JOYCE OU PROUST E O HÁBITO POSEUR DE QUEM QUER PARECER INTELIGENTE

Muita gente diz ler Joyce sem nunca o ter lido. Ou melhor, ter lido, talvez, o mesmo que eu, Dublinenses, O Retrato e as primeiras páginas de Ulysses. Eu cheguei à página 120, e não senti o menor prazer. Dublinenses tem um dos 3 ou 4 melhores contos que li na vida, Os Mortos e o Retrato eu achei chatíssimo. Finnegans é um livro de um linguista endoidecido. É como Pound, só tradutores e professores de linguística se divertem. Há em Joyce algo de desumano que nos afasta. Ele é frio como uma pedra de igreja irlandesa e tem o modo de falar de um jesuíta. Seu sucesso, sua representatividade se deve ao fato de que seus defeitos são os defeitos do século XX. Não há ninguém que represente melhor a confusão, o niilismo e a falta de objetivo de um tempo de ruína e finais vários. --------------- Já Proust é seu oposto. As pessoas também fingem o ler, mas eu, ao menos, falo a verdade, leio e sinto o mais absoluto prazer. Marcel Proust crê na vida apesar de tudo. E nisso, moralmente, ele é infinitamente superior ao irlandês. Escritor da sabedoria da vida, Proust nos diz todo o tempo que tudo valeu a pena. Pois, por maior que possa agora tudo parecer perdido, na memória, na vida que voce viveu e que portanto é sua para sempre, na memória tudo se salva. Mas não é só isso. Dizer que ele é o homem da memória é não dizer nada. Proust nos ensina que é na linguagem que se salva a memória e que entender o signifcado das palavras e as usar com precisão faz da vida uma realidade muito mais rica. A beleza, o saber viver, o aproveitar a vida está relacionado a saber falar, pensar, verbalizar. Por isso sua escrita tão exuberante. Proust percebe a catedral que vive latente no tijolo e enxerga a respiração que se faz provável em cada hora. Dessa maneira, ele nos ensina a sentir. --------------- Para isso ele nos pede apenas uma coisa, que usemos nossa imaginação. Há uma cena em Jean Santeuil em que Jean, o protagonista, não sente nada ao olhar o lago de Genebra. Então, através de ideias que se coordenam, Jean percebe que só sentimos a vida de fato, em tudo que ela pode nos dar, quando nossa imaginação é ativada. O lago de Genebra é uma linda mistura de água e areia, mas isso é apenas linda água e areia. Ele começa a emocionar quando Jean, sem perceber, e através da sua imaginação, começa a associar o lago ao mar que ele amava quando era criança, aos lagos que ele imaginou nos livros que leu, à tudo aquilo que, dentro de si mesmo, Genebra pode lhe despertar. É um modo de entender o prazer que se casa perfeitamente com o meu, pois eu já senti, antes de o ler, o mesmo que Proust aqui descreve. ----------------------------- Um grande autor fala aquilo que nós desejamos falar e não conseguimos. E é em Proust que mais encontro esse tipo de frase em que ele explica, com perfeição, um sentimento ou um pensamento que sempre tive mas que nunca pude o explicar. Ele vê o mundo como eu o vejo.