VOCÊ, O GRANDE TIM MAIA.

   Descendo a rua de terra, um monte de caras e de vozes chegam até mim. As janelas estão abertas e por elas saem sons de choro, de riso, de panelas de pressão em ação. Cheiro de feijão e de bife fritando. Cachorro vadio, moscas, muitas moscas. Uma água suspeita corre rente a sarjeta que ainda é um plano para um dia ser feita. Meus pés em sandálias de couro sentem a dor das pedrinhas pontudas que insistem em entrar debaixo da sola do pé. Gente sobe, gente desce. Olha lá! Da rua dá pra ver a cama de uma tia. A pesada madeira marrom. Uma cama enorme, do tipo que nunca vai poder sair do quarto. E um rádio, pousado na janela, joga para esse céu sem fim uma canção.
VOU MORRER DE SAUDADE!
   Foi devagar. Os negros foram entrando no rádio e tomaram as telas de TV na sequência. Não eram mais negros de cabelo liso e de terninho cinza. Nem os bambas de camisa listrada e chapéu branco. Esses novos negros não choravam e nem faziam piada. Cantavam. E tinham cabelo de preto, voz de preto e raiva de preto. De todos eles ninguém era mais preto folgado que Timaia. Timaia era como eu o conhecia e ele era tão desafiador que eu sentia medo dele. Aos 8 anos eu temia o negão. Hoje, agora, não. 
  EU HAVIA ESQUECIDO MAS HOJE É O DIA DOS SANTOS REIS.
  1971 viu o dominio do negro folgado. Porque ele foi um susto. Um negão que botava toda voz no chinelo. Ouvir Timaia é bom, cantar junto é melhor ainda. O cara trouxe uma mistura de baião com soul music. De Bossa com Yeah Yeah Yeah. Ele vinha de Sam Cooke e de Estácio. O disco, o segundo dele, é curto e direto. Lindo como uma rua de terra cheia de crianças em manhã vagabunda de verão. Janelas abertas pras moscas entrarem. 
  Ninguém usa metais como ele, e no meio tem até um xilofone maneiríssimo! E uma sessão de cordas que antecipa a discoteque. Os violinos sibilam.... 
  E sim, tem a voz. Quente, suada, vagabunda. Uma voz que pode dizer toda bobagem, ela vai soar como lei. A voz surge, sem esforço, e toma conta de todo o espaço. Ecoa na cabeça, combina com a alma, lava tudo com lava de som. Queima. Sexo. 
  Um monte de anos depois este disco continua a esquentar. 
  Mágico ano da MPB.

GEORGE STEINER E A BÍBLIA

   Minhas raízes materialistas me impedem de ler a Bíblia. Lê-la seria como capitular. É estranho, pois eu venho a anos num processo de estudo e de interesse por religião cristã e de epifanias variadas. Mas não consigo me aproximar da Bíblia. Há algo naquele livro que me traz a mente algo que eu não quero ver. Agora não. 
  George Steiner diz que a Bíblia é o maior e o melhor livro já escrito. Todas as histórias de todos os autores estão lá escritas. De Dante a Kafka, de Cervantes a Sartre, tudo está lá. Poesia e drama, lenda e romance, erotismo e o mais profundo pessimismo. Terror insuportável e beleza transcendente. Mas não é disso que desejo falar. 
  O que deixa Steiner confuso é que ele consegue imaginar Dante trancado num quarto escrevendo a Comédia. Consegue, com muito dificuldade, imaginar a mente que pensou o Quixote. Apesar de ser imensamente complexa, a mente que nos deu os pensamentos de Montaigne é uma mente como a nossa. Porém dotada de mais brilho e de mais inteligência. Steiner consegue até mesmo imaginar Shakespeare acordado, preocupado com o final de Lear ou com o que fazer com Falstaff. 
  Mas é impossível imaginar um homem a escrever, a imaginar, a criar o sofrimento de Cristo na cruz. Não há como nossa mente entender uma mente que criou Moisés, Salomão, Jó ou a cena no monte das oliveiras. Isso foge a nosso entendimento do que seja arte ou filosofia. Isso foge até a nossa ideia de loucura ou de delírio. Está além do mundo que conhecemos ou que podemos criar na imaginação. É um texto tão embrenhado em nossa mente que faz parte de nosso modo de existir. Vemos a vida pelos olhos daquele universo. Mas ao mesmo tempo ele nos é completamente estranho.
  E mesmo com esses comentários de Steiner, e antes eu já lera os de Tolstoi, Whitman e Donne, todos em mesmo nível de admiração, mesmo assim eu não posso pegar e ler o livro dos livros. A história que fez com que eu afinal fosse o que sou. Minha familia vinda da Europa, européia desde quando? E antes? Judia? Muçulmana? Bíblica nos três casos possíveis, minha carne meu sangue meus genes, moldados em histórias de David, em milagres de Jesus Cristo, em ensinamentos de Paulo, de Israel, de Ismael, de Canaã... desde 1500, desde 1200, desde quando?  Aqui, em 2010, procurando por um salvador, por uma luz, uma nova vida, uma purificação, salvação. Louvando o Amor. Desde quando?
  Guardo o livro. 
  Um dia.
   Um dia.... 
  

