UM SONHO DE FILME

Um amigo meu assistiu Great Expectations e sentiu o clima de sonho que ele tem. Ele me pede indicação de livros que tenham esse mesmo clima. Difícil indicar. Nossos sonhos são visuais e o cinema consegue evocar esse aspecto onírico com muito mais facilidade. Os Mortos de Joyce pode ter o clima sonhador para mim, mas não para ele. Em filmes a coincidência de todos terem o mesmo tipo de experiência apresenta maior probabilidade. As imagens já estão lá, prontas para serem provadas. Muita gente boa diz que o cinema mudo tem esse ar de sonho. Que eles são uma espécie de inconsciente pop. Aurora de Murnau e A Carruagem Fantasma de Sjostrom são sonhos já sonhados. Assistir é ver uma paisagem que parecia ter sido nossa desde sempre. Os filmes franceses dos anos 30-40 têm esse poder onírico. Os Visitantes da Noite de Carné e Orfeu de Cocteau são sonhos em luz e som. Há muito mais, mas cito o que me ocorre agora. Na Inglaterra da mesma época há uma disposição enorme ao sonho. The Red Shoes de Powell nunca parece real. Aliás, esse é um diretor que parece elaborar tudo dentro de nosso mundo irreal. E verdadeiro. Cul de Sac de Polanski me ocorre agora. É tão sonhador como também é qualquer Tarkovski. E é estranho observar como o cinema italiano tem pouco esse jeito de sonho. O país me parece realista em cinema, sempre. Mizoguchi, no Japão, tem muitos filmes que parecem sonhos acordados, e já assisti diversos filmes de samurai, dos anos 60, que são como um mundo alternativo. Bem....já há uma lista aqui. Bons sonhos.

VIA ANCHIETA EM 1943 - Santos - Paranagua (Colégio dos Jesuítas)



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Copacabana (Rio de Janeiro) – A “Princesinha do Mar” em 1928



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AS CRÔNICAS DO BRASIL - RUDYARD KIPLING. UM INGLÊS SUPERSTAR ENCONTRA O PARAÍSO NA TERRA

São 5 artigos escritos e publicados em jornal inglês, no final de 1927. Rudyard Kipling era então um mito, o mais famoso escritor do mundo. Havia ganho o Nobel em 1907 ( o primeiro autor de lingua inglesa a vencer ), e era famoso como autor de Mowgli, Gunga Din, Kim e do poema If. É dele também O Homem que Queria ser Rei. Como se vê, seu ambiente era o mundo tropical. India acima de tudo. Ele viajava muito. E aqui ele conta sua impressão sobre o Brasil. Para quem é brasileiro, a coisa é séria. Primeiro o Rio de Janeiro. Que Rio é esse que ele descreve? Diz ele que a cidade cheira bem e tudo é de uma limpeza exemplar. O povo, no Carnaval, brinca em ordem, ninguém bebe. Ele anda por Copacabana, Santa Tereza, vai ao Jardim Botânico, ao centro. E tudo que vê é arquitetura deslumbrante, casas maravilhosas e o povo mais educado e gentil que há. Há todo um ritual de gentileza, de civilidade, de saber conviver. Ele se hospeda no Copacabana Palace, vai a rodas de samba, vê o desfile de blocos, guerra de confetes e de lança perfume, e tudo o encanta. Há um momento revelador em que ele diz não entender direito como o Brasil é o que é. Um amigo lhe explica: O estrangeiro teima em ver o Brasil como cultura espanhola, mas não, o Brasil é filho de um PORTUGAL QUE NÃO EXISTE MAIS. UM REINO QUE FOI MÁGICO, ÚNICO, OUSADO, UM REINO QUE DUROU QUASE NADA, MAS QUE PERMANECE AQUI. Kipling, ao fim do livro, escreve as linhas mais bonitas que já li sobre o meu país. Nota que o irresponsável Portugal mandou para cá, em nosso começo, pequenos nobres aventureiros. Eles deveriam cuidar de terras maiores que a Alemanha ( muito maiores ), sozinhos. Diz Kipling, que ao contrário dos EUA ou do Canadá, onde os primeiros anos estão soterrados pela história, no Brasil a alma desses aventureiros, dos bandeirantes, dos índios, dos piratas, ainda habita em cada canto. Então ele pega um barco, navega e vai à Santos. 1927 e todo o café do mundo passa por lá. Riqueza. Kipling nota algo que nós, por sermos daqui, mal percebemos: A Serra do Mar deu todo o destino do país. Para exportar é preciso vencer aquela montanha. Ela separa, de forma abrupta, o mar do continente. É como se o país tivesse uma parede que o protege mas que também o isola. Kipling sobe a serra de trem, conhece a represa Billings, vai ao Butantã ver as cobras, dorme numa fazenda de café em Campinas. Se espanta com tanta riqueza. Diz ele que mesmo a pobreza é aqui menos cruel, pois não há a fome da neve, a crueldade do frio, e nem a dor do deserto. São Paulo ele vê como uma confusão de ladeiras e vales, suburbios que nunca terminam ( ele andou por aqui, o Butantã de 1927, ainda toda a zona oeste como uma imensa fazenda de chá ). Fico triste ao imaginar o que deu errado. Kipling e seus amigos ingleses falam dos planos de inundar o país de estradas de ferro. Território imenso, que dava aos brasileiros essa sensação de riqueza guardada ao futuro,reservas eternas. Kipling parte em navio certo de ter visto o mais rico país do planeta. "O mais fascinante e misterioso mundo à parte".

