AINDA EXISTEM TOM SAWYERS NO MUNDO

   Releio Tom Sawyer.
   Se voce nunca leu não sabe o que é infância. Sim, ele é do século XIX. Mas que alegria! Lendo-o percebo que na escola onde trabalho ainda existem dois ou três Tom Sawyer. É aquele menino que inventa. Que cria e crê. Que foge. Faz e depois pensa. E que também tem pontadas de melancolia, como se uma voz lhe dissesse que tudo vai acabar. Eu sempre me ligo à esses alunos. São brilhantes. Mas podem se perder facilmente. A sorte cumpre um papel imenso na vida deles.
  Ler o livro é como comer o doce que voce mais gosta. Leitura banquete. Voce se pega lembrando de tudo o que pensava, sentia e fazia aos 12 anos. Como o mundo era pequeno e imenso, horrível e sedutor, aborrecido e fantástico. Cada manhã era um: E agora? Mesmo que todas fossem iguais. Sim meus queridos, eu brinquei de pirata e procurei um tesouro. Eu acreditava que havia um segredo atrás de cada parede e uma arca debaixo de cada quintal. Tudo era vivo, inclusive este livro que guardo a já 50 anos.
  Não deixem que os Tom Sawyer de hoje sejam chamados de hiper ativos. Permitam que ele pule os muros e construa jangadas. Um mundo sem eles é planeta frio. E já que não há mais Mark Twains que haja ao menos seus moleques.

CASABLANCA E O COMPLEXO DO BESOURO

   Alguém já te perguntou se voce gosta do sol? Não de sol, do sol. É uma pergunta logicamente absurda. Isso porque sem o sol nada de vida por aqui. E portanto, nem mesmo essa questão seria possível. Mesmo assim voce tem todo o direito de dizer EU NÃO GOSTO DO SOL. Não faz sentido, mas talvez voce esteja querendo ser nonsense. Provocar.
  O que podemos inferir então é que não há como perguntar se voce gosta do sol. Pois só poderão existir duas respostas. A- Sim, pois sem ele NADA do que eu gosto existiria. Ou B- Não. E esse não anula a si mesmo, pois sem o sol nem mesmo a palavra não teria sido criada. Então corrijo o que disse acima e digo que só há uma resposta cabível: sim, eu gosto do sol. Pois o não é apenas um ato de nonsense. Inconsequente e sem lógica alguma.
  Digo então que perguntar se voce gosta de Casablanca te joga no mesmo beco sem saída. Temos duas respostas, sim ou não, mas, ao contrário de 99.99% dos filmes, todo sim parecerá suspeito e todo não será mais suspeito ainda.
  Ao dizer sim, eu gosto de Casablanca, imediatamente parecerá que voce diz apenas o óbvio. Casablanca é um clássico, e como tal, é um tipo de sol. Se eu for adiante e perguntar o porquê, voce dirá que é por causa de Bogey. Ingrid. O roteiro. A fotografia aveludada. Os coadjuvantes. E até por causa de as times goes by. Tudo isso será tão banal como dizer que voce gosta do sol porque ele é quente. Mas, pior ainda será dizer que voce não gosta de Casablanca. Imediatamente será constatado que voce quer apenas causar um erguimento de sobrancelhas. Se eu perguntar o porquê, a resposta será óbvia: Casablanca é superestimado. AS PESSOAS FINGEM GOSTAR DELE. Vemos aí o hiper nonsense. Aquele que diz que SE EU NÃO GOSTO DE ALGO, NINGUÉM MAIS PODE DISSO GOSTAR. A NÃO SER QUE MINTAM.
  Faço todo esse texto para dizer que Casablanca, assim como 2001, não pode mais ser analisado. Não porque haja algum tipo de empecilho, mas sim porque toda análise estará poluída por dois desejos: ser diferente ou demonstrar amor à história do cinema. Então melhor ser lógico e dizer assim: Casablanca é como um sol. Gostar dele é gostar do óbvio, pois é um filme tão conhecido, tão influente, que tudo o que veio depois é resultado de sua existência. Seja o negando, seja o adorando. Portanto não se coloca se voce gosta ou não, muito melhor perguntar como voce REAGE à ele.
  Chamei de COMPLEXO DO BESOURO porque nada é mais claro que os Beatles. Conhecidos como o sol, eles são amados e odiados de um modo sempre ilógico. Sem eles não haveria a ideia de BANDA. Haveria o que havia antes: cantores e seus grupos. Ou grupos vocais. Bandas que tocam e compõe é invenção deles. Portanto se voce vive ouvindo bandas e diz: Odeio Beatles, bem, seria como comer alface e falar: odeio o sol. Ilógico.
  Isso faz com que criticar sua música seja sempre um ato suspeito. Então, melhor calar.

