FILMES POLICIAIS: ALDRICH, MANN E ALAN LADD.

   A MORTE NUM BEIJO de Robert Aldrich com Ralph Meeker e Marion Carr.
Uma moça corre numa estrada. Um cara lhe dá carona. Ela é morta. Ele quer saber por que. Ele é Spillane, um cara ruim, cínico, duro, frio, violento. Nasce aqui, em 1955, o moderno filme policial. A direção é ágil, viril, estranhamente parece cínica. A fotografia é de Ernest Laszlo, que seria um dos mais famosos nas décadas seguintes. O filme é sexy, os personagens malucos, o clima é doentio. Aldrich antecipa em 4 anos a nouvelle vague. É um exercício de estilo, de cinema, de direção. Um grande filme! Aldrich, nos anos seguintes, construiria uma das mais divertidas e corajosas carreiras no cinema.
  A CHAVE DE VIDRO de Stuart Heisler com Alan Ladd, Brian Donlevy e Veronica Lake.
Este policial tem um estilo cinema noir. Um prefeito tenta a reeleição, mas o crime gira a seu redor. Raptos, tiros, chantagens. Veronica Lake solta faíscas. Ladd faz um herói que não nos deixa tranquilos. Nunca sabemos se ele é do bem ou um egoísta. É uma diversão de primeira.
  SIDE STREET ( PECADO SEM MÁCULA ) de Anthony Mann com Farley Granger
Um carteiro rouba um escritório. E se mete numa encrenca gigantesca. O suspense cresce e o carteiro se enfia numa trama quase kafkiana. Não há saída para seu crime. O filme, curto, revelou Mann como grande nome do cinema. Há um clima fatalista em toda cena. Grande cinema.
  RAW DEAL de Anthony Mann com Dennis O'Keefe e Marsha Hunt.
Um cara foge da prisão. Se envolve em triangulo amoroso. Uma das duas mulheres está o traindo. Ou não. O filme, modesto, é o segundo de Mann. Apenas um bom passatempo.
  A MALETA FATÍDICA de Jacques Tourneur com Aldo Ray, Anne Bancroft e Brian Keith.
Mais uma vez, eis Tourneur, o grande diretor de tudo quanto é tipo de filme. Aldo faz, com brilho, um homem que pode ou não ter escondido dinheiro roubado. Keith é o bandido que o persegue para reaver o dinheiro. E o filme, cheio de ação e de muito drama, conta esse jogo de gato e rato. Ótimos atores. Belas locações. Para se ver.
  O DEMÔNIO DA NOITE de Alfred Werker com Richard Basehart
O roteiro é tão bom que mesmo um diretor de segunda faz dele um grande filme. Basehart é um cara que sabe tudo de eletrônica. E é um ladrão. Mata um policial e começa aí a caçada. A cena final, nos esgotos de LA é inesquecível. Basehart está ótimo. É um grande filme.

OS LIVROS E EU.

   Lembro então que meu amor pelos livros não começou com Renard ou com o livro do Zorro.
   Nos anos 60 era comum vendedores de livros irem de casa em casa. Tocavam a campainha e se aceitos, entravam na sala e expunham imensos cartazes coloridos com os livros que vendiam. Sua mãe, se interessada, encomendava a coleção, que seria entregue dali a 15 dias. Eram enciclopédias, coleções sobre medicina, artes, história e obras completas de alguns autores. Capas duras, ilustrados.
   Meus pais só liam jornal e revista, mas sabiam que seus filhos deveriam ler. E então compravam. Algumas coleções se revelaram inúteis, lembro de uma enciclopédia do sexo que era nojenta, e outra sobre psicologia que era assustadora. Mas foi o LER E SABER que me fez sentir paixão por livros.
   Tenho até hoje e é meu maior tesouro. São 12 livros, que li e reli aos 9 anos de idade. Textos extremamente simplificados, dirigidos a crianças e teens, páginas super coloridas, assuntos sobre história, ciências, curiosidades. Foi então que senti o prazer de segurar um livro, o cheiro, virar a página e ser surpreendido, colocar na estante. Logo vieram Os Bichos, Conhecer, e a glória suprema, a Barsa. Foi lendo a Barsa, uma versão simplificada da Britânica, que aprendi sobre literatura, pintura, história e um imenso etc. Vi que um livro era uma aventura, uma viagem, um sonho.
  Nunca mais perdi essa curiosidade. Ver o que se vive dentro de um volume. É amor. E amor dura.
 

OSCAR, GRAMMY, GOLDEN GLOBE, BAFTA, PALMA DE OURO...

