PAVÕES MISTERIOSOS- ANDRÉ BARCINSKI....FOI ASSIM, MAS FOI BEM MAIS

   Caro André, o grande mérito de seu livro é o de tocar em assunto pouco explorado. Tem gente com menos de 40 anos que acha que MPB começa com Bossa Nova, salta sobre os anos 70 e continua com rock e Ivete. Eu lembro que até meus 18 anos eu não comprava música em português. Tinha preconceito. Às vezes até gostava, mas não tinha coragem de assumir. Muito menos de consumir. Mas então joguei tudo ao ar e comprei meus primeiros discos de MPB: Secos e Molhados e Pepeu Gomes. E comecei então a comprar muito. Era 1980 e eu tive muita sorte. O que se achava nas lojas era exatamente o melhor do Brasil, aquilo que fora gravado entre 1972-1979. Você tenta André explicar porque a música desse período é tão boa, e desculpe, você acerta e erra feio. Acerta quando diz que por serem menos profissionais, as gravadoras davam maior liberdade aos artistas. Ok. Mas hoje você grava um cd em casa e nem por isso nós temos novos Acabou Chorare...Você erra ao dizer que as rádios FM ajudaram a qualidade musical. É exatamente o contrário! As FMs destruíram a diversidade. Rádios AM como a Difusora e a Excelsior tocavam de Benito di Paula à Led Zeppelin, de James Brown à Ednardo. Isso nos dava uma imensa abertura mental. Você ligava o rádio para ouvir a nova do Bowie, e na espera acabava ouvindo Caetano, Alice Cooper e Slade. Nas FM o padrão de "bom gosto" era muito mais restrito. E hoje....bem...hoje o ouvinte escolhe o que deseja ouvir e acaba ouvindo a mesma coisa por toda a vida.
  Belchior merecia mais espaço. Ele foi um estouro em 1976. Mas ok...Devo dizer que você fala de Lulu Santos mais que o devido. Mas ok...Agora, ao falar da Disco você derrapa. Dá pra notar um certo preconceito. E não precisava falar do ato verdadeiramente fascista que rolou nos EUA com a queima de discos de discoteque no campo de beisebol. Foi um ato contra latinos, negros e gays. Além do que a Disco nunca morreu. Ela continuou com Madonna, MJ, Prince, e continua com Beyonce. Onde existir gente misturada dançando sons negros que não sejam RAP haverá disco. Se o Village People ou Sylvester fizeram sucesso só por 3 anos, devo dizer que o América, Bread ou Moby Grape são bandas de rock que também não fizeram hits por muito mais que isso.
  Outro erro André: Você às vezes se estica em assuntos que nada têm a ver com o tema do livro. Para que falar de coisas de fora do Brasil! O livro é curto demais, falta espaço, fale mais daquilo que importa! ( A crise nas gravadoras em 1980 não veio por causa do fim da disco. Veio por terem se tornado absurdos os custos de produção de um disco de rock. Bandas ficavam até um ano em estúdio!!!!! E pensar que Sinatra gravava um LP inteiro em duas sessões de seis horas! )
  Mas adorei o livro. Tanto que o li em apenas uma sentada. Não consegui parar. E sua descrição do que foi ouvir Ritchie pela primeira vez, em 1983, bate com a minha lembrança. Era um disco brasileiro que falava de frio, noite, e que lembrava a sonoridade do Roxy Music! Foi um choque de chique.
  A MPB entre 72 e 79 foi surpreendente, rica, poética, engraçada, trágica e sempre inspiradora. Ainda dá lições de criação e de gosto nos dias de hoje. Feliz de quem a escuta.
  Valeu!

A TERRA INTEIRA E O CÉU INFINITO- RUTH OZEKI

   Um livro de uma tristeza sem fim, longo e melancólico, representou para mim uma luta para ser lido. Ele é belo, mas é um buraco fundo, pois seu assunto mais fremente é o suicídio e todos os personagens, em crise, rodam nesse questionamento: até onde vale a pena persistir.
   No Canadá, uma escritora chamada Ruth, encontra na praia um diário abandonado. O diário era de uma adolescente japonesa em crise. Essa menina, chamada NAO, morava nos EUA e o pai, despedido na crise econômica de 2000, volta ao Japão. Na escola, a menina sofre bullying.  Frequenta um bar "francês" e passa as férias com sua bisavó de 110 anos, uma monja zen. O pai tenta se matar 3 vezes, a menina é estuprada, e o tio do pai foi piloto kamikaze na segunda-guerra. Esse o enredo do livro, mas seu tema central acaba por ser a física quântica e o zen-budismo.
  Seria uma tremenda mancada se eu revelasse a chave do livro. Espero que você passe pela árdua leitura. Ele não é fácil, mas compensa. O que posso dizer é que ele acaba por filosofar sobre escolha, tempo e claro, a vida. O que posso revelar é o choque que foi para mim tomar contato com a podridão do Japão de hoje. A menina sofre coisas inimagináveis por ser uma "estrangeira". Diz a autora que lá não existe a possibilidade de imigração, uma vez estrangeiro, estrangeiro sempre. É uma molecada competitiva, agressiva, vaidosa e mais que tudo materialista. Há um imenso vale que divide o país entre o tempo da guerra e o tempo de 1980 em diante. E nessa amnésia, até o profundo instinto guerreiro do Japão é renegado. Para os jovens, é uma lugar de paz e de calma, quando na realidade sempre foi um país de guerra e de crueldade.
  A vida no Canadá também se revela fraturada. As pessoas são apáticas, caladas e bastante intrometidas. O marido de Ruth, Oliver, é um homem do mato. A floresta e seus seres ameaçam sempre invadir tudo e todos.
  Livro forte.
  PS: Estudantes americanos de Stanford tentam banir do currículo todos os livros que "fazem mal". Virginia Woolff, Joyce e Proust, dentre vários, trazem depressão e tristeza para as pessoas, e por isso atrapalham a vida. É a primeira vez na história que a censura vem dos estudantes e também é a primeira vez que se fala em censura por questões de saúde mental e não moral.
  O livro de Ruth Ozeki, escuro e triste, é um alvo dessas crianças que negam o lado escuro da força.
 

