MEU MAIOR TIME

   Sobre os videos aí de baixo.
   Não tenho idade para ter visto o Botafogo de Didi ou o de Gerson. Como não vi o grande Santos ou o Brasil de 70. Mas vi a Holanda de 74, o Palmeiras da Parmalat, o São Paulo de Telê, o Napoli de Maradona, Milan de Gullit, Rejkaard e VanBasten. Vi o Bayern de Beckembauer, França de Platini e Giresse, e vejo o Barça de Messi.
   Mas devo dizer, não vi time como o Flamengo que exsitiu de 78 até 83. Era uma tal gana de vencer que dava medo nos adversários. Não era toque ou paciência, era uma coisa de matar ou morrer.

Flamengo 3x0 Botafogo - 1979



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Botafogo 4 x 1 Flamengo - Decisão Taça Guanabara - 1968



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BOTAFOGO, SERGIO AUGUSTO/ FLAMENGO, RUY CASTRO, O NASCIMENTO DA PAIXÃO NACIONAL

   Muito mais que bundas, samba ou cerveja, a grande paixão nacional é a bola. Em dois livros, com textos épicos, belas fotos e revelações emocionantes, o flamenguista Ruy Castro e o botafoguense Sergio Augusto ( um dos melhores críticos de cinema deste país, talvez o maior ), escrevem sobre suas paixões. Há uma foto de Didi, no livro sobre o Fogão que chega a ser pura obra de arte. Didi anda pela rua, terno e gravata. A esposa vai a seu lado e atrás dos dois, uma multidão de meninos caminha respeitosa e sorridentemente o "guardando". Didi acabara de dar mais um show no Maracanã lotado e voltava para casa a pé, no meio da torcida. A foto transmite a mesma impressão que nos causa a visão de uma pirâmide do Egito. A admiração pela arte de uma civilização perdida.
 Castro explica o porque do Flamengo ser o mais amado do Brasil. Paulistas rancorosos gostam de falar que o Mengo é o maior ( em torcida ) por causa do Rio ter sido capital e seus jogos correrem Brasil afora. Bem...o Flu veio antes, sempre foi elite e não se popularizou do mesmo modo. Why? O Flamengo nasce como time de remo em fins do século XIX. As meninas do bairro davam trela aos remadores do Botafogo e enciumados, os garotos do Flamengo resolveram fundar seu clube náutico. Nascia o Mengão. Na primeira travessia pelo mar alto eles se perdem e ficam dias à deriva. A população do Rio em suspense. Afinal todos conseguem ser resgatados ( por remadores do Botafogo ). Nascia aí a popularidade do Flamengo. Nacionalmente ela se fez porque logo na década de 10, com o futebol fundado no clube, o time passa a ser o primeiro a excursionar pelo nordeste. Quanto ao futebol, é verdade, o clube é cria do Fluminense. O Flu sempre fora do futebol e existiam jogadores do Flu que remavam pelo Flamengo. Quando os cartolas das Laranjeiras peitaram um jogador rebelde, todo o time do Flu se bandeou para o Flamengo e lá fundaram o futebol dentro do clube de remo. Não vamos esquecer que o esporte mais popular do Brasil entre 1880/1920 era o remo e o segundo era o ciclismo. Com um futuro que lhes traria Leônidas, Zizinho, Domingos da Guia e Zico a popularidade do Flamengo estava assegurada.
   A história do Botafogo é bem diferente. Ela começa com o muito aristocrático Botafogo de regatas e o "juvenil" Botafogo futebol clube. Na década de 40 os dois se unem e nasce o BFR, Botafogo de futebol e regatas. O clube de futebol é fundado por um bando de adolescentes, sendo o único clube do Brasil fundado por rapazes. É engraçado o tipo de nome que os jogadores da época têm: Olimpio Tavares Gomes, José Augusto Nunes Prado ou Oscar Smith-Clifford. Era a mais fina flor da aristocracia que jogava bola. Fora o Vasco da Gama, o patinho feio que tinha até negros no time. O Botafogo é logo visto como clube para poucos, de gente "diferente", intelectuais, desajustados e nobres decaídos ( os rivais dizem que é um clube para masoquistas ). Pouca gente sabe que é o Botafogo o clube que mais cedeu jogadores para a seleção nacional, dentre a lista imensa Garrincha, Gerson, Amarildo, Heleno, Jairzinho, Paulo César Caju e Nilton Santos. Clube que "faliu" várias vezes e que sempre renasce.
   São dois livros que se lê com sorriso nos lábios e um prazer idêntico ao de se ver um bom jogo. Times que deram alegria a todo uma nação, histórias de fundação que se movem entre a saga e a anedota. Mesmo não sendo flamenguista ( fui "Zico" de 1976 até 1983 ), ou botafogo ( tive uma admiração pelo fogão na mais tenra infância ), são duas leituras obrigatórias para quem gosta do jogo. Mais, para quem gosta de história.

