OS REIS DOS PATOS - Trechos de Episódios (lista de reprodução)



leia e escreva já!

OS REIS DOS PATOS, KENNETH TYNAN E UM LOBITO RUIM

   Nossa crítica de mal humor tem tudo a ver com aquilo que se oferece a ser criticado. Acabo de reler o livro de Kenneth Tynan e penso que muito da beleza de suas resenhas críticas são frutificadas pela assembléia de gente interessante que havia no globo para ser apreciada. Ele viveu para escrever sobre Olivier, Bogart, Miles Davis e Kate Hepburn. Estava presente em noites de Noel Coward e de Gielgud. A matéria prima para ser escrita era de primeira. Ela exigia boa crítica, bem escrita e bem informada. O maior elogio a Tynan é dizer que ele esteve a altura de seus objetos críticos. Ler este livro, inspirador e generoso em seu oferecimento de beleza viva, é tomar contato com o best of the best.
   Hoje escrevem sobre bestalhadas.
   A melhor frase do livro ( cheio de melhores frases ), "o sorriso e a personalidade de Katharine Hepburn faz mirrar gente mesquinha e desinteressante. Ela é uma ofensa aos pobres de espírito."
   Lobão, o pretensioso-que-se-acha, diz que não dá pra viver em mundo burro. Ora caro Lobo uivador, este mundo foi feito por voce. Suas canções acostumaram toda uma geração a cantores ruins, letras bobas e mensagens deslumbradamente redundantes. Acima de tudo o mundo do Lobinho é chato.
   Na lista dos 101 melhores roteiros tem tanta bobagem que nem vale a pena falar. Vi todos os 101. É uma lista sem um só filme japonês e que ignora Bergman e Bunuel. Bem...os 10 primeiros até dá pra concordar, mas depois a coisa pega.
   Os Reis dos Patos é a melhor coisa da TV hoje. É isso mesmo! TV pra mim não é arte. Ao contrário dos patetas, que são incapazes de ler um livro e pensam compensar sua idiotia via TV, procuro na TV diversão, excitação e entretenimento. Amo bobagens bem feitas. Os Patos é uma familia de caipiras ( como eu ) dos cafundós dos EUA que caçam, fazem merda e dão depoimentos hilários. Eles são ultra-conservadores. Caçam bichos. E são irresistíveis. Tem um episódio em que a espada samurai de um deles é quebrada que é ducaraca! "Também essa espada era uma porcaria!" Frase de gênio! Veja a versão dublada. É muito legal.
   Lembro que em 1976, ano em que comecei a ler jornal, em dois meses os críticos de cinema se deliciaram. Falaram, bem e mal, de TAXI DRIVER, UM DIA DE CÃO, NETWORK, ROCKY, NASHVILLE, A ÚLTIMA NOITE DE BORIS GRUSHENKO, 1900 e BARRY LYNDON.
   Temas para escrever. Espaço na imprensa.
   Sinto falta de Ibrahim Sued: De Leve!!!!!
  

O BRINCALHÃO FERNANDO PESSOA

   Fernando Pessoa gostava de Sherlock Holmes. E até escreveu um conto, incompleto, ao estilo Conan Doyle. Alestair Crowley era um "mago". Raul Seixas e Mr.Coelho eram fãs dele. Pessoa o conheceu via carta. Crowley vivia fugindo dos credores Europa afora. Se convidou para ir à Portugal. E o poeta se viu na obrigação de o receber. Crowley deu um calote nos hotéis e restaurantes portugueses. E inventou sua morte. Forma de parar de ser perseguido. Fernando Pessoa adorou a ideia. Bolou a morte e passou a escrever aos jornais testemunhando a morte de Crowley. Usando nomes falsos, claro.
   Uma vez dois poetas marcaram encontro com Pessoa. Ele foi. Como Caieiro. Os dois poetas mais jovens se ofenderam. E foram embora. Não souberam brincar.
   Fernando amava Ofélia. E escrevia toneladas de cartas pra ela.
   Ele trabalhava apenas duas horas. Por semana! Escolheu ser pobre para ter tempo livre.
   Ao visitar os sobrinhos ele se jogava no chão e passava toda a tarde a brincar com eles. As crianças amavam Fernando Pessoa.
   Combina tudo isso com a imagem que temos dele?
   Quando o poeta morreu foi escrita sua biografia. E o autor, fã do Freud de 1930, forçou sua transformação num tipo de Baudelaire lusitano. O poeta bêbado flanando pela Lisboa misteriosa. Esse bio nada entendeu. Cometeu um crime. Jogou complexos de Édipo, homossexualidade reprimida, instintos destrutivos, num homem que não conheceu e não procurou conhecer. Leu os poemas como se fossem verdade. Como se a arte fosse um diário, um testemunho de vida. Na verdade esse senhor, representante da reprimida e séria geração mais jovem, transformou Pessoa naquilo que ele mesmo era: uma besta.
   Fernando Pessoa feliz. Mentiroso sempre. Brincalhão. Passando trotes nos amigos. Fugindo de contatos intimos para ser livre e poder escrever. Sonhando com livros imensos, em edição de luxo. Adiando a publicação de sua obra por ver nela algo sempre em construção. Fernando Pessoa que antecipou o perfil fake do face. Que iria aprontar muito na internet. Ator e autor de si mesmo.
   Certas aulas são para sempre.