   Incrível como todos esses prêmios se tornaram um tipo de festa de 15 anos de algum ator escolhido. Tem palhaço chato, tem fotógrafo, tem pais e mães felizes, tem vestido brega, tem lágrima, tem dancinha boba e vexames a granel. Tudo bem tolo, bem festivo e bem pop corn.
   O cinema deixou de ser uma arte. Ele nasceu no circo, virou arte e teve a esperança de um dia ser tão nobre quanto a literatura ou a arquitetura. Desandou o caldo. De tempos pra cá, virou circo de novo e ocasionalmente uma triste lembrança daquilo que foi um dia.
  A mais jovem das "artes" envelheceu rápido demais.
  Os prêmios são como velhos gagás com caras plastificadas tentando ser o mais teen possível. É incrível como os novos atores já começam sabendo que terão 10 anos de carreira. Depois é uma looooooonga queda.... Têm 25 anos de idade, parecem ter 18, mas são velhos, velhos em alma, são cansados, embolorados, medrosos, tontinhos e dependentes. tristes.

FALANDO DE POLÍTICA

   Uma menina me escreve dizendo que o mais direitista dos direitistas é o conservador. Óbvio que ela está muito mal informada. Assim como há quem não perceba que a esquerda se divide em socialistas, comunistas, fabianistas e tantas outras istas, a dita direita vai desde os liberais até os conservadores.
  Liberais são capitalistas que se deslumbram por tudo o que brilha. Amam o novo e acham que o progresso justifica a vida. Viver é avançar e avançar é construir. E como constroem!!!! Novas estradas, novas pontes, novas modas, nova ciência, nova religião... Na verdade eles vivem no mesmo mundo dos socialistas, o mundo do amanhã, a diferença é que uns querem esse futuro comandado pelo estado, já os liberais querem que grupos de empreendedores façam esse futuro. A graduação desses dois modos de pensar dá o tom deste mundo falido de hoje. O mundo tem andado por esses dois caminhos. O futuro via estado, o futuro via indivíduo. Uma corrida.
  Conservadores odeiam os liberais acima de tudo e de todos. Porque liberais fazem aquilo que os conservadores mais condenam: destroem. Derrubam bairros, praças, palácios, destroem crenças, modos de vida, costumes, tudo em nome do futuro e do progresso. Um liberal mata um deus para poder abrir uma estrada e afoga uma fé em troca de mais um banco de investimento.
  Um conservador odeia menos um socialista porque no socialismo, pobre em ideias e lento em progresso, as coisas mudam menos e quando  mudam podem ser revertidas. Polônia, Hungria, Vietnã ou Cuba foram preservadas em formol por décadas graças ao socialismo. A velha França, a velha Inglaterra ou a velha Itália foram destruídas pelos liberais. O que sobrou se escondeu no campo, nas montanhas, onde os conservadores ainda mandam em algum bairro.
  O conservador não vê razão em fazer uma revolução. Todas terminam com o país pior do que estava antes. E a conta é sempre impagável. Conservadores tentam vencer o mal e a injustiça usando aquilo que sempre foi usado contra elas: trabalho, bondade, caridade, irmandade, costumes familiares e bons exemplos. Todas essas palavras são ridicularizadas tanto por liberais como por marxistas. São os inimigos.
  Sabemos que perdemos. O mundo tende a ser cada vez mais liberal e socialista. Isso é irreversível.
  Mas todo conservador é teimoso. Empertigado. Teimoso. Nunca venceremos. Mas continuamos a crer. Pois nossa crença é forte. Por ser a raiz de toda crença.
   O VENDEDOR DE ILUSÕES ( THE MUSIC MAN ) de Morton da Costa com Robert Preston, Shirley Jones e Hermione Gingold.
Um malandro, em 1910, chega à uma pequena cidade de Iowa e consegue vender para todas as pessoas instrumentos musicais. Um detalhe: ele não sabe nada de música e se diz professor e maestro. O filme é maravilhoso. Grande sucesso na Broadway, tiveram a sabedoria de manter Preston como estrela. Ele dá uma interpretação cativante. Amamos esse malandro. As canções são cantadas numa espécie de fala, um rap antes do tempo. Técnica difícil, letras elaboradas, uma coleção de grandes músicas de Meredith Wilson. ( Uma delas foi até regravada pelos Beatles ). O filme, com 3 horas de duração, é uma delicia todo o tempo. Festa para olhos e para o coração.