HOUVE UMA TARDE NOS ANOS 70 ( SOBRE MEU PRIMEIRO VERDADEIRO LIVRO )

   Antes houve O Zorro. Capa preta com uma ilustração de Guy Willians, o Zorro da série Disney na TV. Mas não foi meu primeiro livro de verdade. A filha da minha madrinha, Lena, o deixou em casa. Já usado, meio amassado. Depois houve Renard, A Velha Raposa. Esse dado para mim por minha madrinha. Mas eu não o escolhera e ele já vinha rabiscado. Também era usado.
   Agora não! Este eu pedira para meu pai, e ele o encomendara ao dono da banca de jornais que ficava em frente á padaria. Meu pai era o proprietário da padaria, e um dia ele chegou. Meu primeiro livro! A capa roxo escuro com uma pintura de um navio e um bote ao lado. A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson. Rapidamente arranco o plástico transparente e recebo nas narinas o perfume que nunca mais sairia da minha memória. Uma mistura de tinta fresca, papel e cola. O cheiro de livro novo. Eu tive a sensação de que ele estava quente ainda, parecia pão saindo do forno. Me deitei no sofá e comecei a ler, em voz alta, para meu irmão, que aos 6 anos ainda não conseguia ler.
  Black Dog, Long John Silver, Jim Hawkins, a cidade de Bristol, a hospedaria Benbow. Tudo isso grudou na minha alma. Como grudou o navio, o nome de cada vela, de cada corda, o mapa do tesouro, o papagaio. Enterrei um tesouro no Caxingui. Não sei onde. Tentei fazer um navio usando paus, latas e uma mala de viagem de papelão e couro. Várias lutas de espadas com meu irmão, e a certeza de que meu quarteirão era uma ilha. Quando muito jovem, voce não lê um livro, voce não pensa que alguém escreveu aquilo. Voce assiste uma história que acontece na sua cabeça. Mais real que tudo que o cerca.
  Relendo hoje, tenho consciência de que aquilo é Stevenson. Um escocês viajante, que Borges considerava o melhor narrador da história. Stevenson viajou pelos mares do sul, foi o primeiro europeu a falar de surf. E note bem, ele não é, nem quer ser, um artista. Ele é um narrador. Seu objetivo é descrever e desenvolver. Te envolver. Fazer com que voce se sinta lá, onde acontece a ação. Eu não poderia ter começado em melhor companhia. Por isso é amor eterno.