A BELEZA E A NOITE ( contra cegos e ressentidos )

   Ando com um amigo e ele mata a charada: Gostei tanto do ANNA KARENINA de Joe Wright porque é um filme BONITO. E no deserto cinematográfico, onde toda imagem tem a pobreza da tela de TV, o filme surge como um original exercício de estilo.
   Mas posso dizer mais my friend, e digo por experiência de vida: Nada irrita mais o feio que a beleza. Àquele que não consegue apreciar a beleza ela, a beleza, lhe parece ofensa pessoal. O espírito limitado daquele que percebe apenas o que é "util" vê o belo como futil. É a sina dos poetas desde 1750, cultuar o que é inutil, como bem provocou Oscar Wilde na introdução a Dorian Gray. O homem que viveu em meio ao feio, ao funcional, ao "relevante" será incapaz de apreciar o que seja inefável, sutil, belo. Pior que isso, pressentindo sua limitação inumana, ele voltará seu arcabouço racional-redutor-rancoroso contra a beleza que lhe foi negada desde sempre. O FEIO ODEIA O BELO.
   Nós sabemos meu amigo o que seja essa sensação. A THING OF BEAUTY IS A JOY FOR EVER. A beleza cura. Os milagres católicos são milagrosos por serem belos. É no ocidente a única religião que compreendeu isso, a sedução curadora da beleza. E então ela, a igreja de Roma, não teve o pudor de se fazer rica em ouro e em imagens sensuais. O paraíso se confunde em Roma com a estética do belo. Deus como um artista.
   Isso é negado pelas religiões protestantes. Que têm sua beleza em atos e palavras, mas nunca em visual. Elas pregam  desde sempre o util e nunca o enfeite. Daí o espirito claro, limpo e direto que guia países como Suécia, Dinamarca ou Holanda. Para eles nós somos muito complicados, sujos, futeis, ricos em imagens, complexos demais, sensuais, barrocos. Basta comparar o cinema nórdico ao cinema da Itália ou da Espanha. Saiba amigo, as revoluções religiosas de 1500/1600 marcaram o caráter dos povos até hoje. E mesmo um páis que se pretende ateu exibe para quem sabe ler, a língua da igreja que o fundou.
   Nenhum país exibe isso com mais força que a Alemanha, nação que vivia a divisão entre a Prússia e seus satélites, luteranos, e a Baviera católica. Munique vivia, com Vienna, também romana, um reino barroco de dolce vita. Quando houve o advento de Bismarck, a Alemanha optou pelo prussianismo, venceu o luteranismo. Vienna entrou na decadência saudosista e Munique é esse corpo estranho no país, um estado quase latino em meio ao espírito higiênico alemão.
   Mas voltemos a falar da beleza. Assisti esses dias a um filme, cheio de defeitos, que mostra aquilo que falo. Feito em Cinerama, ou seja, a imagem é gigantesca, ele conta a saga da fundação dos EUA como são hoje. E vendo-o recordo aquilo que o cinema pode ser. Grande e Belo. Cada imagem chega a ter cinco planos. Vemos duas pessoas falando. Ao fundo carroças passam. No lado esquerdo uma mulher alimenta o gado. A direita crianças brincam. Mais ao fundo vemos uma fogueira onde homens cantam. Ainda mais ao fundo, passam alguns casais conversando. E ao longe, focado, montanhas onde sombras flutuam entre o verde e o céu sem fim. O filme inteiro tem essa riqueza pictórica. Cinema pensado e feito como cinema e nunca como dvd ou TV. Nada da austeridade dos filmes nórdicos ( austeridade que nasceu com Dreyer e Bergman, que mesmo nessa austeridade-fria não deixavam de ser belos ). Aqui tudo é rico, complexo, nossa vista se perde, pensamos: "para onde olho?"
   Eis uma aula de estética, de beleza, aula que deixará com dor de cabeça àqueles que temem o que é bonito. Penso no cinema ainda mais pobre que será feito pela geração que está se habituando a ver a vida pela câmera do celular.
   Por isso Michael Powell. Por isso RAN. Por isso Mizoguchi. Por isso Ophuls. E John Ford claro. E por isso ANNA KARENINA e também por isso penso que gostarei do Gatsby de Luhrman. Cinema grande, cinema vasto, cinema pra apreciar e que oferece o que se olhar. Cinema inspiração. Quando essa beleza se une a bons diálogos temos a obra-prima. Mas na ausência de bons roteiros, ora, me sirvam imagens lindas e me deixem flutuar. Façam cinema.
   Eu e meu amigo falamos depois sobre a oposição entre iluminismos e romantismos. Não, não vou entrar aqui de novo nessa coisa. É um embate no qual a Europa se complica até hoje. Não saber se a alma deve singrar na certeza do justo e do bem-feito, ou se deve se jogar ao original e sem freios. O que posso dizer é que a beleza pode nascer nos dois caminhos, uma beleza que tranquiliza e outra que excita.
   A cura da vida passa pela estética. O resto eu deixo aos cegos e ressentidos.