   FOMOS OS SACRIFICADOS de John Ford com Robert Montgomery e John Wayne.
Comprei um box com filmes da segunda guerra. Este é um John Ford que ainda não havia saído em dvd no Brasil. Fala a história de um bando de marujos nas Filipinas que provam a utilidade das lanchas torpedeiras. Wayne faz o tipo impulsivo e Montgomery o ponderado. Não é um dos grandes filmes de John Ford. A impressão é que ele tenta fazer uma aventura ao estilo de Hawks e não consegue.
   48 HORAS! de Alberto Cavalcanti com Leslie Banks e Elizabeth Allan.
Cavalcanti era brasileiro. Rico, foi para a Europa nos anos 20 fazer cinema. Primeiro na França e depois na Inglaterra, conseguiu se tornar um conceituado diretor. Voltou ao Brasil nos anos 50 para ajudar na Vera Cruz. Quando viu que a companhia paulista era um buraco, voltou à Europa, mas já sem a mesma pegada. Ainda pode ser considerado o diretor brasileiro de mais importância a trabalhar fora daqui. Ele tem clássicos feitos na França, na Inglaterra ( seu país favorito ) e na Alemanha. Este conta a invasão de uma cidadezinha inglesa por uma tropa de nazis disfarçados de soldados ingleses. A própria população irá descobrir a farsa. É um daqueles filmes que exalta a bravura do inglês comum em plena luta contra Hitler. É um bom filme.
  THE STORY OF G.I. JOE de William Wellman com Robert Mitchum e Burgess Meredith
É uma obra-prima. Wellman serviu na primeira guerra na esquadrilha Lafayette, ou seja, ele pilotou contra o Barão Vermelho. Quando voltou aos EUA, sem ter o que fazer, entediado, foi fazer filmes. Se tornou um dos melhores diretores do cinema. Aqui ele tece o elogio ao soldado de infantaria, o cara que faz a parte mas suja, dura e cruel de uma guerra. Enquanto o piloto da aeronáutica morre limpo e como herói, o soldado vive na lama e morre na sujeira. É uma aventura suja, triste, cruel. Cheia de dor, lama, soldados que enlouquecem, chuva, e camaradagem. Wellman não alivia e faz uma obra tão corajosa como os melhores filmes neo realistas da época. Ele odeia a guerra e ama os soldados. O filme tem de ser visto e o considero um dos 5 melhores filmes sobre o assunto já feitos. Mitchum, bem jovem, está brilhante como um soldado desiludido.
   PROIBIDO! de Samuel Fuller
Na Alemanha que se rende, o romance proibido entre um soldado americano e uma alemã. Em 1945 era proibido o contato entre soldados e a população alemã. Todo alemão era considerado um nazista. Eu não gosto de Fuller. Os franceses o chama de gênio desde os anos 50. Eu o acho exibido, exagerado, chato.
   AMARGO TRIUNFO de Nicholas Ray com Richard Burton e Curt Jurgens.
Ray, o diretor de clássicos de James Dean e de Bogart, filma uma aventura no deserto da Libia. Burton é um soldado intelectual e cínico. Jurgens é um oficial que esconde sua covardia. Os dois amam a mesma mulher e partem para uma missão. Eles se odeiam e um tenta destruir o outro. Mais que os alemães, eles são seus inimigos. É um filme tenso, bastante cruel, amargo até o fim. Burton está ótimo em seu papel de pessimista. Jurgens rouba o filme. O comandante é ridículo sem ser caricato. A fotografia é ótima!
  MERCENÁRIOS SEM GLÓRIA de Andre de Toth com Michael Caine e Nigel Davenport.
Que bela surpresa!!! Eis um filme de 1968 que brinca com os filmes dos anos 60 que mostravam equipes legais em missões perigosas. Aqui a equipe é suja, sem charme e feita por um bando de ladrões baratos. Menos Caine, que faz o elegante certinho, que segue a ética. A missão é suicida, claro, mas a conclusão é uma surpresa. O filme nada tem de engraçado, ele é sórdido. Andre de Toth foi um diretor americano que fez de tudo. Filmes de ficção científica que se tornaram clássicos, faroestes excelentes, policiais ótimos e até filmes de piratas. Nunca vi um filme seu que não fosse bom. E ele fez dúzias e dúzias. Este é mais que bom. É ótimo.

