O FIM DO TRABALHO

   Leio uma matéria americana que diz : No futuro próximo, a maioria da população nascerá já sabendo que jamais irá trabalhar. Legal né? Não, não é. Ele explica que essa vasta quantidade de pessoas não trabalhará pelo fato de serem inúteis, e não por algum privilégio financeiro.
   O trabalho está se tornando hiper sofisticado, e a maior parte das pessoas simplesmente não terá a capacidade de ser util. A grande questão do futuro será o que fazer com esse povo. Como fazer com que eles vivam razoavelmente felizes SEM NADA PARA FAZER.
  O autor aposta na virtualidade. Talvez essas pessoas consigam gastar suas vidas em algum tipo de jogo interativo. O governo terá de lhes dar o básico, casa e comida, e elas viverão entretidas em sua vidinha virtual. Jogando e fazendo contatos. Uma vida assim precisará do mínimo de dinheiro.
  Digo que de forma perversa, o Brasil já é assim. A maior parte da população não tem a menor utilidade e vive de trabalhos informais, pouco relevantes, e não morrendo de tédio graças ao celular. O autor americano fala em 90% da população mundial. 90% nascendo sem nenhuma possibilidade de fazer parte do mundo do trabalho. Aqui não estamos longe disso.
  Ou voce acha que entregador de pizza e lava rápido é trabalho relevante?
  Estudei Letras e conheço bem uma carreira que já é irrelevante. O tipo da carreira virtual onde se finge viver e fazer alguma diferença. Jornalismo vai no mesmo caminho. Profissões extintas, ou pior, brincadeiras de faz de conta vivendo das glórias de um tempo cada vez mais distante.
  É por aí.

POBRE TEENAGER

   Na aula de filosofia voce ouve que Deus não existe e que a vida não se explica.
   Na aula de geografia se fala do índice de miséria do mundo e do futuro árido e cruel que nos espera.
   Em história se diz que todo o passado é um pesadelo, feito de escravidão e injustiças.
   Na aula de português se lê um texto sobre o massacre dos índios.
   Em sociologia se diz que todo país rico é um tipo de assassino.
   Tudo isso é verdade? Pode até ser PARTE da verdade.
   Mas não se fala dos grandes homens da história, aqueles que podem nos consolar ou inspirar.
   Não se fala dos filósofos que acreditam em valores morais.
   Por quê?
   O objetivo da educação é formar pessoas insatisfeitas. Contestadoras. Isso só se consegue jogando na cara delas as desgraças do mundo. Gente feliz não se revolta. E sem revolta o mundo "justo e democrático" não nascerá.
   Weeeeellll....Erraram na dose. Excesso de negativismo não causa revolução, causa depressão. E é por isso que tantos jovens se matam. Aprendem com adultos que a vida é uma merda.
   E gente feliz não faz revolução, sim, fato, faz reforma. E reformar é muito melhor que revolucionar.
   A agenda da educação moderna é trágica. Tenta formar revolucionários e forma deprimidos. Tenta mudar o mundo e engessa a apatia. Um lixo.

TCHEKOV. POR QUÊ A RUSSIA?

   Curto e grosso: a Suíça não produz nada de literatura. Ok...você pode citar um Nobel, uns 3 escritores e é só. Jung não vale. Ele é ciência.
   A Russia entre 1840 e 1900 teve Turgueniev, Pushkin, Gogol, Dostoievski, Tolstoi, Tchekov. Apenas 60 anos. Não dá pra explicar isso.
   Comecei o texto tentando uma explicação clássica. A de que um país em confusão propicia o surgimento do gênio. Não cola. A Suíça nem é tão ruim. E vários países em crise não produzem nada. Arrisco uma hipótese que já antecipo ser cheia de falhas. Mas devo tentar.
   A Russia não era, e nunca foi, apenas um país em crise. O país foi sempre protagonista. Mesmo na miséria e em um atraso social absoluto, a nação produziu Pedro e Catarina, Boris Godunov e São Petersburgo. Fatalistas e pessimistas sempre, mas eternamente voltados à grandeza. A nação eslava é o nó que une ocidente e oriente. E portanto, cristianismo e paganismo. Dostoievski amava Cristo e seus escritos são sempre parábolas exacerbadas sobre culpa e remissão. Tolstoi era crente do Deus-Jeová e seguia o cristianismo primitivo. Nesses dois, pontos centrais do romance russo, há o encontro desses dois mundos, a primitiva Russia e a ocidentalizada cristã.
  Turgueniev e Pushkin eram muito mais teístas, e por isso o conflito se dá em um nível mais intelectual. O choque entre o romantismo alemão e o eslavismo sensual oriental. O caso Gogol é o mais enigmático. Ele odiava seu país. E era russo até o mais ínfimo ponto final. Talvez fosse o mais genial entre todos eles.
  Tchekov era moderno. O foco é sempre no ser humano. Médico, ele não julga e não catequiza, descreve. Tchekov não está interessado no sentido da vida, na alma ou no absurdo. Ele está encantado com cada detalhe, com o dia a dia, com o vulgar que se faz único. Ele realmente ama as pessoas, todas elas.
  Ando lendo seus contos. São modernos por serem não sensacionais. Não há heróis. Nem vilões. São pessoas comuns em momentos comuns. Nada de muito especial acontece. Mas por serem observados por um gênio, esses momentos se tornam gigantes. Lemos escutando a voz tranquila do médico Tchekov, homem que viu a miséria debaixo de seu nariz. Como todo homem que convive com a morte e a dor dos outros, ele é modesto. Sabe que nada dura. E essa é a chave de seu universo. Por saber que nada dura, ele tenta fazer durar aquilo que escreve. O autor e seu mundo.
  Tchekov conseguiu. Seu mundo está vivo em 2019.

