AVENTURAS DE TOM SAWYER- MARK TWAIN

   Todo menino deveria ler Tom Sawyer. Se A Ilha do Tesouro foi o primeiro livro que li, Tom foi meu primeiro herói. Eu o li com pressa, com prazer, querendo que nunca acabasse e tolamente correndo para ver logo o que acontecia. E acontece um monte de coisas.
   Menino do sul dos EUA, beira de rios, mundo de 1860, ele vive livre. Mente, engana, é malandro. Tem familia, vai à escola. Brinca e se apaixona por Becky. Seu grande amigo é Huckleberry Finn, um sem-teto, e tem também Syd, seu irmão menor, um almofadinha. É um mundo de bichos, de crenças em assombrações, em bruxas. Há calor, perigo, espaço, cemitérios e festas.
   Tom foge para ilha para ser pirata. Procura tesouro. Se perde em gruta. Briga na rua e faz guerra com bandos rivais. Tom engana o professor, engana a tia e vê seu próprio enterro. E tudo nele tem a marca da alegria.
   Esse sul americano, sul de escravos e de grandes fazendas, esse sul de malandros, lembra o Brasil. Mas ao contrário de nossos Macunaímas, Tom e Huck têm escola, têm igreja, têm sempre alguma esperança. A cada trapaça eles me recordam os pequenos brasileiros gazeteiros, mas ao contrário de nós, a cada erro vem uma reflexão. Tom nunca se arrepende, ele nunca sofre, mas sabe que erra e sabe que um dia deverá crescer. Há consciência em Tom. Há uma história. A tragédia nossa é a de que nossos Toms não têm consciência, não por serem piores, mas por não terem uma chance.
   Tom Sawyer me veio na hora certa. Vivendo num quase Mississipi, eu pegava meu irmão e partia para a "ilha". Escavamos a terra na esperança de achar um tesouro. Fizemos cabanas e tememos bruxarias. O livro dava uma vontade doida de ir à rua, de se perder no mato. Cada enxadada era a aventura de uma pedra, uma serpente ou uma lata velha. Era bom.
   Mark Twain foi o escritor favorito de Heminguay. Ele escrevia simples e foi o primeiro autor americano a se tornar uma estrela. Ele corria a América de 1900 dando conferências. Tudo o que ele falava era noticia. Há um grande amargor em seu humor. Ele via demais e ironizava. Hoje, em nosso tempo míope, Twain é censurado nas escolas americanas por chamar negros de pretos ( niggers ). Twain pinta um mundo vivo, cheio de erros e de tentativas. As páginas saltam, pulam, sorriem.
  Viva Tom Sawyer!

OS MELHORES MOMENTOS DA HISTÓRIA DA TV INGLESA. ELEIÇÃO DO BRITISH INSTITUTE.

   O site do British Institute publicou uma relação com os 200 melhores momentos da história da tv inglesa. Valem séries, filmes para tv, programas musicais, de entrevistas, femininos, noticiários e infantis. Nos EUA, na última eleição que vi, venceu ALL IN THE FAMILY, a série politicamente incorreta em que Carroll O'Connor faz um pai de familia direitista em plena era da contracultura. Na Inglaterra deu FAWLTY TOWERS em primeiro lugar. Essa série de humor passou no Multishow em 1998, e vi cerca de cinco episódios. John Cleese, recém saído do Monty Python, estrela e idealiza a série. Fala de um hotel modesto e seus problemas, Foi ao ar em 1975 e voltou em 1979. Foram apenas vinte episódios ( apesar do sucesso, Cleese não queria esgotar a fórmula ). Ela é hiper-inglesa e fez muita gente entender o que é o tal humor britânico. Eles, os ingleses, amam os Python ( como vimos no fim das olimpíadas ).
   O segundo lugar pertence a CATHY COME HOME, filme feito para a tv. É a primeira direção de Ken Loach e teve em 1966 uma audiência de 12 milhões, ou seja, um quarto da população inglesa da época. Fala do problema dos sem-teto. Acompanhamos a saga dessa garota sem lugar, tudo no estilo documental de Loach. Postei o filme inteiro abaixo. O final é de morrer de tão belo e triste.
   Em terceiro, DOCTOR WHO, a série eterna. Seu melhor momento vai de 1963 até 1989. Não postei nada sobre esta série porque todos a conhecem.
   Em quarto aquele que é considerado o melhor desempenho da história da tv em qualquer país; John Hurt fazendo a vida de Quentin Crisp em THE NAKED CIVIL SERVANT, levado ao ar em 1975. Crisp foi o maior militante gay da história inglesa.
   Em quinto aquele que eu pensei que seria o number one: THE MONTY PYTHON FLYING CIRCUS...genialidade pura na tv. A completa renovação do humor.
   BRIDESHEAD ficou em décimo lugar. Excelente!
   Penso...e no Brasil? O que foi feito por aqui que mereceria o primeiro lugar? Alguma novela? ROQUE SANTEIRO? GABRIELA?  A melhor novela que vi foi SARAMANDAIA, um exercicio surreal de Dias Gomes, onde gente explodia, virava vampiro e vomitava formigas. Mas há ainda VILA SÉSAMO, que mereceria o primeiro lugar. Ou TV PIRATA. Quem sabe?