PAULINHO DA VIOLA

   Eu juro que era assim: Milagres aconteciam. Para eles acontecerem era preciso tempo, céu grande e um horizonte pra se deixar ir. Sem isso não tem milagre mais nenhum.
   Eu juro. Um dos milagres era Nelson Cavaquinho, o outro era Cartola e tem um vivo, Paulinho. Ele tem o tempo que é dele, tem céu grande e horizonte onde se vai. E é um nobre. E cavalheiro. Se o Brasil fosse perfeito todos seríamos Paulinhos. Único, consegue fazer um pandeiro soar triste como um cello. Faz de uma caixa de fósforos batucada,  uma orquestra de câmara. E tudo com elegãncia. Impossível imaginar Paulinho dando um grito.
   Moço do bem. Tudo o que ele faz é bom, certo e reto. Nunca precisamos tanto de muitos Paulinhos como agora. Suas músicas são canções de janelas com rosas, de jardins ensombreados e de cheiro de sabonete em tardes de verão. Dos prazeres discretos, uma tampinha que cai no chão e o vaporzinho que sai da garrafa gelada.
   O milagreiro de "Coisas do Mundo Minha Nega", uma canção que sem drama, com delicadeza, faz a crônica da melancolia. Nela há toda a rica imagem do nosso espírito com os mais belos versos que nasceram do ar. Porque nele tudo parece etéreo, como se vindo do nada. Inclusive a voz de Paulinho, pequena, exata, fina, do céu.
   Voce sabe, ou deveria saber, em versos de canção fomos um dia os maiorais. Não havia no mundo país com melhores letras. Não há mais letras. Com o fim do tempo e do horizonte se foram os milagres. "As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender". A gente fazia versos assim, simples e lindos, fáceis e tão cheios de mensagens e pensamento. E o povão cantava isso... Basta a letra de "Pra ver as Meninas" pra exibir o milagre. Um romance inteiro em 3 minutos de samba.
   Quero dizer ainda que ele é nosso Fred Astaire. O máximo com o mínimo.
   O máximo de elegância com o mínimo de esforço aparente. Natural como viver. Um milagre.

Nu Com A Minha Musica



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OUTRAS PALAVRAS- CAETANO VELOSO, UM MAPA PARA O MAIS SECRETO

   Assim como temos um "eu" que se manifesta para o mundo e um outro "eu" que nos é secreto e imutável; um país também tem uma face voltada ao globo e uma outra, íntima e imune ao tempo, que só é compreendida pelos filhos daquela terra. Não existe valor nessas duas faces, nenhuma é mais real ou melhor, ambas existem nessa comunhão volátil entre as duas, uma se comunicando com o tempo e o total, a outra impassível diante do que lhe é exterior. Ao escutar uma das grandes canções ( e são milhares ) de meu país, tomo contato com esse "eu" mais profundo. É como se ao ouvi-las me encontrasse na mais sólida das terras, e ao mesmo tempo no mais profundo e tênue dos sonhos. A música brasileira tem esse duplo poder: é sólida e real, mas ao mesmo tempo jamais parece acabada, pronta, definida, ela sempre mantém sua profunda ambivalência de tempo sem tempo e de verdade que se sonha. Ela não é melhor que o jazz ou mais aguda que o rock, mas ela é mais. É minha cara, é a sua cara, e eu te explico o porque. Mesmo que voce seja desses que acreditam ser "do mundo".
   Ao escutar este disco, por exemplo. A gente escuta uma voz que repercute dentro, porque ela é um eco feito por alguém que viu, comeu e ouviu o que a gente viveu. Por mais que tenhamos comido hamburger e pop corn, por mais que tenhamos comprado discos de Led Zeppelin e Sonic Youth, e assistido a HBO e a FOX Life, essa voz que escutamos foi alfabetizada em nossa lingua, adormeceu com a voz de pais que falavam nossa fala e sonhou sonhos brasileiros em lingua brasileira. É um disco feito por alguém que sabe quem é Renato Aragão, Zico, Lula ou Portinari; de alguém que sabe o que é a Serra do Mar, uma chuva de verão e uma menina de bikini azul; é alguém que sabe o que significa ter nascido aqui e chutado uma bola na rua. E por isso, "só" por isso, ele falará direto dentro do seu "eu" mais escondido. Por mais que voce abomine seu sotaque baiano, ou sua pretensão "terceiro mundista", saiba, voce é farinha do mesmo saco. Por mais que voce se esforce, para um inglês voce pronuncia " Tea for Two" como um brasileiro.
   Após cursar linguística, minha apreciação sobre este disco mudou radicalmente. Se antes eu amava aquilo que ele "foi" em minha vida, agora descubro o que ele "é" em invenção de palavras, de sentidos e a complexidade inesgotável que mora em seus sons vocálicos. É um tesouro guardado, e o mapa faz-se como canção. Doce. Com percussões delicadas, sempre, e um contra-baixo estilingado que embeleza ao dar ritmo. A canção do Brasil pode ser triste, alegre, angustiada ou sexy, mas jamais é estúpida, tentar encontrar na MPB a agressividade do rock é querer achar num pássaro a alma de um cavalo.
   Por quatro anos de amor, Caetano foi meu guia e meu pai de santo. De Aninha, por Marina e até Gigi, foram noites de janela aberta sobre a cama cantando à Lua. Fui tão feliz que hoje até dói lembrar. E é tão raro, eu sei, ter tido tanto assim. Dou graças a minha sorte. Sei bem o que é o amor.  Como eu amo esta canção! "Nú com a minha mùsica"... Ela anda como ônibus velho em estradas de poeira lá pros lados de Miracatu. Gingando lento de lá pra cá... Ela é como as janelas dos caboclos nos bananais. O horizonte do mangue e os meninos de bicicleta. E é o céu, o céu que é tudo e que sobe até bem pra mais.
   "Nú com a minha música", é como o banho lento- ansioso antes de encontrar o amor.
    E a música tem um assobio calmo, um violão lindo e uma percussão que só no Brasil.
    A brisa anunciando a chuva, linda como a franjinha de Aninha, o olhar de Marina e a voz de Gigi. Estanca o sangue do tempo e recupera a Lua pra mim. Uma canção que me prepara para sempre amar.
   Linda e tão doída. Uma canção que é uma prece, um caminho que vai de alma acima e não cai.
   Talvez a gente não mereça mais nada assim...
   Culminância de um disco perfeito, calor do meu sangue. Fé de que pode tudo ser.

