A MÍDIA CERTA

   Não sei se alguém fez a pesquisa, mas é imenso o valor de um DVD. Agora que ele é uma mídia totalmente ultrapassada, digo, sem medo de errar, que ele foi até agora, o melhor meio de se ver um filme e principalmente se aprender sobre o cinema.
  Acompanho vários grupos de Blu Ray, e apesar da vantagem de som e imagem, todos reclama dos extras. Eles simplesmente não existem. Ou são raros. Quanto às formas como se vêm filmes na Netflix, bem....nela não existe sequer o pensamento de se educar alguém;
  Pois veja...acabo de pegar meu DVD de NORTH BY NOTHWEST de Hitchcock, para rever. Não recordava que eram dois discos. No disco um temos o filme. No disco dois: Documentário sobre Cary Grant. Hora e meia sobre o ator com depoimentos de Peter Bogdanovich, Martin Landau, diversos críticos, tudo narrado por Helen Mirren e Jeremy Northam. Depois um doc sobre Hitchcock. Hora e meia com participação de Camille Paglia, Curtis Hanson, Guillermo del Toro, William Friedkin, Scorsese, Francis Lawrence, e mais um bando de roteiristas e críticos. Acabou? Não. Temos ainda um doc sobre o filme em si e ainda um making of. Qual o valor de toda essa informação? O quanto aumenta para um novato o prazer em ver o filme? Saber o que ele é e o que significa.
  A cultura do DVD criou uma geração de cinéfilos jovens, muito bem informados. Um povo que tem hoje por volta de 40 anos. Esta geração dos anos 2000, gente com 20, 22 anos, está sendo jogada aos filmes em nenhuma informação. Sim, voce pode pesquisar e achar tudo isso na rede. Mas se voce não faz ideia de quem seja Cary ou Lehman, o roteirista do filme, a chance de voce pesquisar é zero. O DVD te dava a informação ao lado do filme, na mesma mídia e no mesmo aparelho. Era cultura E prazer.
  Uma pena.

O HOMEM QUE EU QUERIA SER. CARY GRANT, MEU ATOR FAVORITO.

