O QUARTO E O MUNDO

   Olhando o teto do quarto ele via no branco um mundo sem palavras possíveis. Para que sair de lá se a aventura acontecia sem cessar? Os amigos da escola gritavam seu nome, mas ele se deixava ficar. No tapete bonecos interpretavam papéis sem enredo. Improvisos. Seus desenhos pintados com lápis colorido era testemunhas do mundo que ele criava. Da janela descia o lusco-fusco do outono, pálido, ele ficava tão pálido quanto o sol daqueles dias. O chá era tomado enrolado nas cobertas úmidas. Da luz amarelada da noite mal iluminada ele via as sombras de seu futuro. Lá tudo tinha sentido exatamente por não precisar de um sentido.
  Hoje ele diz que toda sua vida foi a extensão daquele quarto. Ele o levou para o mundo de fora. Isso ele diz. E agora, velho, ele volta ao quarto fisicamente. E vive.
  Toda aquela geração foi da rua. O espaço ainda era livre e mato havia onde. Pete, Paul, John, Eric, Rod, Roger, Raymond, todos saíam de casa cedo e voltavam sujos e machucados de noite. Exploravam as ruas, os bairros, se perdiam em bosques e trilhos de trem. Compensavam a monotonia das casas germinadas, o tédio de um mundo sem TV com aventuras vividas nas ruas sujas e cheias de garotos como eles eram.
  David não. David Bowie, fico sabendo agora, vivia em seu quarto, e nisso ele antecipa ( oh David!!!! Mais uma antecipação!!! ), toda a geração anos 80, a geração, a minha, trancada no quarto, a geração Morrissey e Robert Smith. Com uma diferença: Bowie criava, Morrissey amava seus mitos e sofria.
  Não sei se fui um garoto do quarto. Eu variava tanto de humor que acho que tive anos de quarto e anos de rua. Nisso sou mais Pete Townshend que foi também os dois. Aos 15 passei meses ouvindo Mozart, Beethoven e lendo romances russos e ingleses sem quase sair de casa. Inclusive larguei a escola. Mas aos 16 estava na rua jogando bola, muito mal, e andando a esmo pelas ruas e aparecendo na casa de amigos a meia-noite. O mesmo na infância.
  Na verdade se eu fosse um artista eu diria que o que levei comigo para o mundo foi meu bairro, as ruas onde nasci e cresci. Meu quarto tinha nove quarteirões e um campo sem fim.
  Quanto mais conheço Bowie mais o admiro.