FOLHA, 1995, AGOSTO E SETEMBRO

Está havendo uma limpeza na biblioteca da escola. Em meio a revistas rasgadas e muito pó encontro três exemplares da Folha de São Paulo. São de 1995,  agosto e setembro.  O que será que Paulo Francis disse nesse dia? Os textos seriam tão maiores quanto eu me lembro? Ou será que minha mente os esticou?
Especial de Domingo, dia 10. Um bando de intelectuais escreve sobre aquilo "Que não sabemos". Quanto texto!!! Letras miúdas, a página era mais larga. Cada folha de jornal tem o conteúdo de duas páginas de livro, em média. Nesse especial temos um antropólogo falando sobre o que Não Sabemos sobre a origem do homem ( muuuuuita coisa, na verdade tudo o que sabemos são hipóteses ), um virologista fala o que Não Sabemos sobre um virus e ainda temos um astrofisico, um médico, geofisico, literato, linguista e um imenso etc. Um biólogo que fala sobre a reprodução, Jacques Testard, é o que mais me surpreende. Ele confessa nada saber sobre a reprodução, não entende o porque de todo o processo. Ele ocorre, mas não sabe o que o faz acontecer. São seis vastas páginas.
Colunistas da Folha de Domingo: Verissimo e João Ubaldo Ribeiro. Que luxo!
No cinema passava Apollo 13, Coração Valente, Sábado, Rápida e Mortal. Dom Juan de Marco, A Morte e a Donzela, O Padre, Pocahontas. Maré Vermelha.
O Madredeus ia tocar de graça no Ibirapuera.
Uma crônica de Antonio Bivar sobre o Rio.
Matéria sobre um novo Kundera.
E uma imensa página de Paulo Francis. Falando sobre a cinemateca de New York, um novo livro sobre Kennedy, drogas, pena de morte, a China, ópera ( Puccini ), Truman Capote, Laurence Olivier. Caramba! Como era/é bom ler tudo isso! É como conversar com aquele tio culto-engraçado-viajado que todo mundo deveria ter e ninguém tem. Ele escrevia como esse tio falaria. Esse tio à mesa, já meio alto, discorrendo comentários sobre qualquer coisa que lhe viesse á mente.
Abro outro jornal. Agosto de 1995. Os 50 anos do final da guerra.
É um caderno especial. Uma edição que TODO MUNDO deveria ler. Abre com Francis falando sobre Winston Churchill. Ele fala com emoção. Voce percebe que ali Francis não escreve só com cérebro e bilis. Ele reverencia Churchill. Diz que ele venceu a guerra sózinho. E ainda mereceu o Nobel de literatura que ganhou. Suas memórias são uma das obras-primas do século.
Ao longo do caderno textos soberbos. O front russo, a guerra do Pacífico, Berlim em 1945.
Minha memória não mentiu. A Folha foi grande, foi cheia de coisas para se ler, preenchia uma manhã.
Saio de casa e vou comprar um livro escrito por Churchill. Acho num sebo as memórias de infância. Tradução de Carlos Lacerda. Capa de couro, edição original de 1961. Tá comprado.
Quase vinte anos depois, Francis ainda me educa.

