NASHVILLE/ LASSE HALLSTROM/ ROBERT WISE/ HELEN MIRREN/ FRED ASTAIRE

   NASHVILLE de Robert Altman com Ronee Blakely, Keith Carradine, Scott Glenn, Jeff Goldblum, Barbara Harris, Lily Tomlin, Ned Beatty, Henry Gibson, Geraldine Chaplin, Karen Black, Elliot Gould, Christina Raines...
Quando lançado em 1976 muito crítico disse ser o maior filme americano desde Citizen Kane. No Oscar ele venceu apenas a melhor canção, a bonita I`m Easy, de Carradine. O grande campeão daquela noite foi Rocky e isso revelou o futuro do cinema. Stallone venceu Altman ( e Lumet, que perdeu com a obra-prima, Networks ). Com os anos 80 Altman afundou, Rocky durou e Nashville se tornou um cult. Visto hoje a primeira coisa que fica clara é a imensa dívida que Paul Thomas Anderson deve a Robert Altman. Nashville lembra muito o melhor de Anderson. É um vasto painel, crítico, muito crítico, sobre uma porção de pessoas, gente nada especial, ou, muito comum, gente que se revela muito original, como todos o são, pessoas que são captadas em seu mais ridiculo, mais patético, mais sofrido. Em Nashville, capital country, vai acontecer mais um festival de música caipira. Os personagens lá se encontram. O velho cantor famoso, com sua peruca e seu visual ridiculo, meio racista, vaidoso e medroso. Já aqui se revela e genialidade do filme: fosse outro o caso, este personagem seria uma caricatura. Aqui não é. Pode até ser cômico, mas é sempre real. O filme é tipico do realismo do cinema feito nos anos 70. Os lugares e as pessoas são como são, pobres, feias, tolas, vazias, e assustadas. Uma repórter da BBC tenta fazer uma matéria, uma dona de casa canta na igreja e tem dois filhos surdos. Uma cantora sem talento faz um strip. Um motoqueiro mudo anda a esmo pelas ruas. Uma hippie de LA devora homens. Um velho no hospital espera pela morte de sua esposa. Um soldado do Vietnã olha tudo aturdido. Um trio se separa e o cantor transa com toda mulher que encontra. Um RP procura apoio para seu candidato a presidente. Um carro de som anda pelas ruas espalhando slogans politicos. Uma cantora enlouquece no palco. E mais campus, igrejas, drogas, e muita, muita música caipira. Altman exibe a América que os americanos tentam ignorar, o centrão, a zona atrasada, fechada, piegas, chorosa, saudosa, religiosa, preconceituosa. A região que elege os presidentes e que os derruba ou assassina. A região onde nasceu o blues, o rock e o jazz. E onde nascem os mais loucos artistas, psicóticos, gênios. O filme é uma festa de vozes embaralhadas, músicas muito ruins e algumas muito boas, cenas sempre fortes, atores sublimes e sacadas espertas. Uma obra-prima. sim, e que não poderia ser mais diferente do cinema que se faz hoje. Nashville não faz uma só concessão. É adulto, dura 3 horas, mostra o que deve mostrar e nunca cansa. Obrigatório mesmo para os que odeiam country music. Nota DEZ!!!!!!
   A CEM PASSOS DE UM SONHO de Lasse Hallstrom com Helen Mirren e Om Puri.
Vamos ao extremo oposto de Nashville. Aqui tudo é bonito, limpo, elegante, colorido e infantil. Não deixa de ser um bom filme. É gostoso de se ver e muito melhor que 99% do que rola por aí. Começa na India ( sim, O Brasil não é o país pobre queridinho, a India tomou o posto que poderia ter sido nosso ). Uma familia de cozinheiros perde tudo e vai à Europa. Deixam a Inglaterra "" porque na Inglaterra toda comida é ruim"". Acabam na França. Abrem um restaurante no campo, de frente a um rival, et voilà..... Helen Mirren, minha atriz favorita, é a dona do restaurante rival. Uma megera. O filme tem cara de festa. É bobo, mas não ofende. E os atores são ótimos. Gostei. Hallstrom, sueco que se revelou com Minha Vida de Cachorro, sabe contar uma história. Nota 6.
  BRIGADOON ( A LENDA DOS BEIJOS PERDIDOS ) de Vincente Minelli com Gene Kelly, Cyd Charisse, Van Johnson
O tema é ótimo, o filme não. O motivo, dizem, foi a desconfiança da MGM. Deram pouca grana, e em vez de ir à Escócia filmaram tudo em estúdio. Mas não é só isso. A coreografia de Kelly é banal, dói dizer isso, e a direção de Minelli é desinteressada. Na Escócia, dois americanos se perdem. Encontram uma cidade que parou no tempo. Descobrem que ela é um feitiço. A cada cem anos ela surge para viver um dia e depois dormir. O filme, baseado em sucesso da Broadway, não fez dinheiro. É um musical chato. Nota 3.
  CATIVA E CATIVANTE de George Stevens com Fred Astaire, Joan Fontaine, George Burns e Gracie Allen.
Passado na Inglaterra ( que se parece demais com a Califórnia ), mostra Fred como um ator que se apaixona por nobre inglesa. Todos os filmes feitos por Fred na RKO merecem ser vistos. Três são obra-primas de humor e elegância, The Gay Divorcée, Top Hat e Swing Time. Os outros são ''apenas"" ótimos. Se voce quer saber o que é o hiper-profissional cinema dos anos 30, eis seu filme. Ele é leve, bobo, superficial e delicioso. Músicas de Gershwin e coreografia de Hermes Pan. Nota 8.
  TIM MAIA de Mauro Lima com Babu Santana, Cauã Reymond, Alinne Moraes e Robson Nunes
Metade bom, metade ruim. Todas as cenas com Tim jovem são ok. Quando entram as drogas o filme cai e fica óbvio. Pior, chato. Tim Maia, gênio, merecia filme melhor. Mas até que vale a pena. Tem as músicas, boas cenas de show, bela reconstituição de época. ( O que é aquele Roberto Carlos????? ). Nota 5.
  PUNHOS DE CAMPEÃO de Robert Wise com Robert Ryan
Uma obra-prima. Acompanhamos em tempo real a hora e meia da vida de um boxeur. Noite de luta, ele se despede da noiva e vai ao local da luta. Ela anda pela cidade, ele se prepara para a luta. O ambiente é sujo, pobre, realista. Vem a luta. Luta que foi arranjada. Mas ele não aceita e luta de verdade.... Robert Ryan tem uma grande atuação. Faz um lutador derrotado, velho, cansado, desiludido. Robert Wise ganhou dois Oscars. Um por West Side Story e outro por A Noviça Rebelde. Mereceu os dois. E poderia ter ganho outro aqui. Touro Indomável baseou suas cenas de luta neste filme. Dura apenas hora e meia. É um monumento. Wise foi um grande, muito grande mestre. Cada corte, cada rosto é um drama completo. Obrigatório. Nota DEZ!!!!!!!!