TRUMBO- BRYAN CRANSTON-HELEN MIRREN-SCOTT-COOPER-WOODY

   TRUMBO de Jay Roach com Bryan Cranston, Diane Lane, Helen Mirren e John Goodman.
Jazz vibrante no começo e o filme consegue ir nesse ritmo. Para quem, como eu, conhece o cinema dos anos 50, o filme é uma delicia. O diretor, Jay Roach, jamais faz dramalhão, o filme é direto, não enrola, e conta sua bela história. Uma história que parece ficção de tão incrível. Mas é real. Foi assim. Dalton Trumbo era um dos vinte roteiristas mais bem sucedidos de Hollywood. Então acontece a lista negra e tudo desaba. O filme conta tudo de forma correta, darei apenas alguns esclarecimentos. Sam Wood, o diretor direitista do começo do filme foi um grande diretor. Bem mais importante do que o filme sugere. John Wayne era aquilo mesmo. E eu não o culpo. Wayne foi vítima do tempo e do meio em que foi criado. Ele lutava para ser o John Wayne das telas. Era um homem bastante complexo. Reagan fez mesmo o papel lamentável e espertalhão que o filme mostra. Ao contrário de Wayne, ele sempre soube quem era e o que queria. Edward G. Robinson foi uma estrela da Warner. Fraquejou e dedurou. E sua carreira depois disso nunca mais foi a mesma. Antes era um ator exuberante. Depois se tornou uma figura encolhida, amarga. O diretor de Roman Holiday, o poderoso William Wyler, não aparece no filme. Ele sabia que o roteiro era de Trumbo. Sua coragem merecia ser citada. E sim, Roman Holiday é o famoso A Princesa e o Plebeu, um dos mais deliciosos filmes, e que lançou Audrey Hepburn ao mundo. Muito bom ver Otto Preminger no filme. Otto foi o mais corajoso dos diretores. Quebrou vários tabus nos anos 50 e pouco se lixou para a lista negra. Era famoso, duro, e o retrato no filme é fascinante. Você já deve ter visto algum filme dele. De Bom Dia Tristeza à O Homem com o Braço de Ouro, seus filmes estão sempre na TV. Kirk Douglas sempre foi aquele cara direto que o filme mostra. Uma pena Michael não ter mais a idade para ter feito seu pai. Kirk era muito mais bonito que o ator que o faz. E temos Hedda Hopper. Na Hollywood de então, 3 fofoqueiras-jornalistas tinham o poder de erguer ou destruir uma estrela. Elas eram uma mistura de crítica de filmes, cronista de festas e relações públicas. Nada hoje tem nem de perto o poder que elas tinham. Jornais, revistas e rádio, esses seus veículos. Helen Mirren quase rouba o filme. Se sua Hedda parece caricata é porque na vida real ela era uma caricatura. E é fato, os grandes produtores de Hollywood se acovardaram porque temiam a divulgação de suas raízes judaicas. Era um mundo extremamente anti semita. Aliás, Edward G. Robinson também era judeu. E por ironia, Kirk Douglas também. No livro de Sinatra se diz que Frank odiava Hedda Hopper. E ela prejudicou muito Sinatra. Os Kennedy varreram esse tipo de coisa do mapa. E Reagan nos anos 80  trouxe de volta. Bryan Cranston ficaria bem com um Oscar. Ele é ótimo sem nunca apelar. Nada de emocionalismos baratos. Trumbo não é um coitadinho. Por fim, aqui no Brasil, nessa guerrinha ridícula entre vermelhos e verde-amarelos, se deveria assistir o filme e perceber o tipo de ridículo em que podemos às vezes cair. Não se deve apostar tudo em nada. E é bom ver tudo com o distanciamento do tempo que passa. Ah sim! Jay Roach, o diretor, fez os filmes de Austin Powers...bela carreira hem.... Nota 8.
   SOBRE AMIGOS, AMOR E VINHO de Eric Lavaine com Lambert Wilson, Sophie Duez.
Um francês de meia idade, bonito e bem sucedido, sofre um infarte. De volta à vida, ele resolve viver de um modo melhor. Mas esse melhor talvez seja,,,pior. O filme é agradável. Tem toques de comédia, às vezes vira drama, mas nada em exagero. É um tipo de episódio de série cool. Os personagens tentam ser "gente como a gente", mas não são. São personagens. O bom é que passam simpatia. É um filme legal para se ver no fim de tarde bebendo vinho branco gelado. Nota 6.
   PEGANDO FOGO de John Wells com Bradley Cooper, Sienna Miller e Omar Sy.
Um chefe de cozinha junkie tenta dar a volta por cima e ganhar mais uma estrela no Michelin. Que estranho! É um filme sobre cozinha que não desperta a fome! Na verdade o foco é todo na ambição e no excesso de trabalho. Eu já trabalhei nesse ambiente e sei que na vida real é ainda pior. Gritos, ansiedade e pressa. Sempre. O filme tem momentos bem bobos, mas depois melhora. E acaba sendo ok. O elenco é bacaninha. Em tempo de atores pouco interessantes com menos de 40 anos, Cooper acaba fazendo sua carreira sem grandes sustos. Nota 6.
  PERDIDO EM MARTE de Ridley Scott com Matt Damon
Hmm....que dizer...é tão....tolo! O cara fica só em Marte e calmamente passa o tempo cultivando batatas...Esse é mais um Robinson Crusoé, mas uma versão da história do cara que sobrevive numa ilha. No caso, Marte. Ok, as cenas com Damon são divertidas, mas todas as cenas na NASA são apenas propaganda. Chatas e dispensáveis. E são muitas! Se o filme fosse apenas Damon em Marte seria melhor. É um filme com muitos momentos beeem chatos...Nota 4.
  UM MISTERIOSO ASSASSINATO EM MANHATTAN de Woody Allen com Diane Keaton
Aff....que saco!!!! este filme de 1993 era o único Woody que eu nunca tinha visto. Que pena, é um pé no saco. Sem graça, vemos Keaton tentando febrilmente provar que seu vizinho viúvo é um killer. E temos um monte de diálogos cruzados, Allen em seu papel de bobo balbuciante, Diane histérica e por aí vai...chato de doer! Nota 1.

