PAISAGEM COM QUEDA DE ÍCARO E OUTROS POEMAS - WILLIAM CARLOS WILLIAMS ( PRA QUE SERVE A POESIA ? )

   William Carlos Williams era pediatra. Viveu até 1965. Da geração, soberba, de Eliot, Moore e Stevens. O que me faz pensar... em período tão pouco poético, tanta poesia de gênio. Parece que, como acontece com toda coisa do espírito, quanto mais voce bate mais forte ele fica.
  No livrinho que acabo de ler, há um poema que exemplifica não só o estilo de Williams, como mostra toda a necessidade de se viver a poesia. O poema é curto:
  De acordo com Brueghel
  Quando Ícaro caiu
  era primavera
  Um lavrador arava
  os seus campos
  todo o explendor
  do ano
  formigava ali
  à
  beira do mar
  consigo mesmo
  preocupado
  suando ao sol
  que derretia
  a cera das asas
  perto
  da costa
  houve
  uma pancada quase imperceptível
  era Ícaro
  que se afogava.

  O que é o poema? Ele é uma questão: Quantos Ícaros voaram ao nosso lado e distraídos pelo "trabalho" da vida não o percebemos? Para que serve a poesia? Para abrir nossos olhos a esse maravilhoso que não interrompe seu fluxo. O sol que derreteu as asas de Ícaro é o mesmo sol em que o homem labuta. Como formiga. É o olhar poético que nos eleva da condição de formiga.
  Tenho pena de quem vive formigamente e renega o viver poesia. Por todo o livro, Williams, de forma simples, ( não procure nele nada além do que lá está escrito ), mostra a poesia de árvores e de estações. Essa visão nada tem de secreta ou de mística, é apenas um olhar atento, dar uma chance a poesia. O segredo é o olho.
  Neste exato instante algum Ícaro pode ter voado e voce, distraído, não o viu. Neste exato momento uma experiência única pode ter sido oferecida a voce, e voce não a aceitou por não ter notado o convite.
  Poesia é só isso.

You're The Top - Anything Goes 1956



leia e escreva já!

COLE PORTER, UMA BIOGRAFIA- CHARLES SCHWARTZ ( EXEMPLO DE REFINAMENTO )