A VIAGEM DO BEAGLE - JAMES TAYLOR

   Mas que decepção! James Taylor, curador de museus náuticos e científicos, não consegue criar empatia mesmo com assunto tão magnífico. O tema é o Beagle, o mítico navio que transportou Charles Darwin em sua viagem rumo às Galápagos e além. O personagem central não é o cientista inglês, mas sim o esquivo comandante do navio, o capitão Fitzroy. É graças a ele que Darwin é convidado a participar da viagem.
  O livro conta a construção do Beagle, seu design. Depois fala sobre Fitzroy, homem que gastou sua fortuna para o bem da ciência. Darwin, de quem não precisamos falar. E até os marujos são apresentados em capítulo só deles. O livro é bonito, aquarelas, fotos e desenhos da época, retratos, mapas. O papel imita papel antigo, a capa é dura, ampla. E digo que não é um livro ruim, é decepcionante diante de seu tema, um dos mais fascinantes possíveis.
 Vale destacar o comentário de Darwin sobre o Brasil: "Um país belíssimo, fascinante, mas o povo...rude, vaidoso, indolente, ineficiente..."

DO OSSO AO PÓ - JULIO MENEZES. AFINAL, QUEM FOI VOCE...

   O nome do cara é Eduardo Conde. E ele cheira muito pó. Nas brumas netunianas dos anos 80, ele tem uma pizzaria que nunca quis ter, se sente o cara mais mal amado do mundo, vende cocaína, torra dinheiro e come algumas mulheres. Mas não as ama. Eduardo é um dinossauro. Machista doidão, nada fofo, um tipo de homem que em 2017 só existe em faces enrugadas. Eduardo acha que ama Aninha. Mas é aí que a porca torce o rabo...Aninha, para mim, leitor, é Eduardo. Ele se ama através dela. A menina osso.
  Julio Menezes é meu amigo desde 1985. Eu sei do que ele fala. É claro que Eduardo não é ele. O livro é 90% ficção. Mas a vida é foda. Explico mais.
  Julio é de escorpião. E o livro é o mundo mítico de escorpião jogado em nossa cara. Mortes, muitas, drogas, muitas, desespero, muito, força, muita, sorte, bastante, violência, não assumida, sonho de amor, teimosia, insistência, egoísmo, e uma estranha mística da inocência. Na capa a editora botou que o livro faz parte do mundo de Bukowski e de Pedro Juan Gutierrez. Que nada! Julio escreve como um Raymond Chandler cheio de pó. Um Marlowe que perdeu o rumo e transa suas personagens. O livro é sórdido. Ele fede. E isso é proposital.  Gutierrez e Bukowski, me desculpem os fãs, são bem mais simples. Julio é quase barroco.
  Amizade é foda. Nunca em minha vida falei para Julio que em 1980, julho, me transferi para o Objetivo. E que lá me apaixonei por uma menina chamada Aninha. E mais, que no dia em que Lennon morreu eu estava no pico dessa paixão. Coisas de se viver no mesmo círculo, amizade é compartilhar o mesmo inconsciente. No livro Eduardo e Aninha vivem isso, que eu vivi na mesma data com a minha Aninha, real. E fui também com ela ao FICO, fui ao show do Queen e estive no Van Halen. O mundo é pequeno e SP sempre foi um buraco. Quanto ao Diógenes...esse nome ele conheceu na vida real, e deve ter ficado em algum canto guardado. Mas nada tem a ver o Diógenes real com o do livro... ( Julio, torce pra Jane não o ler ! Não sei se foi por querer, mas Jane é ela... ).
  Li o livro em dois dias. E notei que o retrato que ele faz da década de 80 não é aquela que eu faço. E sei porque. Julio mergulhou na década, entrou no inferno, botou sua carne na grelha e mandou girar. Eu fiquei na porta, olhei, senti o cheiro do queimado, mas não entrei na casa do fogo eterno. As lembranças que ele tem, coisas como o Ritz, o Satã e gente como Akira S., Arrigo e JR Duran, são duca. Eu gargalhei com certas cenas deste livro. Ri alto. Julio pega a cara magra de uma época de muito ridículo e pouco sorriso e a esfrega no papel. 
  Amigo, fico feliz em perceber que gostei do livro. Ele é forte. Pesado. Uma tijolada. Viagem de pó. Lembrei de Paul Bowles. E de Malcolm Lowry. Ele nos dá vertigem.
  Fico feliz também por ver que meu estilo de escrita é completamente diferente do seu. Diferente. Talvez menos forte. Talvez até pior por ser menos claro. Se um dia eu publicar, ninguém vai poder dizer que te copio. Isso é bom. Nadamos em raias distintas.
  O livro tem uma cena que me tocou mais que qualquer outra, e essa cena não foi a morte do vira lata não. O dia em dezembro em que Eduardo e Aninha vêm as notas no pátio do Objetivo...Caralho Julio! Naquele mesmo dia eu vivi aquilo com a Aninha!!!! A diferença é que em meu caso foi ela que me deu uma gelada bem discreta. Porra, essa cena ficou linda! ...Aliás...voce notou que o cara acaba comendo todas as mulheres! É um azarado sortudo, ou é aquilo que ele pensa: A gente só vê a coisa boa quando se sente bem...Estando mal tudo parece mal...Mesmo quando a menina mais bonita da praia quer casar com a gente...
 Terminando: Quando li seu primeiro livro pedi uma continuação. Agora peço outra coisa. Escreve sobre a infância. Escreve sobre a vida de um menino de 10 anos, 9 anos, nos anos 70, em Higienópolis e na Bahia.
 PS: O nome do punk!!! Hilário!
 PS2: Se voce quer entender os anos 80, olhe para nosso amigo que morreu a um ano. A extrema passividade do Giba. É aquilo. Os anos 80 pediram ação. Muita ação. E nossa reação sempre foi entediada. Éramos como fidalgos. Evitávamos o excesso de realidade.
 Abraço.

UM ANO DE VIAGENS - FRANCES MAYES, ENTRE DEUSES, FLORES E MUITA COMIDA.

