COMO SER UM HOMEM E COMO SER UM JOVEM
Na enfermaria do hospital. Uma enfermeira, bonita, me dá toda sua atenção. Sou o único paciente. Ela me dá duas injeções e espero. Logo começam a chegar mais pacientes, todos homens. Quatro marmanjos esperando para fazer uma biópsia de próstata. Eu, que sempre falo muito, puxo assunto com meus companheiros. Falo do exame de cólon que fiz vinte anos atrás, do efeito hilário de uma anestesia. Adoro anestesias, todas. Rimos, todos nós. E esperamos. Sou o primeiro a fazer o exame. ------------------- Logo penso na trincheira das antigas guerras. Nos homens fumando um cigarro e esperando, esperando a ação que se adia. As piadas para disfarçar o medo. Homens pensam hoje que lhes faz falta uma mulher, que a felicidade vive nos braços de uma amada, e esquecem que antes de ter a mulher é preciso conhecer o homem, saber ser homem. --------------- Um menino nascia e ia ao campo lavrar com seu pai, seus tios. Ou aprendia a ser sapateiro, vender pão, ou fazer uma ferradura, com seu pai, seu avô, seus tios. Esses homens o levavam ao mundo deles, onde ele sentia dentro de si o apelo da masculinidade. Aprendia a ser ele-mesmo. Na grande mudança que se inicia no século XIX, o menino vai à escola e quando chega em casa encontra a mãe. E mesmo que ele precise trabalhar, não será com seu pai, será entre estranhos. O que seu pai terá para lhe ensinar? Esse pai terá de criar um laço que os una, não mais será uma coisa natural, terá de ser inventada. Os papeis se perderam. ----------------- Meu pai, desajeitado, me levava ao seu trabalho. Mas nada me ensinava. Ele queria me levar porque sentia que tinha de ser assim. Mas já era um homem do século XX, numa cidade imensa, e se perdia no meio do caminho. Queria seu filho a seu lado, queria o tirar de casa, mas não sabia o que falar, como falar, ensinar. O que seria para mim uma honra se fazia um castigo. ------------------- Eu lembro então. Homens, meu pai entre eles, numa mesa fumando cigarros fedidos. A fumaça invadia tudo e um deles tossia. Jogavam cartas e falavam alto. Eu andava no chão, entre os sapatos amarrados, marrons. Eu sentia uma segurança absoluta e queria ser um deles. Porque eram grandes, fortes, imensos. Eram homens. ----------------- Tempos depois, aos 13 anos, meu pai me levou na fazenda de um primo rico. Lá, o primo de meu pai me deu um copo de vinho. Meu pai pediu para ele servir pouco, mas eu pedi para encher. O primo riu e disse: Esse é dos meus! Bebi todo o copo de uma só vez. Quis me exibir e meu pai notou isso. Fiz força para não cair, a tontura veio forte. O primo falou: Já é um homem! ---------------------- Não, eu não era. Sendo um garoto pós baby boomer, eu não queria ser homem. Fui ensinado a odiar homens porque homens faziam guerra e traíam as esposas. Fui ensinado a querer ser jovem para sempre, sempre em crescimento, sempre me auto inventando. Eu consegui ser esse jovem. E o que ganhei com isso?