O RIDÍCULO DA ARISTOCRACIA HOJE ( E A FALTA QUE ELA PODERÁ FAZER )

   Converso com uma nova amiga, professora de filosofia. Esperava dela a mediocridade de um monte de dogmas, mas não. A definição de seu discurso é não possuir nada de definitivo.
   É levemente cômico, pra não dizer ridiculo, ser aristocrata hoje em dia. Guiar-se por valor e não por popularidade é sempre mal aceito. E por aí vai a conversa.
   Na Rede Globo, às 21 horas de sexta-feira, era exibido um programa que trazia óperas de Wagner e sinfonias de Beethoven. Veja bem, na Globo. Porque? Porque apenas meia dúzia de privilegiados viam TV? Não, a TV já atingia 80% da população. Porque a Globo era lider sem concorrência? Não, havia a Tupi e a Record. O motivo era que o público consumidor, que pagava o anunciante, era composto de uma "elite" que queria assistir Wagner na TV. Ser um aristocrata é pagar o mico de sentir saudades desse elitismo.
   O mesmo no cinema. Se um sucesso de bilheteria ainda podia ser cantado e dançado, se Bergman era pop, isso se devia ao fato de que era uma aristocracia intelectual que dominava as páginas culturais. O cinema tinha Trapalhões e filmes policiais de Charles Bronson, mas Kurosawa e Fellini causavam uma ressonância nem sonhada por Cronenberg ou Lynch. Porque apenas uma elite mandava em revistas e jornais culturais.
   Hoje a TV Globo ( e NatGeo, Sony, Fox ) precisa agradar uma imensa massa consumidora de seus anunciantes. Os jornais precisam tratar Batman ou Prometheus como arte, porque para o novo consumidor, eles são aquilo que ele pensa ser arte. É o povinho que vai no Masp ver Caravaggio e acaba por babar no Renoir.
   Se antes as letras das músicas eram mais sofisticadas e se Hesse ou Huxley eram best-seller, isso se devia ao fato de que só aristocratas liam e compravam LPs. Na atual democracia a massa lê. A literatura e a música servem seus paladares.
   Democracia é uma coisa complicada. Voce pega todo mundo e os une pelo mínimo denominador comum. Daí o fato de que nunca mais teremos nada de aristocrático. A língua do mundo tornou-se a língua da massa iletrada. E como essa massa tem mais filhos, a coisa tende a piorar.
   Mas eu vivi na ausência de democracia, e odiei ser comandado de forma explícita. Eu quero ler o que quiser, falar o que desejar e escolher o que me apetecer. Churchill dizia que a democracia era cheia de falhas, mas era o sistema menos ruim. Não nos esqueçamos de que no mundo de Stalin ballet era pop e em Praga tudo era preservado. Mas quem quer a volta de Stalin e da bota comunista sobre os tchecos?
  Daí a encruzilhada do espirito aristocrático. Odiar a extrema vulgaridade do mundo atual e jamais desejar a volta daquilo que já morreu tarde.
  Saudosismo. Causa espanto ao nobre que a palavra saudosismo seja hoje um palavrão. Aristocratas amam tudo o que é velho, amarelado pelo tempo. Seu inimigo é o novidadeiro, aquele que só vê e ouve aquilo que acabou de sair. O aristocrata está sempre atrás das raízes, do pedigree, dos ancestrais. Se Jack White tem Son House como mestre, ouçamos Son House. Se Almodovar ama Douglas Sirk, vejamos Sirk. É o estilo Debret de todo aristocrata. Só confiar no que é novo após seu envelhecimento em barris de carvalho. ( Debret é o imenso alfarrábio britãnico que traz toda a genealogia das familias de sangue azul ).
   Mas toda essa conversa é absolutamente inutil. E cômica em sua altivez ridicula. Pois lentamente até os pretensos aristocratas dão o braço a torcer e se pegam cantando Beyoncé e vendo filmes de Jason Statham. A ditadura, sedutora-suave-insistente, do anti-aristocrático, do novo, da arte sem aura, acaba por vencer, por baixar as resistências, por domar.
   Ainda virá um tempo em que Michael Bay será chamado de grande cineasta e Paulo Coelho de grande autor.

