leia e escreva já!
OH YOU PRETTY THINGS...
Magistral, maravilhosamente bem escrito, viciante, obrigatório para todos que gostam de rock, e muito, muito melancólico...
Falo mais do livro abaixo, mas agora ( acabo de terminar sua leitura ), fica um gosto azedo na boca. Porque o livro é um belo romance acima de tudo, uma história real e romantica, uma história que traz a nossa cabeça, a nós romanticos-roxy-incuráveis, uma sensação de que Bowie, Lou, Iggy, Cale, Patti Smith, Marc Bolan, Nico, não realizaram nem metade daquilo que podiam ter feito. E não porque eles se drogaram demais. O livro deixa claro que se Lou não tivesse caído de boca na vida sua arte seria outra. Idem para Iggy. O excesso e a droga era parte de seu ser. Não é isso. O amargo vem da certeza que o livro passa de que a vida é limitada, de que não se pode, ninguém, realizar todo seu potencial. E lemos então o monte de planos que Bowie não conseguiu realizar. Seus fracassos gigantescos, sua falência financeira ( tudo em 1974 ), a colaboração com Marc Bolan que nunca rolou, a briga terrível com Lou Reed, a partida de Mick Ronson...
Mas também existem os sucessos. A mágica ida a Berlim, Iggy, David e Eno descobrindo a cidade, o submundo, as boates de dragqueens, o clima do filme Cabaret. O disco com o Kraftwerk que quase rolou, as gravações de Idiot e de Low, os discos que mudaram o mundo da música para sempre. Ambos gravados por Iggy e David juntos.
Os excessos de Iggy. Os Stooges prontos para estourar e Iggy destruindo tudo com cenas de sangue, mutilação, ofensas dirigidas a platéia, apanhando do público, se fazendo de a banda mais odiada do mundo. E Bowie o salvando, Iggy que chegou a roubar comida para poder viver ( em 1975... ) As orgias com meninas de 15 anos...
E Lou...o cara que mostrou ser possível ter uma carreira sendo aquilo que voce é. Mergulhado em perversões, drogas, brigas, falando sempre o que não devia ser dito... e sempre indo em frente...
O livro acaba em 1980. Que é quando a carreira dos 3 se congela. Lou Reed está por baixo, e Bowie o chama para conversar. Ele quer fazer, mais uma vez, um disco de renascimento, como foi Transformer, para aquele que é afinal seu mentor. Alguns jornalistas vão ao encontro, num restaurante, os dois estavam brigados a anos. Conversam amigavelmente, parece que o disco vai sair...Mas de repente Lou espanca Bowie e grita com ele...E o encontro vira uma briga onde várias pessoas os separam. Porque? Porque Bowie tocou no único assunto que Lou não admitia: pediu para ele parar de detonar antes de começarem as gravações. Lou se foi...Bowie partiu para Lets Dance...
Dave Thompson escreve então a última frase do livro, e aí vemos como ele escreve bem:
"David Bowie foi atrás de Lou Reed, e de Iggy também, exatamente porque os dois tinham a ira, a coragem e a audácia que o jovem Bowie tanto admirava. E as drogas faziam parte de todo esse pacote. Pedir para deixar isso de lado era como uma traição aquilo que Lou era. Hipocrisia.
Voce tem de ler este livro. Ele vai grudar em voce. Apaixonante...
Falo mais do livro abaixo, mas agora ( acabo de terminar sua leitura ), fica um gosto azedo na boca. Porque o livro é um belo romance acima de tudo, uma história real e romantica, uma história que traz a nossa cabeça, a nós romanticos-roxy-incuráveis, uma sensação de que Bowie, Lou, Iggy, Cale, Patti Smith, Marc Bolan, Nico, não realizaram nem metade daquilo que podiam ter feito. E não porque eles se drogaram demais. O livro deixa claro que se Lou não tivesse caído de boca na vida sua arte seria outra. Idem para Iggy. O excesso e a droga era parte de seu ser. Não é isso. O amargo vem da certeza que o livro passa de que a vida é limitada, de que não se pode, ninguém, realizar todo seu potencial. E lemos então o monte de planos que Bowie não conseguiu realizar. Seus fracassos gigantescos, sua falência financeira ( tudo em 1974 ), a colaboração com Marc Bolan que nunca rolou, a briga terrível com Lou Reed, a partida de Mick Ronson...
Mas também existem os sucessos. A mágica ida a Berlim, Iggy, David e Eno descobrindo a cidade, o submundo, as boates de dragqueens, o clima do filme Cabaret. O disco com o Kraftwerk que quase rolou, as gravações de Idiot e de Low, os discos que mudaram o mundo da música para sempre. Ambos gravados por Iggy e David juntos.
Os excessos de Iggy. Os Stooges prontos para estourar e Iggy destruindo tudo com cenas de sangue, mutilação, ofensas dirigidas a platéia, apanhando do público, se fazendo de a banda mais odiada do mundo. E Bowie o salvando, Iggy que chegou a roubar comida para poder viver ( em 1975... ) As orgias com meninas de 15 anos...
E Lou...o cara que mostrou ser possível ter uma carreira sendo aquilo que voce é. Mergulhado em perversões, drogas, brigas, falando sempre o que não devia ser dito... e sempre indo em frente...
O livro acaba em 1980. Que é quando a carreira dos 3 se congela. Lou Reed está por baixo, e Bowie o chama para conversar. Ele quer fazer, mais uma vez, um disco de renascimento, como foi Transformer, para aquele que é afinal seu mentor. Alguns jornalistas vão ao encontro, num restaurante, os dois estavam brigados a anos. Conversam amigavelmente, parece que o disco vai sair...Mas de repente Lou espanca Bowie e grita com ele...E o encontro vira uma briga onde várias pessoas os separam. Porque? Porque Bowie tocou no único assunto que Lou não admitia: pediu para ele parar de detonar antes de começarem as gravações. Lou se foi...Bowie partiu para Lets Dance...
Dave Thompson escreve então a última frase do livro, e aí vemos como ele escreve bem:
"David Bowie foi atrás de Lou Reed, e de Iggy também, exatamente porque os dois tinham a ira, a coragem e a audácia que o jovem Bowie tanto admirava. E as drogas faziam parte de todo esse pacote. Pedir para deixar isso de lado era como uma traição aquilo que Lou era. Hipocrisia.
Voce tem de ler este livro. Ele vai grudar em voce. Apaixonante...
UM RAPAZ TIMIDO QUE PARECIA SER GAY
Tony deFries era um advogado júnior que resolveu virar empresário de rock. Tomou nas mãos um tal de David Bowie.
Em Londres foi levado um espetáculo de Andy Warhol. Uma peça com um bando de travestis e algumas mulheres. Tinha sexo real, sujeira, ofensas e frases sem sentido. Todos se falam e ninguém escuta. Num tempo em que ainda se criava polêmica real, as pessoas ainda tinham tabús para serem desafiados, a peça foi atacada por jornais e TV. O público ia em massa. Bowie foi com Tony. A ideia foi pega: levar aquilo para o rock.
Bowie sempre disse: "Sou uma máquina Xerox! Nada crio, absorvo e misturo aquilo que vejo. Se sou triste é porque o mundo o é. Se sou glamouroso é porque o mundo é. Me amar é amar ao mundo e se voce me detesta é porque o mundo agora é detestável." David Bowie falava coisas como essas nas revistas. Frases assim, perto daquilo que Dylan ou Lennon diziam, são mais que inteligentes, são distanciadas, espertas, terrivelmente espertas.
E em meio a isso tudo Bowie diz ser bissexual. E para o autor, Dave Thompson, essa foi sua jogada de mestre! Porque Bowie nunca foi gay ou bissexual. Se fosse teríamos montes de relatos de ex-amantes. Mas não. Nada. Bowie tem uma vida sexual fria, timida, distante. Mas ele "parece"gay e sempre fez questão disso. Com essa frase ele pegou a diferença, ele foi o primeiro cara a escancarar a sexualidade reprimida inglesa. Isso não era pouca coisa. Perto dele Jagger e Rod Stewart passaram a parecer conservadores. E Led, Beatles ou Who, terrivelmente machos. Bowie pegou o bando de teens reprimidos e os colocou nas mãos.
Tony deFries tem muito a ver com isso. Ele inventou um conceito que seria regra para sempre. Ser uma estrela antes de ser uma estrela. Viver como um superstar mesmo sem nada ter feito. Bowie andava com guarda-costas quando ninguém ainda o conhecia. Bowie andava de limousine ainda sem grana. E guiava a juventude mesmo sendo ignorado pela midia. Tudo isso na verdade coisa de Andy Warhol, mas Tony foi o primeiro a usar isso no rock. E Bowie foi o mais dócil dos artistas.