O GRANDE ACORDO FEITO NOS ANOS 80

   Acompanho vários grupos de direita nas redes sociais. A maioria mal sabe o que seja conservadorismo. Os membros variam entre um anti socialismo difuso e um liberal capitalismo histérico. Não é diferente nos grupos de esquerda. Quase todos querem o melhor do capitalismo com um leve verniz de "bondade social", seja lá isso o que for. Nos grupos de direita, apenas uma vez encontrei alguém que falou a mais profunda das realidades, ele tocou no grande acordo feito nos anos 80. O acordo que selou o fim da história.
  Explico isso agora, ok?
  Até os anos 70, ser comunista era querer o fim do capitalismo. A Sony ou a Ford seriam tomadas pelo Estado. Operários assumiriam as fábricas. Todo cidadão seria um funcionário do estado. Para atingir esse fim, era usada toda tática possível. Terrorismo e sabotagem faziam parte. Mas vieram os anos 80, época de Thatcher, Reagan e João Paulo II. E houve um acordo geral, o tal do final da história de que falava Fujyama. O mundo, em quase sua totalidade, seria um meio termo, nem conservador, nem socialista. Revoluções e mudanças radicais seriam eliminadas do mapa mundial. A direita caberia aceitar o liberalismo de costumes e o ateísmo dos socialistas light, e a esquerda, em troca, nunca mais falaria em estado totalitário. A agenda da direita liberal incorporaria valores como ecologia, feminismo e igualdade racial, e a agenda da esquerda eliminaria de suas aspirações a estatização de bancos e de fábricas. A esquerda iria começar a tolerar a democracia burguesa. Havendo esse acordo, todo conflito entre os dois campos seria apenas sobre hábitos e costumes, e nunca mais sobre economia e poder. Nas eleições, vencendo a direita, a única novidade seria uma menor tolerância a aborto ou drogas, vencendo a esquerda, menor tolerância a armas ou individualismo radical. Pura perfumaria. O Sistema estaria sempre seguro.
  Não é necessário te dizer que nesse mundo, grandes empresas como Microsoft ou Bayer, podem ter uma postura de esquerda. Vende bem entre jovens e é uma posição segura, suas empresas jamais serão do estado. Hoje, todo grande capitalista venderá uma imagem de esquerdista se for esperto, falará em proteger o ambiente e diante da imprensa irá atacar o direitista da hora. Já os esquerdistas, facilmente iludidos, acharão cada vez mais que ser de esquerda é apenas defender negros pobres e apoiar o aborto. Não percebem mais que tudo isso está inserido dentro do grande capital. Droga liberada, festinhas de arte e mulheres poderosas dentro do Sistema de lucro e venda. Sem perigo nenhum. O Itaú adora.
  Comunistas tradicionais não têm vez nesse mundo. Assim como conservadores verdadeiros. Os comunistas esperam uma revolução que jamais virá. E querem crer que as ditaduras militares de Coreia e China são um tipo de comunismo. Já os conservadores, fatalistas por natureza, sabem que seu tempo passou. Insistem em se fazer ouvir, mas percebem que sua mensagem não agrada quase ninguém. Porque ela fala em deveres e obrigações. Não em desejos.
  É um mundo que desistiu de mudar. E que muda sem cessar. Muda em aparência. Muda para mudar cada vez menos. Por isso não espere um novo mundo pós epidemia. Farão propagandas lindas. Falarão da paz universal. E venderão produtos capitalistas como nunca.

MÃE X FILHA. THE BIRDS, UM FILME TERRÍVEL DE ALFRED HITCHCOCK

   Há uma corrente crítica que diz que este filme é sobre a frigidez da personagem de Tippi Hedren. Acho isso absurdo. Pois é ela quem sexualiza todo o filme. Como todo grande filme, The Birds nos mostra algo de novo a cada revisão. Ontem eu o revi e percebi algo não notado antes: É uma guerra entre mulheres. E as duas, fêmeas lutando pela posse do personagem de Rod Taylor, invocam a mãe natureza. Os pássaros são os soldados dessa luta cruel.
   Tippi é uma menina rica. Visitando uma pet shop, ela conhece Rod, que lá foi para comprar um casal de Passion Birds, nome em inglês de periquitos. Ela o seduz ostensivamente, tanto que viajará 150 km para lhe entregar o casal de passarinhos. Ao cruzar de barco o canal que a levará à casa dele, o primeiro ataque: uma gaivota bica sua testa. Começa a guerra.
  A mãe está na casa, e desde a primeira cena vemos a raiva em seu rosto. As duas se odeiam. Sentimos o ar pesar. Jamais se atacam explicitamente, não precisam, há os pássaros. Uma cena perturbadora: após o primeiro ataque á casa, a mãe recolhe cacos de suas xícaras do chão. Meticulosa, ela tenta recuperar a ordem perdida. Voltar ao estado anterior. A namorada do filho a observa. No rosto, desprezo, raiva, nojo até. Hitch, sempre esperto, não foca a cena nelas. Rod Taylor fala sobre o ocorrido, mas a câmera, como quem não quer nada, observa as duas.
  O filho vive entre mulheres: mãe, agora uma namorada, a irmã, e uma professora. Muitos filmes de Hitchcock têm mães dominadoras. É sabido que havia um problema entre ele e a mãe. The Birds, feito logo após Psycho, é o mais feroz exemplo de sua neurose. E ao mesmo tempo, é um filme POP. Divertido. Assustador. Um sucesso nas sessões pipoca. Por isso Hitch é único.
  O filme tem duas cenas profundamente eróticas. Na primeira, Tippi Hedren é atacada numa cabine telefônica. Os pássaros se chocam, ferozes, contra o vidro. Tentam perfurar seu corpo. Ela se contorce. Na segunda cena, já ao final, os pássaros a atingem. Ela é bicada por todos os lados. Enquanto sangra, ela geme, e em meio aos gemidos, murmura o nome do namorado. Ela geme o nome como quem goza. Hitch consegue o impensável: uma cena de masoquismo, de sexo pervertido em 1963. Os censores viram apenas violência sem sentido. Nós entendemos o que aquilo é. Não é à toa que Bunuel gostava tanto de Hitchcock. O inglês fazia o mesmo que o espanhol. Sem deixar de ser POP.
  É um filme perturbador. Não tem trilha sonora. O filme inteiro não se beneficia do clima que a trilha sonora dá. A história é quase nada. O roteiro, simples, talvez o mais simples de toda sua vida. E mesmo assim o filme é grande, vasto, imenso.
  No final, Tippi Hedren é carregada por Rod Taylor. Os dois andam com a mãe e a irmã em meio aos pássaros que os observam. Não sabemos se eles sobreviverão. Não sabemos o porque dos ataques. Mas veja: a mãe não tem um só ferimento. E a namorada, talvez esteja morta.
  O filme termina assim, inconclusivo. Lembro que quando o vi pela primeira vez, criança ainda, TV Tupi, minha mãe ficou brava com esse final. Eu tremia de medo. Nunca tive tanto medo vendo um filme.
  Hoje eles gravariam cenas dos pássaros entrando no ânus das pessoas. Ou comendo seus miolos. Anestesiados por anos de violência televisiva, nossas reações estão cada dia mais enterradas. Em 1974 eu era uma corda de violino. O vento me fazia vibrar. Genial, Hitchcock lidava com nossas cordas usando dedos de solista.
  The Birds é um terrível pesadelo.

