leia e escreva já!
O SOM DOS ANOS 80 E DE HOJE.
A gente estava na Europa em 1982 e foi um momento brilhante aquele. Naquele verão os anos 70 acabavam enfim. A primeira coisa que estranhei foram os jeans. Não havia jeans. Se voce quer saber como a molecada se vestia na Europa em julho de 82 veja o clip que postei acima. Continuo: fomos para o interior do interior do continente. Ou seja, norte de Portugal, quase Galicia. Quarenta graus, aridez, pouca gente. Uma festa na cidadezinha de meia dúzias de ruas. Eu e meu irmão vamos. Uma feira de tarde. Barraca de discos. Que surpresa!!!!! Tem tudo que aqui no trópico não tinha ( e na verdade nunca teve, nem em cd ): Talking Heads 77, Gang of Four, Classix Nouveaux, Ultravox, John Foxx, Toyah Wilcox, Orange Juice, Haircut One Hundred, Adam Ant e Bow Ow Ow. Compramos. Era a época do Escudo. Um escudo era dez cents de dólar. Eram discos made in Portugal e made in France. Tenho até hoje. Andamos pelo local...meninas de enormes franjas cobrindo os olhos. Meninos com calças de mulher: laranja, roxo, pinky. Bebemos ginja.
Na sala da minha tia tem um programa de música POP ao vivo. Um palco cheio de luzes, cores e brilhinhos. Era o nascimento da década e ela só nasceria no Brasil em 1984. E aqui ela seria para meia dúzia de moradores de bairros legais. No fim do mundo português era fenômeno popular.
Na época eu não era fã do Roxy Music e pouco entendia de Bowie. Ouvia-o desde 1974, mas era pra mim só um rock star gay e criativo. Então não pude notar que ele e Ferry eram os vencedores do década passada. Entre 1980-1987 o POP e o ROCK que importava eram, em 90% dos casos, filhotes do glam e do funk chic.
Chego de volta a 2018 e escuto o disco Duran Duran, o primeiro. Para mim, é a coisa mais fora de moda que existe. Teclados gelados e simples, baixo funkeado ( John Taylor é um gênio do ritmo ), guitarra exagerada, percussão lá em cima, tudo a cara do POP dos anos 80. Mas caramba!!!! Ouço uma multidão de "novas" bandas de 2018 e um monte tem esse mesmo som, mas, COM UMA DIFERENÇA: eles tocam muito, muito mal. Daí dou razão à Neil Young. O fato dos novos sons serem gravados em aparelhos ruins para se reproduzir em condições precárias, faz com que toda uma geração seja acostumada a ouvir música pobre. É um tchuc tchuc prás sem nenhuma sutileza.
Por isso esse vinil me surpreendeu desta vez. Fico embevecido com a riqueza sonora. Tem centenas de coisas para se escutar, sons que vão e que voltam, timbres que surgem e morrem, ecos sem fim.
A criação do LP em 1948 fez nascer o som de Sinatra, e depois o jazz adulto. A tecnologia dava campo para eles. O estéreo deu nascimento aos sons dos Beatles e todo o rock psicodélico. Os estúdios de 64 canais ensejaram o POP dos anos 70, com seus montes de músicos profissionais. A fita K7 criou o fã de bandas toscas e o CD fez nascer a dance e o eletro. Cada salto científico faz surgir um novo modo de ouvir e de fazer música popular. E faz se abandonar outro modo, antigo, de produzir e compor. O tempo do Ipod e do Spotify, do mp3, fez surgir o som sem sutileza, que luta contra o ruído das ruas e a pressa do ouvinte. Se compõe para essa tecnologia. Singles de 3 minutos. E só.
Na sala da minha tia tem um programa de música POP ao vivo. Um palco cheio de luzes, cores e brilhinhos. Era o nascimento da década e ela só nasceria no Brasil em 1984. E aqui ela seria para meia dúzia de moradores de bairros legais. No fim do mundo português era fenômeno popular.
Na época eu não era fã do Roxy Music e pouco entendia de Bowie. Ouvia-o desde 1974, mas era pra mim só um rock star gay e criativo. Então não pude notar que ele e Ferry eram os vencedores do década passada. Entre 1980-1987 o POP e o ROCK que importava eram, em 90% dos casos, filhotes do glam e do funk chic.
Chego de volta a 2018 e escuto o disco Duran Duran, o primeiro. Para mim, é a coisa mais fora de moda que existe. Teclados gelados e simples, baixo funkeado ( John Taylor é um gênio do ritmo ), guitarra exagerada, percussão lá em cima, tudo a cara do POP dos anos 80. Mas caramba!!!! Ouço uma multidão de "novas" bandas de 2018 e um monte tem esse mesmo som, mas, COM UMA DIFERENÇA: eles tocam muito, muito mal. Daí dou razão à Neil Young. O fato dos novos sons serem gravados em aparelhos ruins para se reproduzir em condições precárias, faz com que toda uma geração seja acostumada a ouvir música pobre. É um tchuc tchuc prás sem nenhuma sutileza.
Por isso esse vinil me surpreendeu desta vez. Fico embevecido com a riqueza sonora. Tem centenas de coisas para se escutar, sons que vão e que voltam, timbres que surgem e morrem, ecos sem fim.
A criação do LP em 1948 fez nascer o som de Sinatra, e depois o jazz adulto. A tecnologia dava campo para eles. O estéreo deu nascimento aos sons dos Beatles e todo o rock psicodélico. Os estúdios de 64 canais ensejaram o POP dos anos 70, com seus montes de músicos profissionais. A fita K7 criou o fã de bandas toscas e o CD fez nascer a dance e o eletro. Cada salto científico faz surgir um novo modo de ouvir e de fazer música popular. E faz se abandonar outro modo, antigo, de produzir e compor. O tempo do Ipod e do Spotify, do mp3, fez surgir o som sem sutileza, que luta contra o ruído das ruas e a pressa do ouvinte. Se compõe para essa tecnologia. Singles de 3 minutos. E só.
NEIL YOUNG, A AUTOBIOGRAFIA
Neil Young é um cara muito mais legal do que eu esperava. Mas ele escreve como fala. E o que ele fala é muitas vezes repetitivo. O que nos seria agradável numa conversa na praia, em uma página escrita fica sem graça.