E compunha! 3 discos em um ano!!!!
Fato: Iggy Pop não gostava dos discos de Bowie. Mas Bowie não ligava, Pra ele, Iggy era o melhor cantor do mundo. E ele o tirou do buraco. Levou-o pra Londres.
Fato: Bowie ajudava todo mundo. Antes da fama, ele tirou o Mott the Hoople do desemprego. E lhes deu um hit de presente.
Fato: Lou Reed usou Bowie para ganhar uma grana. E Bowie o tratava como um rei.
Rapaz timido. Que tremia na frente de Lou, Iggy, e ficava mudo com Andy Warhol.
PS: Se Bowie reflete o mundo, o que seria seu silêncio?
Em Londres foi levado um espetáculo de Andy Warhol. Uma peça com um bando de travestis e algumas mulheres. Tinha sexo real, sujeira, ofensas e frases sem sentido. Todos se falam e ninguém escuta. Num tempo em que ainda se criava polêmica real, as pessoas ainda tinham tabús para serem desafiados, a peça foi atacada por jornais e TV. O público ia em massa. Bowie foi com Tony. A ideia foi pega: levar aquilo para o rock.
Bowie sempre disse: "Sou uma máquina Xerox! Nada crio, absorvo e misturo aquilo que vejo. Se sou triste é porque o mundo o é. Se sou glamouroso é porque o mundo é. Me amar é amar ao mundo e se voce me detesta é porque o mundo agora é detestável." David Bowie falava coisas como essas nas revistas. Frases assim, perto daquilo que Dylan ou Lennon diziam, são mais que inteligentes, são distanciadas, espertas, terrivelmente espertas.
E em meio a isso tudo Bowie diz ser bissexual. E para o autor, Dave Thompson, essa foi sua jogada de mestre! Porque Bowie nunca foi gay ou bissexual. Se fosse teríamos montes de relatos de ex-amantes. Mas não. Nada. Bowie tem uma vida sexual fria, timida, distante. Mas ele "parece"gay e sempre fez questão disso. Com essa frase ele pegou a diferença, ele foi o primeiro cara a escancarar a sexualidade reprimida inglesa. Isso não era pouca coisa. Perto dele Jagger e Rod Stewart passaram a parecer conservadores. E Led, Beatles ou Who, terrivelmente machos. Bowie pegou o bando de teens reprimidos e os colocou nas mãos.
Tony deFries tem muito a ver com isso. Ele inventou um conceito que seria regra para sempre. Ser uma estrela antes de ser uma estrela. Viver como um superstar mesmo sem nada ter feito. Bowie andava com guarda-costas quando ninguém ainda o conhecia. Bowie andava de limousine ainda sem grana. E guiava a juventude mesmo sendo ignorado pela midia. Tudo isso na verdade coisa de Andy Warhol, mas Tony foi o primeiro a usar isso no rock. E Bowie foi o mais dócil dos artistas.
E compunha! 3 discos em um ano!!!!
Fato: Iggy Pop não gostava dos discos de Bowie. Mas Bowie não ligava, Pra ele, Iggy era o melhor cantor do mundo. E ele o tirou do buraco. Levou-o pra Londres.
Fato: Bowie ajudava todo mundo. Antes da fama, ele tirou o Mott the Hoople do desemprego. E lhes deu um hit de presente.
Fato: Lou Reed usou Bowie para ganhar uma grana. E Bowie o tratava como um rei.
Rapaz timido. Que tremia na frente de Lou, Iggy, e ficava mudo com Andy Warhol.
PS: Se Bowie reflete o mundo, o que seria seu silêncio?
DANGEROUS GLITTER- DAVE THOMPSON, E O MUNDO NUNCA MAIS FOI COMO ANTES
Tudo começa com Andy Warhol. Ele queria uma banda "assim tipo essa coisa, hum....rock" e um dos caras da Factory achou a tal banda. Era a banda de um tal de Lewis Reed, um cara que tomara eletrochoques aos 17 anos, por ordem do pai milionário, pra ver se "ele deixa de ser viado". Reed gostava de Bob Dylan e compunha folks. E o melhor, era vaiado sempre.
Nico era alemã e foi topar na Factory. Era o molde do que viria a ser uma descolada hoje. Namorada de Bob Dylan, atriz, modelo, cantora, atuara com Fellini. Andy resolveu botar Nico pra cantar as músicas "....uh....do Lou Reed, nada de Lewis..."
Na Factory morava todo mundo: bichas, travestis, bandidos, cineastas, drogados, poetas, e os bobos também. Um cara de Gales apareceu por lá...John Cale era músico erudito, tão louco quanto Reed, com uma diferença, Cale detestava Bob Dylan. Andy botou ele na banda com sua viola torta e uns teclados ""tipo uh....Cage... John Cage. John e Lou se gostaram. Ambos liam as mesmas coisas.
O primeiro show foi num congresso de psiquiatras. Foram vaiados. Nico ensinou Reed a ser cínico. a ter raiva, a ser cool. Vestidos de preto, eles queriam matar os hippies. Odiavam a costa oeste.
Nico passou a namorar Brian Jones. E um dia levou a um show um outro namorado, um cara meio tosco de Detroit, um tal de James Osterberg. Ele tinha uma casa chamada Fun House, no mato, vivia lá com uns amigos. Nico foi pra lá e mudou o cabelo de James, lhe deu uns toques sobre atitude, e foi embora sem olhar pra trás. Foi dormir com Jim Morrison.
O cara virou Iggy Pop e John Cale produziu seu primeiro disco. Iggy era uma besta. Um idiota. Genial.
Lou Reed se achava o máximo. E por causa disso John Cale se foi. E com Cale se foi todo o ruído. E depois se foi Andy Warhol, e com ele se foi o fascínio chic. Lou ficou mais Dylan. E então, cansado de ser vaiado, de ser agredido, cansado do fracasso, foi pra casa.
Na Inglaterra um cara metido a ator não sabia se queria ser Brando ou Elvis. Foi levado a New York para conhecer Andy Warhol. Estava doido para encontrar Lou Reed. Reed não lhe deu bola, foi snob com ele. Voltou pra Londres e continuou sendo um fracasso. Ele compunha canções lindas, mas era um tempo em que todo cara novo tinha de seguir o estilo progressivo ou hard rock. E ele, David Bowie, era apenas pop. Mas um pop esquisito, pop feito por quem tinha pretensão, cultura, gosto. E era poeta. David Bowie tentava fazer sucesso sem fazer concessão. E nada.
Well....Marc Bolan era amigo de Bowie, e Marc abriu um caminho psicodélico. Violão e voz. Até que Tony Visconti insistiu para que ele usasse uma guitarra elétrica e Marc botou o glam nas paradas. Nascia o auge do rock inglês. A ilha nunca mais seria a mesma.
Mas nesse momento, 1971, em que T.Rex estoura, Bowie ainda era um nada, Lou voltara a morar com os pais e Iggy estava morto para as gravadoras.
E então Bowie encontra Tony Visconti. E conhece o novo Jeff Beck, um tal de Mick Ronson...E então Bowie tem a ideia, fazer uma Factory inglesa!!!!!
E o resto conto depois....
Nico era alemã e foi topar na Factory. Era o molde do que viria a ser uma descolada hoje. Namorada de Bob Dylan, atriz, modelo, cantora, atuara com Fellini. Andy resolveu botar Nico pra cantar as músicas "....uh....do Lou Reed, nada de Lewis..."
Na Factory morava todo mundo: bichas, travestis, bandidos, cineastas, drogados, poetas, e os bobos também. Um cara de Gales apareceu por lá...John Cale era músico erudito, tão louco quanto Reed, com uma diferença, Cale detestava Bob Dylan. Andy botou ele na banda com sua viola torta e uns teclados ""tipo uh....Cage... John Cage. John e Lou se gostaram. Ambos liam as mesmas coisas.
O primeiro show foi num congresso de psiquiatras. Foram vaiados. Nico ensinou Reed a ser cínico. a ter raiva, a ser cool. Vestidos de preto, eles queriam matar os hippies. Odiavam a costa oeste.