LEVE E SOLTO

   Leve e solto?
  Minha bagagem de vida diminuiu. Me livrei de vários livros e de toneladas de discos em vinil. Só não me livrei dos meus dvds porque ninguém os compra. Sim, não doei, eu vendi. Tenho provado o sabor da pobreza. Mas não é apenas isso.
  Deixei de escrever por meses aqui por estar completamente apaixonado. Não, não precisa parar aqui. Não falarei sobre paixão e muito menos ficarei a choramingar um amor impossível. Pois ele não é impossível e não é feliz. Muito menos triste. É paixão.
  Nossa mente ou nosso coração tem um limite. E a paixão ocupa tudo. Por isso ela tem um risco alto. Se a aposta não der certo voce perde tudo. E se sobreviver, terá de reconquistar os outros amores, seja livro, disco ou seus amigos.
  Eu ia escrever que a alma também tem um limite. Mas não consegui. Acho que a alma é ilimitada. Nem mesmo a paixão a esgota. Mas não sei. Bom tema para outro post.
  Diria que amor pode ser apenas alma. Mas a paixão é corpo. Há algo de profundamente corporal na paixão. Ela é nervos, sangue, vísceras, músculos. Por isso é mortal. Como tudo que é sólido, ela uma dia se desmancha.
  Mas a paixão pode ser ou se tornar alma, e então será amor. Corpo e alma. Ou somente alma. Então não se destrói, se modifica. Vira outra ou outras coisas, pois é etérea.
  Não estou nem leve e nem solto. Antes pesado. A bagagem foi aliviada de livros e discos, mas o peso da paixão cresce. Uma contradição: Eu sou apaixonado por ela e amo minha paixão.
  Uma das curas da depressão é não lutar contra a melancolia. Melancolia foi a tempos idos uma qualidade invejável. Dom dos mais nobres. Hoje é um mal. Isso faz com que todo melancólico não aceite aquilo que ele é. Ele se deprime por ser melancólico. Aceite sua melancolia e seja feliz.
 O que quero propor é: O mundo de hoje, que abomina a melancolia, por ser ela pouco ativa, aceita a paixão? Nosso século aceita somente o que é ativo, produtivo e afirmativo. Dei a resposta?
 Ame seu trabalho, ame seus filhos, ame seu hobby, mas por favor, não vá ser imbecil a ponto de se apaixonar.
  Ando lendo as histórias de Arthur e de Camelot. Não, não há paixão lá. Há compromisso. Lealdade. Código moral. Tudo aquilo que o apaixonado não segue. Não liga e não quer.
  Mas o que deseja o apaixonado? Permanecer apaixonado. Apenas isso.
  Como um drogado, ele quer a substância que o faz ficar exaltado. Corpo é química, respondido?
  Claro que não. Pois isso não responde o por que de minha paixão. Fosse apenas química eu trocaria ela por uma mais forte. Ou tomaria overdose de paixão. Mas não é assim.
  Conclusão possível: Falar da paixão a empalidece, mas não purga seu veneno. Leve e solto? Outros que voem por aí. Eu quero é mais.

 

MINHA PRIMEIRA POSTAGEM DE 2019 FALA SOBRE ESSE POVO NASCIDO DE 1998 PARA CÁ.