Cresci lendo que Neil era um "artista atormentado". Outra das baboseiras impostas pela crítica ideológica dos anos 70-80! Essa crítica, fantasiosa, me fez crer não só que Neil era um tipo de mártir, mas que o AC DC era um lixo e que os discos de Peter Gabriel eram bons. Haja!!!
Neil não é sofredor. Ele se divertia muito nos anos 60, 70 e 80. A gente imaginava que ele estava sofrendo como uma personagem de Bergman, e na verdade ele estava colecionando carros velhos e conhecendo "meninas cósmicas". Ele é um hippie assumido. Um hippie dos bons. Não a caricatura bicho grilo dos anos 70, mas o autêntico, o místico. Um dude. No livro, as melhores partes, são quando ele se derrama em elogios, como um hippie, aos amigos e meninas que lhe trouxeram boas vibes. Neil é sempre sincero. Um cara que a gente adoraria ter como amigo.
Ele tem suas dores. Como todos temos. Um filho com paralisia cerebral. Casamentos desfeitos. Sua epilepsia. Mas ele não para nessas dores. Mesmo o tempo em que não saía de casa por medo de ter ataques ( sei bem o que é isso ), é deixado de lado em favor de suas lembranças felizes. Neil é profundamente otimista.
Ele passa dezenas de páginas em um idealismo bastante anos 60: vencer a Apple e trazer de volta à música a qualidade sonora. Veja bem, não é saudosismo. Ele não fala que a música de hoje é mal composta. Ele diz, e basta ter ouvidos para perceber, que ela é mal gravada. A molecada ouve som em celulares e esse som não tem definição, profundidade, riqueza de timbres e de detalhes. A experiência cósmica de se ouvir música é rebaixada a uma atividade tão vazia como correr no parque ou fazer palavras cruzadas.
Tenho uma experiência recente sobre isso. Após anos ouvindo dos discos de Hendrix em cd, ouço os 3 primeiros em vinil e me arrepio ao sentir que naquele som há uma profundidade, alcance, eco, ruído, chiado, agudez, que o cd não consegue reproduzir. Em stream ou mp3 a coisa é ainda pior.
Neil fala do Pone, um sistema digital que ele e sócios desenvolveram que traz de volta o som cósmico. Como o livro é de 2012 e em 2018 esse Pone ainda não está por aí...acho que a Apple fodeu com eles. Neil também financia carros elétricos.
Ele teve fazendas, barcos, iates, mulheres, drogas, bebidas, sucessos, fiascos, bandas, lutos, sexo, se dava bem com a família. É rico e viveu bem. É só isso. Mas ele é bem mais caloroso e bacana do que esperava. É cósmico.
PS: A mudança no Hall da Fama, de cerimônia íntima em show de TV, é uma das coisas mais tristes no livro.
Cresci lendo que Neil era um "artista atormentado". Outra das baboseiras impostas pela crítica ideológica dos anos 70-80! Essa crítica, fantasiosa, me fez crer não só que Neil era um tipo de mártir, mas que o AC DC era um lixo e que os discos de Peter Gabriel eram bons. Haja!!!
Neil não é sofredor. Ele se divertia muito nos anos 60, 70 e 80. A gente imaginava que ele estava sofrendo como uma personagem de Bergman, e na verdade ele estava colecionando carros velhos e conhecendo "meninas cósmicas". Ele é um hippie assumido. Um hippie dos bons. Não a caricatura bicho grilo dos anos 70, mas o autêntico, o místico. Um dude. No livro, as melhores partes, são quando ele se derrama em elogios, como um hippie, aos amigos e meninas que lhe trouxeram boas vibes. Neil é sempre sincero. Um cara que a gente adoraria ter como amigo.
Ele tem suas dores. Como todos temos. Um filho com paralisia cerebral. Casamentos desfeitos. Sua epilepsia. Mas ele não para nessas dores. Mesmo o tempo em que não saía de casa por medo de ter ataques ( sei bem o que é isso ), é deixado de lado em favor de suas lembranças felizes. Neil é profundamente otimista.
Ele passa dezenas de páginas em um idealismo bastante anos 60: vencer a Apple e trazer de volta à música a qualidade sonora. Veja bem, não é saudosismo. Ele não fala que a música de hoje é mal composta. Ele diz, e basta ter ouvidos para perceber, que ela é mal gravada. A molecada ouve som em celulares e esse som não tem definição, profundidade, riqueza de timbres e de detalhes. A experiência cósmica de se ouvir música é rebaixada a uma atividade tão vazia como correr no parque ou fazer palavras cruzadas.
Tenho uma experiência recente sobre isso. Após anos ouvindo dos discos de Hendrix em cd, ouço os 3 primeiros em vinil e me arrepio ao sentir que naquele som há uma profundidade, alcance, eco, ruído, chiado, agudez, que o cd não consegue reproduzir. Em stream ou mp3 a coisa é ainda pior.
Neil fala do Pone, um sistema digital que ele e sócios desenvolveram que traz de volta o som cósmico. Como o livro é de 2012 e em 2018 esse Pone ainda não está por aí...acho que a Apple fodeu com eles. Neil também financia carros elétricos.
Ele teve fazendas, barcos, iates, mulheres, drogas, bebidas, sucessos, fiascos, bandas, lutos, sexo, se dava bem com a família. É rico e viveu bem. É só isso. Mas ele é bem mais caloroso e bacana do que esperava. É cósmico.
PS: A mudança no Hall da Fama, de cerimônia íntima em show de TV, é uma das coisas mais tristes no livro.
GIGANTES DA FÍSICA - RICHARD BRENNAN
Brennan, físico e escritor, pega oito físicos centrais e conta suas biografias e explana o que descobriram. O estilo é agradável, mas para quem, como eu, já se aventurou no assunto, ele pode ser cansativo. Se voce nunca leu nada sobre o assunto, eis um começo.
Newton, Einstein, Planck, Bohr, Rutherford, Heisenger, Feynman e Gell-Mann, são esses os oito. Lista arbitrária, claro, pois se os quatro primeiros não podem ser esquecidos, onde estão Pauli ou De Broglie?
Não me darei ao trabalho de aqui explicar nada, dou apenas duas pistas:
1- Vivemos no mundo da física de Newton e até na polícia isso de revela. Mundo onde toda ação enseja uma reação proporcional.
