THE DEATH OF A LADIES MAN - LEONARD COHEN E PHIL SPECTOR

Alguém disse que pessoas que não conseguem separar a música da emoção pessoal não entenderam o que significa a linguagem musical. Dou exemplo. Com a idade, várias emoções ou lembranças de emoções perderam o valor para mim. Não é um tipo de alzheimer não, é a proximidade do fim. Diante da morte voce peneira o que importa e percebe então que muita coisa não tinha importância. Centenas de canções que eu amava nada mais significam. Por que? Porque o valor delas não residia na música em si, mas sim em alguma emoção que a canção despertava. ----------------- Então eu adorava ouvir o pobre homem chorando o amor que passou. Ou a saudade da rua que não existe mais. Ou a morte de seu cavalo. Também havia aquele que gritava de desejo ou berrava contra a guerra. Eram emoções que nasciam da "literatura" da mensagem, de uma historinha, de identificação. Nunca da música pura. ----------------------- Amar a arte musical é penetrar dentro dela e se deixar ser levado pelos sons. Abstração pura. A emoção não vem de uma lembrança ou de uma mensagem que pareça um conto ou poema, ela vem do som que se escuta. ------------------- Atom Heart Mother é meu disco favorito de Pink Floyd e Satanic é o disco dos Stones que mais me toca ( mas não é meu favorito ). Por que? Porque são abstratos. Som e ruído que é na verdade apenas isso, som e ruído. E é por isso que Death of a Ladies Man é não apenas um ótimo disco, é o único de Leonard Cohen que me satisfaz. Por obra de Phil Spector. ---------------------- Fãs de Cohen detestam este disco. Porque não se parece com os discos de Cohen. Este lembra muito os discos de John Lennon. Principalmente a obra prima que é Walls and Bridges. Spector era influência imensa sobre Lennon e nele havia o exagero, a loucura típica de Phil Spector. É o que acontece aqui. Nada de violão e voz, são 3 guitarras, dois baixos, duas baterias, dois teclados, e um monte de percussão, violinos, sopros, coros femininos, xilofone, a breguice sem medo que se torna fascinante. A voz de Cohen fica lá no fundo. -------------- Entenda, eu gosto de Cohen mas sua obra é a de um poeta. Aqui não, é música. Dizem que Spector gravou tudo com uma 38 em cada mão. O pó voava pelo estúdio. O disco é delicioso. E às vezes genial. --------------- Phil Spector mudou o rock por volta de 1963, aos vinte anos, quando começou a produzir discos. Ele trouxe a sinfonia para o Pop e fazia Wagner em 2 minutos. Não haveria Brian Wilson sem ele e nem a parte orquestral dos Beatles. Alguns singles de Phil são genialidade absoluta e aqui ele fez o inusitado, uniu o mais discreto dos cantores ao mais expansivo dos estilos. O mundo não gostou. Eu amei.