A LINGUAGEM DE SHAKESPEARE- FRANK KERMODE

   Com tradução de Barbara Heliodora, Kermode se propõe a dissecar as peças de William Shakespeare utilizando para isso a análise da palavra, da escrita do dramaturgo. Nada aqui vem de fora do texto. O livro se torna então muito interessante para quem estuda ou se interessa por linguística e filologia.
   Frank Kermode é um critico e professor inglês. Um desses intelectuais à moda antiga, mestre em Cambridge. Não idolatra Shakespeare. Aponta quais suas peças problemáticas, trechos enfadonhos; e também nos diz quais as peças escritas em colaboração. Mas Kermode não é um ressentido, ele sabe conhecer o valor da obra. Para ele Hamlet é o primeiro herói moderno da história. Assim como Lear é a obra mais trágica de nossa tradição.
   Kermode faz a contagem de palavras. Cada peça tem uma ênfase em dadas imagens e sons. Desse modo, ele nos diz quantas vezes a palavra olho/olhar é usada em Lear, ou as palavras gêmeas que abundam em Hamlet. Detalhista, aplicado, sério e jamais deslumbrado, Frank Kermode avança em seu texto, iluminando as fontes de cada peça, as edições usadas, os erros de impressão possíveis. Prova o fato de que Shakespeare cria forma e conteúdo ao mesmo tempo, usa a linguagem em função de seu tema e o tema nasce da linguagem, da arte da escrita. Cuidadoso, incansável, obstinado, perfeccionista, Shakespeare amava a escrita e derramava em seu trabalho a luz de suas criações. Mais que inventor de enredos ou de personagens, ele foi um mago do texto, do estilo.
   Editado pela Record em 2006, recomendo-o para aqueles que se cansaram dos exageros de elogios de Harold Bloom, mas que ao mesmo tempo sabem que Shakespeare é o maior enigma, maravilhoso e delicioso enigma, da história das letras.