COMPLEXO DE PORTNOY - PHILIP ROTH ( E UMA PALAVRA SOBRE A ADOLESCÊNCIA )

Acabo de reler Complexo de Portnoy. É um vômito. Não conheço retrato melhor sobre a figura do judeu intelectual americano fim dos anos 60. A voz desse povo era Saul Bellow. Roth aqui se junta a ele. Bellow me parece melhor como artista. Roth tinha mais humor. Este livro é engraçado, muito engraçado; mas é também horrível, trágico e um pesadelo. Alex Portnoy conta sua vida ao seu terapeuta. Ele fala tudo. Seu ódio ao pai, à mãe, aos amigos, à vida, á Deus. Portnoy odeia. Ele ama odiar e não percebe isso. Há cenas no livro, muito poucas, onde seu lirismo ameaça surgir. Principalmente quando fala do pai. Alex ama seu pai. Mas seu pai é fraco, burro, limitado, uma vergonha. Então ele o odeia. Odeia muito. Lemos o livro e temos a impressão que Alex passou a vida no banheiro. Cenas e mais cenas de masturbação. E da prisão de ventre do pai. A família, hilária, se encontra em discussões dentro do banheiro. E tudo é motivo para gritos. Alex não come, Alex não tem fé, ele é mal educado e fala coisas sujas. O texto, nervoso, apocalíptico, adolescente até o osso, nos deixa agitados. Ele vomita palavras. Sua vida é uma piada. Teens são sensíveis. Mesmo os que parecem duros. O coração, ou a mente do jovem está em formação. Absorve tudo e sente as coisas profundamente. Dor e prazer ao cubo. Eu li Complexo de Portnoy aos 14 anos. Foi meu primeiro livro adulto. E agora, o relendo, percebo o quanto ele se gravou em minha alma. Para voce ter uma ideia: Tudo o que imagino que seria " meu romance" é ao estilo deste livro. Sempre que tento criar ficção, me pego escrevendo um Portnoy parte dois sem perceber. Uma confissão apocalíptica. Passei décadas vendo meu pai como Alex percebe o pai dele. Usei sentimentos e racicínios que estão no livro. Digo, com certeza, que eu seria outro não tivesse comprado Portnoy numa banca de jornais em 1976. Lembro de como o devorei, onde eu estava sentado, como me senti, o clima que fazia então. Vejo, hoje, em 2020, que há frases inteiras de Roth que estiveram gravadas em mim por toda minha vida. Sentenças que eu penso sem saber de onde vieram, como se eu mesmo as houvesse criado. O que lemos aos 14 anos é muito importante. Por isso digo que aquilo que os teens vêm hoje na net se torna parte de suas almas. A coisa é muito séria. Para o bem ou para o mal, Portnoy sou eu. E se não o tivesse lido, seria outro eu. Com o tempo Philip Roth perdeu muito do que tem aqui. Mas é compreensível, não é possível escrever dois Portnoy. Esta é a confissão sem censura de uma pessoa. A coisa foi feita. Fim. Tudo indica que o Nobel não veio porque não dariam o prêmio a mais um judeu americano falando de sua família judaica. Saul Bellow venceu em 1975. O Nobel é assim.