A LINGUAGEM DE SHAKESPEARE- FRANK KERMODE

   Com tradução de Barbara Heliodora, Kermode se propõe a dissecar as peças de William Shakespeare utilizando para isso a análise da palavra, da escrita do dramaturgo. Nada aqui vem de fora do texto. O livro se torna então muito interessante para quem estuda ou se interessa por linguística e filologia.
   Frank Kermode é um critico e professor inglês. Um desses intelectuais à moda antiga, mestre em Cambridge. Não idolatra Shakespeare. Aponta quais suas peças problemáticas, trechos enfadonhos; e também nos diz quais as peças escritas em colaboração. Mas Kermode não é um ressentido, ele sabe conhecer o valor da obra. Para ele Hamlet é o primeiro herói moderno da história. Assim como Lear é a obra mais trágica de nossa tradição.
   Kermode faz a contagem de palavras. Cada peça tem uma ênfase em dadas imagens e sons. Desse modo, ele nos diz quantas vezes a palavra olho/olhar é usada em Lear, ou as palavras gêmeas que abundam em Hamlet. Detalhista, aplicado, sério e jamais deslumbrado, Frank Kermode avança em seu texto, iluminando as fontes de cada peça, as edições usadas, os erros de impressão possíveis. Prova o fato de que Shakespeare cria forma e conteúdo ao mesmo tempo, usa a linguagem em função de seu tema e o tema nasce da linguagem, da arte da escrita. Cuidadoso, incansável, obstinado, perfeccionista, Shakespeare amava a escrita e derramava em seu trabalho a luz de suas criações. Mais que inventor de enredos ou de personagens, ele foi um mago do texto, do estilo.
   Editado pela Record em 2006, recomendo-o para aqueles que se cansaram dos exageros de elogios de Harold Bloom, mas que ao mesmo tempo sabem que Shakespeare é o maior enigma, maravilhoso e delicioso enigma, da história das letras.

TV E TEMPO

   Escrevi ontem sobre os melhores da tv da Inglaterra e me perguntam sobre o programa de Tracey Ullman. Bem, ele ficou em décimo quarto. O Top of Pops também tá na lista.
   Apesar de Seinfeld, Frazier, Mary Tyler Moore e Columbo, a coisa mais legal que já vi na tv americana é o Saturday Night Live. Entre 1975 e 1980 foi a coisa mais influente de lá. Tinha John Belushi, Bill Murray, Dan Akroyd, Chevy Chase, Steve Martin; todos jovens e no auge da ousadia e ainda trouxe shows de Patti Smith, Talking Heads, Bryan Ferry, Bowie, Elvis Costello, Blondie, The Cars, Bruce, isso só nessa fase e só os que eu vi.
   Quando escrevi sobre o Brasil falei em novelas e Vila Sésamo. Esqueci que a novela mais importante foi Beto Rockfeller. E a Jovem Guarda. Mas penso que a vitória iria para o Festival da Record de 1967. Mesmo que voce deteste MPB, esse festival seria o mesmo que nos EUA, em 67, acontecer um programa de tv onde os desconhecidos Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Neil Young e Lou Reed disputassem um prêmio. Nada teve mais ressonância na história da tv do Brasil que um show onde se revelou Caetano, Gil, Mutantes, Tom Zé e Vandré. Não gosto de todos eles, mas caramba, foi um desses momentos que nunca vão se repetir.
   Fato interessante: O que há hoje na tv ou na música pop "Que nunca vai se repetir"? Sopranos e Lost? Mas eles não são feitos já com a intenção da eterna repetição em dvd, blu-ray e o que vier? Walter Benjamim teria muito a dizer sobre um tipo de "arte" que é feita, pensada até, já tendo a ideia de reprodução infinita.
   Falta-nos o "Quem viu, viu, quem não viu, Nunca Mais".
   Sim, voce pode rever o Festival da Record ao infinito. Assim como Woodstock ou o doc de Ken Loach. Mas eles não foram pensados e produzidos com essa ideia. Foram feitos como um Evento Único. Uma coisa irrepetível. Alguém por acaso gravou e guardou as fitas, e mesmo em Woodstock voce não percebe nunca alguém dando show "para as câmeras". A coisa rola e fim. Acabou-se.
   O mesmo vale para o cinema antes do vhs.
   Pensar um show ou um programa como coisa que será revista eternamente, ou pior, coisa que virá cheia de bônus e bastidores, faz com que tudo de arriscado se perca. Voce não vai querer preservar um erro. Então, nada de riscos.
   Peter Falk jamais imaginou que Columbo fosse visto em 2012.