   Faça um teste,  quando foi a última vez em que voce ouviu ou leu um crítico, seja de música, cinema ou TV,  dizer que tal obra é "elegante" ?  As pessoas não esqueceram o que a palavra significa, o que acontece é que elegância deixou de ser relevante por ter se tornado miragem inalcansável. Existem palavras que deixam de ser usadas, elegância, assim como nobreza, são vocábulos congelados. Não fazem parte da lingua de nossa época.
   Mas existem nomes que ressoam dentro de nós como ecos desse tempo "elegante". São como cápsulas de tempo, recordações do que foi e pode, sejamos otimistas, um dia voltar a ser. Cole Porter é um dos nomes mais fortes.
   Houve um tempo em que as pessoas iam à Broadway para receberem lições de bom viver. Joie de Vivre, Savoir Faire. Viam musicais que eram compêndios de finesse, desde as letras ferinas e leves, até as roupas e cenários de bom gosto. Grosserias ou melô eram repudiados. E nesse mundo refinado, o principal eram as músicas. A canção popular americana vivia seu auge. Irving Berlin, Richard Rodgers, George Gershwin, Kurt Weill, Jerome Kern e Cole Porter. O que? Voce não os conhece? Que pena... Mas com certeza já ouviu suas melodias sem saber de quem era aquilo que te embalava. É moda, hoje, quendo um cantor ou cantora quer demonstrar classe superior, grava música de um deles. O desastre é sempre absoluto. ( Até mesmo Bryan Ferry se saiu mal ao gravar em 2002 um disco só com músicas desses autores ). Para cantar bem Cole Porter e etc é preciso ter vivido uma vida de jazz, de cabaret e de hotéis mais trens. Saber beber, saber comer, saber apreciar. Para se aproximar dessa turma é preciso ter vivido uma ou duas "histórias". Saber ler a vida. Não berrar, sussurrar.
   É surpreendente o fato de que as músicas de Cole, e ele tem mais de quarenta sucessos populares, nasciam sempre de cima para baixo. Explico. Suas canções estouravam primeiro entre as classes mais altas, tanto financeiras como intelectuais, e depois caíam no gosto da massa. Exatamente o contrário do que ocorre hoje, em que a música estoura entre o povão e depois é aceita pela elite ( ainda veremos funk nas universidades, pode esperar ). Voce pode dizer que isso significava um tipo de colonização da elite sobre a "plebe". Mas pode ser o contrário: um tipo de fé nas classes menos favorecidas. Elas ainda poderiam ascender culturalmente. Cole Porter lhes dava jóias, tesouros, sonhos de luxo e de classe. Elas não eram relegadas ao lixo dos lixos.
   Cole Porter nasceu muito, muito rico. Ao contrário dos outros grandes da canção clássica, ele não era filho de imigrante pobre. Sua vida foi aquela dos privilegiados. Cavalos, iates, viagens longas de navio, dezenas de empregados. Cole foi o tipo do cara que nunca soube o que é não ter um empregado ao lado, seja para lhe preparar o banho, seja para lhe chamar um táxi. Aliás, ele tinha sempre três, que levava com ele em viagens, hotéis e festas.
   Foi aluno em Yale e Harvard, mal aluno nas duas. Nelas, seu interesse era o futebol, ele fazia hinos para os times e também músicas para as peças das escolas. Desde sempre, seu interesse era viajar, se divertir. Cole ia a festas todos os dias, festas imensas, longas, inacabáveis. Ele logo começa a escrever musicas para peças profissionais, mas levará dez anos para ser aceito e ter seu primeiro sucesso. Enquanto isso, ele se divertia doidamente, todo o tempo. Era um dínamo, sempre fazendo piadas, truques, pregando peças, rindo sem parar. E gastando aos rodos, em jóias para amigos, em bailes e jantares, em roupas, em casas imponentes, em criadagem.
   Cole se casa com Linda, uma multi-milionária e fica mais rico ainda. Detalhe, é um casamento sem sexo. Cole Porter era gay, um tipo dito "insaciável", e Linda o aceitou assim. Eram grandes amigos. Esse tipo de relação era comum naqueles tempos e vários amigos de Cole se casaram desse modo. O que não era o caso de Gerald e Sara Murphy, o casal americano que vivia na França e logo fez amizade com Cole. Picasso, Cocteau, Stravinsky, Heminguay ( se voce viu o filme de Woody Allen, os Murphy aparecem e Cole Porter é aquele cara ao piano ). Eles inventam a Riviera, lugar fora de moda na época, Cole compra uma imensa Villa em Antibes. A vida se torna um carnaval, bailes a fantasia, festas de circo. Depois Cole vai morar em Veneza. Drogas, orgias, mora num palazzo que tem um salão onde cabem 1000 pessoas. Pinturas de Tiepolo e de Ticiano, ouro nas paredes, cristal. Ele cria mitos: de que lutou na primeira guerra. E viaja: oriente, mares do sul, Caribe, África. E sempre levando um séquito de amigos, de amigas, de empregados. A VIDA COMO UMA DIVERSÃO AMALUCADA. A arte, a música de Cole Porter é reflexo dessa vida, desse universo, desse mundo. Essas músicas, tão refinadas, terem se tornado sucessos pop é um maravilhoso milagre. Ouví-las é adentrar essa diversão esnobe, maluca, genial.
   Cole é considerado até hoje ( e cada vez mais ), o melhor letrista popular da história. E na verdade comparar as letras de Cole com músicos pop de 1960 ou 2010 chega a ser grotesco. É como comparar uma peça de Wilde com um roteiro de chanchada. Mas não vou cuspir no que adoro. Letras em rock são completamente secundárias. Elas existem para serem facilmente decoradas, feitas em função do refrão. Elas são apenas mais um instrumento. Na música popular clássica, aquela de Cole e de Gershwin, as letras são tão importantes como a melodia e as palavras devem se casar com a linha harmônica. Mais que isso, elas precisam ter originalidade, têm de ser "elegantes" e cultas. E em termos de rimas originais, informação e fluidez, ninguém chegou perto de Cole Porter. O rei da letra cínica, jovial, humorística, de duplo sentido.
      The dragon flies, in the reeds, do it
      Sentimental centipedes, do it
      Let's do it, let's fall in love.
      Mosquitos, heaven forbid, do it
      So does every katydid, do it
      Let's do it, let's fall in love.
      The most refined ladybugs do it,
      When a gentleman calls,
      Moths in your rugs, do it,
      What's the use of moth balls?
      Locusts in trees do it, bees do it,
      Even highly educated fleas do it,
      Let's fall in love....
   Na pieguice do rockn roll ( com raras excessões ), onde tudo se resume a "I love you so " e "Don't let me down", nada se parece com isso.
    O livro descreve então a escalada de sucesso de Cole Porter. As estréias na Broadway, as críticas, o tempo em cartaz, as festas e festas. E os filmes feitos a partir de canções de Porter. Mas há tristezas também, ou ele não seria humano. Um acidente de cavalo marca os últimos trinta anos de Cole. Ele cai de um cavalo e o animal desaba sobre suas pernas esmagando as duas. O resto da vida é uma série de operações, dores e bengalas, até a amputação. Cole Porter, que sempre foi extremamente vaidoso, vê isso como humilhação. Mas mantém a classe, continua a produzir e seus maiores sucessos nascem após o acidente. Hollywood, fato raro, chega a produzir uma biografia sua em vida, totalmente fantasiosa. E quem Cole escolheu para ser Cole Porter? Cary Grant ( dizem que Kennedy queria que Grant fosse o ator a fazê-lo se um dia fizessem sua vida. Assim como o gangster Lucky Luciano. Ian Fleming pensou em Grant quando criou James Bond. O mundo queria ser interpretado por Cary Grant, inclusive o próprio Grant queria ser Cary Grant ). O que o filme não poderia contar era o prazer que Cole tinha em procurar seus amantes no baixo mundo. Caminhoneiros e marinheiros, Cole Porter tinha paixão apenas por homens rudes, durões e de baixa classe social. Teve sorte de não ser morto.
   KISS ME. KATE foi o último e o maior sucesso de Cole Porter. Cansado, ele faleceria no começo dos anos 60. Vaidoso, como sempre.
   Se voce quer começar a penetrar no mundo de Porter, aconselho o songbook de Ella Fitzgerald. Há quem considere este o melhor disco já gravado. Eu adoro, mas prefiro Cole Porter na voz de Frank Sinatra e principalmente na de Fred Astaire. Quem desejar saber TUDO sobre o que seja "prazer elegante" ou "refinamento feliz", basta ouvir Astaire cantar You're The Top ou Sinatra mandando I'Ve Got You Under My Skin ( que na verdade fala de heroína ). Não há modo mais classudo de se começar um novo ano.