MEMÓRIAS DE GIACOMO CASANOVA

Divertido. Muito divertido. Casanova não tem sangue nobre, mas vive entre eles como um deles. Seu dinheiro vem de um benfeitor e do jogo. Pode-se dizer que Casanova é um jogador e portanto o amor é para ele uma questão de apostar e vencer. Para quem tem por volta de 20 anos, é Casanova ainda sinônimo de conquistador? Para minha geração ele é um mito. Há quem ache que ele foi uma lenda, tão imaginário quanto Robin Hood ou Arthur. Mas ele foi real sim, um símbolo dos costumes do século XVIII. Veneziano, ele era mezzo iluminista mezzo monarquista. O centro de sua vida é a mulher e o modo como ele as seduz pode te chocar, mas pense bem...mudamos tanto assim? O que há de mais chocante é o modo como Casanova trata algumas de suas conquistas. Para as mulheres pobres apenas sexo e desprezo, para as ricas, romance e depois a vida que segue. Dá incomodo forte uma história em que ele pouco se importa com uma possível gravidez. O filho, se vier, que seja dado ao asilo. Sinto asco, mas penso com lógica: Quantos homens ricos eu conheci que já namoraram ou tiveram algo com uma mulher da favela? O abismo de classe mudou? Onde? Quantos não tiveram uma noite de sexo em um baile e depois, por ela ser pobre, cortaram qualquer chance de futuro? Filho? Hoje não se usa o asilo, se paga um aborto e se esquece o caso. Sim meu caro, eu gosto de pensar que o homem não mudou tanto assim. Basicamente somos sempre o mesmo. Choca também, mas isso eu já sabia, a liberalidade sexual do século de Casanova. Amantes emprestam amantes, namorados se excitam vendo sua amada transar com outro, lesbianismo como parte da educação sexual, freiras devassas, mocinhas de 15 anos espertas, masturbação. É um mundo sem escrúpulos sexuais, mundo que seria censurado, por pouco tempo, pela tal moral burguesa do século XIX. Não se engane leitor, toda pessoa que hoje prega a total liberação sexual é inconscientemente um saudosista. Ele tem a nostalgia do tempo de Casanova. Sexo anônimo em Veneza, entre mascarados, eis algo bem comum na época. Casanova chega a pedir que uma de suas amantes transe vestida de menino. Muito moderno esse italiano! O livro que leio é apenas o volume dois de suas memórias. No total são cinco volumes grossos. Aqui ele tem entre 24-28 anos. Como toda a elite de então, ele é um homem da Europa. Está em casa na Russia ou na Espanha, em Viena ou em Paris. Não há fronteiras, não há passaporte, não há patriotismo. Ele é súdito de Veneza porque ama a cidade e ama sua casa real. Apenas isso. Suas memórias são as histórias de alguém que viaja. Romance? Sim, ele ama e sofre pelas mulheres. Mas nada dura muito. Seus casos mais longos vão do verão ao outono. O que o atrai numa mulher: a beleza. Casanova ama a beleza da mulher. Para ele, em todo universo, nada se compara a uma bella donna. Mas o livro não é só isso, Casanova é digno de sua época, ele sabe um pouco de tudo. E curioso. Delicioso.

GIACOMO CASANOVA ( E UM COMETÁRIO SOBRE O TRABALHO À MODA DE RUSSELL )

