker tava dando as caras, assim como Ridley Scott, John Carpenter, James Cameron, e a comédia tipo Saturday Night Live. Os atores quentes eram Paul Newman, Al Pacino, Burt Reynolds e Clint Eastwood. Em 1976 ver TV era muito bom, apesar de só ter 6 canais. Tinha uma montanha de séries: Baretta, Kojak, Columbo, SWAT, As Panteras, Starsky e Hutch, Cannon, O Homem do Fundo do Mar, MASH, Kolchak, Bill Cosby, Mary Tyler Moore, Happy Days.
1976 foi o bicentenário dos EUA e houve festa o ano todo por lá. Pra comemorar, BOB DYLAN excursionou o ano inteiro dentro do país. Ele tocou em New York, mas também em cafundós do Idaho ou de Iowa. A excursão recebeu o nome de The Rolling Thunder Revue e muita gente seguiu ele por todo o país. Dylan comemorou a América como cowboy, Whitman e beatnik, tudo ao mesmo tempo. Ele levava uma banda fixa de cinco músicos, mas dependendo do lugar, às vezes tinha 30 pessoas no palco. Alguns shows contaram com Neil Young. Outros com Joni Mitchell. Teve show com Van Morrison. Ou Gordon Lightfoot. Paul Simon. Robbie Robertson ou Neil Diamond. Os shows duravam 4, 5 horas. Não tinha roteiro. Podia acontecer até um desastre em meio a erros e chuva pesada.
Gravaram um disco. Hard Rain. Eu o comprei em maio de 1977. Matando aula, tava frio pacas. Fui numa loja de discos, faz tempo, ainda existia isso, na rua Teodoro Sampaio, e peguei um Eric Clapton, No Reason to Cry, um Robin Trower, Live, e o Hard Rain. Odiei. Muita gente odiou. A mixagem do disco era horrenda! Som de lata, de radinho de pilha. Era impossível ouvir aquela bagunça onde a voz zumbia como um pernilongo rouco e a bateria havia sumido. Era um disco sujo, porco, mal feito. Recordes de devolução. Fiquei puto. Foi meu primeiro Dylan e abominei.
1976 foi época de muito gibi. O Homem Aranha e O Demolidor estavam em fase ótima! A Abril tinha umas 15 revistas mensais e a EBAL mais de 25. Era quadrinho de monte! De Tarzan à Mandrake, eu lia tudo. E ainda colecionava as revistas de mulher pelada: Homem, Status, Ele e Ela, Fiesta e Lui. A gente ficava muito na rua.
2020 tem uma pandemia. E eu pego num sebo o cd de Hard Rain. Meu vinyl de 1976 eu troquei faz séculos. Ouço. Mick Ronson, da banda do Bowie, toca em Maggies Farm. Quer saber? Bob nunca esteve tão bem. Aos 36 anos ele estava tinindo. Quer saber? Minha imagem da América é o país de 1976: Josey Wales nas telas e os Eagles em primeiro lugar nas paradas. Dr J nas quadras.
1976 nunca acabou não é?
UMA DAS PIORES PRAGAS DOS ANOS 70
Em sites atuais, gente da minha geração, e de gerações bem mais novas também, tecem loas ao disco ao vivo. Tem até rankings, vários, que vão da Rolling Stone à All Music. Da BBC ao Times. Gostam de falar que bandas mais recentes não lançavam e não lançam discos ao vivo porque em shows não criam nada, apenas repetem o que foi já gravado. Acho que não. Penso que pararam de lançar Live In Concert a partir dos anos 90 simplesmente porque o DVD com o show se popularizou. Tão simples isso...
Nos anos 70 TODA banda e todo cantor lançava pelo menos um disco ao vivo. Ás vezes a cada 4 anos. 90% era um lixo. Lixo mesmo! E o motivo era simples: cocaína. A maioria desses discos são ego trips movida a pó. Músicas de 3 minutos viram exibicionismos de 15 ou mais minutos insuportáveis. Nem na época, com 12 anos de idade, eu suportava isso.
Tudo começou, claro, nos anos 60. E a culpa é de Eric Clapton. Cream foi a primeira banda a pegar uma musiquinha linda, pop, perfeita, e no palco esticar essa canção em até meia hora de "viagem cara, viagem"... Em alguns blues, como Crossroads, a coisa até fica legal, mas quando eles fazem Toad durar vinte minutos...aí o saco explode. Grateful Dead veio logo na cola. Há quem pense que foi a banda de Jerry Garcia quem inventou o ego trip. Mas não. Jerry pegou de Eric. O Dead explodiu ainda mais, tinha canção ao vivo que durava duas horas. Sim baby, duas malditas horas de improviso sem fim. Tem um disco deles, LIVE DEAD, com o pior solo de bateria já gravado. Há quem adore.