   Em 1986, quando Cary Grant morreu, aos 82 anos, Billy Wilder, sempre um mestre quando se trata de escrever a frase perfeita, mandou uma carta à viúva. A frase, simples, dizia: " E agora quem irá nos guiar? ". Vou contar aqui a vida de Archibald Alexander Leach, nascido em Bristol, filho de um alfaiate pobre. Mas antes um pequeno adendo.
  O primeiro ator em minha vida, aquele que lembro de querer ver tudo o que ele havia feito, foi Peter O'Toole. Isso quando eu tinha já 25 anos de idade. Antes eu admirava Peter Sellers, Vittorio Gassman, Kirk Douglas ,Erroll Flynn,   mas nenhum deles eu chamava de ídolo. O primeiro foi o irlandês O'Toole. Aos 25 eu queria ser ele. Achava ele o máximo de elegância e com verniz de artista. Cary Grant era para mim apenas um ator de filmes da Sessão da Tarde ( uns três de seus últimos filmes passavam nesse horário ). Aos 35 eu cultuava Clint Eastwood. Sua virilidade fria me atingia em cheio. Eu desejava possuir sua impassividade cool. Após os 40 me dividi entre Steve McQueen, um Eastwood mais cult, e Humphrey Bogart, o homão da porra. Mas com os dois há um problema: McQueen fez poucos filmes, seu estrelato durou apenas dez anos, e Bogey é feio, muito feio. Amo Bogey, como amo John Wayne, mas não quero ser nenhum dos dois. Eles não são focos de atração para as mulheres.
  Desde meus 35 anos aprendi a admirar Cary Grant. Ele tem estado sempre entre meus 5 atores favoritos. Minha ligação começou com Intriga Internacional, North By Northwest, o filme de Hitchcock mais divertido e engenhoso de todos. Hoje, na meia idade, eu tenho Cary Grant como o único ator que me emociona. Eu, como todos os homens que o amam, sinto que sua simples presença dignifica qualquer filme. Grant transmite força, controle, bom humor, classe, e ao mesmo tempo, algo de oculto, perigoso, agressivo, uma mácula secreta. Como dizia Hitchcock, Cary Grant é uma instituição. Um ícone. Crianças e adolescentes tendem a não ver nada demais nele. Preferem o explícito. De Niro, Brando, Nicholson, a escola pseudo realista. A neurose esfregada na cara. Para esses Cary Grant não terá o menor apelo. Para o admirar é preciso ter vivido. Captar o valor daquilo que ele é : Guia dentro da tempestade. Graça e leveza em meio à pressão.
  Cary nasceu Archie Leach e é inglês. Quando ele tinha 9 anos a mãe fugiu de casa e desapareceu. Cary se sentiu culpado e sua vida a partir desse momento é uma fuga. Aos 14 fugiu de casa e se uniu à um grupo de artistas de vaudeville. Excursionando pela Inglaterra, ele aprende a ser um malabarista, adquire sua habilidade corporal. Aos 16 ele embarca com o grupo para os EUA. Quando a gang volta para a Europa, ele fica. Sozinho nos EUA com 17 anos de idade.
  Sobrevive vendendo gravatas na rua. Anunciando shows em pernas de madeira. Pintando casas. Ao mesmo tempo frequenta o mundo teatral de New York, não o chique, o mundo do teatro popular. Consegue algumas peças e exercita um dos seus dons: faz bons contatos. Archie Leach começa a imitar os modos sofisticados dos ricos americanos, das famílias tradicionais. Seu sotaque cockney desaparece.
  Aos 21 anos vai para a California. Começa no cinema usando sua beleza. Seus primeiros filmes mostram Archie como o rapaz que será seduzido por uma vamp. Mae West e Dietrich fazem filmes com ele. Nesta altura ele já é Cary Grant, Archie Leach ficou no passado.
  Em 1935 ele faz Sylvia Scarlet, filme de George Cukor com Kate Hepburn. O filme é um fracasso, mas ele chama a atenção. No filme Cary Grant faz um papel que é aquilo que Archie Leach era: um cockney malandro, mal caráter, e absolutamente adorável. Assisti o filme a poucos dias. Cheio de momentos não tão bons, mas Cary e Kate brilham de um modo adorável. Para quem não sabe, o filme é sobre travestismo.
  1936 traz Cary transformado em astro. The Awful Thruth de Leo McCarey, uma comédia maluca, faz com que ele exploda. Eis o Cary dos anos 30: leve, elegante, engraçado, ágil. atlético, comediante não bobo, ingênuo nunca tolo, mestre no diálogo rápido, no olhar que diz tudo, no uso do corpo como instrumento solo. Se voce tem a falha vergonhosa de não conhecer Cary Grant assista esse filme ( aqui ele se chama CUPIDO É MOLEQUE TEIMOSO ), e ainda HOLIDAY, sucesso com George Cukor, onde ele faz um tipo de jovem dos anos 60 antes do tempo, e principalmente JEJUM DE AMOR, uma obra prima de Howard Hawks. Cary é aqui o mais esperto dos repórteres. Hawks fez o mais veloz dos filmes.
  Os sucesso se acumulam. Para quem não sabe, Cary Grant é até hoje o ator com melhor média de lucro da história. Imune a fracassos. Até 1966, ano em que ele se aposenta, aos 61 anos, Cary foi uma estrela. A número um entre os homens. Sempre no topo. Inteligente, se aposenta por saber que seus fãs não mereciam ver Cary Grant envelhecer.
  Casou 5 vezes, os dois primeiros duraram menos de um ano. Nunca dava entrevistas. Morou anos com Randolph Scott, o que sempre deu margem aos boatos de sua homossexualidade. Milionário, era sovina. Até o fim da vida cobrava 25 centavos por autógrafo. Fez cem sessões de LSD entre 1961-1966. Elogiava o ácido como o meio em que Archie encontrava Cary. Reencontrou a mãe, já rico e famoso, nos anos 40. Ela estava internada numa clínica psiquiátrica a mais de 20 anos. Ele a tirou de lá, mas sua mãe nunca o aceitou. Como consequência óbvia, Grant jamais confiou em mulheres.
  Seu último casamento foi com uma mulher 50 anos mais jovem. Foi ao lado dela que ele morreu, de derrame, sem sofrimento. Todas as suas esposas eram ricas e sofisticadas. Por ter sido pobre, Cary sabia a dor de não ter dinheiro. E dava às boas maneiras o valor que só dá quem viveu entre as maneiras ruins. Ele se fez sozinho. Ele se construiu. E manteve a persona até o fim. Nunca foi visto mal humorado. Nunca baixou a guarda. Seus filmes são como um presente que ele nos legou. Voce vê  Cary Grant e aprende a ser homem sem ser duro demais. Ser elegante sem parecer um boneco. Ser alegre sem passar futilidade. Ser forte. Muito forte. Mas sempre com graça.
  Uma vez ele deu um conselho à uma jovem atriz ( com quem esteve casado por 7 anos ), Nunca  deixe de sorrir em público. Principalmente quando estiver por baixo. As pessoas irão te atacar assim que perceberem uma fraqueza em voce. Não lhes dê essa chance.
  Esse era Archie Leach. Esse era Cary Grant.