NENHUMA PAIXÃO DESPERDIÇADA- GEORGE STEINER. A GRANDEZA DE UMA PESSOA.

   George Steiner é judeu. E ele jamais nos deixa esquecer isso. Nascido em Paris, em 1929, educado e começando sua carreira de professor em Londres, ele se fez um dos grandes críticos da cultura do século XX/XXI. Lecionou em Oxford e em Harvard. Sua cultura é enciclopédica. Ele vê a cultura do ocidente de dentro do judaísmo. Para Steiner, o Ocidente é filho de Atenas e de Jerusalém. Como pensador refinado, ele nunca afirma a existência ou a não existência de Deus. Seus guias são Kierkegaard, Spinoza, Nietzsche, Marx, Pascal e Kant. Profundamente filosófico, sem medo, ele afirma e duvida, deixando claro todo o tempo que toda a glorificação do texto, da análise, do contra-argumento, da bibliografia, tão caras ao ocidente, têm claras raízes judaicas. O Velho Testamento, a Torá, são modos fundadores de análise textual. Este livro precioso ( olha minha influência judaica dando as caras ), se divide em palestras, teses, capítulos de obras, folhas avulsas escritas entre 1978- 1995. 
  São 21 ensaios em 490 páginas. Dificil escrever sobre seus textos. São tão profundos, tão claros e ao mesmo tempo complexos, que apresentá-los a quem não os conhece é como os desmerecer. Não há como comentar sem rebaixar sua grande altura. O que posso dizer? 
  Posso falar da profunda impressão, impressão que chegou ao quase pavor, da visão de Steiner sobre a beleza, a verdade e a dor de se ser um judeu. Ele consegue, racionalmente, unir a morte de Jesus ao campo de extermínio nazista. E não teme tocar na ferida: Nós odiamos todo aquele que nos chama a atenção para a perfeição possível. Jesus, assim como Sócrates, morre por ser insuportávelmente perfeito. Por cobrar de nós a perfeição da qual abrimos mão. Pessoas assim sempre serão martirizadas. É a explosão da individualidade dentro de um mundo que preza a anônima mediocridade. No caso de Jesus, e esse é um texto que me perturbou, judeus serão perseguidos sempre, mesmo que de forma inconsciente, por terem "" jogado fora a chance de dar ao mundo o reino de Deus. Os judeus negaram Jesus, nunca o aceitaram, e isso faz com que o ocidente veja neles aqueles que optaram pela dor, pela morte e pela desunião.""
  Steiner tem um capítulo soberbo sobre a América. Como pode um país que tem um museu de bom nível e uma sinfônica até no deserto, não conseguir produzir um só filósofo relevante? Não ter um grande compositor, não ter ninguém que se compare a Mann, Joyce, Proust ou Kafka? Um país com centenas de ótimas universidades não produzir um único grande pensador,ou uma grande nova teoria de arte, de filosofia, de politica ou de psicologia.  Steiner lembra que mesmo na ciência, todo grande desenvolvimento teve algum estrangeiro emigrado envolvido.  Sem a mente estrangeira, os EUA se tornam um país cheio de dinheiro, porém pobre de ideias. 
