leia e escreva já!
AS MELHORES TRILHAS SONORAS DOS FILMES MAIS COOL
1965/1975, o apogeu da música de cinema. Air, David Holmes, DJs, todos concordam. E foi mesmo. Dificil achar um filme desse período, por mais ruim que ele seja, que não tenha uma trilha sonora interessante. E que não exerça influência na música mais interessante feita hoje.
Todos concordam que a arte da trilha sonora se perdeu. Alguns poucos filmes ainda têm boa trilha, mas elas não vendem, não se tornam um sucesso popular independente do filme. Para voce entender, a trilha de Bullit ou dos Dirty Dozen concorria com Beatles, pau a pau. Hoje trilha de sucesso é trilha cheia de músicas pop feitas anos antes e sem a intenção de virar filme. Ou trilha cantada de Frozen. Eu falo de música para filme não musical. E composta para o filme. Que se integra à obra.
Para mim, o melhor tempo começa antes, em 1955, e vai até 1975. Começa com Duke Ellington, Henry Mancini, Alex North, Jerry Fielding, Bernard Herrman, Elmer Bernstein, e acaba exatamente com a trilha de Tubarão e Taxi Driver, em 1975. O documentário que assisti prefere um corte menor. A trilha mais funky, mais elétrica de Lalo Schifrin, Qincy Jones, John Barry, Ennio Morricone, Michel Legrand. A visão é americana, então eles deixam de lado Georges Delerue, Nino Rota, Carlo Rustichelli, e até mesmo Burt Bacharach, talvez por ser ultra pop. De qualquer modo é uma delicia o frisson que causa dois minutos apenas de Bullit, Thomas Crown, a trilogia do western com Clint, Dirty Harry, Shaft, Peter Gunn... E veja que eles nem falam do Chefão, de Chinatown, Operação França ou de Papillon. É uma multidão de músicas ainda cool, ainda influentes, ainda conhecidas, ainda instigantes.
Por iniciar em 65 não se fala das trilhas do James Bond, por John Barry, e nem da Pantera Cor de Rosa, por Mancini. Talvez as duas trilhas mais queridas da história do cinema. John Willians, o colecionador de Oscars, começa nessa época, suas primeiras trilhas, bem jazzisticas, são de 65/66.
Posto o inicio de Bullit. Só pra voce sentir o que falo.
Bom dia!
Todos concordam que a arte da trilha sonora se perdeu. Alguns poucos filmes ainda têm boa trilha, mas elas não vendem, não se tornam um sucesso popular independente do filme. Para voce entender, a trilha de Bullit ou dos Dirty Dozen concorria com Beatles, pau a pau. Hoje trilha de sucesso é trilha cheia de músicas pop feitas anos antes e sem a intenção de virar filme. Ou trilha cantada de Frozen. Eu falo de música para filme não musical. E composta para o filme. Que se integra à obra.
Para mim, o melhor tempo começa antes, em 1955, e vai até 1975. Começa com Duke Ellington, Henry Mancini, Alex North, Jerry Fielding, Bernard Herrman, Elmer Bernstein, e acaba exatamente com a trilha de Tubarão e Taxi Driver, em 1975. O documentário que assisti prefere um corte menor. A trilha mais funky, mais elétrica de Lalo Schifrin, Qincy Jones, John Barry, Ennio Morricone, Michel Legrand. A visão é americana, então eles deixam de lado Georges Delerue, Nino Rota, Carlo Rustichelli, e até mesmo Burt Bacharach, talvez por ser ultra pop. De qualquer modo é uma delicia o frisson que causa dois minutos apenas de Bullit, Thomas Crown, a trilogia do western com Clint, Dirty Harry, Shaft, Peter Gunn... E veja que eles nem falam do Chefão, de Chinatown, Operação França ou de Papillon. É uma multidão de músicas ainda cool, ainda influentes, ainda conhecidas, ainda instigantes.
Por iniciar em 65 não se fala das trilhas do James Bond, por John Barry, e nem da Pantera Cor de Rosa, por Mancini. Talvez as duas trilhas mais queridas da história do cinema. John Willians, o colecionador de Oscars, começa nessa época, suas primeiras trilhas, bem jazzisticas, são de 65/66.
Posto o inicio de Bullit. Só pra voce sentir o que falo.
Bom dia!
E NASCE A LUZ INTERIOR!
Primeiro foi Platão. Dois mundos. O mundo onde vivemos e o mundo perfeito das ideias. Aprender, viver, é relembrar onde já estivemos um dia, o universo onde a inteligência manda e tudo é ideal. Aqui, sombras. Lá, a luz.
No ano 470 de nossa era, o fim de Roma. O começo da Idade Média. Bárbaros invadem a Itália. Seitas hereges brotam. Surge Agostinho. Pagão, aos 30 anos ele se faz cristão. E tem, para salvar o cristianismo, uma ideia genial. Unir à fé cristã, a lógica grega. O ocidente nasce exatamente nesse momento. Este nosso mundo onde lutamos para unir crença e razão, dogma com liberdade, espírito e carne.
Agostinho criou a interioridade. Foi o primeiro autor a falar em vida interior. Surpreso? Explico.
Talvez voce já tenha lido Homero. Ou Ésquilo. Sófocles. Virgilio. E tenha sentido que em meio a toda aquela beleza, criação, filosofia, falta alguma coisa. Parece que há uma certa superficialidade estranha. Como superficialidade? Eles falam sobre coisas graves, sérias, reais! Sim, é vero, mas...não há vida interior. Tudo neles é para fora, é ação, ato. As coisas só existem se forem ditas, discutidas, feitas, o ser só existe no convívio com a comunidade. Na dialética, no diálogo, na conversa. Impossível nesse mundo a criação do romance. Tudo é para fora.
Agostinho cria um raciocínio que salva a igreja e que nos cria, mesmo a voces, amigos ateus. O pensamento é tão arraigado em nós que lhe parecerá óbvio, mas creia-me, foi uma revolução!
Ele disse: Se Deus criou o homem, e esse homem foi feito à Sua semelhança, então, lógico, cada homem tem em si algo de divino, possui em seu INTERIOR uma fagulha divina.
As consequências dessa afirmação foram tremendas! Vamos à algumas:
Todo homem merece o respeito. Todo homem faz parte da criação divina.
Um homem pode ser destruído fisicamente, mas sua fagulha não. Voce pode prender um corpo, mas nunca uma alma.
A sabedoria está dentro de cada um e não lá fora. Deus vive dentro do ser.
Aprender é encontrar um caminho para essa fagulha.
Agostinho dava assim toda a direção para onde fluiria a filosofia e a igreja dos próximos mil anos. Santo Tomás de Aquino faria alguns acréscimos, mas as fundações estavam dadas. A partir da renascença, com a ciência experimental, começaria a se procurar a verdade no mundo lá de fora, mas até hoje, em 2015, mil e quinhentos anos mais tarde, ainda pensamos em iluminação interior, seja via arte, fé ou descoberta científica.