Nico passou a namorar Brian Jones. E um dia levou a um show um outro namorado, um cara meio tosco de Detroit, um tal de James Osterberg. Ele tinha uma casa chamada Fun House, no mato, vivia lá com uns amigos. Nico foi pra lá e mudou o cabelo de James, lhe deu uns toques sobre atitude, e foi embora sem olhar pra trás. Foi dormir com Jim Morrison.
O cara virou Iggy Pop e John Cale produziu seu primeiro disco. Iggy era uma besta. Um idiota. Genial.
Lou Reed se achava o máximo. E por causa disso John Cale se foi. E com Cale se foi todo o ruído. E depois se foi Andy Warhol, e com ele se foi o fascínio chic. Lou ficou mais Dylan. E então, cansado de ser vaiado, de ser agredido, cansado do fracasso, foi pra casa.
Na Inglaterra um cara metido a ator não sabia se queria ser Brando ou Elvis. Foi levado a New York para conhecer Andy Warhol. Estava doido para encontrar Lou Reed. Reed não lhe deu bola, foi snob com ele. Voltou pra Londres e continuou sendo um fracasso. Ele compunha canções lindas, mas era um tempo em que todo cara novo tinha de seguir o estilo progressivo ou hard rock. E ele, David Bowie, era apenas pop. Mas um pop esquisito, pop feito por quem tinha pretensão, cultura, gosto. E era poeta. David Bowie tentava fazer sucesso sem fazer concessão. E nada.
Well....Marc Bolan era amigo de Bowie, e Marc abriu um caminho psicodélico. Violão e voz. Até que Tony Visconti insistiu para que ele usasse uma guitarra elétrica e Marc botou o glam nas paradas. Nascia o auge do rock inglês. A ilha nunca mais seria a mesma.
Mas nesse momento, 1971, em que T.Rex estoura, Bowie ainda era um nada, Lou voltara a morar com os pais e Iggy estava morto para as gravadoras.
E então Bowie encontra Tony Visconti. E conhece o novo Jeff Beck, um tal de Mick Ronson...E então Bowie tem a ideia, fazer uma Factory inglesa!!!!!
E o resto conto depois....
SONATA KREUTZER- TOLSTOI
Pessoas viajam num trem. Uma delas começa a perder o controle. Depois que os outros descem, ela conta sua história. É um assassino. Matou sua esposa e foi absolvido. A novela é terrível !
Terrível porque entramos na cabeça de um sofredor, sofredor nada simpático, uma pessoa que nos repugna. Mas o mais chocante é sua clareza, sua inteligência. Ele conta seu modo de ver a vida, o modo certo. O amor não existe, ele é apenas sexo. As pessoas fingem não perceber, mas todo mundo está o tempo todo flertando. Os homens agem como libertinos e as mulheres como putas. A vida se transformou num bordel, mas é ainda pior. O sexo é sempre ruim, e todos fingem que é o máximo. Sexo se tornou uma obrigação, uma conta a ser paga. Pessoas virgens têm vergonha de serem puras, o que é um absurdo! A pureza é que pode conhecer o amor, a partir do momento em que voce conhece o sexo, o amor se torna impossível.
E o assassino vai nesse ritmo, coerente apesar de chocante, corajoso. E o leitor quase entra nessa armadilha, quase lhe dá razão. Mas...Segue-se a descrição do crime, o inferno no casamento, o ciúmes que ele sentia, os filhos...E voce percebe então que o que Tolstoi está demonstrando não é o erro do século em matéria de materialismo, não é o tédio e o ódio entre casais, mas sim o modo engenhoso como nossa mente cria toda uma filosofia, todo um emaranhado de sutis razões para justificar um crime. Tudo aquilo que ele expôs, toda aquela maneira de ver as relações, nada mais é que um modo de se justificar perante nós e perante si-mesmo. Percebemos que assim funciona o mundo. O que antes era errado se torna o certo, o mal vira bem, o bem se faz um mal, tudo de acordo com o interesse do momento, e esse interesse é a absolvição de um ato violento, de um crime.
Desagradável. E soberbo.
Terrível porque entramos na cabeça de um sofredor, sofredor nada simpático, uma pessoa que nos repugna. Mas o mais chocante é sua clareza, sua inteligência. Ele conta seu modo de ver a vida, o modo certo. O amor não existe, ele é apenas sexo. As pessoas fingem não perceber, mas todo mundo está o tempo todo flertando. Os homens agem como libertinos e as mulheres como putas. A vida se transformou num bordel, mas é ainda pior. O sexo é sempre ruim, e todos fingem que é o máximo. Sexo se tornou uma obrigação, uma conta a ser paga. Pessoas virgens têm vergonha de serem puras, o que é um absurdo! A pureza é que pode conhecer o amor, a partir do momento em que voce conhece o sexo, o amor se torna impossível.
E o assassino vai nesse ritmo, coerente apesar de chocante, corajoso. E o leitor quase entra nessa armadilha, quase lhe dá razão. Mas...Segue-se a descrição do crime, o inferno no casamento, o ciúmes que ele sentia, os filhos...E voce percebe então que o que Tolstoi está demonstrando não é o erro do século em matéria de materialismo, não é o tédio e o ódio entre casais, mas sim o modo engenhoso como nossa mente cria toda uma filosofia, todo um emaranhado de sutis razões para justificar um crime. Tudo aquilo que ele expôs, toda aquela maneira de ver as relações, nada mais é que um modo de se justificar perante nós e perante si-mesmo. Percebemos que assim funciona o mundo. O que antes era errado se torna o certo, o mal vira bem, o bem se faz um mal, tudo de acordo com o interesse do momento, e esse interesse é a absolvição de um ato violento, de um crime.
Desagradável. E soberbo.
OS ÚLTIMOS DIAS- LIEV TOLSTOI
Transcrevo trechos:
Uma das principais causas do suicídio do mundo europeu é a falsa doutrina eclesiástica cristã sobre o paraíso e o inferno. Não se acredita nem no paraíso e nem no inferno, e no entanto, a ideia de que a vida deve ser ou o paraíso ou o inferno penetrou de tal forma na cabeça das pessoas que não se admite uma compreensão sensata da vida tal como ela é, a saber, não paraíso e nem inferno, mas uma luta, uma luta incessante, incessante porque a vida está só na luta, mas não a luta darwinista, de seres contra seres, mas na luta das forças espirituais contra seus limites corporais. A vida é a luta da alma contra o corpo.
...Mas havia pessoas para as quais a violência era vantajosa, e elas não reconheciam isso, e convenciam, a si próprias e aos outros, de que atacar e matar aos outros nem sempre era ruim, mas que há casos em que a violência é necessária e pode até ser boa. Tanto a violência quanto o assassinato continuaram a acontecer...
Cristo desmascarou essa falsa justificativa para a violência. Ele mostrou que qualquer violência pode ser justificada, como acontece quando dois inimigos lutam um contra o outro e ambos se justificam. Não devemos crer em nenhuma justificativa para a violência, e nunca se deve usa'-la, sob nenhum pretexto..
...podemos fazer tudo para nossa vantagem e nosso prazer, e para isso usar a violência contra as pessoas usando o pretexto de que é para o bem das pessoas.
Homem estúpido e ignorante, diz o homem de ciência, Você não entende que a ciência está a serviço da ciência, não da utilidade. A ciência estuda o que é possível estudar, não pode escolher. A ciência se abre ao todo, não se ocupa com ninharias.
E o homem simples quer apenas que o ensinem a viver melhor.
A ciência contemporânea não só não contraria o gosto e as exigências do setor dominante da sociedade como lhes é completamente servil: satisfaz a curiosidade ociosa, deixa as pessoas admiradas e lhes promete ainda mais deleite. A ciência de nosso tempo, ignorando tudo o que seja silencioso, modesto, simples, não conhece limites para a autobajulação.
Um dos sintomas de nossa decadência é o fato de um louco clínico como Nietzsche ser levado a sério.
Em todas as sociedades humanas em determinados períodos de sua existência, houve época em que a religião começa a se afastar de seu sentido original, e depois se afasta mais e mais, perde esse sentido original e, por fim, se petrifica em formas fixas, de modo que sua influência sobre a vida das pessoas vai se tornando cada vez menor. Nesses períodos, a minoria culta, tendo deixado de crer no ensinamento religioso, apenas fingia acreditar nele, por considerá-lo necessário ao controle das massas populares no modo de vida já existente. As massas populares, embora por inércia, mantivessem as formas religiosas pré-estabelecidas, já não conduziam sua vida cotidiana por ensinamentos religiosos, mas apenas por hábitos gerais e leis do governo. Mas nunca houve o que está acontecendo agora. Nunca houve um momento em que a minoria rica e culta se convencesse de que em sua época não há mais necessidade de religião alguma. E passasse a professar não só a inutilidade de toda religião, como a condenasse como símbolo de atraso e prejudicial ao desenvolvimento.