A TRANSFORMAÇÃO DO NATAL

   Cheguei a conhecer o Natal como festa religiosa. Vagamente consigo me lembrar de uma quietude que existia na noite do nascimento de Cristo. Nas ruas existiam muitos presépios públicos e se ia a igreja para a missa do galo. O caráter principal da festa era a calma, o Natal como algo de muito familiar, íntimo, quase um sonho.
  Depois, durante minha adolescência, o Natal passou a ser um tipo de festa da amizade. Escrevíamos muitos cartões de Natal e era emocionante esperar o carteiro. Sempre chegava algum cartão daquela menina que voce passou o ano todo achando que ela mal sabia quem era voce. Natal era tempo de se fazer as pazes. O aspecto religioso começou a ser esquecido e em seu lugar a festa virou um tipo de banquete entre amigos. A cozinha era o centro da festa. O telefone não parava de tocar e a familia se reunia, nem que fosse só para discutir. Era hora de reavaliar os sentimentos, de demonstrar os desejos, de ser desavergonhadamente piegas. 
  Foi durante a década de 80, aqui no Brasil tudo chega com atraso, que o Natal se materializou. Papai Noel deixou de ser o bom velhinho e virou um mascate. Natal era hora de dar presentes. De ganhar aquilo que mais se quis durante o ano inteiro. Hora do presente mais caro. Popularizou-se o amigo secreto. A pieguice se embebedou. Ficar bêbado no Natal, até 1977 seria um pecado, a partir de 1981 virou lei. A festa tomou a rua, virou coisa pública, toda a intimidade ruiu.
  Hoje se estouram fogos a meia-noite. Um absurdo. A hora do silêncio e da quietude virou a hora do carnaval. O Natal se vulgarizou, virou apenas mais uma ocasião para se beber muito, falar tolices e acordar tarde. 
  Tendência mundial, todas as festas se transformam numa coisa só, impessoal e não particular. A intimidade naufraga, a vida interior é vista com temor e o Menino que nasceu agora passa a ser um tipo de Rei da Avenida. Dar presentes é uma obrigação e desejar Feliz Natal aos amigos se torna tão vazio como o bom dia dito na padaria. ( Parabéns à quem ainda o diz ). 
  Natal ? Ainda creio. Mais quem?