A VIRGEM

   Se existe algo na iconografia católica pelo que tenho o maior respeito, é sua simbologia ligada a história da civilização. Voce não precisa ser crente para perceber o valor de um símbolo. Basta ser um iniciado. Existem centenas de ateus que reconhecem  a riqueza do que falo. Vamos aos fatos.
   O catolicismo nasce como corrente patriarcal. Em sua origem, Pai, Filho e Espirito Santo regem toda a fé. Não há´nada de feminino na igreja. Com o correr dos séculos, correntes pagãs começaram a se fazer mais fortes. Sábios esclarecidos logo perceberam que havia algo ali. Por mais que os homens fossem "domesticados" pelo catolicismo, persistia neles um desejo natural, uma ligação com mitos arcaicos, com paganismos que louvavam a mãe-Terra. E foi um movimento popular, e em principio herege, que trouxe o mito da Virgem Maria para o centro do catolicismo. A igreja oficial, em profunda crise, foi obrigada a aceitar esse novo fato ( e até hoje tem dificuladade em aceitar o possível casamento de Jesus ).
   O que isso simboliza? Porque Virgem?
   Ela é a Deusa, a mulher sem homem, capaz da vida, sem mistura. Não há moralismo aqui. Ela simboliza a Terra antes do homem, o mistério da Natureza, que virgem, sem nossa mão de homem, produz vida, produz luz, produz tudo o que há. O culto a virgem é, de forma arcaica, o culto a natureza, a chuva, ao que é sem precisar de nossa ação. O que é Puro. O que está fora do tempo e da corrente do Homem.
   Dái meu profundo respeito. Minha compreensão. E meu entendimento sobre o que Ela significa e de onde ela vem.
   Tem coisas em nosso mundinho fofo que não servem para brincadeiras. Essa é uma delas.

PELA PRIMEIRA VEZ ME DOU O TRABALHO DE ESCREVER SOBRE UM DISCO RUIM: OLYMPIA-BRYAN FERRY, ODE AO TÉDIO

   Quem me conhece sabe que sou um Roxy Music fã. Mas esse disco de Bryan, seu mais recente, chega a causar vertigem de tão ruim. Pior que ele ( dentre os outrora nobres do pop ), só os últimos de Paul MacCartney.
   Ferry se repete. Até aí nada de mais. Todo artista tem um estilo e o domina. Faz variações sobre o mesmo, cria novas interpretações. Mas aqui ele se repete ao ponto do plágio. Faz cover de si-mesmo. Olympia é mais uma releitura, pobre, de Avalon, último disco do Roxy, de 1982. Os mesmos backing vocals, o mesmo acúmulo sinfônico de instrumentos, a cadência black, o bom-gosto límpido. E um bando de convidados estelares: Flea, Eno, David Gilmour, Dave Stewart, Groove Armada, Jonny Greenwood, Chris Spedding. E a voz lânguida repetindo gemidos e temas de sempre. Chega Bryan! Cansou.
   Há tempos que todos sabemos, um artista médio tem cinco anos de inspiração. Um acima da média, dez anos. Um genial, quinze. Não mais que isso. Depois é a habilidade de repetir o já feito sem cansar o fã. Aqui Bryan cansa. É impossível ouvir o disco inteiro.
   È sabido que uma das grandes habilidades de Ferry sempre foi a de fazer covers. Em sua carreira temos dezenas deles, inclusive discos só de covers. Aqui ele canta Traffic  de uma forma banal. Mas acerta com Nick Drake. Song To The Siren é de chorar de tão bonita. Uma pérola, pena que jogada em meio ao lixo. Emoção, gosto, sabedoria, luxo e sinceridade. Tudo está aqui. Ferry deveria tê-la guardado para seu próximo disco só de releituras de outros autores.
   Eu compreendo que um grande artista tem o direito de continuar exercendo sua arte. Deve ser um prazer cantar, compor, juntar arranjos. Mas é preciso saber a hora de calar. Concentrar-se no palco, dar shows, encarar e dar prazer aos fãs. E não lançar novas bobagens.
   Pena.

O FIM DE UM DEUS ( O ELEFANTE )