LITTLE RICHARD - Long Tall Sally



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RICARDINHO

   Ricardinho morreu. Falar o que? Ele foi o pai e o arquiteto do rock. Era libertário. Tinha senso de nonsense. Botou sexo na coisa. Era gay. Era negro. E possuía uma voz diabólica. Mais ainda: se contradizia. Era flamboyant. Mais que Elvis ou Chuck, ele tinha na pele e na alma tudo o que veio depois. Era grande. E seria tolo falar mais que aquilo que já disse.
   A wha bop a lula bop lack bam boom....não era isso, mas fica sendo. Nenhuma letra disse mais sobre o sentido do rock.
   Fim.

First Techno (Kraftwerk 1970)



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Kraftwerk - Antenna , better quality



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starsax



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KRAFTWERK

   Even the greatest stars...esse refrão era usado em um comercial de calçados em 1984. E todos nós ficávamos malucos com o sopro de modernidade que lá havia. Na era do synth pop, esse anúncio avisava que os alemães de Dusseldorf eram os reis.
   Não me lembro a primeira vez que os ouvi. Deve ter sido ainda nos anos 70. E com certeza não gostei. Eu preferia Giorgio Moroder, muito mais fácil. O Kraftwerk parecia monótono. Mas mesmo assim eu já sabia, aos 14 anos de idade, que aquele som era radicalmente diferente de tudo o que havia para se ouvir. Mesmo uma banda moderna como o Velvet Underground ou o King Crimson usavam o esquema bateria, guitarra e teclado. Os timbres podiam variar, o volume, a duração das músicas, o nível de ruído, mas era rock. Sendo MC5 ou Pink Floyd, tudo era rock. Rock com folk, rock com Stravinski ou rock com jazz, mas sempre rock. O Kraftwerk não. Neles não havia sinal nenhum de blues. Nem de country. Nem de folk ou jazz. Não era rock. Não era Pop. Não era nada.
   Florian Schneider dizia que o som da banda era "música pop da Europa". Rock alemão. Um tipo de som que nada tivesse de americano. E que fosse moderno. Uma alternativa ao velho rock de sempre. Fazendo isso o Kraftwerk conseguiu exatamente o que queria. Até hoje todos sabem que música eletrônica não é rock. Mas é jovem. É rebelde. É Pop. É mais o que?
   Dentro desse mundo, o das rádios jovens, revistas Pop, shows em festivais, rock enfim, o Kraftwerk é a coisa mais revolucionária que houve e que há. Nada de guitarra. Nada de bateria. Nada de técnica exibicionista. Mais ainda: sem emoção. Sem suor. A radicalidade levada até o fim. A negação do rock dentro do rock.
  Lembro do que senti quando ouvi Sex Pistols e Clash pela primeira vez. Me decepcionei. Aquilo que era vendido como novo era apenas rock. 1977. E nesse ano a novidade era a eletrônica. Somente ela. Mais chocante ainda que ouvir, era ver o Kraftwerk. Cabelos curtos. Ternos. E aqueles instrumentos que pareciam ser computadores. Cadê o sexo drogas e rocknroll?
  Entre 1974-1988 eles foram a ponta da coisa. Mitos. Kling Klang studios. De Brian Eno e Bowie à Radiohead e Massive Attack, todos que usaram sons sintetizados, loops e o tal clima frio e glacial, são devedores de Florian e sua gang. Rap e disco, Prince e Beck, há em todos um gene alemão made in Dusseldorf.
  Florian, o ciclista, morreu. Leia a biografia da banda, fácil de achar, livro bonito. É a melhor bio de música jovem que li. E olha que li muitas! Porque a banda alemã se conectava á história do século, à arte da época, aos planos de futuro, à tecnologia de agora. Florian morreu mas não a banda. Pois ele já dizia que o Kraftwerk independia deles, humanos. O grupo continuaria para sempre, uma fábrica, um aglomerado de robots, um show de som e imagem e não de gente e instrumentos.
  Então ele não morreu. Ele nem mesmo pode morrer. O Kling Klang está lá.

