ROCK NA ALEMANHA OCIDENTAL

   Faust, Neu, Can, Kraftwerk, Amon Dull, Nektar, Tangerine Dream, Karthago, esses alguns dos nomes do Krautrock. Posto um documentário da BBC. Gritos usados como instrumento. Enquanto uma bateria repete um beat, um músico varre o estúdio: eis a música, o beat e o ruído da vassoura que vira melodia. Um japonês fala enquanto o ritmo se repete. Rock sem riff, sem solo, sem refrão. Viagens espaciais. Como diz um deles, nem Inglaterra e nem EUA. E nem Alemanha: Space. Outros mundos, alucinações. 
  Radicais. O auge do terrorismo europeu. Bombas como mensagens. Barulho como poesia. O exagero sideral do romantismo. Além do óbvio. Em 1968 o rock já parecia esgotado. Eles foram além. Ninguém nunca mais foi tão além.
  Iggy aparece no doc da BBC. Em uma ilha tropical. Iggy sempre foi antenado e em 1975 já pirava com esses sons. "Porque era diferente. Nada de rocknroll ou de country..." Eram elegantes, frios, rebeldes, loucos, inesperados, monótonos e viciantes.
  E são os avôs do que se faz de mais esperto hoje.
  Veja.

LEONARDO DI CAPRIO/ MATHEW MCCORNAGHY/ BRUCE DERN/ BEN STILLER/ JULIE CHRISTIE/ ROCK HUDSON

   NEBRASKA de Alexander Payne com Bruce Dern, June Squibb, Stacy Keach e Bob Odenkirk
Ao contrário de seu costume Payne não fez o roteiro deste filme sem nenhuma concessão. Em preto e branco deslumbrante, acompanhamos um momento na vida medíocre de um velho. Ele crê em prêmio de loteria e tenta de todo modo viajar para receber o pretenso prêmio. O filho fracassado o leva de carro. Lento, com algumas cenas de humor amargo, é um daqueles filmes que nos anos 70 se fazia aos montes. O tal "pequeno grande filme". Bruce Dern, eterno coadjuvante, tem aqui seu segundo melhor papel ( em Amargo Regresso ele teve o papel de sua vida ). Payne está construindo uma bela carreira. Nota 7.
   A VIDA SECRETA DE WALTER MITTY de Ben Stiller com Ben Stiller
Talvez o pior filme deste ano. Uma hiper-pretensiosa comédia sem graça nenhuma e sem conteúdo algum. Walter Mitty sonha acordado. O filme tenta fazer graça no contraste entre sua vida de loser e seus sonhos. O tema é bom, mas Stiller não tem mérito algum nisso, Mitty foi filmado anteriormente nos anos 50. Stiller causa antipatia de tanta vaidade. ZEROOOOOOO!
   LONGE DESTE INSENSATO MUNDO de John Schlesinger com Julie Christie, Peter Finch, Alan Bates, Terence Stamp e Prunella Ramsome.