Temos livre-arbítrio. Segundo Aldous Huxley, a cada avanço científico temos a escolha, saber se aquilo vale a pena ou não. Isso porque tudo na vida tem um preço ( e este é um fato que tudo no mundo moderno tenta nos fazer esquecer ). Cada ato tem sua contrapartida. Sempre. Portanto a descoberta da energia nuclear cobra o preço da bomba, a opção pela gasolina tem um preço, e por aí vai. Caberia ao homem decidir se o preço é alto demais.
Mas existe também o juro, que é cobrado de forma imprevisível. A droga parecia ter como único preço a possibilidade do vicio. Mas ela acaba cobrando o juro da criminalidade. Criminalidade como jamais poderia ter sido imaginada. Huxley diz que a opção pelo progresso foi assumida no século XVIII. Progresso que tomou o lugar da permanência. Desde então, queiramos ou não, somos obrigados a arcar com o custo dessa opção. Pior que isso, como na pior época da igreja dogmática, somos obrigados a acreditar que o progresso é não só desejável como biológico. A teoria da evolução nada mais é que a "legitimização" biológica, inescapável, de que o progresso está inscrito em nossos gens. Se antes Deus nos obrigava a Lhe obedecer, hoje o progresso nos obriga a "progredir".
Há um preço. A arte ao se mecanizar perde o poder de se comunicar com o sublime. E a religião, ao se tornar materialista e humana, perde qualquer possibilidade de sagrado.
Desde sempre tivemos duas opções: ser o jardineiro do planeta, ou ser seu fungo. Não há meio termo. Ou trabalhamos para o planeta, com a humildade de entendermos sermos parte de algo incompreensível; ou exploramos o ambiente, esgotamos tudo, e sonhamos com novas possibilidades em outros mundos. A escolha foi feita por volta de 1740. Não preciso dizer qual.
Um batalhão de assassinos, armados de um arsenal hiper-sofisticado, está dizimando todos os elefantes da África. Em 2011 foram 4000 elefantes assassinados. Os guardas florestais não têem como enfrentar tanto armamento. Os chineses, que ficaram ricos, amam o marfim, e nunca na história do mundo o marfim foi tão caro. Um quilo vale 500 dólares. Um tipo de projétil com granada explode a cabeça do elefante. Os corpos apodrecem no chão. O dinheiro mata o elefante. O dinheiro é deus. Optaram por isso. Não temos mais outra escolha. Os próprios conservacionistas sabem que os elefantes não têem mais como se salvar. O dinheiro decidiu por seu fim.
Não quero e não posso viver num mundo sem elefantes. O mundo que está sendo construído não é o meu.

A TASTE OF HONEY- TONY RICHARDSON, FREE CINEMA

   A Inglaterra sempre teve ótimo cinema. David Lean, Carol Reed, Michael Powell, Anthony Asquith...Mas seu cinema foi sempre acusado de passadista, de cinema de sala de chá. Bonito, artístico, cheio de excelentes atores e de boas frases, mas sem verdade e sem "atualidade". Isso tudo mudou em 1958 com a eclosão do movimento do "free cinema". John Schlesinger, Karel Reisz e Tony Richardson foram os primeiros nomes. Mas logo a eles se uniram Richard Lester, Ken Russell, John Boorman, Michael Winner e Ken Loach. Como eram esses filmes?
 Mostravam a Inglaterra real, a jovem Inglaterra. E o que seria o tal "real"? E "jovem", era o que? Para explicar, vejamos este excelente filme.
 Mãe e filha. A mãe tem vários namorados, a filha está sempre de mal humor. Vivem discutindo. Se agridem e são pobres. E feias. Quantos mitos caíam aqui? Nada de salas de chá. São casas sujas, apertadas, escuras e cheias de mal cheiro. Nada da famosa elegância. São mal vestidos, sujos e sem boas maneiras. E falam alto. Têm muita raiva. A base desses filmes é a raiva.
 Antes do free cinema houve a revitalização do teatro. Os "angry young men". Tony Richardson começou com eles, dirigindo Osborne no West End. Raiva, eles queriam tudo e nada tinham. Raiva. Jovem era a raiva.
 Voltando ao filme.
 A mãe vai morar com um namorado. A filha tem caso com marinheiro negro. Ele parte e ela vai morar sózinha. Mas acaba por dividir o espaço com um novo amigo, gay assumido. E por aí vamos. Feito em 1962, eis uma Inglaterra que não existe mais. Primeira surpresa: bandos de crianças nas ruas. Elas são donas de tudo. Entre 1945 e 1960 houve um surto de nascimentos na Europa. E nos EUA. O "baby boom". Dizem que crianças nascem quando o mundo está otimista. Elas aqui dominam a vida. Correm, pulam, são sujas e têm espaço. A cidade é cheia de vielas, prédios aos pedaços, ruas sem gente, terrenos baldios. Ainda há marcas da guerra, restos e muita poluição. Todos são muito pobres, mas já pressentem o surto de crescimento dos anos que viriam ( 63/72 ). Aquelas crianças nas ruas serão os hippies de 69 e os glitters de 72.
 A câmera se enerva. Nada é bonitinho, mas não se apela ao drama. Não temos pena da menina. E de ninguém. Assistimos e gostamos deles, de todos eles, sabemos que eles irão sobreviver. Todos eles. São vivos, ansiosos, nunca deprimidos. Falam, andam. O filme tem muito de documentário, acompanhamos suas idas a parques, a praias, a diversões vulgares. Vemos a verdade, se é que ela existe. Se existir, estará aqui.
 Antecipações do futuro. O namorado negro, o amigo gay, a vontade de ser um designer, o querer ser só, a raiva jovem. Ela é uma menina de 2012. Sem a pasmaceira de 2012. Com a ansiedade de 1962.
 Tony Richardson acertou nos seus cinco primeiros filmes. E Tom Jones, em 1963,o quinto filme em quatro anos, lhe deu Oscars de filme e direção. Voces têm de ver Tom Jones! Mas a partir desse sucesso ele só errou. Seu casamento com Vanessa Redgrave acabou e todos os seus filmes fracassaram. Mas este não.
 Voce vê o filme com muito prazer e sente algo de muito volátil em cada cena. A transformação se anunciava. Londres iria se erguer, voltar a ser moda, criar, inovar, ousar. E essas crianças sentem isso em meio a toda miséria.
  Que filme lindo!
  PS: Arte brota na sujeira. Sempre.
  PS2: O pessoal da nouvelle vague adorava odiar todo o cinema inglês. Tolice! Velha rivalidade entre bulldogs e galos.
  PS3: As ruas hoje são de quem? Carros? Õnibus? Ou estão desertas? São de pessoas adultas ocupadas.