O SONHO AMERICANO: AMERICAN GRAFFITTI

   Continuo minha filtragem de dvds com Loucuras de Verão, American Graffitti, segundo filme de George Lucas, 1973, produzido por Coppola no auge de seu poder. Haskell Wexler fez a fotografia, sensacional, e o roteiro é de Gloria Katz e Willard Huyck, a gang de Star Wars. No elenco, o futuro diretor Ron Howard, Richard Dreyfuss, Cindy Willians e Candy Clark. Tem também um certo Harrison Ford, na época se sustentando como carpinteiro. Na trilha sonora, e é a melhor trilha desse tipo já feita, clássicos do rock e do soul gravados entre 1955-1962. O filme exibe uma noite na vida de um grupo de jovens. Nas ruas. Nos carros. Nas lanchonetes.
   Sobre a trilha sonora: Foi a primeira vez em que uma trilha sonora foi toda feita com canções que já existiam. E que já eram conhecidas. The Graduate ( A Primeira Noite de um Homem ), tem uma trilha toda de canções de Simon e Garfunkel. Mas elas foram feitas para o filme. E são todas deles e só deles. Vanishing Point e Easy Rider têm vários rocks de vários artistas. Mas não eram músicas conhecidas antes do filme ser lançado. É aqui que nasce essa mania que hoje é um dos piores clichês do cinema: Melhorar uma cena com o apelo de uma canção que todo mundo gosta. Posso citar centenas de cenas, em outros filmes, que parecem ótimas, mas que na verdade são banais. Sua beleza repousa toda na canção de Elton John, ou de Al Green, Marvin Gaye, T.Rex, Abba, Gary Glitter etc etc etc. George Lucas não faz isso aqui. Ele usa as canções como fundo, nunca como centro da cena. Acostumados que somos ao apelo fácil dos filmes atuais, estranhamos o fato de ele não explorar mais apelativamente essas músicas. O filme é uma aula de rocknroll. Buddy Holly, os Falmingos e Booker T, and The MGs são os melhores? Não sei! Tenho o LP com a trilha e juro que depois de o escutar pela primeira vez, em 1983, minha visão de rock mudou pra sempre.
   Sobre o roteiro: Nos primeiros vinte minutos voce vai pensar: É só isso? Mas então começa a acontecer algo de muito raro em cinema, voce é seduzido pela simplicidade. E observa que há alí muito mais do que parece. É o anti Godard. Ele fala muito sem enfatizar o fato de estar dizendo algo. As coisas estão no filme, sem palanque. Voce que as perceba.
   Sobre a direção: Lucas obtém do elenco um pequeno milagre. Todos são profissionais, mas retém o que de melhor há no amador, a espontaneidade. Não há um só momento de amadorismo, mas ao mesmo tempo, tudo parece feito por principiantes. Dazed and Confused de Linklater é American Graffitti em 1976. E embora seja um ótimo filme, ele é e parece ser amador. Tem o lado ruim do amadorismo. Aqui não. É um filme puro.
   Sobre sua fama: Este é o segundo filme de Lucas e seu primeiro sucesso. Nos EUA foi o terceiro maior hit de 1973. Perdeu apenas para O Exorcista e Golpe de Mestre ( que bom ano esse ! ). No Brasil nunca teve a fama que tem por lá. Talvez porque ele fale de um estilo de vida que para nós é alienígena. Não tivemos essa geração baby boom. Em 1962 éramos ainda um país agrário.
   Não precisa então dizer que ele sobrevive lindamente. E que se voce nunca o viu, corra e veja. Nos primeiros vinte minutos voce pensará que é apenas mais um desses filmes sobre faculdades, na verdade ele foi o primeiro, mas depois voce vai perceber que os personagens são de carne, osso e alma, e que têm muito o que dizer, MESMO QUE NUNCA O FALEM.
   Eu, como muita gente mais, sinto pena de Lucas ter dedicado o resto de sua vida à saga Star Wars. Nunca saberemos o que ele seria se Luke e Leia jamais tivessem nascido.