The Naked Civil Servant (1975) 1/8



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Cathy Come Home (1966) - Ken Loach



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(1/2) Fawlty Towers - A Touch of Class (S01 E01)



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JAMES BOND/ CRONENBERG/ PAUL LENI/ PERSON/ STANLEY KRAMER

   OO7 A SERVIÇO SECRETO DE SUA MAJESTADE de Peter Hunt com George Lazenby, Diana Rigg e Telly Savallas
Aquele que é considerado o pior James Bond, Lazenby, ( teve a missão de fazer o público esquecer Connery...), num filme que é bastante divertido. Rigg, que era uma diva da BBC, é a melhor das Bond Girls, não por ser a mais bonita, mas por ser a mais esperta. O filme tem cenas de ação estupendas. Savallas, que eu adoro, aparece pouco. Um belo James Bond! Nota 7
   A ILHA DO TESOURO de Steve Barron
Recente adaptação da obra de Stevenson. Carrega no horror, não tem nenhuma magia. Nota 1.
   COSMÓPOLIS de David Cornenberg com Robert Pattison
Um vampiro anda de carro pelas ruas de NY e desata a falar tolices óbvias. Ou, dentro de uma geladeira, um representante do impessoal fluxo de capital discorre sobre o mundo sem tempo e sem "sentido". Argh.
   DEU A LOUCA NO MUNDO de Stanley Kramer com Spencer Tracy, Mickey Rooney e imenso etc
Sucesso nos anos 60, visto hoje ele decepciona, e muito. Trata de uma busca ao tesouro nos EUA de agora. Os vários participantes fazem de tudo para chegar ao dinheiro primeiro. Talvez em 1963 causasse surpresa a amoralidade dos personagens, hoje soa banal. No elenco, imenso, estão todos os grandes humoristas americanos clássicos, de Jimmy Durante à Milton Berle. Pena que os 3 Patetas apareçam por apenas 2 segundos! Buster Keaton faz uma figuração ( !!!!!! ) e Joe E. Brown tem só uma fala.... Nota 4
   O GABINETE DAS FIGURAS DE CERA de Paul Leni com Emil Jannings e Conrad Veidt
Clássico alemão expressionista. Cenários tortos criam sensação de pesadelo, luzes cheias de sombras, artificialidade total. Conta 3 histórias sobre 3 tiranos. Leni foi um dos grandes da Alemanha pré-nazista, por azar, nosso, morreu muito cedo. Nota 6
   O HOMEM QUE RI de Paul Leni com Conrad Veidt
Uma obra-prima do cinema mudo. Leni filma na Universal esta rica produção americana baseada em Victor Hugo. Uma criança é raptada e tem o rosto deformado. Ficará para sempre com um sorriso rasgado na face. Vira um palhaço-freak. Bob Kane se inspirou neste filme para seu Coringa. Veidt, usando prótese bucal, cria um personagem inesquecível. Triste ao limite e com o sorriso terrível estampado no rosto. O filme é cheio de cenários imensos, ação e melodrama. Leni faria apenas mais um filme e morreria em seguida. Um grande talento perdido. A fotografia é deslumbrante. Nota DEZ.
   OS MERCENÁRIOS 2 de Simon West com Stallone, Statham, Li, Willis, Van Damme
Gosto de filmes como este. Prometem pouco e entregam aquilo que prometem, são honestos. Tiros? Temos. Ação? Boa quando feita por Statham. Humor? Sim, eles brincam com a idade. E há uma hilária e "mitica" aparição de Chuck Norris. Um defeito: é muito curto! Só 82 minutos! Nota 6
   SÃO PAULO S.A. de Luiz Sergio Person com Walmor Chagas e Eva Wilma
Belas cenas da cidade em 1965. Fora isso, e apesar de sua fama, é um drama sobre a desumanização da cidade grande. Dinheiro, sexo e poder. Impressiona o momento de crescimento do Brasil de então. Mas o filme tem "Antonioni" demais e se arrasta. Eva era uma mulher linda! Nota 4

BRIAN PETER GEORGE ST.JOHN LE BAPTISTE DE LA SALLE ENO, SIM, ESSE É REALMENTE SEU NOME DE BATISMO....