Ando ouvindo tudo que tenho, e hoje tentei ouvir dois discos que estão sempre entre os 10 mais citados entre os melhores ao vivo da história. LIVE AT FILLMORE EAST, dos Allman Brothers é geralmente o número um para os críticos, e MADE IN JAPAN, voce sabe de quem, é o mais citado como number one para o povo da Harley e barriga. O disco do Allman consegui escutar quase todo inteiro. O outro...só a primeira faixa. Deep Purple toca 7 músicas em um disco duplo, sendo que Starstrucker, que é uma ótima faixa, dura aqui 20 minutos e se torna insuportável. Um lado de vinyl inteiro. Pra quê??? Ego trip pura. The Mule tem um solo de bateria de uns 10 minutos. Ian Paice é jazzy, é excelente, e eu amo bateria. Mas o limite são 3 minutos. No máximo 3, por favor. Não há baterista, nem Buddy Rich, que mantenha o nosso interesse ligado solando por mais de 3 minutos.
O disco dos Allman Brothers, de 1971, é super amado. Por que??? Sim, é uma delicia o som da banda. Duane Allman é um mito e Derek Trucks, o outro guitarrista, é tão bom quanto. Greg Allman canta de verdade, tem voz, mas caramba!!!!! Pra que essa mania de parar tudo e ficar uma guitarra tocando solo à procura de um riff??? Whipping Post é mágica, mas não em 15 minutos!!!!!! De qualquer modo, ele é infinitamente melhor que Made in Japan.
Ah ! Ouvi também o disco ao vivo de Bob Dylan de 1976, Hard Rain. Postei video do show. Olhe.
Pior disco ao vivo dos anos 70? O do Led, claro. THE SONG REMAINS THE SAME é o mais ego dos egos. Eles não fazem música, apenas se exibem. O disco triplo dos Wings, de 1977 também é um horror. Mas que tal falar dos melhores?
ITS ALIVE! dos Ramones, 1977. Tem 28 faixas. 2 minutos cada uma. Talvez o melhor ao vivo de todos os tempos.
Viva! do Roxy Music. De 1976. Sem solos longos. Todas as faixas estão melhores que as originais.
Rory Gallagher, Irish Live! de 1974. Muito amado em listas de melhores. É realmente ótimo.
The Who live at Leeds, de 1970. Tem muito bla bla bla entre as faixas. Mas tem energia pra caramba. A versão de my generation é muito longa, mas não por causa de solos, são arranjos enfiados no meio da música. Funciona.
Wellcome to the Canteen, do Traffic. De 1971. Muito bom.
Tem ainda discos legais ao vivo do Robin Trower, The Band com Bob Dylan, um grupo com Eno e Manzanera, o do Bob Marley é ok. MC5, ótimo. Foghat ao vivo, muito bom.
Ah!!!! Fuja de David Bowie. Os dois ao vivo da década são muito ruins. O ao vivo dos Faces é das coisas mais nada a ver já gravadas. E é óbvio que estou ignorando as bandas progressivas. Nunca ouvi. Nem vou. Lou Reed também lançou dois ao vivo nesse tempo. Ruins. E tem Metallic KO do Iggy, que apesar do nome ótimo, é insuportável. E chega que este solo já deu né não?
PS: pode ouvir GET YER YAS YAS OUT. A versão de Midnight Rambler vale o disco. Mas que diabos Mick!!!! Pra que tanto disco ao vivo na carreira??
Nos anos 70 TODA banda e todo cantor lançava pelo menos um disco ao vivo. Ás vezes a cada 4 anos. 90% era um lixo. Lixo mesmo! E o motivo era simples: cocaína. A maioria desses discos são ego trips movida a pó. Músicas de 3 minutos viram exibicionismos de 15 ou mais minutos insuportáveis. Nem na época, com 12 anos de idade, eu suportava isso.
Tudo começou, claro, nos anos 60. E a culpa é de Eric Clapton. Cream foi a primeira banda a pegar uma musiquinha linda, pop, perfeita, e no palco esticar essa canção em até meia hora de "viagem cara, viagem"... Em alguns blues, como Crossroads, a coisa até fica legal, mas quando eles fazem Toad durar vinte minutos...aí o saco explode. Grateful Dead veio logo na cola. Há quem pense que foi a banda de Jerry Garcia quem inventou o ego trip. Mas não. Jerry pegou de Eric. O Dead explodiu ainda mais, tinha canção ao vivo que durava duas horas. Sim baby, duas malditas horas de improviso sem fim. Tem um disco deles, LIVE DEAD, com o pior solo de bateria já gravado. Há quem adore.
Ando ouvindo tudo que tenho, e hoje tentei ouvir dois discos que estão sempre entre os 10 mais citados entre os melhores ao vivo da história. LIVE AT FILLMORE EAST, dos Allman Brothers é geralmente o número um para os críticos, e MADE IN JAPAN, voce sabe de quem, é o mais citado como number one para o povo da Harley e barriga. O disco do Allman consegui escutar quase todo inteiro. O outro...só a primeira faixa. Deep Purple toca 7 músicas em um disco duplo, sendo que Starstrucker, que é uma ótima faixa, dura aqui 20 minutos e se torna insuportável. Um lado de vinyl inteiro. Pra quê??? Ego trip pura. The Mule tem um solo de bateria de uns 10 minutos. Ian Paice é jazzy, é excelente, e eu amo bateria. Mas o limite são 3 minutos. No máximo 3, por favor. Não há baterista, nem Buddy Rich, que mantenha o nosso interesse ligado solando por mais de 3 minutos.