SÉCULO XX E SÉCULO XXI, UMA HISTÓRIA A PARTIR DA FÓRMULA UM

   Estava revendo Grand-Prix, o ótimo filme de John Frankenheimer sobre a fórmula um. Um luxuoso filme que feito em 1966 acabou sem querer se tornando um tipo de documentário sobre a romântica batalha amigável que foi encerrada nos anos 80. Podemos ver Monza ainda com a pista a sessenta graus, Spa com quilômetros de pista campestre, Monaco quase sem propaganda e Brands Hatch com suas curvas em subida e descidas sem fim. Mas o principal são os pilotos. Eles corriam a 280 por hora sem nada que os defendesse da morte. Nada de guard-rail, nada de barras de proteção. Um erro e era o fim. Os carros derrapam todo o tempo e os pilotos trabalham sem parar. E daí vemos o clima de box. Pilotos amigos, combinando festas, paquerando as tietes, soltos e sem grandes obrigações. Apenas a paixão suicida pela corrida e pelo carro. Equipes de garagem, um único dono que é ao mesmo tempo projetista, treinador, pai e mecânico. Lotus, Tyrrell, Brabham, Ligier, Matra, BRM...
   E então os anos 80. As equipes passam a ser geridas como um investimento, um negócio e o piloto como um tipo de executivo de macacão. Pilotar é agora como ir pra cama com uma mulher usando um fone de ouvido: "Atenção, mais atenção ao mamilo esquerdo! Segure a ejaculação, ainda é cedo.... mexa esses quadris... estou sentindo um esfriamento da mão direita, mexa-a nas costas dela... voce ainda tem energia pra mais 20 minutos..."  Não há retrato melhor do século XXI.
   O século XX foi muito curto. Começou com uma guerra em 1914, teve seu apogeu após uma outra guerra ( 1945/1965 ) e se encerra na década de 80, com o fim das utopias e o inicio do mundo como tela hiper-exposta. Detalhe interessante: até 1979, 1980, voce ainda via na TV pessoas que ao serem entrevistadas se sentiam muito intimidadas. Cantores pop ou atletas que travavam na frente de um microfone. Hoje qualquer cidadão das ruas se faz natural diante de uma entrevista. Porque? Pra onde se foi aquele timidez que nada mais era que uma defesa da intimidade? Na verdade o que ocorre é que todos sentem-se todo o tempo em rede, uma câmera não assusta ninguém. A solidão do piloto, isolado em seu carro, dando o máximo diante da morte, isso não mais existe. A ironia suprema do século XXI é a de que nunca foi tão dificil estar completamente só. E ao mesmo tempo nunca nos sentimos tão solitários.
   Foi nos anos 80 que as últimas companhias de cinema "puras" quebraram. Todas passaram a ser controladas por big companhias "de fora". Como diz Bogdanovich, não só os donos dos estúdios nada entendem de cinema, como muitos deles nem gostam de filmes. É apenas um negócio. Isso se percebe na mudança que aconteceu nos lançamentos. Até a década de 70 um filme, mesmo os grandes, era lançado em 3 ou 4 grandes salas, de luxo. Daí se via a reação de público e crítica. De acordo com isso, aumentava-se o número de salas, ou se tirava o filme de cartaz. Até que algum gênio teve a ideia: lançar em 200 salas. Antes  que o público pudesse fazer comentários boca a boca. Em uma semana entupir o povo com a certeza de que aquele filme era O evento. Faturar tudo em oito dias. E depois se o boca a boca fosse ruim... dane-se, os trouxas já tinham gasto seu dinheiro. Essa é uma estratégia de quem pensa apenas em ganhar e nunca em fazer bons filmes. Os velhos donos eram tirânicos, mesquinhos e bregas, podiam ter um péssimo gosto para filmes, mas viviam pelo cinema, adoravam filmes, amavam sua profissão. O sonho deles era ganhar dinheiro fazendo bom cinema, não apenas ganhar dinheiro fazendo bons investimentos.
   É então nessa década que surge a super-estrutura que em seu extremo faz com que até os tais líderes mundiais se tornem apenas medíocres burocratas/testas de ferro da estrutura maior. Ao contrário do século XX, tempo de grandes homens, fossem eles grandes ditadores ou grandes criadores, temos agora o tempo de grandes "eventos", eventos que podem ser uma copa do mundo, uma eleição ou um show de rock.
   Jim Clark morreu em 1967 a bordo de um carro de fórmula 2. Bi-Campeão de F1, Jim Clark aceitara um convite para disputar uma prova de F2... por amizade, de graça. Pilotando como sempre no extremo limite, Clark encontrou uma árvore em seu caminho. Para o mundo inteiro, fora Brasil e Alemanha, ele foi o maior piloto da história. Schumacher tem mais títulos, Senna teve a sorte de ser exibido fartamente pela Tv, inclusive morrer em rede mundial; Clark morreu só, dentro de seu carro numa curva sem arquibancada e sem câmeras. Tinha 26 anos. Ninguém o obrigou a correr. Fez o que nascera para fazer. Era dono de seu nariz. Não havia um patrão que o obrigasse a não correr na F2. Ele podia correr onde quisesse, ir onde tivesse vontade, fazer o que pensasse.  Em sua morte simboliza-se toda a diferença entre duas épocas.
  