Tudo isso me foi passado num curso de filosofia que tenho feito. Diz a professora que Agostinho remete direto à Descartes e Wittgeinstein. Como pode? Digo para ela que isso foi uma...revolução! Que estou pasmo! Ela responde, Sim, é uma revolução, ele inaugura a interioridade na história do pensamento. Cada um passa a ser responsável pela sua fé. Ele não podia prever, mas isso abriu caminho para a Reforma Protestante e para o agnosticismo. Se cada um deve olhar para dentro de si à procura de Deus, nasce a possibilidade de nada se encontrar ou de se encontrar um Deus novo.
Estava feita a cisão. Nascida dentro do próprio cristianismo. O homem como o reconhecemos começa a partir daí. De certo modo Agostinho foi o primeiro contemporâneo.
No ano 470 de nossa era, o fim de Roma. O começo da Idade Média. Bárbaros invadem a Itália. Seitas hereges brotam. Surge Agostinho. Pagão, aos 30 anos ele se faz cristão. E tem, para salvar o cristianismo, uma ideia genial. Unir à fé cristã, a lógica grega. O ocidente nasce exatamente nesse momento. Este nosso mundo onde lutamos para unir crença e razão, dogma com liberdade, espírito e carne.
Agostinho criou a interioridade. Foi o primeiro autor a falar em vida interior. Surpreso? Explico.
Talvez voce já tenha lido Homero. Ou Ésquilo. Sófocles. Virgilio. E tenha sentido que em meio a toda aquela beleza, criação, filosofia, falta alguma coisa. Parece que há uma certa superficialidade estranha. Como superficialidade? Eles falam sobre coisas graves, sérias, reais! Sim, é vero, mas...não há vida interior. Tudo neles é para fora, é ação, ato. As coisas só existem se forem ditas, discutidas, feitas, o ser só existe no convívio com a comunidade. Na dialética, no diálogo, na conversa. Impossível nesse mundo a criação do romance. Tudo é para fora.
Agostinho cria um raciocínio que salva a igreja e que nos cria, mesmo a voces, amigos ateus. O pensamento é tão arraigado em nós que lhe parecerá óbvio, mas creia-me, foi uma revolução!
Ele disse: Se Deus criou o homem, e esse homem foi feito à Sua semelhança, então, lógico, cada homem tem em si algo de divino, possui em seu INTERIOR uma fagulha divina.
As consequências dessa afirmação foram tremendas! Vamos à algumas:
Todo homem merece o respeito. Todo homem faz parte da criação divina.
Um homem pode ser destruído fisicamente, mas sua fagulha não. Voce pode prender um corpo, mas nunca uma alma.
A sabedoria está dentro de cada um e não lá fora. Deus vive dentro do ser.
Aprender é encontrar um caminho para essa fagulha.
Agostinho dava assim toda a direção para onde fluiria a filosofia e a igreja dos próximos mil anos. Santo Tomás de Aquino faria alguns acréscimos, mas as fundações estavam dadas. A partir da renascença, com a ciência experimental, começaria a se procurar a verdade no mundo lá de fora, mas até hoje, em 2015, mil e quinhentos anos mais tarde, ainda pensamos em iluminação interior, seja via arte, fé ou descoberta científica.
Tudo isso me foi passado num curso de filosofia que tenho feito. Diz a professora que Agostinho remete direto à Descartes e Wittgeinstein. Como pode? Digo para ela que isso foi uma...revolução! Que estou pasmo! Ela responde, Sim, é uma revolução, ele inaugura a interioridade na história do pensamento. Cada um passa a ser responsável pela sua fé. Ele não podia prever, mas isso abriu caminho para a Reforma Protestante e para o agnosticismo. Se cada um deve olhar para dentro de si à procura de Deus, nasce a possibilidade de nada se encontrar ou de se encontrar um Deus novo.
Estava feita a cisão. Nascida dentro do próprio cristianismo. O homem como o reconhecemos começa a partir daí. De certo modo Agostinho foi o primeiro contemporâneo.
JOVEM.
Ser jovem é uma convulsão. É estar perto da morte todo o tempo e mesmo assim ou por isso mesmo ser mais vivo que a vida. Mais que a vida porque se a vida é em sua maior parte envelhecimento e decadência, ser jovem é o escândalo da super vida!
Nietzsche estava errado! Não foi o cristianismo que nos fez fracos, é a idade que nos esmaga e vence nossa verdadeira força. Nosso apogeu dura apenas dez anos... A vida plena dos ossos, que se quebram e se refazem sem que percebamos. A elasticidade da pele, protegendo mais que o corpo, embalando os sonhos. Porque jovens tudo é sonho, mesmo que pensemos na dor. A vida é então feita de saltos, assaltos, piruetas e trombetas que anunciam: Sou vivo!
Convulsionado as dores se vão, convulsionado o amor chega, em convulsões ele morre. Tudo é grito e a dança do sangue que exige jorrar. Suor nos porões onde o sal escorre pelas paredes, risos nos quartos em que cada palavra é uma piada. O raio do sol bate na pele que acasala com ele. A onda do mar abraça a pele que envolve ela. Leve. A juventude é leve, a leve doçura do compromisso que é para sempre e sempre acaba. E volta. Porque um ano para um jovem cérebro é toda uma vida.
Eu me intoxicava em convulsões mortíferas que me fizeram viver. Nas cavalgadas da guitarra-potro-escoiceante. Nas mordeduras da bateria tesoura. Nos vulcânicos dotes do baixo fervido. As convulsões vivas da alma que está prestes a se jogar. Aceitar a vida. Começar a partir.
Ser jovem é a maior das felicidades.
Nietzsche estava errado! Não foi o cristianismo que nos fez fracos, é a idade que nos esmaga e vence nossa verdadeira força. Nosso apogeu dura apenas dez anos... A vida plena dos ossos, que se quebram e se refazem sem que percebamos. A elasticidade da pele, protegendo mais que o corpo, embalando os sonhos. Porque jovens tudo é sonho, mesmo que pensemos na dor. A vida é então feita de saltos, assaltos, piruetas e trombetas que anunciam: Sou vivo!
Convulsionado as dores se vão, convulsionado o amor chega, em convulsões ele morre. Tudo é grito e a dança do sangue que exige jorrar. Suor nos porões onde o sal escorre pelas paredes, risos nos quartos em que cada palavra é uma piada. O raio do sol bate na pele que acasala com ele. A onda do mar abraça a pele que envolve ela. Leve. A juventude é leve, a leve doçura do compromisso que é para sempre e sempre acaba. E volta. Porque um ano para um jovem cérebro é toda uma vida.
Eu me intoxicava em convulsões mortíferas que me fizeram viver. Nas cavalgadas da guitarra-potro-escoiceante. Nas mordeduras da bateria tesoura. Nos vulcânicos dotes do baixo fervido. As convulsões vivas da alma que está prestes a se jogar. Aceitar a vida. Começar a partir.