O disco dos Allman Brothers, de 1971, é super amado. Por que??? Sim, é uma delicia o som da banda. Duane Allman é um mito e Derek Trucks, o outro guitarrista, é tão bom quanto. Greg Allman canta de verdade, tem voz, mas caramba!!!!! Pra que essa mania de parar tudo e ficar uma guitarra tocando solo à procura de um riff??? Whipping Post é mágica, mas não em 15 minutos!!!!!! De qualquer modo, ele é infinitamente melhor que Made in Japan.
Ah ! Ouvi também o disco ao vivo de Bob Dylan de 1976, Hard Rain. Postei video do show. Olhe.
Pior disco ao vivo dos anos 70? O do Led, claro. THE SONG REMAINS THE SAME é o mais ego dos egos. Eles não fazem música, apenas se exibem. O disco triplo dos Wings, de 1977 também é um horror. Mas que tal falar dos melhores?
ITS ALIVE! dos Ramones, 1977. Tem 28 faixas. 2 minutos cada uma. Talvez o melhor ao vivo de todos os tempos.
Viva! do Roxy Music. De 1976. Sem solos longos. Todas as faixas estão melhores que as originais.
Rory Gallagher, Irish Live! de 1974. Muito amado em listas de melhores. É realmente ótimo.
The Who live at Leeds, de 1970. Tem muito bla bla bla entre as faixas. Mas tem energia pra caramba. A versão de my generation é muito longa, mas não por causa de solos, são arranjos enfiados no meio da música. Funciona.
Wellcome to the Canteen, do Traffic. De 1971. Muito bom.
Tem ainda discos legais ao vivo do Robin Trower, The Band com Bob Dylan, um grupo com Eno e Manzanera, o do Bob Marley é ok. MC5, ótimo. Foghat ao vivo, muito bom.
Ah!!!! Fuja de David Bowie. Os dois ao vivo da década são muito ruins. O ao vivo dos Faces é das coisas mais nada a ver já gravadas. E é óbvio que estou ignorando as bandas progressivas. Nunca ouvi. Nem vou. Lou Reed também lançou dois ao vivo nesse tempo. Ruins. E tem Metallic KO do Iggy, que apesar do nome ótimo, é insuportável. E chega que este solo já deu né não?
PS: pode ouvir GET YER YAS YAS OUT. A versão de Midnight Rambler vale o disco. Mas que diabos Mick!!!! Pra que tanto disco ao vivo na carreira??
ENQUANTO HOUVER CHAMPANHE, HÁ ESPERANÇA - JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS. UMA BIOGRAFIA DE ZÓZIMO BARROZO DO AMARAL
Seiscentas páginas sobre um colunista social? Há tanto assunto assim? Se for o Zózimo, há. Não que a vida dele tenha sido uma aventura. Ele nasceu rico, na zona sul do Rio, em 1941. Cresceu entre Jockey Clube e Gávea, Lagoa e Ipanema. Dinheiro novo? Não. Ele era chique. Falava francês como quem fala português. Voz educada, sempre bem vestido. Bonito. O livro começa bem, fala das origens da família, fala do pai, apelido Boy. Aquele tempo que adoro ler: Rio de Janeiro anos 50, a ilusão de que aquela era a cidade mais civilizada do mundo. Boy aprontava muito! É divertido de ler.
Depois o livro cai um pouco. O autor entra na armadilha. Mais um jornalista com saudade da bossa nova de daquele povo do começo da ditadura. Enche o saco ler de novo como aqueles caras eram legais. " A gente era preso mas dava risada"...Pois é.
Mas volta a ficar legal, o livro, quando volta à história do Zózimo. Coluna social era Ibrahim Sued. Quem é da minha geração sabe: Ibrahim era tão famoso quanto Chacrinha. Nasceu pobre e turco, ralou muito, virou rico e orgulhoso. Falava dos jantares. Das festas. E às vezes uma fofoca sobre grana de política. Antes ainda houve Jacintho de Tormes. Uma delícia. Mega esnobe. Texto à Oscar Wilde. Culto pacas.
Então em 1969 veio Zózimo. De berço nobre. Falava dos amigos. Carmen Mayrinck, Baby Pignatari, Guinle, Duda, dinheiro velho, dinheiro muito, alta educação. O diferencial de Zózimo? Ele fazia o povo sorrir. Sua coluna era pra começar do dia com um sorriso na boca. Além do que, ele falava do Rio inteiro, de como se devia viver, era guia de estilo. No JB. O livro é cheio de textos dele, o melhor escritor brasileiro em 3 linhas.
Fico feliz ao saber que Telmo Martino, meu jornalista favorito, era amigo e ídolo de Zózimo. Eu li Telmo no JT aqui em SP. De 1977 a 1981. Não houve nada melhor. Ele me civilizou. Telmo nos fazia rir e ao mesmo tempo nos fazia querer ser como ele: witty. Muito do que penso, escrevo e gosto tem a marca dele. Telmo Martino e Paulo Francis, meus gurus forever.