AVENTURAS DE TOM SAWYER- MARK TWAIN

   Todo menino deveria ler Tom Sawyer. Se A Ilha do Tesouro foi o primeiro livro que li, Tom foi meu primeiro herói. Eu o li com pressa, com prazer, querendo que nunca acabasse e tolamente correndo para ver logo o que acontecia. E acontece um monte de coisas.
   Menino do sul dos EUA, beira de rios, mundo de 1860, ele vive livre. Mente, engana, é malandro. Tem familia, vai à escola. Brinca e se apaixona por Becky. Seu grande amigo é Huckleberry Finn, um sem-teto, e tem também Syd, seu irmão menor, um almofadinha. É um mundo de bichos, de crenças em assombrações, em bruxas. Há calor, perigo, espaço, cemitérios e festas.
   Tom foge para ilha para ser pirata. Procura tesouro. Se perde em gruta. Briga na rua e faz guerra com bandos rivais. Tom engana o professor, engana a tia e vê seu próprio enterro. E tudo nele tem a marca da alegria.
   Esse sul americano, sul de escravos e de grandes fazendas, esse sul de malandros, lembra o Brasil. Mas ao contrário de nossos Macunaímas, Tom e Huck têm escola, têm igreja, têm sempre alguma esperança. A cada trapaça eles me recordam os pequenos brasileiros gazeteiros, mas ao contrário de nós, a cada erro vem uma reflexão. Tom nunca se arrepende, ele nunca sofre, mas sabe que erra e sabe que um dia deverá crescer. Há consciência em Tom. Há uma história. A tragédia nossa é a de que nossos Toms não têm consciência, não por serem piores, mas por não terem uma chance.
   Tom Sawyer me veio na hora certa. Vivendo num quase Mississipi, eu pegava meu irmão e partia para a "ilha". Escavamos a terra na esperança de achar um tesouro. Fizemos cabanas e tememos bruxarias. O livro dava uma vontade doida de ir à rua, de se perder no mato. Cada enxadada era a aventura de uma pedra, uma serpente ou uma lata velha. Era bom.
   Mark Twain foi o escritor favorito de Heminguay. Ele escrevia simples e foi o primeiro autor americano a se tornar uma estrela. Ele corria a América de 1900 dando conferências. Tudo o que ele falava era noticia. Há um grande amargor em seu humor. Ele via demais e ironizava. Hoje, em nosso tempo míope, Twain é censurado nas escolas americanas por chamar negros de pretos ( niggers ). Twain pinta um mundo vivo, cheio de erros e de tentativas. As páginas saltam, pulam, sorriem.
  Viva Tom Sawyer!

OS MELHORES MOMENTOS DA HISTÓRIA DA TV INGLESA. ELEIÇÃO DO BRITISH INSTITUTE.

   O site do British Institute publicou uma relação com os 200 melhores momentos da história da tv inglesa. Valem séries, filmes para tv, programas musicais, de entrevistas, femininos, noticiários e infantis. Nos EUA, na última eleição que vi, venceu ALL IN THE FAMILY, a série politicamente incorreta em que Carroll O'Connor faz um pai de familia direitista em plena era da contracultura. Na Inglaterra deu FAWLTY TOWERS em primeiro lugar. Essa série de humor passou no Multishow em 1998, e vi cerca de cinco episódios. John Cleese, recém saído do Monty Python, estrela e idealiza a série. Fala de um hotel modesto e seus problemas, Foi ao ar em 1975 e voltou em 1979. Foram apenas vinte episódios ( apesar do sucesso, Cleese não queria esgotar a fórmula ). Ela é hiper-inglesa e fez muita gente entender o que é o tal humor britânico. Eles, os ingleses, amam os Python ( como vimos no fim das olimpíadas ).
   O segundo lugar pertence a CATHY COME HOME, filme feito para a tv. É a primeira direção de Ken Loach e teve em 1966 uma audiência de 12 milhões, ou seja, um quarto da população inglesa da época. Fala do problema dos sem-teto. Acompanhamos a saga dessa garota sem lugar, tudo no estilo documental de Loach. Postei o filme inteiro abaixo. O final é de morrer de tão belo e triste.
   Em terceiro, DOCTOR WHO, a série eterna. Seu melhor momento vai de 1963 até 1989. Não postei nada sobre esta série porque todos a conhecem.
   Em quarto aquele que é considerado o melhor desempenho da história da tv em qualquer país; John Hurt fazendo a vida de Quentin Crisp em THE NAKED CIVIL SERVANT, levado ao ar em 1975. Crisp foi o maior militante gay da história inglesa.
   Em quinto aquele que eu pensei que seria o number one: THE MONTY PYTHON FLYING CIRCUS...genialidade pura na tv. A completa renovação do humor.
   BRIDESHEAD ficou em décimo lugar. Excelente!
   Penso...e no Brasil? O que foi feito por aqui que mereceria o primeiro lugar? Alguma novela? ROQUE SANTEIRO? GABRIELA?  A melhor novela que vi foi SARAMANDAIA, um exercicio surreal de Dias Gomes, onde gente explodia, virava vampiro e vomitava formigas. Mas há ainda VILA SÉSAMO, que mereceria o primeiro lugar. Ou TV PIRATA. Quem sabe?

