UM ATOR CHAMADO WILLIAM POWELL ( A INVENÇÃO DO CASAL MODERNO )

   William Powell nasceu no fim do século XIX. Filho de um contador e de uma alegre irlandesa, seu pai sonhava em vê-lo advogado. Mas não conseguiu. Powell acabou no teatro em começos do século XX. Fazia de tudo: vaudeville, dramas, comédias e até Shakespeare. Teve dois anos de fome absoluta ( o pai lhe cortara o dinheiro, descontente com sua decisão ). Até que surgiu em sua vida o cinema. Durante todo o período do cinema silencioso, ele foi um vilão. Era sempre o cara que a platéia deveria odiar. Mas havia algo nele, e o público meio que gostava dele. Quando surgiu o cinema falado, se escutou então sua voz. Uma dicção suave, clara, cultivada. Estava consumada a mudança, William Powell seria um herói das comédias espertas.
   Seu rosto não irá agradar os jovens inteligentinhos de agora. Ele tem a face de seu tempo. Bigode fininho, cabelo empastelado e dividido ao meio, magro e nada atlético, modos de gentleman. Aliás essa palavra é muito citada no livro de Lawrence J. Quirk que acabei de ler, gentleman. Na tela e na vida, Powell foi um cavalheiro. Casou-se ainda no tempo do cinema silencioso. Não deu certo e o filho que nasceu se mostrou instável ( acabou por se matar aos 43 anos, nos anos 60 ). Continuou amigo dessa primeira esposa. Depois, já famoso e trintão, se casou com Carole Lombard, a futura maior comediante dos EUA. Mas ela se mostrou muito imatura e o casamento durou apenas dois anos. O que não os impediu de serem amigos até a precoce morte dela ( em desastre de avião ). Foi quando Powell se apaixonou pela sex-symbol Jean Harlow. O casamento estava já planejado quando ela faleceu vítima de uma peritonite. Arrasado, Powell logo depois descobriu ser portador de um câncer no reto.
   Imagine o que deveria ser,  ter um câncer em 1938. Powell foi operado, passou dois anos em recuperação e acabou por viver até os 91 anos. Ele, que era dado como condenado, faleceu apenas em 1984. Após esse câncer, de volta ao cinema, ele se casou mais uma vez, com uma jovem atriz, 27 anos mais jovem que ele. Todos os amigos lhe avisaram: Não vai durar...pois bem, durou 40 anos, até a morte dele. Felizes.
   William Powell foi sempre um homem filosófico. Ele sempre teve a certeza de que não se deve culpar a vida ou o destino. Cabe a cada um fazer o melhor que puder. E o dever único é ser uma bela presença na vida dos outros. Em meio a toda essa ebulição de casamentos desfeitos e doenças, Powell se manteve são. Cultivava a solidão, tinha poucos e sólidos amigos e nunca perdeu de vista as ex-esposas. Abandonou o cinema aos 61 anos, quando achou que havia feito o que devia fazer e em paz, viveu mais 30 verões.
   No cinema o fato mais importante de sua vida foi o encontro com Myrna Loy. Juntos eles criaram o mito do casal feliz e moderno. Urbano, sofisticado, cínico. Explico.
   Até 1934 um casal feliz era um casal de pombinhos. Doce, amoroso, aconchegante, sem surpresas. Powell e Loy, com sua química sofisticada, inventam ( sim, inventam e espalham ao mundo via cinema ), um novo tipo de casal feliz, o casal que se agride, se separa, se ofende, se provoca todo o tempo, de brincadeira. O casal que joga. E ri, ri muito e faz os outros rirem também.
   Ele sai com quem quiser ( desde que seja fiel, claro ), ela idem. Ele tem sua vida pessoal, ela idem. E bebem, fumam, dançam, discutem, ameaçam se bater... mas jamais gritam, jamais perdem a pose, nunca deixam de ser elegantes. Eureka!!! O mundo se apaixonou pelos dois e eles fizeram então 13 filmes juntos. E até hoje os filmes tentam reprisar aquele casal. Não só os filmes, as novelas, as séries de TV e até muita gente na vida pessoal. E creia, não havia isso antes de 1934, que é quando foi lançado A CEIA DOS ACUSADOS ( THE THIN MAN ), o filme baseado em Dashiell Hammett que começou tudo. Os dois ensinaram ao mundo que o casamento podia ser mais que ser apenas feliz, podia ser engraçado, excitante, imprevisível. E sempre wit.
   Preciso falar de Myrna Loy.
   Os anos 30 tiveram Garbo. Bette Davis e Marlene Dietrich. Tiveram Joan Crawford e Claudette Colbert. Kate Hepburn e Carole Lombard. E na votação do público a mais querida era Myrna Loy. Porque? Fácil responder. Nós admiramos Davis e Kate, rimos com Lombard e Colbert, e somos meio que intimidados por Garbo e Dietrich. Mas Myrna Loy nós amamos. Ela não é apenas linda. Ela é mais que isso, ela é "simpática". Desejamos morar com ela, sair com ela, viajar com ela. Poucas atrizes têm esse dom. Mais que atração ou admiração, o que sentimos é um tipo de "amizade". Myrna Loy, em que pese todo seu sex-appeal ( que é enorme ), é uma pessoa da familia.
   E o mesmo acontecia com Powell. Ele é o tio maluco, sofisticado, esperto e calmo, que viveu em Paris e em Veneza e que vem nos visitar de surpresa. Com ele vem sua esposa, Loy, que ele conheceu em Vienna ou Praga e que é tão esperta e refinada como ele. O encontro desses dois só podia dar certo. 
   Existem "acidentes" no cinema que são maravilhosos. É quando se forma uma parceria insuspeita, mágica, definidora de um futuro. As uniões de ator e diretor são muitas ( Ford e Wayne, Huston e Bogey, Truffaut e Leaud, Scorsese e De Niro, Pollack e Redord ), mas existem aquelas de ator e ator/atriz... ( Laurel e Hardy, Bob Hope e Bing Crosby, Astaire Ginger Rogers ), William Powell e Myrna Loy, em termos de união homem e mulher foi a mais feliz, mais brilhante e mais festiva.  Poder ainda assisti-los é um privilégio.
  

OS SONHADORES- BERNARDO BERTOLUCCI ( TAVA DEVENDO ESSA OPINIÃO PRA UM AMIGO )