O LIVRO QUERIDO

   Eu gostava era da Bagdá Books. Foi meu primeiro sebo.  Fechou as portas em 2004. É meu favorito até hoje. Sou fiel. Ficava no Itaim, na Joaquim Floriano. Vitrine, fachada de tijolos. Longo corredor atulhado de livros. Logo na entrada, à esquerda, uma estante cheia de edições de Shakespeare. Enormes Cervantes ilustrados. Milton e Chaucer. Por ser um sebo antigo, muitas edições raras, edições que o dono mal dava valor. Foi lá, que em 1992, comprei uma edição de peças de teatro de William Butler Yeats. Capa dura, o livro estava bem judiado. Cinco peças com um mini biografia do autor, por Franck Kermode. Lembro de o ler sentado ao quintal, sol fraco, em duas tardes de maio.
  Abro esse livro hoje, quase 30 anos depois. E percebo que suas frases estão gravadas na minha alma. São filosofias, frases que me guiam, que repito em pensamentos todo dia, frases tão "minhas" que já não sabia serem elas "dele". Eu vejo que anotei todas as vezes que o li e reli: 1994, 1996, 2008. Não vou falar da biografia de Yeats pois contei sua vida em algum outro post aqui neste blog. Mas as peças...Yeats apresentou quatro delas no Abbey Theatre, a famosa casa de Dublin que ele e Synge ajudaram a fundar. Outras duas foram apresentadas no castelo de Lady Gregory para os amigos. O ideal de Yeats era aristocrático. Teatro que não tivesse por alvo o público e muito menos a crítica. Teatro feito para ele e seus amigos, peças para vinte pessoas. Yeats brigou pela independência da Irlanda, foi senador, copilava contos folclóricos do país, estudava a cultura celta, mas sempre foi um aristocrata do espírito. Simbolista, saudoso, e ao mesmo tempo modernista.
  As peças conseguem nos fazer entrar em outro mundo. Fantasmas surgem nelas como fossem uma visita comum. Almas dos mortos continuam a agir sobre a vida das pessoas. Aparições, sensações, maldições. É um mundo remoto, e ao mesmo tempo, ele parece estranhamente vivo. Seriam imagens de nosso inconsciente?
  A linguagem é simples. Toda poesia de Yeats é de sintaxe e vocabulário claro. Cinco personagens no máximo. Um cenário quase nu. Meia hora de duração. Sem nada de dramático, são peças quase silenciosas, equilibradas, plácidas. Não existem grandes frases, discursos, cenas violentas. O destino se cumpre. O certo acontece. O fim chega.
  A mais bela fala da morte de um herói. Que não acontece. Há outra sobre uma fada má que tenta uma jovem esposa. Marujos amaldiçoados no mar. Um espírito que baixa numa vidente. É um mundo além. Fora daqui, Fora daí, onde voce está. E ao mesmo tempo conhecido. Com poucos meios e poucas palavras, Yeats cria algo muito raro. Uma presença.