TAIPI, PARAÍSO DE CANIBAIS- HERMAN MELVILLE

   Melville foi um jovem azarado. Familia empobrecida, ele não conseguia se destacar em nada, muito pelo contrário. Fez então aquilo que todo jovem de então fazia, quando queria ter nova chance na vida, se lançava ao mar, fosse marinha mercante ou militar. Decepcionado com a rotina dura e seu comando cruel, ele foge do navio onde servia. Se embrenha nas ilhas Marquezas durante uma parada e passa a viver por um mês em meio aos canibais. De volta a América, conta sua aventura a familia e amigos. As pessoas gostam tanto que ele a escreve. Tem problemas de censura para publicar, o livro sai em Londres e é um sucesso. Começa a carreira daquele que é para muitos o maior romancista dos EUA.
   O século XIX foi pródigo em livros sobre o mar e suas aventuras. Vindo lá de Defoe, ainda no século anterior, Stevenson, Conrad, London, escrevem século adentro e irrompem até os anos de 1900 com seus relatos. Livros que li desde sempre, livros de piratas, de tempestades e ilhas desertas, de noites sem fim, de provas cruéis. Nos primeiros capítulos desta aventura há todo esse clima de mar e de mistério. Mas são poucos esses capítulos, 3/4 do volume fala da impressionante caminhada através da ilha e depois de seu convívio entre os "selvagens". O herói central e seu companheiro de fuga cruzam montanhas, cachoeiras, rios. Passam fome, se acidentam, chuvas torrenciais. E o medo constante dos canibais.
   Acabam seduzidos pela vida desses homens. A visão de Melville é radicalmente à Rousseau. Os aborígenes são felizes. Melville exalta a beleza das nativas, a nudez, o sexo livre. A preguiça, os objetos que nunca são cobiçados, o nada ter e nada querer. Risonhos e livres, Melville os contrasta não só com os europeus e americanos, como com os nativos do Hawaii, esses já decadentes, sujos, doentes pelo contato com os missionários e colonos. Melville não deixa de sentir a melancolia por saber que aquela vida, bela, é condenada.
   Como nem o paraíso pode ser perfeito, o narrador tem um grande medo em meio a tanto prazer: o canibalismo. Ele nunca presencia atos de canibalismo, mas tem medo de que sua acolhida faça parte de um tipo de preparação, de ritual. Passam-se 4 meses e ele acaba por fugir. Jamais será o mesmo.
   Melville nunca atinge aqui as alturas dificeis de Moby Dick, livro que ele escreveria seis anos mais tarde. Mas é uma delicia ler suas descrições de corpos, festas, familias, chefes e cantos. Melville já valoriza aqui, em 1844, a higiene dos nativos, a beleza da morenice, a inocência que pode haver no sexo livre, a alegria de um mundo sem dinheiro. Ele chega a testemunhar sexo a três, e causa diversão vermos hoje, em 2013, que aquilo que mais o revolta são as centenas de tatuagens tribais. E também o peixe crú.
   Divertido, documental e irado, um belo livro.