   1968 foi o ano de 2001, Kubrick. Não precisava mais nada, mas ainda houve IF de Lindsay Anderson, KES de Loach e mais BEIJOS PROIBIDOS de Truffaut, VIA LÁCTEA de Bunuel, O ANJO EXTERMINADOR de Pasolini, e os primeiros filmes de Scorsese e De Palma. Peckimpah fez sua obra-prima e Steve McQueen era o ator mais famoso do mundo. E nesse mesmo ano, Bertolucci lançava PARTNER, um dos mais perturbadores filmes que já vi. E a chave é esta: maio de 1968 foi um momento perturbador. O bem e o mal se agigantaram e as consequencias de seus urros se fazem sentir até hoje. ( o que vi na USP é uma medíocre rememoração deste filme. Uma triste farsa. ) Mas para falar de 68 é muito melhor ter visto os excelentes extras do DVD. Eles são mais comoventes que o filme, filme que é bonito, mas filho dos anos 2000...frio.
   Os Sonhadores é muito bem dirigido. Bertolucci tira tudo o que pode de seus atores "mais ou menos". E faz maravilhas com seus floreios de câmera dentro dos corredores e das salas. Mas o roteiro é muito fraco. A impressão que se tem é que o filme poderia ser mudo. Se O CÉU QUE NOS PROTEGE era um filme de soberbo roteiro e de direção perdida, aqui temos o oposto.
   Nada no filme lembra 68. E as cenas que envolvem multidões se parecem demais com propagandas moderninhas. Os atores são frios demais, limpos demais, certinhos demais. Faltou Dionisio, deus que Bertolucci conhece bem, como mostrou no ÚLTIMO TANGO. PARTNER é 1968, OS SONHADORES é a lembrança de um senhor em 2004.
   De qualquer modo é emocionante, e digna de seu talento, o momento em que Bertolucci mistura as imagens de Jean-Pierre Leaud. Nós o vemos em 68 e em 2004, no mesmo discurso e com a mesma roupa. E isso me leva à história.
   Um cinéfilo americano conhece um casal de irmãos e passa a morar com eles. Rola sexo, pouca droga e algum rock. Vivem dos cheques dos pais que eles odeiam e no final saem à rua para participar da revolução. Só isso. Não pense que há algum simbolismo no filme, ele é o que é.
   Isso me leva à emoção que há nos extras do DVD. O abraço que Leaud dá em Bertolucci após gravar sua cena já valem todo o DVD. O menino de Truffaut, o Antoine eterno, velho, triste, abraçando Bernardo...Lindo. Os extras explicam o que foi 68 e tem cenas de arquivo maravilhosas. As barricadas foram bem maiores que as do filme e Paris se tornou uma cidade-kaos. Tudo parou de funcionar. Bertolucci diz que a grande diferença que ele sente no mundo de hoje é a solidão dos jovens. Em 68 tudo era feito em grupo, inclusive o sexo. Se drogar ou escutar música a sós seria impensável. Um sonho só era válido se fosse o sonho de uma multidão. Isso terminou.
   Ele diz ainda que a grande vitória do movimento foi o feminismo. Disso eu discordo. O feminismo já vinha ganhando corpo desde os anos 10. Seu roteirista diz algo melhor: que os jovens de 68 queriam levar o mundo à Pequim, e terminaram na California. A revolução terminou na politica da "revolução do Eu". Hedonismo, consumismo e depois o politicamente correto. Eu diria que além disso, 68 fez nascer o terrorismo europeu ( Brigadas Vermelhas, Baader Meinhoff ) e popularizou as drogas. Exterminou o terno e chapéu e liberou o corpo de toda amarra.
   Bertolucci diz que em 68 ele já era velho para a revolução ( tinha 27 anos ). Que seu maio fora feito cinco anos antes. E que ele se distanciou de amigos como Godard e Belochio, que ainda tinham fé em Mao. E realmente logo em 1970, vemos que os filmes de Bertolucci ( como os de Truffaut ), já são exemplos da tal revolução interior, revolução típica dos anos 70. Nesse ponto, deve-se dizer que Mathew, o personagem americano é a voz do futuro, de 1978, da América.
   Hoje, 2012, existe uma revolução permitida. Voce pode transgredir em certos pontos e ser radicalmente contra coisas "feias". Fazer sexo com sua irmã é uma coisa feia. E essas coisas feias são chamadas hoje de "doenças", e nada em 2012 é mais feio que uma "doença". Fumar, beber, transar com alguém de 17 anos, caçar, envelhecer, tudo isso são "doenças" que devem ser tratadas. Aliás, para os ateus a religião é uma doença, e para os frequentadores de cultos, ser ateu é uma doença também. Weeelll....
   A trilha sonora é fraca. Bertolucci nunca gostou de rock. Janis e Doors é coisa de quem vê a coisa de fora. O som de 68 passa por Stones, sempre. Godard os filmava enquanto a coisa pegava fogo. ( Não sabia ainda que eles eram o máximo do "vire-se sózinho" ).
   Dois detalhes finais.
   Buster Keaton é sim menos nobre que Chaplin, Mas ele não é uma engrenagem, uma máquina. Keaton é o homem estóico. Ele não chora, não se lamenta, não pede nossa pena. Chaplin é choroso. Ele implora para que o amemos.
   No fim do filme, na verdade um pouco antes, quando a menina vai se matar, a cena é intercalada com uma outra menina, em p/b, rolando na relva e finalmente caindo na água. Essa cena é da obra-prima de Robert Bresson, MOUCHETTE.  Junto com as cenas de Anna Karina correndo no Louvre e Fred Astaire dançando, são o coração de qualquer cinéfilo.
  

THE RED SHOES, FILME DE MICHAEL POWELL ( O FAVORITO DE SCORSESE )

