A CULTURA DO RENASCIMENTO NA ITÁLIA - JACOB BURCKHARDT
A leitura é muito agradável. Lançado em 1860, este estudo é de uma popularidade imorredoura. A tese central que rege este trabalho é a de que foi na Itália, entre Dante e Ariosto, Bocaccio e Boiardo que a individualidade moderna teve nascimento. Para isso, o suiço Burckhardt analisa, em capítulos breves, todos os aspectos da vida de então. Política, arte, moda, religião, guerras, geografia, crendices, tudo é contado de um modo delicioso. O autor nunca parece erudito demais, e ao mesmo tempo não se aproxima da vulgaridade simplificada do best seller. -------------- A melhor parte é a política. A história dos vários príncipes, nobres, papas, prelados que se enfrentavam na península é saborosamente agitada. Ao contrário do resto da Europa, onde a nobreza hereditária vivia distante da massa, enclausurada em caçadas e guerras, torneios e banquetes, a dita nobreza italiana era volúvel, a nobreza se dava por dinheiro, poder, influência, e não por linhagem. Desse modo, o duque ou barão, dividia a vida com comerciantes, navegadores, soldados e mesmo gente do povo. A nobreza, que na Alemanha ou Inglaterra se dava pelo sangue, na Itália se devia à honra, à cultura, aos bons modos e aos contatos escusos. Nesse caldo de rostos e vozes, de acordos e traições, nasce o homem moderno: o indivíduo. O homem não é mais parte de um estado ou descendente de uma linhagem. Ele é um homem. ----------------- A consciência de ser herdeiro de um império, o de Roma, a língua nobre, o latim, o amor aos livros ( várias histórias de nobres ricos que gastavam tudo o que tinham para a construção de uma biblioteca ), tudo isso teria fim por volta de 1540, quando a Espanha tomaria a Itália para si e poria fim à Itália do renascimento em prol da Itália dos jesuítas. O espírito italiano, exportado para toda a Europa, estaria morto dentro da própria Itália até o início do século XIX. Trezentos anos de servidão à Espanha e depois à França e a Austria. --------------------- Claro que há o lado cruel da cultura italiana da renascença. Os inimigos envenenados, a oposição destruída, a tirania de juizes corruptos, a compra de papas, mas, por outro lado, há impostos mais baixos que em qualquer outro local europeu de então, cidades como Veneza e Milão têm um nível de vida mais alto que qualquer lugar, incluindo o Oriente, o asseio e a higiene são incrivelmente elevados, todo esse dinheiro obtido pela ação do comércio, atividade em que cidades da Italia dominam o globo. Ferrara, Bolonha, Napoli, Bari, Verona, todas tentando ser mais educadas, mais cultas, mais luxuosas que sua rival, um tecido de províncias, de países minúsculos que se diferenciam não pela língua, mas sim pelo costume, pelo que cada uma tem de individual. O cidadão, vivendo em meio a esse caldo de cores e brilhos, desenvolve lentamente a ideia de que ele não só pode como deve desenvolver algo que o diferencie dos outros. Eis o homem moderno. Assim, enquanto na França ou na Espanha mal se precebe qualquer particularidade em um rei como Luis ou Afonso, na Italia há uma marca, uma cor única na alma de um Lorenzo de Medicis ou um Cellini. Bello!