Voce acha que a rivalidade esquerda direita é muito forte hoje? Sabia que Millôr disse que não confiaria no Chico Buarque nem pra ir na esquina com seu cachorro? E que Chico cuspiu em Millôr? Pois é. Tá no Zózimo. Para ele, Brizola matou o Rio. Era um homem que odiava tudo que o Rio tinha de bom, e em seu governo desconstruiu a cidade. O Rio pós Brizola era outra. Suja, quebrada e sem identidade. Refém do tráfico. Zózimo não era direita. Nem esquerda. Era liberal. Circulava pelos dois lados.
No elenco do livro tem Miriam Leitão ( chamada de gata e de conservadora...??? ), Ricardo Boechat ( sim, ele mesmo, foi assistente de Ibrahim e de Zózimo ), Elio Gaspari, Augusto Nunes, Fred Suter ( uma figuraça, carioca e malufista, super esnobe, engraçado e mal humorado ), e mais aquela turma de playboys estrangeiros, atores e atrizes, milionários discretos e deslumbrados bregas.
Daí um dia, nos anos 80, Zózimo cansa. As festas agora são pobres. A bebida é de segunda, a comida é comum, as pessoas não sabem conversar. O trabalho vira um porre. Tudo sempre igual, as mesmas caras nos mesmos lugares. Muita cocaína nas festas. O pó tomou o lugar do caviar. As reuniões não eram mais nas casas, eram em boates. Surge a celebridade, o famoso, e Zózimo começa a beber, muito. Os capítulos finais são de decadência física. Vai para O Globo a peso de ouro. 45 mil dólares de salário. Mas o Rio morreu e ele com a cidade. Chega a dizer o impensável: Que cidade feia é esta? Zózimo vai morar em....Miami. ( Ele antes odiava Miami, ia 12 vezes por ano à Paris. Mas então, em 1992, viu que havia uma região na cidade americana que era exatamente aquilo que o Rio poderia ter sido... )
Houve um tempo em que jornalista tinha estilo, voce começava a ler e sentia: é texto de Francis. Isto é Telmo. É puro Sergio Augusto. Preciso dizer que isso acabou? Voce sabe quem é o colunista por suas opiniões, não pelo modo como ele escreve. Os textos são todos padrão, um robot escreveria tudo aquilo. O JB faliu. O Dia faliu. O JT faliu. A Folha da Tarde faliu.
Zózimo faria um site? Uma página no youtube? Sim. E faria muito sucesso. Seria seu sonho, poder publicar do bar. Sem ninguém amolando.
Por fim, em justiça ao Zózimo, não cito texto nenhum dele. Quero que voce pesquise. Ou melhor, compre o livro. Ótima leitura de tempos sem elegância.
Depois o livro cai um pouco. O autor entra na armadilha. Mais um jornalista com saudade da bossa nova de daquele povo do começo da ditadura. Enche o saco ler de novo como aqueles caras eram legais. " A gente era preso mas dava risada"...Pois é.
Mas volta a ficar legal, o livro, quando volta à história do Zózimo. Coluna social era Ibrahim Sued. Quem é da minha geração sabe: Ibrahim era tão famoso quanto Chacrinha. Nasceu pobre e turco, ralou muito, virou rico e orgulhoso. Falava dos jantares. Das festas. E às vezes uma fofoca sobre grana de política. Antes ainda houve Jacintho de Tormes. Uma delícia. Mega esnobe. Texto à Oscar Wilde. Culto pacas.
Então em 1969 veio Zózimo. De berço nobre. Falava dos amigos. Carmen Mayrinck, Baby Pignatari, Guinle, Duda, dinheiro velho, dinheiro muito, alta educação. O diferencial de Zózimo? Ele fazia o povo sorrir. Sua coluna era pra começar do dia com um sorriso na boca. Além do que, ele falava do Rio inteiro, de como se devia viver, era guia de estilo. No JB. O livro é cheio de textos dele, o melhor escritor brasileiro em 3 linhas.
Fico feliz ao saber que Telmo Martino, meu jornalista favorito, era amigo e ídolo de Zózimo. Eu li Telmo no JT aqui em SP. De 1977 a 1981. Não houve nada melhor. Ele me civilizou. Telmo nos fazia rir e ao mesmo tempo nos fazia querer ser como ele: witty. Muito do que penso, escrevo e gosto tem a marca dele. Telmo Martino e Paulo Francis, meus gurus forever.
Voce acha que a rivalidade esquerda direita é muito forte hoje? Sabia que Millôr disse que não confiaria no Chico Buarque nem pra ir na esquina com seu cachorro? E que Chico cuspiu em Millôr? Pois é. Tá no Zózimo. Para ele, Brizola matou o Rio. Era um homem que odiava tudo que o Rio tinha de bom, e em seu governo desconstruiu a cidade. O Rio pós Brizola era outra. Suja, quebrada e sem identidade. Refém do tráfico. Zózimo não era direita. Nem esquerda. Era liberal. Circulava pelos dois lados.
No elenco do livro tem Miriam Leitão ( chamada de gata e de conservadora...??? ), Ricardo Boechat ( sim, ele mesmo, foi assistente de Ibrahim e de Zózimo ), Elio Gaspari, Augusto Nunes, Fred Suter ( uma figuraça, carioca e malufista, super esnobe, engraçado e mal humorado ), e mais aquela turma de playboys estrangeiros, atores e atrizes, milionários discretos e deslumbrados bregas.