YEATS, BOXE, MAGGIE E UM COWBOY: MENINA DE OURO, UM FILME DO SUPER CLINT EASTWOOD

   Conheço várias Maggies ( personagem de Hilary Swank ). Elas lutam. Não têm absolutamente nada. Sorriem pouco, mas quando dão um sorriso ele vale ouro. Não são exemplos da beleza padrão, mas são lindas. Pedem muito pouco da vida. E perdem todo dia. Mas vivem, como elas vivem! De um beijo tiram toda uma odisséia e de um domingo em paz fazem um motivo para a existência. Essas Maggies estragaram meu gosto para mulheres. Depois delas eu nunca mais senti prazer com mulheres que ganharam tudo dado. Com mulheres que não precisam dar socos. O filme é um poema para todas as Maggies, e eu o revejo me sentindo apaixonado por ela. Eu amo aquela moça.
   Uma das Maggies de minha vida me disse um dia que eu era um Frankie. Perguntei se eu era assim tão velho. Ela disse que era por eu ter medo. Se essa Maggie soubesse ela poderia dizer que além de tudo eu sou louco por Yeats. Frankie vive na escória. É um perdedor, um solitário e um mandão. Um cowboy preso a cidade. Mas lê Yeats e estuda gaélico. Neste, que é o desempenho da vida de Clint, ele mistura todas as suas personas: o diretor, o solitário, o cowboy salvador. Frankie vai a igreja, lê Yeats e nada vê de redentor em sua vida. Então ele vê Maggie.
   Hilary Swank ganhou o Oscar de atriz em 2005 por este papel. Ela está deslumbrante. A pobre Maggie se torna linda em cada sorriso e consegue parecer uma menina, mesmo em meio a socos sobre um ringue. Cada vez que ela diz: "Ok Boss!" , sentimos verdade e vida naquilo tudo.  Mas o filme é do velho Clint. Majestoso, essa é a palavra exata para o que ele faz. A cena final, em que ele se dá para ela ( é o que ele faz, como mártir ele a deixa partir sabendo que ele irá junto ), é de uma sincera emoção. Clint já foi muito mais emocionante, admirável ou adorável, mas jamais foi tão humano.
   O roteiro de Paul Haggis é baseado num livro de F.X.Toole. Ganhou um Oscar. Toole é irlandês. Foi boxeador. toureiro no México, pescador no Caribe e viajou todo o mundo. Surpreendentemente, tem a voz suave, é educadíssimo, vai todo dia à igreja católica e adora poesia. Um tipo de John Huston com fé.  Aliás, mais um tipo de artista à la Huston. Frankie é Toole de certa forma.
   Eu chamaria o filme de obra-prima até seus 3/4. No 1/4 final ele ameaça cair em mais um melô de gente em hospital. O papel de Swank perde a originalidade e se torna um desempenho tipo Oscar. Mas Clint luta bravamente e consegue se equilibrar nesse meio fio entre a apelação e a verdade. A forma como ela morre redime o melô.
   As lutas de boxe são perfeitas e todos os personagens secundários são criveis. Levou ainda direção, filme e coadjuvante para um Morgan Freeman doloroso. Depois desses prêmios o Oscar não acertou mais. Talvez porque o cinema tem errado demais.
   Dizem que todo homem triste produz arte alegre e que um homem alegre produz arte dramática. Não sei se é verdade. Não acho que Bergman fosse alegre. Mas sei que todo humorista é tristonho. Bem, se essa tese for verdadeira, Clint Eastwood está tendo um fim de vida muito feliz. Poucos cineastas americanos têm feito filmes tão melancólicos. Menina de Ouro é prova de que a tristeza pode ter uma beleza invencível. O maior elogio que lhe posso fazer é que ele nos hipnotiza, nos faz chorar e é digno de cada Maggie que luta por aí. Clint Eastwood deixará um vazio imenso quando partir. Ainda bem que ele é invencível !
  

O PLANETA DOS MACACOS, AFINAL: QUEM É O HERÓI?

