COMO COZINHAR UM LOBO - MFK FISHER
É o segundo livro de Fisher que leio. Este foi escrito durante a segunda guerra. O lobo é a fome que rondava a América. Porque mesmo sem conflito em seu território, o país sofria com a falta de comida. Todo o poder americano ia para o esforço de guerra, e assim faltava tudo, de manteiga à gas, de trigo à carne.
Com seu estilo brilhante, ela ensina a fazer boa comida com pouco, muito pouco dinheiro. Devo admitir que nada do que ela ensina parece muito bom. É comida de guerra e hoje vale mais como curiosidade histórica. Mas uma coisa, ainda viva, se percebe no texto, coisa da qual Fisher fala com raiva em 1942 e que repercute ainda em 2016: O puritanismo americano que se revela inclusive no modo de comer.
Comida não pode ser sensualidade no modo puritano de pensar, e assim o ato de comer é modo limpo, prático e rápido de se matar a fome. Sempre que um jantar se revela algo mais que isso, é logo chamado de estrangeirismo, europeísmo ou ostentação pecaminosa.
Americanos comem pão branco que não cheira e não tem gosto, bebem café preto ralo ou chá, e almoçam milho, ervilha, batata e carne, tudo feito do modo mais simples e em grande quantidade. Inexiste o prazer do molho que leva horas para ser apurado, se desconhece o azeite, o vinho, o cozido que é temperado dias antes, os miúdos, as frutas em doces mirabolantes. A cozinha americana em sua raiz é austera, rígida, sem cheiro, sem consistência e muito cinzenta.
Hoje muita coisa mudou. Mas nos programas de TV continuamos a ver que 90% do que eles comem é composto de coisas fritas em gordura e doces grosseiros. Azeite continua a ser esquecido, vinho só em celebração, vegetais mais nobres só como ostentação.
Assim como acontece com seu modo de retratar o sexo ( varia entre coisa doentia ou festa de teenagers ), a comida aparece como mais uma função física do que um prazer da alma.
No Brasil urbano é quase a mesma coisa. Carne frita, arroz e feijão devorados para matar a fome. Mas revelamos nossa latinidade católica em nossas batidas de frutas, nos doces lusitanos, no tempo para fazer uma feijoada decente. O Brasil do churrasco é o novo Brasil. O velho é aquele da feijoada com caipirinha.
Com seu estilo brilhante, ela ensina a fazer boa comida com pouco, muito pouco dinheiro. Devo admitir que nada do que ela ensina parece muito bom. É comida de guerra e hoje vale mais como curiosidade histórica. Mas uma coisa, ainda viva, se percebe no texto, coisa da qual Fisher fala com raiva em 1942 e que repercute ainda em 2016: O puritanismo americano que se revela inclusive no modo de comer.
Comida não pode ser sensualidade no modo puritano de pensar, e assim o ato de comer é modo limpo, prático e rápido de se matar a fome. Sempre que um jantar se revela algo mais que isso, é logo chamado de estrangeirismo, europeísmo ou ostentação pecaminosa.
Americanos comem pão branco que não cheira e não tem gosto, bebem café preto ralo ou chá, e almoçam milho, ervilha, batata e carne, tudo feito do modo mais simples e em grande quantidade. Inexiste o prazer do molho que leva horas para ser apurado, se desconhece o azeite, o vinho, o cozido que é temperado dias antes, os miúdos, as frutas em doces mirabolantes. A cozinha americana em sua raiz é austera, rígida, sem cheiro, sem consistência e muito cinzenta.
Hoje muita coisa mudou. Mas nos programas de TV continuamos a ver que 90% do que eles comem é composto de coisas fritas em gordura e doces grosseiros. Azeite continua a ser esquecido, vinho só em celebração, vegetais mais nobres só como ostentação.
Assim como acontece com seu modo de retratar o sexo ( varia entre coisa doentia ou festa de teenagers ), a comida aparece como mais uma função física do que um prazer da alma.