Daí um dia, nos anos 80, Zózimo cansa. As festas agora são pobres. A bebida é de segunda, a comida é comum, as pessoas não sabem conversar. O trabalho vira um porre. Tudo sempre igual, as mesmas caras nos mesmos lugares. Muita cocaína nas festas. O pó tomou o lugar do caviar. As reuniões não eram mais nas casas, eram em boates. Surge a celebridade, o famoso, e Zózimo começa a beber, muito. Os capítulos finais são de decadência física. Vai para O Globo a peso de ouro. 45 mil dólares de salário. Mas o Rio morreu e ele com a cidade. Chega a dizer o impensável: Que cidade feia é esta? Zózimo vai morar em....Miami. ( Ele antes odiava Miami, ia 12 vezes por ano à Paris. Mas então, em 1992, viu que havia uma região na cidade americana que era exatamente aquilo que o Rio poderia ter sido... )
Houve um tempo em que jornalista tinha estilo, voce começava a ler e sentia: é texto de Francis. Isto é Telmo. É puro Sergio Augusto. Preciso dizer que isso acabou? Voce sabe quem é o colunista por suas opiniões, não pelo modo como ele escreve. Os textos são todos padrão, um robot escreveria tudo aquilo. O JB faliu. O Dia faliu. O JT faliu. A Folha da Tarde faliu.
Zózimo faria um site? Uma página no youtube? Sim. E faria muito sucesso. Seria seu sonho, poder publicar do bar. Sem ninguém amolando.
Por fim, em justiça ao Zózimo, não cito texto nenhum dele. Quero que voce pesquise. Ou melhor, compre o livro. Ótima leitura de tempos sem elegância.
SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS - WINSTON CHURCHILL
Frequento sebos a já trinta anos. Meu primeiro foi o velho Bagdá Books, que ficava na rua Joaquim Floriano. Foi fechado em 2010. Desde sempre eu via nesses sebos a coleção dos Prêmios Nobel, da editora Delta em capa dura. Um volume para cada vencedor do prêmio sueco, tendo no livro a biografia do autor e uma obra do contemplado. Essa coleção se encerrou em 1968, portanto Kawabata foi o último livro.
Minha primeira compra foi o volume de Yeats, adquirido em 1993. Com o correr desses anos, essa coleção variou de encalhe de sebo, onde cada volume valia 10 reais, ao que é hoje, item difícil de achar. Um dos sebos que frequento comprou a coleção inteira de um particular e levo um susto ao ver que o Yeats que possuo vale agora 100 reais. O mais caro é Camus, 300 reais. Dois Churchill, dos quais falarei agora, custam 160 reais, 80 cada um. Churchill é o único na coleção que saiu em dois livros.
Muita gente não sabe que ele ganhou o Nobel de literatura. Foi em 1953. Antes de Heminguay portanto. Claro que houve muito de homenagem ao herói de guerra, mas Churchill foi um grande autor e escrever foi sempre um de seus mais dedicados trabalhos. Além de vários livros biográficos, Winston lançou uma história da civilização de língua inglesa, monumental, e uma história da segunda guerra. Aqui temos os discursos que ele fez entre 1938-1940, os anos onde ele preparou a Inglaterra para a guerra.
Parece chato? Discurso de político? Pois é...esquecemos a arte do discurso. Churchill nos faz lembrar o que isso foi um dia.
No mundo grego e romano, a arte da oratória era a maior de todas. Saber falar em público, saber se dirigir ao público, era uma arte que requeria dom e aprendizado. Eles colocavam esse prazer acima do teatro e da escultura. Cicero, Seneca, Marcial, todos foram mestres da retórica, a arte de falar. Nós perdemos esse dom em algum ponto do século XIX. No século XX o orador já era visto como caricatura. Churchill foi em tudo um homem do século XIX ( apesar de ter vivido até 1954 ). Ler seus discursos é mais que ler algo de belo, é aprender a raciocinar. Ele expõe, argumenta, defende sua tese e convence. Então passa a unir em uma ideia quem o escuta. E carrega avante um povo. Não, nada de discurso de filme de guerra, não! Ele jamais é apelativo e muito menos emocional. Nada de chantagem ao patriotismo. Isto não é Hollywood. Churchill é aristocrata. Sua voz é sempre fria, quase impessoal. Ele ergueu a nação usando a elegância, e afirmando a identidade de todo cidadão. Em sua totalidade os discursos são um rememorar. Nós europeus somos assim. Nunca se esqueçam disso. Devemos defender nossos valores. São nosso maior tesouro. Essa a base de toda sua oratória.
Lendo os discursos acompanhamos tudo que aconteceu no mundo entre 1938-1940. E eis a prova: Sim, Churchill nesses anos pregou sozinho. Vemos incrédulos a Alemanha tomar a Austria e a Tchecoslovaquia, e a Europa, passiva, tentar fazer acordos diplomáticos com Hitler. Vemos a Polonia sendo cercada e depois repartida entre alemães e russos ( sim, Russia já em 40 ), enquanto o presidente dos EUA, Roosevelt, mandava mensagens para Hitler ter bom senso! Bom senso! Causa espanto ver em 1940 o congresso americano aprovar um adendo de neutralidade. Os EUA se afirmavam NEUTROS em relação à Europa.