TUDO O QUE VIRIA ESTAVA ESCRITO AQUI: LODGER, O MAIS ALTO CUME CRIATIVO DO MAIS CRIATIVO DOS ARTISTAS POP- DAVID BOWIE

   1979. Muita gente diz ser esse o ano mais crucial da história do pop. Quem me acompanha sabe que prefiro 1972. Mas é verdade que tudo aquilo que veio a ser dominante no pop estava sendo arquitetado em 79. Seja o rap, sejam as festas funk, o rock mais acelerado, o pop tipo Lady Gaga ou as elucubrações cabeçudas, tudo estava vivo em 79.  Seja Donna Summer, Joy Division, Clash, Madness, Grandmaster Flash, Talking Heads, Television, Prince, Kid Creole, Blondie, Jam, Tubeway Army, Police, Chic, Japan, Siouxssie, Cure, Black Uhuru, Beat, Patti Smith, Bruce Springsteen, Pil, Kurtis Blow, Grace Jones, Ultravox, Gang of Four... todas as futuras correntes sonoras já aqui representadas. E Bowie é central nesse momento.
   Quem me acompanha também sabe que sou muito mais Roxy Music que Bowie, assim como sou mais Stones que Beatles. Mas tenho de admitir que no pop nada demonstra maior evolução, seja de qualidade, seja de estilo, que Beatles nos anos 60 e Bowie nos 70. Comparar Love me Do com o famoso lado B do Abbey Road é viajar do mundo simples e risonho de 1962 ao universo conturbado e amargo de 1969. O mesmo ocorre com Bowie ( e nesse nivel de mutabilidade, com mais ninguém ). O Ziggy Stardust de 1972 é completamente diferente do Bowie de 1979. São apenas 7 anos, mas em termos musicais, são séculos.
   Primeiro ele foi uma espécie de Donovan Leitch melhorado e muito mais culto. Depois um glitter teatral ao extremo. Já em 1972 ele criava um conceito que seria dominante para sempre: o auto-controle. Até então, só existiam dois tipos de artista pop: o apaixonado confessional ( Lennon, Van Morrison, Pete Townshend, Jim Morrison ) e o cínico observador,( Jagger, Ray Davies, Rod Stewart ). David Bowie, influenciado por Lou Reed, que por sua vez pegou essa postura de Dylan, usa o distanciamento, a frieza, o controle absoluto. Nada de entrega a seu público, nada de indiferença a esse público. O que Bowie traz é o direcionamento desse grupo de fãs àquilo que ele deseja. Shows deixam de ser acidentes ruins ou cerimônias maravilhosas, shows se tornam teatro. Ele cria não apenas músicas, ele cria sua carreira, sua imagem. E no processo, cria seus seguidores. Mas aí vem a grande sacada: seguir Bowie não seria ser algo como Bowie, seguir Bowie seria criar seu próprio Bowie pessoal. Daí a enorme quantidade de bandas, fotógrafos e cineastas nascidos da influência de Bowie.
   E ele levou seus fãs década afora com ele. Do folk espacial à loucura bissexual, do soul americano à eletrônica de Berlin. Foram nove discos entre 1972 e 1979, e nenhum deles se parece um com o outro. Hunky Dory é uma linda viagem sentimental, Ziggy Stardust é uma sinfonia para jovens sem rumo, Alladin Sane é um kaos sexy, Diamond Dogs uma obra-prima incompreendida de riqueza sem fim, Young Americans um luxo, Station To Station é um enigma esquizóide, Low é talvez o disco mais fascinante feito por qualquer artista pop, Heroes um caleidoscópio de confusão e finalmente veio Lodger.
   Lodger encerra a fase de Berlin de Bowie ( em 1977 ele se mudou para Berlin aconselhado por Eno. Em 1975 Bowie se mudara para New York e caindo no mundo fashion se viciara em heroína. Eno o aconselha a fugir de tudo e morar em Berlin. Lá eles gravam 3 discos, Low, Heroes e Lodger, de certa forma eles salvaram a vida de Bowie ).
   Fantastic Voyage. Começa a viagem. E já vem a estranheza. Todas as faixas darão a sensação de serem vinhetas, curtas demais, rascunhos. Toscas até. Bowie aqui trabalha com a concisão, com o objetivo. As faixas vão direto para o alvo, não se perdem em arranjos. E são ao mesmo tempo muito complexas, ricas. Voyage flue como um barco em rio, ela é linda, fluida, parece levantar vôo. E termina cedo demais.
   African Night Flight é puro Brian Eno. Se voce nunca a escutou vai se surpreender. Muito veloz, vocais que são como luzes de flash. Uma percussão tribal, vários ruídos eletrônicos. Imagine escutá-la em 1979, na época de Queen e Supertramp, foi um choque. Mudou minha vida.
   Move On é mais uma porrada. Uma profissão de fé, uma tomada de posição, mudar sempre. Os vocais de fundo hipnotizam, " ah iá...ah ió...ah iá...ah ió...", o que posso dizer é que escutar isto é ouvir um gênio em sua potência plena. A música termina cedo, é mais um polaroide desse disco veloz e faiscante.
   Yassassin me assustou em 79. Os vocais de Bowie parecem errados. Ela é muito pop e muito torta. Dá até pra dançar!
   Red Sails é uma das maiores obras-primas de Bowie. Tem tanta riqueza, é tão complexa, diz tanto em tão pouco tempo que chega a parecer um tipo de milagre. Adrian Belew, guitarrista maníaco, destrói a guitarra com seus ruídos do além. Acachapante.
   D.J. é a menos boa do disco. É o pop que confundiria Bowie por toda a década de 80. Os anos 80 foram anos de cocaína, de exagero, de ruído sem porque. Bowie se perdeu nesse pó.
   Look Back in Anger volta ao nível do disco: mais uma obra-prima. Dramática, corrida, a voz de David raras vezes esteve tão maravilhosa. Tem um solo de guitarra de chorar de tão bom e ela passa através de nós como miragem. Aliás o disco inteiro tem esse modo de miragem, um sabor árabe e às vezes dá uma guinada até o Japão.
   Boys Keep Swingin' é a mais rock do disco. Uma homenagem aos boys, uma delicia de canção, a perfeição.
   Repetition é descaralhante. Ainda hoje extremamente original, gruda na cabeça como obsessão. Doentia e linda. Rica em sons de fundo, fico sem palavras para a descrever.
   Red Money. O disco termina em alto estilo. Repare na rica tessitura dos sons dos instrumentos. No timbre da bateria, da guitarra. Em como tudo soa diferente...
   Eis dentre tantas outras, a grande lição de LODGER que seria seguida desde então: o segredo é o timbre. O grande lance da música pop NÃO seria mais a harmonia ou o riff, seria o RITMO e o TIMBRE dos instrumentos. O grande músico, o super instrumentista, seria aquele capaz de manipular o timbre do som, fazer um simples acorde soar DIFERENTE.
   LODGER chega a dar medo de tão rico. Um disco como este merece toda a admiração de um homem. David Bowie atingiu níveis de excelência raros. Ouvir seus melhores discos é um soberbo PRIVILÉGIO.