  Ele nos mostra então o porque. E sua tese não faz média com nosso tempo bonzinho. Grandes ideias nascem na pobreza, na guerra, na ditadura, na luta. A sociedade americana, e nisso ""ela pode estar certa""", optou pela democracia e pelo bem da maioria. Acontece que a maioria sempre será incapaz de apreciar ou de entender coisas complexas. Não se ensina numa grande universidade a ouvir Mozart ou a ler Wittgeinstein. Isso nasce com a pessoa. Nos EUA a maioria quer ter museus onde se tenha a POSSE de tesouros europeus, mas onde imperem produtos culturais ralos, simples, fáceis de entender. Mais que isso, é insuportável a um americano, ou incompreensível, a ideia de que uma poesia ou uma sinfonia possam valer mais que dinheiro. Uma vida vivida na pobreza, mesmo que plena de poesia e de filosofia, é uma vida jogada ao lixo. Numa sociedade SINCERA como a americana, que escancara a ganância material da maioria dos homens, a grande arte, que requer solidão, sacrificio e estranheza, se torna uma doença, algo a ser tratado. A Europa, lugar profundamente não-democrático, onde a ideia de genialidade, de beleza na pobreza, do charme da loucura, está arraigada, a obra de arte é vista como parte da vida, coisa cotidiana, normal, privilégio a que se tem direito de usufruir pelo dom SUPERIOR de uns poucos escolhidos. Sim, toda arte e filosofia são aristocráticas. Não existe grande humanidade onde a democracia impera. Eis um paradoxo. A alma só atinge sua plena grandeza na adversidade. Steiner cita a literatura russa sob o jugo dos czares e depois do stalinismo como exemplo de força espiritual. Para ele, grandes pensadores hoje estarão fermentando no oriente, na África, na América do Sul ou na Palestina. 
  Impressiona como esse modo de pensar se afina com o meu. A falta que faz na arte do primeiro mundo de hoje de uma certa sujeira, de algo de profundamente despojado, imperfeito, cruel, injusto e desafiador. A higiene, a organização, a garantia das bolsas de estudo, tudo isso contribui para a construção de uma arte e de um pensamento subjugado, preso, sem desafios.
  George Steiner ainda escreve sobre Kafka, Weill, Husserl, Freud, Marx, Hegel, Péguy...e muito sobre o Velho Testamento. Sócrates, Platão e Jesus de Nazaré. Sempre sob a ótica assumidamente judia. Desse povo escolhido. De gente que pensa sobre o pensamento, escreve sobre a escrita. Desse povo de rabinos que criou o marxismo e a psicanálise, formas de judaísmo revigorado. O mais terrível é que Steiner crê no sacrifício final do povo de Israel. Sua total aniquilação. E crê que nesse momento o mundo perceberá que com Israel se perde o sentido de história, de Deus e de continuidade. Ficaremos orfãos. 
  Ele não nos poupa. Adoramos odiar judeus. Adoramos odiar intelectuais ( que se parecem todos com judeus ), cristãos verdadeiros ( que são filhos de judeus ), marxistas ( que pregam a igualdade do Velho Testamento ), esquisitos ( com sua cara de gente do gueto ). Odiamos todo aquele que não é da tribo. A tribo do comum, do igual, do parecido comigo. 
  Não, não pense em sionismo. Steiner acusa Israel de negar, com seu estado, as leis de Moisés. De não ter aprendido com a Shoah ( o holocausto ). De ser injusto. Desigual. E pouco espiritual.
  George Steiner é o intelectual clássico. Ele perturba. Desassossega. Corrompe.
  Ao fim ele defende Judas. E nisso ele toca em nossa maior ferida... Judas, o judeu, o grande traidor.
  Sem mais palavras. Steiner sabe, assim como eu intuo, que a palavra tudo estraga. Leia.
 

A VIDA ROEU A CORDA E CORREU, MANOEL FOI ATRÁS DELA.