Vemos a Bélgica cair enquanto seu rei se entregava alegremente. Vemos a França perder a guerra em UM MÊS! Um mês! Lemos o magnífico discurso de Churchill sobre Dunquerque, afirmando que não há o que comemorar, uma retirada jamais é motivo para comemoração. Atrapalhados, os ministros ingleses esperaram até o último instante para crer na guerra. Causa hoje asco perceber como eles nunca acreditaram que Hitler fosse um perigo, quiseram crer que a Alemanha jamais iria querer correr o risco da guerra, tentaram BAJULAR Hitler todo o tempo. A filosofia mundial era: Oh...deixe Adolf pegar a Austria, talvez ele se acalme...deixe Adolf pegar a Noruega, quem sabe ele pare por aí....
Churchill clamava desde 1938: Vamos unir a Europa contra a Alemanha. Eles não atacarão a Noruega se souberem que a Suecia e a Dinamarca lutarão juntas. Não irão invadir a Bélgica se souberem que a França e a Inglaterra irão a defender. Ninguém ouviu. Ele ainda falava algo que hoje é provado estar certo e que na época parecia mentira: a paz pode ser garantida com uma nação fortemente armada. Não se consegue a paz em acordos assinados, Hitler rompeu todos eles, a paz se consegue quando há o temor do revide. URSS e EUA jamais entraram em guerra só por esse motivo. Israel não foi riscado do mapa por isso. A India nunca aniquilou o Paquistão por temer as bombas do vizinho. Churchill, sempre pragmático, dizia que a democracia e a liberdade só poderiam ser defendidas com um exército forte, e que cabia à Inglaterra, único país europeu a jamais em sua história ter tolerado um tirano, a defesa do direito mundial. Mussolini tomava Etiópia e Albânia, Hitler tomava a Polonia, Franco reinava na Espanha, a Russia era uma ditadura bolchevique, cabia ao povo inglês salvar a liberdade ameaçada. Esse o apelo central: Lembrar do que eles foram e se armar para continuar a ser o que se é. Retórica base do conservadorismo saxão: Ódio à tudo que signifique ameaça aquilo que voce é. Essa mensagem calou fundo na mente dos britânicos. Todos logo se alistaram.
PS: Se no século XX a arte da retórica foi extinta, devo dizer que no XXI é a arte da conversação que morre. A conversa, que nos século XVII era chamada de a mais fina das artes, desaparece agora de nosso mundo. Não há conversa quando não se escuta.
Minha primeira compra foi o volume de Yeats, adquirido em 1993. Com o correr desses anos, essa coleção variou de encalhe de sebo, onde cada volume valia 10 reais, ao que é hoje, item difícil de achar. Um dos sebos que frequento comprou a coleção inteira de um particular e levo um susto ao ver que o Yeats que possuo vale agora 100 reais. O mais caro é Camus, 300 reais. Dois Churchill, dos quais falarei agora, custam 160 reais, 80 cada um. Churchill é o único na coleção que saiu em dois livros.
Muita gente não sabe que ele ganhou o Nobel de literatura. Foi em 1953. Antes de Heminguay portanto. Claro que houve muito de homenagem ao herói de guerra, mas Churchill foi um grande autor e escrever foi sempre um de seus mais dedicados trabalhos. Além de vários livros biográficos, Winston lançou uma história da civilização de língua inglesa, monumental, e uma história da segunda guerra. Aqui temos os discursos que ele fez entre 1938-1940, os anos onde ele preparou a Inglaterra para a guerra.
Parece chato? Discurso de político? Pois é...esquecemos a arte do discurso. Churchill nos faz lembrar o que isso foi um dia.
No mundo grego e romano, a arte da oratória era a maior de todas. Saber falar em público, saber se dirigir ao público, era uma arte que requeria dom e aprendizado. Eles colocavam esse prazer acima do teatro e da escultura. Cicero, Seneca, Marcial, todos foram mestres da retórica, a arte de falar. Nós perdemos esse dom em algum ponto do século XIX. No século XX o orador já era visto como caricatura. Churchill foi em tudo um homem do século XIX ( apesar de ter vivido até 1954 ). Ler seus discursos é mais que ler algo de belo, é aprender a raciocinar. Ele expõe, argumenta, defende sua tese e convence. Então passa a unir em uma ideia quem o escuta. E carrega avante um povo. Não, nada de discurso de filme de guerra, não! Ele jamais é apelativo e muito menos emocional. Nada de chantagem ao patriotismo. Isto não é Hollywood. Churchill é aristocrata. Sua voz é sempre fria, quase impessoal. Ele ergueu a nação usando a elegância, e afirmando a identidade de todo cidadão. Em sua totalidade os discursos são um rememorar. Nós europeus somos assim. Nunca se esqueçam disso. Devemos defender nossos valores. São nosso maior tesouro. Essa a base de toda sua oratória.