Bom, essas são algumas frases pegas no livro. Agora é hora de comentar e explicar o sentido geral do que Tolstoi pensava em seus últimos 20 anos de vida.
O centro de suas preocupações é a queda da civilização européia, e essa que da se liga a transformação da violência em regra geral. Profético, Tolstoi morre em 1910, e a sociedade que ele denunciava faria em 1914 a primeira guerra e em 39 sua continuação. Duas organizações promovem a violência: a politica, que precisa ser util e importante, e para um politico ser importante é ser o guia em momentos de crise, ou seja, ter inimigos, fazer o povo temer e odiar, e precisar dele para o defender. E a outra força social que promove a violência é a igreja, que finge esquecer os ensinamentos de Cristo e se torna cúmplice dos piores contra os inocentes. A mensagem de Cristo é simples: Fazer o bem. Dar a outra face. Jamais ser violento. Fazer ao outro o que desjas que se faça a ti. Seguir a lei do amor, dar sem pensar em receber. Agir agora e saber que o futuro não pode ser antecipado.
Segundo Tolstoi, todo homem quer que essas regras cristãs sejam seguidas, a maioria procura as seguir, mas a sociedade impede isso. Em um tempo em que o lucro, o trabalho e a disputa são o valor que move a vida, ser um cristão verdadeiro, um homem que ajuda e não disputa, cede e não briga, reparte e nunca acumula, é o grande pária. Para que o mundo do lucro exista é fundamental eliminar a verdadeira religião.
Tolstoi também fala muito da hipnose em que todos vivem. Um mundo europeu cheio de distrações, de pequenos fatos sem sentido, de brilhos que hipnotizam, de sons que calam, de ordens que são obedecidas sem que se saiba o porque. Outra característica do mundo moderno é dar ordens desde sempre. As crianças são treinadas a ser um membro atento que dará valor ao valor já estabelecido, a ciência será um tipo de circo do maravilhoso ( e esse maravilhoso raramente se ocupa daquilo que o cidadão simples quer: viver melhor e viver bem ), e o que se chama igreja fará o papel de bobo da corte, fingirá ser religiosa perante gente que finge crer.
Tolstoi diz que é um mundo vazio de sentido, vitima de tédio e de crueldade. Sem sentido e sem esperança.
Irrompem então os espertalhões, aqueles que percebem o estado podre da sociedade e gritam a plenos pulmões que o homem sempre foi esse traste sem porque e que a vida sempre foi sem sentido. Tolstoi diz que esse tipo de artista, de filósofo, é o mais nocivo corvo de todos, é o aproveitador, o propagador da falta de talento, o homem vil que comemora o fato do mundo ter atingido a sua insignificância. Esse arauto do desespero não ergue a vida, não ajuda, ele comemora sua vingança: eis que a vida me faz justiça! Ressentidos contra a vida.
O livro tem dois textos terríveis! Em um deles Tolstoi descreve os horrores de um matadouro. E diz ser tipico dos tempos que as pessoas criem bichos de estimação, detestem ver a morte de um animal, mas se banqueteiem com quilos de vitela. De Olhos vendados, elas se alimentam sem pensar e sem nunca discordar. Em outro capitulo ele descreve o trabalho numa mina e faz o contraste com o passeio dos donos dessa mina no campo. Tolstoi foi um socialista, mas sempre radicalmente contra a violência. Cristo era seu guia. O amor sua única lei.
Cartas trocadas entre Tolstoi e Gandhi, entre Tolstoi e Shaw também estão presentes ( os 3 eram as pessoas mais discutidas de 1910 ). E há um longo texto onde Tolstoi chama Shakespeare de autor mediocre. Sua tese é a de que Shakespeare foi escolhido como autor mais importante do mundo, por exibir em suas peças toda a violência e amoralidade da nova classe dominante e não por valor estético. Provávelmente isso é verdade, mas WS não é ruim...
Bem, Tolstoi pensa como eu penso em 99% dos casos. Penso nas guerras, na igreja sem sentido, no mundo do espetáculo, no sexo como distração, na nossa aceitação passiva da violência. Penso que a resistência pacífica nunca foi usada por palestinos, por exemplo, e que olho por olho dente por dente nunca deu certo. Sim, a ciência nunca pensa na moralidade do que faz e muito menos no bem das pessoas ( só as vezes a medicina ). E que chegamos a um ponto em que nem sequer conseguimos imaginar que possa haver outro modo de viver.
O livro é triste, pessimista, irado, e infelizmente, verdadeiro.
Haverá uma era cristã?
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Uma das principais causas do suicídio do mundo europeu é a falsa doutrina eclesiástica cristã sobre o paraíso e o inferno. Não se acredita nem no paraíso e nem no inferno, e no entanto, a ideia de que a vida deve ser ou o paraíso ou o inferno penetrou de tal forma na cabeça das pessoas que não se admite uma compreensão sensata da vida tal como ela é, a saber, não paraíso e nem inferno, mas uma luta, uma luta incessante, incessante porque a vida está só na luta, mas não a luta darwinista, de seres contra seres, mas na luta das forças espirituais contra seus limites corporais. A vida é a luta da alma contra o corpo.
...Mas havia pessoas para as quais a violência era vantajosa, e elas não reconheciam isso, e convenciam, a si próprias e aos outros, de que atacar e matar aos outros nem sempre era ruim, mas que há casos em que a violência é necessária e pode até ser boa. Tanto a violência quanto o assassinato continuaram a acontecer...
Cristo desmascarou essa falsa justificativa para a violência. Ele mostrou que qualquer violência pode ser justificada, como acontece quando dois inimigos lutam um contra o outro e ambos se justificam. Não devemos crer em nenhuma justificativa para a violência, e nunca se deve usa'-la, sob nenhum pretexto..
...podemos fazer tudo para nossa vantagem e nosso prazer, e para isso usar a violência contra as pessoas usando o pretexto de que é para o bem das pessoas.
Homem estúpido e ignorante, diz o homem de ciência, Você não entende que a ciência está a serviço da ciência, não da utilidade. A ciência estuda o que é possível estudar, não pode escolher. A ciência se abre ao todo, não se ocupa com ninharias.
E o homem simples quer apenas que o ensinem a viver melhor.
A ciência contemporânea não só não contraria o gosto e as exigências do setor dominante da sociedade como lhes é completamente servil: satisfaz a curiosidade ociosa, deixa as pessoas admiradas e lhes promete ainda mais deleite. A ciência de nosso tempo, ignorando tudo o que seja silencioso, modesto, simples, não conhece limites para a autobajulação.
Um dos sintomas de nossa decadência é o fato de um louco clínico como Nietzsche ser levado a sério.
Em todas as sociedades humanas em determinados períodos de sua existência, houve época em que a religião começa a se afastar de seu sentido original, e depois se afasta mais e mais, perde esse sentido original e, por fim, se petrifica em formas fixas, de modo que sua influência sobre a vida das pessoas vai se tornando cada vez menor. Nesses períodos, a minoria culta, tendo deixado de crer no ensinamento religioso, apenas fingia acreditar nele, por considerá-lo necessário ao controle das massas populares no modo de vida já existente. As massas populares, embora por inércia, mantivessem as formas religiosas pré-estabelecidas, já não conduziam sua vida cotidiana por ensinamentos religiosos, mas apenas por hábitos gerais e leis do governo. Mas nunca houve o que está acontecendo agora. Nunca houve um momento em que a minoria rica e culta se convencesse de que em sua época não há mais necessidade de religião alguma. E passasse a professar não só a inutilidade de toda religião, como a condenasse como símbolo de atraso e prejudicial ao desenvolvimento.
Bom, essas são algumas frases pegas no livro. Agora é hora de comentar e explicar o sentido geral do que Tolstoi pensava em seus últimos 20 anos de vida.
O centro de suas preocupações é a queda da civilização européia, e essa que da se liga a transformação da violência em regra geral. Profético, Tolstoi morre em 1910, e a sociedade que ele denunciava faria em 1914 a primeira guerra e em 39 sua continuação. Duas organizações promovem a violência: a politica, que precisa ser util e importante, e para um politico ser importante é ser o guia em momentos de crise, ou seja, ter inimigos, fazer o povo temer e odiar, e precisar dele para o defender. E a outra força social que promove a violência é a igreja, que finge esquecer os ensinamentos de Cristo e se torna cúmplice dos piores contra os inocentes. A mensagem de Cristo é simples: Fazer o bem. Dar a outra face. Jamais ser violento. Fazer ao outro o que desjas que se faça a ti. Seguir a lei do amor, dar sem pensar em receber. Agir agora e saber que o futuro não pode ser antecipado.