2- O mundo quântico só se aplica ao mundo muito, muito pequeno. Então não tente falar em mundo paralelo, ausência de sentido, realidade invisível em nosso mundo cotidiano.
De qualquer modo o mundo Einsteiniano é nosso e olho minha cadela e, como diz a relatividade, sei que ela é energia, que eu sou energia, e que essa energia irá um dia se transformar, e permanecer a mesma quantidade de energia para sempre. Massa não se faz energia, ela é energia. Tudo o que voce vê, faz e sente são fluxos de energia. E energia são feixes, ondas que se movem. Isso não é física quântica, é relatividade. A física sub atômica é bem mais perturbadora e dela nem quero tentar falar.
( Mundo tão pequeno que ele tem o tamanho de minha unha em relação à Júpiter ).
Newton, Einstein, Planck, Bohr, Rutherford, Heisenger, Feynman e Gell-Mann, são esses os oito. Lista arbitrária, claro, pois se os quatro primeiros não podem ser esquecidos, onde estão Pauli ou De Broglie?
Não me darei ao trabalho de aqui explicar nada, dou apenas duas pistas:
1- Vivemos no mundo da física de Newton e até na polícia isso de revela. Mundo onde toda ação enseja uma reação proporcional.
2- O mundo quântico só se aplica ao mundo muito, muito pequeno. Então não tente falar em mundo paralelo, ausência de sentido, realidade invisível em nosso mundo cotidiano.
De qualquer modo o mundo Einsteiniano é nosso e olho minha cadela e, como diz a relatividade, sei que ela é energia, que eu sou energia, e que essa energia irá um dia se transformar, e permanecer a mesma quantidade de energia para sempre. Massa não se faz energia, ela é energia. Tudo o que voce vê, faz e sente são fluxos de energia. E energia são feixes, ondas que se movem. Isso não é física quântica, é relatividade. A física sub atômica é bem mais perturbadora e dela nem quero tentar falar.
( Mundo tão pequeno que ele tem o tamanho de minha unha em relação à Júpiter ).
FILMES
Faz duas ou três décadas que o cinema, como arte relevante, morreu. Ainda se fazem bons filmes, alguns geniais, mas eles todos além de não repercutirem, possuem a tristeza de saber que seu mundo, o universo do cinema, é passado. Como o jazz, a ópera, o rádio ou mesmo o teatro, ir ao cinema é apenas um modo de digerir o jantar, passar duas horas com a namorada ou, pior de tudo, tentar dar sobrevida à um costume. Filmes de TV são apenas isso: Filmes de TV. São filmes, mas não é cinema. Podem ser bons programas para se ver na cama. Podem ser boas séries para se ver após o futebol, Mas por serem TV, já nascem sabendo que em duas décadas estarão completamente mortos. Ninguém assiste Os Sopranos hoje. Menos ainda assiste Friends.
Um rápido comentário sobre o que assisti no último mês:
PORTO, UMA HISTÓRIA DE AMOR de Gabe Klinger
Passado na cidade do Porto ( estrangeiros nunca acertam o nome da cidade! Ela se chama O Porto, nunca se diz Porto apenas. ), conta o encontro de um cara muito chato e uma moça muito triste. .
Voce já viu esse mesmo filme umas mil vezes. A cidade é exibida, claro, em seu lado mais soturno.
OS AVENTUREIROS de Robert Enrico com Alain Delon, Lino Ventura e Joanna Shimkus.
O cenário é lindo mas a aventura é chata. Dois homens se envolvem na busca de um tesouro. Com eles vai uma mulher que eles partilham. É longo e tem a modernice de um filme de 1968. Ou seja, cansa. Mesmo com uma fotografia bonita, não vale a pena. E a trilha sonora é insuportável.
ILHA DOS CACHORROS de Wes Anderson
Eu vejo várias qualidades em Wes Anderson. Mas ele está mergulhando em uma emboscada. Seu estilo virou maneirismo e aqui desce ao cliché. Ele precisa de uma dose de adrenalina e sair desse mundinho feito de vozes sem emoção, ações sem impetuosidade e humor fofo. Mesmo adorando cães, achei este filme bobo, vazio e incrivelmente feio. Não há porque se fazer uma coisa assim. Parece apenas um desenho da TV Cultura dos mais banais. ( Doug é melhor ).
SOMENTE O MAR SABE de James Marsh com Colin Firth, Rachel Weisz
Baseado numa incrível história real. Em 1967, na Inglaterra, se estipula um prêmio para o homem que conseguir quebrar o recorde de navegação solitária. Um cara cheio de dívidas, que navega só em fins de semana, se lança ao mar. E enlouquece. Com uma história tão boa, este filme, chato, consegue naufragar. Ele é boring boring boring boring boring so boring.
MISTER ROBERTS de Melvyn LeRoy e John Ford com Henry Fonda, William Powell, Jack Lemmon e James Cagney.
Foi uma peça de enorme sucesso e marca a estreia de Lemmon no cinema. E ele é a única coisa que presta aqui. É um filme longo, que deveria ser engraçado e heroico, mas que é apenas chato e aborrecido. Fala de um capitão que trata mal seus marujos. Fonda é o oficial que o enfrenta. Tudo em clima de farsa leve. Quer dizer, deveria ser leve, fica travado na verdade. Le Roy assumiu o filme depois que Ford perdeu o interesse. Ou foi o contrário?
ATOS DE VIOLÊNCIA de who cares? com Bruce Willis, Cole Hauser, Mike Epps
Um bom filme de ação como aqueles que Willis fazia nos anos 90...não é o caso. Ele é um tira que procura um assassino sequestrador. Mas é lento, calmo, e dois irmãos assumem o controle da busca. Pois é.
SURPRESAS DO CORAÇÃO de Lawrence Kasdan com Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton
Kline está magnífico como um francês malandro que se envolve com uma americana que tem medo de voar. Se passa em Paris e na Riviera, e, óbvio, tenta resgatar a beleza charmosa dos filmes de Cary Grant e Audrey Hepburn. Fica a milhões de anos luz. Mas tem belas canções, bela imagem e não tem nada de burro ou forçado. E tem um casal que funciona bem.