007/ KEN LOACH/ PAUL NEWMAN/ REDFORD/ CADILLAC RECORDS/ WISE

   500 MILHAS de James Goldstone com Paul Newman, Joanne Woodward e Richard Thomas
Adoro filmes de automobilismo e adoro Paul Newman, mas este filme, cheio de modernices na edição esperta e na trilha sonora pop, é uma chatura! Muito romance entre o casal central e pouca corrida. Jamais desperta o interesse. Nota 3.
   THE GREAT WALDO PEPPER de George Roy Hill com Robert Redford, Susan Sarandon e Margot Kidder
Logo após os Oscars e os dólares de Golpe de Mestre, Roy Hill e Redford voltam com este delicioso filme sobre um piloto da primeira guerra mundial que vive entre feiras do interior dos EUA se exibindo em troca de dinheiro. Redford, um Brad Pitt mais humano, exibe seu sorriso mais simpático e faz um sonhador que luta para viver como quer. O filme, comédia que acaba por se fazer amargura, é belíssimo. A fotografia é de Robert Surtees, um mestre em campos e céus sem fim. Há uma cena tristíssima com a jovem Sarandon e o fim do filme é corajoso, aberto, sem conclusão. Veja que é uma bela surpresa. Entre 1967/ 1977 Roy Hill e Redford não erraram. Nota 9.
   A BATALHA DO RIO DA PRATA de Michael Powell
Entre os 16 filmes de Powell que tive o prazer de ver, é este o único que não gostei. Fala do bloqueio feito pelos nazistas aos navios mercantes britânicos. O tom é patriótico demais! Nota 4.
   THUNDERBALL de Terence Young com Sean Connery, Claudine Longet e Luciana Paluzzi
Este, que é o quarto filme de Bond, é de todos os estrelados por Connery o menos bom. Por um motivo simples, o vilão é o mais fraco. As Bond Girls são das melhores, Luciana Paluzzi era hiper sexy e Longet fez algum sucesso na época, mas há um excesso de cenas sub-marinas e muito pouco humor. Mesmo assim, comparado aos filmes que viriam depois, é um bom filme. Nota 6.
   RATOS DO DESERTO de Robert Wise com Richard Burton, Robert Newton e James Mason
A história da resistência dos ingleses e australianos aos Afrikan Korps de Rommell. O filme é duro, forte, cruel e muito objetivo. E é muito, muito bom. Wise foi um diretor maravilhoso! Fez de tudo, desde A Noviça Rebelde até Star Trek. Sempre com fibra, sabendo como fazer e onde chegar. Feito em P/B, com o contraste entre areia cinza e céu carregado, explosões e rostos sujos, este é um dos mais bem realizados filmes de guerra que já vi. Nota 8.
   O HOMEM COM A PISTOLA DE OURO de Guy Hamilton com Roger Moore, Christopher Lee e Britt Ekland
Roger Moore tinha um sério problema, ele era frio demais, elegante demais, distante demais. Por isso, ele jamais convenceu 100% como Bond. Um cara como ele não mataria, mandaria matar. Sean Connery parecia um grosseirão assassino que aprendeu a ser fino e culto, por isso ele nos convencia sempre. Moore não, parecia culto e playboy, nunca um matador. Devo dizer que este filme, aquele do anão e da ilha na China, é ridículo. Bond cai na armadilha dos anos 70, se torna carnavalesco e auto-gozador. Britt Ekland, futura senhora Rod Stewart, foi uma suéca muito perigosa que destruiu todos seus ex-maridos ( Peter Sellers foi o primeiro ). Linda. No fim da coisa tem uma luta num quarto entre Bond e o anão ( Mr.Tattoo ), que é o ponto mais baixo de toda a saga James Bond. Nota 2.
   O CÃO DOS BASKERVILLE de Terence Fisher com Peter Cushing, Andre Morell e Christopher Lee
Sherlock Holmes é feito de ótimos diálogos e clima londrino. Isso faz de sua leiura um prazer, mas é uma armadilha para o cinema. Tudo fica falado demais, lento, meio xoxo. De qualquer modo ele melhora no fim. O elenco é ótimo, Cushing e Lee eram a alma da Hammer, da renascença do horror clássico. Nota 4.
   CADILLAC RECORDS de Darnell Martin com Adrien Brody, Jeffrey Wright, Beyoncé, Mos Def
Para aqueles que não gostam de rock ou de blues é uma perda de tempo. O filme fala da história real da gravadora Chess, desde 1941 até seu fim, com a morte de seu fundador Leonard Chess em 1966. O elenco está divino. Brody emociona e Jeffrey está impressionante, ele se torna Muddy Waters. Assim como Mos Def faz um Chuck Berry irresistível. Beyoncé produziu o filme e se deu o papel de Etta James. Ela é ótima, mas há um pouco de Etta James demais. Colorido, com as músicas icônicas que mudaram o mundo, é divertido, mas muito abaixo de seu tema. Nota 5.
   A PARTE DOS ANJOS de Ken Loach
Eu odeio aquilo que Irlanda e Escócia são hoje. Odeio aquilo que a Inglaterra é agora. Por isso me é repugnante ver esse bom filme. Esse sotaque grotesco me dá saudades da Louisiana e do Kentucky. Que jeito de falar é esse? Parece suéco ou islandês, inglês nunca! Que bem a influência latina e negra fez a lingua! Viva o inglês da BBC, com suas inflexões latinas e o inglês americano, com seu caldeirão étnico. Mas esse inglês celta, saxão, sem nada de normando, dos rincões da ilha, esse não! Dito isso...Bravo Loach! Ele é um tipo de intelectual europeu que está a desaparecer. Esquerda que crê no homem, que tem amor ao povão. Arte que mostra o mal e que aponta saídas. Ken Loach ama gente, ama o povo pobre e sem voz. Ao contrário dos artistas mais jovens, que mostram esse povo como coisa acabada e sem chance de mudança, Loach acredita em evolução, em mudança, em vitória. O filme é bem bacana ( apesar de minha aversão ). E real, bem real. Nota 6.