...MAS EXISTE A VIDA...

   Teve um peixe que foi o último. Quando me mudei pra este bairro, em 1972, ainda viviam alguns peixes nos córregos desta região. Nasci perto, no bairro vizinho, mas como esse bairro onde nasci fica no alto de um morro, o segundo morro mais alto da cidade, não conheci córregos até me mudar em 1972. Fui para um bairro mais baixo e me vi cercado por córregos e até mesmo riachos.
 Esses cursos de água ainda existem, nenhum secou. Mas, claro, os peixes se foram faz muito tempo. Não se deve dizer que estão mortos. Sapos ainda resistem. Pássaros brincam às margens. Mato e árvores crescem. Mas a água, imunda, está muito mais baixa. Lembro que havia uma profundidade de um metro, dois, e que agora mal chega a um palmo. O maior dos cursos de água tinha três metros, dava para nadar nele. E tinha peixe.
 Sábado no fim da tarde a gente andava pelo bairro. E a vida rodopiava ao redor da nossa mente. Bandos de passarinhos minúsculos se apoiavam nas cerdas de capim e se balançavam na brisa quente de janeiro. Cigarras cantavam alto e gafanhotos pulavam na estrada. Longas carreiras de formigas abriam caminho na terra seca e girinos escureciam as margens dos riachos. E mais ao centro da correnteza nadavam os peixes cor de prata, esguios, frios, condenados.
 Não sei quando eles desapareceram. Mas deve ter sido em um ou dois anos. Talvez o riacho tenha secado e depois voltado a ser o que é hoje, raso e pobre. Talvez uma carga pesada de esgoto tenha vindo, e como maldição tóxica, varrido a vida da água. Eu não sei. Mas o último peixe soube.
 Engraçado pensar que eu conheço um cara, vinte anos mais velho que eu, que caçou pacas onde agora é o estádio do Morumbi. O lugar era cheio de tatús, de gambás e de gatos do mato. Era 1960, e na boa, 1960 foi ontem! Eu lembro bem de 1980, e em 1980 tudo já era mais ou menos como agora, a única diferença é que tinha mais espaço, muito mais espaço, e muito menos barulho. Sapos e pássaros. O último gato do mato há muito fora embora. Em 1980.
 A vida é nossa casa e parece tolo dizer isso. Estou lendo um livro de uma nipo-americana chamada Ruth Ozaki. Houve um tempo em que havia mariscos em Manhattan. Como meu pai um dia viu peixes no rio Pinheiros. E nesse dia ele, imigrante solitário, sentiu que o rio Pinheiros era sua casa também. Ninguém hoje sente que o rio sujo é sua casa. Na verdade ninguém hoje olha para o rio Pinheiros.
 A gente vive e a vida é tudo. Desacredito da morte. Religioso que me tornei, vejo a vida como vencedora. Ela existe e fora dela nada pode ser. E a vida, onde ela está, é nosso lar.
 O último peixe do último córrego limpo sabia que era um peixe pra sempre vivo. E toda a filosofia de que me sirvo vive nos olhos do meu cachorro. Ele respira. E eu dou graças por isso.
 Até o fim.