   É o terceiro livro de Frances que leio, e ela continua ótima. Não conheço ninguém melhor para se ler ANTES de uma viagem. Ela, com prosa elegante e nunca superficial, descreve paisagens com o dom do sabor e comida como aquarelista. Ela embaralha nossas sensações e faz de seus livros um tipo de menu sensível. Nada escrito com pressa, quando ela vê uma praia do Mediterrâneo, nos conta de deuses, de história, de casas e de gente que lá vive. É quase poesia.
  Este livro foi escrito muito após seus primeiros, e ela viaja de férias com seu marido poeta, Ed. Não é um ano de férias, na verdade são várias férias que aconteceram em anos diferentes. Frances, que vive metade do ano em San Francisco e a outra metade na Toscana, viaja para lugares onde sempre quis ir e nunca havia visitado. Ficamos sabendo de hotéis, camas, vinhos, ruelas, pessoas locais, igrejas, tradições, e muita, muita comida.
  A primeira viagem é para a Andaluzia e por 30 páginas, Mayes nos fala da paisagem árida, das igrejas que eram mesquitas. Ela se deslumbra com a beleza dos azulejos, o frescor das fontes, os touros. O clima aqui é quase místico. A cultura árabe é explicada, a beleza é aquela do oásis.
  Depois ela conhece Portugal. País que ela nunca pisara, sua primeira impressão é caótica. Mas ela logo se apaixona pelo modo de vida português. Lisboa a seduz, a comida a deixa viciada. A gentileza das pessoas, os mercados, e os arabescos das ruas. Viaja pelo interior português, e pensa em ficar para sempre no Minho. Flores, ovelhas, vinho, comida excelente, bom café, doces em toneladas. Portugal a surpreende. Uma mistura de celtas, romanos e árabes.
  Ela vai ainda ao sul da Itália, e se delicia com o humor caótico, o azul do mar, o melhor café do mundo. A presença dos deuses, do inefável em cada pedra, em cada flor.
  Vai à Inglaterra e à Escócia e lá sente o que significa CONFORTO. O campo britânico é a Terra da Paz. Tudo parece macio, calmo, pacífico, civilizado. O povo de lá, em séculos de cultura, conseguiu fazer da Terra um canteiro de rosas. Nenhum outro lugar do globo parece tão bucólico, sem perigo, sem riscos, sem aventura. No campo inglês, a vida é absoluto conforto e bem estar, sossego em suas salas com sofás floridos, vasos com rosas, almofadas com bosques e coleções de chaleiras. Jardins em círculos, rosas trepadeiras, lagos calmos e risonhos, tudo suave, delicado e parecendo sempre NATURAL. Lebres, raposas, esquilos, rouxinóis, ovelhas, e cães. Um inglês do campo se define em 3 palavras: rosas, bules de chá e cachorros.
  Ela vai á Grécia e se decepciona. Multidões barulhentas, sujas, nada pode ser visto com calma. Pressa, distância, nervosismo. Hordas de turistas. Gordos, suados, chateados, entediados.
  Mas ela vai à Creta no inverno e tem ali sua experiência mística. Os deuses do mar ainda vivem em Creta e tudo que as pessoas pensam encontrar na Grécia, na verdade mora na ilha de Creta. ( Depois escrevo mais ).
  Mântova e Capri, a mais linda ilha do mundo, os penhascos e as grutas...
  O azul e o branco do Mediterrâneo, vinho e azeitonas, sol e preguiça, queijos e frutas. O livro, imenso, é um gosto de vida. Um prazer solar. Mayes é demais de bom...

Sweet Charity - #Dance Scenes (The Aloof, The Heavyweight, The Big Finish)



leia e escreva já!