The Rolling Stones Play Little Red Rooster 1964



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Howlin wolf - How Many More Years [Shindig Special (Live TV May 1965)] .wmv



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CADILLAC RECORDS

   Já escrevi isso um dia e volto a repetir: A coisa mais importante do século XX não foi o comunismo, a chegada a Lua, Bill Gates, a TV ou o esporte. Se um cara do século XIX chegasse a SP, Paris ou New York agora o que mais o deixaria pasmo seria a "negritude" do mundo. Falo negritude porque não falo só do fato de muitos negros andarem livres pelas ruas. O que mais o impressionaria é que a música é negra, o design é africano e principalmente, falamos, caminhamos, nos vestimos e gesticulamos como negros. Este filme, que NÂO é um bom filme, vai te ajudar a entender isso.
   Eu adoro Fred Astaire. Amo Cary Grant e John Wayne. Mas ninguém no mundo de hoje anda, fala e vive no mundo de Astaire, Cary e Wayne. O mundo desses ícones é o de 1941 por exemplo. E este filme começa em 1941. E começa numa plantation no Mississipi e Muddy Waters está lá. E aquele negro caipira, com seu violão é um homem de hoje. Coisa que Astaire não é.
   A história da Chess Records é conhecida por qualquer um que saiba o que seja Rock. Leo Chess, judeu polonês, pobre, pega Muddy e o grava. O resto é lenda. Muddy lança a base do som rock e Little Walter a atitude auto-destrutiva do rock star. Eles falam como Keith Richards e tocam como Jimi Page ou Jack White. Ganham alguma grana e bebem demais.
   O filme foi produzido por Beyoncé. E ela exagera um pouco em seu papel de Etta James. Tem Etta demais e Chuck de menos. Mos Def faz Chuck Berry. O cara que uniu Muddy ao country e inventou assim Elvis e os Beatles. Mos Def faz Chuck melhor que o próprio Berry.
   A melhor cena do filme é aquela em que Chess descobre um cara chamado Howlin Wolf. Cedric the Entertainer faz Wolf. O cara mais honesto-simples-forte e durão do blues. Suas cenas são do balacobaco e ele merece um filme só pra ele.
   Eles, diretora, produtora, atores, amam o blues. A gente percebe isso no filme. Mas tentaram contar coisas demais. Até a chegada dos Stones na Chess para gravar umas faixas em 1964 eles botaram ( e a cena é ótima ). " Esses branquelos magricelos são espertos".
   Ao ler a bio de Keith a gente percebe que ele passou toda a vida imitando Muddy, Chuck e Wolf. Ser chamado de black seria o maior elogio possível para Keith. E ele é, ele chegou lá. O povo que não gosta de Keith é o mesmo que não escuta black music. Ele é preto. E esse processo todos nós vivemos, em maior ou menor grau. Somos apaixonados pelo som, pela ginga, pelo improviso, pelo espírito voodoo.
   Veja o filme e entenda do que falo.
    PS: Quando Howlin Wolf morreu em 1976 ele estava tão falido que não havia dinheiro para seu enterro. Eric Clapton pagou o funeral e a lápide. Nada mais justo. Wolf é o homem que o fez nascer.