DE CEMITÉRIO E DE MARCHINHAS

   As casas da rua continuam à venda. Ninguém quer morar nelas, ou o preço pode ser muito alto. O sol me faz suar e encontro meu amigo Julio que me espera em seu carro. O carro tem uma porta quebrada. A tranca não tranca. Ele dirige e as ruas parecem menos vazias do que eu esperava. É carnaval hoje. Segunda feira.
 O carro acha uma vaga. Os túmulos se amontoam no velho cemitério.
 - Você tem medo...eu não. Sabe, eu sou um ex ateu...tive umas coisas que me aconteceram...
 O velório fica no alto de uma ladeira. Logo na entrada vejo um cara conversando que me recorda, em sua aparência despreocupada, alguém que conheci muito tempo atrás. É Ricardinho. o irmão de Romeu, que é o cara com quem ele conversava. São dois irmãos que conheci nos anos 80 e que não vejo desde...1992...Caramba...
 Abraços e eles lembram de mim, o que me surpreende. Ricardinho não mudou nada. Romeu engordou, e como eu sempre adivinhei, continua solteiro. Tempos de hoje, somos quatro velhos amigos de 50 anos, três nunca se casaram. E aquele que nos uniu hoje, Giba, também morreu só, sem esposa, sem filhos, numa praia de Floripa.
 O caixão repousa entre flores. Talvez eu esteja acostumado aos enterros portugueses, não sei, mas eu estranho a ausência de lágrimas. Cerca de 40 pessoas estão ali, de pé, olhando o véu que cobre meu amigo. Não há crianças. Nenhuma.
 Giba foi capoeirista. E por isso um mestre de capoeira faz um discurso. Lembro então de como ele era quieto. Conhecia as pessoas sem fazer questão de as conhecer e ficava com as meninas sem nunca se apaixonar. Parecia um cara natural. simples, fácil de conviver, mas tinha terríveis acessos de teimosia. E brigava bem. Era alto.
 Quando o conheci ele tinha 15 anos. Eu tinha 18. Gostei dele de primeira. Era um cara que representava o melhor de então, dos anos 80-82. Um pé no take it easy hippie. E outro na vida louca dos anos que viriam. Pó. Onda. Estrada.
 Andamos atrás do caixão entre túmulos. Ricardinho reclama do absurdo daqueles túmulos que ostentam tanto. Muito melhor ser cremado. Eu peço para eles não se esquecerem meu desejo: ser cremado. E que minhas cinzas sejam adubo para uma mangueira. O caixão desce e o mestre canta capoeira. Batem palmas. Romeu fala em cerveja.
 Eu e Julio discutimos se a pessoa escolhe sua vida ou se ela é vítima daquilo que a vida faz. Giba viveu só. Sempre só. Numa praia. E morreu só. As pessoas, poucas, iam o visitar, mas ele era um homem quieto. E morreu cedo.
 A cerveja tem pedaços de gelo. Desce arranhando. Romeu continua o mesmo. Carros, motos, bebidas e um silêncio grande. No bar de esquina, cheio de gente que ele conhece, Julio lembra de uma música de sucesso dos anos 70. Uma canção que hoje seria proibida: "Te carreguei no colo menina, Cantei pra ti dormir"...
 Sinto que estou dentro de um sonho. Que o tempo não existe. Que estamos onde sempre estivemos. Mas Giba partiu e eu li as datas dos túmulos. Há quem tenha morrido em 1910.
 Passa um bloco de carnaval na rua. Cantando "Ó jardineira por que estás tão triste..." Garotos vestidos de panos brancos. E muitas meninas de shorts e garrafas na mão. Olho seus rostos e observo que nada há de alegre neles. Ou talvez eu não seja alegre. As meninas olham o vazio enquanto marcham atrás do som. Os meninos ficam bêbados. Um bando de coroas na mesa de um bar, nós, as assustamos com nosso olhar de lobo mal.
 O tempo passou meus amigos. Hoje achamos que todos os caras são viados e todas as meninas são mal amadas. O mesmo que nossos pais diziam e pensavam. E enterramos nossos amigos.
 Não sei se os melhores morrem primeiro. Os mais puros sim.
 As últimas meninas passam com suas bundinhas redondas em shorts brancos pouco sexy. O novo gole me parece ruim. Me levanto. Abraço Romeu e vou embora com Julio. Ele vai lançar seu segundo livro e um filme está sendo feito do primeiro. O sol lança tudo sobre a gente.
 O sol, ele é sempre o mesmo.