No Brasil urbano é quase a mesma coisa. Carne frita, arroz e feijão devorados para matar a fome. Mas revelamos nossa latinidade católica em nossas batidas de frutas, nos doces lusitanos, no tempo para fazer uma feijoada decente. O Brasil do churrasco é o novo Brasil. O velho é aquele da feijoada com caipirinha.
O ANO DA LEBRE - ARTO PAASILINNA
A editora Bertrand Brasil está lançando alguns livros da moderna literatura finlandesa. Este O ANO DA LEBRE, lançado originalmente em 1975, é o mais popular livro do país, tendo sido traduzido em 40 línguas e vendido mais de 7 milhões de exemplares. É o livro que todo finlandês conhece.
Um jornalista de 35 anos atropela uma lebre. Ele cuida dela. E a partir daí sua vida se torna outra. Vatanen, o nome do jornalista, se torna livre. Abandona o emprego, larga a esposa, sai de Helsinque e passa a vagar pelo país, ele e a lebre. Consegue pequenos trabalhos, caça um urso, conhece uma mulher, se mete em brigas, foge, apaga incêndios, anda e corre.
O estilo é estranho. As frases são curtas, extremamente simples. Não tenho como saber se isso é característico ao idioma finlandês, mas é um estilo seco, duro, objetivo. Não espere do autor algo de simbólico, de místico ou poético em seu romance. O que se conta é aquilo que é contado. A história fala de um homem e seu bicho. Da procura pela solidão. E da liberdade como movimento. Apenas isso, nada mais.
É um livro estranho. Bem estranho.
Um jornalista de 35 anos atropela uma lebre. Ele cuida dela. E a partir daí sua vida se torna outra. Vatanen, o nome do jornalista, se torna livre. Abandona o emprego, larga a esposa, sai de Helsinque e passa a vagar pelo país, ele e a lebre. Consegue pequenos trabalhos, caça um urso, conhece uma mulher, se mete em brigas, foge, apaga incêndios, anda e corre.
O estilo é estranho. As frases são curtas, extremamente simples. Não tenho como saber se isso é característico ao idioma finlandês, mas é um estilo seco, duro, objetivo. Não espere do autor algo de simbólico, de místico ou poético em seu romance. O que se conta é aquilo que é contado. A história fala de um homem e seu bicho. Da procura pela solidão. E da liberdade como movimento. Apenas isso, nada mais.
É um livro estranho. Bem estranho.
CIDADE DOS DESILUDIDOS ( FAT CITY ), UM DOS GRANDES FILMES DE JOHN HUSTON.
Chesterton diz que no inferno o pior sofrimento é a falta de esperança. Huston foi o diretor daqueles que a perderam. Dentre sua imensa variedade de temas, o ponto em comum é esse, ele fala dos desesperançados. Do Falcão Maltês até Os Mortos, esse seu interesse central.
Este filme, de 1972, começa com uma das mais belas canções de Kris Kristofferson. "Ajude-me a atravessar a Noite", um country tão bonito que Bryan Ferry o regravou em 1974. Enquanto a música ecoa, vemos cenas de Stockton, gente pobre nas ruas, cenário de terceiro mundo. Numa academia, um cara, Stacy Keach, boxeia. Ele se aproxima de um garoto, Jeff Bridges, eles lutam, e o veterano dá ao novato a ideia de se tornar lutador. Até o fim do filme os dois não se verão mais.
O novato passa a treinar, luta algumas lutas fuleiras, perde, ganha, perde mais. O veterano tenta voltar e é surrado. Além disso ele bebe muito, ganha trocados colhendo cebolas, e mora com uma mulher, Susan Tyrrell. Nunca vi na história do cinema um casal mais lamentável. Ela é chorona, bêbada, feia de dar medo, de uma mediocridade que beira a caricatura. Não sei se Susan Tyrrell tem uma interpretação genial, ou se é tão ruim que se torna sublime. É aterrorizante.