DESEJO DE MATAR de Eli Roth com Bruce Willis
E esse desejo se satisfaz. Ele mata um monte de gente. Bruce é um cidadão pacato que resolve ir à caça dos bandidos. O filme é ruim? Não. É bom? Não. Não é ruim por nunca ser chato. Não é bom por ser de uma tolice atroz. Bruce não parece muito interessado na coisa. Aliás, desde Pulp Fiction ele não parece muito a fim de trabalho.
ANDREI RUBLEV de Andrei Tarkovski.
Sentiu a coisa? Eis a tal aura da arte, aquilo que Benjamin dizia que o mercado e a repetição destruía. Este filme de mais de 3 horas, fala da vida de um pintor de ícones do século XV. É um filme sobre pintura que não fala de pintura. Fala do momento em que a Russia nasce como nação. Mas vai além. É sobre a violência crua. Por isso ele é bem duro de se ver. As cenas de crueldade são cruas, rudes, e os atos de violência são vistos como ato banal. Claro que por ser Tarkovski, o filme é bem mais que isso. Há um conflito entre ideal e real, e em meio às loucuras dos homens paira sempre a calma beleza da natureza. A cena final justifica todo o filme. Ao lado de uma aldeia arrasada, dois cavalos namoram numa ilha fluvial. Tarkovski foi um gênio, um dos 5 ou 6 do cinema, e no documentário que vem com o filme vemos que ele parecia ser uma pessoa adorável.
Um rápido comentário sobre o que assisti no último mês:
PORTO, UMA HISTÓRIA DE AMOR de Gabe Klinger
Passado na cidade do Porto ( estrangeiros nunca acertam o nome da cidade! Ela se chama O Porto, nunca se diz Porto apenas. ), conta o encontro de um cara muito chato e uma moça muito triste. .
Voce já viu esse mesmo filme umas mil vezes. A cidade é exibida, claro, em seu lado mais soturno.
OS AVENTUREIROS de Robert Enrico com Alain Delon, Lino Ventura e Joanna Shimkus.
O cenário é lindo mas a aventura é chata. Dois homens se envolvem na busca de um tesouro. Com eles vai uma mulher que eles partilham. É longo e tem a modernice de um filme de 1968. Ou seja, cansa. Mesmo com uma fotografia bonita, não vale a pena. E a trilha sonora é insuportável.
ILHA DOS CACHORROS de Wes Anderson
Eu vejo várias qualidades em Wes Anderson. Mas ele está mergulhando em uma emboscada. Seu estilo virou maneirismo e aqui desce ao cliché. Ele precisa de uma dose de adrenalina e sair desse mundinho feito de vozes sem emoção, ações sem impetuosidade e humor fofo. Mesmo adorando cães, achei este filme bobo, vazio e incrivelmente feio. Não há porque se fazer uma coisa assim. Parece apenas um desenho da TV Cultura dos mais banais. ( Doug é melhor ).
SOMENTE O MAR SABE de James Marsh com Colin Firth, Rachel Weisz
Baseado numa incrível história real. Em 1967, na Inglaterra, se estipula um prêmio para o homem que conseguir quebrar o recorde de navegação solitária. Um cara cheio de dívidas, que navega só em fins de semana, se lança ao mar. E enlouquece. Com uma história tão boa, este filme, chato, consegue naufragar. Ele é boring boring boring boring boring so boring.
MISTER ROBERTS de Melvyn LeRoy e John Ford com Henry Fonda, William Powell, Jack Lemmon e James Cagney.
Foi uma peça de enorme sucesso e marca a estreia de Lemmon no cinema. E ele é a única coisa que presta aqui. É um filme longo, que deveria ser engraçado e heroico, mas que é apenas chato e aborrecido. Fala de um capitão que trata mal seus marujos. Fonda é o oficial que o enfrenta. Tudo em clima de farsa leve. Quer dizer, deveria ser leve, fica travado na verdade. Le Roy assumiu o filme depois que Ford perdeu o interesse. Ou foi o contrário?
ATOS DE VIOLÊNCIA de who cares? com Bruce Willis, Cole Hauser, Mike Epps
Um bom filme de ação como aqueles que Willis fazia nos anos 90...não é o caso. Ele é um tira que procura um assassino sequestrador. Mas é lento, calmo, e dois irmãos assumem o controle da busca. Pois é.
SURPRESAS DO CORAÇÃO de Lawrence Kasdan com Meg Ryan, Kevin Kline, Timothy Hutton
Kline está magnífico como um francês malandro que se envolve com uma americana que tem medo de voar. Se passa em Paris e na Riviera, e, óbvio, tenta resgatar a beleza charmosa dos filmes de Cary Grant e Audrey Hepburn. Fica a milhões de anos luz. Mas tem belas canções, bela imagem e não tem nada de burro ou forçado. E tem um casal que funciona bem.
DESEJO DE MATAR de Eli Roth com Bruce Willis
E esse desejo se satisfaz. Ele mata um monte de gente. Bruce é um cidadão pacato que resolve ir à caça dos bandidos. O filme é ruim? Não. É bom? Não. Não é ruim por nunca ser chato. Não é bom por ser de uma tolice atroz. Bruce não parece muito interessado na coisa. Aliás, desde Pulp Fiction ele não parece muito a fim de trabalho.
ANDREI RUBLEV de Andrei Tarkovski.
Sentiu a coisa? Eis a tal aura da arte, aquilo que Benjamin dizia que o mercado e a repetição destruía. Este filme de mais de 3 horas, fala da vida de um pintor de ícones do século XV. É um filme sobre pintura que não fala de pintura. Fala do momento em que a Russia nasce como nação. Mas vai além. É sobre a violência crua. Por isso ele é bem duro de se ver. As cenas de crueldade são cruas, rudes, e os atos de violência são vistos como ato banal. Claro que por ser Tarkovski, o filme é bem mais que isso. Há um conflito entre ideal e real, e em meio às loucuras dos homens paira sempre a calma beleza da natureza. A cena final justifica todo o filme. Ao lado de uma aldeia arrasada, dois cavalos namoram numa ilha fluvial. Tarkovski foi um gênio, um dos 5 ou 6 do cinema, e no documentário que vem com o filme vemos que ele parecia ser uma pessoa adorável.