Épico inglês feito no auge da popularidade de seus atores. Schlesinger, vindo de filmes ousados, faz aqui seu filme tipo David Lean. Cheio de belas paisagens, conta a história de uma dona de terras que é cortejada por três homens. Um soldado mulherengo que lhe desperta desejo, um velho amargo e rico que se casa com ela, e um trabalhador simples e persistente, que salva seus negócios. Julie está belíssima, leva o filme com facilidade. Os 3 homens são muito bem escalados, Stamp é o soldado, Alan o camponês e Finch o homem amargo. Dificil saber quem está melhor. Um lindo filme. Nota 9.
   O CLUBE DALLAS de Jean-Marc Valée com Mathew McCornaghy, Jennifer Garner e Jared Letto.
E Mathew levou seu Oscar. Ele está ótimo como um cowboy machista que tem aids. Com a doença ele muda e se torna um cara melhor. Valée fez um filme maravilhoso e emocionante: CRAZY. Este é apenas comum. Um tipo de telefilme. Só isso. Nota 5.
   INSIDE LLEWYN DAVIS de Joel e Ethan Coen com Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake
Os Coen são talvez os diretores americanos de quem mais gosto ( claro que falo dos vivos ). Este filme, que não se parece com nada do que fizeram, apenas os cenários lembram algo de sua obra, tem um grande defeito: Oscar Isaac. Sem nenhum carisma. Mas, por outro lado, não será proposital? Afinal, esta é a história de um cantor folk que quase chega ao sucesso. Não chega porque ele se revela um desastrado, teimoso e até mesmo petulante tipo. Ou seja, um cara feito para perder. O filme se equilibra num fio muito perigoso, ele quase cai na pura chatice e consegue fugir da comédia ( ele tem tudo para virar um pastelão ), é um trabalho de direção muito sutil, dificil de manter. Eles conseguem. Mas é um filme seco, sem emoção. Gostamos, mas não queremos nunca ver de novo. A trilha sonora é muito boa, de T, Bone Burnett. Nota 6.
   O LOBO DE WALLSTREET de Martin Scorsese com Leonardo di Caprio, Jonah Hill, Margot Hobbie, Jean Dujardim e Mathew McCornaghy
Uma porrada. Febril, engraçado, amoral, o filme demonstra a genialidade de seu diretor e de todos os envolvidos. Scorsese faz, com prazer e com facilidade, tudo o que quer. Vai do drama ao pastelão, do suspense a farsa, com supremo savoir faire, know how, sabedoria. Uma aula de cinema, uma obra de um mestre, do maior diretor vivo. Aos 70 anos, Martin exibe um vigor que faria a maioria dos jovens diretores passar vergonha. Um muito grande filme, é, com A Grande Beleza e Branca de Neve de Pablo Berger, os grandes filmes de 2013. Nota DEZ.
   A ESPADA DE DAMASCO de Nathan Juran com Rock Hudson e Piper Laurie
Nos tempos pré-TV, o cinema mandava sózinho. E produzia toneladas de filmes B. Eram filmes simples, alguns muito bons, outros ruins. O objetivo era preencher as telas todo o ano, afinal, as pessoas iam ao cinema 3 vezes por semana em média. Este é um filme da Universal estilo 1001 noites. Rock Hudson ainda não era uma estrela e o filme dá pro gasto. Nota 5.