   Vou negociar em um sebo. É uma das coisas que mais gosto de fazer. Com tempo livre hoje, vasculho o imenso sebo e acabo encontrando coisas realmente valiosas. Saibam então que conforme for lendo, logo livros interessantes serão aqui comentados. Já estou lendo as MEMÓRIAS DE CASANOVA. Comecei a lê-lo na cama e não consigo parar. Foram 70 páginas numa levada só.
  Creio que infelizmente vocês não acharão essa obra com facilidade. A edição que adquiro é da editora José Olympo, de 1945. Capa dura e páginas escuras de tão velhas. Vejo ser o volume dois. Suas memórias são em cinco volumes. Mas não faz mal, as aventuras do famoso italiano podem ser lidas em qualquer ordem. Aqui tenho os anos de 1750-1760. Ele está em Paris, Dresden e Viena.
  Casanova passou a posteridade como sinônimo de atleta sexual, e realmente ele vai à cama de muitas mulheres, casadas ou não, nobres e plebeias. Mas ele é muito mais que isso, ele é um curioso. Inteligente ao extremo, maravilhoso escritor, ele procura conhecer. se interessa por tudo, ele vive plenamente. O livro é acima de tudo um manual de como viver bem.
  Os melhores intelectuais do século XX eram apaixonados pelo século XVIII. Não o seu final, a revolução, mas sim seus começos, a época do absolutismo e do iluminismo. Muita gente se diz iluminista sem fazer a menor ideia do que seja isso. Os mais idiotas pensam que significa ser ateu ou então vagamente anarquista. Nada mais absurdo! Voltaire acreditava em Deus mas odiava a igreja. Iluminismo é ser curioso. Esse o passo fundamental: desprezar dogmas em prol de saber mais. Casanova é assim. Ele escreve no fim do seu século, naquele estilo simples e direto de Voltaire, muitas coisas acontecem sem parar, e tudo que lhe importa é saber. Suas conquistas sexuais são simplesmente atos de curiosidade: como aquela mulher ama? Como é seu corpo?
  Bertrand Russell disse que a guerra de secessão americana foi acima de tudo a luta entre puritanos do norte e aristocratas do sul. Lendo Casanova um aspecto nos choca: ninguém trabalha! Produzir alguma riqueza é ideia completamente distante. A fortuna vem às toneladas, gasta-se, e não se preocupa com isso. Com tempo livre, todo o tempo do mundo, os piores passam sua vida em fofocas e bebida, jogo e caça. Os melhores vivem adquirindo cultura. Eis Casanova. Para os puritanos ingleses, os mesmos que fizeram os EUA e venceram a guerra civil, nada é mais pecaminoso que a vagabundagem. Mesmo rico, um homem deve trabalhar. É ordem de Deus. Eis a filosofia americana. Observe que mesmo milionários de lá continuam indo ao escritório ou administrando fundações. O playboy ou o sheik árabe que vive só pelo lazer, lá são inimagináveis. Esse modo de viver, republicano, é a grande herança americana. É um país que odeia a nobreza. Não é o caso do Brasil. Nosso sonho é poder viver sem trabalhar. Bem...divago...divago como Casanova faz.
   Escrevo mais sobre este delicioso livro em outro post.
 