Brideshead Revisited (1981) - theme



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BRIDESHEAD REVISITED, UM LIVRO DO GRANDE EVELYN WAUGH

   As letras britânicas nos anos 30,40... Auden, Greene, Lewis, Spender, Huxley, Wodehouse e o grande Waugh. Uma brilhante geração, feita de individualismo mordaz, de dúvidas, de bom gosto, de britanismo. Últimos suspiros de uma civilização que agonizava.
   Evelyn Waugh escreveu sátiras ferinas sobre o que seria "ser inglês" nesse mundo em transição. Todos os seis livros que li são maravilhosos, e Brideshead com certeza não é um dos melhores. "Furo!" leva essa honraria. O texto de Waugh em todos esses seus livros é saltitante, vivo, elétrico. Ele cria personagens que voce adora, adora seu ridículo que nada tem de sublime. São pessoas lamentáveis, e frágeis, muito ´vulneráveis. Padecem da ilusão da importância. Se imaginam "Ingleses", mal percebendo que ser um "Inglês" é ser uma farsa.
   Brideshead Revisited é o livro problema de Waugh. Não é engraçado. É sério. Chega a ser solene. É meio auto-biográfico, e isso travou a veia mordaz de Evelyn. Mas é um livro de estranho fascínio. Lê-lo é como visitar um album de fotografias vivas. Beber chá com estátuas de cera.
   Charles Ryder é um capitão estacionado na Inglaterra durante a segunda-guerra. Seu pelotão se acomoda em palácio de antiga familia nobre, os Flyte. Por coincidência, Charles conhece aquele casarão, mais que isso, ele fora hóspede lá. O livro conta esse passado.
   Charles é amigo de Sebastian, o alcoólatra, jovem e dandy herdeiro dos Flyte, e se apaixona pela irmã de Sebastian, Julia. O romance não dará certo, e um dos motivos, talvez o principal, é o catolicismo culposo da familia Flyte. Acompanhar essa história é como visitar a casa de um amor perdido. Melancolia plena.
   Muitos perceberam que o amor de Charles por Julia pode ser o amor-gay de Charles por Sebastian. Basta dizer que ele tem prazer em perceber que "Julia é idêntica a Sebastian". Waugh era homossexual, mas esse não é o foco do livro. A questão do tempo, da memória e da religião são muito mais importantes. Evelyn faz retratos maravilhosos dos parentes chatos, dos pais de Julia, dos jantares formais ( um empregado para cada convidado ).  O fim do apogeu de um império marcado pelos "bons modos".
   Em 1981, a Granada Tv de Londres, produziu uma minissérie em 24 capítulos sobre o livro. Jeremy Irons fez Charles Ryder e no elenco ainda havia Claire Bloom, Laurence Olivier e John Gielgud. Na série, o homossexualismo era enfatizado e a produção se esmerava em bela fotografia e uma trilha sonora de primeira. Por incrível que pareça, o sucesso foi tanto que houve uma "febre Sebastian Flyte" na Inglaterra. Os jovens conservadores, anti-punks, anti-trabalhistas, copiavam as roupas e o corte de cabelo de Sebastian. Bandas de "direita", que eram odiadas pelos punks, tipo Spandau Ballet e Ultravox, faziam parte da onda. David Bowie em seu tempo "Let's Dance" era a imagem-calculada em xerox de Sebastian Flyte. Em 1988 a série chegou ao Brasil via Tv Cultura, e era moda as pessoas se reunirem nas casas uns dos outros e beberem chá com scotch para ver a série. Eu me vesti o ano inteiro de Sebastian Flyte, calça branca, camisa clara, sapatos de duas cores e blusa de lã- fina jogada com displicência sobre os ombros. Mas o principal era a atitude: uma expressão de melancolia divertida, de humor saudosista. Eu pirei com a série.
   Bem..não vou comentar a estranheza de uma série de Tv que se torna hit, tendo como tema um casal gay em Oxford e a crise religiosa de uma família esnobe. Hoje esse tema não daria audiência nem como filme de arte. Coisas dos anos 80....
   Fiz essa digressão para exemplificar a importância de Evelyn Waugh. A posição central que ele ocupa na vida intelectual do século XX. É um autor que deveria ser muito mais lido aqui nos Brasis. Principalmente porque temos um imenso potencial para a criação de personagens ridículos, sem noção, grotescos. Mas talvez fosse esse um problema, o humor de um Waugh brasileiro teria de ser obrigatoriamente muito mais grosso, explícito, agressivo.
   Certamente existem livros mais perfeitos de Waugh, e volto a citar "FURO!" como sua obra-prima. Mas Brideshead tem uma beleza que não se esquece.

T Rex Children of the revolution



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E TODO MUNDO OUVIA O T.REX ( MENOS OS INTELIGENTINHOS )