HÁ MALES QUE VÊM PARA BEM- A AUTOBIOGRAFIA DE ALEC GUINNESS

   Não cumprimente Alec Guinness por seu papel em Star Wars. Ele odeia. E assume que o filme serviu apenas para lhe dar um fim de vida confortável. Isso era dito em 1980. E era verdade.
   Na Grã Bretanha do século XX, Alec nunca fez parte do quarteto supremo: John Gielgud, Ralph Richardson, Laurence Olivier e Michael Redgrave. Alec era do grupo dois: Charles Laughton, Richard Burton, Marius Goring, Tom Courtney, John Mills, Ian McKellen, Cyril Cusak, Albert Finney e Peter O'Toole. Havia ainda o grupo três: Michael Caine, Robert Donat, Peter Sellers, Sean Connery, Paul Rogers, Nicol Williamson, Daniel Day Lewis, Ian Holm, Terence Stamp, Jack Hawkins, Rex Harrison...
   Alec nasceu pobre e passou fome. Começou no teatro muito humildemente e deve sua primeira boa chance ao mito Gielgud. Nesta agradável e bem humorada bio ele não fala tudo. Divide o livro em uma dúzia de capítulos e em cada um conta um relacionamento. São doze histórias de sua vida, não é "a sua vida". Edith Evans, Noel Coward, Gielgud, o alegre Ralph Richardson, Peter Glenville, e as lembranças da Segunda Guerra. Peças, filmes, jantares, festas e algumas viagens. Alec escreve bonito e escreve leve. O livro levante voo.
   Uma época de grandes peças e de atores inesquecíveis. Do afetado Olivier ao humilde Alec. Lógico que o conheço apenas das telas e nelas destaco A PONTE DO RIO KUWAI, que lhe deu um muito justo Oscar, e as comédias da Ealing. Guinness tinha o estilo inglês de representar. O papel vinha de fora para dentro, daí a maquiagem e os tiques. Foi muito famoso e fez vários filmes em Hollywood. Depois foi diminuindo o ritmo e quando George Lucas o chamou em 1977 para Star Wars já filmava muito pouco. Uma nova geração o conheceu. Foi o Ian McKellen para quem tem hoje mais de 45 anos.
   O livro não é fácil de achar. Mas vale procurar.

FRANK SINATRA & ANTONIO CARLOS JOBIM Medley bossa nova 1967



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JOHN HUSTON

   Leio mais uma vez a bio de John Huston. É ótimo ler suas palavras. É como se um avô estivesse nos aconselhando.
   Huston é tão bom de ler porque ele me libera. Um homem culto que nunca deixou de ser um homem de carne e sangue. No tempo dele um homem podia ainda ser um homem. Não, não estou fazendo apologia do machismo! O que digo é que hoje somos obrigados a nos segurar, a pensar vinte vezes antes de ousar agir. Tudo é pesado, rotulado e levado ao tribunal do "bem". No tempo de Huston se confiava mais no impulso e na intuição.
  Claro que me causa nojo suas descrições de caçadas. Mas isso é suavizado pelo modo como ele descreve suas amizades, suas mulheres e seus filmes. John Huston viveu como quis. E viver para ele era ser um homem.
  Ele jogava, bebia, dava vexames e lia muito. Amava pintura, escultura e música. Cresceu e viveu com bichos, muito bichos e com amigos que eram jockeys, apostadores, caçadores, e também escritores e nobres irlandeses. Adorava o México, a Irlanda, a França e o interior dos EUA. Casou cinco vezes, teve filhos e fez mais filmes fracassados que bem sucedidos. E seus filmes problema são hoje fascinantes ( menos A Biblia e Carta ao Kremlin, são imperdoáveis ).  John Huston era o oposto completo do tipo de homem que hoje é vendido como "o homem de bem": calmo, compreensivo, delicado e suave. Ele era enérgico, cheio de opiniões, forte e quente, muito quente. Era grande. Um gigante.

Gigi - 08 It's A Bore



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Gigi - Leslie Caron - Maxim's chorus restored



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BOCACCIO- O REGRESSO- MINELLI- TARANTINO- EVERESTE- GIGI- COLE PORTER