GÊNIOS DO CINEMA - GENE TIERNEY - FLYNN - BOGART - MACLAINE

   PATRULHA DA MADRUGADA de Edmund Golding com Errol Flynn, David Niven, Basil Rathbone e Donald Crisp.
Um dos melhores filmes de guerra já feitos. Na França de 1915, acompanhamos o dia a dia de uma base da RAF. Pilotos são mandados toda manhã para missões suicidas. Flynn, nunca melhor que aqui, comovente em seu estoicismo elegante, é o piloto que evita lamentações. Encara cada missão como um esporte e bebe como se fosse uma festa. Niven, excelente, é seu melhor amigo. O filme é pacifista e feito em 1938, encara a possibilidade de mais uma guerra. Este filme é nova versão de um filme anterior de Howard Hawks, feito em 1930. Sentimos ainda o foco que Hawks sempre dá a seus filmes, ou seja, a camaradagem entre homens que enfrentam uma missão dura. Nunca vi o original, mas imagino que seja mais lento e mais cheio de toques da vida comum. Golding foi um bom diretor e leva o filme para um tipo de drama que duvido que Hawks tenha tocado. É este um grande filme. As cenas de aviação são lindas, os aviões em malabarismos num céu sem fim e as manhãs em que eles decolam. Foi a última guerra em que os resquícios do cavalheirismo ainda existiam, creia, a cena com o alemão não é uma fantasia. Um belo filme sobre um valor esquecido: virilidade sem machismo.
   O PECADO DE CLUNY BROWN de Ernst Lubitsch com Charles Boyer e Jennifer Jones.
Este é uma obra-prima. O melhor filme de um dos grandes diretores do cinema. Lubitsch nasceu no império austro-húngaro e começou fazendo belos filmes chiques e maliciosos na Europa. Foi para Hollywood já famoso e poderoso e se tornou nos anos 30 um tipo de rei da Paramount. Mestre para diretores como Preminger e Billy Wilder, que o adorava. Morreu no fim dos anos 40 ainda antes dos 50 anos. Aqui ele tece uma sátira soberba ao sistema de classes inglês. O filme é maravilhoso. Os diálogos faíscam, os atores brilham, nosso prazer é completo. A história fala de um refugiado do nazismo que se aproveita da ingenuidade dos ingleses. Mas também fala de Cluny Brown, uma menina da classe trabalhadora, que sonha em ter uma vida melhor e ignora a divisão de classes. Seu pecado é ser da classe baixa, além de entender de encanamentos. O filme tem drama e humor e na verdade debaixo de todo riso ele é bem sério. Jennifer está adorável como sempre e Boyer dá uma aula de comédia elegante. Todo o filme é deslumbrante e serve como introdução a quem queria conhecer ao cinema de Lubitsch e também o cinema dos anos 30. Inesquecível. Já sinto desejo de o rever.
   A CONDESSA SE RENDE de Ernst Lubitsch com Betty Grable e Douglas Fairbanks.
Único fracasso de Lubitsch, é seu último filme. Ele estava doente quando o fez. Pura fantasia, conta a história de uma invasão a um reino da Itália. A condessa de Bergamo tenta convencer o invasor a partir e nisso é ajudada pelo fantasma de sua tatataravó. Há ainda um marido covarde. Não é ruim. Na verdade é leve, alegre, divertido. Uma atriz melhor melhoraria muito este filme.
  PASSAGEM PARA MARSELHA de Michael Curtiz com Humphrey Bogart, Claude Rains, Peter Lorre e Michele Morgan.
Mares em tempo de segunda guerra. Um navio francês recolhe náufragos. Ficamos sabendo sua história. São fugitivos da prisão. Irão se juntar à luta contra Hitler. O filme é completo. As cenas na prisão e a fuga no pântano são emocionantes. Fotografado por James Wong Howe, um mestre, ele tem riqueza visual. O elenco não podia ser melhor. É a turma de Casablanca metida em um navio. Uma aventura típica de Bogey, direta e muito bem feita. Ver Bogart na tela é sempre uma felicidade.
  ACONTECEU EM SHANGHAI de Josef Von Sternberg com Gene Tierney, Victor Mature, Walter Huston e Ona Munson.
Não dá pra ser pior. Este filme acabou de vez com a carreira de Sternberg. O descobridor de Dietrich, autor de cinco filmes originais e fantásticos nos anos 30, aqui, em 1941, encontra o desastre. É um filme mal feito, ridículo, feio, desagradável e hilário em seus diálogos inacreditáveis. Hoje virou cult, mas é bem ruim. Fala de um antro de jogo em Xangai. Centro de pecado, de sexo, de drogas. Tierney, inacreditavelmente linda, é uma inglesa rica que decai nesse centro de jogo. Vira prostituta. Huston é o pai. Ona é a cafetina, uma dona de bordel digna de carnaval. Mature faz um turco que seduz e usa mulheres...Nada faz o menor sentido. Creia, é pior do que voce imagina.
  CHARITY, MEU AMOR de Bob Fosse com Shirley MacLaine, Chita Rivera e Ricardo Montalban.
Bob Fosse já era famoso na Broadway quando fez este seu primeiro filme. Que foi um desastre de crítica e de bilheteria. Feito em 1968, Fosse só iria se redimir em 1972, com o super sucesso e os Oscars para Cabaret. A história é a de Noites de Cabiria. Bob Fosse sempre assumiu seu amor por Fellini, e presta a homenagem ao filme do italiano levando a saga da doce prostituta para a New York dos hippies. Em 1979 ele faria All That Jazz, o seu Oito e Meio. Shirley não é Giulieta Masina! A atriz de Cabiria não pode ser igualada. O desempenho da esposa de Fellini é o maior da história dos filmes. Ainda mais quando sabemos que Giulieta na vida real é uma mulher elegante e sofisticada. O oposto a Cabiria. Shirley é uma estrela e uma boa atriz, mas aqui seu desempenho vira caricatura e o filme afunda. Ela é uma prostituta que se apaixona pelos caras errados. Montalban é o ator famoso, e depois dele vem o desastre com um rapaz que parece de bom coração mas que tem preconceitos. O que de melhor há no filme, claro, são as canções de Cy Coleman. São todas belíssimas! E as cenas de dança, com a coreografia de Bob Fosse. O homem foi um gênio, o único até hoje a ter ganho no mesmo ano o Oscar, o Emmy e o Tony ( cinema, TV e teatro ). Além do Globo de Ouro ( tudo em 72, por Cabaret, Liza com Z e Pippin ). Todas as danças, leves, modernas, ousadas, sexy, são fantásticas e suas coreografias foram imitadas desde então. Repare na cena que posto acima. O modo como todo um modo de vida, uma moda, um comportamento é satirizado sem uma só palavra. E observe em como Fosse faz as mãos, os braços e até os dedos dançarem e falarem. É coisa de gênio!!!! O filme, cheio de falhas, tem de ser visto. E confesso que a cena final me fez derramar uma inesperada lágrima. Cabiria é uma personagem tão magnífica, que mesmo no filme errado, e com a atriz errada, ela acaba nos pegando. Veja este filme!