   Marc Bolan ( que nome ótimo para um rock star ), não teve sorte. Em fins de 1970 ele ( e o produtor Tony Visconti ), criaram o glitter rock, mas em 1972 o ladrão David Bowie lançou Ziggy Stardust e ficou com a fama. David Bowie É um ladrão, isso todo mundo sabe. Ele roubou o som e o visual de Bolan. Porém, Bowie, gênio que é, melhorou a coisa, amplificou, enriqueceu. Mas o papo agora é sobre T.Rex...
   Entre 1971/1974, apesar de Floyd, Led, Elton, Wings e Rod, entre a molecada inglesa, o que vendia era T.Rex. Tanto que na época se falava da T.Rexmania, se dizia que Bolan poderia bater os Beatles...sózinho. Mas era um sucesso ( ele botou seis singles em primeiro lugar nesses anos ), local. Ao contrário dos nomes citados acima, que vendiam bem no mundo todo e vendiam MUITO na América, o T.Rex vendia apenas na Grã-Bretanha, o que deixava Marc Bolan cada vez mais frustrado. Ele não entendia o porque... ( Hoje sabemos o motivo. Nada de sexualmente dúbio vendia nos EUA da época. Tanto que Bowie só virou POP por lá depois da fase Ziggy ).
   A crítica foi cruel com Bolan. Todo o tempo. Atacavam suas letras, seus riffs, seu visual, sua alienação. A molecada de 12 anos o adorava. E é legal constatar, de Duran Duran a Jesus and Mary Chain, de Human League a Blur, todos foram fâs de Marc Bolan. Toda essa galera, que hoje tem entre 35/50 anos cresceu ao som de seus discos e odiando aquilo que a crítica da época endeusava ( King Crimsom, Gentle Giant e Yes ). O que fascinava a molecada é o fato de que Bolan não parecia real, ele lembrava um cartoon, uma brincadeira, um ET. E seu som, simples e complexo ao mesmo tempo, se comunicava com a ansiedade pré-adolescente, era um som redondo, convidativo, sensual.
   Em sua origem o T.Rex se chamava Tyranossaurus Rex e fazia folk-psicodélico. Quando Marc Bolan conheceu Tony Visconti, um muito afetado e muito ambicioso produtor de discos obscuros, a coisa pegou. Visconti colocou eletricidade no som, percussão e vocais de fundo "glamurosos". Nascia a febre made in England.
   Interessante observar que o timbre da guitarra de Bolan é um dos segredos do som. Ela é cheia, sinfônica, cada acorde simples repercutindo e ocupando todo o espaço. Na engenharia de som de Tony Visconti trabalhavam dois futuros produtores de sucesso: Roy Thomas Baker que criaria o som do Queen, e Martin Rushent, que seria o rei do techno-pop anos 80. Ah sim....em 1974 Bowie roubaria Tony Visconti, que seria seu produtor entre 74/80, sua melhor fase...
   Vamos ao disco. THE SLIDER, meu disco favorito da banda.
   A capa tem foto de Marc Bolan tirada pelo fotógrafo...Ringo Starr...Sim, na época Marc, Ringo e Elton John eram inseparáveis. Vai saber...
   Ele abre com Metal Guru, faixa que literalmente arromba o barraco. Tem clima de anos 50 e logo se percebe a beleza original dos backing vocals. Esses vocais de fundo, marca registrada do som T.Rex, são feitos pelos ex-componentes da banda Turtles e também pelos próprios Visconti, Baker e Rushent. Eles gemem, gritam, cantam, sibilam e harmonizam, sempre "glamurosamente"...
   Mystic Lady é uma faixa linda e estranhamente "silenciosa". O baixo decola e tem um arranjo de cordas pensativo. Marc divaga sobre seu tema favorito, o misticismo espacial ( era isso o que mais irritava os inteligentinhos da época ).
   Rock On exibe o riff perfeito. Riff da guitarra de Marc Bolan. Ele criou em toda a vida dois riffs, e tudo o que compunha era variação sobre esses dois. Mas e daí? Esse riff justifica toda uma carreira. Rock On é pop perfeito.
   Chega a hora de The Slider, faixa que dá nome ao album. E eu penso: -Qual é o mistério da tensão que há nessa canção? Tensão que vicia, música perfeita. O riff quase se desfaz, quase nada de voz,  e ela se esparrama no ar, cristalina, diáfana, sedutora. É um dos mais sublimes momentos de todo o pop inglês.
   Baby Boomerang ( os nomes das faixas são deliciosos ), é totalmente milk-shake, vocais festivos e dança discreta. Alegre.
   Spaceball Ricochet é outra meditação de Bolan. Ele divaga e canta com sua voz mínima.
   Entra então Buick MacKane, um kaos. Uma sinfonia de rocknroll. Gritos, muita percussão e um riff absoluto. Impossível não ser tocado na alma por essa celebração ao rock mais genuíno. Sanguinea.
   Telegram Sam, eis o riff que Marc criou em sua mais completa simplicidade. Os ooooooohs de fundo são o supra-sumo da afetação gay. Lindo.
   Rabbit Fighter é insinuante, sensual. O timbre da guitarra é trabalhado até a saturação.
   Baby Strange tem cordas exatas. O riff é insistente. A colisão das cordas e da eletricidade da guitarra faz da canção um doce envenenado.
   Ballrooms of Mars. Clima de fim de festa, pensamentos soltos, dispersão.
   Chariots Choogle tem backing vocals muito agudos, um riff sublime e cordas graves, urgentes. É um dos pontos mais altos do disco.
   Por fim, Main Man, uma absurda canção triste. Ah sim...em 1974 quando Bowie lançou sua editora musical a batizou de Main Man....
   Em 1974, dois anos após este disco, Marc Bolan destruiu sua carreira. Primeiro se casou com Gloria Jones, uma cantora americana...negra. Seu público estranhou, não exatamente por ela ser negra, mas por ela NÃO ser glamurosa. Logo em seguida ele muda seu som. Bolan passa a fazer canções dançantes, soul music, negras. E se muda para a América, em busca do sucesso que por lá nunca veio. Em 1977 ele morreria em acidente de carro.
   Ah sim...em 1975 David Bowie lança seu disco dançante, Young Americans e se muda para New York...mas aí é maldade dizer que essa guinada de Bowie foi roubo sobre Bolan. Na verdade nessa altura Bowie seguia os discos solo de Bryan Ferry, soul de plástico bem produzido. Logo depois David iria para Berlin, roubar ideias de Eno e do Kraut Rock.
  Marc Bolan foi um rei durante apenas três anos. Mas foram grandes anos. Num momento de pop brilhante, de fortíssima concorrência, ele conseguiu se destacar fazendo tudo da forma mais simples. Mas o tempo mostrou que era um simples sofisticado, polido, sábio. Quando a fórmula se esgotou, ele tentou outro caminho. Seus discos dançantes são ruins. Bolan não tinha o talento da reinvenção ( talento que sobrava em seus rivais, Bowie e Ferry ).
  Odiado pelos hippies, vaiado pelos cabeças, ele foi idolatrado pelos moleques que se tornariam no futuro punks e new waves. Marc Bolan é um dos belos segredos do pop.
  PS: foi a partir de 1972 que o rock inglês começou a se distanciar dos EUA. Se nos anos 60 quase tudo que estourava na Inglaterra vendia nos EUA ( as excessões foram Kinks e Small Faces ), a partir de 72 bandas como Slade, Status Quo e Roxy Music, grandes vendedores na GB, eram desconhecidas na América. Os campeões americanos continuaram e continuam a vender na Inglaterra, mas o contrário deixou de ser verdadeiro.