   OS 8 ODIADOS de Tarantino com Kurt Russell, Samuel L. Jackson e Tim Roth.
Logo no começo do filme a personagem de Jennifer Jason Leigh leva um soco na cara e cospe sangue. Imagino que Quentin tenha dado boas risadas com isso. Eu odiei. Quem me conhece sabe que estou longe de ser um "politicamente correto". Penso inclusive que o movimento merece ser gozado. Mas não assim. Tarantino tem um talento técnico imenso. Ele viu muito cinema e viu direito, com atenção. Mas ele tem um sério problema: é um homem vazio. Nada tem para contar. Assim como Fincher, Nolan ou tantos outros, Quentin cresceu na frente de uma tela e conhece quase nada da vida lá fora. Não há nele nada de vivo, tudo é uma grande piada. Quando o roteiro ajuda, como em Pulp Fiction, essa bobagem vira uma festa de esperteza e de humor; mas quando o roteiro é fraco, nada há que Quentin possa acrescentar. Este filme é bobagem teen bem filmada. Nota 3.
   O REGRESSO de Iñarritu com Leo di Caprio e Tom Hardy.
Sinto muito Leo. Não vi o filme sobre Dalton Trumbo, mas torço por Bryan no Oscar. Iñarritu tem um talento imenso, mas é uma pessoa chata. Apesar que....Será que essas estripulias de imagem e de montagem não seriam talentos do equipamento hoje disponível...e não do diretor que os utiliza....Penso no que Ophuls, Hitchcok ou Powell não fariam com câmeras tão leves e cores digitalizadas à vontade... Bom, este filme é uma bosta. Um monte de esterco fedido e bem grudento. Fezes com legendas que dizem ser "ouro". Mas é bosta mesmo. Uma câmera bêbada filmando gente suja cometendo barbaridades. Só isso. Não há invenção, criação ou imaginação. O cinema alcança assim o ponto onde as artes plásticas estiveram por volta de 1995, quando um artista italiano expôs merda enlatada num museu. Nota ZERO.
   MARAVILHOSO BOCACCIO dos Irmãos Taviani
Mais recente filme dos irmãos italianos, ele nada tem em comum com o famoso filme de Pasolini. Aqui a austeridade manda. É um Bocaccio distanciado, frio, rígido. Plasticamente é um belo filme, emocionalmente ele nada transmite. O filme começa exibindo a Peste Negra a dizimar Firenze e então vemos o grupo de jovens que foge da cidade e no campo contam histórias para passar o tempo. Creio que os Taviani estão muito mais distantes do espírito medieval que Pasolini. Eles filmam como italianos de 1650. Nota 5.
   EVERESTE de Baltasar Kormakur com Josh Brolin, Emily Watson e Jake Gyllenhaal.
Em 1996 vários grupos de turistas tentam atingir o topo do Evereste. Mas os acidentes acontecem. Finalmente chegou ao cinema o livro de Jon Krakauer. E o filme dá o que promete: emoção. Sabemos desde o começo quem vai morrer, afinal é uma história real, mas mesmo assim o filme nos faz entrar na montanha. O vento e a neve nos seduzem. Nota 6.
   O PRIMEIRO ASSALTO DE TREM de Michael Crichton com Sean Connery,  Donald Sutherland e Lesley Anne Down.
Crichton é sim o escritor. Pra quem não sabe ele dirigiu alguns filmes nos anos 70. Este, de 1978, conta um elaborado plano para se roubar um trem cheio de ouro na Inglaterra de 1860. Cenários vitorianos me seduzem e ainda há Sean Connery esbanjando charme como um ladrão seguro e criativo. Lesley foi das mais lindas atrizes britânicas e Donald faz um ajudante meio nervoso. Dá pro gasto, mas não espere muito. Nota 5.
  AGORA SEREMOS FELIZES ( MEET ME IN SAINT LOUIS ) de Vincente Minelli
Digamos assim: este é o oposto radical de O REGRESSO. No filme de Iñarritu temos o absurdo da pornografia. O mundo como sangue e dor mostrado em lentes objetivas e com uma falta de imaginação completa. O real escapa em meio ao exagero do sensacional. Aqui temos o absurdo da delicadeza extrema. O mundo como canção onde tudo se diz e nada fica nas sombras. Tudo mostrado com lentes rosadas, onde o real escapa porque jamais foi procurado. O roteiro: em 1903 uma família de St. Louis vive sua vida comum. Namoricos, jantares, festas, pequenas dores. E é pouco mais que isso. Mas esse mais faz toda a diferença! A Metro usa um lindo Technicolor, Judy Garland canta lindas canções, os cenários são familiares e você fica querendo que a vida fosse aquilo e sabendo que não é. Mas....quem sabe um dia seja.... Well....foi o primeiro grande sucesso de Minelli e é considerado hoje um dos filmes mais alto astral já feitos. Você quer ter uma família assim. O tipo de cinema que fez os EUA ganharem o mundo. Nota 8.
   GIGI de Vincente Minelli com Leslie Caron, Louis Jourdan, Maurice Chevalier e Hermione Gingould.
Se St. Louis é o primeiro sucesso de Minelli, este é o último. GIGI ganhou penca de Oscars  e levou multidões aos cinemas num tempo em que adultos iam ao cinema. O roteiro é do gênio Alan Jay Lerner e fala de uma menina que é treinada para ser cortesã na Paris de 1900. Ao redor dela o que vemos são tias e avós que querem vende-la, em ambiente de extremo luxo. As canções são de Frederick Lowe e toda a parte visual, roupas e cenários, são da lenda Cecil Beaton. Sim, a equipe é quase a mesma que faria MY FAIR LADY cinco anos mais tarde. E as canções são maravilhosas e recitativas, como serão as do filme baseado em Shaw ( este se baseia em Colette ). Chevalier tem momentos sublimes e o filme nos dá uma sensação de alegria leve e chique que não têm preço. O filme termina e nós vamos à vida com renovado charme e boas emoções. Uma aula de savoir faire. GIGI é uma festa! Nota DEZZZZZZZZ!!!!!!!
   ALTA SOCIEDADE de Charles Walters com Bing Crosby, Grace Kelly, Frank Sinatra e Louis Armstrong.
Rever este filme mais uma vez é como encontrar numa loja aquele vinho que você bebeu em 1995 e nunca esqueceu. Uma linda lembrança que se revela verdadeira. O filme continua lindo. Nunca uma atriz foi mais bonita que Grace aqui. As canções de Cole Porter são sublimes e todo o elenco nos dá diversão. O roteiro é fofo, vazio, bobo até, mas os diálogos são espertos e a inteligência do espectador nunca é ofendida. Um souflé. Delicioso. Nota 8.