O MAIS ATUAL CINEASTA DE 2013 ( INFELIZMENTE )

   A revista Bravo! fala o óbvio: todo diretor de "arte" de 2013 tem paixão por Godard. Pffff...temos um cinema todo auto-consciente, frio, distanciado, godardiano. Câmera na mão, cenários naturalistas, atores desglamurizados, tempo pego na sua fruição, o Agora e o Aqui. Até mesmo o estilo fotográfico é aquele de Raoul Coutard, o câmera de Jean-Luc. Uma pena....Eu gosto de Godard por ele ter sido o primeiro a fazer o cinema de Godard. Mas essa obsessão de 2013 me cansou a muito tempo. Eu preferia que a influência fosse de Max Ophuls ou de René Clair, para citar só os europeus. Mais beleza e menos crueza.
   Casablanca foi eleito o melhor roteiro do cinema. Antes que as crianças reclamem de não ser Homem de Ferro ou Cisne Negro, eu lembro: Existe filme com mais falas citadas em outros filmes? Quando voce vê ou revê Casablanca fica surpreso, cada linha de diálogo é conhecida de "algum lugar". Mais que isso, o roteiro criou o ambiente clássico de "covil de traidores", uma galeria de tipos inesquecíveis e um final trágico-irônico que ainda mantém seu frescor. Eu penso que Bogart-Rick Blaine na verdade nunca amou Ingrid Bergman. É o roteiro dos roteiros. E um bom roteiro my dear, é acima de tudo um compêndio de cenas que não se esquece e de falas que serão citadas.
   Um amigo pede que eu indique um bom filme em cartaz para ele ir ver. Vixi! Deus me livre! Melhor guardar a grana e esperar pelo novo Alexander Payne ou Joel Coen.
  
  
  

SUMARÉ, SÊNECA E VOLTAIRE

   Do meu bairro eu podia ver os altos do Sumaré. A antena da Tupi ( ou seria da Cultura? ) que mandava para minha casa a misteriosa imagem da TV. Eu achava que dentro do aparelho moravam pequenos homens, e que nas válvulas se condensava o cenário. Era maravilhoso ver o técnico arrumar a televisão.
   Às vezes eu ia ao Sumaré. Velhinhas cruzavam a rua. Nas janelas de suas casas, velhinhas olhavam a rua. E fazia sempre frio. Vento. Garoa. A gente ia na igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde fui batizado. Sim, fui batizado e ainda acho, institivamente, um absurdo uma criança civilizada não ser batizada. Batismo é entrar na civilidade. Na Minha civilização.
   O bairro continua a ser um conjunto de ladeiras. E a ter suas pequenas velhinhas cruzando a rua. O ar tem muito de folhas verdes e de sombra. E há um silêncio que traz calma e também memória. Ao contrário do Morumbi que morreu ou do Itaim que se travestiu, o Sumaré continua vivo. Vento no alto do morro e a vista da cidade longe.
   Andando sinto a mão de minha mãe pegar a minha enquanto atravesso a rua. E a de meu pai me dando saudade. Eu briguei muito com ele. Eu briguei muito com todos aqueles que amei. Ainda brigarei mais. Fotografo as velhas casas. Eu ligo pra elas. Elas estão aqui pra vida.
   Sêneca disse que a vida não tem valor. Que a vida é um caminho sem valor em si. Que ao viver criamos seu valor, bom ou ruim. E que a vida só vale se for plena. Ela dura aquilo que vivemos. Viver não é uma benção e não é uma maldição. Depende. Certos bairros são vivos por terem duração. São diferentes e históricos. Existem como testemunhos. Para mim.
   Sêneca é um dos mais claros espíritos que o mundo viu. E eu continuo a andar. Uma feira. O cheiro dos legumes e das frutas. Cachorros me cheiram. Eles sempre sabem que sou um deles. Uma escola. Vozes de adolescentes. Eu sei que ainda serei sempre um deles. Como eles me percebem?
   A sombra some e eu sinto uma nova verdade. Sumaré ainda está aqui. Bom de andar. bom de tomar café e bom de olhar. Detalhes em detalhes: uma rachadura, uma flor, um enfeite no jardim. Casas com jardim. Um absurdo uma casa sem jardim. Casa sem jardim não é casa. Civilidade necessita de jardim. Como falava Voltaire, cultivemos nosso jardim.
   Estou cansado do romantismo. Chega de originalidades! Chega de novidades! Quero o bem feito, o hábil, o saber fazer. O prazer daquilo que é bonito. Chega de romantismos!
   Clássico Sumaré. Sem grandes emoções. Correto.
   Uma velhinha cruza a rua.