   Existem momentos que definem um caminho futuro em sua vida. Assistir este filme na TV, aos dez anos, sábado de noite com meus pais, serviu para me mostrar que o cinema podia ser uma coisa muito mais desconcertante que aquilo que eu pensava. Esqueça a refilmagem de Tim Burton, um dos filmes mais aborrecidos da história do cinema, e não leve em conta a nova saga, que se concentra nos efeitos e nada tem de relevante em história. Esta é a origem, a versão de 1967, que estranhamos hoje não ter conseguido nenhum reconhecimento da critica da época. Era um tempo em que todo filme que fosse "fantasioso" seria sempre tratado como "filme B". Mas com o tempo este fascinante exercício de criação se fez clássico. Além de ter sido um hit entre o público desde sempre. O filme que vi na TV Globo quando criança era um evento especial, a primeira exibição na telinha de um filme famosíssimo. E eu explico agora, o que ele tem de tão bom?
  A história. Baseada em conto de Pierre Boulle; Michael Wilson e Rod Serling, conseguiram dizer coisas profundas sem nunca perder o contato com a emoção, com a aventura. Três astronautas caem num mundo desconhecido. Viajaram a velocidade da luz e agora mal conseguem saber em que tempo estão. Vagam por um deserto e então um bando de macacos civilizados os atacam. Só um sobrevive. Até aí o que temos é pura inquietação. A trilha sonora de Jerry Fielding consegue ser profundamente cacofônica e mesmo assim servir às imagens. Graças a ela nossos nervos se sensibilizam. As imagens conseguem criar estranheza apenas com a habilidade de foco e luz. Nada foi construído, é o nosso mundo, mas parece muito esquisito.
  Charlton Heston sempre foi um deus, um Moisés, um Ben-Hur. Ele foi um herói de ação que parecia inteligente. Conseguia transmitir uma imensa virilidade mesclada a vida interior complexa. Isso é muito raro, um ator fisico e mental ao mesmo tempo. E além de tudo ele era dono de uma voz poderosa, ecoante, a voz de quem sabe fazer e faz. Pois bem, ele é preso e se torna um tipo de rato branco de laboratório. Nossa primeira surpresa é essa, os homens não são macacos nesse mundo, não são nem mesmo coelhos, são ratos, uma praga que deve ser extinta. Com o tempo ele irá falar, irá angariar a simpatia de um casal de psicólogos e a ira de uma autoridade religiosa. Tudo culminará com o final antológico. Daí vem a riquesa do filme, ele poderia, e é também, ser um alerta contra a crueldade que fazemos aos os animais. Mas ele vai além, mostra a igreja e todo dogma cientifico como depositário de autoritarismo, de cegueira. Mas, e aí vem seu ponto principal, quando Heston descobre a verdade, descobrimos com ele que é ELE, o até então Herói, o grande Vilão!!!! O final do filme não é apenas impactante por ser surpreendente ( e na época eu fiquei muito chocado ), ele causa surpresa por percebermos junto com Heston que o macaco-vilão "poderia" estar certo. Como agentes do mal, esses simios querem destruir a raça humana, mas estariam errados? A questão do filme é: os homens merecem viver?
   As refilmagens, a série de TV, as antologias de "melhores cenas" de cinema, destruíram a surpresa que aquele final causava. Mas este filme sobrevive como algo de muito invulgar, diversão com cabeça, corajosa inversão de climas e de certezas.
  Franklyn J. Schaffner não errou durante dez anos. Fez uma série de filmes famosos entre 1965/1975. Em 1970 ganhou Oscar de direção com PATTON, talvez a melhor coisa que fez. Mas com o correr dos anos foi perdendo a garra e se tornou burocrático. Não dou os méritos deste filme a sua direção. Eles repousam em roteiro perfeito e uma equipe inspirada. Mas Schaffner teve ao menos o mérito de não estragar o que tinha em mãos. O PLANETA DOS MACACOS sobreviveu às modas. É um grande filme.

