... E JEAN GABIN CRIOU O HOMEM DO CINEMA
O cinema sempre teve um poder imenso para moldar o mundo físico. E, ocasionalmente, o espiritual. Esse poder foi transferido na década de 60 para a TV e neste século para as redes sociais. Homens da internet são modelos para meninos, mulheres para as meninas, já que pais e tios não conseguem ou não podem mais fazer o papel de modelo de vida. Sim, os modelos hoje são fracos como nunca antes, eles vão de um cantor hesitante à uma celebridade sem obra. -------------- Nos tempos em que o cinema era rei, Cary Grant nos ensinava a ser elegante, John Wayne a parecer forte e Humphrey Bogart a encarar a vida de modo estoico. Claro que voce podia ter outros modelos, parecer alegre e destemido como Errol Flynn, um cara do bem como James Stewart ou um outsider tipo James Cagney. Creia, do terno a ser vestido ao modo de comer um bife, da paquera ao jeito de beber e fumar, tudo era ensinado pelos filmes. A última geração a ter tamanho poder foi aquela que reinou por volta de 1960-1970, onde apesar de haver modelos no rock como Jagger ou Morrison, e na TV, como Johnny Carson ou Dick Van Dyke, os garotos ainda se guiavam pelo modo cool de Steve McQueen ou o charme perigoso de Alain Delon. -------------------- Se voce quiser saber o lado feminino da história substitua Cary Grant por Grace Kelly, John Wayne por Marilyn Monroe e James Stewart por Audrey. ----------------- Ontem vendo um filme de Jean Gabin eu recordei que esse francês meio feio e meio bonito, meio gordo e meio magro, meio calado e meio paradão foi o produto original. Em 1935 ele já fazia Bogart antes de Bogart e era John Wayne de um modo muito mais realista. -------------------- Gabin surge em cena e voce, se for um homem, sente imediatamente que ali está o tio que voce sempre quis ter. No rosto dele nasce a certeza de que ele viu tudo, sabe o que dizer, e está pronto para te ensinar. Ele, no primeiro momento passa autoridade, em seguida força e coragem e então, eis o segredo, vulnerabilidade sem auto piedade. Gabin parece arauto do destino, estoico como uma ordem divina. Em vários filmes ele morre por amor, em outros é corneado, mas nunca jamais parece fraco. Não há como saber se Gabin é humano ou se vejo hoje Gabin como modelo do humano por causa dele mesmo ter existido, mas nada no cinema parece mais seguramente sábio que sua presença e a maneira como ele age. ----------------- Veja a maneira como ele se serve de um Pernod. Ele pega a garrafa e derrama alguns goles na taça, em seguida o garçon lhe dá água e Gabin bebe. Sentimos que desejamos aquele Pernod ( e eu odeio aniz ), porque somos convencidos de que um homem real precisa beber um Pernod. Não há ator que beba como Gabin, como também ninguém puxa um cigarro e o acende como ele. Sentimos o cheiro do Gauloise, a fumaça pula da tela para nossos olhos. Quando ele corta uma baguete com a faca e enche o pão de salame nossa boca saliva. Sim, é preciso ter uma faca pequena e cortar uma baguete como Gabin o faz. --------------- Mas o principal é o seguinte: ele é um monumento! Sua presença não pode ser derrubada. Basta que voce o veja em cena para sentir isso! Seu corpo, não muito alto, mas pesado, é imenso! Sólido, inescapável. As mãos, duras como de pedreiro, podem obstruir a presença de qualquer outro ator. E a voz, masculina e musical, sempre à beira da irritação gaulesa, cala qualquer outra voz. ---------------- Vejo nos extras de PEPE LE MOKO, que os bandidos da França e da Itália começaram a imitar o jeito de Gabin em seus filmes policiais. As pessoas acham hoje que Gabin imitava nos filmes o modo de andar, de vestir, de falar dos bandidos, mas na verdade foram os bandidos que passaram a o imitar. Dentre as invenções de Gabin que perduram até hoje, a gravata clara com camisa preta, o sobretudo solto, o chapéu cobrindo os olhos, o lenço no pescoço. -------------- Por fim, quando eu tinha 35 anos eu achava Gabin bem desagradável, provavelmente devido aos meus problemas com a masculinidade. Hoje, aos 64, acho-o um ser fascinante. Sim, mais que Bogey ou Clint Eastwood, Gabin é o artigo mais refinado.