   Quando os músicos da New Wave, em 1978, começaram a fazer montes de videos ( Eat to The Beat, do Blondie é o primeiro lp a ter todas as faixas transformadas em video-clip ), era na fonte das pesquisas de Eno que eles se inspiravam. Há um video que postei- King Leap Hat- que exemplifica aquilo que os wavers procuravam fazer. O video mostra o que entendo por video-clip. É soberbo, instigante e divertido.
   Se o rock pode ter um dia um gênio que represente a corrente hiper-bem-informada da arte, esse cara é Eno.Se Dylan é um gênio ele o foi como poeta puro, se Bowie foi um gênio ele foi um tipo de ator distanciado, mas se Eno foi um gênio ele foi um tipo de Cocteau/Picasso, o aglutinador, o fermento.
   E sempre sob controle, sempre elegante.
   Nada do que postei é de sua fase mais radical. Todas são canções em formato pop. Mas já com a ambientação fria, distante, sem emoção definida e profundamente visual de Eno. Ele antecipa tudo aquilo que valeu/vale a pena desde 1977 até agora.
   Se os anjos tivessem me concedido o dom da música, eu teria sido Brian Eno.
   Bato palmas então.

Brian Eno - Kings Lead Hat - 1977- Written & Produced by Brian Eno



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Roxy Music - Editions Of You VIVA!!! ENO!!!!!



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O SOM DO FUTURO NÃO FALA COM VOCE. ELE VIVE A SEU LADO.

   Brian Eno sempre foi voltado apenas para diante de si-mesmo. Ficou SÓ dois anos no Roxy Music porque achou que no segundo disco a banda já se repetia ( errou ). Ele está no Rio. Vai fazer uma obra visual-musical nos Arcos da Lapa. Vai durar todo o fim de semana. Vale muito a pena. Mais que isso, é obrigatório. Eno criou ( com o Kraftwerk ), tudo o que há na música pop atual que não tem compromisso com os anos 60/70. Explico.
   Em 1977 ele criou o conceito de música ambiente. Convalescendo no hospital, ele percebeu que a música que tocava no rádio valia muito quando se integrava ao ambiente, quando se tornava um tipo de objeto não-expressivo. O rock era expressivo demais, um monte de emoções desordenadas e sem razão, Brian Eno queria o contrário disso. O que ele desejava era apagar do pop e do rock tudo que remetesse a tradição do século XIX, a Beethoven, a música como lingua do sentimento. Ele queria música que nada expressasse, neutra, ausente, uma imagem na parede, parte do ambiente. Ela deveria interagir com o transito lá fora, absorver as vozes dos ouvintes, tomar para si os sons do mundo. Os ruídos, muitos, da cidade do Rio serão parte da música.
   Em Berlin, 1977, enquanto os punks vomitavam os bofes de tanta expressão, ele e Bowie se aplicavam em ser gelados, em fazer canção que nada tivesse de emocional, que fosse puro som e imagem. Depois ele tentou isso com Talking Heads, Ultravox e Devo; e até com o U2, a mais histérica das bandas, Eno conseguiu dar uma podada.
   Na entrevista que leio ele fala que estudou pintura na adolescência. Nunca música. Que som é imagem, é paisagem. Que desde sempre ele viu tudo como um clip, mas clip sem histórinha, sem conceito. Imagem pura. Fascinado pelo progresso, Eno pensa que mesmo baixar som na Internet é uma forma velha de pensar o som. Ele desenvolve um programa que jamais repete a mesma música. No futuro uma música será mutável aleatóriamente. Voce jamais a escutará duas vezes da mesma forma. Ao ser executada ela se auto-reformulará.
   Roxy Music de novo? São amigos, mas bandas com mais de cinco anos são patéticas.
   Interessante...desde mais ou menos 1995, as poucas bandas novas que me interessam são aquelas que de certa forma seguiram o modo Eno de pensar. Bandas não-emocionais, que fazem sons calcados em timbre, em ambientação, que criam massas de sons visuais. Toda banda que tenta, de novo!, expressar amor, ódio, desespero, tédio, alegria rocknroll, só pode ser ouvida como nostalgia. Voce vê caras de 20 anos fazendo aquilo que seus avôs de 70 fizeram até o limite.
   Em 1978 Eno já notara que após Dylan, Motown, Led, Iggy, MC5 e vasto etc, a linguagem da guitarra/bateria mais cantor emocionado chegar ao ponto mais alto. Depois só poderia vir a incessante repetição. A não ser que se seguisse uma trilha oposta a tudo o que eles faziam. Foi o que Brian Eno fez.
   Não foi pouca coisa. E ele continua nessa estrada. Não é um músico, como ele mesmo diz, eis um pintor de sons.