Funny Face - trailer (1956) AUDREY HEPBURN



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CINDERELA EM PARIS ( FUNNY FACE ), UM FILME QUE É UMA AULA DE ESTÉTICA ( E UMA FESTA DE PRAZER )

   Ruy Castro em seu texto sobre Fred Astaire, dizia que na saída dos cinemas que exibiam seus filmes, era cômico ver as pessoas, ao voltar para casa, arriscarem passos de dança na rua. Infelizmente jamais terei a chance de ver isso, mas ao reassistir pela nona vez este filme, sinto aquilo que todos os filme de Astaire me dão: euforia. O número de horas de prazer que Fred Astaire me deu em toda minha vida, são incontáveis. FUNNY FACE é um dos seus ápices. ( Saudades da página inteira que a Folha ainda podia publicar quando de sua exibição na Globo, em 1989 ).
   Existem filmes que reverenciamos, amamos como se ama um fenômeno da natureza. Mas exsitem aqueles que amamos como a uma mulher. Amamos com carinho, amamos pelo prazer que nos dá, amamos e aprendemos a o conhecer, a lhe desvendar. Filmes que são festas de prazer inesgotáveis. E eles são infalíveis, basta que eu comece a vê-los para me sentir de novo nessa festa. CHARADA, UM TIRO NO ESCURO, HATARI, A CEIA DOS ACUSADOS, A RODA DA FORTUNA...e este filme.
   Mas ele não é só Astaire. Aliás o filme é mais de Audrey Hepburn que dele. E aí salta a vista o carinho que a Paramount sempre teve por ela. A carreira de Audrey no estúdio é irretocável. Eles souberam o que oferecer para ela, tiveram gosto, percepção. Assim como a RKO teve com Cary Grant ou a MGM com Clark Gable. Penso na tragédia que são as carreiras de gente como Halle Berry, Helen Hunt ou Jim Carrey, totalmente sem rumo, desperdiçados. Weeeellll...
    Este filme trata do mundo da moda. A fantástica Kay Thompson faz uma editora/dona de revista tipo Vogue ( na verdade o personagem é baseado em Diana Vreeland, O Diabo que Vestia Prada ). Pois bem, essa editora resolve lançar uma nova modelo, uma modelo com cara inteligente. Astaire é o fotógrafo Dick Ayers ( que é baseado no MAIOR fotógrafo de moda da história, Richard Avedon, que fez na verdade todas as fotos que aparecem no filme ). Num sebo de livros, eles irão topar com a intelectual Audrey, e o resto é música.
   Muitos críticos vestiram a carapuça, e se irritaram com a gozação que o filme faz em cima dos filósofos em moda na época. Audrey vai para Paris, pois seu sonho é conhecer um rei da filosofia, um tipo de Sartre. O que esses críticos não perceberam é que o filme também ri do mundo histérico da moda. A única coisa que Stanley Donen e seu roteirista defendem é nosso prazer. E nisso eles são de rara competência.
   O filme abre com letreiros, fotos de Avedon, que já são geniais. Poses de modelos, letras tipo Vogue, cores fortes. O filme inteiro é considerado uma aula no uso da cor. Repare na sequencia dentro da sala de revelação, ou na cena com os balões, o contraste do fundo cinza com as cores dos balões. E toda a magnífica sequencia em que Astaire fotografa Audrey nas ruas de Paris. Aliás, jamais Paris foi tão bonita. Todo o mito da cidade brilha no filme como em nenhum outro.
   As músicas são de George e Ira Gershwin. Uma coleção de hits e de hábil genialidade. Eu jamais vou me decidir sobre quem era melhor, se Cole Porter ou se Gershwin. Aqui temos S'Wonderful, uma das mais belas canções sobre o amor feliz, Funny Face, que grudou em mim fazem duas décadas e nunca mais saiu, Let's Kiss and Make Up! e talvez no melhor momento cantado do filme, a divina How Long Has This Been Going On ?... cantada com a voz pequena de Audrey. Apaixonante.
   Fred não dança muito aqui. Mas o pouco que faz dá ao filme o velho charme de seu estilo cool. Ele canta, e é impressionante como seu canto é moderno, elegante, atemporal. O filme tem ainda uma cena em clube exsitencialista francês, Audrey dança com dois bailarinos modernos. É uma cena para guardar: jazzy, cool, sensual.
   Stanley Donen era um mestre em nos dar prazer. CANTANDO NA CHUVA, SETE NOIVAS PARA SETE IRMÃOS e CHARADA são alguns de seus filmes. Ele tinha ritmo, gosto, humor fino e principalmente elegãncia. Seus filmes são compêndios de savoir faire.
   Se eu tivesse de ir para a tal ilha deserta, com apenas cinco filmes, eu escolheria filmes que me consolassem da solidão. Que fossem fontes de prazer, de leveza e de gosto. FUNNY FACE seria um deles.

MANKIEWICZ/ REX HARRISON/ BRUCE WILLIS/ BING CROSBY/ HUSTON/ SINATRA/ OKLAHOMA!