SOPHIA LOREN/ BILL MURRAY/ DASSIN/ BORZAGE/ ZINNEMANN/ HENRY KING

   UM FIM DE SEMANA NO HYDE PARK de Roger Michell com Bill Murray, Laura Linney, Samuel West e Olivia Colman
Que filme esquisito!!! Fala de um final de semana em que o rei da Inglaterra vem aos EUA com a rainha a fim de visitar o presidente Roosevelt. O rei deseja convencer os EUA a entrar na guerra. Adendo histórico: até então a politica americana era toda isolacionista. O país pouco ligava para a Europa. É aqui que o mundo muda e a América passa a se envolver com o planeta. O encontro é cômico. Roosevelt os recebe na casa de sua mãe, no campo. A realeza é abrigada em quarto comum e vão a pic nic. Esperteza de Roosevelt, assim a opinião pública americana, que odiava reis e Europeus, passa a ver o rei como "gente". O filme é esquisito por ser um  misto de drama e comédia, poesia e arte. É bonito de ver e tem ótimas atuações. Murray tem aqui seu melhor papel. Faz um presidente humano, simpático e mulherengo. Ele mantém um harém ao seu redor. O ator Samuel West faz o mesmo rei que Firth fez no ótimo Discurso do Rei. West está excelente. Hesitante, assustado, reprimido. Uma das amantes de Roosevelt morreu aos 100 anos e foi só então que encontraram esta história com ela. O filme é contado por seu ponto de vista. Aviso que ele começa meio chato e de repente te pega. Nota 6.
   O ÍDOLO DE CRISTAL de Henry King com Gregory Peck e Deborah Kerr
Uma chatice sobre Scott Fitzgerald e sua namorada Sheila Graham. Peck, que não está mal, bebe e bebe e bebe. Kerr é a amante que tenta o salvar. O filme é flácido, embolado, tolo. Nota 1.
   O CASTELO SINISTRO de George Marshall com Bob Hope e Paulette Goddard
Sátira aos filmes de horror. Tem um belo clima e é agradável. O humor de Hope envelheceu mal, o filme é alegre mas não nos faz rir. Dá pra ver. Nota 5.
   UMA AVENTURA EM PARIS de Jules Dassin com Joan Crawford, John Wayne e Philip Dorn
Assisti a caixa com seis filmes sobre a segunda-guerra. Dois deles são tão ruins que não consegui ver. Portanto não falo deles aqui. Este é bom. Mostra a Paris ocupada. Wayne é um piloto que tenta sair da cidade. Crawford ama um 'traidor". Dassin se tornaria depois um diretor maravilhoso. Aqui ele entrega um filme que se deixa ver. Há um belo suspense ao final. Nota 6.
   TEMPESTADES D'ALMA de Frank Borzage com James Stewart e Margaret Sullavan
Este é quase uma obra-prima. Na Alemanha, no começo do nazismo, vemos uma familia ser destruída. Filhos se tornam nazistas, crêem em Hitler e passam a perseguir amigos e vizinhos. Há um pai que é expulso da faculdade onde dava aula e acaba morto em campo de concentração. Stewart, sempre ótimo, é um vizinho que foge do país. Ele volta para salvar sua namorada. O final é bem triste. É um lindo filme. Borzage foi um dos grandes diretores do começo do cinema falado e do fim do silencioso. Nota 8.
   HORAS DE TORMENTA de Herman Shumlin com Bette Davis e Paul Lukas
Roteiro de Dashiell Hammet baseado em peça de Lillian Hellman. Paul Lukas ganhou um absurdo Oscar de melhor ator, batendo Bogey em Casablanca. O filme se passa na América e fala de refugiados. Lukas é um guerrilheiro anti-fascismo que é chantageado por canalha. O filme tem cena forte em que o canalha é morto a sangue-frio. Mas está longe de ser um grande filme. Nota 5.
   A SÉTIMA CRUZ de Fred Zinnemann com Spencer Tracy