   Interessante perceber que escolho filmes, às vezes, como em cardápio. Tipo: "Hummm...vou começar o ano com..... ah! The Red Shoes!!!!"
   É a terceira vez que o assisto. Na primeira assistida, achei que era o filme mais gay já feito ( puro resquício de minha educação conservadora. Cresci numa casa onde até mesmo ler poesia era coisa de gay ), de qualquer modo, nessa primeira vez me decepcionei. Achei-o pedante, excessivamente snob, e pior: mofado. Gostei apenas da fotografia de Jack Cardiff.
  Na segunda vez descobri o filme. Entrei dentro do filme. Foi como encontrar a senha que me deu acesso a seu mundo. Senti o filme como uma viagem de LSD. Um delirio de cor, som e rostos esquisitos. Sim, é merecedor de sua imensa fama.
  Antes de dizer como foi minha experiência atual, direi que THE RED SHOES é considerado um dos, se não o maior, filme feito na Inglaterra. Ganhou Oscar de fotografia, num tempo em que um filme inglês ser premiado era raro. Tornou-se uma obsessão para Coppolla e Martin Scorsese. Martin pagou sua restauração em 1980, e mais que isso, organizou uma mostra de toda a obra de Powell no Museu de Arte Moderna de NY. Após vinte anos de ostracismo, Powell era justamente reabilitado. ( Seu ocaso se deveu ao filme maldito que fez em 1960, PEEPING TOM ). Mais que isso, o velho senhor de 75 anos, tornou-se um tipo de consultor da produtora de Scorsese e Copolla, ( dentre outras coisas, foi Powell que aconselhou Martin a fazer The Goodfellas ).  E ainda se casou com a montadora, a melhor dos EUA, Thelma Schoonmaker. Filmes de Copolla, como Dracula ou Rumble Fish, são filhos óbvios de Powell. Mas e Scorsese, o que ele vê em Powell? Há algo em comum entre os dois?
   Pela primeira vez eu noto similaridades entre dois gênios tão diferentes. THE RED SHOES tem movimentos de câmera velozes, cortes insuspeitos, closes assustadores. É uma técnica moderna, ousada, Scorseseana. Mas o principal é que, como nos principais filmes de Martin, o tema do filme é a obsessão. A terrível obsessão de um diretor de ballet por sua obra. Esse diretor tenta fazer da vida uma coisa ideal, fazer da vida pura arte. Não pode conseguir. O sexo e a morte o derrotam. THE RED SHOES é tão terrívelmente cruel quanto qualquer filme sobre a máfia. E é tão doentio quanto Taxi Driver.
   Então o assisto na madrugada deste dia 1. Ligo o aparelho as 6 horas. Após dormir apenas três horas. Começa....
   Estudantes invadem um teatro em Londres onde vai haver um ballet......e o resto é lenda....
   Há um diretor tirânico, que cobra de todos dedicação absoluta. Há cor. Verdes e azuis profundos, imensos, amarelos sombrios. E cortes. Uma cena aberta mostra a orquestra. Corta para um rosto mau. Corta para o palco. Corta para o camarim onde bailarinas se apressam. Corta e corta e corta. Mas não é o corte à video clipe. É o corte que narra, que expõe, que nada esconde.
   Uma nova bailarina. Torna-se uma estrela. Se apaixona pelo jovem compositor. É seu fim. A vida real, feita de sexo e de morte penetra o mundo do balet. É o fim. Mas antes....
   A apresentação após os ensaios.  O que dizer? O filme não parece deste mundo. As pessoas parecem extra-terrestres, são como seres ausentes, vampiros, parecem feitas de outro material que sangue e ossos. Os rostos, cheios de maquiagem, são irreais. E os cenários são como sonhos de droga potente. Explodem de beleza, explodem de insuspeito desejo, são sonhos, sonhos que não se esquece. Música, dança e cor em profusão, em desatino.
   O filme se parece com o tipo de filme que seria feito em 1810, pelos românticos alemães, se em 1810 houvesse cinema. É febril, perturbador, desagradável, inebriante, de uma tolice sublime, anti-racional, mágico, estúpido e de uma coragem cafona estupenda. Arte superior ou carnaval grotesco, que importa? Ele se grava em sua mente e se torna seu espirito. Obra de feiticeiro.
   Enquanto o assisto penso na loucura que deve ser vê-lo em tela grande. Ver aqueles rostos, as luzes, os saltos, em vários metros de tela. Sair do cinema após essa experiência e ver a rua...deve ser enlouquecedor!
   Mas por favor, não espere deste filme "emoção". Ele não fará seu coração disparar, não te dará vontade de chorar e nem te despertará pensamentos filosóficos. Ele te dará admiração, pura e superior admiração. Voce se admirará com sua beleza de delirio, com sua música potente, com a dança exultante. Voce o admirará, o respeitará, irá colocá-lo em pedestal. O filme passará a ser uma parte de sua alma. Não te dará emoções, te dará sentimentos.
   Sinto que vi, talvez, o melhor dos filmes, talvez.
   Moira Shearer fez a bailarina. Quando o filme foi lançado ( 1948 ), a sensação foi tanta, que várias meninas se tornaram bailarinas ao ver o filme. A geração de balet que hoje tem entre 50 e 70 anos deve muito a este filme. Moira está apaixonante. Um rosto de vulnerabilidade, um tipo de pequena princesa virgem. Olhos cor de avelã, expressão de inocência. Todo o elenco brilha, e é estranho, a sensação é de que eles não são atores, eles são aquilo que vemos, parte de uma alucinação.
   Boa parte do filme se passa em Monte Carlo e é fascinante ver a cidade no pós-guerra. Jardins a perder de vista, veleiros no porto, pouca gente nas ruas. Essas cenas, assim como um passeio de carruagem pela orla, aumentam ainda mais o aspecto onírico do filme.
   Quem detesta ballet deveria ver o filme. Ele fará com que voce tenha outra impressão da arte. Irá te conquistar. Porque não é apenas ballet....é cinema, é drama, e é acima de tudo o mais alucinante dos filmes. Michael Powell fez aqui ( com Emeric Pressburger ), um sonho de ilusão.
   Um filme parecido com este nunca mais será feito. Assitir é experiência para uma vida. E nesta terceira vez, passo a compreender a obsessão de Scorsese. Para quem ama o cinema, ele é jóia de destaque, tesouro de luz, momento de maioridade. Lindo, excessivamente lindo.... talvez não o mereçamos mais.

EM BUSCA DE MEU PAI- STEPHEN HUMPHREY BOGART

   O American Film Institute, em 2008, elegeu pela terceira vez seguida, Humphrey Bogart como a maior estrela masculina do cinema. Kate é a atriz, e Bogey deixou para trás Cary Grant, Spencer Tracy, James Stewart e Gary Cooper, ( dos atores em atividade o melhor colocado é Jack Nicholson, ele é o 17 ).
   Como é ser filho do mito? Stephen é o único filho homem de Bogey e este livro é um ajuste de contas entre os dois. Pois Stephen, hoje produtor da ESPN, cresceu com um imenso rancor em relação ao pai. O motivo é muito simples, Bogey morreu aos 56 anos e Stephen tinha apenas 8. O que o filho mais queria o pai não pode lhe dar: tempo.
   Humphrey Bogart era um homem à antiga. Ele gostava de estar com sua turma, com seus amigos homens ( Huston, Sinatra e Spencer Tracy eram os mais íntimos ), o negócio dele era whisky, cartas, bares e piadas. Bogart falava sem parar, adorava provocar, dizia sempre o que pensava e por causa da lingua solta, vivia se metendo em brigas. Adorava ser ator e quando tinha tempo livre, se dedicava a seu maior amor: navegar. Humphrey Bogart era louco pelo mar e acima de qualquer coisa, se dedicava a seu veleiro, o Santana. E o tempo para seu filho?
   Quando se casou com Lauren Bacall, 25 anos mais jovem que ele, Bogey já tinha 45 anos. Ja´fora casado 3 vezes, e em seu último casamento fora muito infeliz. Mayo Method, alcoólatra, tinha a mania de jogar copos, pratos e facas nele. Mas eram ótimos na cama, e ele aguentou 8 anos. Foi pai pela primeira vez aos 48, e é cômico ver a falta de jeito que Bogart demonstra com crianças. Vários amigos dizem que ele olhava para Stephen como se o filho fosse um tipo de ET. Essa distância, esse tempo apressado que o pai passava com ele, marcaram Stephen. ( O que o marcou também é ter crescido com milhares de pessoas lhe dizendo: "Esse é o começo de uma bela amizade", " Toque de novo Sam", "Sempre teremos Paris", ou lhe provocando: "Então voce é o filho de Bogey? Vamos ver se voce é durão...").
   Há uma história engraçada que demonstra quem foi Bogart. Uma vez um amigo pediu para que ele tomasse conta de seu filho, só por duas horas. Apavorado, Bogey perguntou: "Mas o que eu falo com ele?", o pai disse: "Sei lá...voce é o padrinho dele, fale de religião". Quando o pai voltou, duas horas depois, viu Bogart sentado dizendo para o garoto: "Então Kid...existem dez mandamentos, certo?"
   Humphrey Bogart era filho do mais famoso cirugião de New York, e de uma renomada ilustradora de revistas. Cresceu em casa com mordomo e chauffeur. Aos 8 meses de idade, Bogey se tornou famoso em todo o país, sua foto foi usada como rótulo de comida de bebês. Mas seus pais não se davam e Bogart cresceu ouvindo suas brigas.
   Ele serviu na primeira guerra e era um aluno culto e bom leitor, porém indisciplinado e brigão. Foi na guerra, que num acidente bobo, ele feriu seu lábio, que ficou paralisado. De volta pra casa, tentou vários empregos, até que um dia, um amigo, filho de um amigo de seu pai, o levou para o teatro. Bogart foi contra-regra, assistente de direção e ator. Começou fazendo pontas e era ridicularizado por alguns críticos. Aos 30 anos se destacou na peça A FLORESTA PETRIFICADA, e quando ela foi levada para o cinema, lá estava Bogart.
   Sua atuação nesse filme é das coisas mais fortes que já vi em cinema. Ele entra em cena e o resto desaparece. Mas a Warner não soube usá-lo e Bogart passa anos como coadjuvante, fazendo papéis de bandido e de vilão. Até que Raoul Walsh e depois Huston lhe dão a grande chance. Bogart estoura e se torna o ator mais bem pago da Warner. Em 1956 morre de câncer. Tinha 56 anos. Como estrela ele só viveu 15 anos. Quando fez O FALCÃO MALTÊS já tinha 41.
   Quando Bogart morreu, as grandes estrelas do cinema eram Marlon Brando, John Wayne, Burt Lancaster e William Holden. E nos anos 40, essas estrelas eram Gary Cooper, Cary Grant, Henry Fonda, Clark Gable e Tyrone Power.  O mito Bogart nasce após sua morte. Quando ele morreu, o que se noticiou foi a morte de um bom ator, um ator digno, durão, único, mas não um mito. Ninguém se matou por ele, ninguém desmaiou. No enterro, discreto, estavam apenas os amigos, Huston, Sinatra, Kate e Spencer Tracy. O que fez dele um mito?
   Uma corrente diz que o mito nasce com Godard e o filme ACOSSADO. Jean-Paul Belmondo idolatra Bogey no filme e depois em ALPHAVILLE temos essa idolatria repetida. Stephen discorda. Para ele o mito nasce logo em seguida a sua morte. Nasce no MIT e em Harvard, com um festival Bogart organizado para o homenagear. As sessões lotam e mais incrível, durante os filmes os estudantes repetem os diálogos, vão às sessões vestidos de Bogey e assistem os filmes dúzias de vezes. Logo universidades de todo o país fazem festivais Bogart. Nascia o mito.  Será?
   Há também uma terceira corrente, que diz que Bogart encarnou, sem querer, o "espírito do século". No rosto de Bogart se espelha o homem que viu tudo, que sofreu tudo, e que descobriu que a vida não pode e não deve ser levada a sério. Ele é o existencialista encarnado, personagem de um mundo vazio, ele pega a vida nas mãos e faz dela o que quer e o que pode fazer. Será?
   Stephen ainda fala de uma outra tese, a que fala que Bogey representa o pai que todos nós perdemos. Ele é o adulto que nos dá segurança, é o modelo viril a ser seguido.
   Penso que é tudo isso junto. Um mito não se faz com um fator. É uma soma de várias teses, de acasos e de acertos propositais. O que sabemos é que dá para se fabricar uma estrela, mas jamais um mito. O mito escapa ao controle da razão. ( E cá entre nós, Bogart era baixo, feio e careca. Se fosse para escolher um mito seria muito melhor Cooper ou mesmo Errol Flynn ). Mas ele é um mito. Crianças que nasceram no Brasil, décadas após sua morte, que foram expostas a Beatles, Hendrix e Bob Marley, a tantos outros "mitos", descobrem Bogart, que aparentemente seria tão estranho a elas como Carlos Gardel, e se descobrem adorando seus filmes e imitando seu estilo. Isso e´fantástico, isso faz de um ator um mito.
   Por fim, após a reconciliação com seu passado e com a imagem de seu pai, Stephen descobre que Humphrey Bogart era Humphrey Bogart. Que o segredo de Bogey é o fato de que por mais que se escave, o que se encontra não é surpreendente. Ele não tinha um lado gay, não era comunista ou nazista, não se drogava, não deixou filhos ilegítimos. Tinha sim, um lado muito culto que disfarçava com palavrões, mas era exatamente o Rick Blaine de Casablanca: duro, viril, desencantado, lingua solta, macho romântico, lider. E quando um ator consegue ser na vida o que ele é na tela, bem... o caminho para o mito se torna muito mais natural.
   PS: Veja qualquer filme com Bogey. Repare como quando ele entra em cena toda a sua atenção se volta para ele. Voce fica na expectativa, voce fica esperando pelo que ele vai falar e fazer. Isso faz de um ator uma estrela. E para isso não há curso que dê conta. 