THE THIRD MAN - Official Trailer - Restored in Stunning 4K



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O TERCEIRO HOMEM. É ELE O MELHOR FILME INGLÊS DA HISTÓRIA?

   Ele tem sido eleito neste século o melhor filme britânico da história. Breve Encontro, de David Lean é seu concorrente direto. O Terceiro Homem foi dirigido por Carol Reed. E se voce não sabe, nas décadas de 40, 50 e 60, ele é tão poderoso quanto Lean. Já assisti quase todos os seus filmes. Sempre são bons, e às vezes impressionantes. Em 1968 ele ganhou Oscar de direção pelo seu pior filme, OLIVER. Eu acho que a crítica nunca o perdoou por ter derrotado Kubrick e 2001 nesse Oscar. Carol Reed foi meio que exilado das citações críticas. E O TERCEIRO HOMEM passou quase, que idiotice!, a ser considerado um filme de Orson Welles!!!! ( Uma tese idiota e puramente política. Orson faz um papel. E só isso. Em 1949, ano do filme, ele já estava em baixa. O roteiro é de Graham Greene, um dos mais fortes e famosos escritores da Inglaterra, o diretor, Reed, era um dos reis do cinema inglês. Onde eles deixariam Welles meter o nariz no filme? ). Além do que, a famosa fotografia deste filme, de Robert Krasker, fotografia que é das mais bonitas já feitas em preto e branco, bem, esse estilo de fotografia é o estilo presente em 70% dos filmes ingleses da época. A Inglaterra dos anos 40 tem a fotografia de cinema mais fascinante de seu tempo. Krasker, Jack Cardiff, Otto Heller, Oswald Morris, Ronald Neame, todos usam sombras, névoas, umidade, como em nenhum outro lugar.
  O filme se passa em Vienna, no imediato pós segunda guerra. Um americano, Joseph Cotten, veio encontrar um amigo, Orson Welles. Mas esse amigo está morto. Ou não? Pra não estragar o prazer do roteiro genial, não conto mais nada. Há no filme doses imensas de tragédia, maldade, tudo com o cenário de uma cidade em ruínas, um povo faminto, noites geladas, desconfiança geral. Foram à Vienna filmar tudo, usaram toda avenida bombardeada, cada beco sujo, hotéis suspeitos, e até o esgoto imenso. Orson Welles é talvez o mais odioso vilão já visto, e Cotten o mais ingênuo doa americanos. Temos ainda Alida Valli como uma tcheca fatalista e Trevor Howard como o inspetor inglês, uma ilha de bom senso em um universo de desespero.
  Carol Reed não comete um só erro. É daqueles filmes perfeitos, tudo exato, nada demais, nada de menos. Cenas que se sucedem, esteticamente magníficas, mas jamais bonitas, mais que isso, são fantásticas. É uma obra prima e um dos mais belos filmes que assisti na vida.
  Será o melhor filme inglês? Claro que não. Ou claro que sim. Como saber? Temos uns 10 filmes que merecem essa posição. Escolher um é trair os outros. E de traição, basta este filme.

A MÍDIA CERTA

   Não sei se alguém fez a pesquisa, mas é imenso o valor de um DVD. Agora que ele é uma mídia totalmente ultrapassada, digo, sem medo de errar, que ele foi até agora, o melhor meio de se ver um filme e principalmente se aprender sobre o cinema.
  Acompanho vários grupos de Blu Ray, e apesar da vantagem de som e imagem, todos reclama dos extras. Eles simplesmente não existem. Ou são raros. Quanto às formas como se vêm filmes na Netflix, bem....nela não existe sequer o pensamento de se educar alguém;
  Pois veja...acabo de pegar meu DVD de NORTH BY NOTHWEST de Hitchcock, para rever. Não recordava que eram dois discos. No disco um temos o filme. No disco dois: Documentário sobre Cary Grant. Hora e meia sobre o ator com depoimentos de Peter Bogdanovich, Martin Landau, diversos críticos, tudo narrado por Helen Mirren e Jeremy Northam. Depois um doc sobre Hitchcock. Hora e meia com participação de Camille Paglia, Curtis Hanson, Guillermo del Toro, William Friedkin, Scorsese, Francis Lawrence, e mais um bando de roteiristas e críticos. Acabou? Não. Temos ainda um doc sobre o filme em si e ainda um making of. Qual o valor de toda essa informação? O quanto aumenta para um novato o prazer em ver o filme? Saber o que ele é e o que significa.
  A cultura do DVD criou uma geração de cinéfilos jovens, muito bem informados. Um povo que tem hoje por volta de 40 anos. Esta geração dos anos 2000, gente com 20, 22 anos, está sendo jogada aos filmes em nenhuma informação. Sim, voce pode pesquisar e achar tudo isso na rede. Mas se voce não faz ideia de quem seja Cary ou Lehman, o roteirista do filme, a chance de voce pesquisar é zero. O DVD te dava a informação ao lado do filme, na mesma mídia e no mesmo aparelho. Era cultura E prazer.
  Uma pena.