   De primeira vez a gente vê. O tecido claro da janela por onde o sol entra. E o friso de madeira que enquadra o alto da parede. Azul claro. E a brisa bailarina. As coisas voam e a gente voa junto. Folhas. A couve se erguendo da terra, elegante. Alfaces deitando. As penas das galinhas. Flutuam. As unhas garras ciscam na terra e o bico bica. Coelhos saltam. Eu coelheio com eles. Parreiras se esgueiram como cobras. Cobra verde que se parreira entre as folhas verdurosas. Bananeiras conversando com o fim de tarde. Poço. 
   Minhocas saltando dentro dos papos dos patos. Ratinhos de orelhas borrachudas. Gatos chatos. Os canários soltam luz pelo bico. Meu pai beija os canários. Um pai que beija passarinhos. Nuvens sonhando com a noite. A fogueira protesta calorando nossa cara. O universo espia o limoeiro e mamão. Mãe que espalha lençóis brancos sobre o gramado. O universo é todo meu.
   Teia de aranha na janela quebrada. Fendas nas paredes falam de outro mundo. O chão frio chama. As coisas pedem. Elas pedem que eu lhes dê vida. E eu respondo brincando.
   Manoel de Barros sabia bem mais que eu. Mas eu sei o que ele mais sabia que eu. A vida brinca e ela é nos dois, sete anos. Depois a gente brinca com as palavras. E elas serão vivas enquanto a gente lembrar dos dois e sete anos. Porque é assim que a gente respira. 
  Manoel agora é chão. E evapora. Daqui a pouco vai estar na boca das rãs. E na urina dos sapos. Ele deixa as palavras e volta a ser poesia. Eu sei mas não falo não.

RITUAL DE LO HABITUAL- JANE`S ADDICTION

O povo dos anos 80 levou Bowie e Ferry ao limite do pastiche e tudo ficou tão cool que nada mais podia ser cool. O cool virou fake. Todo mundo em 1985 com cara de Bryan, terninhos de David e pensando no 1958 style. 
Mas em Venice, Califórnia, essa frescura nunca deu.  Os caras ignoraram toda essa bobagem e continuaram com Jay Adams ( Voces precisam ver o filme sobre os Z ). Tinha lá o The X. E um filme como Breathless, do Jim MacBride, mostrava que nem tudo estava perdido. E fermentou. De repente essa turma 1985/1987 tava no lixo. No lugar do keyboard era a vez de um baixo estilingado. E as ruas voltaram a zunir. E as cores retornaram. O povo saiu do quarto e foi pra rua e pra praia.
Ritual de Lo Habitual é um dos hinos desse tempo. Desse último renascimento antes do tudo grátis do download que tirou o valor de tudo. Perry e Dave apareceram como dois ogros em 87. Nothings Shocked que eu comprei em 89 avisava mas ninguém levou a sério. Com Ritual eles tomaram o cetro. E o que hoje é banal ( tattoos e piercings, dreads e ganja, latinidad e perigo ) foi colocado no centro da coisa. Adeus paletós Armani. Adeus topetes e sapatos. Agora era todo mundo pelado. 1990. Bom tempo para se ter 18 anos! Revistas, zines, clips, bermudas e esportes. Foi aí que a moda foi tomada pelos esportes 4 ever. Surf, skate, esqui, basquete, futebol.
O disco é um testemunho. É som de malocagem. De molequeiro. Guitarra hendrixiana e bateria marleyense. E a voz de tomado, de duende daimon de Perry. O Lolla viria a seguir. Perry mudou o rock pra melhor. Depois a deprê da bundice voltaria. Mas enquanto o bruxo perryano deu as cartas a coisa foi foda.
Ritual é bom pacas.

JAMES, SLITS, JAMES, COATI, JULIO

Lembrei porque eu era tão maluco nos anos 80.
Dá uma sacada nos videos abaixo e sente. Se voce não pular com James Chance esquece. Voce tá morto cara!
Slits é do caralho!
Thanx Julio.

James Chance & the Contortions - I Can't Stand Myself



leia e escreva já!

I Heard It Through The Grapevine The Slits



leia e escreva já!

Sey Hey Ain't You Heard The News - Coati Mundi /Kid Creole & The Coconut...



leia e escreva já!

james white & the blacks from "Downtown 81" Jean Michel Basquiat



leia e escreva já!

Julio Barroso: Marginal conservador (trailer)



leia e escreva já!