The Naked Civil Servant (1975) 1/8



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Cathy Come Home (1966) - Ken Loach



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(1/2) Fawlty Towers - A Touch of Class (S01 E01)



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JAMES BOND/ CRONENBERG/ PAUL LENI/ PERSON/ STANLEY KRAMER

   OO7 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE de Peter Hunt com George Lazenby, Diana Rigg e Telly Savallas
Aquele que é considerado o pior James Bond, Lazenby, ( teve a missão de fazer o público esquecer Connery...), num filme que é bastante divertido. Rigg, que era uma diva da BBC, é a melhor das Bond Girls, não por ser a mais bonita, mas por ser a mais esperta. O filme tem cenas de ação estupendas. Savallas, que eu adoro, aparece pouco. Um belo James Bond! Nota 7
   A ILHA DO TESOURO de Steve Barron
Recente adaptação da obra de Stevenson. Carrega no horror, não tem nenhuma magia. Nota 1.
   COSMÓPOLIS de David Cornenberg com Robert Pattison
Um vampiro anda de carro pelas ruas de NY e desata a falar tolices óbvias. Ou, dentro de uma geladeira, um representante do impessoal fluxo de capital discorre sobre o mundo sem tempo e sem "sentido". Argh.
   DEU A LOUCA NO MUNDO de Stanley Kramer com Spencer Tracy, Mickey Rooney e imenso etc
Sucesso nos anos 60, visto hoje ele decepciona, e muito. Trata de uma busca ao tesouro nos EUA de agora. Os vários participantes fazem de tudo para chegar ao dinheiro primeiro. Talvez em 1963 causasse surpresa a amoralidade dos personagens, hoje soa banal. No elenco, imenso, estão todos os grandes humoristas americanos clássicos, de Jimmy Durante à Milton Berle. Pena que os 3 Patetas apareçam por apenas 2 segundos! Buster Keaton faz uma figuração ( !!!!!! ) e Joe E. Brown tem só uma fala.... Nota 4
   O GABINETE DAS FIGURAS DE CERA de Paul Leni com Emil Jannings e Conrad Veidt
Clássico alemão expressionista. Cenários tortos criam sensação de pesadelo, luzes cheias de sombras, artificialidade total. Conta 3 histórias sobre 3 tiranos. Leni foi um dos grandes da Alemanha pré-nazista, por azar, nosso, morreu muito cedo. Nota 6
   O HOMEM QUE RI de Paul Leni com Conrad Veidt
Uma obra-prima do cinema mudo. Leni filma na Universal esta rica produção americana baseada em Victor Hugo. Uma criança é raptada e tem o rosto deformado. Ficará para sempre com um sorriso rasgado na face. Vira um palhaço-freak. Bob Kane se inspirou neste filme para seu Coringa. Veidt, usando prótese bucal, cria um personagem inesquecível. Triste ao limite e com o sorriso terrível estampado no rosto. O filme é cheio de cenários imensos, ação e melodrama. Leni faria apenas mais um filme e morreria em seguida. Um grande talento perdido. A fotografia é deslumbrante. Nota DEZ.
   OS MERCENÁRIOS 2 de Simon West com Stallone, Statham, Li, Willis, Van Damme
Gosto de filmes como este. Prometem pouco e entregam aquilo que prometem, são honestos. Tiros? Temos. Ação? Boa quando feita por Statham. Humor? Sim, eles brincam com a idade. E há uma hilária e "mitica" aparição de Chuck Norris. Um defeito: é muito curto! Só 82 minutos! Nota 6
   SÃO PAULO S.A. de Luiz Sergio Person com Walmor Chagas e Eva Wilma
Belas cenas da cidade em 1965. Fora isso, e apesar de sua fama, é um drama sobre a desumanização da cidade grande. Dinheiro, sexo e poder. Impressiona o momento de crescimento do Brasil de então. Mas o filme tem "Antonioni" demais e se arrasta. Eva era uma mulher linda! Nota 4