Frank Sinatra and Ella Fitzgerald How High The Moon Medley



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SINATRA, O CHEFÃO- JAMES KAPLAN, UMA MARAVILHA.

   Esta é uma obra de amor. James Kaplan ama a música de Sinatra. Mas, felizmente, não ama o homem. Isso faz desta biografia, a mais completa que já li, uma obra quase perfeita. Kaplan conta tudo o que é verdade, e aquilo que poderia ser verdadeiro é contado como aberta possibilidade, ou não. Espero que jamais filmem este livro.
 O livro começa onde o outro termina. É 1954 e Sinatra, após a decadência, renasce. Ganha um merecido Oscar e muda de gravadora. Volta a vender discos e a ser o REI de Las Vegas. A partir daí, são mais 1.100 páginas em que nunca se enche linguiça. A vida de Frank é a história do século XX. Aqui está o mais chique e o mais lixo.
 Como é impossível tentar abreviar a vida de Frank, prefiro falar muito por alto dos assuntos aqui tratados.
 A máfia nos EUA. Frank foi amigo de vários mafiosos e por isso era odiado e temido por muitas pessoas. Várias vezes ele foi investigado, e nesse pedaço de sua vida temos gente como J.Edgar Hoover, Sam Giancana, Jilly Rizzo, Mickey Rudin e toda a Las Vegas em seu auge, cidade que seria destruída pelas grandes empresas que tomariam conta dela a partir dos anos 60.
 A politica. Sinatra foi amigo de Kennedy. Faziam bacanais juntos. Frank trabalhou duro por Kennedy. Mas após a vitória, o novo presidente começou a se afastar, acabando por trair Frank. Bobby Kennedy, Jackie, Marilyn Monroe, Nixon, a CIA, Fidel Castro e Krushov são os personagens aqui. Talvez seja a mais fascinante parte do livro. Depois Frank vira casaca. Reagan passa a ser seu amigo.
 Mulheres. Sinatra teve caso com mais de 3.000 mulheres. Casou-se 4 vezes. Foi pai de 3 filhos. Ava foi uma paixão eterna. E o livro conta a bio dela também. Em 1966 ele se casou com Mia Farrow, a filha hippie-chic de 21 anos de John Farrow, um diretor bem doido de Hollywood, e de Maureen O'Sullivan, a melhor Jane de Tarzan e uma atriz lindíssima. O casamento durou quase dois anos e acabou com Frank a dispensando enciumado por seu sucesso no cinema em O Bebê de Rosemary. Aqui vemos o mundo de Beatles, Polanski, India, Maharishi, Londres em 1967, minissaias e boates. Mia, que Kaplan descreve muito e sobre a qual se estende, aparece como um enigma. Uma menina mimada que amou um cara 30 anos mais velho, e que sofria cercada por velhos, ou uma doida que se divertia com tudo aquilo que pudesse provar. Depois Frank, já idoso, se casa com Barbara Marx, ex-esposa do irmão Marx menos talentoso, Zeppo. Uma aproveitadora. Aqui temos ainda Angie Dickinson, Shirley MacLaine, Jill St.John, e mais uma multidão de starlets e etc.
 Amigos. Os mafiosos. Frank Sinatra não conseguia ficar só. Não dormia, bebia, saía, gastava, fazia shows, jogava. Tudo isso sempre cercado por dez, doze, vinte amigos. Acordava e já convocava os hóspedes, sempre em turma. Ficamos sabendo do tranquilo Dean Martin, um dos poucos caras que ele respeitava. Sammy Davis Jr., Peter Lawford, Kirk Douglas, Yul Brynner e uma multidão de milionários, músicos, produtores de shows, atores... Sinatra era um dínamo e poucos conseguiam o acompanhar.
 Cinema. Os filmes ruins, muitos, os bons, poucos. Frank odiava ensaiar. Queria sempre filmar em uma tomada, sem ensaio. Ia embora quando irritado, não esperava. Poucos filmes ele fez a sério. Otto Preminger, John Frankenheimer, Minelli, Raquel Welch...
 E a música...
 Na verdade era onde Frank Sinatra se sentia feliz. Homem ansioso, apressado, estourado, muito mandão, cheio de vontades e de mimos, cercado de puxa sacos, no estúdio ou no palco ele virava outro. Era gentil. Kaplan fala dos grandes discos, gravados em 3 ou 4 dias ( !!!!!!!! ), dos shows para 500, 800 pessoas, dos especiais de tv. E dos fracassos, dos singles medíocres, dos LPs que não venderam, do fim. Uma constatação: o movimento hippie matou sem dó toda aquela geração. Se hoje há espaço para diretores de cinema de 70 anos, cantores de 75, atores de 80, em 1965, rapidamente, toda a geração que tinha mais de 35 anos começou a ser chamada de DECADENTE, GAGÁ, IRRELEVANTE. Isso foi terrível para todos, e muito revoltante para Sinatra. Ele odiava rock, não entendia nada daquilo e passou, aos 39 anos, a ser visto como passado. Os discos começaram a vender pouco, mas no palco ele ainda era rei. O mais bem pago.
 Um belo dom de Kaplan é que ele ama Sinatra e gosta de rock. Ele elogia Beatles, Stones e Kinks. Compreende que sua qualidade, que Frank não podia ver, estava na sinceridade, na coisa visceral, e não na técnica e gosto, que era onde Sinatra se destacava. O rock era confessional, sanguíneo, dionisíaco, e a arte de Sinatra sempre fora Apolo, a perfeição.
 O Brasil aparece, e sempre bem, nesta obra. Kaplan chama Tom Jobim de gênio. Diz que suas canções eram tão maravilhosas quanto as de Porter ou Gershwin. Elogia até sua voz, pessoal. Sinatra o adorava, Jobim conseguia o acalmar. E também se fala do Maracanã, o show em 1980, Frank já sem voz, hesitante, e o público, 175.000 pessoas, carinhosos e cantando junto. Frank nunca foi cantor para multidões. Seu show sempre foi olho no olho, intimista, próximo, mas naquele tempo ele precisava de dinheiro, e doente, chegou a fazer 8 shows por semana. ( Em seu auge ele fazia até 9 shows de uma hora...POR NOITE!!!! ).
 Há ainda a história de Frank na TV, veículo que ele sempre desprezou. E mais....muito mais...
 A vida de Frank Sinatra não foi boa. Foi tensa. Os EUA amavam Frank, mas ao contrário de Bing Crosby ou de Elvis, que eram os filhos que toda mãe queria, havia em Sinatra uma mistura de paixão e raiva, de amor e ressentimento que o atingia em cheio. Ele era A VOZ, ele era o melhor e o maior, mas ao mesmo tempo era um carcamano, um mafioso, um convencido, um filhinho da mamãe. Estava longe de ser "o americano típico". E ele lutava contra isso. E venceu.
 Com o tempo os Beatles baixaram a guarda, o mundo mudou de novo, e em 1997, um ano antes de morrer, recebeu em casa a visita de Bob Dylan e de Bruce Springsteen. Ao piano conversaram. E confessaram: Todo rock star sempre quis ser só uma coisa: Frank Sinatra.