A VIDA SEXUAL DO SELVAGEM- JULIO BARROSO

   Era 1991 e meu amigo de baladas, Percy, aquele que delirava no Satã e fazia amizades eternamente futeis com todos os trapos chiques do mundo, bem, Percy me deu este livro da editora Siciliano ( existe ainda? ). Isso foi em 1991 e em 91 eu estava já bem caseiro, posando de lord dono de terras. Imaginação é uma das realidades possíveis baby.
  Então volto agora mais um pouco, 1984. 
  Esse foi, talvez quem sabe, o ano mais admirável de minha life. Por uma montanha de motivos que talvez eu esteja com preguiça de detalhar. But...nesse ano eu me apaixonei quatro vezes, e só isso faz de qualquer ano uma coisa admirável. Mas houve mais. Descobri escritores, músicos, pintores, uma constelação. E nunca estive tão sedento de inspiração quanto então. Era uma ração de piração inspirada. Tudo de novo que rolava era meu. Eu flutuava de juventude doida. Ousava. 
  Pois foi nesse ano que Julio Barroso morreu. E nas explosões de epifanias que eu vivia, sua morte foi uma construção vulcânica. Julio caiu da janela de seu apto no Jardim América. Pó ? Vai saber...Li isso num jornal de um cara na sala de aula da Fiam. Fazia frio e era junho. Mas, o fato é, quem era Julio?
  Agora é 1981 e é sábado. Saiba que 1981 é o tempo de Gilliard e de Gretchen. E também da genial alegria de Jorge Ben, Cor do Som e do Pepeu. O Brasil, começando a se soltar, vivia o fim do sonho hippie peace and love. Viria em seguida o chic and sex. Mas... Na TV Bandeirantes Nelson Motta apresentava um programa jovem chamado Mocidade Independente. Gravado em sua boate na Faria Lima, nesse programa teve Bowie com Ashes to Ashes. Teve Arrigo Barnabé. Teve Kid Creole and The Cocoanuts. Teve Gabeira. E teve o Júlio. Com as Absurdettes, ele aparecia num cenário neon onde pintava seu rosto magro com baton. Era esquisito pacas, porque a cara dele era de raiva e o gesto de extrema suavidade. O som ao fundo era um tipo de trip dark. Me deu ansiedade. Gelada.
  Na hora não notei, mas eu já conhecia Julio. Desde um ano antes, quando ele esteve na geração de redatores finais da agonizante Revista POP. Na Abril, ela era A revista. Julio escrevia sobre reggae, funk, soul, new wave e novidades africanas em geral. Julio era desbundado. Alucinado. Exagerado. Como eram os ótimos críticos musicais da época. Como eram Zeca, Okky, Ana, Zé Emilio, Valdir. Nomes que a gente lembra até hoje. 
  Dou um salto para agora, novembro de 2014. Aqui está o livro de Julio. Livro que não via desde muito tempo. Estava no fundo de um baú. Protegido. E meio esquecido. Vou desfolhar com voces. Let`s go...
  O livro é em P/B e tem desenhos, meio africanos, um tipo de graffitti, em todas as páginas. O formato é big, retangular. Amigos de Julio escrevem textos sobre ele. O que mais falam é de sua energia, alegria e do monte de ideias que brotavam de sua cabeça. Julio era carioca, e morara em NY, no Caribe e rodara Europa. Fotos que mostram o luxo irrecuperável de 1980. Tem algumas, de Vania Toledo, com Julio, May East, Gigante, Alice, andando em alguma rua madruguenta dos Jardins, que são o fino do extra-cool. Saudades de Teddy Paez....
  Textos escritos por Julio. Me surpreendo. Eu escrevo como Julio. O cara me influenciou pra caramba! Julio-Zeca-Francis, tento, sei que longe deles, tento...Os textos de Julio falam de novidades de então. Música africana, reggae, soul de vanguarda, new wave, jazz experimental, novas bandas made in Brazil. Tem alguns poemas de Julio, letras de músicas, ideias. Ele queria montar um escritório que vendesse ideias. Para quem não as tivesse. Ele adoraria viver a época da intenet. Hoje teria 60 anos.
  Em 1980 Julio formou a Gang 90. Na boate do Nelson Motta, na Faria Lima. Entre aquele monte de peles de tigre fake que lá havia. Julio era DJ lá.
  Aliás o livro tem uma foto do convite da Noite Brasileira de Julio em NY. Em 1979 ele foi DJ por lá. No convite tem Cassiano, Lady Zu, Gerson Combo, coisa fina, todos lá.
  Voltando. A Gang se apresentou num festival de MPB da Globo. E foi vaiada. Isso em 80. Em 83 eles fariam parte da trilha sonora de uma novela da mesma Globo e estourariam. Em 84 Julio partiria. O disco da Gang, o único, que eu comprei na época e ainda tenho, é uma mistura de tudo aquilo que ele ouvia. De Blondie a tribal africano. Reggae a pré-rap. É bom mas tem um grande problema: tem a sonoridade dos discos de MPB da época. A bateria fraca, a guitarra suavizada e todo o foque em cima da voz e dos teclados. Parece fake. Fraco fake. Soft demais...but i like it ! 
  Temos daquela geração os piores. Lulu, Herbert, Roger, Lobão....os melhores se calaram ou se perderam: Ritchie, Marina....Cazuza, Cássia, Renato....e Julio. Nada foi mais trágico que o destino dessa geração. Os medíocres restaram.
  Julio, assim como meu amigo Percy, sempre vai me recordar os Jardins. É o som de um mundo que não mais existe. Então ainda era cheio de silêncio, de escuridão, de sombras e de deslumbramento chique. Percy vive em Curitiba agora, e lá é DJ. Julio foi pra onde vão os poetas eternamente jovens. E eu tou aqui. Apertando teclas e tentando manter vivo o sonho e a luz...
  Postarei alguns clips do sons que Julio amava. Enjoy it. 
  A lição de Julio e de sua geração foi e é: Seja curioso, furioso, chique, sempre!
  