ESTE LADO DO PARAÍSO - F. SCOTT FITZGERALD

   Scott teve um azar terrível. Seu primeiro livro, este, lançado em 1920, quando ele tinha apenas 23 anos, foi um sucesso. Criou enorme expectativa sobre o que viria a seguir. Ele foi chamado de coisas como " Símbolo de sua Geração" e de " Futuro autor do Grande Livro Americano". Símbolo ele foi. Hoje a tal "era do jazz" é o tempo de Scott. O Grande Livro Americano dizem que até hoje ninguém o escreveu.
   Caramba, já fazem cem anos! O tempo é realmente ilusório. Quando comecei a ler romances, em 1977,  cem anos atrás era o tempo de Rimbaud e de Dostoievski. 1977- 1877. Agora, cem anos atrás é Fitzgerald, Joyce e Proust...
  Amory Blaine é o centro deste livro. Acompanhamos sua vida dos 8 aos 24 anos de idade. Nasce rico, apegado à mãe, bonita e  chique, e distante do pai,  pai frio e sem graça. Menino hiper vaidoso, ( o livro ia se chamar A Vida de um Egotista. Max Perkins, seu editor, preferiu Este Lado do Paraíso ), Amory cresce exibicionista, egocêntrico, protegido, mimado, esnobe, chique, farrista, inconsequente. Vai estudar em Princeton. Joga futebol. É bonito e alto. Atrai as meninas. Deveria ser feliz. Todo o romance é ao estilo Henry James. Harold Bloom dizia que Scott era Henry James simplificado, ( Heminguay seria Mark Twain renovado e Faulkner um Melville em novo estilo ), e desse modo, Scott descreve procurando sempre um detalhe que nos surpreenda. Sua prosa é rica, farta, filigranada, e como autor novato, ele às vezes se perde, parece ser tomado por vaidade e exibicionismo, exagera, mas sempre o lemos com gosto e me peguei admirando muito este livro.
  Amory deveria ser feliz, mas não é. Ele quer ser especial. Ele quer fazer algo. Mas na verdade não sabe o que. Amory tem talento, mas não tem vontade. Ele não tem força. Desse modo o vemos desfilar pelas páginas sem se envolver muito com nada. Ele parece se apaixonar por algumas meninas, quatro, mas vemos que ele se esquece delas logo ( menos uma, Rosalind, a única que feriu sua vaidade ). Achamos que ele ama seus amigos, mas se cansa deles rapidamente. A mãe morre e ele pouco reage, e mesmo a pessoa que ele mais respeita, um cardeal católico, quando falece, Amory sente no funeral uma certa liberação. Nada em Amory parece real, tudo é estilo, tudo é pose. Fake.
  Várias vezes Amory fala mal dos poseurs, mas ele é o maior dos poseurs. Ele posa de criança amorosa, depois de estudante inadaptado, então vira o ídolo do esporte, o bêbado boêmio, o bom partido, vira um poeta de futuro, vai para a guerra, se torna um apaixonado desesperado, e termina o livro como um socialista pobre. Mas nada disso parece ser Amory Blaine. Ou melhor, ele é nada disso.
  A juventude da época amou o estilo de vida do romance. Se identificaram.  Viam em Amory o anti século XIX. Se antes tudo era certeza vitoriana, solidez, aqui estava um jovem que era tudo e nada. Sem compromisso, sem certeza alguma, sem rumo nenhum. Viram nele uma existência de festas e loucuras, de amores descompromissados e luxo sem fim. Esse novo homem, vazio, já tinha sido anunciado em autores menos populares,  foi Fitzgerald quem deu popularidade ao tipo e o colocou no meio universitário. O novo jovem não era da boemia, ele era o cara de Princeton. Em 1980 ele ainda era o cara predominante. Seu lema era o famoso "Não sei o que desejo, mas sei aquilo que não quero". Amory Blaine vive esse lema integralmente. Em 1920, isso era muito, muito novo. Tudo que ele quer é esquecer o seu vazio e para isso ele inventa uma personalidade e procura, toda noite, por algum inédito prazer.
  Em 2020 não é mais assim. Um jovem hoje sabe o que deseja. Mesmo que seja um querer imposto à ele, sua mente e seu coração estão comprometidos com algum desejo. "Sei o que desejo e sei o que não quero". Voltemos ao livro...
  Scott Fitzgerald passou os próximos 15 anos vivendo como Amory Blaine. Ele escreveu seu próprio perfil neste livro. Muito autor faz isso. O problema é que ele não foi adiante. Escreveria Gatsby, livro ainda melhor, Suave é a Noite, excelente, mas continuou a viver e a querer ser, para sempre, Amory Blaine. Até nisso Fitzgerald antecipa tudo o que todos fariam nas décadas futuras do século: Scott jamais quis sair da universidade. Adolescência para sempre. Ter um futuro imenso e passado bem curto. Joyce, por exemplo, começa como ele, Retrato do Artista quando Jovem é seu Este Lado do Paraíso. Mas depois ele larga isso e vira adulto. Ulysses é um livro de um homem de 40 anos. E ao fim da vida Joyce escreve como um velho marujo de 90 anos. Até Heminguay encarou a idade e aos trancos e barrancos se tornou um homem de meia idade machão. Fitzgerald não. Apaixonado por aquilo que ele foi aos 20 anos, jamais saiu dessa armadilha. Um lamentável desperdício. Como prova este livro, seu talento era sem limite. Mas sua nostalgia o matou.