O HOMEM QUE EU QUERIA SER. CARY GRANT, MEU ATOR FAVORITO.

   Em 1986, quando Cary Grant morreu, aos 82 anos, Billy Wilder, sempre um mestre quando se trata de escrever a frase perfeita, mandou uma carta à viúva. A frase, simples, dizia: " E agora quem irá nos guiar? ". Vou contar aqui a vida de Archibald Alexander Leach, nascido em Bristol, filho de um alfaiate pobre. Mas antes um pequeno adendo.
  O primeiro ator em minha vida, aquele que lembro de querer ver tudo o que ele havia feito, foi Peter O'Toole. Isso quando eu tinha já 25 anos de idade. Antes eu admirava Peter Sellers, Vittorio Gassman, Kirk Douglas ,Erroll Flynn,   mas nenhum deles eu chamava de ídolo. O primeiro foi o irlandês O'Toole. Aos 25 eu queria ser ele. Achava ele o máximo de elegância e com verniz de artista. Cary Grant era para mim apenas um ator de filmes da Sessão da Tarde ( uns três de seus últimos filmes passavam nesse horário ). Aos 35 eu cultuava Clint Eastwood. Sua virilidade fria me atingia em cheio. Eu desejava possuir sua impassividade cool. Após os 40 me dividi entre Steve McQueen, um Eastwood mais cult, e Humphrey Bogart, o homão da porra. Mas com os dois há um problema: McQueen fez poucos filmes, seu estrelato durou apenas dez anos, e Bogey é feio, muito feio. Amo Bogey, como amo John Wayne, mas não quero ser nenhum dos dois. Eles não são focos de atração para as mulheres.
  Desde meus 35 anos aprendi a admirar Cary Grant. Ele tem estado sempre entre meus 5 atores favoritos. Minha ligação começou com Intriga Internacional, North By Northwest, o filme de Hitchcock mais divertido e engenhoso de todos. Hoje, na meia idade, eu tenho Cary Grant como o único ator que me emociona. Eu, como todos os homens que o amam, sinto que sua simples presença dignifica qualquer filme. Grant transmite força, controle, bom humor, classe, e ao mesmo tempo, algo de oculto, perigoso, agressivo, uma mácula secreta. Como dizia Hitchcock, Cary Grant é uma instituição. Um ícone. Crianças e adolescentes tendem a não ver nada demais nele. Preferem o explícito. De Niro, Brando, Nicholson, a escola pseudo realista. A neurose esfregada na cara. Para esses Cary Grant não terá o menor apelo. Para o admirar é preciso ter vivido. Captar o valor daquilo que ele é : Guia dentro da tempestade. Graça e leveza em meio à pressão.
  Cary nasceu Archie Leach e é inglês. Quando ele tinha 9 anos a mãe fugiu de casa e desapareceu. Cary se sentiu culpado e sua vida a partir desse momento é uma fuga. Aos 14 fugiu de casa e se uniu à um grupo de artistas de vaudeville. Excursionando pela Inglaterra, ele aprende a ser um malabarista, adquire sua habilidade corporal. Aos 16 ele embarca com o grupo para os EUA. Quando a gang volta para a Europa, ele fica. Sozinho nos EUA com 17 anos de idade.
  Sobrevive vendendo gravatas na rua. Anunciando shows em pernas de madeira. Pintando casas. Ao mesmo tempo frequenta o mundo teatral de New York, não o chique, o mundo do teatro popular. Consegue algumas peças e exercita um dos seus dons: faz bons contatos. Archie Leach começa a imitar os modos sofisticados dos ricos americanos, das famílias tradicionais. Seu sotaque cockney desaparece.
  Aos 21 anos vai para a California. Começa no cinema usando sua beleza. Seus primeiros filmes mostram Archie como o rapaz que será seduzido por uma vamp. Mae West e Dietrich fazem filmes com ele. Nesta altura ele já é Cary Grant, Archie Leach ficou no passado.