ELEIÇÃO
Estudando na USP, um dos centros da esquerda mais retrógada do país ( lá ainda se fala em proletariado e campesinato ), me tornei um conservador sem qualquer problema de consciência. O mesmo ocorreu no país em tantos anos de ataque aos valores comuns. São ataques diários à igreja, à masculinidade, à família tradicional, ao passado. Ao ser atacado voce tem a possibilidade de duas reações: baixar a cabeça e se culpar, ou erguer a cabeça e reafirmar aquilo que voce é. A esquerda deslumbrada não entendeu e não quer entender isso. Bater no conservadorismo não faz com que ele desapareça. Ao contrário, ele se torna furioso. E deixa assim de ser conservador. Vira proto-fascismo.
Não falarei sobre o partido dos mentirosos e dos ladrões. Não há o que dizer sobre um partido que nos obriga a escutar a voz de um bêbado presidiário mendigando votos na TV. Falarei sobre o fenômeno de um homem tosco, que contra toda a elite "inteligente" fez de um partido de garagem um partido poderoso. Ele lembra o fascismo por ter o domínio sobre a massa de seguidores frustrados e rancorosos. Isso é perigoso. Mas ele não é um fascista de verdade. Aliás nestes tempos de hiper vigilância e hiper conectividade não há como o fascismo se implantar em um país razoavelmente civilizado. Lula tentou um fascismo de esquerda e se deu muito mal. A vigilância o pegou. Bolsonaro nunca conseguiria. E sei que ele sabe. Lula é muito mais esperto que o simplório ex soldado.
Se vencer, Bolsonaro tentará fazer um governo moralista e liberal. Moralista em comportamento, liberal no mercado. Para negociar com os países capitalistas de ponta, e esse é seu sonho, terá de se apresentar como moderninho e confiável. Ele sabe disso. Não há escolha.
Provável que a turma mais hardcore que o elege se sinta traída. O mesmo ocorreu com o PT hardcore. Fundarão um partido à direita de Bolsonaro. Um PSOL de camisas pretas. O que acho interessante em Bolsonaro é que ele fala muita bobagem mas nunca parece mentir. Teria ainda mais votos se mantivesse a boca fechada. Ou aprendesse com Lula a falar o que o público da vez deseja escutar. E isso entendo bem porque sou assim também, desbocado e tosco. O diabinho me faz falar tudo que vem à mente. E quando vejo o estrago foi feito. Um político conseguir milhões de votos falando por impulso é admirável. Não posso e não vou negar.
Você que me lê deve estar estranhando algo aqui. Parece que só elogio o Coiso. Não. Apenas o olho como o que ele é: humano. Seu governo tem tudo para ser um kaos. Mas o do PT também o será. Com o adendo de ter empáfia e revanchismo. Os petistas babam por vingança.
Bolsonaro tem muito de Jânio Quadros. E se for eleito será vigiado por uma esquerda louca por sangue. Se seu governo naufragar, Boulos aguarda sua vez. A guinada será à esquerda mais utópica e irresponsável. Espero que seus assessores saibam disso.
O povo, esse desconhecido, cansou de "folias artísticas", declarações modernetes e roubos à granel. O povo é moralista. Em qualquer canto do planeta ele é. O PT acreditou em certo momento que o Brasil era o baixo Leblon. Que bastava um discurso libertário para ter seus erros perdoados. Não é assim. Para o povo comum, o discurso libertário acrescentou cinismo à história. Perderam o respeito. Não notaram que formadores de opinião só formam opinião de formadores de opinião. Círculo fechado.
O Mané garçon não quer saber de liberação de drogas, casamento gay ou direito animal. Ele quer respeito à sua igreja, á sua filha e ao seu pai. Bolsonaro sabe disso. Lula sabia e esqueceu. E isso faz uma enorme diferença.
Não falarei sobre o partido dos mentirosos e dos ladrões. Não há o que dizer sobre um partido que nos obriga a escutar a voz de um bêbado presidiário mendigando votos na TV. Falarei sobre o fenômeno de um homem tosco, que contra toda a elite "inteligente" fez de um partido de garagem um partido poderoso. Ele lembra o fascismo por ter o domínio sobre a massa de seguidores frustrados e rancorosos. Isso é perigoso. Mas ele não é um fascista de verdade. Aliás nestes tempos de hiper vigilância e hiper conectividade não há como o fascismo se implantar em um país razoavelmente civilizado. Lula tentou um fascismo de esquerda e se deu muito mal. A vigilância o pegou. Bolsonaro nunca conseguiria. E sei que ele sabe. Lula é muito mais esperto que o simplório ex soldado.
Se vencer, Bolsonaro tentará fazer um governo moralista e liberal. Moralista em comportamento, liberal no mercado. Para negociar com os países capitalistas de ponta, e esse é seu sonho, terá de se apresentar como moderninho e confiável. Ele sabe disso. Não há escolha.
Provável que a turma mais hardcore que o elege se sinta traída. O mesmo ocorreu com o PT hardcore. Fundarão um partido à direita de Bolsonaro. Um PSOL de camisas pretas. O que acho interessante em Bolsonaro é que ele fala muita bobagem mas nunca parece mentir. Teria ainda mais votos se mantivesse a boca fechada. Ou aprendesse com Lula a falar o que o público da vez deseja escutar. E isso entendo bem porque sou assim também, desbocado e tosco. O diabinho me faz falar tudo que vem à mente. E quando vejo o estrago foi feito. Um político conseguir milhões de votos falando por impulso é admirável. Não posso e não vou negar.
Você que me lê deve estar estranhando algo aqui. Parece que só elogio o Coiso. Não. Apenas o olho como o que ele é: humano. Seu governo tem tudo para ser um kaos. Mas o do PT também o será. Com o adendo de ter empáfia e revanchismo. Os petistas babam por vingança.
Bolsonaro tem muito de Jânio Quadros. E se for eleito será vigiado por uma esquerda louca por sangue. Se seu governo naufragar, Boulos aguarda sua vez. A guinada será à esquerda mais utópica e irresponsável. Espero que seus assessores saibam disso.
O povo, esse desconhecido, cansou de "folias artísticas", declarações modernetes e roubos à granel. O povo é moralista. Em qualquer canto do planeta ele é. O PT acreditou em certo momento que o Brasil era o baixo Leblon. Que bastava um discurso libertário para ter seus erros perdoados. Não é assim. Para o povo comum, o discurso libertário acrescentou cinismo à história. Perderam o respeito. Não notaram que formadores de opinião só formam opinião de formadores de opinião. Círculo fechado.