O MAR, O PSICANALISTA E A MUSA

   Aqui vão três perfis de três pessoas, hoje pouco conhecidas, mas que tiveram importância fundamental não só pra mim, como pra um monte de gente da minha geração.
   Arduino Colasanti nasceu na Itália, mas isso é só um detalhe. Na verdade ele foi o primeiro cara a ficar de pé numa prancha no Rio ( no Brasil foi um salva-vidas de Santos que agora me escapa o nome... que injusto! ), era um cara culto, elegante, atlético, bonitão e boa praça. Juro que é verdade, ele existe e namorou todas as mulheres que valiam a pena. E algumas que nem valiam. Foi um dos maiores símbolos sexuais do país, num tempo em que isso não era uma profissão.
   Mas ele gostava mesmo era do mar. Nadava imensas distâncias, pescava ( era amigo dos velhos pescadores ), jogava volei, frescobol, futebol na areia e nas horas vagas namorava. Arduino veio pro Brasil em 1948, aos doze anos. Sua irmã, Marina, se faria uma das melhores jornalistas do Brasil. Ao chegar foram morar no Parque Lage, no palácio que lá existe. Eles eram parentes da Condessa Lage. Mas, cercado por todo aquele luxo suntuoso, o negócio de Arduino era fazer amizade com pescadores e viver de pesca e provas de natação. Ajudou a desbravar Búzios, Arraial do Cabo e Cabo Frio. Entre seus alunos de natação houve um tal de João Gilberto. Outro que Arduino ensinou foi Paulo Francis. Também apresentou Búzios à Brigitte Bardot, e disso ele se arrepende pois não podia adivinhar o que iria acontecer com a praia que ele tanto amava. Ele era o tipo de cara que se lhe cortassem a luz por falta de pagamento, acenderia velas e tudo bem. Um hippie anterior a invenção da palavra.
   Em 1966 se tornou ator. Não que quisesse, mas um de seus amigos de praia era Nelson Pereira dos Santos e ele achou que Arduino seria um bom tipo para seu novo filme. Depois desse ele fez mais 36 filmes, sempre achando que o próximo seria o último e nunca pensando que aquilo fosse uma carreira. Foi o primeiro ator do Brasil a fazer nú frontal em cinema e se tornou depois escafandrista. Foi em 1977, quando ele cansou do cinema e se mudou pro Maranhão. Foi viver num saveiro. Mas em 79 já voltava pro Rio. Desde então, fez algumas participações em filmes, rodou documentários sobre a vida marinha e deu aulas de mergulho para uns poucos. A grana da familia se foi faz tempo, mas Arduino não se importa. Viveu onde desejou viver, namorou as melhores mulheres, nunca precisou obedecer alguém.
   Vendo-o hoje, um senhor idoso, a pele marcada pelo sol, os olhos azuis ainda sonhadores, o que posso sentir é prazer. Prazer em ver em Arduino que a vida ainda pode vencer, que a liberdade pode ser possível e que o desejo é imperador. Na voz daquele velho do mar há alegria, paz, sentido.
   A segunda figura é um dos mais surpreendentes super-stars dos anos 70/80, Eduardo Mascarenhas, um psicanalista. Se tive ou tenho algum interesse por psicologia, ela se deve a antológica entrevista que ele deu à Playboy em 1980 ( quando a Playboy era a Playboy ). Ele, naquele tempo, era figura presente em todo canto, TV, jornal, rádio e principalmente festas, restaurantes e Ipanema. Eduardo era abominado por seus colegas, era chamado de charlatão, egocêntrico, anti-ético. Isso porque ele quebrava vários tabús ( num tempo em que eles eram todos quebrados ), Eduardo encontrava clientes na praia e conversava com eles. Dizia que no consultório era o psicanalista, na praia era um homem. Aliás essa era uma de suas frases: psicanalistas são humanos, vivem e sentem desejo. Tanto desejo que ele se casou com uma ex-paciente, Christiane Torloni, na época uma das mulheres mais gostosas do Brasil. Talvez ainda seja. Mas as más linguas diziam que ele namorava todas as pacientes....