O LOBO DE WALLSTREET, UM FILME DO CACETE!

   Uma vez um cara que respeito muito escreveu que The Who define quem gosta de rock pelos motivos certos. Gente que gosta da banda de Daltrey e Pete sabe, instintivamente, o que significa rock. Existem fãs de Beatles, Bowie ou Radiohead que nada sabem da coisa. Mais que isso, podem ter uma visão deturpada do que seja rock. Não sei se o Who é tão definidor. Pela minha experiência acho que a prova dos nove está no rock de garagem.
   Este filme é o equivalente ao rock de garagem em cinema. Explico ( precisa? ).
   Ele não é teatro. Não corre atrás de frases marcantes e não dá aos atores momentos preparados para seus egos. Este filme não é pintura. Nada tem de belo, de composto, de sublime. Também nada tem de literatura. O enredo nunca se faz de esperto, complicado, original a todo custo. Então o que é este filme?
   Vamos adiante: Ele nada tem de informativo. Nada se fala de relevante em termos de história, sociologia ou politica. Não tem cenas em hospitais, escolas ou campos de refugiados. Ninguém é doce e frágil, nem tem gente que desperte nossa pena. O que ele é?
   CINEMA PORRA!
   Scorsese, com um tesão que jovens diretores desta geração fofa não têm, pega a câmera e filma. E o que vemos são corpos, rostos, atos, movimentos, lutas, tudo com a força e a febre daquele que fez ( 24 anos atrás!!! ) Goodfellas. Se eu quiser posso ver no filme o retrato da América que nasceu nos anos 80 e que vive bem e forte até hoje. Mas o coração do filme não é esse, o filme é sobre um velho de 70 anos e sua vibrante alegria de filmar. É um filme, ALELUIA!. feliz pra caralho! Porque ele sabe que fazer um filme é um prazer e uma honra. ( E quantos filmes voce tem visto que parecem um castigo que o elenco e o diretor pagam? ).
   Muita gente detestou o filme. Porque ele não tem história. Não percebem que ele não precisa de história. Ele é movimento. Apenas isso. E nos dá o prazer de o assistir. Nós rimos com ele, ficamos estupefatos com ele, nos surpreendemos, nos enervamos e ficamos excitados. Mas não nos aborrecemos. E além de tudo se trata de um filme viril. É um filme para homens. Seu mundo é o mesmo dos velhos westerns.
  Leonardo segue os passos de Al Pacino e de Paul Newman, quando vai levar seu Oscar? Tenho certeza que nossos filhos vão dizer um dia:: Quê???? Ele perdeu o prêmio em 2014??????? A atuação dele é estupenda. Há um momento, entre vários, em que ele faz uma cara de bulldog, a mandíbula projetada, que é coisa de gênio. É o melhor ator da América. O que mais ele tem de fazer? Perder 20 quilos? ( Aliás o filme tem dois vencedores, Mathew, ótimo, e Jean Dujardim, excelente ).
  Scorsese quase foi padre. Seus melhores filmes falam sempre de pecado, condenação e ressurreição. O que desconcerta aqui, e deixou tantos moralistas bravinhos, é que o castigo é leve. A droga e o sexo parecem divertidos. Não há uma razão doentia ou sofrida para as drogas. Eles detonam porque é bom, dá prazer, e é só. Isso hoje é inaceitável num filme.
   Ao final vejo que a edição é de Thelma Schoonmaker, a editora de Martin desde 1977, a mulher que conheceu Michael Powell via Martin e se casou com o mestre que fez The Red Shoes. E vejo que os figurinos são de Sandy Powell, que também está sempre com ele e fez filmes com Kubrick. A trilha sonora, que vai de Bo Diddley até Cypress Hill, é de responsabilidade de Robbie Robertson, o guitarrista gênio de The Band, outro velho amigo de Scorsese. Martin pega essa turma e faz com que trabalhem como um time. A coisa rola, rola como rola desde Main Streets ( lembrei muito dele vendo este filme ), rola em velocidade, em clima de sonho, de paranóia, de barato, de ressaca. E tudo se encaixa. O menino Martin que diz ter visto filmes todo dia desde os 9 anos, que diz ter sonhado acordado no clima onírico dos filmes que mais o marcaram, agora, do alto de sua filmografia, ainda consegue tocar a mão e lembrar daquele moleque do Bronx e olhar através do visor com a mesma fé, força e paixão de quando ele ia com o pai assistir De Sica, Powell e Welles nos cinemas de veludo.
  É um puta de um filmaço!

OSCAR, O ANO QUE VEM VAI TER CHURRASCO NA LAJE

   Teve umas pizzas. Tava tão chato que passaram o tempo tirando fotos. Como disse meu amigo Nelson Granja, não é que o Oscar ficou burro, o mundo emburreceu. O Oscar deixou de ser uma reunião chique e meio doida e virou uma festinha teen. Ano que vem eles distribuem kits do McDonald.
   O segredo dos vencedores é bem de araque. Quando Will Smith veio anunciar o melhor filme quem duvidou do vencedor? Os 3 melhores nada levaram pra casa. E só em Hollywood o filme que vence 7 Oscars não é o melhor filme. E somos obrigados a ver tanta bobagem enquanto escondem a entrega honorária a Angela Lansbury e Steve Martin. ( Deve ser porque os teen não querem saber de Steve e ignoram Miss Lansbury ). Com 14 anos aprendi no Oscar quem era Laurence Olivier...Quem quer aprender quem é Angela Lansbury?
   Juro que ano que vem não vejo mais.