Ser jovem é a maior das felicidades.
A UTILIDADE DA BELEZA É A DE DESTRUIR O CONCEITO DE UTILIDADE
E tudo começou com Beardsley. Com uma linha sinuosa, desenhada a nanquim, preto sobre o branco. Um diabinho e uma mulher nua. Era o começo do fim do século XIX, e como protesto ao automatismo da vida industrial, eles criaram a noção de que só teria valor aquilo que fosse feito manualmente. A revolução seria a revolução da beleza. Se o mundo se tornava cada vez mais feio, sujo, aglomerado, cabia ao homem, a todo homem, se individualizar. Fazer de seu ambiente, de sua vida, testemunho de sua beleza individual. ( Me parece que hoje, burramente, o protesto se dá pelo culto ao feio. Como se não fosse feio aquilo que produzimos naturalmente ).
O que seria essa beleza? Para o art nouveau inglês, o belo seria noturno, negro, curvilíneo, pecaminoso e satânico. Whistler exemplifica bem esse estilo noturno. Mas Londres não foi solitária. Barcelona, Bruxelas, Paris, Berlin e principalmente Viena logo adotaram o estilo. Beleza para todos! Não vamos esquecer nunca que eles eram socialistas, sua ambição era coletiva e socializante.
Uma contradição! Um dos lemas era: Melhor fazer um cinzeiro em dez dias que dez cinzeiros em um dia! E realmente eles levavam até mais de dez dias para fazer um cinzeiro. E essa peça seria única, cheia de criatividade, beleza. E cara...O novo estilo, JUNGSTIL, começou a ser sinal de luxo, status, exclusividade. Mobilia, quadros, roupas, objetos, um simples saleiro, tudo era Jungstil. O jovem estilo. Nada acessível às massas que continuavam em sua pobreza feia do produto anônimo. Mas havia a arquitetura, e com ela a cidade poderia mudar, e com a mudança do ambiente o povo poderia adquirir o senso da beleza! Maravilhosas fachadas em Viena, em Paris, estações de metrô, postes de luz, gares de trens, bancos, jardins, tudo art nouveau, novo lema: Arte de Hoje para o Tempo de Agora!
A música do tempo: Debussy! Ravel ! Satie! Curvas, panos, tapetes, cortinas, luzes, ferro fundido, prata, ouro, vitrais, flores, veludo. Poetas do tempo: Rilke, Stefan George, Mallarmée, Valéry. Corpos nús, sexo, oriente, Grécia. Vapores...Luxo, sempre o luxo, a calma, a volúpia. Klimt, Mucha, Otto Wagner, Victor Horta.
Em Trieste, em 1905, Rilke e Joyce se cruzaram na cidade. E não se reconheceram, claro. Mas veja, uma cidade, média, viu dois gênios respirarem seu ar ao mesmo tempo. Um, Rilke, cultuando a negra pantera que trazia em seu movimento a beleza do sexo e da morte; o outro, Joyce, odiando tudo aquilo e querendo mostrar ao mundo o cuspe, a merda e a vulgaridade da vida real. E quem sabe, achar a beleza maior nessa verdade.
Para o Art Nouveau, a beleza era um fim em si. Para Joyce, a verdade era a beleza. Sempre a verdade.
Como todo movimento novo, ele logo ficou velho. Em dez anos, o esgotamento. E quando a primeira guerra veio, em 1914, culpou-se o Jungstil pela guerra. Falou-se que sua falta de moral, de fibra, sua preguiça seria o ambiente que levou o mundo ao Kaos! Jungstil passou a ser coisa decadente, suja, mortal...
Por 50 anos, até 1964 mais ou menos, TUDO referente a Klimt, Beardsley, Whistler, foi considerado de segunda categoria. Foi o tempo da ditadura da linha reta. Da Bauhaus, de Mondrian, aqui no nosso Brasil do chato Niemeyer. Sem ornamentos, sem enfeites, sem copiar a natureza. Linhas puras, aço e vidro, regras e réguas. A beleza substituída pela FUNCIONALIDADE. O objeto, a construção, deve cumprir sua função. Tudo o que não tenha uma utilidade é dispensável. ( Oscar Wilde: A arte e a beleza só o são quando completamente inuteis ).
Os anos 60 recuperaram a Jungstil. De repente o inutil voltou a ser cultuado. O mundo viu um renascimento do ornamento, do enfeite, do negro, do dúbio, do floral, do véu, o satânico, o exagero. A curva retomou seu posto de rainha de estilo. A vida como arte, o eu como construção consciente de beleza. Se voce quer que eu vulgarize, a música pop de Incredible String Band, Soft Machine, Gong, música floral, cheia de arabescos, surpresas, tintas e noites, discos como o Satanic dos Stones, Sgt Peppers, Forever Changes do Love. Capas, olhos árabes, vitrais art déco, música indiana, marroquina, flamenco...A beleza, a busca da beleza como única fé, a religião do BELO.
E hoje? E 2015?
Uma luta neste vale-tudo do mercado que é o mundo. Um planeta que virou um bazar de vidro e pedra. De um lado a hiper-funcionalidade. Beleza sendo conceito relativo, ou pior, futil. Estranhamente esse conceito se tornou quase religioso, pois ele no fundo nega a matéria. Se voce nega a beleza do olhar e do tato, voce está negando o mundo sensual, o mundo da matéria. Voce vive no mundo da função, do pensamento e do fazer imaterial. É quase um universo cego. O Brasil ama esse mundo. Por tradição somos ligados a cegueira. Prédios todos iguais, ruas sem ornamentos, funcionalidade que em nosso trágico caso, nunca funciona. Estamos no pior dos dois mundos.
E há a luta pela preservação da beleza. Que se transformou no culto ao prazer egoísta. Cultua-se o belo imaginando que a beleza vive no status. Na saúde. No chique. É uma tradição que inexiste no Brasil. Ou melhor, sobre- vive numa natureza que ensina a filosofia da beleza, do excesso, da curva exuberante. Mas nós odiamos essa beleza. Cuspimos nela. A sinuosidade de um riacho, canalizamos. Ele parece ser não funcional.
Para mim, beleza cura tudo. Essa a sabedoria dos gregos, dos católicos, dos românticos, dos art nouveau, dos fauve. A beleza dá sentido ao que parecia absurdo. Ela nos consola, nos guia, nos justifica. A curva pode mais que a reta. O sinuoso absurdo seduz.
John Keats, em 1810 estava certo:
a thing of beauty is a joy for ever.
O que seria essa beleza? Para o art nouveau inglês, o belo seria noturno, negro, curvilíneo, pecaminoso e satânico. Whistler exemplifica bem esse estilo noturno. Mas Londres não foi solitária. Barcelona, Bruxelas, Paris, Berlin e principalmente Viena logo adotaram o estilo. Beleza para todos! Não vamos esquecer nunca que eles eram socialistas, sua ambição era coletiva e socializante.