   Leio matéria muito boa, gringa, sobre os hábitos de diversão dos millenials. Esse povinho deprimido nascido de 1998 pra cá. Sim, eles são down e sabem disso. Nasceram no fim dos anos 90, sem ilusões e sem sonhos. São filhos de pais que foram nos shows de Madonna e de Prince. Não têm contra o que se rebelar. Mas, como jovens que são, sentem o desejo de rebelião. Se rebelam contra a própria vida. A existência neste planeta.
   O foco da matéria é a noite. Pela primeira vez, desde antes de 1900, uma geração não sente a menor atração por vida boêmia. Não que eles sejam saudáveis, não são, mas noite pra eles só é legal se for numa série sobre vampiros. Ou numa boate de divas em 1920. Sair como o povo que hoje tem 30 saía não os interessa. Eles simplesmente não têm dinheiro pra beber a preços ridículos e passar mal em casa. Ou acordar ao lado de um corpo desconhecido.
   Eles bebem muito e fumam maconha. Mas isso tudo é feito na casa de amigos ou na rua. Eles amam a rua, andar por aí. E se reunir entre amigos para jogar games e ver séries. Nada de balcão de bar ou pista de dança. É uma geração que não sabe lidar com garçons e com passos de dança.
   Saio com uma amiga de vinte anos. E ela não vê nada de especial em ir num local para dançar ou pior, para ficar louco. São práticos: saem para fazer alguma coisa. Tipo comer. Ou ir ao cinema. Ou ver um show. Sair pra sair, não. Ela prefere programas diurnos. Ir onde nunca foi. Tirar fotos. Comprar coisas. Sair deve ter um objetivo. São práticos. Nasceram sabendo que desperdício é um pecado. Principalmente de tempo.
   É uma geração que faz sexo sem grandes dramas. E sem grandes prazeres também. Um beijo é gostoso. Uma transa é deliciosa. Mas o amor não se define nisso. Ele vive na conversa, nos gostos em comum, no fazer coisas juntos. Até nisso aparece a praticidade. O amor vem junto com objetivos. Não nasce numa noite de prazer.
   Nos anos 80 eu era uma anomalia. Preferia sair de dia. Adorava andar sem rumo. E não via o porque de ir numa balada. Só me apaixonava por amigas. E tinha de ser amigo, pois eu nunca soube paquerar. Nisso tudo fui precursor dos millenials. A diferença crucial é que beijo pra mim é ainda algo mágico, íntimo e muito importante. E uma noite de sexo é compromisso. Well...de qualquer modo eu os entendo bem e confesso adorar o modo como sentem a vida. Até sua depressão eu entendo, é a minha, uma revolta contra a condição biológica da vida, não contra "o patriarcado" ou "o feminismo".
   Estou de volta.
 

PAUL MAcCARTNEY POR BARRY MILES.

   Se o rock ou o POP um dia tiveram um gênio, seu nome é Paul, e ele nasceu em Liverpool.
  Sua infância foi sem dramas. Ok, a mãe morreu cedo, de câncer, mas Paul teve a sorte de crescer em meio a tias, tios, primas, irmão, e o pai, com quem ele sempre se deu bem. Eram pobres, mas eram felizes.
  O garoto aprendeu a tocar em casa, começou a cantar e entrou na banda de John Lennon. Foram para Hamburgo, a cidade mais cheia de sexo da Europa. Ficaram famosos lá. Voltaram. Foram recusados pela Decca. A EMI os quis.
  O primeiro LP foi gravado em uma tarde. Inteiro. De uma vez só. O resto é lenda. O que entendemos por POP foi inventado pelos quatro.
  Paul compõe como Mozart: sem dor, sem esforço, sem problemas. E rápido, bem rápido. Alguns clássicos foram compostos em meia hora. Outros em dois dias. Raramente mais que isso. As músicas fluíam. Centenas e centenas. No livro Paul as comenta sem grandes pretensões. Fala coisas como; "Esta é boa", esta foi só pra completar um LP.
  Eu havia lido este longo e delicioso livro em 2001. Releio. Gosto. Muito.
  A vida de Paul foi uma vida, entre 1960-1970, o livro vai apenas até o fim dos Beatles, de galerias de arte, cinema, muitas festas e a procura por novos sons. Lennon estava a maior parte do tempo enfurnado em sua casa tomando heroína. Paul ia pesquisar. Vemos isso em fotos: Paul com Jagger, Paul com Ginsberg, Paul com hippies de Londres, Paul defendendo a maconha, Paul em shows de Hendrix e de John Cage. Geminianamente em movimento todo o tempo.
  O segredo dos Beatles é que eles foram a única banda, até hoje, a ser ao mesmo tempo hiper popular e de vanguarda. Eles eram como Michael Jackson misturado com Brian Eno em 1980. Ou como Madonna com Radiohead em 1996. Vendiam como ninguém, e ao mesmo tempo apontavam as novidades, o futuro. Em meio aos mais encantadores POP, uma colagem sonora, um loop, um solo ao contrário, um quarteto à Bach, um ruído. Entre 63 e 68 eles foram a ponta. Em vendas e em arrojo. Em 69 perderam o pé. No mundo novo de Sly Stone e de Led Zeppelin começaram a ficar apenas POP.
  Leiam.