   Houve uma época em que ele recebia em seu consultório: Arnaldo Jabor, Caetano Velloso, Francisco Cuoco, Daniel Filho, Gilberto Braga, Glauber Rocha, Cacá Diegues, Sonia Braga.... seu consultório era em Botafogo, na Visconde de Pirajá.
   Ele dizia que era tudo inveja, inveja e medo. Medo do que ele falava. Em 1980 ele e Hélio Pellegrino foram expulsos da SPRJ ( Sociedade Psicnálitica do Rio de Janeiro ) por falarem a verdade. Eduardo disse que 90% dos psicanalistas jamais se dera ao trabalho de ler Freud, que no Brasil era imoral cobrar os preços que eram cobrados e que entre eles existiam até ex-torturadores. Um ano depois ele foi readmitido ( Eduardo fazia parte da Sociedade Psicanálitica de Vienna ). Nessa altura ele tinha programas na TV e pregava uma psicanálise carioca. Que psicanalista e psicanalisando não deveriam negar o fato de ser brasileiros. Ele queria sessões mais calorosas, carinhosas, vivas. Dizia que aquilo que Freud dissera, na conservadora e fria Vienna de 1880 era inaplicável ao Brasil. Que nossos medos e desejos eram outros e a forma de abordá-los tinha de ser radicalmente diferente. Mas ele próprio diria que nada há de mais conservador que um grupo de Freudianos e que qualquer mudança é sempre vista como charlatanismo. Infelizmente em 1997 um câncer o levou aos 54 anos. Ruy Castro diz que a influência e o carisma de Mascarenhas eram tão grandes, que até hoje tudo o que Arnaldo Jabor fala e escreve tem a marca de Eduardo.
   Se Ipanema dos 60/70 é marcada pelo prazer, e se eu estou escolhendo esses caras por entender que prazer é liberdade ( Arduino ) e inteligência criativa ( Eduardo ), a terceira vértice é a beleza, porque a beleza é o maior dos prazeres.
   Ionita Salles Pinto é até hoje minha noção de beleza feminina. Desde meus doze anos, quando comecei a reparar nela, em fotos de festas, fotos de viagens, fotos sensuais, e algumas aparições na TV. Ela era sensual, belíssima e acima de tudo dava uma sensação de saúde, de luxo natural, de saber viver.
   Filha de diplomatas, aluna do Sacre-Coeur, aos treze anos já era um avião. Com 14 teve uma filha, um filho aos 15 e aos 17 se separou do pai dessas duas crianças.  Só isso?
   Aos 16 ela fizera amizade com diretores de cinema e começara a frequentar reuniões da esquerda. Teve de pular um muro quando a policia entrou atirando. Ivan Lessa jura que ela era a mulher mais linda do mundo, fato que é confirmado por toda Ipanema de então. Ao se separar do pai das crianças, namorou Renato Machado ( o jornalista ), e Francis Hime. Em 1967, com vinte anos, foi pra Paris estudar cinema. Mas a saudade dos filhos a fez voltar e na festa de retorno conheceu Jorginho Guinle. A cantada de Guinle é histórica: " Ionita, eu tenho 52 anos e voce 20. Me dê dois anos de sua vida. Pra voce não é nada, pra mim é uma vida inteira". Ficaram sete anos juntos. Ela passa a frequentar o circulo de Guinle: os Rothschild, os Windsor, Marisa Berenson. Polanski. Uma vida de festas em Paris, Veneza, Londres, Cannes e Hollywood. Fez fotos com Richard Avedon e se cansou de tanto champagne. Em 1975 ela conheceu Antonio Guerreiro. Aí a relação foi o oposto da que ela tivera antes. Trancavam-se e ficavam dias sem sair. Antonio a fotografava obsessivamente. Milhares de fotos, milhares de poses não posadas. Em dois anos acabou.
   Depois ela se casou de novo, foi avó aos 35 anos, abriu uma loja e adaptada ao estilo dos anos 80, fez-se mulher de negócios. Ionita é símbolo da intensidade de uma geração.
   Essas três belas figuras são daquelas que vi de longe em minha formação. Arduino era o cara que eu ( e toda a torcida do Flamengo ) queria ser, Eduardo o cara que me ajudava com seus toques, e Ionita a mulher que eu pensava conhecer.