Uma contradição! Um dos lemas era: Melhor fazer um cinzeiro em dez dias que dez cinzeiros em um dia! E realmente eles levavam até mais de dez dias para fazer um cinzeiro. E essa peça seria única, cheia de criatividade, beleza. E cara...O novo estilo, JUNGSTIL, começou a ser sinal de luxo, status, exclusividade. Mobilia, quadros, roupas, objetos, um simples saleiro, tudo era Jungstil. O jovem estilo. Nada acessível às massas que continuavam em sua pobreza feia do produto anônimo. Mas havia a arquitetura, e com ela a cidade poderia mudar, e com a mudança do ambiente o povo poderia adquirir o senso da beleza! Maravilhosas fachadas em Viena, em Paris, estações de metrô, postes de luz, gares de trens, bancos, jardins, tudo art nouveau, novo lema: Arte de Hoje para o Tempo de Agora!
A música do tempo: Debussy! Ravel ! Satie! Curvas, panos, tapetes, cortinas, luzes, ferro fundido, prata, ouro, vitrais, flores, veludo. Poetas do tempo: Rilke, Stefan George, Mallarmée, Valéry. Corpos nús, sexo, oriente, Grécia. Vapores...Luxo, sempre o luxo, a calma, a volúpia. Klimt, Mucha, Otto Wagner, Victor Horta.
Em Trieste, em 1905, Rilke e Joyce se cruzaram na cidade. E não se reconheceram, claro. Mas veja, uma cidade, média, viu dois gênios respirarem seu ar ao mesmo tempo. Um, Rilke, cultuando a negra pantera que trazia em seu movimento a beleza do sexo e da morte; o outro, Joyce, odiando tudo aquilo e querendo mostrar ao mundo o cuspe, a merda e a vulgaridade da vida real. E quem sabe, achar a beleza maior nessa verdade.
Para o Art Nouveau, a beleza era um fim em si. Para Joyce, a verdade era a beleza. Sempre a verdade.
Como todo movimento novo, ele logo ficou velho. Em dez anos, o esgotamento. E quando a primeira guerra veio, em 1914, culpou-se o Jungstil pela guerra. Falou-se que sua falta de moral, de fibra, sua preguiça seria o ambiente que levou o mundo ao Kaos! Jungstil passou a ser coisa decadente, suja, mortal...
Por 50 anos, até 1964 mais ou menos, TUDO referente a Klimt, Beardsley, Whistler, foi considerado de segunda categoria. Foi o tempo da ditadura da linha reta. Da Bauhaus, de Mondrian, aqui no nosso Brasil do chato Niemeyer. Sem ornamentos, sem enfeites, sem copiar a natureza. Linhas puras, aço e vidro, regras e réguas. A beleza substituída pela FUNCIONALIDADE. O objeto, a construção, deve cumprir sua função. Tudo o que não tenha uma utilidade é dispensável. ( Oscar Wilde: A arte e a beleza só o são quando completamente inuteis ).
Os anos 60 recuperaram a Jungstil. De repente o inutil voltou a ser cultuado. O mundo viu um renascimento do ornamento, do enfeite, do negro, do dúbio, do floral, do véu, o satânico, o exagero. A curva retomou seu posto de rainha de estilo. A vida como arte, o eu como construção consciente de beleza. Se voce quer que eu vulgarize, a música pop de Incredible String Band, Soft Machine, Gong, música floral, cheia de arabescos, surpresas, tintas e noites, discos como o Satanic dos Stones, Sgt Peppers, Forever Changes do Love. Capas, olhos árabes, vitrais art déco, música indiana, marroquina, flamenco...A beleza, a busca da beleza como única fé, a religião do BELO.
E hoje? E 2015?
Uma luta neste vale-tudo do mercado que é o mundo. Um planeta que virou um bazar de vidro e pedra. De um lado a hiper-funcionalidade. Beleza sendo conceito relativo, ou pior, futil. Estranhamente esse conceito se tornou quase religioso, pois ele no fundo nega a matéria. Se voce nega a beleza do olhar e do tato, voce está negando o mundo sensual, o mundo da matéria. Voce vive no mundo da função, do pensamento e do fazer imaterial. É quase um universo cego. O Brasil ama esse mundo. Por tradição somos ligados a cegueira. Prédios todos iguais, ruas sem ornamentos, funcionalidade que em nosso trágico caso, nunca funciona. Estamos no pior dos dois mundos.
E há a luta pela preservação da beleza. Que se transformou no culto ao prazer egoísta. Cultua-se o belo imaginando que a beleza vive no status. Na saúde. No chique. É uma tradição que inexiste no Brasil. Ou melhor, sobre- vive numa natureza que ensina a filosofia da beleza, do excesso, da curva exuberante. Mas nós odiamos essa beleza. Cuspimos nela. A sinuosidade de um riacho, canalizamos. Ele parece ser não funcional.
Para mim, beleza cura tudo. Essa a sabedoria dos gregos, dos católicos, dos românticos, dos art nouveau, dos fauve. A beleza dá sentido ao que parecia absurdo. Ela nos consola, nos guia, nos justifica. A curva pode mais que a reta. O sinuoso absurdo seduz.
John Keats, em 1810 estava certo:
a thing of beauty is a joy for ever.
JOYCE, RICHARD ELLMAN
O pai de James Joyce, John Joyce. Que homem! Foi um grande cantor, voz de tenor que se tornou lenda. Herdeiro de várias propriedades, hipotecou tudo, ano a ano, e quando James fez 21 anos, a família estava na absoluta miséria. O pai, John, tinha tantos talentos que jogou fora todos. Sabia navegar, desenhar, inventar, contava histórias, criava ideias. Jogador de rugby, de boxe, nadador mestre. Amigo de todos, mudava de casa como quem penteia o cabelo. Beberrão. Um personagem de John Ford. Real.
John teve onze filhos. James Joyce foi o primeiro. O pai adorava o filho. O filho amava o pai. Em seus livros existem montes de personagens baseados no pai. James tinha mais seis irmãs e quatro irmãos. O pai ignorava a todos, menos James. A mãe era caseira, chorosa, forte, e morreu aos 44 anos.
James Joyce foi educado em escolas jesuítas. Isso serviu para lhe dar agudeza. E também para o fazer romper com o catolicismo. Joyce era egocêntrico, vaidoso, frio e terrivelmente talentoso. Sempre foi o melhor aluno da classe e sempre ofendia os professores, amigos, mestres, outros escritores, com sua mania de falar a verdade, de se achar acima de todos, mais inteligente, mais talentoso, especial. James Joyce se tinha na conta de um gênio desde cedo. Ele foi sempre áspero com Yeats, com Lady Gregory, Synge, todos talentos reconhecidos e que o ajudaram em seus começos. Todos suportavam Joyce porque viam nele o gênio.
