POSSESSÃO - A.S. BYATT

   A autora Byatt ganhou o Booker Prize de 1990 graças a este livro. O que depõe contra o prêmio.
   Temos aqui a história de um professor de estudos literários que encontra dentro de um livro antigo uma carta de um poeta do século XIX. Com a ajuda de uma professora feminista, ele tenta entender a história de amor desse poeta com uma obscura escritora feminista. Esse enredo vira uma suave história de amor. Escrita do modo mais convencional possível. Apesar da mistura de tempos e dos paralelos entre vidas, é um simples novelão.
   Virou filme em 1997. O filme é menos ruim. O que sempre é mal sinal para o livro.
   Fujam.

Old Grey Whistle Test - Ultravox from 5/12/78



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ULTRAVOX! , UM GRANDE, GRANDE PRIMEIRO DISCO.

   Em 1976 o Ultravox começa a gravar seu primeiro disco. A sonoridade irá lembrar a banda pela qual eles têm profundo amor: Roxy Music. E o acento de exclamação no nome ( ! ), é homenagem a banda alemã NEU!
   Brian Eno produz os caras. Mas larga a produção antes do final para viajar à Berlin, onde vai encontrar Bowie voce sabe pra que. Em seu lugar assume o jovem Steve Lyllywhite, que será o produtor dos primeiros 4 discos do U2. Depois será Eno. A vida é ironia.
  O disco sai pela Island em 1977. Dois produtores, Eno e Steve. E, que azar, é o ano do punk. A banda será chamada de muito velha para ser punk e muito nova para o glam rock. Entre 1977 e 1979 lançam 3 discos. Todos incensados pelos críticos. Todos amados pelos futuros músicos dos anos 80. Todos ignorados pelo público de então, povo que ouvia punk, ska e a new wave de Costello e Ian Dury. Este primeiro disco, Ultravox! antecipa em cinco anos a música de 1981, a música da primeira metade da década de 80.
  John Foxx é o vocal. Ele sairia em 1980. Midge Ure entraria no lugar e a banda estouraria nas paradas com Vienna. Mas este disco é melhor. Bem melhor. Foxx era mais ousado, mais "do mal", mais sexy. O som do disco é puro Roxy. Um Roxy em que Phil Manzanera tocasse menos e Eddie Jobson muito mais. O som do disco é o som do violino elétrico de Rusty Egan. Imagine Ferry cantando estas canções e voce imagina um disco do Roxy de 1976. ( Em 76 a banda não existia mais. Voltaria em 79 modificada ).
  Nick Rhodes diz que o disco é seu favorito. Rhodes fundaria em 1979 o Duran Duran. O Ultravox! é um Duran menos pop e bem mais perigoso. A faixa My Sex é uma obra prima. E termina cortada pelo meio, como Eno faria em Low. Mas o disco é mais que ela. São oito canções tristes. E ao mesmo tempo desafiantes. Ouça.

Ultravox - My Sex (Best Quality + Lyrics)



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AVICENA E O DIA DOS MORTOS.

   A questão que encerra o curso é: De onde vem nossa inteligência, nossa consciência e nosso saber. Eis a base de toda filosofia. Três modos de pensar respondem essa questão: A consciência vem do alto e flui para dentro de nós. Ela nasce conosco e olha o mundo. Ou uma terceira via, que é a de Avicena: ela vem de fora, entra em nós e retorna ao cosmo. Não aceito nenhuma das três, e possivelmente, eu, como voce, partiremos desta vida sem saber.
  Avicena se intrigava com a mecânica do olhar. O que nos faz reconhecer uma flor como parte do reino das flores. O particular como uma fração do universal. O que faz com que reconheçamos o que vemos como O Real. Isso era para ele a inteligência primeira.
  O que me inquieta é não saber como se processa o que faço agora. Um bocado de sangue e carne estar neste momento consciente de si mesmo. E produzindo abstração. A criação do mundo dos números é um fato inescrutável.
  Estou agora aqui. Ali eles estão. Eu sei que esse ele não mais está ali. Pois se ele era apenas máquina, essa máquina deixou de funcionar. Pior ainda, enferrujou e apodreceu. Por outro lado, se ele tinha alma, luz, energia, pensamento cósmico, o que seja, ele também não está aqui, pois seu corpo seria apenas o rádio e não a onda que traz o som. Mas eu, nós, vamos ao cemitério e ficamos aqui. Olho a lápide.
  Fecho os olhos e ouço: pássaros cantam, vozes ao longe, vento nas folhas, minha respiração, passos. Abro os olhos e vejo: folhas no alto, sombra, grama, uma linda mulher, uma família de Quero-Quero. Fecho os olhos e sinto: vida ao redor. Vida dentro de mim. Vida neles. Vida nos passarinhos. Vida exercendo seu poder.
  Paz absoluta então.
 