True Love. Grace and Bing. Full scene.



leia e escreva já!

TARANTINO/ GRACE KELLY/ COEN/ DONEN/ DE MILLE/ CUKOR

   DUAS SEMANAS DE PRAZER de Mark Sandrich com Bing Crosby e Fred Astaire
Dois partners de shows se separam, por causa de uma mulher. Crosby que é o bonachão, vai viver no campo, e lá monta um hotel-teatro, onde apresenta shows só nos feriados. Astaire acaba indo parar lá, e eles disputam outra garota. O filme, muito alto astral, tem White Christmas, o single fenômeno de Irving Berlin. E tem muito mais, tem diversão, boas canções e atores simpaticos. Sandrich dirige tudo com finesse. Exemplo do filme standard da velha Hollywood. Nota 7.
   FUNNY FACE de Stanley Donen com Audrey Hepburn, Fred Astaire e Kay Thompson
Crítica longa postada abaixo. Que mais dizer? É lindo. Audrey convence como a intelectual que se torna modelo e Fred faz o fotógrafo que a descobre. Vão à Paris e a cidade nunca foi tão bonita. A verdadeira cidade sempre sonhou em ser esta Paris da Paramount. O filme tem um visual brilhante, as cores parecem respirar. Em termos visuais é uma obra-prima. Relaxe e aproveite! Nota DEZ.
   KILL BILL VOLUME I  de Quentin Tarantino com Uma Thurman
Um absoluto prazer! Rever este filme agora é tão bom como em seu tempo de lançamento. Tarantino, talento superlativo, um cara que sabe tudo de cinema, esbanja talento. A ação é incessante e nunca cansa. Música e cor, corpos que se lançam no vazio, olhares coreográficos. Com os Shaw Bros, Tarantino aprendeu tudo e uniu essa arte às referências dos anos 70 que ele tanto adora. Uma festa para os olhos, para os nervos, para o coração. Esse diretor dá dignidade ao cinema atual, mostra que a grande tradição da ação, do cinema tipicamente americano, é viva. Bato palmas para todos os seus filmes. DEZ!!!!!
   KING KONG de John Guillermin com Jeff Bridges e Jessica Lange
Quem esperaria que Jessica se tornaria uma atriz com dois Oscars? Ela, modelo de sucesso, estréia aqui, e brilha em sua sensualidade e beleza inebriante. Mas o filme é tolo, sem porque. O Grande Lebowski é um tipo de cientista-explorador meio hippie. O macaco é cômico. Jessica é a melhor vítima do Kong que já houve. Um tipo de nova Grace Kelly em tempos sem realezas. Nota 2.
   MATADORES DE VELHINHAS de Irmãos Coen com Tom Hanks
Pra que refilmar um filme perfeito? O original é inglês, de MacKendrick e tem Peter Sellers. Este é ridiculo. Não tem graça nenhuma, é irritante, mal escrito, sem sentido. Talvez o pior filme dos muito talentosos irmãos. Tom Hanks está constrangedor. Nota ZERO.
  MEIAS DE SEDA de Rouben Mamoulian com Fred Astaire, Cyd Charisse e Peter Lorre
Não gosto muito deste filme. E deveria gostar, afinal todos os seus ingredientes são excelentes. Mas algo desandou, as canções funcionam mal, as danças são comuns e o diálogo não tem graça. Fala de agentes russos que se deixam seduzir por Paris. Cyd é a super-russa que vai até lá, ver o que aconteceu. É refilmagem de Ninotchka. Não deu certo. É dos últimos musicais de Astaire, ele merecia coisa melhor. É um filme "de luxo", há quem o adore, não é meu caso. Nota 3.
   MESTRE DOS MARES de  Peter Weir com Russell Crowe
Foi uma das grandes decepções que tive nos cinemas na época. Revisto agora é ainda mais insuportável. Um monte de cenas escuras, tédio constante, o filme não se decide entre a ação e a tal arte. Acaba por não fazer nem uma coisa e nem outra. Quem procurar aventura ficará frustrado, quem quiser reflexão nada encontrará. Crowe parece com sono. Nota 1.
   LEGIÃO DE HERÓIS de Cecil B. de Mille com Gary Cooper, Madeleine Carroll, Paulette Godard, Robert Preston e Preston Foster
O filme fala da rebelião no Canadá. A população mestiça se rebela contra a coroa inglesa e a policia montada é enviada para cessar a briga. Cooper é um texano que está por lá com uma missão. É um filme exemplar. Após uma apresentação precisa, a ação se desenrola sempre no tempo certo. O diretor dá tempo para que conheçamos os personagens e logo em seguida cria mais uma reviravolta e mais uma cena de movimento preciso. De Mille era um cozinheiro-mestre, sabia sempre o que adiconar, a dose certa, a temperatura exata. Gary Cooper, já foi dito, era o americano perfeito, aquilo que todos eles gostariam de ser. Pouca gente lembra, mas era ele a grande estrela do cinema da época ( ele estava acima de Gable, Grant, Bogart e Fonda ). Já vi vários filmes de Cecil B. de Mille, este é aquele que mais me satisfez. Diversão pop de primeira. Nota 9.
   LES GIRLS de George Cukor com Gene Kelly, Kay Kendall e Mitzi Gaynor
Uma ex-corista lança uma biografia. Ela é processada por difamação. Quando o filme começa já estamos no tribunal. Três depoimentos serão dados, os três conflitantes, qual a verdade? O filme tem um problema sério, a primeira parte tem Taina Elg como centro, e ela não consegue segurar o interesse. O filme melhora muito nas outras duas partes. Kay Kendall, comediante inglesa de primeira, na época esposa de Rex Harriosn, dá um show como uma atriz beberrona; e Gaynor está ótima como uma bailarina americana virgem. Gene Kelly é o sedutor-diretor das três mocinhas. Não há nenhum grande número para ele brilhar, mas o filme é elegante, colorido e dirigido naquele estilo vistoso de George Cukor. Cukor foi um dos grandes de Hollywood, seus filmes sempre brilham. Nota 7.
   HIGH SOCIETY de Charles Walters com Grace Kelly, Bing Crosby e Frank Sinatra
Sempre me lembro de um reveillon em que voltei bêbado pra casa ( e insone ). Lembrei então que ia passar este filme na TV, e que no jornal saíra uma página sobre ele. O chamavam de o "filme mais chic" já feito. Liguei a TV, deitei no tapete e o assisti. Me senti tão chic, que no dia seguinte comprei uma cigarreira de prata. E procurei a trilha sonora em disco até achar. Depois desse dia já o revi por duas vezes. Ontem foi a terceira. Ele é sobre nada. O que vemos é Grace ficar bêbada, dançar, flertar e afinal se casar com seu ex-marido. Crosby é esse marido. Paciente, tranquilo, cool. E Sinatra é um jornalista pobre. Louis Armstrong faz Louis Armstrong, ele toca alguns números no filme, todos ótimos. Os outros números musicais são todos maravilhosos ( Cole Porter ). Destaque para True Love, uma das mais belas canções de amor já feitas, e tem ainda Did You Evah?, em que Crosby e Sinatra se preparam para ir à uma festa. O filme é uma bobagem, uma tolice leve e ebuliente...assim como é também um doce delicioso, um souflé, uma calda de chocolate. Vicia e delicia. Grace Kelly está muito bem. Sua personagem, nada fácil, é frágil, arrogante e sedutora. Falam de Audrey, de Liz Taylor, de Sofia Loren.  Mas para mim ninguém foi mais bonita que Grace Kelly. Ela era perfeita, sexy, tinha uma voz educada e elevada, um olhar de promessa. Mesmo ao lado de dois mitos ( Sinatra e Crosby ), o filme é todo dela. Maravilhosa!!! Nota 9.