James não gostava de Shakespeare. Seus favoritos eram Ibsen, Tolstoi, Flaubert e principalmente Dante. Seu estilo logo se modelou. Joyce escreveria sobre gente e situações banais, mas mostraria nessa banalidade o extraordinário. Transformaria o homem do século XX, o homem anônimo, no Ulysses urbano. Realismo extremado pintado como mito grego, lenda etrusca, arte latina. James jamais esqueceu da grandeza de John Joyce.
Passou fome em Paris, sempre a procura de trabalho, sempre esnobe, sempre fora do padrão. Richard Ellman não tem medo de mostrar o quanto Joyce era antipático, distante e ferino. Sua voz, era um grande cantor também, bela, feria e encantava. Impressiona a confiança que ele sempre teve em si-mesmo, inabalável.
Estou na página 220, Joyce com 22 anos, prestes a descobrir o estilo dos Dublinenses, seu grande livro de contos. Emocionante. Ellman também escreveu biografias de Wilde, Yeats...seu estilo é minucioso, preciso, documentado. Para quem ama literatura, este imenso volume é um paradiso.
PS: É minha segunda leitura. Dez anos depois.
John teve onze filhos. James Joyce foi o primeiro. O pai adorava o filho. O filho amava o pai. Em seus livros existem montes de personagens baseados no pai. James tinha mais seis irmãs e quatro irmãos. O pai ignorava a todos, menos James. A mãe era caseira, chorosa, forte, e morreu aos 44 anos.
James Joyce foi educado em escolas jesuítas. Isso serviu para lhe dar agudeza. E também para o fazer romper com o catolicismo. Joyce era egocêntrico, vaidoso, frio e terrivelmente talentoso. Sempre foi o melhor aluno da classe e sempre ofendia os professores, amigos, mestres, outros escritores, com sua mania de falar a verdade, de se achar acima de todos, mais inteligente, mais talentoso, especial. James Joyce se tinha na conta de um gênio desde cedo. Ele foi sempre áspero com Yeats, com Lady Gregory, Synge, todos talentos reconhecidos e que o ajudaram em seus começos. Todos suportavam Joyce porque viam nele o gênio.
James não gostava de Shakespeare. Seus favoritos eram Ibsen, Tolstoi, Flaubert e principalmente Dante. Seu estilo logo se modelou. Joyce escreveria sobre gente e situações banais, mas mostraria nessa banalidade o extraordinário. Transformaria o homem do século XX, o homem anônimo, no Ulysses urbano. Realismo extremado pintado como mito grego, lenda etrusca, arte latina. James jamais esqueceu da grandeza de John Joyce.
Passou fome em Paris, sempre a procura de trabalho, sempre esnobe, sempre fora do padrão. Richard Ellman não tem medo de mostrar o quanto Joyce era antipático, distante e ferino. Sua voz, era um grande cantor também, bela, feria e encantava. Impressiona a confiança que ele sempre teve em si-mesmo, inabalável.
Estou na página 220, Joyce com 22 anos, prestes a descobrir o estilo dos Dublinenses, seu grande livro de contos. Emocionante. Ellman também escreveu biografias de Wilde, Yeats...seu estilo é minucioso, preciso, documentado. Para quem ama literatura, este imenso volume é um paradiso.
PS: É minha segunda leitura. Dez anos depois.
ENO, REM, RAY DAVIES E GIORGIO MORODER....DAFT PUNK
É mais que conhecido o momento em 1977. Brian Eno liga para Bowie e pede para ele ligar o rádio na estação X. Diz que nesse exato instante o futuro está tocando.
Foi uma premonição brilhante. I Feel Love de Donna Summer e Giorgio Moroder foi o single mais influente desde quando James Brown inventou o funk em 1967. Eu me lembro que nesse mesmo ano eu escutava Giorgio no rádio e tentava entender o que era aquilo. Eu pensava que From Here To Eternity tinha instrumentos normais. Mas algo naquela bateria soava diferente. E o baixo...era estranho. Demorou para que eu percebesse que era tudo programado. Tudo teclado. Mas eu adorei. E viajei desde o começo.
E recordo agora que Eno dizia que o pop e o rock eram pobres em harmonia e em melodia. Que nada poderia ser esperado de novo nesses campos, mas que ele era potencialmente inovador em timbre. Que a evolução sempre vinha na mudança de timbres. Desde o timbre da guitarra de Link Wray, passando pelo som metálico da guitarra de Jimi Page, o som frio do rock alemão, as gravações hiper trabalhadas dos Beatles e um belo etc.
Sempre fui bom, até os 30 anos, em adivinhar o futuro do rock. Lembro que em 1978 todos achavam, os caras que andavam comigo e boa parte do povo do meio, que o futuro seria um rock progressivo, bem tocado e bem gravado. Um tipo de Rush. Eu falava que o futuro era dançante. Que Heart Of Glass seria mais relevante que Supertramp.
Depois, em 1980, falavam que o futuro seria punk. Barulhento, simples, pesado. Eu chamava atenção para o funk. Prince. Em 1984 as guitarras estariam com as horas contadas. Só velhos ouviriam guitarras. O futuro era synth eletro. Eu ouvia REM, Lloyd Cole e Prefab Sprout. Guitarras.
Meu último acerto foi em 1986. Naquele ano era moda ouvir Smiths e Cure, sons tristes, ingleses, com guitarras. Eu descobria o rock do skate, Red Hot Chilli Peppers e The X.
Foi meu último acerto. No fim da década eu estava numa de RAP, mas o futuro era Seattle e Manchester. Depois, em 1996, eu acreditei no eletrônico.
Acreditei que toda aquela safra iria ser dominante. Que o futuro nos traria timbres novos, viagens doidas, o fim dos vocais, experimentação, desbunde. Errei. A música eletro morreu em tédio. E voltou ao gueto. O que surgiu foi uma geração de cantoras indistintas e de bandinhas que reciclam o pop de Kinks, The Jam e afins. Aff!
Há excessões! Mas este tempo será lembrado no futuro como o tempo de Katy Perry e de Lady Gaga.
Hoje reescutei o Daft Punk de 96 e escutei o de 2014. Giorgio Moroder e Chic sobrevivem no som deles todo o tempo. Era um futuro possível. Continuar do ponto em que Giorgio parou.
Um aluno meu, de 14 anos, escutava Who e Kinks desde os 12. Guitarrista, nele poderia haver um futuro. De Ray Davies ele poderia chegar a Iggy Pop, Eno, Rap e talves daí criar algo de seu. O que aconteceu? Ele descobriu Zappa e Yes. E hoje seu sonho é ser mais um virtuose da guitarra. Passa dias copiando linhas de Steve Howe e de Zappa. Mais um ano ele descobre John Mclaughlin e será o fim.
Acho que esse meu aluno revela muito.
Foi uma premonição brilhante. I Feel Love de Donna Summer e Giorgio Moroder foi o single mais influente desde quando James Brown inventou o funk em 1967. Eu me lembro que nesse mesmo ano eu escutava Giorgio no rádio e tentava entender o que era aquilo. Eu pensava que From Here To Eternity tinha instrumentos normais. Mas algo naquela bateria soava diferente. E o baixo...era estranho. Demorou para que eu percebesse que era tudo programado. Tudo teclado. Mas eu adorei. E viajei desde o começo.