 

EU VI 3 FILMES...

   Vi três filmes recentes ontem. E eles dão um bom exemplo do que o cinema é hoje.
   O novo filme de Todd Haynes é o atual filme de arte. Uma ótima ideia desperdiçada. Haynes estica tudo, enche de ambição desmedida, deixa o narciso à solta e perde nosso interesse. Falta vitalidade. Falta sangue. Falta culhão. O filme é flácido e mesmo cenas maravilhosas ( a parte de filme mudo, as cenas em Nova Iorque anos 70 ), se deixam esquecer perdidas sem rumo.
   Deadpool 2 é, como quase toda continuação, a morte de um excelente personagem. Sai a ousadia e entra o óbvio, sai o politicamente incorreto e vem a média geral, sai a zebra e entra a vaidade. O filme não é ruim não, mas é o fim. Depois dele não tem mais como continuar.
   E vi ainda um filme do Dwayne Johnson sobre uma fórmula que faz os bichos crescerem ( não é Viagra ). O filme é tão mal escrito, tão sem sentido, que parece ser feito para ser assistido enquanto se faz coisa melhor ao mesmo tempo.
  Que foi o que fiz.

HISTÓRIAS DA OUTRA MARGEM - NAGAI KAFU

   Nos anos 30, em Tokyo, um solteirão começa a andar pelas ruas sujas do bairro das putas. Não das gueixas, das putas. Ele vaga por lá para escapar do calor de seu apartamento e dos ruídos dos vizinhos. Conhece então uma prostituta e começa a visitar essa moça ainda ingênua.
 Ele é escritor e ao mesmo tempo escreve um livro sobre um homem casado que abandona a família.
 O escritor solteiro e a jovem puta conversam e ela se apaixona por ele. Ele resiste, não vê futuro.
 Fim.
 Nunca li um romance mais simples que este. As frases de Kafu são esquálidas e o que mais lemos no livro são descrições das ruas e conduções do local. O texto é quase um guia de endereços.
 Se eu gostei? Acho que sim.

AS AULAS QUE NÃO SE REVELAM

   Avicena é tema de um dos cursos que faço agora. O professor é ótimo e o filósofo, médico, físico árabe é fascinante. Com 12 anos ele já era um mestre. Escreveu uma enciclopédia que resumia todo o saber da época. No ano de 800 de nossa Era, ele já era um renascentista.
  Ótimo. Só que quase não. Uma coisa me incomoda. A renúncia absoluta do professor e dos alunos em citarem a palavra "Deus". Avicena dizia que somos existentes mas não a existência. Que dentro da existência existiam minerais, plantas, animais e humanos, estrelas e o sol, a lua e a terra. Nós temos uma existência que se manifesta na nossa capacidade de pensar o imaterial. Com a mente criamos coisas que não possuem matéria: ideias. Vivemos dentro da Existência, uma substância sem tempo ou sem começo, dentro da qual todas as existências vivem e morrem. Nosso corpo, como um rádio, deixa de funcionar, mas a existência, como a onda que dava voz ao rádio, continua no universo. Pois bem, meus colegas conseguem falar nesse Existente sem jamais admitir que Avicena falava de Deus. Haja ginástica verbal e mental pra isso!
  Faço também um curso de literatura da Irlanda do Sul e os professores estão conseguindo falar de literatura sem jamais falar de escrita ou de imaginação. Na primeira aula se falou da imigração irlandesa, na segunda aula da condição das mulheres em países católicos e agora se fala do fato dos escritores irlandeses terem fugido do país. Aff...
 