Zinnemann sabia do que falava. Ele acabara de fugir do nazismo quando fez este filme. O futuro de Fred seria brilahnte: Julia, Um Passo Para a Eternidade, Matar ou Morrer... Tracy foge de campo de concentração com companheiros e tenta sobreviver. Todos são pegos e executados, ele não. Um achado do filme é mostrar sua reumanização. Algumas pessoas lhe ajudam e ele vai recuperando a fé nos homens. É um belo filme. Nota 6.
   A CIDADE DOS DESILUDIDOS de Vincente Minelli com Kirk Douglas, Edward G.Robinson, Cyd Charisse e Dahlia Lavi
Kirk é um ex-astro que está em clínica psiquiátrica. Tem alta e volta a ativa, Vai a Roma fazer filme com diretor americano decadente. O filme é tétrico. Todos são fracassados, destrutivos, amargos e vazios. Minelli via que seu tempo passara e faz um tipo de auto-retrato cruel. Estranho porque ele sempre foi um diretor amado pelo sistema que ele cospe em cima. Nota 3.
   JOÃO E MARIA CAÇADORES DE VAMPIROS de Tommy Wirkola com Jeremy Renner
Já esqueci deste filme. É um samba do crioulo doido. Se passa na idade média mas tem metralhadoras e roupas à Matrix. Eles NÂO caçam vampiros, são bruxas! Nota 2.
   SUAVE É A NOITE de Henry King com Jennifer Jones, Jason Robards e Joan Fontaine
Henry King novamente no mundo de Fitzgerald. É o último trabalho deste grande diretor. Robards faz o Dr. Diver que se destrói ao salvar Nicole da loucura. O filme se passa entre os muito ricos, hedonistas, futeis. A tragédia de Diver é lutar contra esse mundo, não aceitar o dinherio de sua esposa muito rica. O filme passa longe do romantismo de Scott, mas tem alguns momentos belos, fortes. Bons atores. Nota 7.
   PENA QUE SEJA UMA CANALHA de Alessandro Blasetti com Sophia Loren, Marcello Mastroianni e Vittorio de Sica
Marcello é um taxista. Sophia uma ladra e Vittorio o pai que rouba malas na estação de trens. Apesar de ser sempre feito de trouxa por Sophia, Marcello não consegue a odiar e cai irremediávelmente em suas artimanhas, sempre. O filme é alegre, leve, bom de ver. Atinge magnificência no trabalho dos atores. Sophia, muito jovem, está linda e atua de modo tão fácil, tão prazeroso que faz com que sua arte pareça a coisa mais simples do mundo. O esforço é o que diferencia o talento do gênio. O talento demonstra esforço, o gênio faz o grande com facilidade, como a brincar. Sophia é genial. Assim como Marcello. Que estupendo bobo é esse taxista! Ele passa todo o filme resmungando contra Sophia, tentando se livrar dela, mas sempre volta, vencido, ingenuo, absurdo. Amamos Mastroianni. E há De Sica, o malandro veterano, playboy, fino e mentiroso. O filme mostra uma Itália onde todos são ladrões e todos são feitos de bobos por uma bela mulher. Verdade? Nota 7.

GOETHE, SUA CONCLUSÃO

   Goethe viveu muito. E se hoje ele está fora de moda é porque nós estamos longe e muito longe de seu mundo grande. Ele foi o último a naturalmente unir arte e ciência, mito e razão, romance e filosofia. Se interessou por tudo, foi clássico e foi romântico. Do teatro a botãnica, da física a magia, de poesia a história. E acima de tudo, si-mesmo. Um egoísta que usou amores e amigos em função de sua arte.
   E no fim da vida, aos 83 anos, eis a brilhante conclusão de Goethe...
   O Mundo é a ação permanente do Deus-natureza.
   De dissolver em espírito a matéria
   E conservar para sempre, como se fosse matéria
   Os produtos do espírito.
  
   Todos somos carne, mas nem todos produzem espírito.