O Mané garçon não quer saber de liberação de drogas, casamento gay ou direito animal. Ele quer respeito à sua igreja, á sua filha e ao seu pai. Bolsonaro sabe disso. Lula sabia e esqueceu. E isso faz uma enorme diferença.
A MAIS IDEALISTA DAS BANDAS.
Não há consenso sobre onde o movimento romântico começou. Uns dizem ter sido nas ilhas, mais especificamente na Escócia, outros, a maioria, diz ter sido na Alemanha. Depois se espalhou pelo mundo. A característica principal do romântico é o sentimento de solidão. Mas podemos também falar do egocentrismo, da sensação de perda, da busca por transcendência, da valorização das coisas jovens, puras, naturais. Não lembro quem disse a bela tese de que o corpo ansia por criar alma.
O Kraftwerk é o mais romântico dos grupos musicais de seu tempo e nisso nada há de irônico no que falo. A máquina encontra alma nas mãos desses alemães que desejavam, e conseguiram, criar um tipo de música POP que fosse 100% europeia. Da Alemanha seu som aportou na Inglaterra e de lá para a França e Bélgica. Hoje, escutando dois de seus discos, os dois melhores, percebo que a música eletrônica é a mais romântica dentro do Pop ou do Rock. O lado B do vinil de Autobahn é das coisas mais poéticas já gravadas. Assim como o lado B do Low de Bowie ( que é filho direto deste ), os discos de Ultravox, Eno, Radiohead, Yazoo, Cocteau Twins, e tantos outros, têm esse clima de "altas montanhas isoladas", de solidão alpina, de doença que isola, de ansiedade por transcender. Na América o rock sensível usa violão e é não-romântico, antes é comunitário, idealista. A América é sempre Whitman.
Mas não a Europa. E os alemães de Dusseldorf criaram um universo de novos timbres e de uma nova sonoridade. O lado B de Autobahn e no Radioactivity inteiro são um enorme poema sobre o romantismo. No sintetizador eles encontram o melhor instrumento para criar paisagens imaginárias, sempre geladas e sempre solitárias. O homem contra o mundo acompanhado por um instrumento e mais nada, um instrumento excessivamente artificial e ao mesmo tempo tão tênue como a eletricidade.
A beleza é sempre perfeição e o lado B de Autobahn é perfeito. Não existe erro na gravação do Kling Klang estúdio. Um iceberg onírico. Paisagem de sentimentos negados. A Alemanha é um ideal incômodo. É o Kraftwerk é seu símbolo.
O Kraftwerk é o mais romântico dos grupos musicais de seu tempo e nisso nada há de irônico no que falo. A máquina encontra alma nas mãos desses alemães que desejavam, e conseguiram, criar um tipo de música POP que fosse 100% europeia. Da Alemanha seu som aportou na Inglaterra e de lá para a França e Bélgica. Hoje, escutando dois de seus discos, os dois melhores, percebo que a música eletrônica é a mais romântica dentro do Pop ou do Rock. O lado B do vinil de Autobahn é das coisas mais poéticas já gravadas. Assim como o lado B do Low de Bowie ( que é filho direto deste ), os discos de Ultravox, Eno, Radiohead, Yazoo, Cocteau Twins, e tantos outros, têm esse clima de "altas montanhas isoladas", de solidão alpina, de doença que isola, de ansiedade por transcender. Na América o rock sensível usa violão e é não-romântico, antes é comunitário, idealista. A América é sempre Whitman.
Mas não a Europa. E os alemães de Dusseldorf criaram um universo de novos timbres e de uma nova sonoridade. O lado B de Autobahn e no Radioactivity inteiro são um enorme poema sobre o romantismo. No sintetizador eles encontram o melhor instrumento para criar paisagens imaginárias, sempre geladas e sempre solitárias. O homem contra o mundo acompanhado por um instrumento e mais nada, um instrumento excessivamente artificial e ao mesmo tempo tão tênue como a eletricidade.
A beleza é sempre perfeição e o lado B de Autobahn é perfeito. Não existe erro na gravação do Kling Klang estúdio. Um iceberg onírico. Paisagem de sentimentos negados. A Alemanha é um ideal incômodo. É o Kraftwerk é seu símbolo.
O QUARTO DE JACOB - VIRGINIA WOOLF
Que mente maravilhosa tinha Virginia Woolf...ela era capaz de captar uma abelha passando ao lado de uma flor e ao mesmo tempo imaginar o movimento de um deus sobre o firmamento. A mente dela sempre me recorda uma floresta, os pensamentos brotando sem parar, no chão, dos galhos, da água, por entre as pedras. Ao mesmo tempo é sinfônica, mas não no sentido de Beethoven, é música de Debussy. Impressões que vão e retornam, que morrem antes de crescer, que viram árvores centenárias. Jacob é um jovem londrino que conhece mulheres, estuda em Cambridge, viaja à Grécia. O livro é uma coleção orgânica de impressões. Uma sinfonia de vozes, de personagens que vão e vêm, de modos de ver e de sentir. Virginia Woolf arquiteta tudo isso, que em mãos pouco hábeis seria uma bagunça, com gosto, arte, sabedoria; e em troca nos dá prazer. Ler Woolf é como ouvir música.
Este livro foi editado em 1922 pela Hogarth Press, a editora fundada por ela e seu marido. É o terceiro trabalho dela, mas é o primeiro com seu estilo. É moderno, é surpreendente, é excitante, é um universo completo.
Este livro foi editado em 1922 pela Hogarth Press, a editora fundada por ela e seu marido. É o terceiro trabalho dela, mas é o primeiro com seu estilo. É moderno, é surpreendente, é excitante, é um universo completo.
O GÊNIO DA HORA CERTA.
Observe: em 1770, quando Mozart e outros muitos mais escreviam suas operas, não havia cinema. Óbvio, mas quero destacar isso. Mozart, e depois Rossini, operavam dentro da diversão-arte dominante de sua época. Havia circo. Havia teatro. Havia literatura. Mas a ópera era a rainha da noite.
