UM LIVRINHO MUITO BOM: COMO PROUST PODE MUDAR SUA VIDA- ALAIN DE BOTTON
Dizem que no mundo há apenas dois tipos de leitores: os que conhecem Proust e os que não o leem. Aqui, Alain de Botton, um tipo de filósofo pop como há tantos hoje, escreve um bom texto sobre os benefícios que Proust pode trazer à sua vida. Se isso parece surpreendente para voce, isso se deve ao fato de que voce não lê ou não entendeu nada de Proust. Em 2010, mergulhado em mais uma onda de tristeza, eu li o segundo volume de sua obra prima e me senti vivo outra vez. Botton explica o porque disso acontecer. --------------------- Este livro, curto, delicioso, leve, apresenta Marcel como um homem doente. Morto aos 51 anos, em 1922, de gripe, ele passou um terço de sua vida na cama. Os outros dois terços em festas e visitas. Tinha muitos amigos e não era solitário, mas desconfiava da amizade como do amor. Seu pai, que se dizia o mais feliz dos homens, foi médico famoso e seu irmão um soldado condecorado. Já Marcel vivia doente. Asma, prisão de ventre, alergias, dores nos rins, gripes, febres, vertigens. Janelas sempre fechadas, ele dormia com 4 cobertores de lã e mesmo no verão saía com casacos de peles. Com as pessoas sua atitude era sempre a de agradar. Proust gastava fortunas com presentes, com gorjetas, com flores e elogiava todos. Suas críticas ele as guardava dentro de si mesmo. Já como autor, ele se via depreciativamente. ---------------- Sim, eu sou proustiano e após ler este livro o sou mais ainda. O acho infinitamente maior que Joyce. Os únicos que lhe chegam perto são Henry James e Stendhal. ----------------- E voce agora deve estar perguntando: cadê o bem que ele faz? Falo agora, mas não tudo, este livro é fácil de achar. ----------------- Proust nos ensina, acima de tudo, que a vida é uma questão mental. Não importa onde voce vive ou para onde voce viaja, é sua percepção mental que dá o valor de sua vida. E isso tem a ver com VAGAR. Com o tempo. Pegue um carro e trafegue a 80 por hora ao longo de uma avenida. Faça esse mesmo trajeto caminhando a pé. E depois andando vagarosamente. As três experiências serão completamente diferentes, e eu garanto que a mais rica será a mais lenta. Essa uma das lições do texto proustiano: o aproveitar a vida está diretamente ligado ao tempo gasto naquilo que se faz. Quanto mais rápido, menos vivencia. Por isso ler Proust, com vagar, é tão enriquecedor. Ele nos ensina a ver a vida e a sentir a beleza daquilo que nunca havíamos percebido. --------------------------- Proustiano que sou, eu sempre, sem querer, parava para ver a beleza de uma casa velha, comum, vulgar, casa que nada valia como "arte" mas que eu sentia ser ponto de beleza. Essa é uma atitude profundamente proustiana. Observar a beleza de Roma ou de uma pintura de Degas nada tem a nos revelar, porque nosso olhar jamais será puro. Olhamos São Pedro no Vaticano com todas as opiniões dadas por nossa cultura. Olhamos querendo ver o que deve ser visto. O que fica bem sentir e falar. Jamais olhamos como nós mesmos. Por outro lado, a pessoa que tem o poder de olhar "de verdade", verá a beleza de um limão aberto sobre a pia, uma meia de seda jogada numa poltrona ou um cachorro dormindo ao sol. O texto de Proust nos faz perceber isso. O gosto de uma medeleine abre todo o mistério da vida para o narrador. Essa lição do "CAMINHO DE SWANN" é preciosa. ------------------- Mas há mais, muito mais. Proust, segundo de Botton, nos ensina como fazer o amor durar, como cativar um amigo, como ler melhor, como amar a vida, como se portar. Inclusive como não mitificar o próprio Proust. Para isso de Botton usa Cambray como exemplo. Cambray é uma vila onde se passa o início de EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO. Muita gente vai lá para "sentir" as emoções de Proust. Pois bem, a cidade é comum, nada tem de diferente, é como qualquer cidade do campo normando. O que de Botton diz e Proust ensina é que a emoção proustiano pode e deve ser obtida na sua vila, no lugar onde voce viveu e não em uma vila que nada significa para voce. Nesse momento confesso que ri lendo o livro, pois notei que minha Cambray se chama Caxingui e que Proust entenderia que para mim o Caxingui é muito superior a Cambray. E é. ---------------- Falarei apenas mais uma lição, no livro são nove. A memória é incapturável. Eu posso recordar que em 2002fui à tal praia e que lá amei tal mulher. Que comi um prato de peixe e vi um entardecer roxo. Mas por mais que eu esmiuce esses detalhes, essa memória é sem alma. A alma dessa lembrança virá apemas de modo inesperado, surpreendente. E isso ocorrerá com o encontro com um lença a muito esquecido, uma melodia jamais escutada outra vez, um perfume original. A lembrança racional, evocada, consciente é como uma fotografia, a memória inesperada é um caminhar novamente no passado. Entramos nessa época sem querer e sem saber o porque. ---------------- Por fim, quero dizer que vivemos no menos proustiano dos tempos pois tudo agora é velocidade, desejo imediato e memórias fotográficas. Por isso nossa vida parece e parecerá cada vez mais sem cor, sem sabor e entediante. E sem qualquer rastro de perfume. ------------------- PS. Não ia falar do desejo, mas falarei. Para Proust, o segredo do desejo é mental. Uma mulher rica, que deseja um vestido e imediatamente compra oito modelos desse vestido jamais terá o prazer de uma mulher que DESEJOU esse mesmo vestido, e por não ter o dinheiro, cultivou esse desejo por meses, até poder o comprar. O segredo do desejo é desejar, não obter. E isso é ainda mais forte no amor. Esperar pelo Natal para ganhar um brinquedo é uma experiência muito mais profunda que ganhar o mesmo presente no dia em que ele é desejado. Do mesmo modo, a grande paixão de sua vida será aquela que mais foi adiada, esperada, sonhada. ---------------- Sim, Proust sabia da vida e quando perguntado porque uma pessoa tão infeliz podia ajudar tanta gente, Marcel respondia que um médico se infecta a todo momento e mesmo assim cura seus doentes. Ele tinha absoluta consciência de que ajudava seus muitos amigos com conselhos e com seus escritos, e sabia dolorosamente o quanto sua vida era miserável. Rico desde sempre, cercado de luxo e de amigos aristocratas, e infeliz até morrer. Obrigado Marcel Proust.