E recordo agora que Eno dizia que o pop e o rock eram pobres em harmonia e em melodia. Que nada poderia ser esperado de novo nesses campos, mas que ele era potencialmente inovador em timbre. Que a evolução sempre vinha na mudança de timbres. Desde o timbre da guitarra de Link Wray, passando pelo som metálico da guitarra de Jimi Page, o som frio do rock alemão, as gravações hiper trabalhadas dos Beatles e um belo etc.
Sempre fui bom, até os 30 anos, em adivinhar o futuro do rock. Lembro que em 1978 todos achavam, os caras que andavam comigo e boa parte do povo do meio, que o futuro seria um rock progressivo, bem tocado e bem gravado. Um tipo de Rush. Eu falava que o futuro era dançante. Que Heart Of Glass seria mais relevante que Supertramp.
Depois, em 1980, falavam que o futuro seria punk. Barulhento, simples, pesado. Eu chamava atenção para o funk. Prince. Em 1984 as guitarras estariam com as horas contadas. Só velhos ouviriam guitarras. O futuro era synth eletro. Eu ouvia REM, Lloyd Cole e Prefab Sprout. Guitarras.
Meu último acerto foi em 1986. Naquele ano era moda ouvir Smiths e Cure, sons tristes, ingleses, com guitarras. Eu descobria o rock do skate, Red Hot Chilli Peppers e The X.
Foi meu último acerto. No fim da década eu estava numa de RAP, mas o futuro era Seattle e Manchester. Depois, em 1996, eu acreditei no eletrônico.
Acreditei que toda aquela safra iria ser dominante. Que o futuro nos traria timbres novos, viagens doidas, o fim dos vocais, experimentação, desbunde. Errei. A música eletro morreu em tédio. E voltou ao gueto. O que surgiu foi uma geração de cantoras indistintas e de bandinhas que reciclam o pop de Kinks, The Jam e afins. Aff!
Há excessões! Mas este tempo será lembrado no futuro como o tempo de Katy Perry e de Lady Gaga.
Hoje reescutei o Daft Punk de 96 e escutei o de 2014. Giorgio Moroder e Chic sobrevivem no som deles todo o tempo. Era um futuro possível. Continuar do ponto em que Giorgio parou.
Um aluno meu, de 14 anos, escutava Who e Kinks desde os 12. Guitarrista, nele poderia haver um futuro. De Ray Davies ele poderia chegar a Iggy Pop, Eno, Rap e talves daí criar algo de seu. O que aconteceu? Ele descobriu Zappa e Yes. E hoje seu sonho é ser mais um virtuose da guitarra. Passa dias copiando linhas de Steve Howe e de Zappa. Mais um ano ele descobre John Mclaughlin e será o fim.
Acho que esse meu aluno revela muito.
SOMOS TODOS ROMANOS
Estou na USP, esse mundo mágico onde todos somos crianças em busca do sentido das coisas, fazendo um novo curso, Italo Calvino.
Fico sabendo que a familia inteira de Calvino era formada por cientistas, e que ele foi a ovelha desgarrada. Logo após a segunda guerra, aos 20 anos, ele lança seu primeiro livro, neo realista, e alcança o sucesso. Não, não vou falar sobre esse livro, vou falar sobre a Itália, esse país que equivale a um universo ( ou equivalia ), rico, complexo, desconcertante, e que foi sufocado nos últimos 40 anos.
Calvino conta que o pós guerra foi uma explosão de vida. Na rua, nos cafés, nos ônibus, todo mundo narrava histórias da guerra. Inventadas ou não, era uma multidão sem fim de rostos e vozes, cada um deles individualizado, contando dores e humores da guerra. O italiano não é alegre, ele é vivo, essa a verdade. Ao contrário da Alemanha ou do Japão, que morreram e ficaram em luto por décadas após a derrota, a Itália passou a narrar, falar, seja em filmes, canções, discursos, livros, piadas, anedotas, lendas, mitos. Rapidamente a dor foi superada e o apogeu italiano veio. Não vou descrever esse apogeu. Quem assistiu A Doce Vida sabe do que falo. Luxo, miséria, começo da decadência e conforto como nunca antes....está tudo lá, vivo e falastrão, ópera e dor.
Somos todos romanos, nós, latinos. Com nossa volúpia e nossa vaidade vã, discursos sem fim, leis e mais leis, corrupção e vida, destruição, recomeços, mulheres e risos. O amor pela comida, pela bebida, pela cama, pelo banheiro, pela praia, pela caminhada à toa, pelo dolce far niente. Commendattore, vossa sinhoria, minha bella, cantare!! Estou criticando? Não! Ë um elogio!
Em outra aula, outro curso, sobre os começos do Brasil, um autor americano, escreve o elogio da latinidade, especificamente ibérica. A questão é simples: Valeu à pena? Valeu a pena os americanos reprimirem toda sua vida espiritual em troca do desenvolvimento material? ( Ele é ateu. Espírito é criatividade, festa, arte, ritual, vida na rua, familia....). Valeu a pena os ingleses matarem seu espírito celta em troca do inglês eficiente, pontual, quieto?
Os negros americanos mantiveram a alma livre e são aqueles que ainda dão vida à América. E os brancos saxões? O que eles têm vivido?
Ele fala da brilhante ( isso mesmo ) maneira como os portugueses colonizaram o Brasil. Tentando catequizar os índios, misturar-se à terra, casando-se inter raças, tentando se fundir ao ambiente. Falhas houve muitas. Mas os americanos do norte lutaram para homogeneizar o todo, aparar diferenças, fazer do todo um uno. Valeu a pena? Richard Morse conta ainda que o sistema está esgotado e que talvez venha do mundo latino um novo modo de viver. Ou não.
Romanos gostam de dizer que na verdade o Império Romano ainda está de pé. Que todo o modo de pensar e fazer, viver e conhecer do ocidente é romano. O desenvolvimento dos últimos 2000 anos segue um padrão criado em Roma, coliseus, pão e circo, leis, juizes, senadores, guerra, colonias, ateísmo, crenças particulares, sexo, sangue e ambição materialista. A nossa filosofia seria romana, assim como a arte, os esportes, o modo de vida. Será?
Calvino crê, como Borges, que a realidade é inacapturável. Podemos crer em certas coisas, experimentar outras, mas a totalidade nos é inalcançável. Cada vez mais, ele era amigo de Borges e os dois trocavam cartas, Calvino foi se tornando esotérico e ao mesmo tempo simplificando a escrita. Os dois amavam livros de aventuras, raiz da criatividade. Stevenson, Conrad, London e Doyle.
Material vasto para pensar e fazer. Essas aulas, no reino dos meninos que pensam em pensar, prometem.