Agora pense em 1850. Na Europa o analfabetismo começa a ser erradicado ( na Inglaterra fora já há 50 anos ). Em casa não existe rádio. Nem disco. Você lê. Eis porque se escreve tanto no século XIX. Jornal, revista, romance, poema, filosofia, folhetim. A palavra impressa reina absoluta. Destaco isso porque é essa a explicação pragmática, objetiva, lúcida, do porque jamais teremos outro Tolstoi, Dickens ou Balzac. Produziremos Updikes, Roths e Sebalds, são excelentes, mas nunca mais um grande escritor será o símbolo de seu tempo. Isso porque a própria literatura não mais é o símbolo deste tempo. Entre 1750-1920 mais ou menos, ela foi a ditadora das salas. Veio o rádio, e com ele nasceu o tempo da canção popular.
Podemos aplicar isso a vários gênios de sua época. Shakespeare trabalhou na grande arte da Inglaterra de 1600: o teatro. Cole Porter e Gershwin na grande arte dos EUA de 1920: a canção popular e o teatro musical. O que digo é: o gênio, hoje, pode estar fazendo teatro em versos, mas pelo fato do teatro em versos não ser a arte deste tempo, ele jamais será um Esquilo ou um Marlowe. Ele será um "quase" .
Nunca mais tivemos novos Beatles porque eles fizeram seu alarido no curto tempo do rock como febre mundial. Surgiram, por acaso e sorte, no pico da descoberta do adolescente como público alvo. Hoje o rock é apenas um nicho entre inúmeros produtos. Por mais que uma banda tenha talento, ela será apenas uma prateleira e não o supermercado inteiro.
Entre 1920 e 1950 sair de noite era ir ao cinema. Voce podia ir comer depois, dançar depois, mas ia ao cinema. Porque os filmes eram o modo de se saber como se vestir, do que falar e como seduzir. Veio a TV, ficar na sala de casa voltou a ter o apelo que tivera no século XIX com seus livros, e o cinema começou a se tornar apenas mais um entre vários itens de diversão ou arte. É por isso que Hitchcock, Murnau ou Ford nunca perdem sua aura. Eles, mais que grandes cineastas, são a cara de toda uma época. Radio e cinema era tudo de novo que havia. Sinatra e Bogart. Os reis do mundo.
Por melhor que Wes Anderson ou Tim Burton sejam, eles são grandes dentro do cinema e apenas do cinema. Porque os filmes não são mais o centro do mundo. Estão na prateleira A82, ao lado do rádio e do circo.
Pode ser que haja agora um talento tão grande quanto Verdi na ópera. Ou quanto Ben Jonson no teatro. Mas ele jamais poderá ser tão central quanto eles são. Porque esse novo músico ou dramaturgo exerce uma atividade não central.
Hoje se vê TV, se joga video game, se navega na internet, se lê HQ, se ouve música. Tudo ao mesmo tempo. Nenhuma dessas atividades é central porque todas se completam em um grande ruído. Por isso não adianta se procurar o grande gênio da arte atual. Ele não pode crescer em um meio onde nada cresce de fato. O gênio é um pinheiro, uma faia e hoje temos um matagal fechado, raízes que se devoram e se ajudam.
Não falarei que o grande talento de hoje está na ciência. Ela sempre foi central. Galileo foi central no tempo da arquitetura e Darwin foi central no do romance. Falo de arte e de diversão. Da vida social. E paro aqui.
Agora pense em 1850. Na Europa o analfabetismo começa a ser erradicado ( na Inglaterra fora já há 50 anos ). Em casa não existe rádio. Nem disco. Você lê. Eis porque se escreve tanto no século XIX. Jornal, revista, romance, poema, filosofia, folhetim. A palavra impressa reina absoluta. Destaco isso porque é essa a explicação pragmática, objetiva, lúcida, do porque jamais teremos outro Tolstoi, Dickens ou Balzac. Produziremos Updikes, Roths e Sebalds, são excelentes, mas nunca mais um grande escritor será o símbolo de seu tempo. Isso porque a própria literatura não mais é o símbolo deste tempo. Entre 1750-1920 mais ou menos, ela foi a ditadora das salas. Veio o rádio, e com ele nasceu o tempo da canção popular.
Podemos aplicar isso a vários gênios de sua época. Shakespeare trabalhou na grande arte da Inglaterra de 1600: o teatro. Cole Porter e Gershwin na grande arte dos EUA de 1920: a canção popular e o teatro musical. O que digo é: o gênio, hoje, pode estar fazendo teatro em versos, mas pelo fato do teatro em versos não ser a arte deste tempo, ele jamais será um Esquilo ou um Marlowe. Ele será um "quase" .
Nunca mais tivemos novos Beatles porque eles fizeram seu alarido no curto tempo do rock como febre mundial. Surgiram, por acaso e sorte, no pico da descoberta do adolescente como público alvo. Hoje o rock é apenas um nicho entre inúmeros produtos. Por mais que uma banda tenha talento, ela será apenas uma prateleira e não o supermercado inteiro.
Entre 1920 e 1950 sair de noite era ir ao cinema. Voce podia ir comer depois, dançar depois, mas ia ao cinema. Porque os filmes eram o modo de se saber como se vestir, do que falar e como seduzir. Veio a TV, ficar na sala de casa voltou a ter o apelo que tivera no século XIX com seus livros, e o cinema começou a se tornar apenas mais um entre vários itens de diversão ou arte. É por isso que Hitchcock, Murnau ou Ford nunca perdem sua aura. Eles, mais que grandes cineastas, são a cara de toda uma época. Radio e cinema era tudo de novo que havia. Sinatra e Bogart. Os reis do mundo.
Por melhor que Wes Anderson ou Tim Burton sejam, eles são grandes dentro do cinema e apenas do cinema. Porque os filmes não são mais o centro do mundo. Estão na prateleira A82, ao lado do rádio e do circo.
Pode ser que haja agora um talento tão grande quanto Verdi na ópera. Ou quanto Ben Jonson no teatro. Mas ele jamais poderá ser tão central quanto eles são. Porque esse novo músico ou dramaturgo exerce uma atividade não central.
Hoje se vê TV, se joga video game, se navega na internet, se lê HQ, se ouve música. Tudo ao mesmo tempo. Nenhuma dessas atividades é central porque todas se completam em um grande ruído. Por isso não adianta se procurar o grande gênio da arte atual. Ele não pode crescer em um meio onde nada cresce de fato. O gênio é um pinheiro, uma faia e hoje temos um matagal fechado, raízes que se devoram e se ajudam.