Huston diz em sua biografia que ele queria Marlon Brando ou Paul Newman para o papel que foi para Keach, ator da moda na época. Huston detestou o trabalho com Keach. Injusto. Ele está ok. Se a gente ficar pensando no que Newman e Brando poderiam ter feito com um papel tão rico...bem, aí seremos injustos com Stacy Keach. Quanto a Jeff Bridges, engraçado pensar que dali a pouco mais de 30 anos ele seria "O Dude". Seu personagem pode ter sido "O Dude" aos 19 anos.
O filme é hipnotizante. Ele anda com a segurança de um diretor gigante que dessa vez está a fim de filmar. ( 50% dos filmes de John Huston foram feitos só pra pagar dívidas ). E há a cena final:
Os dois boxeadores se encontram na rua. Vão à um bar. E lá dentro temos uma das mais perfeitas e reveladoras cenas do cinema. Um tipo de cena que só poderia ter sido feita nos anos 70, o auge do pessimismo em filmes. Essa cena eleva o filme, até então ótimo, para o patamar do genial.
Veja,
PS: Os coadjuvantes, gente como o dono da academia, o garoto negro lutador...são dignos do melhor neo-realismo italiano. De Sica os adoraria!
Este filme, de 1972, começa com uma das mais belas canções de Kris Kristofferson. "Ajude-me a atravessar a Noite", um country tão bonito que Bryan Ferry o regravou em 1974. Enquanto a música ecoa, vemos cenas de Stockton, gente pobre nas ruas, cenário de terceiro mundo. Numa academia, um cara, Stacy Keach, boxeia. Ele se aproxima de um garoto, Jeff Bridges, eles lutam, e o veterano dá ao novato a ideia de se tornar lutador. Até o fim do filme os dois não se verão mais.
O novato passa a treinar, luta algumas lutas fuleiras, perde, ganha, perde mais. O veterano tenta voltar e é surrado. Além disso ele bebe muito, ganha trocados colhendo cebolas, e mora com uma mulher, Susan Tyrrell. Nunca vi na história do cinema um casal mais lamentável. Ela é chorona, bêbada, feia de dar medo, de uma mediocridade que beira a caricatura. Não sei se Susan Tyrrell tem uma interpretação genial, ou se é tão ruim que se torna sublime. É aterrorizante.
Huston diz em sua biografia que ele queria Marlon Brando ou Paul Newman para o papel que foi para Keach, ator da moda na época. Huston detestou o trabalho com Keach. Injusto. Ele está ok. Se a gente ficar pensando no que Newman e Brando poderiam ter feito com um papel tão rico...bem, aí seremos injustos com Stacy Keach. Quanto a Jeff Bridges, engraçado pensar que dali a pouco mais de 30 anos ele seria "O Dude". Seu personagem pode ter sido "O Dude" aos 19 anos.
O filme é hipnotizante. Ele anda com a segurança de um diretor gigante que dessa vez está a fim de filmar. ( 50% dos filmes de John Huston foram feitos só pra pagar dívidas ). E há a cena final:
Os dois boxeadores se encontram na rua. Vão à um bar. E lá dentro temos uma das mais perfeitas e reveladoras cenas do cinema. Um tipo de cena que só poderia ter sido feita nos anos 70, o auge do pessimismo em filmes. Essa cena eleva o filme, até então ótimo, para o patamar do genial.
Veja,
PS: Os coadjuvantes, gente como o dono da academia, o garoto negro lutador...são dignos do melhor neo-realismo italiano. De Sica os adoraria!