HARD RAIN - BOB DYLAN E A ROLLING THUNDER REVUE

   1976 foi o ano mais legal do século XX. O filme do Richard Linklater, Dazed and Confused diz isso. E todo mundo tipo Tarantino, Anderson e Burton concorda comigo. Well...voce pode dizer: Vocês acham isso porque em 1976 tinham 12, 15 anos...OK. Daí eu te respondo: Faz as contas e veja em que ano voce tinha 12. E me conta: Voce acha que foi o melhor ano de todos?
  1976 foi cool porque via o nascimento de disco e punk ao mesmo tempo. Não era mais hippie, mas ainda era free. Foi nascimento da moda esporte também, principalmente skate e surf. Essas duas ondas ainda eram alternativas. O cinema clássico ainda estava vivo, mas já era moda Spielberg, Lucas, Alan Parker tava dando as caras, assim como Ridley Scott, John Carpenter, James Cameron, e a comédia tipo Saturday Night Live. Os atores quentes eram Paul Newman, Al Pacino, Burt Reynolds e Clint Eastwood. Em 1976 ver TV era muito bom, apesar de só ter 6 canais. Tinha uma montanha de séries: Baretta, Kojak, Columbo, SWAT, As Panteras, Starsky e Hutch, Cannon, O Homem do Fundo do Mar, MASH, Kolchak, Bill Cosby, Mary Tyler Moore, Happy Days.
  1976 foi o bicentenário dos EUA e houve festa o ano todo por lá. Pra comemorar, BOB DYLAN excursionou o ano inteiro dentro do país. Ele tocou em New York, mas também em cafundós do Idaho ou de Iowa. A excursão recebeu o nome de The Rolling Thunder Revue e muita gente seguiu ele por todo o país. Dylan comemorou a América como cowboy, Whitman e beatnik, tudo ao mesmo tempo. Ele levava uma banda fixa de cinco músicos, mas dependendo do lugar, às vezes tinha 30 pessoas no palco. Alguns shows contaram com Neil Young. Outros com Joni Mitchell. Teve show com Van Morrison. Ou Gordon Lightfoot. Paul Simon. Robbie Robertson ou Neil Diamond. Os shows duravam 4, 5 horas. Não tinha roteiro. Podia acontecer até um desastre em meio a erros e chuva pesada.
  Gravaram um disco. Hard Rain. Eu o comprei em maio de 1977. Matando aula, tava frio pacas. Fui numa loja de discos, faz tempo, ainda existia isso, na rua Teodoro Sampaio, e peguei um Eric Clapton, No Reason to Cry, um Robin Trower, Live, e o Hard Rain. Odiei. Muita gente odiou. A mixagem do disco era horrenda! Som de lata, de radinho de pilha. Era impossível ouvir aquela bagunça onde a voz zumbia como um pernilongo rouco e a bateria havia sumido. Era um disco sujo, porco, mal feito. Recordes de devolução. Fiquei puto. Foi meu primeiro Dylan e abominei.
  1976 foi época de muito gibi. O Homem Aranha e O Demolidor estavam em fase ótima! A Abril tinha umas 15 revistas mensais e a EBAL mais de 25. Era quadrinho de monte! De Tarzan à Mandrake, eu lia tudo. E ainda colecionava as revistas de mulher pelada: Homem, Status, Ele e Ela, Fiesta e Lui. A gente ficava muito na rua.
  2020 tem uma pandemia. E eu pego num sebo o cd de Hard Rain. Meu vinyl de 1976 eu troquei faz séculos. Ouço. Mick Ronson, da banda do Bowie, toca em Maggies Farm. Quer saber? Bob nunca esteve tão bem. Aos 36 anos ele estava tinindo. Quer saber? Minha imagem da América é o país de 1976: Josey Wales nas telas e os Eagles em primeiro lugar nas paradas. Dr J nas quadras.
  1976 nunca acabou não é?

Bob Dylan maggies farm live



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Shelter from the Storm "live '76"



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UMA DAS PIORES PRAGAS DOS ANOS 70