  

UMA AULA DE PAUL VALÉRY

   Valéry em aula na USP. Finalmente uma boa aula! O poeta tenta explicar o que é a poesia. Para isso ele usa o método de Bergson, ou seja, analisa a si-mesmo, sua carne viva. Isso porque se ele ler e analisar os outros ele estará entrando no erro da ciência, irá estudar uma coisa morta, separada de seu funcionamento, de seu agora. Olhando para dentro de si, Valéry pode tentar ver como se processa a coisa, tentar capturá-la em ação.
  A poesia surge como Perturbação. Ela desce sobre a alma e perturba o funcionamento das coisas. Primeira sacada genial de Valéry: As palavras ditas em prosa são como ruídos. Mal as escutamos e mesmo assim as obedecemos. A prosa faz as coisas funcionarem em sua certa expectativa. Uma palavra traz uma ação. Óbvia. No poema a palavra, que na prosa nasce e morre após ser escutada, aspira a viver. Uma palavra é investida de duração ( outro termo de Bergson ). Cada som é uma frase inteira e seu sentido nunca é esgotado.
  Valéry continua e conta que toda poesia é música. Ele anda pela rua e súbito sente uma perturbação. Tenta traduzir essa sensação em poema. Usa sua técnica para tentar dizer aquilo que parece indizível. Tenta ser músico sem instrumentos, sem cantar, sem som, escrevendo. Daí vem mais uma afirmação de gênio: Poesia é sempre impossível, pois, como disse Nietzsche, ao falar sobre um sentimento o matamos. Mas Valéry vai além, tentamos eternizar um momento, e nesse tentar o perdemos. Cabe ao leitor então, buscar rememorar aquilo que ele, o leitor, NÃO viveu. É aquele que lê que pode, e só ele, colher a dádiva da poesia. Chegamos ao paradoxo, o leitor é mais poeta que aquele que escreve, pois o leitor pode viver o escrito como coisa nova, viva, em movimento. O poeta não, pois ele sentiu e sabe da infidelidade cometida com a sensação.
  A mais bela das frases de Valéry é aquela em que ele diz que o poema é como um grão de sal, que cairá sobre a alma daquele que já tem grãos como esse dentro de si, mas que não sabe tê-los desde sempre. O sal do poema ao cair sobre esse leitor, dá começo a uma evolução dentro do leitor. Ele como que se lembra de algo que nunca viu. Ele reconhece no poema o poema que nunca escreveu. A perturbação do poeta perturba o leitor que tinha dentro de si a perturbação em potencia. Isso a poesia.
  O poeta nada mais é que o agente que leva esse grão àquele que sempre o esperou sem assim o saber.
  Bonito? Mais que isso. Poder.