SE FOI A CASA DAS ROSAS

Derrubaram a casa cor de rosa da esquina. Ela tinha uma linda janelas com losangos de ferro e um jardim bem cuidado, cheio de rosas brancas e vermelhas. Havia uma cadeira onde uma senhora tomava sol e as janelas estavam sempre abertas para deixar o sol entrar. Passei lá ontem e vi no lugar um terreno vazio. A terra lisa, sem um só capim e os tijolos retirados e levados embora. O silêncio agora tomou conta daquela esquina. --------------- Antes: Passei em frente aquela mesma casa e eu andava pelas ruas com uma canção na cabeça. Eu a cantava baixo, entre os dentes. Uma menina saía da casa acenando para a mãe. No outro lado da rua, em frente, um homem lavava seu carro, água de mangueira. Era setembro. Três mulheres vinham trazendo o pão nas mãos e uma delas mancava. Dois meninos se deixavam levar pelas bicicletas. Mais adiante a grama era cortada e um caminhão estava quebrado. Pela porta da sala se podia ver a mesa posta para o café da tarde e em outra porta se via a televisão ligada. Um cachorro pulava o portão voltando de alguma fuga. A menina que eu conhecia vinha pela calçada com os livros contra o peito. Ali um garoto gritava o nome Walter. Lá a mãe, de quem?, chamava o moleque para apanhar de cinto. Na rua de baixo estavam jogando taco, ouvia os gritos. A velha japonesa andava devagar com a sombrinha aberta. Eu parava pra ver o sapateiro martelar a sola de uma bota. Esses bairros tinham um tesouro, suas crianças, e por isso todos cuidavam delas. O filho da Fernanda, o filho do Mario, a filha da Clélia. Todo lugar era estar em casa, toda casa era o lugar certo para estar. Quando o calor apertava havia o porão de casa ou a beira do córrego. Sempre havia água por perto, lagoa, bica, poço. Dentro de casa era chato. ------------------- Mas agora a esquina está vazia e o que farão lá não vai ter água e nem porão. Nem rosas e muito menos velhas com pão. O bairro não terá tesouro algum. E quando derrubarem, no futuro, o que lá agora irão fazer, ninguém haverá de lamentar.