GODARD E SEU DESPREZO.

   Como disse em algum outro post, ando me livrando de bagagem. Objetos e também modos de pensar. DVDs são alvos simples e bastante simbólicos. São mais de 500 que já viraram pó.
  Então no começo de uma noite, resolvo dar uma chance para Godard e BB. Muitos críticos ainda tecem loas à este filme. Vamos ver...
  Uma câmera aponta para seu rosto, o rosto de voce, espectador. Isso após Godard recitar os créditos do filme. Em seguida temos a bunda de Brigitte Bardot. Ela pergunta para Michel Piccoli se sua derriére é bonita. Fritz Lang anda pela rua, Jack Palance é um produtor americano. Cartazes ao fundo, Hatari! de Howard Hawks, filme que Godard adora. Numa sala de edição, fala-se de Homero. Até aí são 20 minutos de filme. O que achei?
  Em 1963 havia surpresa em apontar a câmera para meus olhos. E era uma brincadeirinha de criança divertida o diretor recitar os nomes dos atores. Mas quando ele discursa sobre Homero a coisa fica chata demais. Vemos um intelectual se exibindo para um público, que por saber quem foi Homero, se acha mega especial. Godard é um adolescente. Masturbatoriamente, enamorado de seu ego, ele alegremente mostra que sabe muito, não nem aí pra nada, faz o que deseja. Seu público, ávido por se sentir adolescente e inteligente, usa seus filmes como diploma de superioridade mental. Hoje, em 2020, me dá nojo.
  Já tentei fazer videos e peças de teatro. E sei o quanto é árduo o trabalho de se criar personagens críveis. Nada em um filme é mais brilhante, e mais imune ao tempo, à ferrugem do tempo, que uma personagem viva, com respiração, ficcional e ao mesmo tempo real. Godard " genialmente" abre mão disso. Ele não cria personagens, ele fala "a verdade". Oh God. Nem vou falar de como me compliquei e entendi então como é difícil a arte de se inventar uma trama. Um gancho que nos faça amar o enredo, nos emocionar. O enredo de Godard é sempre seu cérebro. Ele não cria, discursa. E quem discursa é ele, somente ele. Único assunto: Eu.
  Se os filme de Kurosawa ou de Bergman sobrevivem melhor, isso se deve ao fato de que eles criaram personagens. Mesmo que esses personagens falem aquilo que o autor quer dizer, eles falam dentro de outras máscaras, e dentro de uma situação criada. Kurosawa usa reis, samurais e velhos pobres para falar; Bergman cria professores, crianças e adolescentes para exibir sua neurose. Acima de tudo eles narram uma história. Penso que Godard não sabe narrar. Então ele discursa.
  Todo discurso fica velho. Porque depois que sua mensagem é absorvida, tudo que resta são palavras. Uma boa história nunca fica velha. Porque ela se renova ao ser vista pela primeira vez por uma outra pessoa. Nós amamos histórias desde quando ficávamos à fogueira, em círculo, esperando o lobo ir embora. Um discurso é útil em seu momento. Depois morre e vira pó. Penso que o excesso de biografias feitas hoje revela a incapacidade de se criar personagens.
   O Desprezo já está no lixo.
   Nem o corpo de BB o salva. 

Bram Stoker's Dracula - Trailer - HQ - (1992)



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DRACULA DE BRAM STOKER, O FILME DE COPPOLLA. E AINDA HENRY MILLER.