Fico sabendo que a familia inteira de Calvino era formada por cientistas, e que ele foi a ovelha desgarrada. Logo após a segunda guerra, aos 20 anos, ele lança seu primeiro livro, neo realista, e alcança o sucesso. Não, não vou falar sobre esse livro, vou falar sobre a Itália, esse país que equivale a um universo ( ou equivalia ), rico, complexo, desconcertante, e que foi sufocado nos últimos 40 anos.
Calvino conta que o pós guerra foi uma explosão de vida. Na rua, nos cafés, nos ônibus, todo mundo narrava histórias da guerra. Inventadas ou não, era uma multidão sem fim de rostos e vozes, cada um deles individualizado, contando dores e humores da guerra. O italiano não é alegre, ele é vivo, essa a verdade. Ao contrário da Alemanha ou do Japão, que morreram e ficaram em luto por décadas após a derrota, a Itália passou a narrar, falar, seja em filmes, canções, discursos, livros, piadas, anedotas, lendas, mitos. Rapidamente a dor foi superada e o apogeu italiano veio. Não vou descrever esse apogeu. Quem assistiu A Doce Vida sabe do que falo. Luxo, miséria, começo da decadência e conforto como nunca antes....está tudo lá, vivo e falastrão, ópera e dor.
Somos todos romanos, nós, latinos. Com nossa volúpia e nossa vaidade vã, discursos sem fim, leis e mais leis, corrupção e vida, destruição, recomeços, mulheres e risos. O amor pela comida, pela bebida, pela cama, pelo banheiro, pela praia, pela caminhada à toa, pelo dolce far niente. Commendattore, vossa sinhoria, minha bella, cantare!! Estou criticando? Não! Ë um elogio!
Em outra aula, outro curso, sobre os começos do Brasil, um autor americano, escreve o elogio da latinidade, especificamente ibérica. A questão é simples: Valeu à pena? Valeu a pena os americanos reprimirem toda sua vida espiritual em troca do desenvolvimento material? ( Ele é ateu. Espírito é criatividade, festa, arte, ritual, vida na rua, familia....). Valeu a pena os ingleses matarem seu espírito celta em troca do inglês eficiente, pontual, quieto?
Os negros americanos mantiveram a alma livre e são aqueles que ainda dão vida à América. E os brancos saxões? O que eles têm vivido?
Ele fala da brilhante ( isso mesmo ) maneira como os portugueses colonizaram o Brasil. Tentando catequizar os índios, misturar-se à terra, casando-se inter raças, tentando se fundir ao ambiente. Falhas houve muitas. Mas os americanos do norte lutaram para homogeneizar o todo, aparar diferenças, fazer do todo um uno. Valeu a pena? Richard Morse conta ainda que o sistema está esgotado e que talvez venha do mundo latino um novo modo de viver. Ou não.
Romanos gostam de dizer que na verdade o Império Romano ainda está de pé. Que todo o modo de pensar e fazer, viver e conhecer do ocidente é romano. O desenvolvimento dos últimos 2000 anos segue um padrão criado em Roma, coliseus, pão e circo, leis, juizes, senadores, guerra, colonias, ateísmo, crenças particulares, sexo, sangue e ambição materialista. A nossa filosofia seria romana, assim como a arte, os esportes, o modo de vida. Será?
Calvino crê, como Borges, que a realidade é inacapturável. Podemos crer em certas coisas, experimentar outras, mas a totalidade nos é inalcançável. Cada vez mais, ele era amigo de Borges e os dois trocavam cartas, Calvino foi se tornando esotérico e ao mesmo tempo simplificando a escrita. Os dois amavam livros de aventuras, raiz da criatividade. Stevenson, Conrad, London e Doyle.
Material vasto para pensar e fazer. Essas aulas, no reino dos meninos que pensam em pensar, prometem.
O MAL EM SER CRIANÇA PRA SEMPRE. EXISTE?
Um amigo me pergunta qual seria afinal o mal causado a esses eternos homens-criança que habitam todo o mundo ocidental mais desenvolvido. Ele não escreveu isso no sentido de alguém que acha que ser criança para sempre seja algo de desejável. O que ele interroga é especificamente qual seria o mal, onde ele se manifesta. Minha primeira resposta seria: abra a janela.
Manifestantes com blusas amarelas querendo derrubar, na raça, um governo corrupto, porém eleito, têm uma atitude infantil. Pensam que politica é um eu quero. Esquecem do processo, dos trâmites legais, da chatice toda de ser adulto. Isso dá a todo ato uma cara de brincadeirinha. Tanto que eu tenho a certeza de que se a policia reprimisse a coisa eles chorariam. E procurariam o colo de alguém.
Meu foco não é comentar a politica brasileira. E não pensem que condeno a manifestação contra o PT. Tudo indica que o governo errou e de forma infantil a reação deles é falar que é tudo mentira. Mais um faz de conta. O que digo é que crianças nunca sabem lidar com o mundo material. Não é a praia delas. Acabam bufando e fazendo birra e no fim tudo sai do jeito errado.
Mas vamos em frente. Antes de falar o que pode haver de mal na infância eterna, devemos ver o que há de bom em ser adulto. O primeiro fato é esquecer as dores da adolescência. Um adulto olha para a adolescência como águas passadas. O segundo fato é possuir uma certa independência. Não depender de alguém que cuide dele, seja mãe, esposa, psicólogo ou guru. E o principal, um adulto pode jamais vir a saber quem ele seja de fato, mas ele cessou a busca constante pela sua turma. O adulto deixou de se preparar para a vida, ele já mergulhou.
Então eu diria que mais que ser dependente ou estar paralisado pelas brigas da adolescência, o eterno criança fica eternamente no quase. Ele olha a vida mas nunca mergulha nela. Vive na expectativa, desgastante, do inicio de sua vida ""de verdade""'
No mínimo isso lhe causará os sintomas clássicos da ansiedade.
Posso saber o que seja um adulto por filmes ou livros, professores ou conhecidos, mas eu ainda tive um adulto em casa, meu pai. E ele, pobre homem, foi profundamente odiado por isso. Além de eu ter comprado a ideia de que ficar adulto é negar tudo no pai, eu fui um adversário muito forte. E joguei sempre sujo. Em cada briga, que podiam ser quase comuns aos 14 anos, mas que se tornaram ridiculas aos 30, eu achava que estava caminhando rumo ao mundo do cowboy, o mundo do cara auto-suficiente. Claro que não. Era tudo um brinquedo de gosto ruim.
Meu pai trabalhava. E seu mundo era o do trabalho. Meu pai era um cara pronto. Ele tinha arrependimentos, dores e dúvidas, muitas, mas estava pronto. A vida para ele havia começado muito antes de que eu nascesse e sobre isso não havia volta. A corrente do rio da vida o apanhara. E ele procurava nadar. Mas não eu. Meu ideal era nunca sair da margem, ou melhor ainda, trocar de rio quando quisesse.