O LIVRO DO CHÁ - KAKUZO OKAKURA

   Kakuzo Okakura foi ministro da cultura do Japão. Era o tempo, fim do século XIX, começo do XX, em que o Japão se ocidentalizava. Tendo morado em Boston, sendo conhecedor da Europa, o autor tenta com este livro, lançado em 1909, mostrar ao ocidente o que faz do Japão aquilo que ele é. Ao mesmo tempo, Okakura quer fazer eterno o país que ele ama.
   Para isso ele escolhe a cerimônia do chá como o costume mais típico e que melhor simboliza sua nação. Pois para ele, é o chá que fez do Japão aquilo que ele é. A cerimônia transformou a arquitetura das casas, a pintura, o costume, e até mesmo o modo como o japonês se vê. Para isso, ele começa falando da China, da India, e por fim do país em plena modernidade.
   O livro, de apenas 100 páginas, mais uma bela edição da Estação Liberdade, fala de Zen, de budismo, de viver bem. Mas acima de tudo nos fala do que é a beleza. E das diferenças entre o belo ocidental e o belo oriental.
   No ocidente é belo o que é rico, farto, complexo, chamativo. No oriente é belo o que é precário, simples, incompleto, discreto. A cerimonia do chá se faz num aposento precário, de bambú e papel; usa elementos simples e perfeitos, incompletos e sublimes. Um arranjo de flores, uma pintura em seda, o bule e o fogo, o silêncio, a água em ebulição. Cada gesto é pensado e exato. Os elogios são comedidos, porém, obrigatórios. Cortesia e etiqueta. Criada em 1540, a cerimonia do chá cresceu séculos afora.
   Para Zen, o vazio é onde a beleza vive. Em tudo que fazemos há de se deixar espaço para a ausência, para o nada. Daí a incompletude. Pois é no vazio que a transformação pode ocorrer. Sem espaço vazio não pode haver imaginação. Sem imaginação não existe criação. Sem criação não há vida. Nada dura, nada faz sentido, a não ser a eterna mudança que se opera dentro do nada.
   Nosso corpo é um objeto sensitivo criado para podermos experimentar a matéria. O chá é matéria cercada por vazios. Espaços para se observar. E apreciar. O livro de Okakura é apreciação que se aprecia.

CREPÚSCULO - STEFAN GEORGE.

   Foi difícil achar este livro de Stefan George. Foi editado em 2012, mas logo sumiu das prateleiras. Não por ser um sucesso, quem lê no Brasil um poeta alemão simbolista?, mas por sua edição de poucos exemplares. Bem, o acho num canto da livraria Cultura em 2018.
  George é o simbolista mais conhecido e destacado em língua alemã. Ele e Rilke, claro. George nasceu no fim do século XIX e viveu até 1933. Teve a vida que quis, mas ela foi triste. Nada trágica, apenas melancólica. Seus pais nunca desaprovaram sua escolha e ele viveu de rendas. Viajou, escreveu, amou, escreveu. Teve um caso com uma mulher, mas sua vida era a de musos, dos quais o mais marcante foi um menino de 14 anos. Não é uma poesia que fala de casos gays, então não podemos chamar sua obra de homossexual. É antes uma poesia assexuada, ou talvez, hiper sexuada. Às vezes sinto que a Lua e a Música são falos ou vaginas.
  É enganosamente simples ler George. Seu vocabulário é acessível e sua sintaxe fácil. Mas suas imagens são rígidas, frias, e a construção é engenhosa. Tem metro e tem rima. Inflexível. Rilke é quase latino, George é hiper alemão.
  Voce deve notar que meu texto está um tanto perdido. E contraditório. É complicado falar de Stefan George. Ele não se deixa amar. É liso como peixe.
  O livro traz fotos dele e seus amigos. George foi impressionante. O rosto é inesquecível. Feio além da feiura. Forte. Ancestral. As fotos falam do além. Parecem fotos tiradas em um mundo que nunca houve. As pessoas não se parecem com gente. Lembram arquétipos.
  Acho que George gostaria de ser arquétipo. A poesia simbolista não procura nada mais que isso.