A FISIOLOGIA DO GOSTO - BRILLAT-SAVARIN, A BÍBLIA
Em 1825 Brillat-Savarin, politico, bon vivant, homem de letras, lança este seu único e despretensioso livro. Nele, ele fala de comida, da fome, da gordura, de jantares, de química, de história. Conta memórias centradas no prazer de comer, no afeto a amigos, na evolução de hábitos. Foi meu amigo Fabio Pagotto quem me indicou este livro, uma edição bonita da Companhia, de 1995. Belo livro. É o inicio da moderna gastronomia, no sentido de aqui se iniciar o livro não como simples "livro de receitas", mas como obra sobre o ato de se alimentar.
O estilo é o do século XVIII. Savarin era leitor de Voltaire e de Bossuet, e mesmo sendo o livro de 1825, seu estilo é aquele dos 1700. É brilhante, leve, muito refinado, bastante malicioso, e extremamente civilizado. Leio a primeira linha e imediatamente sinto a música da época mais civilizada do mundo. É como ouvir Mozart ou Vivaldi, estamos longe da barafunda romântica. Nada de confissões, são linhas de gosto. Muito bom gosto.
Se comia muito naquele tempo. E se bebia mais. Os jantares têm perú, cabrito, peixes, ostras, saladas, frangos, perdizes, javalis, tudo servido inteiro, às centenas. São refeições de cinco horas, cada um bebendo de 4 à 6 garrafas de vinho, sobremesas de frutas, compotas, bolos, geleias. Café e chocolate, açúcar, licor. O autor fala de como o café surgiu, da chegada do chocolate à Europa, da febre por açúcar, dos novos licores. É um mundo de abundância e de pouco cuidado com a saúde, um mundo de prazer irregrado.
Uma leitura deliciosa.
O estilo é o do século XVIII. Savarin era leitor de Voltaire e de Bossuet, e mesmo sendo o livro de 1825, seu estilo é aquele dos 1700. É brilhante, leve, muito refinado, bastante malicioso, e extremamente civilizado. Leio a primeira linha e imediatamente sinto a música da época mais civilizada do mundo. É como ouvir Mozart ou Vivaldi, estamos longe da barafunda romântica. Nada de confissões, são linhas de gosto. Muito bom gosto.
Se comia muito naquele tempo. E se bebia mais. Os jantares têm perú, cabrito, peixes, ostras, saladas, frangos, perdizes, javalis, tudo servido inteiro, às centenas. São refeições de cinco horas, cada um bebendo de 4 à 6 garrafas de vinho, sobremesas de frutas, compotas, bolos, geleias. Café e chocolate, açúcar, licor. O autor fala de como o café surgiu, da chegada do chocolate à Europa, da febre por açúcar, dos novos licores. É um mundo de abundância e de pouco cuidado com a saúde, um mundo de prazer irregrado.
Uma leitura deliciosa.
SEXO SEM CULPA
Culpa é ruim. Claro que é. Uma amiga me conta não ter culpa no sexo. Ser bem resolvida. Sexo pra ela é sempre bom. Bem bom. Eu só ouço e falo um sim. Mas penso no tesão maravilhoso que me dá quando penso estar penetrando na zona do pecado. A culpa às vezes pode vir junto, ou não, mas comer do fruto proibido dá uma sensualidade húmida, escura, rubra, inesquecível.
Essa praticidade sexual é que tem feito com que por um lado cada vez mais os jovens se desinteressem por sexo. E por outro com que se procure o tesão em coisas bobas como sexo com vegetais, sexo em lugares muito perigosos ou sexo com sufocamento. O simples tesão que havia no sexo com uma mulher casada, hoje representa apenas mais um casinho saudável. Mesmo o sexo gay está perdendo seu caráter de transgressão, assim como aquele entre namorados menores de idade perdeu a muito. Faz-se sexo grupal, troca-se de casal, transa-se com um desconhecido, e nada disso parece mais que um casinho gostoso.
Talvez pela fé no pecado a gente tenha super valorizado o sexo. Talvez ele seja apenas uma função corporal. Talvez o casinho gostoso seja o máximo que ele possa ser. Desse modo, sem o véu do pecado, do perigo, a pimenta da transgressão, o sexo seja sagrado e pleno apenas quando misturado ao encontro de amor, à paixão plena, ao absoluto.