LORAX/ BETTE DAVIS/ NICHOLAS RAY/ SIRK/ STATHAM/ WENDERS

   O INTOCÁVEL de Boaz Yakin com Jason Statham
Adoro os filmes de Jason. Não são hiper produzidos, eles têm ação real e Jason luta como um chinês. Sabe se mover e tem leveza. Aqui ele é um lutador a beira do suicidio que é salvo ao se involver com uma menina chinesa que está sendo usada por mafiosos russos. Nada de especial no roteiro, mas a ação é de primeira. Uma diversão sem culpa. Nota 6.
   O LORAX de Chris Renaud
É bom. Como todo desenho, tem uma mensagem certeira. No futuro tudo é de plástico e tudo é bonito e limpo. Mas por detrás disso, há um mundo destruído e morto. O ar é vendido por uma corporação que deseja manter tudo como está. Bem... como escrevi em outro lugar, crianças hoje carregam a missão de nos resgatar. Vejam o que fizemos kids! Reajam, pois nós desistimos. Eis a mensagem. É uma bela mensagem, claro. Melhor isso que o niilismo acomodado dos filmes adultos. Mas caramba! Um dia voltarão a fazer desenhos  bobos e infantis? Nota 6
   PETER PAN  de Wilfred Jackson e Disney
Mítico. São dezenas de mensagens cifradas, montes de possibilidades poéticas. O menino que não quer crescer e a menina que não pode deixar de crescer. Alguém se vê neles? Bem vindos ao mundo de 2012. Não é uma obra-prima, mas é um ícone. Nota 8.
   UM AMOR DE TESOURO de Andy Tennant com Mathew McConaughey, Kate Hudson e Donald Sutherland
Um casal brigado acha tesouro. Mas tem de disputar a descoberta com rivais "do mal". O cenário é estupendo. O filme é um café. Voce vai em um restaurante com sua namorada, vê umas vitrines e por fim assiste este filme. Um café: gostoso e tirado às dúzias toda hora. Mathew é simpático. Em tempos de melhores filmes pop ele seria rei. Kate envelhece mal. Sua mãe era melhor em tudo aquilo que ela tenta fazer. Donald apenas está lá. O filme não é ruim, é bobo. Nota 4.
   ALMAS MACULADAS de Douglas Sirk com Rock Hudson, Dorothy Malone e Robert Stack
Um repórter alcoólatra se envolve com casal de aviadores de circo. São aqueles pilotos que se exibem em circos, fazem corridas e se arriscam. O filme mostra a condição patética do repórter. Ele ama sem ser amado, é desprezado pela mulher que ele ajuda. Se destrói. Mas ao final, é ele quem dá a volta por cima. Não é dos melhores Sirk, mas tem um Rock Hudson bem dirigido ( quem falou que ele era mal ator? ) e aquele clima fatalista que esse excelente diretor sabia tão bem criar. Nota 7.
   PINA de Wim Wenders
Assisto mais uma vez e gosto mais ainda. Acachapante. A primeira cena com Stravinsky já te deixa zonzo. O filme não é apemas bom. Ele é uma aula emocionante sobre arte. O limite, a expressão e o risco. Pina Bausch ousava, errava, repetia, acertava. Os dançarinos-atores são magos. Cenas com água, humor com cachorro que late, mulheres que caem, retratos de sofrimento e de alegria. O filme te derruba, te impressiona. Os corpos vão ao limite. A alma se entrevê. Lindo. Nota 9.
   AMARGA ESPERANÇA de Nicholas Ray com Farley Granger e Cathy O'Donnell
Famoso filme de Ray que antecipa a Nouvelle Vague. Godard amava este filme e há muito de Acossado nele. Sobre um ladrão que não consegue sair do mundinho podre onde ele vive. Mas o filme não é centrado em roubos ou em tiros, o que vemos é uma hiper triste história de amor. Amor tragédia, fadado ao absoluto fracasso. Nos incomoda ainda. É invulgar, original e melancólico. Nota 7.
   MULHER MARCADA de Lloyd Bacon com Bette Davis e Humphrey Bogart
Atenção. Não é um tipico filme de Bogey. Ele aparece pouco e faz um promotor do bem. O filme é de Bette, ainda bonita e sexy, que faz uma prostituta que é usada por gangster. O que vemos é sua conscientização. O filme é esquemático e sem muito apelo. Mas é um prazer ver Bette em ação. Uma diva imensa, a única que poderia trombar com Kate Hepburn e vencer. Um filme curto, grosso e direto. Típico Warner anos 30. Nota 6.