B-52's Devil in my car



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WILD PLANET - THE B'52'S, HEDONISMO PORQUE A VIDA É CURTA, BABY

   Felizmente as pessoas tão se tocando e essa banda começa a ter o reconhecimento que merece. Eles sempre foram ótimos! Basta voce olhar o video acima, 1978, os começos da banda. Repara na empolgação do público!!! Fred, Kate, Cindy, Ricky e Keith sempre souberam aquilo que queriam, dar prazer. Conseguiram. Mas o som desse grupo, a sonoridade de seus dois primeiros discos continua a ser única. Há um segredo nesses discos, e esse segredo está todo na guitarra.
   Em 1980, quando na loja de discos do Iguatemi o vendedor nos empurrou esse LP importado, garantindo que iríamos virar fãs ( eu e meu irmão ), o B'52's era completamente desconhecido por aqui. Fomos pra casa, botamos pra tocar e nos apaixonamos. Era diferente de tudo o que eu escutava até ali. Não era punk, não era rock clássico, nada progressivo, nem funk, nem soul ou reggae. E entre as bandas novas não lembrava Cars, Blondie ou Gary Numan. O que era aquilo? Era Sci-Fi barato, daqueles com pratos de papelão fazendo as vezes de disco voador, e era falsamente simples como Beach Boys mas com a coisa sexy da disco e mais surf bands e girl groups. Mas mesmo dizendo todas essas influências ainda não era isso.
   Três cordas de guitarra e todas afinadas em graves. Um teclado espacial, de filmes de Ed Wood, um baixo, quando há baixo, de soul music e mais uma batera de new wave, pra dançar. E as vozes... O REM chamou Kate Pierson quando quiz expressar alegria e Iggy Pop quando quiz cantar o amor jovem. As vozes femininas são colegiais, variam entre o histerismo, a alegria e a ansiedade de um sábado de noite. E o cara se chama Fred Schneider. Tive um amigo que virou gay por causa dele. Foi numa noite no Madame Satã. Ele começou a cantar imitando Fred. Soltou a franga e se descobriu. Porque pouca gente se ligava que eles eram uma banda gay. Do tipo ursinho Puff e Bambi. Fofos. Mas com bastante pimenta e batida de limão pra fazer descer.
   Dancei muito com eles. Não soltei a franga, mas devo ter chegado bem perto. Na época não se dançava calado, dançava-se cantando alto. Então tome os "uh uh uhs" do B'52's. A gente sabia que eles não eram tão "relevantes" como Clash ou tão "artisticos" como o PIL, mas e daí? Era bom pra caramba. E era verão. Foi um verão deles e mais o primeiro disco dos Pretenders. E ainda Emotional Rescue, Another One Bites The Dust, Ramones e Kurtis Blow. Jorge Ben, Pepeu e Dadi. Superman no cinema e uma tal de Aninha no coração. Do cacete. ( Mas no Objetivo logo surgiram uns caras "bem informados" pra me dizer que B'52's era medíocre, que eles não sabiam tocar. Que bom era Supertramp e Pink Floyd ).
   Do primeiro acorde veloz, até o último, viajante, o disco inteiro, o segundo da banda, é absolutamente perfeito. É dos poucos sem nada de excessivo, nada sobrando, o pique não cai. Claro que tem momentos acima do perfeito. Dirty Back Road é uma obra-prima de clima, de ritmo, de timbre. Runnin Around é empolgante, excitante, adrenalínica. Devil in My Car é um dos hinos da época e de sempre, Fred dando um show em seu estilo único. Quiche Lorraine era cantada por uma ridicula banda que eu tive. Pra nós era "Quem Sou Eu" no refrão Quiche Lorraine. Strobe Light é uma festa-frenesi... e sei lá mais o que.... Não é disco pra ficar descrevendo, é pegar e dançar, é fórmula de prazer.
   Antes de postar isto eu dei uma rápida olhada no Facebook e vi uma noticia sobre vale-tudo, uma propaganda de faculdade, um post sobre silicone e outro sobre uma Ferrari. Daí agora eu penso em Funk-do-Rio, Lady Gaga, Adele e as superproduções de Beyoncé e que tais.... sei lá, acho que tá sobrando força, agressividade, ambição, profissionalismo. Tá faltando B'52's. ( E até mais que eu vou ouvir de novo ).