TOP HAT, WHITE TIE AND TAILS- fred astaire



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THE IRVING BERLIN SONGBOOK- FRED ASTAIRE E OSCAR PETERSON, LIÇÃO DE ALEGRIA REGADA A CHAMPAGNE

   Para encerrar o ano com chave de diamante, nada pode ser melhor, feito a sós, que escutar Fred Astaire. Aqui, acompanhado por grupo de jazz comandado pelo piano de Oscar Peterson. Ou seja, nada de violinos. Bateria, baixo, guitarra e sax...uma delicia!
   Berlin, nascido na Russia, faz parte do big five da canção americana ( ele e mais Cole Porter, Gershwin, Jerome Kern e Richard Rodgers ). Não sei, e acho que ninguém se arrisca a dizer, quem era o maior. Como letrista, provávelmente Porter, como arranjador, Gershwin, mas e Berlin? Ele é o de maior sucesso popular e suas canções podem ser tão harmoniosas quanto as de Gershwin e tão espertas e maliciosas como as de Cole.
   Dificil saber também qual seria o melhor momento deste disco. Tem "Cheek to Cheek", e nessa canção, quando ouvimos Fred dizer : "Heaven...I'm in heaven...", bem, nós estamos in heaven too! É uma das raras canções felizes que faz com que toda a nossa felicidade se presentifique. Mais que uma música, é um dom compartilhado. Mas o disco tem também "Puttin' on the Ritz", e com essa voce se sente Gary Cooper... Dá vontade de beber champagne, de arrumar a gravata, de sair pra rua e olhar a vida rolar. Ouvi-la é se sentir very special.
   Seriam essas as duas melhores? Mas aí vem "Isn't this a lovely day" e ela é um amor que é feliz. Amor feliz, amor onde não se chora, não se lamenta, amor que é apreciado. Essa canção dá vontade de amar. Amar sorrindo, amar como um homem deve amar uma mulher. E vem "Change partners", outra que é sobre um amor, mas amor já triste, triste porém classudo, sem escândalos please. Linda melodia...
   Não seria a melhor "Top Hat" ? Essa eu poderia ficar escutando a vida inteira. Voce deseja saber o que é classe? Tá tudo aqui. E é impressionante como a voz de Astaire soa moderna. Ele canta pequeno, curto, e sem jamais perder a afinação. Modula o timbre, pronuncia claro ( os cantores como ele são facílimos de entender, pronunciam um inglês perfeito ), e acima de tudo ele tem ritmo, tem jazz. O estilo de Fred se casa com os músicos negros e o que sai é brilhante, exultante, esfuziante.
  "Steppin' Out" pode ser a mais perfeita... Ah, desisto! Como saber qual o mais perfeito pôr do sol? Qual o diamante que brilha mais?
  Uma historinha...
  Quando eu tinha 11 anos e começava minha coleção de discos de rock, meu pai, que nasceu em 1926, ficou muito surpreso. Ele me dizia: " Mas porque voce compra esses discos? Voce não vê que todos são "música caipira? Música de analfabetos?"
  Meu pai ouvia música de orquestras e Sinatra. Eu achava aquilo nojento e ria de meu pai achar que Beatles, Elton John e Bowie fossem caipiras. Mas agora eu entendo. O rock é filho do blues rural e do country.  Para quem tem familiaridade com a música verdadeiramente, e desde sempre, urbana, o rock sempre terá um jeito de cowboy, de jeans e violão. Urbanidade é Duke Ellington ou Thelonious Monk, lá nada há de rural. A ancestralidade caipira de todos nós está tão distante que nada nessas músicas lembra poeira ou cabanas de madeira. Nesse tipo de canção, mesmo quando o cara vai pro mato, ele leva rádio, cadeiras e talheres de prata. Para meu pai, cada acorde da guitarra de Harrison era uma lembrança de uma viola caipira, cada frase de Elton tinha o sotaque de um inglês querendo soar como se fosse do Kentucky e mesmo a sofisticação de Bowie lhe parecia um simples trejeito de adolescente suburbano.
   Eu sou um caipira e tenho orgulho disso. Mas eu adoro essa urbanidade "Quinta Avenida anos 40" de Astaire e do jazz. Vivo nessa confusão de tensões, que pode por outro lado ser chamada de visão abrangente. Mas o que eu sei é: Nada é mais Feliz que Fred Astaire cantando Top Hat....