BRIAN PETER GEORGE ST.JOHN LE BAPTISTE DE LA SALLE ENO, SIM, ESSE É REALMENTE SEU NOME DE BATISMO....

   Quando os músicos da New Wave, em 1978, começaram a fazer montes de videos ( Eat to The Beat, do Blondie é o primeiro lp a ter todas as faixas transformadas em video-clip ), era na fonte das pesquisas de Eno que eles se inspiravam. Há um video que postei- King Leap Hat- que exemplifica aquilo que os wavers procuravam fazer. O video mostra o que entendo por video-clip. É soberbo, instigante e divertido.
   Se o rock pode ter um dia um gênio que represente a corrente hiper-bem-informada da arte, esse cara é Eno.Se Dylan é um gênio ele o foi como poeta puro, se Bowie foi um gênio ele foi um tipo de ator distanciado, mas se Eno foi um gênio ele foi um tipo de Cocteau/Picasso, o aglutinador, o fermento.
   E sempre sob controle, sempre elegante.
   Nada do que postei é de sua fase mais radical. Todas são canções em formato pop. Mas já com a ambientação fria, distante, sem emoção definida e profundamente visual de Eno. Ele antecipa tudo aquilo que valeu/vale a pena desde 1977 até agora.
   Se os anjos tivessem me concedido o dom da música, eu teria sido Brian Eno.
   Bato palmas então.

Brian Eno - Kings Lead Hat - 1977- Written & Produced by Brian Eno



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Roxy Music - Editions Of You VIVA!!! ENO!!!!!



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O SOM DO FUTURO NÃO FALA COM VOCE. ELE VIVE A SEU LADO.