AQUELE MOMENTO-VIDA EM QUE NÓS ESTAMOS COMPLETAMENTE AQUI E AGORA.

   Eu a desejo.
 E por isso sou agora um corpo. Porque ela é o único corpo que existe. Não há mais dúvida em mim. Eu sou minha pele. Meu sangue. Porque ela é mais que pele e sangue. É um universo completo.
 A vida se torna simples. Estou aqui. Sou um homem que deseja. Meu corpo grita por ela. Mas falemos dos lugares...
 As ruas passam a ser aquilo que são: caminhos. E o passado morre. O tempo é agora, uma corrente de agoras. Tudo leva à ela.
 Consciência do corpo. O apaixonado atrai porque o corpo passa a viver inteiro. Olhos, mãos e boca vivem sua vida em plenitude.
 O corpo vive apenas nos momentos como este: em paixão. No resto do tempo realizamos simulacros de paixão. Roupas, maquiagem, exercícios, brilho intelectual: tudo busca simular o estado de apaixonado. Tudo afugenta eros. Ele só vem quando não é chamado.
 O corpo sabe tudo. Anda pelos dias recolhendo prazeres doloridos. Ele sabe que a paixão termina sempre em morte. Morte do próprio corpo ou mortes várias, simbólicas, reais. E ele sabe, o corpo, que ele existe para isso: paixão.
 Eu a vejo e quero cheirar ela. Entrar nela. Viver dentro dela. Comer ela. Ser dela e ter ela como escrava. Ser como ela é. Fazer dela o que sou. Corporalmente. Eis a verdade da matéria. Fundir-se dois em um. O milagre.
 Durmo menos e não sofro por isso. Nem mesmo posso dizer que alguma coisa aqui é sofrimento. Estou desperto. A vida material, o agora, o preciso instante me é um amigo leal. Ando de mãos dadas com a vida.
 Não falo dela porque sua beleza jamais poderá ser expressa em palavras. O amante não embeleza a amada. Ele revela ao mundo a beleza que sempre foi dela. E nesse processo ele próprio se embeleza.
 Mas há o cheiro. O cio. O sangue no olho. Ela é ruim como uma matilha de lobos. Ela é a natureza real. Morte e parto. Comer e ser devorado. Ela é mulher. Basta de letras!

POSSESSÃO - A.S. BYATT

   A autora Byatt ganhou o Booker Prize de 1990 graças a este livro. O que depõe contra o prêmio.
   Temos aqui a história de um professor de estudos literários que encontra dentro de um livro antigo uma carta de um poeta do século XIX. Com a ajuda de uma professora feminista, ele tenta entender a história de amor desse poeta com uma obscura escritora feminista. Esse enredo vira uma suave história de amor. Escrita do modo mais convencional possível. Apesar da mistura de tempos e dos paralelos entre vidas, é um simples novelão.
   Virou filme em 1997. O filme é menos ruim. O que sempre é mal sinal para o livro.
   Fujam.

Old Grey Whistle Test - Ultravox from 5/12/78



leia e escreva já!

ULTRAVOX! , UM GRANDE, GRANDE PRIMEIRO DISCO.