Stefan George - Das geheime Deutschland Doku (2018)



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Duran Duran - Girls on Film (Live @ Måndagsbörsen '81)



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Duran Duran: Careless Memories (Original version!!!)



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O SOM DOS ANOS 80 E DE HOJE.

   A gente estava na Europa em 1982 e foi um momento brilhante aquele. Naquele verão os anos 70 acabavam enfim. A primeira coisa que estranhei foram os jeans. Não havia jeans. Se voce quer saber como a molecada se vestia na Europa em julho de 82 veja o clip que postei acima. Continuo: fomos para o interior do interior do continente. Ou seja, norte de Portugal, quase Galicia. Quarenta graus, aridez, pouca gente. Uma festa na cidadezinha de meia dúzias de ruas. Eu e meu irmão vamos. Uma feira de tarde. Barraca de discos. Que surpresa!!!!! Tem tudo que aqui no trópico não tinha ( e na verdade nunca teve, nem em cd ): Talking Heads 77, Gang of Four, Classix Nouveaux, Ultravox, John Foxx, Toyah Wilcox, Orange Juice, Haircut One Hundred, Adam Ant e Bow Ow Ow. Compramos. Era a época do Escudo. Um escudo era dez cents de dólar. Eram discos made in Portugal e made in France. Tenho até hoje. Andamos pelo local...meninas de enormes franjas cobrindo os olhos. Meninos com calças de mulher: laranja, roxo, pinky. Bebemos ginja.
  Na sala da minha tia tem um programa de música POP ao vivo. Um palco cheio de luzes, cores e brilhinhos. Era o nascimento da década e ela só nasceria no Brasil em 1984. E aqui ela seria para meia dúzia de moradores de bairros legais. No fim do mundo português era fenômeno popular.
  Na época eu não era fã do Roxy Music e pouco entendia de Bowie. Ouvia-o desde 1974, mas era pra mim só um rock star gay e criativo. Então não pude notar que ele e Ferry eram os vencedores do década passada. Entre 1980-1987 o POP e o ROCK que importava eram, em 90% dos casos, filhotes do glam e do funk chic.
  Chego de volta a 2018 e escuto o disco Duran Duran, o primeiro. Para mim, é a coisa mais fora de moda que existe. Teclados gelados e simples, baixo funkeado ( John Taylor é um gênio do ritmo ), guitarra exagerada, percussão lá em cima, tudo a cara do POP dos anos 80. Mas caramba!!!! Ouço uma multidão de "novas" bandas de 2018 e um monte tem esse mesmo som, mas, COM UMA DIFERENÇA: eles tocam muito, muito mal. Daí dou razão à Neil Young. O fato dos novos sons serem gravados em aparelhos ruins para se reproduzir em condições precárias, faz com que toda uma geração seja acostumada a ouvir música pobre. É um tchuc tchuc prás sem nenhuma sutileza.
   Por isso esse vinil me surpreendeu desta vez. Fico embevecido com a riqueza sonora. Tem centenas de coisas para se escutar, sons que vão e que voltam, timbres que surgem e morrem, ecos sem fim.
   A criação do LP em 1948 fez nascer o som de Sinatra, e depois o jazz adulto. A tecnologia dava campo para eles. O estéreo deu nascimento aos sons dos Beatles e todo o rock psicodélico. Os estúdios de 64 canais ensejaram o POP dos anos 70, com seus montes de músicos profissionais. A fita K7 criou o fã de bandas toscas e o CD fez nascer a dance e o eletro. Cada salto científico faz surgir um novo modo de ouvir e de fazer música popular. E faz se abandonar outro modo, antigo, de produzir e compor. O tempo do Ipod e do Spotify, do mp3, fez surgir o som sem sutileza, que luta contra o ruído das ruas e a pressa do ouvinte. Se compõe para essa tecnologia. Singles de 3 minutos. E só.