   CHARADA EM VENEZA de Joseph L. Mankiewicz com Rex Harrison, Susan Hayward e Cliff Robertson
Um velho milionário em Veneza se finge de doente terminal para avaliar a reação de suas três ex-mulheres. Mankiewicz, o grande diretor de A Malvada, famoso por seus roteiros exemplares, não consegue criar aqui o interesse para manter o filme de pé. Sua intenção é a de fazer uma sofisticada comédia levemente cínica. Cínica ela é. De qualquer modo, Rex Harrison é sempre um mestre nesse tipo de personagem. Vê-lo atuar salva o filme do meramente ruim. Nota 5.
   CATCH.44 de Aaron Harvey com Bruce Willis, Forest Whitaker e Malin Akerman
É um compêndio de cenas roubadas de filmes de Tarantino e Rodriguez. Será que esse Aaron é um pseudônimo de um dos dois? Este filme não tem história, são apenas cenas de diálogos pseudo-espertos e tiros sanguinolentos. Forest faz seu tipo "sou um pobre diabo" e Bruce Willis faz Bruce Willis. Mas... que diabos, é divertido! E dura apenas oitenta minutos. Nada de tentativa de fazer arte, nada de tristezinhos sensíveis, nada de denúncias para festivais. É apenas um filme adolescente-macho, cheio de rocknroll ( tem Bowie cantando Queen Bitch ). E eu adoro Bruce Willis!!!! Nota sei lá....cinco tá bom.
   O BOM PASTOR de Leo McCarey com Bing Crosby e Barry Fitzgerald
É um dos filmes mais detestados pelos críticos moderninhos. Isso acontece por ele ter, no Oscar de 1944, "roubado" os prêmios de PACTO DE SANGUE, a obra-prima de Billy Wilder. Que culpa este filme tem? É um bom filme otimista e tolo. Bing, muito bem, faz um padre moderno e sempre de bom humor, que é enviado a paróquia decadente para a salvar. Fitzgerald, ator irlandês que chegou a trabalhar no Abbey Theatre, é o velho padre veterano e antiquado. Acontece um milagre no filme: ele não é meloso e nem chato. Tem uma leveza, uma falta de pretensão maravilhosa. Mérito de Leo MacCarey, diretor formado em filmes de Harold Lloyd, e diretor dos irmãos Marx em Duck Soup. Bing Crosby canta Swimming on a Star...é divino!!! A perfeita canção pop. Delicioso passatempo. Nota 8.
   A BÍBLIA, NO INÍCIO de John Huston com George C.Scott, Ava Gardner, Peter O'Toole...
Um dos grandes desastres de Huston. Mas este não é um soberbo desastre, é apenas um filme muito ruim. O antigo testamento é infilmável. Ele é poesia, feito de imagens simbólicas e prosa intrincada, nada menos filmável. Mas Huston amava textos não-filmáveis. Aqui quebrou a cara. O filme é chato, longo, tolo, infantil e feio de se ver. Um caos. Nota Zero.
   JACK, O MATADOR DE GIGANTES de Nathan Juran
Na época em que este filme foi feito ( 1962 ), Ray Harryhausen era o rei dos efeitos especiais ( Ray é o ídolo de Tim Burton ). George Pal vinha logo em seguida. Pois bem, este filme tem efeitos que Não são de Ray ou de George. Portanto são efeitos muito ruins. Não possuem a perfeição de Ray e nem a poesia de George. Isso derruba esta aventura cheia de bruxos, monstros e que tais. Tudo tem jeito de carnaval e nunca de magia. Nota 2.
   ROBIN HOOD DE CHICAGO de Gordon Douglas com Frank Sinatra, Peter Falk, Dean Martin
Chicago dos anos 30. Falk e Sinatra estão em gangues rivais. Sinatra acaba por se tornar um tipo de Robin Hood da máfia. E o roteiro é só isso. Não fossem duas coisas geniais: Peter Falk faz um mafioso "italiano" hilário!!! Tudo que De Niro faria depois está aqui. A voz enrolada e as palavras saindo como cascata, os trejeitos das mãos, o modo debochado de sorrir, é uma criação maravilhosa de um grande ator. E há Bing Crosby, que faz um almofadinha nerd, que acaba por se unir ao grupo. A cena em que Sinatra e Dean ensinam a Bing como se vestir para sair é ótima. O filme, fora isso, é bastante assistível. E ainda vemos os Rat Packs fazerem seus tipos espertinhos de sempre. Nota 6.
   OKLAHOMA! de Fred Zinnemann com Gordon McRae, Shirley Jones e Gloria Grahame
Agnes de Mille fez as coreografias e isso é muito bom. As cenas de dança, infelizmente poucas, são fascinantes. Este filme mostra o porque dos musicais começarem a ruir em cinema. Deixou-se de criar musicais para cinema, e apostando no certo, se começou a transpor para a tela sucessos da Broadway. O que funciona no palco pode ser um fiasco na tela. Este filme, imenso, caríssimo, não foi um fiasco, mas foi pensado como um clássico, e nem sequer é um bom filme. Como cinema, as cenas melhores são aquelas com Gloria Grahame, que faz uma moça incapaz de dizer não a um moço. Gloria foi uma atriz original, meia feinha e muito sexy. Sua vida pessoal foi mais interessante ainda... Zinnemann que é um grande diretor, não sabe fazer um musical. Percebemos seu desconforto, ele não corta quando devia, não estica o que merece ser apreciado. Tudo isso faz deste filme uma coisa esquizo, sem rumo, artificial. Nota 4.
   MILAGRE NA RUA 34 de George Seaton com Maureen O'Hara, Edmund Gwenn e Natalie Wood
É a história do velhinho que pensa ser Papai Noel. Ele passa a trabalhar na Macy's, onde conhece mãe solteira que tem um filha sem ilusões sobre a vida. Este filme, simples e bonito, ganhou um Oscar de roteiro. Mereceu. Embora pareça apenas um filme bacaninha de natal, ele é na verdade um muito sério debate sobre o que é real e o que parece ser a verdade. Seaton, que escreveu a história, dirige tudo como um quase documentário, cenas cruas, sem muita produção. Para quem quiser ver um filme de natal sem nada de piegas ou de bobo, este é o filme. Encantador. PS: Natalie Wood, ainda criança, dá um show como a menina "realista". Gwenn faz um Santa Claus próximo do perfeito. Nota 8.