 

COISA NOSSA.

   Nem a guerra do Paraguai nos uniu. Brasileiros jamais se uniram pelo amor. Seja amor á vitória, seja amor a uma causa. Mas o ódio nos une. Hoje estamos unidos em dois blocos, um sentindo ódio pelo outro. É uma forma inferior de união.
   Brasileiro desconhecem a palavra beleza. É como se olhar para uma coisa com prazer fosse proibido. Olhamos para uma mulher querendo sexo. Para um automóvel pensando em seu valor financeiro. Uma casa vale por seu tamanho ou seu status. Ruas são vias de comunicação e paisagens redutos de fuga. A beleza, que antes tinha residência na música, um milagre, a muito deixou nossos ouvidos.
  A natureza abomina a linha reta. Essa frase, linda, é de um nobre inglês do século XVIII. E realmente, na natureza inexiste a linha reta. Ela ama a curva, o arabesco, o labirinto, o desenrolar. Mas, óbvio, a França logo discordou e fez do homem o guardião da reta. Pensamento reto e arquitetura de Le Corbusier. Que deu em Niemeyer, o ditador do feio. Deu no que deu. Com muito custo nossos arquitetos aceitam o barroco português, não ousam confessar seu desprezo por Aleijadinho e pelas igrejas antigas. Mas destroem o que conseguem tocar, e transformam o país da curva, da praia, da bunda, em nação do concreto liso e reto, do vidro frio e da construção sem conforto.
  Por fim, esqueçam o Brasil. Tivemos nossa chance. É tarde. Nascemos para feder.