E posso então falar de mais um mal:: a sensação engasgante, amarga, que todo cara como eu tem, de que a vida passa e eu fico. Melancolia que pode ser raiz de belas depressões, a sensação de que o trem passa sem voce pode te levar a imagem de que o mundo é algo que foge e sua vida uma estação vazia, pois os outros já partiram.
Então voce brinca. Trens e rios imaginários. Partidas sempre repetidas, Voce vai à África, ao Japão, em carne e osso, mas a grande viagem voce nunca faz, mergulhar no rio da vida. A vida de adulto, que antes o horrorizava, agora lhe é tão distante que voce nem sabe mais do que se trata. E brinca. Como eu disse, brinca de ter um filho, de ter um casamento, de ter um emprego. Mas tudo pode ser revertido ou anulado. Sem compromisso. Tudo é um ensaio. O rio continua a passar.
Me lembro que aos 16 anos meu maior medo era: adultos trabalham para sempre. A vida do adulto é dura. Eu não quero isso. Em seguida foi: o adulto é o homem que começou a morrer. A contagem regressiva começa nesse momento.
O mundo moderno nos dá milhões de fugas para dentro de Neverland. Eu aceitei o convite.
E a mulher nisso tudo? Ela passa a ser, e me dói dizer, mais um brinquedo. A chamamos para a festa, queremos brincar de ser namorado, de fazer sexo como nos filmes, de ter um grande amor. Quando elas percebem que aquele cara forte, bravo, maduro, decidido, está brincando de parecer adulto, e que ela É A PROVA DE QUE ELE CRESCEU, bem, nesse momento ela foge. A mulher, ter uma, se torna o objeto que prova ao mundo e a ele que o garoto virou homem. Virou?
Assim como a briga com os mais velhos nunca foi maturidade, ter uma mulher é apenas uma ideia torta de ser GRANDE. Nas sociedades tribais voce não virava homem ao fazer sexo. Voce era primeiro um homem e depois fazia sexo. A mulher era um merecimento. A cereja do bolo. Agora ela é o caminho, a casa, todo o bolo e a cereja. Coitadinha. Coitadão.
E agora vou parar por aqui porque cansei e vou dormir.
Manifestantes com blusas amarelas querendo derrubar, na raça, um governo corrupto, porém eleito, têm uma atitude infantil. Pensam que politica é um eu quero. Esquecem do processo, dos trâmites legais, da chatice toda de ser adulto. Isso dá a todo ato uma cara de brincadeirinha. Tanto que eu tenho a certeza de que se a policia reprimisse a coisa eles chorariam. E procurariam o colo de alguém.
Meu foco não é comentar a politica brasileira. E não pensem que condeno a manifestação contra o PT. Tudo indica que o governo errou e de forma infantil a reação deles é falar que é tudo mentira. Mais um faz de conta. O que digo é que crianças nunca sabem lidar com o mundo material. Não é a praia delas. Acabam bufando e fazendo birra e no fim tudo sai do jeito errado.
Mas vamos em frente. Antes de falar o que pode haver de mal na infância eterna, devemos ver o que há de bom em ser adulto. O primeiro fato é esquecer as dores da adolescência. Um adulto olha para a adolescência como águas passadas. O segundo fato é possuir uma certa independência. Não depender de alguém que cuide dele, seja mãe, esposa, psicólogo ou guru. E o principal, um adulto pode jamais vir a saber quem ele seja de fato, mas ele cessou a busca constante pela sua turma. O adulto deixou de se preparar para a vida, ele já mergulhou.
Então eu diria que mais que ser dependente ou estar paralisado pelas brigas da adolescência, o eterno criança fica eternamente no quase. Ele olha a vida mas nunca mergulha nela. Vive na expectativa, desgastante, do inicio de sua vida ""de verdade""'
No mínimo isso lhe causará os sintomas clássicos da ansiedade.
Posso saber o que seja um adulto por filmes ou livros, professores ou conhecidos, mas eu ainda tive um adulto em casa, meu pai. E ele, pobre homem, foi profundamente odiado por isso. Além de eu ter comprado a ideia de que ficar adulto é negar tudo no pai, eu fui um adversário muito forte. E joguei sempre sujo. Em cada briga, que podiam ser quase comuns aos 14 anos, mas que se tornaram ridiculas aos 30, eu achava que estava caminhando rumo ao mundo do cowboy, o mundo do cara auto-suficiente. Claro que não. Era tudo um brinquedo de gosto ruim.
Meu pai trabalhava. E seu mundo era o do trabalho. Meu pai era um cara pronto. Ele tinha arrependimentos, dores e dúvidas, muitas, mas estava pronto. A vida para ele havia começado muito antes de que eu nascesse e sobre isso não havia volta. A corrente do rio da vida o apanhara. E ele procurava nadar. Mas não eu. Meu ideal era nunca sair da margem, ou melhor ainda, trocar de rio quando quisesse.
E posso então falar de mais um mal:: a sensação engasgante, amarga, que todo cara como eu tem, de que a vida passa e eu fico. Melancolia que pode ser raiz de belas depressões, a sensação de que o trem passa sem voce pode te levar a imagem de que o mundo é algo que foge e sua vida uma estação vazia, pois os outros já partiram.
Então voce brinca. Trens e rios imaginários. Partidas sempre repetidas, Voce vai à África, ao Japão, em carne e osso, mas a grande viagem voce nunca faz, mergulhar no rio da vida. A vida de adulto, que antes o horrorizava, agora lhe é tão distante que voce nem sabe mais do que se trata. E brinca. Como eu disse, brinca de ter um filho, de ter um casamento, de ter um emprego. Mas tudo pode ser revertido ou anulado. Sem compromisso. Tudo é um ensaio. O rio continua a passar.
Me lembro que aos 16 anos meu maior medo era: adultos trabalham para sempre. A vida do adulto é dura. Eu não quero isso. Em seguida foi: o adulto é o homem que começou a morrer. A contagem regressiva começa nesse momento.
O mundo moderno nos dá milhões de fugas para dentro de Neverland. Eu aceitei o convite.
E a mulher nisso tudo? Ela passa a ser, e me dói dizer, mais um brinquedo. A chamamos para a festa, queremos brincar de ser namorado, de fazer sexo como nos filmes, de ter um grande amor. Quando elas percebem que aquele cara forte, bravo, maduro, decidido, está brincando de parecer adulto, e que ela É A PROVA DE QUE ELE CRESCEU, bem, nesse momento ela foge. A mulher, ter uma, se torna o objeto que prova ao mundo e a ele que o garoto virou homem. Virou?
Assim como a briga com os mais velhos nunca foi maturidade, ter uma mulher é apenas uma ideia torta de ser GRANDE. Nas sociedades tribais voce não virava homem ao fazer sexo. Voce era primeiro um homem e depois fazia sexo. A mulher era um merecimento. A cereja do bolo. Agora ela é o caminho, a casa, todo o bolo e a cereja. Coitadinha. Coitadão.
E agora vou parar por aqui porque cansei e vou dormir.
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