     Ando indicando filmes para uma menina de 22 anos. Ela me pediu uma lista de filmes dos anos 90, década de seu filme favorito, Pulp Fiction. Errei feio ao indicar Henry e June. Ela odiou profundamente. Eu não via o filme de Philip Kauffman a uns 15 anos e me surpreendi com sua tola pretensão. É pedante. É aquele tipo de filme que vende "os bons tempos da arte em 1936". Henry Miller morreu. Nos anos 80 todo mundo lia Miller. Fazia parte. Ler Miller, assim como Bukowski, Anais, Jack Kerouac, Ginsberg, era "de lei". Era tão óbvio entre os bacanas que virou clichê. Com muito sacrifício eu li Tropico de Câncer. Achei fake. Estou errado? Talvez. Paul Bowles é o Miller mais profundo. Lawrence Durrell também. As cenas de sexo em Henry e June são broxantes. Fred Ward não faz Henry Miller. Parece um Humphrey Bogart infantil. O filme tem Uma Thurman e Maria de Medeiros, duas Pulp Fictioners. Tarantino as escolheu aqui?
   Dracula eu vi duas vezes. Em 1994 e depois em 1998. Nunca mais. Seria outro erro? Coloco o DVD. Cores vermelhas e guerra na Romenia. O conde perde sua noive e amaldiçoa a igreja. Já no século XIX, Keanu Reeves vai vender terras na Transilvânia. Gary Oldman o espera. Hoje todos aqueles efeitos de imagem são clichê. Na época eu fiquei abobado. Trem que passa sobre a tela enquanto se escreve uma carta. Três rostos que se fundem em um. Lobos que correm como sombra. A riqueza barroca das imagens era uma novidade. Era sedução pura.
   Mas, e em 2020? O que senti? Visceralmente eu grudo os olhos na terra e sinto: Eis uma narração perfeita. O ritmo e as falas. Nos primeiros trinta minutos é uma aula de cinema. Londres e Drácula, vitorianismo e inferno, beleza e horror, tudo em equilíbrio. Acima de tudo, a beleza. O senso de imagem que vem de alguém que conhece o cinema mudo. Sim, em 2020 os primeiros trinta minutos são ainda melhores do que minha memória lembrava.
   Então Gary Oldman passeia por Londres. É um papel muito difícil. Pois facilmente pode cair no ridículo. Ele tem de ser feio e sexy. Hiper romântico e jamais bobo. Teatral sem ser grotesco. E Gary consegue. Sua atuação é brilhante. Controlado. O tempo todo controlado. Winona era a estrela da época e ela não fede nem cheira. Podia ser muito melhor. Mas não compromete. Após seus primeiros 30 minutos, em Londres, o filme se torna menos sensacional. Continua interessante.
   E vem Anthony Hopkins como Van Helsing. No auge da fama de "maior ator do mundo", Hopkins pega o filme e tenta transformar no "Anthony Hopkins show". O filme desaba. É como se ele estivesse no filme errado. Seu rosto e gestos exalam vaidade. Ele se exibe. Ele exagera. Ele destrói todas as cenas. Dracula passa a ser dois filmes: O maravilhoso filme de Gary Oldman, e a comédia barata de Hopkins. Queremos que Dracula vença.
   O final é de um romantismo que resgata o romance. Dracula é um filme sobre o amor que vence o tempo. E ele se redime. É um grande filme que ainda me emociona. Muito.
   Nele está a raiz de uma incontável procissão de produtos culturais. A geração da menina de 22 anos cresceu revendo este filme sem nunca o ter visto. Ela adorou.

You Can't Catch Me (Remastered 2010)



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ASSUNTOS VARIADOS EM TEMPO DE PESTES