O FUTURO CHEGOU: O NOVO FILME DE IÑARRITU O INAUGURA.

   George Lucas falou que o cinema do futuro seria apenas sensação, sem emoção. Um gato sendo torturado seria filmado. A perseguição ao gato, não.
   Sensação é aquilo que um bicho sente: dor, medo, asco, desejo. Emoção é mais complicada, uma mistura de asco com curiosidade, de desejo e medo, de alegria com horror. Tudo isso em meio a inteligência, a espera, ao suspense.
   O novo filme de Iñarritu mostra que esse futuro chegou. São duas horas de sensações. E a sensação, em seu ponto extremo, se chama pornografia. O oposto radical do erotismo.
   A história é banal. Caçadores de peles são atacados por índios. Fogem, e na fuga ocorre uma traição. Vem a vingança.
   Não pense em western. O filme está longe do mundo de Hawks, Ford e mesmo de Clint e Peckimpah. Esteticamente ele bebe nos filmes russos. Mas é moderno e artístico, então o que temos são imagens que vomitam esteticismo. O diretor tem ereções com sua "esperteza". Toda imagem deveria trazer um aviso: "Cuidado! Gênio filmando"
   A câmera voa pelos cenários, flui, vai e volta. O filme não tem uma cena de câmera parada. E, se nos primeiros dez minutos, isso até impressiona, depois a gente nota que é um vicio, um maneirismo que não existe em função do FILME, mas sim em função do AUTOR. E vem, em consequência o pior....Começamos a ver tudo aquilo como um filme. O foco deixa de ser o personagem e passa a ser a técnica. O filme desaba.
   Leonardo di Caprio foi grande em vários filmes. Aqui ele tem seu papel mais simples. Ele urra, suspira e geme muito. O rosto, escondido por barba e movimentos de câmera, mal se vê. É uma atuação muito mais de atleta que de ator. Deve vencer o Oscar pelo que fez no passado.
   Há uma cena com um urso que detona as intenções de seu deslumbrado diretor. Sem nenhum suspense, o urso nos dá um susto e ataca. Então, de um modo pornográfico, vemos o urso torturando Leo. A cena, boçal, não tem a menor função narrativa. Seu único objetivo é provocar uma sensação. Asco. Isso não é arte. É o tal gato sendo torturado.
   O filme, bobíssimo, é o alongamento dessa cena ao infinito.