ONDE OS VELHOS NÃO TÊM VEZ- CORMAC McCARTHY

   Rei, Deus e Familia. No lugar do Rei, teu ego. No lugar de Deus, o dinheiro. Sai a familia e entra a midia. Teu lider é voce mesmo. E voce vai ter de se virar com sua própria lei. Tua ética, tua moral e tua transcendência é o dinheiro quem te dá. E sua familia são os seres da midia. Uma familia na qual voce nunca se sente aceito. Falemos a verdade: derrubamos "mitos", colocamos algo de melhor no lugar?
   Um assassino. Que pouco se lixa em morrer. Um xerife. Velho. Que ainda pensa em familia e Deus. Mas que começa a saber: o Diabo venceu. Um caçador. Que acha dinheiro. O deserto e a violência.
   Sim, voce já viu a obra-prima dos Coen. O livro é quase igual. Mas o livro tem os pensamentos do xerife. Do velho. Que não tem mais vez.
   Harold Bloom considera McCarthy o melhor escritor da América hoje. O cinema o adora. Nos últimos anos é moda o adaptar à tela ( e DeLillo também ). Ele escreve naquele estilo aparentemente fácil. Muitos "e", e muitos "então". E então voce lê e lendo então percebe que o estilo se torna dificil e violento e então te incomoda e perturba.
   Quem não vive em meio a escritórios de vidro e restaurantes da moda sabe: o mundo perdeu qualquer noção de moral e de preço. Ninguém teme o castigo, ninguém pensa na consequência de coisa alguma. Todo rei foi deposto. Pai, mãe, policial, guru, poeta. Deus é money. Nas pseudo-religiões o que se procura é dinheiro e só se respeita quem o tem. E o cara da bandinha, o ator, a socialite são a familia que nos resta.
   Nesse mundo a violência manda. Não a violência da guerra. Pior. A violência cotidiana, banal, infame, sem regras, sem código, sem linguagem. Cormac MacCarthy saba disso. A violência não tem língua. Ela nos é anterior a linguagem. É viscera. E se Deus foi criado para sublimar a violência, sem Ele ela está solta. Daí a besta manda.
   Vida real:
   Meninos chutam meninas, cospem em meninos. Uns caras vendem droga na porta da escola. Livremente. Crianças dançam com as bundas inexistentes voltadas para o ar. E aos 11 anos se exercitam em cópulas imaginárias. Garotos de 16 assistem e riem. Elas colocam a língua entre os lábios. Um pombo tem suas asas quebradas e é afogado numa torneira. Três meninos cercam um outro e levam o celular. No banheiro, quatro meninas surram uma outra que ousou se vestir diferente. Tudo vale porque inexiste o medo do preço. O único medo é o de não ter dinheiro. E para se ter dinheiro é preciso ser forte, temido, respeitado.
   A única questão importante que nos restou: a violência. O resto é perfumaria.
   Neste livro cada linha é um tiro.
  

UMA TARDE DE HORROR ( ATOM HEART MOTHER, PINK FLOYD ), O DISCO DA VACA

   Foi uma péssima viagem. As sombras de um fim de tarde frio e os móveis pesados, madeira e mármore, na sala que fedia ao mofo de cortinas e tapetes. Um grande tapete cinza e as cortinas com forros e rendas. Do aparelho de som que estava em outro cômodo, vinha a música. Que música? Eu abominava aquilo. E mergulhava numa deprê sem nome, pura melancolia. Eu me afundava naquela música do lado 1, uma coisa dividida em segmentos, mais de vinte minutos de tortura.
   Metais que não se encontram e ruídos de vozes, teclados que soam como sirenes e aviões que caem. Uma melodia que lembra cemitérios e barulho incessante. Coro de vozes que me fazem ter medo e guitarras soterradas em explosões. Suplico para que esse pesadelo termine logo. Esses gritos...
   Então tem If.
   E agora me vem um sono que me desabo. E esse solo de guitarra bocejante que dura pra sempre.
   Então vem Summer of 68.
   Que é o tema do Jornal Nacional de então.
   E mais duas faixas que me esqueço de ouvir.
   Não estranhe. Minha madrinha me deu esse LP de presente. Eu tinha 11 anos. Conhecia Beatles, Elton, Monkees....Fiquei abismado ao escutar essa "doidice sem sentido" naquela tarde maldita.
    Mas um dia, mais de vinte anos depois, eu lhe dei outra chance.
    Uma rica viagem. Surpreendentes climas que se mudam em emoções conflitantes. Timbres inusitados e a doce melancolia de uma poesia triste. Trágica quase.
    A beleza de If. Que tem um piano que é a coisa mais linda do mundo.
    A nostalgia de Summer. Que se ergue em cadências.
    E as duas viagens de LSD finais.
    O êxtase num café da manhã. Em torradas, em ovo frito, na boca que mastiga.
    O medo de ontem é o prazer de hoje.