Lendo os discursos acompanhamos tudo que aconteceu no mundo entre 1938-1940. E eis a prova: Sim, Churchill nesses anos pregou sozinho. Vemos incrédulos a Alemanha tomar a Austria e a Tchecoslovaquia, e a Europa, passiva, tentar fazer acordos diplomáticos com Hitler. Vemos a Polonia sendo cercada e depois repartida entre alemães e russos ( sim, Russia já em 40 ), enquanto o presidente dos EUA, Roosevelt, mandava mensagens para Hitler ter bom senso! Bom senso! Causa espanto ver em 1940 o congresso americano aprovar um adendo de neutralidade. Os EUA se afirmavam NEUTROS em relação à Europa.
Vemos a Bélgica cair enquanto seu rei se entregava alegremente. Vemos a França perder a guerra em UM MÊS! Um mês! Lemos o magnífico discurso de Churchill sobre Dunquerque, afirmando que não há o que comemorar, uma retirada jamais é motivo para comemoração. Atrapalhados, os ministros ingleses esperaram até o último instante para crer na guerra. Causa hoje asco perceber como eles nunca acreditaram que Hitler fosse um perigo, quiseram crer que a Alemanha jamais iria querer correr o risco da guerra, tentaram BAJULAR Hitler todo o tempo. A filosofia mundial era: Oh...deixe Adolf pegar a Austria, talvez ele se acalme...deixe Adolf pegar a Noruega, quem sabe ele pare por aí....
Churchill clamava desde 1938: Vamos unir a Europa contra a Alemanha. Eles não atacarão a Noruega se souberem que a Suecia e a Dinamarca lutarão juntas. Não irão invadir a Bélgica se souberem que a França e a Inglaterra irão a defender. Ninguém ouviu. Ele ainda falava algo que hoje é provado estar certo e que na época parecia mentira: a paz pode ser garantida com uma nação fortemente armada. Não se consegue a paz em acordos assinados, Hitler rompeu todos eles, a paz se consegue quando há o temor do revide. URSS e EUA jamais entraram em guerra só por esse motivo. Israel não foi riscado do mapa por isso. A India nunca aniquilou o Paquistão por temer as bombas do vizinho. Churchill, sempre pragmático, dizia que a democracia e a liberdade só poderiam ser defendidas com um exército forte, e que cabia à Inglaterra, único país europeu a jamais em sua história ter tolerado um tirano, a defesa do direito mundial. Mussolini tomava Etiópia e Albânia, Hitler tomava a Polonia, Franco reinava na Espanha, a Russia era uma ditadura bolchevique, cabia ao povo inglês salvar a liberdade ameaçada. Esse o apelo central: Lembrar do que eles foram e se armar para continuar a ser o que se é. Retórica base do conservadorismo saxão: Ódio à tudo que signifique ameaça aquilo que voce é. Essa mensagem calou fundo na mente dos britânicos. Todos logo se alistaram.
PS: Se no século XX a arte da retórica foi extinta, devo dizer que no XXI é a arte da conversação que morre. A conversa, que nos século XVII era chamada de a mais fina das artes, desaparece agora de nosso mundo. Não há conversa quando não se escuta.
GÊNIO?
Andei lendo uma série de críticas musicais de Robert Christgau. Ele diz numa delas que Paul MacCartney jamais foi um gênio. Mente aberta que sou, parei para pensar nisso, e discorro brevemente sobre a genialidade agora.
Primeira consideração: O que seria um gênio? Vamos então à renascença, período onde esse conceito foi criado. Da Vinci. Michelangelo. Shakespeare. Eis os 3 moldes de genialidade. O que todos os 3 têm em comum?
Absoluto domínio de sua arte. O que já derruba por terra nossa mania ( não minha ), de chamar de genial uma obra mal feita. Um diretor de cinema que não sabe dirigir, um artista plástico que não tem habilidade, um escritor que escreve toscamente. São no máximo provocadores. Podem ser originais, mas a originalidade não é genialidade. Metal Machine Music de Lou Reed é provocador, não passa nem perto de genial. Beuys era provocador, nada de gênio. O gênio é original sempre, óbvio, mas também é um criador perfeito. Nossa mente fica atordoada por sua maestria.
Segunda característica: Produção febril. Há no gênio a liberdade do daimon. Ele faz. Faz muito e faz o tempo todo. Michelangelo demorava anos para fazer uma obra, mas ele passava todos esses anos fazendo essa obra. Horas e horas todos os dias. O gênio é sempre um obcecado.
Terceiro: Inconsciência. O gênio pode saber que é genial, mas ele nunca produz algo pensando: farei uma obra genial. Quando ele chega a esse ponto sua genialidade já se perdeu. Esse é o Picasso dos últimos anos. Milhares pensam isso e jamais foram gênios.
Voltemos ao mundo do rock e pop. É Paul um gênio? Não, não é. Musical ao extremo, talento natural, lhe falta a característica mais dominante da genialidade: arrogância. Todo gênio é egocêntrico e por isso, arrogante. Não a arrogância do adolescente inseguro, mas a arrogância de quem sabe ser muito superior a tudo que o cerca. O gênio pode posar, às vezes, de bonzinho, mas ele é sempre uma ilha. Ao lado de John Lennon provavelmente Paul atingia as margens da genialidade, separados eles se diminuíram. Para um faltou o talento musical instintivo, para outro a excentricidade.