DIÁRIO DE UMA VIAGEM DA BAÍA DE BOTAFOGO À CIDADE DE SÃO PAULO ( 1810 )- WILLIAM HENRY MAY

   José Mindlin na introdução a este pequeno livrinho, fala da sua dificuldade em obter a única cópia ( estava em Londres ), deste relato. Não existem narrativas sobre São Paulo até então. Tudo o que há, relatos franceses e espanhóis, são descrições de "ouvir dizer", nada escrito por quem lá esteve. Portugal, até 1808 não permitia a entrada de estrangeiros no Brasil, se pego, um francês ou um espanhol seria morto.
   Mas o que se falava de São Paulo até 1808? Que era a cidade "da República". Uma cidade que pagava seus tributos à coroa em dia, mas que tinha leis próprias, costumes seus, que não admitia ser governada. Diziam que seu povo era composto por bandidos. Lenda....
   W. Henry May não era um aventureiro. Era um burocrata da coroa inglesa. Saindo do Rio, ele, em navio inglês, vai até a Ilha Grande, de lá à Santos, então São Paulo e na volta São Sebastião. É um relato simples, didático e muito verdadeiro. O que esse inglês, vivendo no apogeu do poderio real britânico, diz sobre nossa terra?
  Nada sobre o Rio, de onde ele vem. Mas dá pra perceber que ele não gostou do Rio. A Ilha Grande tem elogios por sua beleza, as montanhas, a luz sobre o mar. Ele elogia o governador da Ilha, um português afetuoso, aberto, generoso. Um comentário: " Portugueses não sabem arrumar suas casas ", ele repara nas ruas limpas, mas fala das casas bagunçadas, mal decoradas.
  Surgem dificuldades para entrar em Santos. O estreito de Bertioga os assusta. A cidade é vista como pantanosa, confusa, suja. Vão para São Paulo. Navegam por rio até Cubatão, cidade cheia de cana de açúcar, de lavoura. Se impressionam com a beleza da Serra do Mar, suas imensas montanhas, seu verde. Sobem pela estrada pavimentada em zigue e zague. Lombo de burros. Admiram e elogiam os tropeiros que descem levando café. Gente limpa, educada, forte.
   No alto da Serra. Se impressionam. Campos de capim, caça, clima ameno. Diz que às vezes a paisagem lhe recorda a Inglaterra, montes e rios, sol e árvores grandes. Chegam a São Paulo.
   Na primeira visão da cidade se lembram da Itália. Para onde se olha se vêem belas montanhas e riachos claros e frescos. O clima é saudável e as ruas são asseadas. Estranham o povo. Nas igrejas os paulistas se comportam como se estivessem em peça de teatro francês. Fazem gestos amplos, conversam, se penitenciam. Para os inlgeses, os paulistas não levam a religião a sério. Dizem que o povo dorme toda a manhã e no resto do dia só pensam em namoros, flertes, traições. As mulheres lhes parecem pouco sérias.
   Mas adoram a paisagem, a luz do sol, caçam pássaros, caçam veados, topam com cobras. E voltam.
   Descem a Serra e em Santos tomam o navio rumo ao Rio. Mas antes páram na Ilha de São Sebastião ( Ilha Bela ). Se apaixonam pelo lugar. É um povo que trabalha muito, as mulheres não páram de fazer renda, os homens cuidam da lavoura. As casas são pobres, humildes, mas o entorno tem ares de paraíso. A Ilha lhes deixa uma imagem de sonho.
   O relato, curto demais, se lê em uma hora. Mas quanta coisa pra pensar.
   Mudamos tanto assim? Cadê a paisagem italiana? Que tipo de cidades construímos? Me parece que jogamos no lixo a tal paisagem toscana e no lugar nada fizemos digno de louvor.
   PS: Perguntei a minha mãe se era real ou fantasiosa uma lembrança que tenho de minha infância. Nasci no Morumbi, perto de onde é agora a Tv Bandeirantes. Da porta da cozinha de casa eu podia ver, com nitidez, como se fosse logo na esquina, o pico do Jaguaré. Esse pico, pra quem não sabe, fica a cerca de 15 quilômetros em linha reta, de onde eu o via. Toda manhã eu admirava o sol sobre o verde de suas encostas e no inverno o admirava cercado pela neblina fria. Isso era mesmo assim ou foi fantasia minha? Pergunto e minha mãe o confirma. Da cozinha se avistava o pico do Jaguaré e da rua, à esquerda, se olhava o alto da avendia Paulista. Não sei se a Itália é assim. Mas era uma visão sem preço.

Bing Crosby & Frank Sinatra - Well, Did You Evah (High Society)



leia e escreva já!

A DITADURA DO CLEAN E O MEDO DO FIM ( SOBRE CIGARROS E PIERCINGS )

   Uma amiga escreveu que essa onda de perseguições contra os fumantes significa uma invasão aos direitos do indivíduo. Se eu fosse fumante me sentiria incomodado, claro, e acho que estamos entrando no exagero, sim. Mas ao mesmo tempo em que se fecha o cerco contra o fumante, se tolera o garoto com dúzias de piercings, centenas de tatoos ou um casal homo de mãos dadas na rua. Então o problema não é de direito. Direitos justos, que não eram dados, hoje, felizmente, são concedidos. O que acontece então?
  Penso que o problema, óbvio, é que a fumaça do cigarro incomoda. Esse é o grande motivo. Mas, um cara ouvindo funk no ônibus também incomoda e mesmo o casal gay na rua pode incomodar alguém. No rosto com vinte piercings há incômodo a quem o vê ( minha mãe se sente agredida ). Porque tanto ódio ao cigarro?
  Vivemos numa época que nega tudo aquilo que não pode ser explicado ou suavizado pela ciência. As religiões que crescem são aquelas que estupidamente "explicam" tudo. Falamos sobre sofrimentos que podem ser "domesticados" pela medicina ( depressão, TOC, fobias ), o que não é explicado não existe. Nesse mundo infantil, mágico, onde aquilo que temo "não existe", a morte torna-se convidado indesejado. Quem já enterrou pessoa querida sabe o que falo: nada em nossa sociedade ritualiza esse momento. O luto, a oração, os símbolos da morte nos foram roubados. Sobre a morte nada pode ser falado.
  A coisa é óbvia. Em civilização predominantemente atéia ( mesmo os que vão a cultos têm dúvidas ), a morte se torna um pensamento a ser negado. Insuportável. Ao negar o direito de se matar "de seu modo" a todos, estamos na verdade tentando esquecer o nosso próprio fim. Pois se aquele cara fuma sem parar, ele sem saber está jogando em nossa cara que comemos carne cheia de hormônios e bebemos produtos suspeitos. Não estamos nem aí para a morte de um fumante, o que não podemos suportar é ser lembrados da nossa morte futura.
  Tenho amigos que não suportam museus, filmes "velhos", músicas "antigas". Já vi várias vezes pessoas desprezarem e desrespeitarem velhos em filas e em ônibus. Tudo o que é lembrança do fim, do antigo, do que já se foi, deve lhes ser odioso. Tudo o que cheira a cemitério lhes dá pavor.
  Mas voce pode dizer: mas esses jovens se matam em motos, se enchem de drogas e não ligam motos e drogas à morte.
  Sim, é verdade. Mas não se esqueça que motos zumbindo pelas ruas, cocaína e crack estão associados a coisas "jovens". Mais que a escolha de modo de morrer, andar de moto é ser "valente", mais que suicidio, se drogar é ser "do contra". Cigarro tem uma imagem bem outra. E não vamos nos esquecer, sempre que se lembra do "passado" o que se imagina é uma multidão de fumantes. O cigarro é retrô, antigo, old fashion, velho portanto. Não é a morte rápida e jovem do acidente na rua. Não é a morte inconsciente da droga. É a morte em casa, gota a gota, lenta, doída, real. A morte que hoje todos tentam esquecer.
  Mundo de higiene absoluta. Ditadura das dietas, das academias, dos regramentos. Tudo isso criado para vencermos a morte. O que nos assusta é que ela é imbatível. O futuro será como o interior de uma geladeira: branco, frio e limpo. Tão limpo que parecerá... morto.