SEQUESTRADO- ROBERT LOUIS STEVENSON

   O começo do século XX foi péssimo para Stevenson. Se tornou um escritor infantil. Era a época dos romances mais ambiciosos da história. E gente como Stevenson, escritores que "apenas" contavam uma história, foram jogados na vala do comum, do banal, do infantil. Mas, a partir de 1950, a coisa começou a mudar. Uma overdose de experimentalismo deixou o leitor com saudades de uma boa narração, de uma aventura. Stevenson voltou a ser considerado. Assim como Conrad e London.
   Este é considerado por muitos seu livro mais bem escrito. Conta a aventura de um jovem, David Balfour, que na Escócia de 1755 tem sua herança roubada e cai nas mãos de uma tripulação de navio bêbada e hostil, para
 depois dever percorrer meio país, desviando de facções rivais e de armadilhas da natureza.
   A Escócia de 1755 é um país em ebulição. Clãs lutam entre si e contra os representantes da Inglaterra. A gaita de foles e o padrão xadrez estão proibidos. Não se pode vestir o kilt e nem falar o gaélico.  É esse o ambiente social do livro. Stevenson sabiamente não sataniza os ingleses. Sua simpatia vai aos escoseses mais calmos, menos radicais.
   Todo o inico, e toda a viagem de navio, contornando a Escócia pelo norte, são soberbas. Stevenson se supera nas descrições de tempestades, no clima de suspense entre a tripulação. Depois ele deixa bastante cair o interesse. Nota-se que a narrativa se estica, se alonga. Mas nada que prejudique o prazer de se ler esse autor que hoje volta a ser central na história do romance do século XIX.

SAUDADES DE QUANDO GAINSBOURG ERA POSSÍVEL

   Um cara me policia. Descobriu que às vezes creio em anjos. E agora esse cara tem certeza de que sou burro. Ou que tenho um tumor na cabeça. Um outro me fala que eu deveria ir a umbanda. Porque é legal. E outro acha que sou materialista demais. Diz que sou muito agressivo.
   Um velho amigo pensa que sou muito etéreo demais. E outro fala que eu deveria ser menos anos 2012, ser mais Che Guevara e Neruda. Uma amiga me manda uma mensagem. Diz que não deveria mais ficar arrumando briga por aí. Fala que às vezes lhe dou medo. E uma outra conta que pra ela sou um gurú indiano.
   Me vigiam também os desconhecidos. E ser vigiado por amigos é um elogio.
   Estranhos falam que sou saudosista demais. Que tenho preconceito contra Von Trier e Nolan. Estranhos, outros, dizem que sou moderninho futil. Que deveria descobrir Tarkovski e Bunuel. Uns dizem que não posto nada de inteligente. Outros falam que sou pedante. Pensam que sou gay, e já fui chamado de machista. Anti-americano, direitista, francófilo, vitoriano.
   Chegaram a comentar que amo a guerra.
   Nada disso importa. O que interessa é que todo mundo mete a colher no angú de todo mundo. Todos querem formar uma imagem de quem mal conhecem. Te fazer um personagem.
   Bem Vindo ao futuro.

Gainsbourg et le Tabac, Zippo, Gitanes



leia e escreva já!