calligaris, mundo hoje e UMA BANDA DE ROCK

   Palestra na USP. Não falarei o nome, mas o cara sabe falar, o que já é um alivio. Voz alta e clara, raciocinio direto. Em dada hora ele fala de Cotardo Calligaris. Cita-o como exemplo da decadência do leitor de hoje. Se antes o jornal exibia Sabino, Lispector e Nelson, hoje seus cronistas são simples conselheiros sentimentais. Pastores leigos que dirigem as dores de leitores infantis. " Veja o que vejo, leia o que leio, pense como penso." Tudo com o brilhareco classe-média de frases como: "Estava eu em Nova Iorque", "Quando estive em Berlim"....
   Muito pior que seus pensamentos, à Revista Nova ou Programa da Hebe, é a paupérrima forma de escrever. As frases surgem aos trancos, quebradas, sem brilho, nada originais. Pensamentos rasos em frases áridas, é o pior dos mundos. O menos ruim seria Jabor ( em conteúdo ) e Marcelo Coelho ( em estilo ).
   Ele então nos dá para ler o que seriam os Caligaris de antes. Nada de conselhos sentimentais, nada de jeca exibição de "estilo de vida". Antes uma valorização da vida simples. Se fala de um café da manhã como se esse frugal café fosse a justificativa da vida intima. Se recorda um dia como se esse dia, banal, tivesse o significado de uma epopéia. O Homem comum, o leitor, visto não como um tipo de criança que precisa de orientação, mas como um adulto que tem uma vida e uma rotina que devem ser respeitadas e observadas. Nada há de util nessas crônicas. Aparentemente. São mais que uteis.
   Jamais voltarão. Cada vez mais queremos guias e não a valorização do que somos.
   André Forastieri publicou ontem um texto, lindo, sobre o show de Robert Plant. O que ele diz? Que o Led faz com que TODAS as bandas atuais pareçam coisa de meninos. Pequenas, modestas, timidas. O Led era um esbanjamento de energia, de força e de vida. Puro Nietzsche. Outra banda assim? Nunca mais.
   Estamos ficando tão diminutos que logo nos sentiremos diminuídos perante uma pulga. Época de menininhos feridos e de menininhas sozinhas. Bluffff....
  