OSCAR 2014, A VEZ DA CARETICE

E mais uma vez teremos o Oscar. Não, não vou mais uma vez falar da crescente vulgaridade do evento. Pra que? Hoje vemos decotes e quem está mais bonito. Antes pagávamos tributo aos ícones ainda vivos. E eram muitos! Cheguei a ver Kurosawa, Fellini e John Huston juntos na mesma noite. Como vi James Stewart, Henry Fonda e Liz Taylor. Se George Clooney aparecer hoje já está bom demais.
Pena Hoffman ter morrido. Como o povo jeca só conhece atores com menos de 50 anos, todos os holofotes irão para ele nas homenagens aos que se foram. A maior perda, de longe, foi a de Peter O`Toole. Mas sabe como é, Peter era Hennessy, Hoffman é Heineken.
Não faço previsões. Ou faço. O mundo perdeu o dom de ver filmes. Conversando ontem com meu amigo Léo, descubro surpreso que tem gente malhando o novo filme de Scorsese por ele não ter consciência social. Ah vá! O mundo tá muito chato, voltamos aos anos 40, tempo em que bom filme era aquele que parecia ser util. Veio dessa caretice o fato de Howard Hawks nunca ter ganho um Oscar. Em seu auge ele fazia filmes inuteis. E geniais. Parece que mais uma vez há toda uma geração incapaz de ver um filme em termos de ritmo, fotografia, diálogos, atores, criatividade. Tudo o que importa é se o tal filme é útil, relevante, social. Nesse modo obtuso de pensar, Steve McQueen, um bolha, ganha tudo. Quem tem a coragem de derrotar um filme tão do bem?
Gostaria que Nebraska ganhasse. Não por ser o melhor, não é, mas por ser pequeno, simples, triste, engraçado. É cinema puro. O filme de Martin é maior, melhor, mas a vitória de Nebraska seria a vitória do cinema. Se a caretice for além do doentio, Cate perde o Oscar de atriz por culpa do vilão Woody Allen. Eu acho que ela devia ter ganho quando fez Bob Dylan. Judi Dench é por quem eu torço. Ela é sempre genial.
Gosto de Mathew, mas seria ridiculo ele vencer. Quero o prêmio para Leonardo.
Por fim o melhor. A Grande Beleza é o melhor filme. Estrangeiro ou não. Uma obra-prima.
Inácio diz hoje que o filme de Scorsese ficará na história. Steve McQueen não. Isso é óbvio. Assim como A Grande Beleza será estudado em 2044. Gravidade não. 12 Anos não.
Da década de 40 o que ficou foi Kane, e filmes de Huston, Hawks,Hitchcock, policiais noir, musicais. O Oscar ia para dramas com Bette Davis, filmes sobre a guerra, sobre o racismo, sobre o alcoolismo. Filmes "sérios". É o mesmo clima de 2014. Há toda uma galera que acha que filme bom é aquele que fala sobre a fome na África, o Oriente Médio, a midia, a politica suja. Confundem assunto com arte, noticiário com criatividade, informação com visão de mundo.
Veremos pois...

INSIDE LLEWYN DAVIS- JOEL E ETHAN COEN, O FOLK ERA E É UM LIXO

   Nada mais comum na música de 2014 que essas meninas de franjinha e óculos cantando folk com seu violão doce azedo. E caras de barbinha cantando sobre a solidão. Esse estilo, tão século XXI, era a coisa mais quente nos EUA de 1962. O filme dos irmãos Coen retrata esse tempo não através de um vencedor, mas acompanhando um grande desajeitado. O que dói na história do filme é que o cara quase que poderia estourar, bastava uma dose de sorte e outra de flexibilidade. E o filme dos Coen, que não é dos seus melhores, mas que mesmo assim é bom, poderia se ótimo se eles relaxassem e se deixassem levar pelo seu criativo estilo Coen. Mas não, eles se retraem, querem fazer algo que não se pareça estilo Coen. Eu acho uma pena, mas não deixa de ser corajoso.
  Llewelyn perambula pelas ruas de NY. Não tem onde morar e usa sofás de amigos. Talvez tenha um filho, talvez . Paga aborto para amiga cantora. Viaja com dois loucos pela neve ( melhor parte do filme e a mais Coen style de todas ). E fracassa sempre. O filme não é choroso. Ele é uma figura de comédia. Mas o filme insiste em não ser engraçado.
  A última cena do filme tem Bob Dylan, aos 20 anos, se apresentando no buteco onde Llewelyn sempre tocou. Ele ignora Dylan e sai pra rua. Bob Dylan seria a salvação do folk e seu carrasco. Seria o herói de toda essa galera durante 3 anos e em 1965 seria o traidor que matou e cuspiu no folk. Isso porque ele usaria o rock, misturando rock com folk e criando o som preponderante da década. Hoje isso parece banal, mas seria como se o Arcade Fire passasse a usar rap de Miami ou Michael Stipe lançasse um disco solo de funk. Funk do Rio.
  Esse folk sempre foi chato. Joan Baez, Judy Collins, Pete Seeger, Peter Paul and Mary foram varridos pelos Beach Boys, Byrds e depois pelos Beatles e etc. O que havia de bom virou rock, Dylan, Paul Simon, Roger McGuinn...
  Mesmo que voce odeie folk, meu caso, o filme vale ser visto. As canções não atrapalham, são todas originais e passam depressa. Creio que os Coen foram fãs de folk no college e aqui retratam sua ingenuidade dos 18 anos. É um filme carinhoso.