Segundo Tolstoi, todo homem quer que essas regras cristãs sejam seguidas, a maioria procura as seguir, mas a sociedade impede isso. Em um tempo em que o lucro, o trabalho e a disputa são o valor que move a vida, ser um cristão verdadeiro, um homem que ajuda e não disputa, cede e não briga, reparte e nunca acumula, é o grande pária. Para que o mundo do lucro exista é fundamental eliminar a verdadeira religião.
Tolstoi também fala muito da hipnose em que todos vivem. Um mundo europeu cheio de distrações, de pequenos fatos sem sentido, de brilhos que hipnotizam, de sons que calam, de ordens que são obedecidas sem que se saiba o porque. Outra característica do mundo moderno é dar ordens desde sempre. As crianças são treinadas a ser um membro atento que dará valor ao valor já estabelecido, a ciência será um tipo de circo do maravilhoso ( e esse maravilhoso raramente se ocupa daquilo que o cidadão simples quer: viver melhor e viver bem ), e o que se chama igreja fará o papel de bobo da corte, fingirá ser religiosa perante gente que finge crer.
Tolstoi diz que é um mundo vazio de sentido, vitima de tédio e de crueldade. Sem sentido e sem esperança.
Irrompem então os espertalhões, aqueles que percebem o estado podre da sociedade e gritam a plenos pulmões que o homem sempre foi esse traste sem porque e que a vida sempre foi sem sentido. Tolstoi diz que esse tipo de artista, de filósofo, é o mais nocivo corvo de todos, é o aproveitador, o propagador da falta de talento, o homem vil que comemora o fato do mundo ter atingido a sua insignificância. Esse arauto do desespero não ergue a vida, não ajuda, ele comemora sua vingança: eis que a vida me faz justiça! Ressentidos contra a vida.
O livro tem dois textos terríveis! Em um deles Tolstoi descreve os horrores de um matadouro. E diz ser tipico dos tempos que as pessoas criem bichos de estimação, detestem ver a morte de um animal, mas se banqueteiem com quilos de vitela. De Olhos vendados, elas se alimentam sem pensar e sem nunca discordar. Em outro capitulo ele descreve o trabalho numa mina e faz o contraste com o passeio dos donos dessa mina no campo. Tolstoi foi um socialista, mas sempre radicalmente contra a violência. Cristo era seu guia. O amor sua única lei.
Cartas trocadas entre Tolstoi e Gandhi, entre Tolstoi e Shaw também estão presentes ( os 3 eram as pessoas mais discutidas de 1910 ). E há um longo texto onde Tolstoi chama Shakespeare de autor mediocre. Sua tese é a de que Shakespeare foi escolhido como autor mais importante do mundo, por exibir em suas peças toda a violência e amoralidade da nova classe dominante e não por valor estético. Provávelmente isso é verdade, mas WS não é ruim...
Bem, Tolstoi pensa como eu penso em 99% dos casos. Penso nas guerras, na igreja sem sentido, no mundo do espetáculo, no sexo como distração, na nossa aceitação passiva da violência. Penso que a resistência pacífica nunca foi usada por palestinos, por exemplo, e que olho por olho dente por dente nunca deu certo. Sim, a ciência nunca pensa na moralidade do que faz e muito menos no bem das pessoas ( só as vezes a medicina ). E que chegamos a um ponto em que nem sequer conseguimos imaginar que possa haver outro modo de viver.
O livro é triste, pessimista, irado, e infelizmente, verdadeiro.
Haverá uma era cristã?
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PARIS- ROBERT DOISNEAU, O FOTÓGRAFO DA VIDA SIMPLES
Porque precisava de dinheiro, pois nem todo fotógrafo tem a sorte de ser rico desde sempre como Bresson, Doisneau conseguiu um emprego de fotógrafo de publicidade, na Renault. Mas faltava tanto que logo foi mandado embora. E essa é a filosofia de Robert: "Desobedecer é uma questão de viver bem". Este belo livro da Cosac Naify, fotos da cidade de Paris, desde os anos 30 até a década de 90, exibe a vida de Doisneau, a mistura das fotos com seus comentários.
Primeiro que ele nada tem contra o progresso. Diz jamais chorar sobre um edificio que desaba. Mas se assombra com a nova Paris. Tece um comentário perfeito sobre a impessoalidade dos novos prédios de aço e vidro:: "São todos idênticos. Querem o anonimato, a não-personalidade. Pessoas que lá vivem têm um anúncio de conformidade."
Nos anos 50 Doisneau foi convidado para trabalhar na Vogue. Ficou apenas dois anos. E chegando sempre atrasado. A Paris que vemos em suas lentes é suja. E rica, muito rica. Ao contrário de Capa que buscava o drama, ao contrário de Bresson que sempre trazia o abstrato, Doisneau é um poeta, suas imagens são sentimentos. Todo o tempo.
Fotos das ruas em labirinto, cheias de crianças, de gente, de ação, as fachadas que nunca s repetem. Cenas de Les Halles, com seus açougueiros, o sangue, o lixo na sarjeta. Bares de strip, as moças peladas, e a tocadora de acordeon, o rosto de pedra. Os moços da resist6encia, nas trincheiras, belos como modelos da Dolce e Gabanna! Vida real que parece um anúncio de modas...Doisneau é esteta por instinto!
Crianças brincando, maio de 68, jovens bonitas de minissaia. Chuva no chão, fotos com cachorros, a França e seus chiens. Diz Doisneau que era comum um músico tocar na rua ( ainda é ), a diferença é que as pessoas cantavam com ele, em coro. Se cantava muito no metrô também. Em grupo.
Bares com seus copos de Marc, de Absinto e de Calvados. O rio, bateau, muita gente pescando nas margens do Senna. E vinho.
Robert Doisneau é feliz, porque ele vê a alegria mesmo no açougue. Percebe o medo na foto do bombardeio, mas mesmo assim a foto é bonita, tem equilibrio, tem charme...
Se viver em SP tendo consciência de sua decadência é uma bosta, viver em Paris agora e saber aquilo que foi perdido...une merde!
Mas...a vida segue, e Doisneau sabe viver. Os escuros das gráficas onde franceses imprimem panfletos, os discursos nas ruas, o homem com um falcão no ombro, o nobre com sua limousine cheia de cachorros, o salto sobre a poça de chuva, o olhar discreto na bunda de uma pintura... Discrição, sutileza, charme, o charme sempre, a discrição bonita, a sutil afirmação da presença.
E o beijo, que tanta gente pensa ser foto de Bresson. A mais chic das fotos ( apesar de tão batida! ), a Mona Lisa das fotos de pessoas na rua... Não negue, ainda mexe!
Que prazer de livro!!!
Primeiro que ele nada tem contra o progresso. Diz jamais chorar sobre um edificio que desaba. Mas se assombra com a nova Paris. Tece um comentário perfeito sobre a impessoalidade dos novos prédios de aço e vidro:: "São todos idênticos. Querem o anonimato, a não-personalidade. Pessoas que lá vivem têm um anúncio de conformidade."
Nos anos 50 Doisneau foi convidado para trabalhar na Vogue. Ficou apenas dois anos. E chegando sempre atrasado. A Paris que vemos em suas lentes é suja. E rica, muito rica. Ao contrário de Capa que buscava o drama, ao contrário de Bresson que sempre trazia o abstrato, Doisneau é um poeta, suas imagens são sentimentos. Todo o tempo.
Fotos das ruas em labirinto, cheias de crianças, de gente, de ação, as fachadas que nunca s repetem. Cenas de Les Halles, com seus açougueiros, o sangue, o lixo na sarjeta. Bares de strip, as moças peladas, e a tocadora de acordeon, o rosto de pedra. Os moços da resist6encia, nas trincheiras, belos como modelos da Dolce e Gabanna! Vida real que parece um anúncio de modas...Doisneau é esteta por instinto!
Crianças brincando, maio de 68, jovens bonitas de minissaia. Chuva no chão, fotos com cachorros, a França e seus chiens. Diz Doisneau que era comum um músico tocar na rua ( ainda é ), a diferença é que as pessoas cantavam com ele, em coro. Se cantava muito no metrô também. Em grupo.