AGORA ME DESCOBRI

Convoco voces para que saibam: Agora sou máquina. E como tal devo funcionar. Meus ossos serão lubrificados e minha pele será flexível. Funcionarei para fazer com que o Funcionamento das Funções do grande Organismo Mundial continue a Funcionar.
Meus pensamentos existem para alcançar um objetivo: Funcionamento. E quando eles se desviam, bem, cabe a mim-mesmo rearranjar meu equilíbrio químico para que tudo volte a sua clara e eficiente Função. O Pensar é uma troca de fluidos entre células e ele existe para dar uma direção ao corpo. Fora disso, tudo é Disfunção.
Descobri que houve um dia a Máquina Primeira. Uma partícula mecãnica que começou a funcionar e explodiu em energia. E que a maquinária daí advinda deu em mim-mesmo. Descobri que a Terra funciona! Correntes mecãnicas e fluidos quimicos que se adaptam ao lugar onde caem. Evoluem com a Sabedoria Funcional da Mecânica!  Tudo com a finalidade de funcionar, pois o que é a vida? Uma Energia mecãnica que Deve produzir mais vida.
Deus e Arte são falhas do sistema. Paramos às vezes para pensar em nossa finitude. E temos medo. Sim, Eis a maior das falhas em nosso sistema: Somos uma Máquina que Teme seu fim. O Temor é Tamanho que inventamos diversões. Nos distraimos enquanto funcionamos. Até pensamos que aquilo que vemos não seja a Verdade. A Verdade é nossa ação no Aqui e no Agora. A Verdade é nosso Trabalho. Eu Irei Partir, mas o Trabalho é Infinito.
Morrerei como uma máquina que sou. Enferrujarei e me tornarei esterco. Talvez um dia isso termine e consigam criar a Super-Máquina invencível. Mas até lá meu velho Modelo Anos 60 será destruído e substituído por novos modelos 2000 e alguma coisa.
Nosso comando descobriu que funcionamos melhor com música. A Música é um ritmo que faz com que nossos mecanismos funcionem mais harmoniosamente. E o Cinema é uma boa forma de se descansar de um dia de Funcionamento. Algumas dessas artes até fazem com que nossos fluidos neuroniais funcionem melhor.
O Sexo é uma forma funcional de se produzir novos modelos. É uma de nossas utilidades.
Animais são máquinas que têm um software mais antiquado. Serão inutilizados um dia. Não ha´razão nenhuma para a existência de um Tigre. Qual sua função?
Igrejas são ok. As mesmas máquinas que precisam de poesia, ou seja, Aquelas que apresentam falhas de funcionamento, precisam de Igrejas. Desde que sejam Igrejas úteis. Que façam a Máquina se Readaptar a sua Função. Assim como as Poesias sejam canções que elevem a maquinaria e as levem a sua função.
Ah! Maravilhoso Mundo Admirável ! Maquinário Concantenado! Graxas e Fluidos que me fazem Brilhar!
Máquina que Escreve e Funciona como aglutinador de Ideias. Ideias que são restos da Quimica que trabalha no Cérebro.
Agora sou Essa Máquina.

O PRIMEIRO LIVRO, A ILHA DO TESOURO, STEVENSON

Era uma coisa muito estranha... Ao passar meus olhos pelas linhas impressas na página branca eu via um garoto, via uma barrica de maçãs, via um navio de piratas. E de visão em visão acontecia aquilo que eu pensava ser impossível, lia as quase 200 páginas que me pareciam antes uma eternidade, e que agora eram como que uma viagem. De visões. Um milagre naquele ano ( mais um ), eu podia viajar no tempo, estava na Inglaterra de 17...
   Sim, foi meu primeiro livro. Eu sei, antes houve Renard, A Velha Raposa; mas esse eu não li de verdade, esse eu desvendei como um brinquedo. Porém este, A ILHA DO TESOURO, de Stevenson, esse foi tocado desde o inicio como um livro. A relação que tive/tenho com ele espelha a relação que tive/tenho com todos os livros. A possibilidade de uma passagem.
   Meu pai comprou pra mim. Anunciava na TV. Uma coleção da Abril, Clássicos Juvenis. Vinha embalado em plástico e a capa era uma beleza. Dura, mostrava um pirata subindo num navio. O mar escuro, o céu ameaçador. Um lampião nas mãos do pirata, o rosto era o de um assassino sujo. Era 1971, e em meio a meus amores, pela professora, pelos Monkees, pelos Hardy Boys e pelos desenhos do Pernalonga, mais um nascia, o amor pelas coisas que nos fazem voar. Principalmente as que vinham embaladas em forma de livro, com cheiro de papel e letras bem impressas.
   Eu tinha apenas 7 anos e a leitura foi lenta. Eu lia em voz alta, para meu irmão, que tinha 4 anos. Lia de manhã na cozinha, lia no quintal, debaixo do mamoeiro, debaixo da videira, junto ao poço. Lia no frescor do porão, lia na sala cheia de sol. Era um esforço, eu cansava, mas era um prazer, eu achava alguma coisa. Tinha nas mãos, só pra mim, um mundo paralelo.
   Jim era o menino. E quem me conhece perceberá o quanto meu gosto estético foi ditado por esse primeiro livro. A chuva de noite, a hospedaria. O mapa do tesouro, a morte. A viagem pelo mar e os tipos suspeitos. A fuga rumo à Ilha e a luta. O encontro do baú. Milhares de imagens que vão da velha Inglaterra suja e fria à ilha tropical e misteriosa. Os personagens, um velho doido perdido na ilha, o cozinheiro bandido, Black Dog.
   Hoje ele continua aqui comigo. O mesmo livro, agora com 41 anos de idade. Criou manchas amarelas, a lombada está cheia de pó. O tempo o marcou, da mesma forma que me marcou. Robert Louis Stevenson foi então o primeiro autor que li. E quinze dias depois veio o primeiro autor que chamei de "meu autor", TOM SAWYER, de Mark Twain. Mas essa é outra história...