PAISAGEM COM QUEDA DE ÍCARO E OUTROS POEMAS - WILLIAM CARLOS WILLIAMS ( PRA QUE SERVE A POESIA ? )

   William Carlos Williams era pediatra. Viveu até 1965. Da geração, soberba, de Eliot, Moore e Stevens. O que me faz pensar... em período tão pouco poético, tanta poesia de gênio. Parece que, como acontece com toda coisa do espírito, quanto mais voce bate mais forte ele fica.
  No livrinho que acabo de ler, há um poema que exemplifica não só o estilo de Williams, como mostra toda a necessidade de se viver a poesia. O poema é curto:
  De acordo com Brueghel
  Quando Ícaro caiu
  era primavera
  Um lavrador arava
  os seus campos
  todo o explendor
  do ano
  formigava ali
  à
  beira do mar
  consigo mesmo
  preocupado
  suando ao sol
  que derretia
  a cera das asas
  perto
  da costa
  houve
  uma pancada quase imperceptível
  era Ícaro
  que se afogava.

  O que é o poema? Ele é uma questão: Quantos Ícaros voaram ao nosso lado e distraídos pelo "trabalho" da vida não o percebemos? Para que serve a poesia? Para abrir nossos olhos a esse maravilhoso que não interrompe seu fluxo. O sol que derreteu as asas de Ícaro é o mesmo sol em que o homem labuta. Como formiga. É o olhar poético que nos eleva da condição de formiga.
  Tenho pena de quem vive formigamente e renega o viver poesia. Por todo o livro, Williams, de forma simples, ( não procure nele nada além do que lá está escrito ), mostra a poesia de árvores e de estações. Essa visão nada tem de secreta ou de mística, é apenas um olhar atento, dar uma chance a poesia. O segredo é o olho.
  Neste exato instante algum Ícaro pode ter voado e voce, distraído, não o viu. Neste exato momento uma experiência única pode ter sido oferecida a voce, e voce não a aceitou por não ter notado o convite.
  Poesia é só isso.

You're The Top - Anything Goes 1956



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COLE PORTER, UMA BIOGRAFIA- CHARLES SCHWARTZ ( EXEMPLO DE REFINAMENTO )

   Faça um teste,  quando foi a última vez em que voce ouviu ou leu um crítico, seja de música, cinema ou TV,  dizer que tal obra é "elegante" ?  As pessoas não esqueceram o que a palavra significa, o que acontece é que elegância deixou de ser relevante por ter se tornado miragem inalcansável. Existem palavras que deixam de ser usadas, elegância, assim como nobreza, são vocábulos congelados. Não fazem parte da lingua de nossa época.
   Mas existem nomes que ressoam dentro de nós como ecos desse tempo "elegante". São como cápsulas de tempo, recordações do que foi e pode, sejamos otimistas, um dia voltar a ser. Cole Porter é um dos nomes mais fortes.
   Houve um tempo em que as pessoas iam à Broadway para receberem lições de bom viver. Joie de Vivre, Savoir Faire. Viam musicais que eram compêndios de finesse, desde as letras ferinas e leves, até as roupas e cenários de bom gosto. Grosserias ou melô eram repudiados. E nesse mundo refinado, o principal eram as músicas. A canção popular americana vivia seu auge. Irving Berlin, Richard Rodgers, George Gershwin, Kurt Weill, Jerome Kern e Cole Porter. O que? Voce não os conhece? Que pena... Mas com certeza já ouviu suas melodias sem saber de quem era aquilo que te embalava. É moda, hoje, quendo um cantor ou cantora quer demonstrar classe superior, grava música de um deles. O desastre é sempre absoluto. ( Até mesmo Bryan Ferry se saiu mal ao gravar em 2002 um disco só com músicas desses autores ). Para cantar bem Cole Porter e etc é preciso ter vivido uma vida de jazz, de cabaret e de hotéis mais trens. Saber beber, saber comer, saber apreciar. Para se aproximar dessa turma é preciso ter vivido uma ou duas "histórias". Saber ler a vida. Não berrar, sussurrar.
   É surpreendente o fato de que as músicas de Cole, e ele tem mais de quarenta sucessos populares, nasciam sempre de cima para baixo. Explico. Suas canções estouravam primeiro entre as classes mais altas, tanto financeiras como intelectuais, e depois caíam no gosto da massa. Exatamente o contrário do que ocorre hoje, em que a música estoura entre o povão e depois é aceita pela elite ( ainda veremos funk nas universidades, pode esperar ). Voce pode dizer que isso significava um tipo de colonização da elite sobre a "plebe". Mas pode ser o contrário: um tipo de fé nas classes menos favorecidas. Elas ainda poderiam ascender culturalmente. Cole Porter lhes dava jóias, tesouros, sonhos de luxo e de classe. Elas não eram relegadas ao lixo dos lixos.
   Cole Porter nasceu muito, muito rico. Ao contrário dos outros grandes da canção clássica, ele não era filho de imigrante pobre. Sua vida foi aquela dos privilegiados. Cavalos, iates, viagens longas de navio, dezenas de empregados. Cole foi o tipo do cara que nunca soube o que é não ter um empregado ao lado, seja para lhe preparar o banho, seja para lhe chamar um táxi. Aliás, ele tinha sempre três, que levava com ele em viagens, hotéis e festas.
   Foi aluno em Yale e Harvard, mal aluno nas duas. Nelas, seu interesse era o futebol, ele fazia hinos para os times e também músicas para as peças das escolas. Desde sempre, seu interesse era viajar, se divertir. Cole ia a festas todos os dias, festas imensas, longas, inacabáveis. Ele logo começa a escrever musicas para peças profissionais, mas levará dez anos para ser aceito e ter seu primeiro sucesso. Enquanto isso, ele se divertia doidamente, todo o tempo. Era um dínamo, sempre fazendo piadas, truques, pregando peças, rindo sem parar. E gastando aos rodos, em jóias para amigos, em bailes e jantares, em roupas, em casas imponentes, em criadagem.
   Cole se casa com Linda, uma multi-milionária e fica mais rico ainda. Detalhe, é um casamento sem sexo. Cole Porter era gay, um tipo dito "insaciável", e Linda o aceitou assim. Eram grandes amigos. Esse tipo de relação era comum naqueles tempos e vários amigos de Cole se casaram desse modo. O que não era o caso de Gerald e Sara Murphy, o casal americano que vivia na França e logo fez amizade com Cole. Picasso, Cocteau, Stravinsky, Heminguay ( se voce viu o filme de Woody Allen, os Murphy aparecem e Cole Porter é aquele cara ao piano ). Eles inventam a Riviera, lugar fora de moda na época, Cole compra uma imensa Villa em Antibes. A vida se torna um carnaval, bailes a fantasia, festas de circo. Depois Cole vai morar em Veneza. Drogas, orgias, mora num palazzo que tem um salão onde cabem 1000 pessoas. Pinturas de Tiepolo e de Ticiano, ouro nas paredes, cristal. Ele cria mitos: de que lutou na primeira guerra. E viaja: oriente, mares do sul, Caribe, África. E sempre levando um séquito de amigos, de amigas, de empregados. A VIDA COMO UMA DIVERSÃO AMALUCADA. A arte, a música de Cole Porter é reflexo dessa vida, desse universo, desse mundo. Essas músicas, tão refinadas, terem se tornado sucessos pop é um maravilhoso milagre. Ouví-las é adentrar essa diversão esnobe, maluca, genial.
   Cole é considerado até hoje ( e cada vez mais ), o melhor letrista popular da história. E na verdade comparar as letras de Cole com músicos pop de 1960 ou 2010 chega a ser grotesco. É como comparar uma peça de Wilde com um roteiro de chanchada. Mas não vou cuspir no que adoro. Letras em rock são completamente secundárias. Elas existem para serem facilmente decoradas, feitas em função do refrão. Elas são apenas mais um instrumento. Na música popular clássica, aquela de Cole e de Gershwin, as letras são tão importantes como a melodia e as palavras devem se casar com a linha harmônica. Mais que isso, elas precisam ter originalidade, têm de ser "elegantes" e cultas. E em termos de rimas originais, informação e fluidez, ninguém chegou perto de Cole Porter. O rei da letra cínica, jovial, humorística, de duplo sentido.
      The dragon flies, in the reeds, do it
      Sentimental centipedes, do it
      Let's do it, let's fall in love.
      Mosquitos, heaven forbid, do it
      So does every katydid, do it
      Let's do it, let's fall in love.
      The most refined ladybugs do it,
      When a gentleman calls,
      Moths in your rugs, do it,
      What's the use of moth balls?
      Locusts in trees do it, bees do it,
      Even highly educated fleas do it,
      Let's fall in love....
   Na pieguice do rockn roll ( com raras excessões ), onde tudo se resume a "I love you so " e "Don't let me down", nada se parece com isso.
    O livro descreve então a escalada de sucesso de Cole Porter. As estréias na Broadway, as críticas, o tempo em cartaz, as festas e festas. E os filmes feitos a partir de canções de Porter. Mas há tristezas também, ou ele não seria humano. Um acidente de cavalo marca os últimos trinta anos de Cole. Ele cai de um cavalo e o animal desaba sobre suas pernas esmagando as duas. O resto da vida é uma série de operações, dores e bengalas, até a amputação. Cole Porter, que sempre foi extremamente vaidoso, vê isso como humilhação. Mas mantém a classe, continua a produzir e seus maiores sucessos nascem após o acidente. Hollywood, fato raro, chega a produzir uma biografia sua em vida, totalmente fantasiosa. E quem Cole escolheu para ser Cole Porter? Cary Grant ( dizem que Kennedy queria que Grant fosse o ator a fazê-lo se um dia fizessem sua vida. Assim como o gangster Lucky Luciano. Ian Fleming pensou em Grant quando criou James Bond. O mundo queria ser interpretado por Cary Grant, inclusive o próprio Grant queria ser Cary Grant ). O que o filme não poderia contar era o prazer que Cole tinha em procurar seus amantes no baixo mundo. Caminhoneiros e marinheiros, Cole Porter tinha paixão apenas por homens rudes, durões e de baixa classe social. Teve sorte de não ser morto.
   KISS ME. KATE foi o último e o maior sucesso de Cole Porter. Cansado, ele faleceria no começo dos anos 60. Vaidoso, como sempre.
   Se voce quer começar a penetrar no mundo de Porter, aconselho o songbook de Ella Fitzgerald. Há quem considere este o melhor disco já gravado. Eu adoro, mas prefiro Cole Porter na voz de Frank Sinatra e principalmente na de Fred Astaire. Quem desejar saber TUDO sobre o que seja "prazer elegante" ou "refinamento feliz", basta ouvir Astaire cantar You're The Top ou Sinatra mandando I'Ve Got You Under My Skin ( que na verdade fala de heroína ). Não há modo mais classudo de se começar um novo ano.