Bares com seus copos de Marc, de Absinto e de Calvados. O rio, bateau, muita gente pescando nas margens do Senna. E vinho.
Robert Doisneau é feliz, porque ele vê a alegria mesmo no açougue. Percebe o medo na foto do bombardeio, mas mesmo assim a foto é bonita, tem equilibrio, tem charme...
Se viver em SP tendo consciência de sua decadência é uma bosta, viver em Paris agora e saber aquilo que foi perdido...une merde!
Mas...a vida segue, e Doisneau sabe viver. Os escuros das gráficas onde franceses imprimem panfletos, os discursos nas ruas, o homem com um falcão no ombro, o nobre com sua limousine cheia de cachorros, o salto sobre a poça de chuva, o olhar discreto na bunda de uma pintura... Discrição, sutileza, charme, o charme sempre, a discrição bonita, a sutil afirmação da presença.
E o beijo, que tanta gente pensa ser foto de Bresson. A mais chic das fotos ( apesar de tão batida! ), a Mona Lisa das fotos de pessoas na rua... Não negue, ainda mexe!
Que prazer de livro!!!
BRASIL, O PAÍS DO FUTURO!
Um amigo me manda uma matéria em que uma revista conta que o futuro é dos idiotas.
Qual a nova?
Se eu der uma de Pondé e falar aquilo que penso, aliás que muitos pensam e que ninguém diz, falo que quanto mais os imbecis tomam o direito de mandar ( através do acesso ao consumo ), mais tudo fica de acordo com esse denominador comum, um denominador quase zero.
Se eu falo, e acho que voces nem acreditam, que em 1976 a Rede Globo exibia peças de Gogol e Lorca em horário nobre ( Teatro Vivo, 21 horas ) e sinfonias de Beethoven também, isso se devia ao fato de que os mal nutridos não tinham sequer acesso a . A programação da TV mais popular era feita para 5% da população. E mais uns 30% que viam Silvio Santos e Chacrinha. Uma felicidade hoje eles comprarem TVs, mas essa entrada no mercado não veio acompanhada de entrada na cultura. Então agora eles pedem Ratinho, Pânico, Casé e muito crime-da-vida-real.
E não me fale do capitalismo. O capitalismo verdadeiro se encontra na Coréia ou na Alemanha. O Brasil nunca conseguiu chegar ao capitalismo de fato. Improvisamos um camelódromo. Somos camelôs. Educação rima com alto consumo. O que aconteceu é que fomos incapazes de mudar a educação. Aliás, nada mudamos, continuamos exportando matéria prima e dependendo de marcas estrangeiras para termos carros, PCs, relógios, remédios, telefones e um imenso etc. A taba manda soja, compramos avião.
Em Pinheiros, após longos anos, a praça em frente a igreja está pronta. Quer dizer, pronta em "brazilian style". Está velha e decadente antes de terminada. O estado é incapaz de construir alguma coisa que pareça terminada. Tudo fica com aquele jeito de "nas coxas"...um buraco aqui, uma parede suja lá...
Soube que no Brasil os projetos são desenhados após o término da obra. Ou somos muito espertos ou este país é de uma deprimente burrice. Voce escolhe a alternativa.
Óbvio que os estádios da Copa ficarão mais ou menos terminados. E que ao fim do evento eles já vão parecer velhos e decadentes. Manutenção não é uma virtude brasileira. Nada de manutenção, que se construa de novo!
Se o futuro é dos idiotas, podemos dizer que somos mesmo, e sempre fomos, o país do futuro.
Quando americanos e japoneses estiverem confusos com sua nova realidade, uma realidade feita de improvisos, jeitinhos e desrespeito a acordos, o Brasil surgirá como pioneiro e poderá enfim ditar as regras.
Qual a nova?
Se eu der uma de Pondé e falar aquilo que penso, aliás que muitos pensam e que ninguém diz, falo que quanto mais os imbecis tomam o direito de mandar ( através do acesso ao consumo ), mais tudo fica de acordo com esse denominador comum, um denominador quase zero.
Se eu falo, e acho que voces nem acreditam, que em 1976 a Rede Globo exibia peças de Gogol e Lorca em horário nobre ( Teatro Vivo, 21 horas ) e sinfonias de Beethoven também, isso se devia ao fato de que os mal nutridos não tinham sequer acesso a . A programação da TV mais popular era feita para 5% da população. E mais uns 30% que viam Silvio Santos e Chacrinha. Uma felicidade hoje eles comprarem TVs, mas essa entrada no mercado não veio acompanhada de entrada na cultura. Então agora eles pedem Ratinho, Pânico, Casé e muito crime-da-vida-real.
E não me fale do capitalismo. O capitalismo verdadeiro se encontra na Coréia ou na Alemanha. O Brasil nunca conseguiu chegar ao capitalismo de fato. Improvisamos um camelódromo. Somos camelôs. Educação rima com alto consumo. O que aconteceu é que fomos incapazes de mudar a educação. Aliás, nada mudamos, continuamos exportando matéria prima e dependendo de marcas estrangeiras para termos carros, PCs, relógios, remédios, telefones e um imenso etc. A taba manda soja, compramos avião.
Em Pinheiros, após longos anos, a praça em frente a igreja está pronta. Quer dizer, pronta em "brazilian style". Está velha e decadente antes de terminada. O estado é incapaz de construir alguma coisa que pareça terminada. Tudo fica com aquele jeito de "nas coxas"...um buraco aqui, uma parede suja lá...
Soube que no Brasil os projetos são desenhados após o término da obra. Ou somos muito espertos ou este país é de uma deprimente burrice. Voce escolhe a alternativa.
Óbvio que os estádios da Copa ficarão mais ou menos terminados. E que ao fim do evento eles já vão parecer velhos e decadentes. Manutenção não é uma virtude brasileira. Nada de manutenção, que se construa de novo!
Se o futuro é dos idiotas, podemos dizer que somos mesmo, e sempre fomos, o país do futuro.
Quando americanos e japoneses estiverem confusos com sua nova realidade, uma realidade feita de improvisos, jeitinhos e desrespeito a acordos, o Brasil surgirá como pioneiro e poderá enfim ditar as regras.
OS QUARENTA ANOS DE QUARENTA ANOS ATRÁS
É duro falar sobre 1974, um ano que dura 40 verões. Isso é inacreditável. Em minha vida tive anos marcantes, 76, 77, 80, 84, 86, 91, 93, 95, 98, 99...sim, todos esses anos são diferentes, têm personalidade, marcam um tempo novo. Alguns tristes, como 77, mas todos importantes. Mas o sabor de 74 é o da descoberta. Foi quando descobri coisas que me deixariam em rota para ser aquilo que sou agora.
Portanto não vou falar daquilo que só descobri anos depois. Eu não sabia o que era Roxy Music em 1974, ou Woody Allen, Jack Nicholson e Philip Roth. Mas eu sabia de Nelson Motta e de um programa das tardes de sábado chamado Sábado Som. Nelsinho aparentava 18 anos então ( ele já tinha 30 ), e comentava os clips antes de os apresentar. Pink Floyd foi o primeiro. E eu achei um pé no saco. ( Falo de meus 11 anos ). Em outros programas a coisa me agradou mais. Meu irmão pirou com Jean Gennie do Bowie.
Sábado era um dia muito especial. Acordava e ia pra sala ouvir rádio. Difusora e Excelsior. Elton John era meu ídolo. Ele tinha 6 músicas de sucesso rolando ao mesmo tempo! Nunca mais vi isso! ( Eram Don`t Let The Sun Go Down On Me, The Bitch is Back, Lucy In The Sky, Sweet Painted Lady, Beannie and The Jets e Ballad of Danny Bailey ), e havia Wings, George Harrison, Ringo e Lennon ( tocava muito Band on the run, Miss Vandebilt, Dark Horse, Ding Dong, Only You, Goodnight Vienna, Whatever gets you thru the night, Dream, Goin down in love ), era TEMPO de Barry White, Stylistics, Billy Paul, Marvin Gaye, Stevie Wonder. Rolava Rebel Rebel do Bowie e Only RocknRoll dos Stones. E mais Alice Cooper, Bad Company, Slade, Sweet, Clapton com I Shot the Sheriff...e muito Secos e Molhados.
Em 74 minha mãe me disse que éramos ricos. Fiquei contente, mas jamais pensei que iríamos começar a cair em 1975, lentamente, ano a ano. Em 1983 a coisa ia virar de vez...
