OS QUARENTA ANOS DE QUARENTA ANOS ATRÁS

   É duro falar sobre 1974, um ano que dura 40 verões. Isso é inacreditável. Em minha vida tive anos marcantes, 76, 77, 80, 84, 86, 91, 93, 95, 98, 99...sim, todos esses anos são diferentes, têm personalidade, marcam um tempo novo. Alguns tristes, como 77, mas todos importantes. Mas o sabor de 74 é o da descoberta. Foi quando descobri coisas que me deixariam em rota para ser aquilo que sou agora.
  Portanto não vou falar daquilo que só descobri anos depois. Eu não sabia o que era Roxy Music em 1974, ou Woody Allen, Jack Nicholson e Philip Roth. Mas eu sabia de Nelson Motta e de um programa das tardes de sábado chamado Sábado Som. Nelsinho aparentava 18 anos então ( ele já tinha 30 ), e comentava os clips antes de os apresentar. Pink Floyd foi o primeiro. E eu achei um pé no saco. ( Falo de meus 11 anos ). Em outros programas a coisa me agradou mais. Meu irmão pirou com Jean Gennie do Bowie. 
  Sábado era um dia muito especial. Acordava e ia pra sala ouvir rádio. Difusora e Excelsior. Elton John era meu ídolo. Ele tinha 6 músicas de sucesso rolando ao mesmo tempo! Nunca mais vi isso! ( Eram Don`t Let The Sun Go Down On Me, The Bitch is Back, Lucy In The Sky, Sweet Painted Lady, Beannie and The Jets e Ballad of Danny Bailey ), e havia Wings, George Harrison, Ringo e Lennon ( tocava muito Band on the run, Miss Vandebilt, Dark Horse, Ding Dong, Only You, Goodnight Vienna, Whatever gets you thru the night, Dream, Goin down in love ), era TEMPO de Barry White, Stylistics, Billy Paul, Marvin Gaye, Stevie Wonder. Rolava Rebel Rebel do Bowie e Only RocknRoll dos Stones. E mais Alice Cooper, Bad Company, Slade, Sweet, Clapton com I Shot the Sheriff...e muito Secos e Molhados.
   Em 74 minha mãe me disse que éramos ricos. Fiquei contente, mas jamais pensei que iríamos começar a cair em 1975, lentamente, ano a ano. Em 1983 a coisa ia virar de vez...
   Nunca vi meu pai tão contente como naquele ano. Foi quando ele comprou um Opala exatamente como ele queria, vermelho-lotus, duas portas, um tipo de muscle-car brasileiro. Lembro dele trazendo o carro, a lataria vermelho brilhante, imenso, adentrando a garagem e exalando o cheiro de carro novo. Dormi aquela noite dentro dele. Nas noites seguintes ele nos levava para passear. Adorava olhar as luzes dos postes. Cantávamos. O rádio era Bosch-Blaupunkt.
   Nas tardes de sábado íamos a Pinheiros, ao bar do meu pai. A alegria era enorme, raras vezes fui tão feliz. Uma alegria cheia de ansiedade. Porque, consumista que sempre fui, ia ganhar mais um carrinho da Matchbox. Tinha um laranja, um vermelho com hélices, um marrom enorme. Quando não ganhava um carrinho, ganhava discos. Singles, na época se chamavam compactos simples. Chegar em casa e os escutar era um momento de cerimonia. Deitava debaixo da vitrola e ficava olhando o motor girar.
   Em 74 eu comecei a colecionar revistas da editora Ebal. Homem-Aranha, Superman, Tarzan, Batman, Superboy. Ainda posso sentir o cheiro do papel novo, tinta preta, capa em cores. Eu ia as segundas levar meu irmão a escola e na volta comprava revistas. Pelo resto da semana eu iria as reler. 
  Nesse ano fui apaixonado por Josie e as Gatinhas. Melodie. E via Mary Tyler Moore. Meu pai adorava San Francisco Urgente e Cannon.  A TV era toda de séries americanas. 
  Na escola comecei a jogar bola. Sempre muito mal. E tinha uma relação de ódio e admiração pelo cara mais folgado da sala. Chegamos a brigar. Mas eu adorava ir a escola. Sempre adorei. O som de gente ao meu redor, nada é melhor.
  Em 74 fomos a praia. Ficamos num apartamento que tinha uma criação de cabras no vizinho. Foi nesse ano que as meninas começaram a me deixar louco. Eu ficava na varanda todo o tempo, esperando uma menina passar...mas era um desejo envergonhado, sem que eu soubesse o que fazer com aquilo. Eu nem sabia me masturbar!
  1974 foram longas tardes de inverno, na janela vendo a rua, naquele mundo onde quase nada acontecia e onde aquilo que acontecia acontecia pra sempre. Pra 40 anos.
  Minha mãe fez uma promessa. E por isso fomos o ano inteiro em todas as missas de domingo. Eu odiava ter de ir. Era quente, chato, lotado, e eu queria ficar em casa ouvindo rádio. Depois da missa a gente ia na feira. Eu comprava bolachas. Bolachas velhas. Sempre gostei de bolachas velhas. 
  Penso agora que talvez 74 seja tão especial por ter sido o primeiro inverno em que não tive bronquite. Eu dormia muito bem, enfim! Minha vaidade começou a aparecer, comecei a estufar o peito, a me achar forte. A bronquite se foi.
  1975 viria, e tudo o que 1974 trouxe seria desmentido por 75. Mas naquele natal, dezembro de 1974, tive um momento de absoluta felicidade, da certeza total na beleza da vida, de paz completa. Eu estava no centro de uma decisão, no centro de uma familia. Sabia que os caminhos se abriam. E queria todos eles. Pra valer. 
  Hoje, inacreditável 2014, ano em que 100 anos passaram pós 1914, 1914 que inicia o fim das alegrias possíveis, hoje, sinto 1974 vivo em tudo aquilo que me fala de amor.
  Preservo meus amores. Respeito meus amores. 1974 é sempre.