Então, quem sabe, essa geração que vê no sexo apenas corpo em movimento à procura do gozo, esteja muito mais próxima de um dia entender que sexo só é importante com amor. E assim, livre de fantasias pecaminosas dê a cada coisa sei valor devido.
Mas essa minha amiga, quarentona, geração "curto o corpo numa boa", paga o pato por pensar ser amor e sexo a mesma coisa. Esvaziou o sexo de suas amarras e tentou fazer do amor apenas e nada mais que "cafuné bom", "transa que fica", "cheiro gostoso".
Nem lá nem cá. Talvez a molecada de hoje venha a saber a verdade.
Essa praticidade sexual é que tem feito com que por um lado cada vez mais os jovens se desinteressem por sexo. E por outro com que se procure o tesão em coisas bobas como sexo com vegetais, sexo em lugares muito perigosos ou sexo com sufocamento. O simples tesão que havia no sexo com uma mulher casada, hoje representa apenas mais um casinho saudável. Mesmo o sexo gay está perdendo seu caráter de transgressão, assim como aquele entre namorados menores de idade perdeu a muito. Faz-se sexo grupal, troca-se de casal, transa-se com um desconhecido, e nada disso parece mais que um casinho gostoso.
Talvez pela fé no pecado a gente tenha super valorizado o sexo. Talvez ele seja apenas uma função corporal. Talvez o casinho gostoso seja o máximo que ele possa ser. Desse modo, sem o véu do pecado, do perigo, a pimenta da transgressão, o sexo seja sagrado e pleno apenas quando misturado ao encontro de amor, à paixão plena, ao absoluto.
Então, quem sabe, essa geração que vê no sexo apenas corpo em movimento à procura do gozo, esteja muito mais próxima de um dia entender que sexo só é importante com amor. E assim, livre de fantasias pecaminosas dê a cada coisa sei valor devido.
Mas essa minha amiga, quarentona, geração "curto o corpo numa boa", paga o pato por pensar ser amor e sexo a mesma coisa. Esvaziou o sexo de suas amarras e tentou fazer do amor apenas e nada mais que "cafuné bom", "transa que fica", "cheiro gostoso".
Nem lá nem cá. Talvez a molecada de hoje venha a saber a verdade.
MURO DO CHORO
Observo numa aula o modo como os estudos de literatura e de história, seja brasileira ou portuguesa, aqui no Brasil, se voltam para o momento da ditadura. É como se fossemos obrigados a revisitar todo o tempo aqueles anos de chumbo. Desse modo, toda a produção literária que não fala do tempo de Salazar ou dos generais, fica relegado ao segundo plano, como se mal existisse.
Se a intenção é fazer com que os jovens não caiam mais nesse erro, se é evitar a repetição da história, o tiro sai pela culatra. Os jovens mal prestam atenção nisso. O canto da sereia do dogmatismo tem várias partituras, a história pode se repetir com outro perfil e outra cor.
Mas se a intenção, outra, for a de colocar o oposto às ditaduras no altar dos heróis, eis um erro ainda pior. Pois o que se exalta nessas aulas nunca é a liberdade, o que se exalta é a dor e a falta de sentido. A maldade do arbítrio.
Isso está fazendo com que história e estudos literários se tornem aulas tristes, ranhetas, ressentidas e muito, muito chatas. Um tipo de muro das lamentações, um choro sem fim e sem solução. Sem catarse.
Por isso a irrelevância em que elas estão caindo.
Se a intenção é fazer com que os jovens não caiam mais nesse erro, se é evitar a repetição da história, o tiro sai pela culatra. Os jovens mal prestam atenção nisso. O canto da sereia do dogmatismo tem várias partituras, a história pode se repetir com outro perfil e outra cor.