É PRECISO APRENDER A VER?

    Crianças sabem ver. Olham.
   O vidro gordo de Toddy. A cor marrom e a tampa de lata. O rótulo com a cara de um menino que ri. As letras que dão voltas e curvas. A redondez da embalagem pesada.
   O tom de azul de uma ilustração do Peter Pan. Um azul profundo dos céus noturnos de uma Londres que nunca existiu. O azul mais profundo e salpicado de luzes brancas e de pontos dourados. O azul infinito, o mais lindo tom da mais linda noite. Cor que se esparrama das folhas de papel perfumadas de novidade para minhas mãos.
   O formato das bolachas doces em forma de bichos. O desenho sinuoso da girafa e a forma compacta do rinoceronte. O leão que parece rugir e a hiena que é feia. A cor sem graça das bolachas e a dureza da forma simples. Algumas são mais escuras, e essas são as melhores.
   Melhor que ver as imagens na tela de TV é ver o belo móvel de madeira amarela. As pernas longas e finas, pretas, com pés dourados. Os botões redondos, de madeira preta e que são enfeitados com metal. A tela de vidro verde, arredondada, que reflete o meu rosto. O brilho da madeira lustrada, com cheiro de lustra-móveis Shell. E detrás dela um mundo de segredos. Uma placa de papelão e entre as frestas posso ver as válvulas acesas. Elas brilham amarelas, fios se aquecem e fazem um zumbido discreto. Será dentro dessas válvulas que vivem os homens que aparecem na TV?
   As paredes com sua geografia de linhas pintadas de azul claro. Lá no alto há uma moldura de madeira que corre por todo o quarto. O lustre é um imenso guarda-chuva de ferro, cheio de furinhos, azul. A parede á áspera e vejo uma aranha minúscula passear. As cortinas voam com a brisa da manhã preguiçosa.
   Um cesto de roupas velhas. De palha. Dentro dele tem paletós antigos e panos vários. E lá mora um ratinho branco que nunca vi. Abro o cesto e me enfio lá dentro. Nele exsitem coisas para se ver que nunca ninguém viu. E eu quero ver o que nunca ninguém viu. Dentro.
   Cada flor guarda seu inseto. O vermelho faz "zuuummmm" e uma doçura que não provo se esparrama para fora. Por entre as folhas verdes o sol pinta círculos que tocam minha cara. No chão as formigas correm para fugir do tempo. Joaninhas nas folhas, marimbondos voam. A terra úmida tem uma confusão de folhas perdidas.
   Em cada pedra há uma vida.
   Os pássaros voam em círculos que toda tarde são os mesmos. E toda tarde eu observo e vejo. E toda tarde é um todo. Conheço cada um deles. O que tomba para a direita, o que tenta ir à frente, aquele que pia mais alto. As nuvens tem um deus que me olha. Isso eu sei e ninguém me disse.
   Depois eu pedi essa nuvem pra mim e tirei o deus de lá.
   .......Então a gente para de ver.
   E hoje eu mal sei como é seu rosto.
   A arte nada mais é que a tentativa de se voltar a ver. A poesia é a lingua da visão.
   Frase de Picasso: "Passei a vida inteira tentando reaprender a ver como era quando criança".
   E eu? Tenho passado as últimas três décadas tentando ver como via antes......
   A janela do porão era suja e quebrada. Ficava ao rés do chão de quem passava fora. No vidro imundo e quebrado uma teia de aranha. Ela era vermelha, redonda, e me dava medo. Mas a vontade de ver era maior. A teia parecia pó e carregava um monte de insetos já secos. Tudo naquele cenário parecia úmido. No beiral da janela tinha um dedal. E uma bolinha de gude. Quando chovia a aranha sumia. Eu pensava que ela se encolhia até ficar um nada. Um nada que morava lá. A chuva batia no vidro e algumas gotas entravam no porão. Era um lugar precário. Um rato passou lá fora um dia. Olhou pro vidro e correu. Um dia pintaram tudo.