AS CENTENAS DE FILMES DA SIGHT AND SOUND

   TerrEnce Malick deve ser o maior diretor da história do cinema. É o único que obteve 100% de seus filmes indicados. Acabo de ver os cerca de 1500 filmes que foram citados pelos votantes na enquete dos 250 melhores da revista inglesa Sight and Sound. Nessa lista, publicada em ordem alfabética, temos várias justiças, algumas surpresas boas e esquecimentos surpreendentes. Malick é o único diretor a ter tudo o que produziu
 citado, e seu ARVORE DA VIDA é o filme melhor classificado ( dentre os americanos ), dos que foram feitos de 2000 pra cá. O que a gente logo percebe é que neste século a produção se pulverizou. Hong Kong, Coréia, China, Irã, Turquia, Formosa....são esses os países com a nata das citações.
   Wes Anderson tem apenas um filme entre os 1500 citados e Tim Burton apenas Edward Mãos de Tesoura. Já Tarantino tem seis filmes lembrados, e os irmãos Coen quase todos. Mas não vou ficar aqui falando detalhes, quem quiser que veja a lista. Está disponível a dois toques de teclado. Prefiro comentar as surpresas.
   Maravilhosamente Chuck Jones tem cinco desenhos dos Looney Tunes entre os maiores. Desenho é arte e Jones, assim como Tex Avery, Bob Clampett e alguns outros sempre soube disso. Mas ao mesmo tempo vemos uma injustiça com a Disney. Citaram apenas Mogli !!! Logo Mogli, um dos menos bons da fase clássica. Deixar Pinóquio ou Dumbo de fora é esquecimento de gente que deveria ter pensado melhor. De qualquer modo, WALL E éstá ente os 80 melhores filmes já feitos. Justo.
   Michael Powell continua valorizado. Tem seus principais filmes citados ( mais de dez ), esqueceram CONTOS DE HOFFMANN, mas tudo bem, Powell está no posto que merece, é um dos 3 melhores da história do cinema britânico. Esqueceram Stephen Frears, nenhum de seus filmes foi lembrado, e Carol Reed está em baixa, citaram apenas 3 de seus filmes. Com David Lean se esqueceram de OLIVER TWIST, provávelmente por ter fama de racista. OS EMBALOS DE SÁBADO A NOITE está entre os 1500, mas senti uma certa má vontade com o cinema dos anos 70. De qualquer modo, os básicos da década mais louca estão lá. O que não aceito é entre oito filmes de Robert Altman citados, ninguém ter lembrado de MASH....imperdoável.
   O Brasil tem lembrado quase tudo de Glauber e muita coisa de Nelson Pereira dos Santos. Adorei ver meus dois filmes favoritos made in Brasil lembrados: MACUNAÍMA e O BANDIDO DA LUZ VERMELHA estão presentes.
   Bacana lembrarem do pouco visto AS 3 MORTES DE MELQUÍADES de Tommy Lee Jones. Esse filme, de 2007, é uma bela homenagem a Sam Peckimpah.
   Vincente Minelli, Raoul Walsh, Howard Hawks, Billy Wilder, o cinema clássico americano está muito lembrado. Buster Keaton tem um monte de filmes citados e John Ford aparece com mais de 12 filmes. Mas é estranho não terem citado Scarface de Hawks, Asas de Wellman e Inimigo Público de Le Roy.
   Jean-Luc Godard é talvez o maior vencedor da lista. São dezenas de filmes lembrados. Godard fazia aquilo que todo cinéfilo sonhava, se divertia filmando. Interrompia a narração quando se entediava, enfiava cenas improvisadas ao ter uma inspiração, liberava seu desejo. Godard fazia tudo o que um diretor não pode fazer hoje, inventar . Daí  sua valorização atual. É de longe o francês mais citado. Bresson vem logo depois.
   Todos os grandes gênios estão fartamente lembrados. Não há um só Bergman ou Kurosawa que merecesse ser citado que tenha sido esquecido. São 19 Bergmans e 15 Kurosawas. E há também uma tonelada de Dreyer, Bunuel, Lang, Kieslowski, Tarkovski, Fellini...
   A Itália é o grande perdedor. Sim, eles citam os De Sica, Antonioni e Visconti obrigatórios. Tem Pasolini às dezenas, tem Bertolucci, Rosselini...mas o cinema da Itália foi tão grande que dá uma frustração ver apenas um Scola, um Risi, dois Zurlini e dois Monicelli.... Lembraram dos ETERNOS DESCONHECIDOS, mas esqueceram BRANCALEONE!!!!!
   Todos os Clint Eastwood que valem a pena foram lembrados ( esqueceram Bird, e eu acho justo isso ), assim como Scorsese, De Palma e Woody Allen.
   Vertigo de Hitchcock é o maior de todos. Não sei se é o maior, mas também não sei se ele não é o maior. Hitchcock tem mais de vinte filmes na lista. E mesmo assim tem alguns que mereciam ser incluídos e que ficaram de fora. Ele conseguia unir o cinema pop a arte mais sofisticada. Ação e introspecção. Humor e horror. Senso de imagem e dom para diálogo. Erotismo e romantismo. E tudo isso mantendo sempre o senso de beleza, de diversão e de comunicação. Não sei se foi o maior de todos, mas se for, lhe fica muito bem.