   Em 1976 o Ultravox começa a gravar seu primeiro disco. A sonoridade irá lembrar a banda pela qual eles têm profundo amor: Roxy Music. E o acento de exclamação no nome ( ! ), é homenagem a banda alemã NEU!
   Brian Eno produz os caras. Mas larga a produção antes do final para viajar à Berlin, onde vai encontrar Bowie voce sabe pra que. Em seu lugar assume o jovem Steve Lyllywhite, que será o produtor dos primeiros 4 discos do U2. Depois será Eno. A vida é ironia.
  O disco sai pela Island em 1977. Dois produtores, Eno e Steve. E, que azar, é o ano do punk. A banda será chamada de muito velha para ser punk e muito nova para o glam rock. Entre 1977 e 1979 lançam 3 discos. Todos incensados pelos críticos. Todos amados pelos futuros músicos dos anos 80. Todos ignorados pelo público de então, povo que ouvia punk, ska e a new wave de Costello e Ian Dury. Este primeiro disco, Ultravox! antecipa em cinco anos a música de 1981, a música da primeira metade da década de 80.
  John Foxx é o vocal. Ele sairia em 1980. Midge Ure entraria no lugar e a banda estouraria nas paradas com Vienna. Mas este disco é melhor. Bem melhor. Foxx era mais ousado, mais "do mal", mais sexy. O som do disco é puro Roxy. Um Roxy em que Phil Manzanera tocasse menos e Eddie Jobson muito mais. O som do disco é o som do violino elétrico de Rusty Egan. Imagine Ferry cantando estas canções e voce imagina um disco do Roxy de 1976. ( Em 76 a banda não existia mais. Voltaria em 79 modificada ).
  Nick Rhodes diz que o disco é seu favorito. Rhodes fundaria em 1979 o Duran Duran. O Ultravox! é um Duran menos pop e bem mais perigoso. A faixa My Sex é uma obra prima. E termina cortada pelo meio, como Eno faria em Low. Mas o disco é mais que ela. São oito canções tristes. E ao mesmo tempo desafiantes. Ouça.

Ultravox - My Sex (Best Quality + Lyrics)



leia e escreva já!

AVICENA E O DIA DOS MORTOS.

   A questão que encerra o curso é: De onde vem nossa inteligência, nossa consciência e nosso saber. Eis a base de toda filosofia. Três modos de pensar respondem essa questão: A consciência vem do alto e flui para dentro de nós. Ela nasce conosco e olha o mundo. Ou uma terceira via, que é a de Avicena: ela vem de fora, entra em nós e retorna ao cosmo. Não aceito nenhuma das três, e possivelmente, eu, como voce, partiremos desta vida sem saber.
  Avicena se intrigava com a mecânica do olhar. O que nos faz reconhecer uma flor como parte do reino das flores. O particular como uma fração do universal. O que faz com que reconheçamos o que vemos como O Real. Isso era para ele a inteligência primeira.
  O que me inquieta é não saber como se processa o que faço agora. Um bocado de sangue e carne estar neste momento consciente de si mesmo. E produzindo abstração. A criação do mundo dos números é um fato inescrutável.
  Estou agora aqui. Ali eles estão. Eu sei que esse ele não mais está ali. Pois se ele era apenas máquina, essa máquina deixou de funcionar. Pior ainda, enferrujou e apodreceu. Por outro lado, se ele tinha alma, luz, energia, pensamento cósmico, o que seja, ele também não está aqui, pois seu corpo seria apenas o rádio e não a onda que traz o som. Mas eu, nós, vamos ao cemitério e ficamos aqui. Olho a lápide.
  Fecho os olhos e ouço: pássaros cantam, vozes ao longe, vento nas folhas, minha respiração, passos. Abro os olhos e vejo: folhas no alto, sombra, grama, uma linda mulher, uma família de Quero-Quero. Fecho os olhos e sinto: vida ao redor. Vida dentro de mim. Vida neles. Vida nos passarinhos. Vida exercendo seu poder.
  Paz absoluta então.
 
 

EU VI 3 FILMES...

   Vi três filmes recentes ontem. E eles dão um bom exemplo do que o cinema é hoje.
   O novo filme de Todd Haynes é o atual filme de arte. Uma ótima ideia desperdiçada. Haynes estica tudo, enche de ambição desmedida, deixa o narciso à solta e perde nosso interesse. Falta vitalidade. Falta sangue. Falta culhão. O filme é flácido e mesmo cenas maravilhosas ( a parte de filme mudo, as cenas em Nova Iorque anos 70 ), se deixam esquecer perdidas sem rumo.
   Deadpool 2 é, como quase toda continuação, a morte de um excelente personagem. Sai a ousadia e entra o óbvio, sai o politicamente incorreto e vem a média geral, sai a zebra e entra a vaidade. O filme não é ruim não, mas é o fim. Depois dele não tem mais como continuar.
   E vi ainda um filme do Dwayne Johnson sobre uma fórmula que faz os bichos crescerem ( não é Viagra ). O filme é tão mal escrito, tão sem sentido, que parece ser feito para ser assistido enquanto se faz coisa melhor ao mesmo tempo.
  Que foi o que fiz.