O HOMEM DO MACHADO

   Depois do calor africano a tribo conheceu a Era Glacial. E tiveram de se unir ainda mais em cavernas e cabanas de pele de rena. Impacientes com o frio que não passava, castigados pelo vento, sentiram então, 50000 anos atrás, um novo impulso. No escuro do inverno sem fim, na nostalgia do sol, no sono temperado por fome, no medo e na insegurança, o impulso de criar surgiu. O desespero podia ser mitigado pela representação daquilo que se precisa e não se encontra. A mão usa a pedra e no osso do mamute faz nascer uma rena. A mão se amplia e na parede pinta o verão. A fala acompanha a mão, foi a mão que deu voz ao pensamento, fazendo o homem canta e fala, ensina, consola. No osso do mamute se guarda aquele dia terrível. Aquele dia que viu nascer o milagre: consolando e aliviando esse homem nos deu sua vida. 50000 anos depois, no fim da Era Glacial, nós ainda sabemos dele. O maior desejo daquele Herói anônimo agora acontece: Chega de gelo!
   Muito tempo antes ( Há um milhão de anos ).
   No luxo de verde sem fim, entre feras e presas, frutas que exalavam perfume por milhas e milhas além, um insignificante número de homens vaga atrás de comida. A vida sendo somente o ato de coletar e tentar vencer a fome que dura desde o nascimento até a morte. Uma vida com fome. Mas acontece um outro milagre: Um dentre eles pega uma pedra e a esculpe. Bate pedra contra pedra e afia e faz uma ferramenta. Um machado. Ele corta a carne, corta a madeira, esfola a pele, mata o inimigo. Quem ele foi? Porque ele o fez? Jamais teremos como saber o porque de um entre tantos executar esse ato definitivo. Porque os outros continuaram macacos? Mas não é disso que desejo falar. O que me importa é a razão, essa voz que só tem paz quando encontra uma ordem naquilo que não tem porque. E que inventa coisas na vã tentativa de ordenar e dar respostas ao que nunca se saberá. Foi a carne que desenvolveu nosso cérebro? Dê carne a um orangotango por meio milhão de anos e ele será apenas um macaco mais forte. E assassino. Tristes tentativas de resposta da razão.
   Daquela tribo, nossos pais africanos, um foi caçador, um ficava observando a vida, um era louco, outro mandava, um era tarado, um foi o mais idiota. Houve o nervoso, o sonhador, o mau. E um criou o machado. Somos filhos deles, eles vivem dentro de nós. A imensidão da savana nos seduz, o escuro das cavernas frias nos faz sonhar. O medo é nosso irmão, o terror de ser caça nos faz avançar. Andamos, precisamos andar, é nosso mais forte instinto, quem não anda morre de fome, de sede, é pego por uma fera. E quando somos obrigados  a parar de nos mover, no gelo, na neve, sonhamos e criamos mundos. Dentro do escuro. A sina humana: dentro e fora, consciente e inconsciente, sonho e sol.
  O homem do machado foi o maior de nossos heróis.

A EVOLUÇÃO HUMANA

   Um dia vencemos o canibalismo. E depois, bem depois encerramos com alivio os sacrifícios humanos em honra de deuses. Veio o fim das execuções em público e só depois disso paramos de vender gente.
   Um dia as guerras acabarão. E as veremos com vergonha.
   E só então iremos acabar de trucidar animais. E teremos a decência de os perceber como iguais.
   E esse homem do futuro olhará para nós e pensará: - Homens de 2014...Selvagens que comiam bichos!