TUDO O QUE VIRIA ESTAVA ESCRITO AQUI: LODGER, O MAIS ALTO CUME CRIATIVO DO MAIS CRIATIVO DOS ARTISTAS POP- DAVID BOWIE

   1979. Muita gente diz ser esse o ano mais crucial da história do pop. Quem me acompanha sabe que prefiro 1972. Mas é verdade que tudo aquilo que veio a ser dominante no pop estava sendo arquitetado em 79. Seja o rap, sejam as festas funk, o rock mais acelerado, o pop tipo Lady Gaga ou as elucubrações cabeçudas, tudo estava vivo em 79.  Seja Donna Summer, Joy Division, Clash, Madness, Grandmaster Flash, Talking Heads, Television, Prince, Kid Creole, Blondie, Jam, Tubeway Army, Police, Chic, Japan, Siouxssie, Cure, Black Uhuru, Beat, Patti Smith, Bruce Springsteen, Pil, Kurtis Blow, Grace Jones, Ultravox, Gang of Four... todas as futuras correntes sonoras já aqui representadas. E Bowie é central nesse momento.
   Quem me acompanha também sabe que sou muito mais Roxy Music que Bowie, assim como sou mais Stones que Beatles. Mas tenho de admitir que no pop nada demonstra maior evolução, seja de qualidade, seja de estilo, que Beatles nos anos 60 e Bowie nos 70. Comparar Love me Do com o famoso lado B do Abbey Road é viajar do mundo simples e risonho de 1962 ao universo conturbado e amargo de 1969. O mesmo ocorre com Bowie ( e nesse nivel de mutabilidade, com mais ninguém ). O Ziggy Stardust de 1972 é completamente diferente do Bowie de 1979. São apenas 7 anos, mas em termos musicais, são séculos.
   Primeiro ele foi uma espécie de Donovan Leitch melhorado e muito mais culto. Depois um glitter teatral ao extremo. Já em 1972 ele criava um conceito que seria dominante para sempre: o auto-controle. Até então, só existiam dois tipos de artista pop: o apaixonado confessional ( Lennon, Van Morrison, Pete Townshend, Jim Morrison ) e o cínico observador,( Jagger, Ray Davies, Rod Stewart ). David Bowie, influenciado por Lou Reed, que por sua vez pegou essa postura de Dylan, usa o distanciamento, a frieza, o controle absoluto. Nada de entrega a seu público, nada de indiferença a esse público. O que Bowie traz é o direcionamento desse grupo de fãs àquilo que ele deseja. Shows deixam de ser acidentes ruins ou cerimônias maravilhosas, shows se tornam teatro. Ele cria não apenas músicas, ele cria sua carreira, sua imagem. E no processo, cria seus seguidores. Mas aí vem a grande sacada: seguir Bowie não seria ser algo como Bowie, seguir Bowie seria criar seu próprio Bowie pessoal. Daí a enorme quantidade de bandas, fotógrafos e cineastas nascidos da influência de Bowie.
   E ele levou seus fãs década afora com ele. Do folk espacial à loucura bissexual, do soul americano à eletrônica de Berlin. Foram nove discos entre 1972 e 1979, e nenhum deles se parece um com o outro. Hunky Dory é uma linda viagem sentimental, Ziggy Stardust é uma sinfonia para jovens sem rumo, Alladin Sane é um kaos sexy, Diamond Dogs uma obra-prima incompreendida de riqueza sem fim, Young Americans um luxo, Station To Station é um enigma esquizóide, Low é talvez o disco mais fascinante feito por qualquer artista pop, Heroes um caleidoscópio de confusão e finalmente veio Lodger.
   Lodger encerra a fase de Berlin de Bowie ( em 1977 ele se mudou para Berlin aconselhado por Eno. Em 1975 Bowie se mudara para New York e caindo no mundo fashion se viciara em heroína. Eno o aconselha a fugir de tudo e morar em Berlin. Lá eles gravam 3 discos, Low, Heroes e Lodger, de certa forma eles salvaram a vida de Bowie ).
   Fantastic Voyage. Começa a viagem. E já vem a estranheza. Todas as faixas darão a sensação de serem vinhetas, curtas demais, rascunhos. Toscas até. Bowie aqui trabalha com a concisão, com o objetivo. As faixas vão direto para o alvo, não se perdem em arranjos. E são ao mesmo tempo muito complexas, ricas. Voyage flue como um barco em rio, ela é linda, fluida, parece levantar vôo. E termina cedo demais.
   African Night Flight é puro Brian Eno. Se voce nunca a escutou vai se surpreender. Muito veloz, vocais que são como luzes de flash. Uma percussão tribal, vários ruídos eletrônicos. Imagine escutá-la em 1979, na época de Queen e Supertramp, foi um choque. Mudou minha vida.
   Move On é mais uma porrada. Uma profissão de fé, uma tomada de posição, mudar sempre. Os vocais de fundo hipnotizam, " ah iá...ah ió...ah iá...ah ió...", o que posso dizer é que escutar isto é ouvir um gênio em sua potência plena. A música termina cedo, é mais um polaroide desse disco veloz e faiscante.
   Yassassin me assustou em 79. Os vocais de Bowie parecem errados. Ela é muito pop e muito torta. Dá até pra dançar!
   Red Sails é uma das maiores obras-primas de Bowie. Tem tanta riqueza, é tão complexa, diz tanto em tão pouco tempo que chega a parecer um tipo de milagre. Adrian Belew, guitarrista maníaco, destrói a guitarra com seus ruídos do além. Acachapante.
   D.J. é a menos boa do disco. É o pop que confundiria Bowie por toda a década de 80. Os anos 80 foram anos de cocaína, de exagero, de ruído sem porque. Bowie se perdeu nesse pó.
   Look Back in Anger volta ao nível do disco: mais uma obra-prima. Dramática, corrida, a voz de David raras vezes esteve tão maravilhosa. Tem um solo de guitarra de chorar de tão bom e ela passa através de nós como miragem. Aliás o disco inteiro tem esse modo de miragem, um sabor árabe e às vezes dá uma guinada até o Japão.
   Boys Keep Swingin' é a mais rock do disco. Uma homenagem aos boys, uma delicia de canção, a perfeição.
   Repetition é descaralhante. Ainda hoje extremamente original, gruda na cabeça como obsessão. Doentia e linda. Rica em sons de fundo, fico sem palavras para a descrever.
   Red Money. O disco termina em alto estilo. Repare na rica tessitura dos sons dos instrumentos. No timbre da bateria, da guitarra. Em como tudo soa diferente...
   Eis dentre tantas outras, a grande lição de LODGER que seria seguida desde então: o segredo é o timbre. O grande lance da música pop NÃO seria mais a harmonia ou o riff, seria o RITMO e o TIMBRE dos instrumentos. O grande músico, o super instrumentista, seria aquele capaz de manipular o timbre do som, fazer um simples acorde soar DIFERENTE.
   LODGER chega a dar medo de tão rico. Um disco como este merece toda a admiração de um homem. David Bowie atingiu níveis de excelência raros. Ouvir seus melhores discos é um soberbo PRIVILÉGIO.