Mas se a intenção, outra, for a de colocar o oposto às ditaduras no altar dos heróis, eis um erro ainda pior. Pois o que se exalta nessas aulas nunca é a liberdade, o que se exalta é a dor e a falta de sentido. A maldade do arbítrio.
Isso está fazendo com que história e estudos literários se tornem aulas tristes, ranhetas, ressentidas e muito, muito chatas. Um tipo de muro das lamentações, um choro sem fim e sem solução. Sem catarse.
Por isso a irrelevância em que elas estão caindo.
FIDEL SE FOI
A mente esquerdista é romântica. E como tal, ela se recusa a encarar o mundo real. A revolução cubana foi pintada como a vitória do pequeno contra o grande. Fidel então era um tipo de Robin Hood latino. As mentes esquerdistas o congelaram nesse momento de glória. E fecharam os olhos para tudo o que veio depois. Mais uma vez negaram a realidade.
Fidel foi congelado e congelou a sua ilha. Cuba se tornou um museu vivo. E uma ruína triste. Países capitalistas, vizinhos, como Costa Rica e Jamaica foram adiante, Cuba como uma virgem se manteve pura. Os comunistas, sempre puritanos, se enamoraram pela ilha. Ela se tornou o xodó. E Fidel, matando gays, dissidentes, vendo gente fugir em balsas e cercado por puxa sacos, sendo um ricaço entre pobres cubanos, se tornou um totem.
O mundo mudou e o capitalismo, sempre adaptável, vivo, plástico, mudou com ele. Fidel não. Ditador por mais de 50 anos, se manteve uma rocha. Cuba ficou à parte de tudo. Perdeu relevância, virou piada.
O destino do comunismo virou piada. O movimento, antes vanguarda, hoje é mofo. Velhos e novos comunas, múmias saudosistas, suspiram pelo fim do capitalismo. Se recusam a ver que o capitalismo é inerente ao homem. O comunismo é artificial, forçado, fadado ao fiasco sempre.
Fidel morreu. O rei se foi e deixou o irmão no troninho.
Fidel foi congelado e congelou a sua ilha. Cuba se tornou um museu vivo. E uma ruína triste. Países capitalistas, vizinhos, como Costa Rica e Jamaica foram adiante, Cuba como uma virgem se manteve pura. Os comunistas, sempre puritanos, se enamoraram pela ilha. Ela se tornou o xodó. E Fidel, matando gays, dissidentes, vendo gente fugir em balsas e cercado por puxa sacos, sendo um ricaço entre pobres cubanos, se tornou um totem.
O mundo mudou e o capitalismo, sempre adaptável, vivo, plástico, mudou com ele. Fidel não. Ditador por mais de 50 anos, se manteve uma rocha. Cuba ficou à parte de tudo. Perdeu relevância, virou piada.
O destino do comunismo virou piada. O movimento, antes vanguarda, hoje é mofo. Velhos e novos comunas, múmias saudosistas, suspiram pelo fim do capitalismo. Se recusam a ver que o capitalismo é inerente ao homem. O comunismo é artificial, forçado, fadado ao fiasco sempre.
Fidel morreu. O rei se foi e deixou o irmão no troninho.
ESPIRITUALIDADE E TRANSCENDÊNCIA - CARL GUSTAV JUNG
Brigitte Dorst organiza esta coletânea de textos onde Jung fala sobre o tema da alma. O inconsciente visto como parte atemporal e não-eu da mente. Para quem, como eu, conhece Jung, é um tema repisado. Para os novatos, aconselho muito este volume que saiu agora.
Jung fala bastante do Zen budismo. E, como penso quase entender o que seja Zen, me abstenho de falar. Pois o Zen é uma sabedoria sem palavras e um ato sem movimento. Ou voce sabe ou não. Inexiste um modo de compartilhar. Sua verdade é tão íntima que não pode sair de dentro daquele que a abrigou.