LIGEIRAMENTE FORA DE FOCO- ROBERT CAPA

   o melhor fotógrafo de guerra relata sua experiência na segunda-guerra. Na verdade era para ser um roteiro de cinema ( e que filme soberbo ele seria! Principalmente se botassem Huston pra dirigir ). Heminguay deu uma ajuda ao amigo, o livro tem um másculo sabor que remete ao autor americano de O Sol Também se Levanta. Mas isso é marca do tempo. Escrever em inglês em 1940/1960 era geralmente escrever como Heminguay. 
  Capa salta de paraquedas e é dos primeiros homens a cruzar o canal e aportar na França. É o dia D. Suas fotos são definitivas. E seu relato? É bom, nos sentimos lá. Capa esteve nas guerras da Espanha, da China, na França, na Alemanha, em Israel e na Indochina ( Vietnã ). Aqui é só França e Alemanha, O melhor episódio é seu encontro com os espanhóis que lutaram pela França. O coração de Capa está com eles. A sua guerra foi a revolução da Espanha. Guerra que marcou todos aqueles que lá estiveram. Heminguay, Capa, Orwell, Dos Passos, Steinbeck...
  O livro, da Cosac Naify, tem algumas fotos que eu nunca vira. São maravilhosas. Rostos de soldados, aviadores, camponeses, a resistência em Paris. Robert Capa nunca deixa de dar suas cutucadas. Tem humor irônico. Vê o absurdo, sente medo, mas nunca foge. A narrativa é entremeada por seu caso com uma inglesa em Londres, Pinky. Na verdade Capa teve muitas mulheres mas só um amor. E esse amor morreu numa explosão, na Espanha.
  Li todo o livro em poucas horas de prazer. Uma bela história de guerra. Sangue e confusão. 
  

A DITADURA SEMPRE VENCE ( MESMO QUANDO PERDE )

   É claro que havia uma imensa massa de gente faminta e ignorante. Mas é fato também que a elite tinha uma educação e uma elegância que se perdeu. Mario Simonsen, dono da TV Excelsior e um dos donos da Panair era de uma finésse hoje impensáveis. Ser saudosista é crer que tudo era melhor. A vida é assim, se perde para se ganhar, a questão é entender se valeu a pena.
  Ditaduras sempre ganham. Mesmo quando derrubadas a vitória é definitiva. Porque aquilo que elas querem destruir é para sempre estragado. Nunca saberemos o que seria a Rússia dos czares. O que Lenine queria ele conseguiu, destruir a elite europeizada ( velha guerra eslava que se repete na Ucrânia agora, a luta do eslavismo contra a corrente européia ). Jamais iremos saber como seria a Alemanha, e o mundo, sem a ditadura Nazi. Eles conseguiram o que desejavam, matar a velha Europa da Belle Époque.
  Aqui o movimento de 64 desejava destruir todo o liberalismo de JK que se implantava. Jango foi uma desculpa, o ódio era do novo Brasil, o Brasil que podia ter dado certo e que nunca vamos saber. A Panair é um exemplo disso. Ontem assisti um doc sobre sua história.
  A Panair tinha aeroportos construídas por ela mesma. Linhas que ligavam o país a Europa. Tinha fábricas e oficinas. E levava remédios, via aviões anfibios, a Amazônia e Mato-Grosso. Sem a Panair, o Brasil não tinha contato algum com o mundo além do rio Negro. Em seus vôos havia uma elegância cortês que ainda não foi, e pelo jeito não será, repetida. Seus Constellations eram servidos pelas melhores aeromoças. Champagne e luxo, calma e tratamento caloroso. A companhia mantinha uma sala no melhor hotel de Paris. Lá, brasileiros podiam ir e passar o dia matando as saudades, conversando, bebendo e tendo atenção e socorro para qualquer problema. O mesmo em Roma e Londres.
  Pois bem, em 1965, da noite para o dia, os militares resolvem que a Panair não pode mais voar. Suas linhas são dadas a Varig. Os aviões e as posses são vendidas em leilões fajutos a preço de banana. Sem indenização, 5000 funcionários perdem o emprego. Um dos donos, dono também dos seguros Ajax, que fazia o seguro das docas de Santos, perde seus direitos. Coisa incrível, uma empresa é falida dando lucro!
  A Panair, como a TV Excelsior, desaparece para sempre. Com ela se vai o Brasil de JK. Um certo Brasil cortês, calmo, ainda inocente. Abre-se o caminho para o descaramento, para a lei que pode tudo, para a elite revanchista, burra, deslumbrada, arrogante. Os velhos militares democratas são exonerados. Morre um país que nunca mais irá voltar. A Panair, para toda uma geração, simbolizava esse mundo. O Constellation voando até o mundo, sobre o Rio, sobre Minas, sobre SP.