PETER PAN E O LORAX, DOIS MODOS DE PENSAR SOBRE A INFÂNCIA

   Em meio a um céu de Technicolor, o pai de Wendy, Miguel e João, vê finalmente o navio de Gancho, navio em que agora Peter Pan navega. Então o pai, modelo de praticidade e de "adultêz", conta que aquilo no céu faz com que ele quase lembre de alguma coisa de seu passado...
   Peter Pan tem tanto material poético que daria para se criar toda uma filosofia sobre a infância. Ou se preferirmos, sobre a idealização da infância pelos adultos do século XX. Não importa, a obra de James Barrie é uma das jóias do século e sobrevive muito bem ao icônico desenho da Disney. Vamos ao começo.
   Wendy é avisada de que deverá mudar de quarto, não poderá mais dormir com seus irmãos. Amanhã ela começará a ser adulta. Óbvio que Wendy menstruou. Mas ela insiste em esperar Peter Pan, em deixar a janela aberta e conta ao pai não querer jamais crescer. Peter virá e Wendy irá costurar a sombra que ele perdera. Sombra que pode ser tanta coisa... o medo de Peter, seu interior, seu gêmeo...
   Os dois, mais os irmãos, partem à Terra do Nunca e voam sobre uma deslumbrante Londres vitoriana. Não nos esqueçamos, Peter nunca teve mãe e Wendy deverá cumprir esse papel. Para Peter, mãe é quem conta histórias, geralmente sobre ele mesmo. Na terra de Peter existem sereias que o adoram, indios que lhe têem respeito e os piratas... tudo gira ao redor desse Peter, orfão que não cresce e que se ama em tudo que o cerca.
   Gancho é o contrário absoluto de Peter. Ele jamais brinca, nunca fantasia e vive com ódio e medo. Ele está preso no tempo, um jacaré-relógio, com seu tic tac neurotizante deseja o engolir. E Gancho vive assim, no medo do tic tac e no ódio a Peter Pan. Peter é tudo aquilo que ele não pode ser: criança. Em Gancho dói a fuga do tempo.
   Wendy tem pai e mãe, precisa voltar, precisa crescer. E volta. E é nesse final melancólico que o pai quase lembra do que foi um dia.
   O Lorax, já um exemplo seguro do que é o século XXI, joga a criança no mundo em que devemos ter um papel a cumprir. Uma responsabilidade. O desenho é ótimo e eu concordo com tudo o que ele advoga, mas que diferença imensa do mundo de Peter Pan! Se antes o que se tentava era descobrir o mundo secreto e mágico da infância, se antes tudo era voltado ao simbólico, ao interior; agora o que vemos é pura exterioridade, a chamada a ação, a intervir no real. Nesse sentido, nada mais Gancho que Lorax.
   A Terra virou plástico, e num estilo Matrix, todos vivem num tipo de "mundo fake". O ar é vendido em garrafões e tudo precisa ser mantido assim, porque é assim que a grande empresa quer. Mas um menino descobre o que aconteceu no passado e tenta plantar uma árvore...
   O desenho é todo do bem e isso não me irrita. Ele fala das coisas mais importantes e sérias do mundo de hoje. E essas coisas devem ser defendidas com força e sem concessões. Pagamos por água, e me creiam, água já foi de graça um dia. Pagamos por TV, que também já foi grátis. E pagamos por escola, hospital, poder cruzar uma estrada...estacionar. E não notamos o absurdo de tudo isso. Um dia haverá a taxa do ar. E assim, as árvores se tornarão dispensáveis.
   É fato já antigo de 15 anos que enquanto os filmes de adultos se ocupam com o mundo irreal, os desenhos cada vez mais se ocupam do mundo real. Serial killers, heróis de HQ, casos médicos e viagens mentais, com raras excessões, o cinema adulto só fala desses temas. Já os desenhos se ocupam de ecologia, vida familiar, honra, passagem do tempo e modos de viver. São temas muito mais vastos, menos particulares, mais sociais. Adoro-os e considero que na média os desenhos dão de dez a zero nos filmes que são lançados.
   Mas o que falo aqui é:  Não seria uma tentativa muito esquisita essa de se jogar na criança toda essa educação? Parece que desistimos dos adultos ( um bando de tarados que só quer a pornografia de corpos dilacerados e de mentes confusas ), e tentamos desesperadamente salvar a próxima geração, dando a elas a percepção do mal que fizemos e do quanto elas devem fazer. Salvem a natureza crianças! Salvem a familia! E deixem o papai com seus filmes cheios de sangue, maldade e niilismo cego.
   Peter Pan fazia com que adultos desejassem ser crianças. Lorax reza para que as crianças sejam adultas logo.
   Há algo de muito podre neste nosso mundo.