Nunca vi meu pai tão contente como naquele ano. Foi quando ele comprou um Opala exatamente como ele queria, vermelho-lotus, duas portas, um tipo de muscle-car brasileiro. Lembro dele trazendo o carro, a lataria vermelho brilhante, imenso, adentrando a garagem e exalando o cheiro de carro novo. Dormi aquela noite dentro dele. Nas noites seguintes ele nos levava para passear. Adorava olhar as luzes dos postes. Cantávamos. O rádio era Bosch-Blaupunkt.
Nas tardes de sábado íamos a Pinheiros, ao bar do meu pai. A alegria era enorme, raras vezes fui tão feliz. Uma alegria cheia de ansiedade. Porque, consumista que sempre fui, ia ganhar mais um carrinho da Matchbox. Tinha um laranja, um vermelho com hélices, um marrom enorme. Quando não ganhava um carrinho, ganhava discos. Singles, na época se chamavam compactos simples. Chegar em casa e os escutar era um momento de cerimonia. Deitava debaixo da vitrola e ficava olhando o motor girar.
Em 74 eu comecei a colecionar revistas da editora Ebal. Homem-Aranha, Superman, Tarzan, Batman, Superboy. Ainda posso sentir o cheiro do papel novo, tinta preta, capa em cores. Eu ia as segundas levar meu irmão a escola e na volta comprava revistas. Pelo resto da semana eu iria as reler.
Nesse ano fui apaixonado por Josie e as Gatinhas. Melodie. E via Mary Tyler Moore. Meu pai adorava San Francisco Urgente e Cannon. A TV era toda de séries americanas.
Na escola comecei a jogar bola. Sempre muito mal. E tinha uma relação de ódio e admiração pelo cara mais folgado da sala. Chegamos a brigar. Mas eu adorava ir a escola. Sempre adorei. O som de gente ao meu redor, nada é melhor.
Em 74 fomos a praia. Ficamos num apartamento que tinha uma criação de cabras no vizinho. Foi nesse ano que as meninas começaram a me deixar louco. Eu ficava na varanda todo o tempo, esperando uma menina passar...mas era um desejo envergonhado, sem que eu soubesse o que fazer com aquilo. Eu nem sabia me masturbar!
1974 foram longas tardes de inverno, na janela vendo a rua, naquele mundo onde quase nada acontecia e onde aquilo que acontecia acontecia pra sempre. Pra 40 anos.
Minha mãe fez uma promessa. E por isso fomos o ano inteiro em todas as missas de domingo. Eu odiava ter de ir. Era quente, chato, lotado, e eu queria ficar em casa ouvindo rádio. Depois da missa a gente ia na feira. Eu comprava bolachas. Bolachas velhas. Sempre gostei de bolachas velhas.
Penso agora que talvez 74 seja tão especial por ter sido o primeiro inverno em que não tive bronquite. Eu dormia muito bem, enfim! Minha vaidade começou a aparecer, comecei a estufar o peito, a me achar forte. A bronquite se foi.
1975 viria, e tudo o que 1974 trouxe seria desmentido por 75. Mas naquele natal, dezembro de 1974, tive um momento de absoluta felicidade, da certeza total na beleza da vida, de paz completa. Eu estava no centro de uma decisão, no centro de uma familia. Sabia que os caminhos se abriam. E queria todos eles. Pra valer.
Hoje, inacreditável 2014, ano em que 100 anos passaram pós 1914, 1914 que inicia o fim das alegrias possíveis, hoje, sinto 1974 vivo em tudo aquilo que me fala de amor.
Preservo meus amores. Respeito meus amores. 1974 é sempre.
Portanto não vou falar daquilo que só descobri anos depois. Eu não sabia o que era Roxy Music em 1974, ou Woody Allen, Jack Nicholson e Philip Roth. Mas eu sabia de Nelson Motta e de um programa das tardes de sábado chamado Sábado Som. Nelsinho aparentava 18 anos então ( ele já tinha 30 ), e comentava os clips antes de os apresentar. Pink Floyd foi o primeiro. E eu achei um pé no saco. ( Falo de meus 11 anos ). Em outros programas a coisa me agradou mais. Meu irmão pirou com Jean Gennie do Bowie.
Sábado era um dia muito especial. Acordava e ia pra sala ouvir rádio. Difusora e Excelsior. Elton John era meu ídolo. Ele tinha 6 músicas de sucesso rolando ao mesmo tempo! Nunca mais vi isso! ( Eram Don`t Let The Sun Go Down On Me, The Bitch is Back, Lucy In The Sky, Sweet Painted Lady, Beannie and The Jets e Ballad of Danny Bailey ), e havia Wings, George Harrison, Ringo e Lennon ( tocava muito Band on the run, Miss Vandebilt, Dark Horse, Ding Dong, Only You, Goodnight Vienna, Whatever gets you thru the night, Dream, Goin down in love ), era TEMPO de Barry White, Stylistics, Billy Paul, Marvin Gaye, Stevie Wonder. Rolava Rebel Rebel do Bowie e Only RocknRoll dos Stones. E mais Alice Cooper, Bad Company, Slade, Sweet, Clapton com I Shot the Sheriff...e muito Secos e Molhados.
Em 74 minha mãe me disse que éramos ricos. Fiquei contente, mas jamais pensei que iríamos começar a cair em 1975, lentamente, ano a ano. Em 1983 a coisa ia virar de vez...
Nunca vi meu pai tão contente como naquele ano. Foi quando ele comprou um Opala exatamente como ele queria, vermelho-lotus, duas portas, um tipo de muscle-car brasileiro. Lembro dele trazendo o carro, a lataria vermelho brilhante, imenso, adentrando a garagem e exalando o cheiro de carro novo. Dormi aquela noite dentro dele. Nas noites seguintes ele nos levava para passear. Adorava olhar as luzes dos postes. Cantávamos. O rádio era Bosch-Blaupunkt.
Nas tardes de sábado íamos a Pinheiros, ao bar do meu pai. A alegria era enorme, raras vezes fui tão feliz. Uma alegria cheia de ansiedade. Porque, consumista que sempre fui, ia ganhar mais um carrinho da Matchbox. Tinha um laranja, um vermelho com hélices, um marrom enorme. Quando não ganhava um carrinho, ganhava discos. Singles, na época se chamavam compactos simples. Chegar em casa e os escutar era um momento de cerimonia. Deitava debaixo da vitrola e ficava olhando o motor girar.
Em 74 eu comecei a colecionar revistas da editora Ebal. Homem-Aranha, Superman, Tarzan, Batman, Superboy. Ainda posso sentir o cheiro do papel novo, tinta preta, capa em cores. Eu ia as segundas levar meu irmão a escola e na volta comprava revistas. Pelo resto da semana eu iria as reler.
Nesse ano fui apaixonado por Josie e as Gatinhas. Melodie. E via Mary Tyler Moore. Meu pai adorava San Francisco Urgente e Cannon. A TV era toda de séries americanas.
Na escola comecei a jogar bola. Sempre muito mal. E tinha uma relação de ódio e admiração pelo cara mais folgado da sala. Chegamos a brigar. Mas eu adorava ir a escola. Sempre adorei. O som de gente ao meu redor, nada é melhor.
Em 74 fomos a praia. Ficamos num apartamento que tinha uma criação de cabras no vizinho. Foi nesse ano que as meninas começaram a me deixar louco. Eu ficava na varanda todo o tempo, esperando uma menina passar...mas era um desejo envergonhado, sem que eu soubesse o que fazer com aquilo. Eu nem sabia me masturbar!
1974 foram longas tardes de inverno, na janela vendo a rua, naquele mundo onde quase nada acontecia e onde aquilo que acontecia acontecia pra sempre. Pra 40 anos.
Minha mãe fez uma promessa. E por isso fomos o ano inteiro em todas as missas de domingo. Eu odiava ter de ir. Era quente, chato, lotado, e eu queria ficar em casa ouvindo rádio. Depois da missa a gente ia na feira. Eu comprava bolachas. Bolachas velhas. Sempre gostei de bolachas velhas.
Penso agora que talvez 74 seja tão especial por ter sido o primeiro inverno em que não tive bronquite. Eu dormia muito bem, enfim! Minha vaidade começou a aparecer, comecei a estufar o peito, a me achar forte. A bronquite se foi.
1975 viria, e tudo o que 1974 trouxe seria desmentido por 75. Mas naquele natal, dezembro de 1974, tive um momento de absoluta felicidade, da certeza total na beleza da vida, de paz completa. Eu estava no centro de uma decisão, no centro de uma familia. Sabia que os caminhos se abriam. E queria todos eles. Pra valer.