O CLUBE DALLAS, JEAN-MARC VALÉE

   A coisa começou com Robert de Niro em Touro Indomável e não parou mais. Um ator emagrece pacas, ou engorda, ou fica feio, e ganha um Oscar. Outro modo é fazer papel de doente. Ajuda muito. Neste filme Mathew faz as duas coisas. Oscar com certeza. Bruce Dern está muito melhor. Mas Mathew emagreceu.
   Sobre Jared nem dá pra falar. É uma atuação Ok. Nada mais.
   O diretor, Jean-Marc Valée tem um filme soberbo: CRAZY. Este não é nem bom nem ruim. Parece um daqueles telefilmes que se fazia nos anos 80. T.Rex fecha o filme. É a melhor coisa. ( Aliás parece que o mundo afinal começa a perceber que o glitter foi o auge do auge ).
  Quero dizer também que críticos de cinema da Folha estão de dar dó! O cara escreveu que o filme se passa nos anos 70!!!! Arre égua! É 1984/85 bocó!!! Quero deixar claro que gosto de Mathew. Mas há um erro em tanta festa. Vão estragar o melhor ator de comédia romântica que há.

O QUARTO E O MUNDO

   Olhando o teto do quarto ele via no branco um mundo sem palavras possíveis. Para que sair de lá se a aventura acontecia sem cessar? Os amigos da escola gritavam seu nome, mas ele se deixava ficar. No tapete bonecos interpretavam papéis sem enredo. Improvisos. Seus desenhos pintados com lápis colorido era testemunhas do mundo que ele criava. Da janela descia o lusco-fusco do outono, pálido, ele ficava tão pálido quanto o sol daqueles dias. O chá era tomado enrolado nas cobertas úmidas. Da luz amarelada da noite mal iluminada ele via as sombras de seu futuro. Lá tudo tinha sentido exatamente por não precisar de um sentido.
  Hoje ele diz que toda sua vida foi a extensão daquele quarto. Ele o levou para o mundo de fora. Isso ele diz. E agora, velho, ele volta ao quarto fisicamente. E vive.
  Toda aquela geração foi da rua. O espaço ainda era livre e mato havia onde. Pete, Paul, John, Eric, Rod, Roger, Raymond, todos saíam de casa cedo e voltavam sujos e machucados de noite. Exploravam as ruas, os bairros, se perdiam em bosques e trilhos de trem. Compensavam a monotonia das casas germinadas, o tédio de um mundo sem TV com aventuras vividas nas ruas sujas e cheias de garotos como eles eram.
  David não. David Bowie, fico sabendo agora, vivia em seu quarto, e nisso ele antecipa ( oh David!!!! Mais uma antecipação!!! ), toda a geração anos 80, a geração, a minha, trancada no quarto, a geração Morrissey e Robert Smith. Com uma diferença: Bowie criava, Morrissey amava seus mitos e sofria.
  Não sei se fui um garoto do quarto. Eu variava tanto de humor que acho que tive anos de quarto e anos de rua. Nisso sou mais Pete Townshend que foi também os dois. Aos 15 passei meses ouvindo Mozart, Beethoven e lendo romances russos e ingleses sem quase sair de casa. Inclusive larguei a escola. Mas aos 16 estava na rua jogando bola, muito mal, e andando a esmo pelas ruas e aparecendo na casa de amigos a meia-noite. O mesmo na infância.
  Na verdade se eu fosse um artista eu diria que o que levei comigo para o mundo foi meu bairro, as ruas onde nasci e cresci. Meu quarto tinha nove quarteirões e um campo sem fim.
  Quanto mais conheço Bowie mais o admiro.