UMA DECLARAÇÃO DE AMOR À HAWKS - FULLER- PECK - MATTHAU- TOURNEUR

   A MULHER PROIBIDA de Frank Borzage com Joan Crawford, Margaret Sullivan, Melvyn Douglas, Robert Young e Fay Bainter.
O elenco não podia ser melhor, mas o filme é um drama dos anos 30 que exibe o pior da época. As coisas acontecem sem nada de crível nos sentimentos das pessoas. Um irmão, membro de uma família tradicional, se casa com uma dançarina. O outro irmão, casado, se apaixona por ela... As pessoas aqui amam e deixam de amar em questão de minutos. O roteiro é muito, muito ruim.
  MIRAGEM de Edward Dmyryck com Gregory Peck, Walter Matthau e Diane Baker.
Um verdadeiro pesadelo num filme que tem clima de doença. Um homem acha que trabalha a dois anos numa empresa de contabilidade. Mas começa a duvidar disso ao perceber que não se recorda de mais nada em sua vida. O filme acompanha sua busca pela memória. O tema é fascinante, mas o filme tem uma falha que quase o destrói: a coisa é tão complicada que quase desistimos de o entender. De qualquer modo, Matthau está excelente e acaba tudo sendo bem ok.
  O ESPORTE FAVORITO DOS HOMENS de Howard Hawks com Rock Hudson e Paula Prentiss.
O mundo que só existe na cabeça de Hawks está aqui! É um mundo onde as pessoas são todas elegantes e idiotas, adoravelmente idiotas. E essa elegância é a dos cavaleiros medievais, um código de honra e de comportamento onde a grosseria e a violência só nascem quando inevitável. Mais encantador de tudo, os filmes de Hawks interessam não pelo enredo, mas pelas pitadas de vida que são inseridas de minuto em minuto. Por exemplo, neste filme, um de seus filmes médios, vemos Paula Prentiss mergulhar, Rock Hudson tomar chuva, vemos ainda uma mocinha andar de moto, um homem com o zíper preso, um Martini sendo bebido...e por aí vai. Todas essas cenas, e muitas outras, que nada têm de engraçadas, de sensacionais ou de belas, são o segredo de Hawks. Ele filma a vida como ela pode ser e às vezes é; mas essas pitadas são colocadas dentro da fantasia de Hawks. Observe que em suas obras-primas, muitas, filmes como Rio Bravo, Levada da Breca, Hatari, todos têm enredo, ação, história, mas ao mesmo tempo o que nos pega é ver Wayne conduzir gado, Cary Grant gaguejar e uma turma de homens na África tomar café da manhã. Ninguém se parece com Hawks por causa disso: uma multidão de diretores filma ação ou comédia como ele, outra multidão filma a vida cotidiana como ele, mas nenhum outro mistura as duas coisas com o encanto que ele tem. Isso porque, vejo isso no livro de Peter Bogdanovich, Hawks realmente amava a vida e as pessoas. Era um gentleman viril, tipo de americano que fez a glória da América. Que prazer poder ver este filme e que maravilha eu ainda ter contato com a graça leve e educada deste universo.
  AS GARRAS DO LEÃO de Richard Attenborough com Simon Ward, Robert Shaw, Anne Bancroft.
Da série de bio da Folha este é o mais bacana. Nos anos 70, quando lançado, foi malhado, vejam só...Mas é um bom filme. Conta os primeiros 25 anos da vida de Winston Churchill. Sua relação fria com o pai, sua mãe festeira, e a ânsia que ele tinha por fama e por medalhas. Sua carreira futura seria uma vingança pelas injustiças sofridas pelo pai, que foi um político perseguido por seu próprio partido. Robert Shaw está sublime como o pai de Winston, um sifilítico, que morre isolado da vida pública. As cenas de ação são excelentes e o filme diverte e informa. Tem de ser visto!
  GOLPE DE MISERICÓRDIA de Raoul Walsh com Joel McCrea, Virginia Mayo e Dorothy Malone
Faz parte do volume 2 de um box de westerns. Este, do grande Walsh, o diretor que inventou nos anos 20 a linguagem do filme de ação, é um filmaço. Joel é um ladrão em fuga. Ele planeja seu último golpe, mas não confia nos comparsas. O cenário é ótimo, os atores perfeitos, as duas mulheres belíssimas e o roteiro tem ecos que iriam reverberar em Bonnie e Clyde. Um dos grandes faroestes já feitos e com um clima trágico maravilhoso.
  RENEGANDO O MEU SANGUE de Samuel Fuller com Rod Steiger
Fuller era venerado pelos europeus. Eu digo: menos. O filme pega o ponto de vista dos índios. É bom, duro e sério, mas às vezes cai no exagero. De qualquer modo, eis um faroeste diferente. Rod super interpreta.
  CHOQUE DE ÓDIOS de Jacques Tourneur com Joel McCrea e Vera Miles.
Joel é um durão que vira xerife numa cidade de mineiros. O filme conta sua luta contra eles. Um bom filme de um grande diretor. Tourneur dirigiu alguns dos melhores filmes noir, filmes de terror e faroestes. Seu estilo, sempre objetivo, era invisível. Mas dá pra notar que seu interesse era o destino. Seus heróis são sempre pessoas presas numa missão que não escolheram. Bom filme.
  O TESTAMENTO DE DEUS de Jacques Tourneur com Joel McCrea e Ellen Drew.
Este filme é vendido no box western, mas não é. Se passa no tempo dos westerns, é rural, mas não tem nada do faroeste. E é quase uma obra prima! Conta a vida cotidiana de uma cidadezinha nos tempos de 1880. Joel é um pastor e o filme observa a vida de toda a comunidade. Cenas que lembram Mark Twain, outras são puro John Ford. O final emociona e tudo caminha numa doce alegria temperada por algumas cenas amargas. Um filme original. Grata surpresa!!!!

BELO

   Um último toque sobre a questão da beleza na arte.
 Se a arte é a substituta da religião, por trazer para nós o sentido do sagrado, e se é sagrado aquilo que não pode ser profanado, ou seja, aquele objeto que é único, intocado, irrepetível; bem, então a música, oferecida com extrema facilidade, se torna, toda ela, mesmo a melhor, kitsch. Uma obra de Schonberg ou Bartok se faz kitsch por poder ser cortada, usada, acelerada, congelada, à vontade. E isso é uma forma de kitschização.
 Mas não de estupro, que é a dessacralização daquilo que foi um dia sagrado. Isso seria usar Mozart numa cena de carnificina ou Debussy num estupro coletivo. E sei que tudo isso já foi feito.
 A beleza plena, sagrada, tem um preço. E, apesar de adorar rock, sei que o rock é como, sempre foi, um eterno orgasmo. Em 3 minutos há a obrigação de se atingir um pico de beleza. E essa rapidez, que é um talento, pode se fazer kitsch. A sequência sem fim de músicas que dão pequenos gozos mas nunca um orgasmo.
 Postei Schonberg como provocação. Na grande música há todo um desenvolvimento que leva ao sagrado. A beleza transformadora é essa caminhada que exige tempo, calma e alguma sabedoria.
 Em alguns discos POP, penso em Kind Of Blue, penso em Exile On Main Street, há o tempo de desenvolvimento e uma beleza imperfeita que pode ser atingida. Mas no mundo de 2017, quem ainda ouve esses discos inteiros e em solidão...

Arnold Schoenberg: Verklärte Nacht



leia e escreva já!