Hoje, inacreditável 2014, ano em que 100 anos passaram pós 1914, 1914 que inicia o fim das alegrias possíveis, hoje, sinto 1974 vivo em tudo aquilo que me fala de amor.
Preservo meus amores. Respeito meus amores. 1974 é sempre.
O GRANDE CIRCO- PIERRE CLOSTERMANN, MEMÓRIAS DE UM PILOTO DE CAÇA DAS FORÇAS DA FRANÇA LIVRE DA RAF.
A editora C&R lança livros de guerra no Brasil. Preenche um buraco, esse gênero tem muito prestigio em todo o mundo, aqui mal se encontra. Livro bem cuidado, belas fotos e desenhos dos aviões.
O pai de Pierre lutou em 1914/1918. Perdeu as duas pernas na carnificina, mas mesmo assim apoia o filho quando ele resolve se alistar como voluntário na segunda=guerra. Familia rica, negócios pelo mundo, Pierre poderia continuar sua vida na segurança do Canadá ou do Brasil. Mas não. Vai lutar na Royal Air Force, a RAF, a aviação inglesa, única força a deter Hitler em 1940.
A França não. E o livro, o diário real desse piloto, começa com o lamento pelo triste papel feito pela França. Ela não lutou, ela se rendeu. Mas, fora do país, De Gaulle organiza o ataque, franceses das colônias, franceses americanos, lutarão. Pierre estranha a Inglaterra. Mas logo se sente em casa. É 1943. As batalhas de Pierre Clostermann começam.
O estilo é admirável ! Nos sentimos dentro do avião. Ele sabe descrever a surpresa do inimigo que chega, as batalhas feitas de medo, de suor, frio, confusão. Os aviões se misturam, se caçam, atiram e erram, se perdem. Amigos morrem. Aos montes. Eles levantam vôo de manhã, de tarde, de noite, sentem fome, sentem sono, dor. E o medo que não se vai.
Pierre odeia a guerra. Ama a aviação. Ao final do livro ele fala de sua admiração pelos ases da aeronáutica alemã. Pilotos soberbos, que venceram 200 duelos. O luto que se abateu sobre a base quando Nowotny, um inimigo, foi morto. Porque acima de tudo eles eram aviadores, irmãos nos ares que deviam lutar. Pierre contrapõe a terrível carnificina da infantaria, com sua lama, seus membros despedaçados, a sujeira, e a guerra nos ares, limpa, fria, elegante, homem a homem.
Mas sim, ele sente a dor de ter bombardeado cidades. Aviões ainda a hélice, o que os obrigava a ver a explosão, ver o fogo, gente sendo explodida. Guerra olho no olho, se olha o piloto inimigo que atira.
Numa das folgas Pierre vai pescar. E faz amizade com o dono das terras onde ele pesca. Um velho inglês, de cachimbo e tweed. Esse homem, que janta com ele, morrerá num bombardeio. E Pierre descobre que a esposa e o filho do velho inglês já haviam morrido em 40, ele na batalha da Grã=Bretanha, ela em Londres, num bombardeio. Pierre passa a admirar a Inglaterra. As bombas caem e eles jogam cartas. A casa em chamas e o chá sendo servido em ponto. O fato que Hitler nunca entendeu, os ingleses não saem do costume, a fleuma permanece.
Pierre não gosta dos americanos. Porque até mesmo Hitler manteve as cidades de pé, nunca bombardeou para arrasar. Os americanos, e os russos, não. Para deixar seus soldados mais "protegidos" eles fazem um bombardeio arrasador. Destroem tudo. Sem pensar, sem remorso. Dresden, Munique, Berlim, Caen, Strasburgo, Dieppe, todas são incendiadas, anuladas, riscadas do mapa. É uma vingança fria, sem honra.
Churchill e Roosevelt discutiam muito por esse motivo, Churchill queria que se preservasse o máximo possível, Roosevelt ( e Eisenhower ) queriam a aniquilação. Venceram.
As missões se sucedem. Novos aviões, os nazis lançam o primeiro jato, o primeiro missil, mas é tarde. A guerra em seu fim é desespero. Batalhas aéreas gigantescas. 90 aviões contra 120...Os alemães constroem fábricas subterrâneas, 400 novos aviões por mês, 500, 1000...Mas a Inglaterra não desiste! Spitfires, Hurricanes, Typhoon, os nomes dos aviões são lendários! Pilotados na unha, com sangue saindo do nariz, sem ar, a 25 abaixo de zero!
Pierre Clostermann sabia escrever. E viveu muito! Morreu aos 92 anos, em 2002.
Homens como ele? Não mais.
O pai de Pierre lutou em 1914/1918. Perdeu as duas pernas na carnificina, mas mesmo assim apoia o filho quando ele resolve se alistar como voluntário na segunda=guerra. Familia rica, negócios pelo mundo, Pierre poderia continuar sua vida na segurança do Canadá ou do Brasil. Mas não. Vai lutar na Royal Air Force, a RAF, a aviação inglesa, única força a deter Hitler em 1940.
A França não. E o livro, o diário real desse piloto, começa com o lamento pelo triste papel feito pela França. Ela não lutou, ela se rendeu. Mas, fora do país, De Gaulle organiza o ataque, franceses das colônias, franceses americanos, lutarão. Pierre estranha a Inglaterra. Mas logo se sente em casa. É 1943. As batalhas de Pierre Clostermann começam.
O estilo é admirável ! Nos sentimos dentro do avião. Ele sabe descrever a surpresa do inimigo que chega, as batalhas feitas de medo, de suor, frio, confusão. Os aviões se misturam, se caçam, atiram e erram, se perdem. Amigos morrem. Aos montes. Eles levantam vôo de manhã, de tarde, de noite, sentem fome, sentem sono, dor. E o medo que não se vai.
Pierre odeia a guerra. Ama a aviação. Ao final do livro ele fala de sua admiração pelos ases da aeronáutica alemã. Pilotos soberbos, que venceram 200 duelos. O luto que se abateu sobre a base quando Nowotny, um inimigo, foi morto. Porque acima de tudo eles eram aviadores, irmãos nos ares que deviam lutar. Pierre contrapõe a terrível carnificina da infantaria, com sua lama, seus membros despedaçados, a sujeira, e a guerra nos ares, limpa, fria, elegante, homem a homem.
Mas sim, ele sente a dor de ter bombardeado cidades. Aviões ainda a hélice, o que os obrigava a ver a explosão, ver o fogo, gente sendo explodida. Guerra olho no olho, se olha o piloto inimigo que atira.
Numa das folgas Pierre vai pescar. E faz amizade com o dono das terras onde ele pesca. Um velho inglês, de cachimbo e tweed. Esse homem, que janta com ele, morrerá num bombardeio. E Pierre descobre que a esposa e o filho do velho inglês já haviam morrido em 40, ele na batalha da Grã=Bretanha, ela em Londres, num bombardeio. Pierre passa a admirar a Inglaterra. As bombas caem e eles jogam cartas. A casa em chamas e o chá sendo servido em ponto. O fato que Hitler nunca entendeu, os ingleses não saem do costume, a fleuma permanece.
Pierre não gosta dos americanos. Porque até mesmo Hitler manteve as cidades de pé, nunca bombardeou para arrasar. Os americanos, e os russos, não. Para deixar seus soldados mais "protegidos" eles fazem um bombardeio arrasador. Destroem tudo. Sem pensar, sem remorso. Dresden, Munique, Berlim, Caen, Strasburgo, Dieppe, todas são incendiadas, anuladas, riscadas do mapa. É uma vingança fria, sem honra.
Churchill e Roosevelt discutiam muito por esse motivo, Churchill queria que se preservasse o máximo possível, Roosevelt ( e Eisenhower ) queriam a aniquilação. Venceram.
As missões se sucedem. Novos aviões, os nazis lançam o primeiro jato, o primeiro missil, mas é tarde. A guerra em seu fim é desespero. Batalhas aéreas gigantescas. 90 aviões contra 120...Os alemães constroem fábricas subterrâneas, 400 novos aviões por mês, 500, 1000...Mas a Inglaterra não desiste! Spitfires, Hurricanes, Typhoon, os nomes dos aviões são lendários! Pilotados na unha, com sangue saindo do nariz, sem ar, a 25 abaixo de zero!
Pierre Clostermann sabia escrever. E viveu muito! Morreu aos 92 anos, em 2002.
Homens como ele? Não mais.
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