   Em sites atuais, gente da minha geração, e de gerações bem mais novas também, tecem loas ao disco ao vivo. Tem até rankings, vários, que vão da Rolling Stone à All Music. Da BBC ao Times. Gostam de falar que bandas mais recentes não lançavam e não lançam discos ao vivo porque em shows não criam nada, apenas repetem o que foi já gravado. Acho que não. Penso que pararam de lançar Live In Concert a partir dos anos 90 simplesmente porque o DVD com o show se popularizou. Tão simples isso...
  Nos anos 70 TODA banda e todo cantor lançava pelo menos um disco ao vivo. Ás vezes a cada 4 anos. 90% era um lixo. Lixo mesmo! E o motivo era simples: cocaína. A maioria desses discos são ego trips movida a pó. Músicas de 3 minutos viram exibicionismos de 15 ou mais minutos insuportáveis. Nem na época, com 12 anos de idade, eu suportava isso.
  Tudo começou, claro, nos anos 60. E a culpa é de Eric Clapton. Cream foi a primeira banda a pegar uma musiquinha linda, pop, perfeita, e no palco esticar essa canção em até meia hora de "viagem cara, viagem"... Em alguns blues, como Crossroads, a coisa até fica legal, mas quando eles fazem Toad durar vinte minutos...aí o saco explode. Grateful Dead veio logo na cola. Há quem pense que foi a banda de Jerry Garcia quem inventou o ego trip. Mas não. Jerry pegou de Eric. O Dead explodiu ainda mais, tinha canção ao vivo que durava duas horas. Sim baby, duas malditas horas de improviso sem fim. Tem um disco deles, LIVE DEAD, com o pior solo de bateria já gravado. Há quem adore.
  Ando ouvindo tudo que tenho, e hoje tentei ouvir dois discos que estão sempre entre os 10 mais citados entre os melhores ao vivo da história. LIVE AT FILLMORE EAST, dos Allman Brothers é geralmente o número um para os críticos, e MADE IN JAPAN, voce sabe de quem, é o mais citado como number one para o povo da Harley e barriga. O disco do Allman consegui escutar quase todo inteiro. O outro...só a primeira faixa. Deep Purple toca 7 músicas em um disco duplo, sendo que Starstrucker, que é uma ótima faixa, dura aqui 20 minutos e se torna insuportável. Um lado de vinyl inteiro. Pra quê??? Ego trip pura. The Mule tem um solo de bateria de uns 10 minutos. Ian Paice é jazzy, é excelente, e eu amo bateria. Mas o limite são 3 minutos. No máximo 3, por favor. Não há baterista, nem Buddy Rich, que mantenha o nosso interesse ligado solando por mais de 3 minutos.
  O disco dos Allman Brothers, de 1971, é super amado. Por que??? Sim, é uma delicia o som da banda. Duane Allman é um mito e Derek Trucks, o outro guitarrista, é tão bom quanto. Greg Allman canta de verdade, tem voz, mas caramba!!!!! Pra que essa mania de parar tudo e ficar uma guitarra tocando solo à procura de um riff??? Whipping Post é mágica, mas não em 15 minutos!!!!!! De qualquer modo, ele é infinitamente melhor que Made in Japan.
  Ah ! Ouvi também o disco ao vivo de Bob Dylan de 1976, Hard Rain. Postei video do show. Olhe.
  Pior disco ao vivo dos anos 70? O do Led, claro. THE SONG REMAINS THE SAME é o mais ego dos egos. Eles não fazem música, apenas se exibem. O disco triplo dos Wings, de 1977 também é um horror. Mas que tal falar dos melhores?
  ITS ALIVE! dos Ramones, 1977. Tem 28 faixas. 2 minutos cada uma. Talvez o melhor ao vivo de todos os tempos.
  Viva! do Roxy Music. De 1976. Sem solos longos. Todas as faixas estão melhores que as originais.
  Rory Gallagher, Irish Live! de 1974. Muito amado em listas de melhores. É realmente ótimo.
  The Who live at Leeds, de 1970. Tem muito bla bla bla entre as faixas. Mas tem energia pra caramba. A versão de my generation é muito longa, mas não por causa de solos, são arranjos enfiados no meio da música. Funciona.
  Wellcome to the Canteen, do Traffic. De 1971. Muito bom.
  Tem ainda discos legais ao vivo do Robin Trower, The Band com Bob Dylan, um grupo com Eno e Manzanera, o do Bob Marley é ok. MC5, ótimo. Foghat ao vivo, muito bom.
   Ah!!!! Fuja de David Bowie. Os dois ao vivo da década são muito ruins. O ao vivo dos Faces é das coisas mais nada a ver já gravadas. E é óbvio que estou ignorando as bandas progressivas. Nunca ouvi. Nem vou. Lou Reed também lançou dois ao vivo nesse tempo. Ruins. E tem Metallic KO do Iggy, que apesar do nome ótimo, é insuportável.   E chega que este solo já deu né não?
  PS: pode ouvir GET YER YAS YAS OUT. A versão de Midnight Rambler vale o disco. Mas que diabos Mick!!!! Pra que tanto disco ao vivo na carreira??