O inconsciente junguiano também pode ser descrito assim. Eu o sinto em mim, mas dificilmente conseguirei te transmitir em verbo o que isso é. Melhor esperar que ele se manifeste em voce. Ou não.
Uma das grandes dificuldades do método de Jung, e que o coloca em desvantagem aparente diante de Freud, é que o suíço não nos dá garantia sobre nada. Tudo é suposição. Ele afirma o que as coisas não são, jamais o que são. E eu adoro essa sua aparente modéstia.
Uma das poucas afirmações é que toda doença mental é um problema religioso. O doente é alguém que procura sentido na vida, e esse sentido só surge após o reencontro com algum tipo de transcendência, o reencontro com o inconsciente, uma aceitação daquilo que se é. O psicótico é um homem que mergulhou no inconsciente e lá se perdeu. O neurótico vive com o medo de mergulhar. O gênio é aquele que entra e consegue sair. Este pode ler o que todos nós somos.
Para mim, nada de novo, apenas um belo rememorar. Para voce talvez uma revelação.
Jung fala bastante do Zen budismo. E, como penso quase entender o que seja Zen, me abstenho de falar. Pois o Zen é uma sabedoria sem palavras e um ato sem movimento. Ou voce sabe ou não. Inexiste um modo de compartilhar. Sua verdade é tão íntima que não pode sair de dentro daquele que a abrigou.
O inconsciente junguiano também pode ser descrito assim. Eu o sinto em mim, mas dificilmente conseguirei te transmitir em verbo o que isso é. Melhor esperar que ele se manifeste em voce. Ou não.
Uma das grandes dificuldades do método de Jung, e que o coloca em desvantagem aparente diante de Freud, é que o suíço não nos dá garantia sobre nada. Tudo é suposição. Ele afirma o que as coisas não são, jamais o que são. E eu adoro essa sua aparente modéstia.
Uma das poucas afirmações é que toda doença mental é um problema religioso. O doente é alguém que procura sentido na vida, e esse sentido só surge após o reencontro com algum tipo de transcendência, o reencontro com o inconsciente, uma aceitação daquilo que se é. O psicótico é um homem que mergulhou no inconsciente e lá se perdeu. O neurótico vive com o medo de mergulhar. O gênio é aquele que entra e consegue sair. Este pode ler o que todos nós somos.
Para mim, nada de novo, apenas um belo rememorar. Para voce talvez uma revelação.
OSCAR WILDE....LEE MARVIN...BERLIOZ...HITCHCOCK...FRY
À QUEIMA ROUPA de John Boorman com Lee Marvin e Angie Dickinson.
Este filme, um original, começa bastante confuso. Isso porque Boorman mistura passado e presente, embaralha. Mas após 10 minutos as coisas começam a clarear. As pessoas falam que o filme tem influências da Nouvelle Vague, mas não, ele é puro Melville. Marvin, mais durão que nunca, é um bandido que foi traído. Procura vingança. Visual arrojado, trilha sonora invulgar, anguloso e estranhamente sexy. Tarantino ama esse filme. E faz tempo que Quentin não faz um filme tão bom quanto este. Obrigatório.
SINFONIA FANTÁSTICA de Christian-Jaque com Barrault, Berry, St.Cyr e Blier.
Biografia de Berlioz. O filme é chavão, cliché, mas a gente ainda o assiste com prazer. Berlioz sofre pacas e fica famoso já velho. Mesmo assim, não é feliz. Barrault foi o maior ator do teatro francês. O Olivier de lá. Jaque foi o diretor mais odiado pela Nouvelle Vague. Ele era correto. Profissional.
RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM de Joseph Strick
A adaptação do romance de Joyce até que funciona. Li o livro uns 20 anos atrás e detestei. O filme mostra toda a ira do jovem contra sua educação religiosa. Os padres são ruins pacas! Há um belo clima irlandês no filme e apesar de sua pobreza é um filme ok.