Brideshead Revisited (1981) - theme



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BRIDESHEAD REVISITED, UM LIVRO DO GRANDE EVELYN WAUGH

   As letras britânicas nos anos 30,40... Auden, Greene, Lewis, Spender, Huxley, Wodehouse e o grande Waugh. Uma brilhante geração, feita de individualismo mordaz, de dúvidas, de bom gosto, de britanismo. Últimos suspiros de uma civilização que agonizava.
   Evelyn Waugh escreveu sátiras ferinas sobre o que seria "ser inglês" nesse mundo em transição. Todos os seis livros que li são maravilhosos, e Brideshead com certeza não é um dos melhores. "Furo!" leva essa honraria. O texto de Waugh em todos esses seus livros é saltitante, vivo, elétrico. Ele cria personagens que voce adora, adora seu ridículo que nada tem de sublime. São pessoas lamentáveis, e frágeis, muito ´vulneráveis. Padecem da ilusão da importância. Se imaginam "Ingleses", mal percebendo que ser um "Inglês" é ser uma farsa.
   Brideshead Revisited é o livro problema de Waugh. Não é engraçado. É sério. Chega a ser solene. É meio auto-biográfico, e isso travou a veia mordaz de Evelyn. Mas é um livro de estranho fascínio. Lê-lo é como visitar um album de fotografias vivas. Beber chá com estátuas de cera.
   Charles Ryder é um capitão estacionado na Inglaterra durante a segunda-guerra. Seu pelotão se acomoda em palácio de antiga familia nobre, os Flyte. Por coincidência, Charles conhece aquele casarão, mais que isso, ele fora hóspede lá. O livro conta esse passado.
   Charles é amigo de Sebastian, o alcoólatra, jovem e dandy herdeiro dos Flyte, e se apaixona pela irmã de Sebastian, Julia. O romance não dará certo, e um dos motivos, talvez o principal, é o catolicismo culposo da familia Flyte. Acompanhar essa história é como visitar a casa de um amor perdido. Melancolia plena.
   Muitos perceberam que o amor de Charles por Julia pode ser o amor-gay de Charles por Sebastian. Basta dizer que ele tem prazer em perceber que "Julia é idêntica a Sebastian". Waugh era homossexual, mas esse não é o foco do livro. A questão do tempo, da memória e da religião são muito mais importantes. Evelyn faz retratos maravilhosos dos parentes chatos, dos pais de Julia, dos jantares formais ( um empregado para cada convidado ).  O fim do apogeu de um império marcado pelos "bons modos".
   Em 1981, a Granada Tv de Londres, produziu uma minissérie em 24 capítulos sobre o livro. Jeremy Irons fez Charles Ryder e no elenco ainda havia Claire Bloom, Laurence Olivier e John Gielgud. Na série, o homossexualismo era enfatizado e a produção se esmerava em bela fotografia e uma trilha sonora de primeira. Por incrível que pareça, o sucesso foi tanto que houve uma "febre Sebastian Flyte" na Inglaterra. Os jovens conservadores, anti-punks, anti-trabalhistas, copiavam as roupas e o corte de cabelo de Sebastian. Bandas de "direita", que eram odiadas pelos punks, tipo Spandau Ballet e Ultravox, faziam parte da onda. David Bowie em seu tempo "Let's Dance" era a imagem-calculada em xerox de Sebastian Flyte. Em 1988 a série chegou ao Brasil via Tv Cultura, e era moda as pessoas se reunirem nas casas uns dos outros e beberem chá com scotch para ver a série. Eu me vesti o ano inteiro de Sebastian Flyte, calça branca, camisa clara, sapatos de duas cores e blusa de lã- fina jogada com displicência sobre os ombros. Mas o principal era a atitude: uma expressão de melancolia divertida, de humor saudosista. Eu pirei com a série.
   Bem..não vou comentar a estranheza de uma série de Tv que se torna hit, tendo como tema um casal gay em Oxford e a crise religiosa de uma família esnobe. Hoje esse tema não daria audiência nem como filme de arte. Coisas dos anos 80....
   Fiz essa digressão para exemplificar a importância de Evelyn Waugh. A posição central que ele ocupa na vida intelectual do século XX. É um autor que deveria ser muito mais lido aqui nos Brasis. Principalmente porque temos um imenso potencial para a criação de personagens ridículos, sem noção, grotescos. Mas talvez fosse esse um problema, o humor de um Waugh brasileiro teria de ser obrigatoriamente muito mais grosso, explícito, agressivo.
   Certamente existem livros mais perfeitos de Waugh, e volto a citar "FURO!" como sua obra-prima. Mas Brideshead tem uma beleza que não se esquece.