Afinal, há algum gênio no mundo já quase secular do rock? Digamos que existem momentos, breves, em que um artista chega às margens da genialidade. Por uma soma de circunstancias, pelo acaso de um time que se completa, por intuição, mas é apenas um ano, uma produção do acaso feliz, depois a coisa se esvai. Bowie nunca foi um gênio, mas talvez Low seja genial. Lou Reed jamais foi um gênio, nem perto disso, mas os dois primeiros discos do Velvet Underground são geniais. Posso citar dezenas de acasos como esses. O que todos têm em comum: são obras de equipe. Produção, co-autoria, músicos certos em momento perfeito. Depois que isso passa, o artista passa o resto da vida sofrendo da nostalgia desse momento genial. No melhor dos casos não tenta o repetir. Quando tenta, se torna um patético pastiche de si mesmo.
É muito provável que daqui a mais 30 anos o rock tenha morrido de vez. Como movimento social hoje ele está no mesmo patamar do jazz: não existe. É música de grupo de fãs. Viverá assim para sempre. Shows de rock são maiores que shows de jazz ou blues, mas significam a mesma coisa, música, nada mais que música. E caso voce não saiba, assim como em seu tempo aconteceu com a pintura ou o teatro, houve um momento em que rock era muito mais que música. Era força social. Filosofia de vida. Rio central de transformação da arte em geral. A arte central.
Quando isso ocorrer, quando olharem para o rock como hoje se olha o jazz, e o jazz tem seus gênios, John Coltrane foi um, então nesse momento talvez pensem que apenas Bob Dylan possuiu a dignidade e o individualismo do gênio. Não estranhem se assim for. E não achem errado.
Primeira consideração: O que seria um gênio? Vamos então à renascença, período onde esse conceito foi criado. Da Vinci. Michelangelo. Shakespeare. Eis os 3 moldes de genialidade. O que todos os 3 têm em comum?
Absoluto domínio de sua arte. O que já derruba por terra nossa mania ( não minha ), de chamar de genial uma obra mal feita. Um diretor de cinema que não sabe dirigir, um artista plástico que não tem habilidade, um escritor que escreve toscamente. São no máximo provocadores. Podem ser originais, mas a originalidade não é genialidade. Metal Machine Music de Lou Reed é provocador, não passa nem perto de genial. Beuys era provocador, nada de gênio. O gênio é original sempre, óbvio, mas também é um criador perfeito. Nossa mente fica atordoada por sua maestria.
Segunda característica: Produção febril. Há no gênio a liberdade do daimon. Ele faz. Faz muito e faz o tempo todo. Michelangelo demorava anos para fazer uma obra, mas ele passava todos esses anos fazendo essa obra. Horas e horas todos os dias. O gênio é sempre um obcecado.
Terceiro: Inconsciência. O gênio pode saber que é genial, mas ele nunca produz algo pensando: farei uma obra genial. Quando ele chega a esse ponto sua genialidade já se perdeu. Esse é o Picasso dos últimos anos. Milhares pensam isso e jamais foram gênios.
Voltemos ao mundo do rock e pop. É Paul um gênio? Não, não é. Musical ao extremo, talento natural, lhe falta a característica mais dominante da genialidade: arrogância. Todo gênio é egocêntrico e por isso, arrogante. Não a arrogância do adolescente inseguro, mas a arrogância de quem sabe ser muito superior a tudo que o cerca. O gênio pode posar, às vezes, de bonzinho, mas ele é sempre uma ilha. Ao lado de John Lennon provavelmente Paul atingia as margens da genialidade, separados eles se diminuíram. Para um faltou o talento musical instintivo, para outro a excentricidade.
Afinal, há algum gênio no mundo já quase secular do rock? Digamos que existem momentos, breves, em que um artista chega às margens da genialidade. Por uma soma de circunstancias, pelo acaso de um time que se completa, por intuição, mas é apenas um ano, uma produção do acaso feliz, depois a coisa se esvai. Bowie nunca foi um gênio, mas talvez Low seja genial. Lou Reed jamais foi um gênio, nem perto disso, mas os dois primeiros discos do Velvet Underground são geniais. Posso citar dezenas de acasos como esses. O que todos têm em comum: são obras de equipe. Produção, co-autoria, músicos certos em momento perfeito. Depois que isso passa, o artista passa o resto da vida sofrendo da nostalgia desse momento genial. No melhor dos casos não tenta o repetir. Quando tenta, se torna um patético pastiche de si mesmo.
É muito provável que daqui a mais 30 anos o rock tenha morrido de vez. Como movimento social hoje ele está no mesmo patamar do jazz: não existe. É música de grupo de fãs. Viverá assim para sempre. Shows de rock são maiores que shows de jazz ou blues, mas significam a mesma coisa, música, nada mais que música. E caso voce não saiba, assim como em seu tempo aconteceu com a pintura ou o teatro, houve um momento em que rock era muito mais que música. Era força social. Filosofia de vida. Rio central de transformação da arte em geral. A arte central.
Quando isso ocorrer, quando olharem para o rock como hoje se olha o jazz, e o jazz tem seus gênios, John Coltrane foi um, então nesse momento talvez pensem que apenas Bob Dylan possuiu a dignidade e o individualismo do gênio. Não estranhem se assim for. E não achem errado.
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