OS 39 DEGRAUS de Hitchcock com Robert Donat e Madeleine Carroll.
Ao conhecer uma menina que é fã de Hitch, resolvo assistir mais uma vez este filme da fase inglesa do mestre. Devo já ter visto cinco vezes, e continua sendo um prazer. Trata do tema central de Hitch: culpa. Fuga. Injustiça. Clássico.
OSCAR WILDE de Brian Gilbert com Stephen Fry e Jude Law.
Fry é Wilde. Nunca em um bio vi um ator tão adequado a um papel. Mas o filme, longe de ser ruim, não está à sua altura. Law é também perfeito como Bosie, o tolo amante mimado de Wilde. O clima de época é maravilhoso.
TARKOVSKI
O SACRIFÍCIO. No aniversário de um patriarca acontece a notícia do holocausto nuclear. É o mais assustador filme do russo. O cenário desaba em dor e em cenas quase incompreensíveis. Ele passa muito perto neste filme do absoluto fracasso, mas o filme acaba sendo salvo por algumas cenas inesquecíveis.
NOSTALGIA. Este não. Ele passa do ponto, e aqui, em seu último filme, Tarkovski erra. O filme é chato, chato se recompensa. Não há como suportar cenas tão longas e tão sem por que. Falta a poesia que tudo redimia.
Este filme, um original, começa bastante confuso. Isso porque Boorman mistura passado e presente, embaralha. Mas após 10 minutos as coisas começam a clarear. As pessoas falam que o filme tem influências da Nouvelle Vague, mas não, ele é puro Melville. Marvin, mais durão que nunca, é um bandido que foi traído. Procura vingança. Visual arrojado, trilha sonora invulgar, anguloso e estranhamente sexy. Tarantino ama esse filme. E faz tempo que Quentin não faz um filme tão bom quanto este. Obrigatório.
SINFONIA FANTÁSTICA de Christian-Jaque com Barrault, Berry, St.Cyr e Blier.
Biografia de Berlioz. O filme é chavão, cliché, mas a gente ainda o assiste com prazer. Berlioz sofre pacas e fica famoso já velho. Mesmo assim, não é feliz. Barrault foi o maior ator do teatro francês. O Olivier de lá. Jaque foi o diretor mais odiado pela Nouvelle Vague. Ele era correto. Profissional.
RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM de Joseph Strick
A adaptação do romance de Joyce até que funciona. Li o livro uns 20 anos atrás e detestei. O filme mostra toda a ira do jovem contra sua educação religiosa. Os padres são ruins pacas! Há um belo clima irlandês no filme e apesar de sua pobreza é um filme ok.
OS 39 DEGRAUS de Hitchcock com Robert Donat e Madeleine Carroll.
Ao conhecer uma menina que é fã de Hitch, resolvo assistir mais uma vez este filme da fase inglesa do mestre. Devo já ter visto cinco vezes, e continua sendo um prazer. Trata do tema central de Hitch: culpa. Fuga. Injustiça. Clássico.
OSCAR WILDE de Brian Gilbert com Stephen Fry e Jude Law.
Fry é Wilde. Nunca em um bio vi um ator tão adequado a um papel. Mas o filme, longe de ser ruim, não está à sua altura. Law é também perfeito como Bosie, o tolo amante mimado de Wilde. O clima de época é maravilhoso.
TARKOVSKI
O SACRIFÍCIO. No aniversário de um patriarca acontece a notícia do holocausto nuclear. É o mais assustador filme do russo. O cenário desaba em dor e em cenas quase incompreensíveis. Ele passa muito perto neste filme do absoluto fracasso, mas o filme acaba sendo salvo por algumas cenas inesquecíveis.
NOSTALGIA. Este não. Ele passa do ponto, e aqui, em seu último filme, Tarkovski erra. O filme é chato, chato se recompensa. Não há como suportar cenas tão longas e tão sem por que. Falta a poesia que tudo redimia.
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