   Se voce mantiver a sanidade em tempos como estes, parabéns. Ou talvez não. Sua sanidade será prova de que voce tem algum tipo de autismo. Tudo que posso falar é de mim mesmo, e não tem sido fácil ser eu mesmo. O instinto de manada ressurge forte em crises assim. A questão é: Como manter sua individualidade sem se tornar um egoísta irresponsável?
   Escrevo para dois ou três amigos. Eles me conhecem. Sabem que meu eu inteiro reside neste blog. No facebook sou apenas a fatia que faz propaganda. No instagram exercito relações públicas.
   Diálogo não há. Quem é, será mesmo contra toda evidência. Na verdade as pessoas pouco ligam pra verdade. O povo foi tomado pelo orgulho de estar certo. E esse certo será mantido. Mesmo que errado. Sempre soube que o Face faz o ego inflacionar. Voce se sente numa tribuna todo o tempo. Mas eu jamais pensei que seria tanto assim. Quanto ao instagram, ele é apenas um desfile de gente bacana. A questão lá não é estar certo. É se vender bem.
   Mudando de assunto. Duro escrever sobre Henri Bergson. Ele meio que me estuprou mentalmente. Só hoje percebo que ele nega tudo que acredito. Bergson diz que o tempo é tudo que existe. É a própria realidade. Eu tendo a ver o tempo como uma invenção arbitrária. Na verdade ele é apenas um meio cômodo de medir a vida. Bergson crê na mudança eterna de tudo. Nada é o que foi. E nem será. Eu tendo a crer que nada muda. Que tudo é sempre aquilo que foi de fato. Voce é agora o que foi aos 10 anos. E será aos 90 o que é hoje.  As aparências mudam e o mundo pode te fazer mudar hábitos. Mas voce permanece. No pensamento de Bergson me sinto hiper desconfortável. Minha intuição diz que não é assim. O universo está em expansão, a história anda, mas em sua base tudo é o que sempre foi. Nascemos e morremos. Queremos e perdemos. Comemos e sonhamos. Penso inclusive que meu pensamento é mais moderno. KKKKKKKKKK Que contradição minha né? Eu falando como se ser moderno fosse um mérito! Mas pensar que o tempo é apenas uma convenção está mais de acordo com 2020.
   Reassisti dois filmes com Audrey Hepburn. Charada e Como Roubar Um Milhão de Dólares. O primeiro é um pequeno clássico. Ele é considerado um dos melhores filmes de Hitchcock não feito por Hitch. Foi um big sucesso de bilheteria. É de 1963. O que tenho a dizer? Que ainda fico impressionado com a elegância das pessoas nos anos imediatamente anteriores á explosão hippie. Que é um prazer ver Cary Grant em mais um dos seus sucessos ( ele é o único ator entre todos que jamais teve um fracasso de bilheteria ). Apesar que leio que Cary estava bastante desconfortável no papel. Ele não queria mais fazer par romântico com ninguém. Se sentia velho ( tinha na época 58 ).  Mais um ano ele se aposentaria.  O diretor do filme é Stanley Donen. Quem? Claro que voce não conhece, ele nunca foi um intelectual. Tinha "apenas" bom gosto. Fez filmes entre 1948- 1984. Viveu até este milênio e em 95 ganhou um Oscar especial. Foi linda a entrega, ele dançou pelo palco com a estátua. Dirigiu Cantando na Chuva. Sete Noivas Para Sete Irmãos. E mais uns 10 filmes que se vê hoje com imenso prazer. Charada é uma diversão que respeita sua idade. É adulto. É bobo e é fútil. E também esperto e chique. 1963 era um tempo em que adultos ainda iam ao cinema. E por isso se faziam filmes para eles.  Creia, havia filmes no topo da bilheteria que não eram endereçados aos teenagers. Como Roubar Um Milhão foi feito 3 anos depois e tem Peter O'Toole como par de Audrey. O diretor é William Wyler. Quem? Wyler, o veterano que venceu 3 Oscars. Dá um google. Ele tem mais de 20 grandes grandes grandes filmes. Este não é um deles. Eu adoro porque adoro a dupla central. Mas faltou roteiro. E o sucesso de bilheteria foi bem mediano. De qualquer modo a gente fica lá, sentados vendo aqueles lugares lindos com aquelas pessoas glamorosas.
  Mais um assunto? RocknRoll, disco de 1975 de John Lennon. É o único dele que ainda ouço. Covers de rocks dos anos 50. Phil Spector produziu mais da metade das faixas. Bom modo de voce conhecer Spector. Em 1975 ele já estava louco. Mas tá lá o estilo dele. Conto...em 1962 não tinha essa coisa de produtor como a gente conheceu mais tarde. Em 1972 por exemplo, a gente percebe quando um LP é produzido por Bob Ezrin. Ou por Jimmy Miller. O som é outro. A escolha dos instrumentos. A mixagem. Em 1962 Spector criou isso sozinho. Ele era a estrela dos discos que produzia. Sacou primeiro que a mesa de mixagem era talvez o instrumento mais importante de um disco. E começou a criar. Aumentar o baixo aqui. Enfiar cinco guitarras ali. Uma orquestra de sopros no refrão. Esconder esse piano. Maga egocêntrico, ele enchia tudo de som. É o homem que odeia o silêncio. No disco RocknRoll preste atenção em 3 faixas: You Can't Catch Me é uma massa de som que te engole. São cinco guitarras. Três bateras. Três teclados. E mais um monte de sopros e percussão. 25 instrumentos. Todos tocando como se fossem um só. É aquilo que ficou famoso como Wall of Sound. Uma parede que esmaga o cantor e marcha direto aos eu ouvido. Ouça também Bonny Moronie. Tem gente solando a música inteira. Mas tá lá no meio da confusão ordenada. Tem gente fazendo backing vocals. Mas sumiu. Ouça Peggy Sue. Vale muito à pena. E preste atenção. PS: Bom aparelho é obrigatório.