   Brian Eno sempre foi voltado apenas para diante de si-mesmo. Ficou SÓ dois anos no Roxy Music porque achou que no segundo disco a banda já se repetia ( errou ). Ele está no Rio. Vai fazer uma obra visual-musical nos Arcos da Lapa. Vai durar todo o fim de semana. Vale muito a pena. Mais que isso, é obrigatório. Eno criou ( com o Kraftwerk ), tudo o que há na música pop atual que não tem compromisso com os anos 60/70. Explico.
   Em 1977 ele criou o conceito de música ambiente. Convalescendo no hospital, ele percebeu que a música que tocava no rádio valia muito quando se integrava ao ambiente, quando se tornava um tipo de objeto não-expressivo. O rock era expressivo demais, um monte de emoções desordenadas e sem razão, Brian Eno queria o contrário disso. O que ele desejava era apagar do pop e do rock tudo que remetesse a tradição do século XIX, a Beethoven, a música como lingua do sentimento. Ele queria música que nada expressasse, neutra, ausente, uma imagem na parede, parte do ambiente. Ela deveria interagir com o transito lá fora, absorver as vozes dos ouvintes, tomar para si os sons do mundo. Os ruídos, muitos, da cidade do Rio serão parte da música.
   Em Berlin, 1977, enquanto os punks vomitavam os bofes de tanta expressão, ele e Bowie se aplicavam em ser gelados, em fazer canção que nada tivesse de emocional, que fosse puro som e imagem. Depois ele tentou isso com Talking Heads, Ultravox e Devo; e até com o U2, a mais histérica das bandas, Eno conseguiu dar uma podada.
   Na entrevista que leio ele fala que estudou pintura na adolescência. Nunca música. Que som é imagem, é paisagem. Que desde sempre ele viu tudo como um clip, mas clip sem histórinha, sem conceito. Imagem pura. Fascinado pelo progresso, Eno pensa que mesmo baixar som na Internet é uma forma velha de pensar o som. Ele desenvolve um programa que jamais repete a mesma música. No futuro uma música será mutável aleatóriamente. Voce jamais a escutará duas vezes da mesma forma. Ao ser executada ela se auto-reformulará.
   Roxy Music de novo? São amigos, mas bandas com mais de cinco anos são patéticas.
   Interessante...desde mais ou menos 1995, as poucas bandas novas que me interessam são aquelas que de certa forma seguiram o modo Eno de pensar. Bandas não-emocionais, que fazem sons calcados em timbre, em ambientação, que criam massas de sons visuais. Toda banda que tenta, de novo!, expressar amor, ódio, desespero, tédio, alegria rocknroll, só pode ser ouvida como nostalgia. Voce vê caras de 20 anos fazendo aquilo que seus avôs de 70 fizeram até o limite.
   Em 1978 Eno já notara que após Dylan, Motown, Led, Iggy, MC5 e vasto etc, a linguagem da guitarra/bateria mais cantor emocionado chegar ao ponto mais alto. Depois só poderia vir a incessante repetição. A não ser que se seguisse uma trilha oposta a tudo o que eles faziam. Foi o que Brian Eno fez.
   Não foi pouca coisa. E ele continua nessa estrada. Não é um músico, como ele mesmo diz, eis um pintor de sons.

calligaris, mundo hoje e UMA BANDA DE ROCK

   Palestra na USP. Não falarei o nome, mas o cara sabe falar, o que já é um alivio. Voz alta e clara, raciocinio direto. Em dada hora ele fala de Cotardo Calligaris. Cita-o como exemplo da decadência do leitor de hoje. Se antes o jornal exibia Sabino, Lispector e Nelson, hoje seus cronistas são simples conselheiros sentimentais. Pastores leigos que dirigem as dores de leitores infantis. " Veja o que vejo, leia o que leio, pense como penso." Tudo com o brilhareco classe-média de frases como: "Estava eu em Nova Iorque", "Quando estive em Berlim"....
   Muito pior que seus pensamentos, à Revista Nova ou Programa da Hebe, é a paupérrima forma de escrever. As frases surgem aos trancos, quebradas, sem brilho, nada originais. Pensamentos rasos em frases áridas, é o pior dos mundos. O menos ruim seria Jabor ( em conteúdo ) e Marcelo Coelho ( em estilo ).
   Ele então nos dá para ler o que seriam os Caligaris de antes. Nada de conselhos sentimentais, nada de jeca exibição de "estilo de vida". Antes uma valorização da vida simples. Se fala de um café da manhã como se esse frugal café fosse a justificativa da vida intima. Se recorda um dia como se esse dia, banal, tivesse o significado de uma epopéia. O Homem comum, o leitor, visto não como um tipo de criança que precisa de orientação, mas como um adulto que tem uma vida e uma rotina que devem ser respeitadas e observadas. Nada há de util nessas crônicas. Aparentemente. São mais que uteis.
   Jamais voltarão. Cada vez mais queremos guias e não a valorização do que somos.
   André Forastieri publicou ontem um texto, lindo, sobre o show de Robert Plant. O que ele diz? Que o Led faz com que TODAS as bandas atuais pareçam coisa de meninos. Pequenas, modestas, timidas. O Led era um esbanjamento de energia, de força e de vida. Puro Nietzsche. Outra banda assim? Nunca mais.
   Estamos ficando tão diminutos que logo nos sentiremos diminuídos perante uma pulga. Época de menininhos feridos e de menininhas sozinhas. Bluffff....