Não falarei que o grande talento de hoje está na ciência. Ela sempre foi central. Galileo foi central no tempo da arquitetura e Darwin foi central no do romance. Falo de arte e de diversão. Da vida social. E paro aqui.
UM DISCO SOBRE SEXO, E SÓ SOBRE SEXO= RAW POWER-IGGY POP.
Conheci alguns Iggys na minha vida. Garotos com pirocas gigantes. Não que as tenha visto, mas suas vidas eram, desde os 14 anos, totalmente dirigidas pela cabeça peniana. Um Leonardo que comia velhos gays em troca de uns trocados e comida. Ele tinha 16. Francisco Eduardo, rico e bonito, que transava com qualquer coisa que tivesse um buraco úmido e quente. André, o que comia toda pessoa que o tocasse. E outros mais. Todos eram pequenos Iggys. O desejo físico puro. Um ódio terrível por esse desejo. Pois eles sabiam, intuitivamente, que o gozo pleno jamais viria.
Detroit nos anos 60 era uma cidade doida. Capital da black music e ao mesmo tempo berço do MC5, dos Stooges e de Alice Cooper. O metal das fábricas de carros deu metal às guitarras estúpidas. Iggy sempre foi estúpido. Mas sua estupidez virou estilo: Iggy nunca foi intuitivo. Seu ódio era consciente. Ele sabe que o gozo é ilusório.
Raw Power foi às lojas no ano de 1973. E 1973 foi um ano cú. Ele começa com Dark Side of The Moon e acaba com Goodbye Yellow Brick Road. No meio tem Houses of The Holy. E Sabbath Bloody Sabbath. Tem dois discos do Roxy: For Your Pleasure em janeiro e Stranded em novembro. E ainda solos de Eno e Ferry. Tem o Alladin Sane e Pin Ups. E nos EUA, passando bem despercebido, tem Raw Power. E Berlin, do Lou Reed. Alice Cooper, que lançou o brilhante Billion Dollar Babies, era o king. Iggy era semi morto. Bowie o salvou da morte.
Bowie mixou o disco todo errado. Um canal com bateria, guitarra e tudo mais. Som de radinho de pilha. O outro canal com voz e guitarra solo. O canal "ruim" é punk. O canal bom é hard rock. Os dois juntos são Iggy Pop. Bowie fez de propósito? Ninguém vai saber.
A voz de Iggy é a mais explícita voz do sexo já gravada. Sexo sem amor, digamos assim. O ato físico. Um vale tudo entre dois ou três corpos. Essa voz tem tons de sadomasoquismo. Mas também de masturbação, de orgasmo e de estupro. Não é sedutora. Adolescentes tarados não são sedutores. É uma voz que deseja agora. E onde o outro não importa nada. Nos anos 70, onde tudo era feito "numa boa", essa voz falava quase sozinha. No fim dessa década ela anunciaria os anos 80, a década do "voce que se foda, eu quero é mais".
Raw Power NÃO PODE E NÃO DEVE ser analisado como música. Não procure harmonia, melodia ou criação. Ele é um ato. Um testemunho. Deve ser sentido e pensado como afirmação de uma verdade. Antecipa o punk por ser um posicionamento político. Não música. ( O Roxy já era também isso, mas a política do Roxy era esnobar o mundo real e viver na redoma do romance ).
Iggy faria pelo resto da vida novos testemunhos sobre o sexo. Às vezes com uma pitada de romance e de alma. Mas sempre com a velha fome da carne imperfeita. O cara é foda. O disco é foda. E nós somos todos uns fodidos.
Detroit nos anos 60 era uma cidade doida. Capital da black music e ao mesmo tempo berço do MC5, dos Stooges e de Alice Cooper. O metal das fábricas de carros deu metal às guitarras estúpidas. Iggy sempre foi estúpido. Mas sua estupidez virou estilo: Iggy nunca foi intuitivo. Seu ódio era consciente. Ele sabe que o gozo é ilusório.
Raw Power foi às lojas no ano de 1973. E 1973 foi um ano cú. Ele começa com Dark Side of The Moon e acaba com Goodbye Yellow Brick Road. No meio tem Houses of The Holy. E Sabbath Bloody Sabbath. Tem dois discos do Roxy: For Your Pleasure em janeiro e Stranded em novembro. E ainda solos de Eno e Ferry. Tem o Alladin Sane e Pin Ups. E nos EUA, passando bem despercebido, tem Raw Power. E Berlin, do Lou Reed. Alice Cooper, que lançou o brilhante Billion Dollar Babies, era o king. Iggy era semi morto. Bowie o salvou da morte.
Bowie mixou o disco todo errado. Um canal com bateria, guitarra e tudo mais. Som de radinho de pilha. O outro canal com voz e guitarra solo. O canal "ruim" é punk. O canal bom é hard rock. Os dois juntos são Iggy Pop. Bowie fez de propósito? Ninguém vai saber.
A voz de Iggy é a mais explícita voz do sexo já gravada. Sexo sem amor, digamos assim. O ato físico. Um vale tudo entre dois ou três corpos. Essa voz tem tons de sadomasoquismo. Mas também de masturbação, de orgasmo e de estupro. Não é sedutora. Adolescentes tarados não são sedutores. É uma voz que deseja agora. E onde o outro não importa nada. Nos anos 70, onde tudo era feito "numa boa", essa voz falava quase sozinha. No fim dessa década ela anunciaria os anos 80, a década do "voce que se foda, eu quero é mais".
Raw Power NÃO PODE E NÃO DEVE ser analisado como música. Não procure harmonia, melodia ou criação. Ele é um ato. Um testemunho. Deve ser sentido e pensado como afirmação de uma verdade. Antecipa o punk por ser um posicionamento político. Não música. ( O Roxy já era também isso, mas a política do Roxy era esnobar o mundo real e viver na redoma do romance ).
Iggy faria pelo resto da vida novos testemunhos sobre o sexo. Às vezes com uma pitada de romance e de alma. Mas sempre com a velha fome da carne imperfeita. O cara é foda. O disco é foda. E nós somos todos uns fodidos.
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