  Em 1935 ele faz Sylvia Scarlet, filme de George Cukor com Kate Hepburn. O filme é um fracasso, mas ele chama a atenção. No filme Cary Grant faz um papel que é aquilo que Archie Leach era: um cockney malandro, mal caráter, e absolutamente adorável. Assisti o filme a poucos dias. Cheio de momentos não tão bons, mas Cary e Kate brilham de um modo adorável. Para quem não sabe, o filme é sobre travestismo.
  1936 traz Cary transformado em astro. The Awful Thruth de Leo McCarey, uma comédia maluca, faz com que ele exploda. Eis o Cary dos anos 30: leve, elegante, engraçado, ágil. atlético, comediante não bobo, ingênuo nunca tolo, mestre no diálogo rápido, no olhar que diz tudo, no uso do corpo como instrumento solo. Se voce tem a falha vergonhosa de não conhecer Cary Grant assista esse filme ( aqui ele se chama CUPIDO É MOLEQUE TEIMOSO ), e ainda HOLIDAY, sucesso com George Cukor, onde ele faz um tipo de jovem dos anos 60 antes do tempo, e principalmente JEJUM DE AMOR, uma obra prima de Howard Hawks. Cary é aqui o mais esperto dos repórteres. Hawks fez o mais veloz dos filmes.
  Os sucesso se acumulam. Para quem não sabe, Cary Grant é até hoje o ator com melhor média de lucro da história. Imune a fracassos. Até 1966, ano em que ele se aposenta, aos 61 anos, Cary foi uma estrela. A número um entre os homens. Sempre no topo. Inteligente, se aposenta por saber que seus fãs não mereciam ver Cary Grant envelhecer.
  Casou 5 vezes, os dois primeiros duraram menos de um ano. Nunca dava entrevistas. Morou anos com Randolph Scott, o que sempre deu margem aos boatos de sua homossexualidade. Milionário, era sovina. Até o fim da vida cobrava 25 centavos por autógrafo. Fez cem sessões de LSD entre 1961-1966. Elogiava o ácido como o meio em que Archie encontrava Cary. Reencontrou a mãe, já rico e famoso, nos anos 40. Ela estava internada numa clínica psiquiátrica a mais de 20 anos. Ele a tirou de lá, mas sua mãe nunca o aceitou. Como consequência óbvia, Grant jamais confiou em mulheres.
  Seu último casamento foi com uma mulher 50 anos mais jovem. Foi ao lado dela que ele morreu, de derrame, sem sofrimento. Todas as suas esposas eram ricas e sofisticadas. Por ter sido pobre, Cary sabia a dor de não ter dinheiro. E dava às boas maneiras o valor que só dá quem viveu entre as maneiras ruins. Ele se fez sozinho. Ele se construiu. E manteve a persona até o fim. Nunca foi visto mal humorado. Nunca baixou a guarda. Seus filmes são como um presente que ele nos legou. Voce vê  Cary Grant e aprende a ser homem sem ser duro demais. Ser elegante sem parecer um boneco. Ser alegre sem passar futilidade. Ser forte. Muito forte. Mas sempre com graça.
  Uma vez ele deu um conselho à uma jovem atriz ( com quem esteve casado por 7 anos ), Nunca  deixe de sorrir em público. Principalmente quando estiver por baixo. As pessoas irão te atacar assim que perceberem uma fraqueza em voce. Não lhes dê essa chance.
  Esse era Archie Leach. Esse era Cary Grant.

LITTLE RICHARD - Long Tall Sally



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RICARDINHO

   Ricardinho morreu. Falar o que? Ele foi o pai e o arquiteto do rock. Era libertário. Tinha senso de nonsense. Botou sexo na coisa. Era gay. Era negro. E possuía uma voz diabólica. Mais ainda: se contradizia. Era flamboyant. Mais que Elvis ou Chuck, ele tinha na pele e na alma tudo o que veio depois. Era grande. E seria tolo falar mais que aquilo que já disse.
   A wha bop a lula bop lack bam boom....não era isso, mas fica sendo. Nenhuma letra disse mais sobre o sentido do rock.
   Fim.