The Faces TOTP (1971-1972)



leia e escreva já!

The Birds - That's All I Need You For



leia e escreva já!

A AUTOBIOGRAFIA DE UM ROLLING STONE- RON WOOD. UM CIGANO PERDIDO NO MUNDO DOS HOTÉIS.

   Biografias são melhores quando escritas por terceiros. Isso porque ao escrever sua própria bio, o biografado pula trechos de sua vida que ele esqueceu, ou prefere esquecer. Quando um bom escritor se encarrega desse trabalho ele tem em mira aquilo que o leitor deseja saber. Não digo fofocas ou exageros, falo de fatos, fatos que podem ser irrelevantes hoje para o biografado, mas que permanecem enigmas para os fãs. 
  Veja este livro. Ele começa delicioso. Porque as origens de Ronnie são coloridas, vivas e muito originais. Sua familia morava num barco ancorado no Tâmisa. Isso era comum na Europa do pós-guerra. Assim, pai, mãe, irmãos, e até um avô, todos apertados numa barcaça antiga. O sangue desses ingleses tem raízes ciganas. E eu sempre achei que Ronnie tinha uma cara meio india, meio espanha, quase oriental. Cigano. Ele cresceu com uma multidão de parentes invadindo a casa toda noite para fazer música. Músicas de boteco. O pai de Ron é aquele inglês tipico dos anos 40/50 que a gente vê em filmes de John Ford ou de Carol Reed. O brigão engraçado, amigo de todo mundo. Depois eles se mudam para uma casinha e o pai traz moradores de rua para fazer um som. Toda noite. O jovem Ronnie cresce nesse mundo. Muita música, muita festa, muito riso e muita falta de dinheiro. Sua vida será essa. No rock ele repetirá toda a vida de seu pai em nivel maior. Keith ocupará o posto de tio. 
  Ronnie logo descobre o rock, forma bandas, tem um certo sucesso com os Birds ( não confunda com Byrds ), e é convidado por Jeff Beck a entrar em sua nova banda. Conhece Rod Stewart que se torna seu melhor amigo. Os dois comem todo mundo e destroem quartos de hotel. Mick Taylor sai dos Stones, convidam Ronnie e ele larga os Faces. O resto todo mundo sabe: excursões, muito dinheiro, muita droga, e várias falências. Como bom cigano, Ron gasta tudo o que ganha. Em clubes que ele abre e deixa falir. Em pubs e hotéis que ele inaugura e deixa quebrar. 
  Wood fala de drogas e bebidas, mas não fala de drama algum. Seu enfoque nunca é na dor ou na luta. É na diversão. Tipo: Fiz porque quis e ninguém tem nada a ver com isso. Ronnie é o que parece ser, um cara feliz. Suas casas sempre têm um grande estúdio de música e sempre está aberto para os amigos que quiserem tocar ou gravar. George Harrison, Eric Clapton, Pete Townshend, Paul MacCartney...e Keith, claro. Além do, nas palavras de Ron, quieto e muito calmo David Bowie, e Bob Dylan, que adora vestir botas e capa e ir caminhar sózinho, por horas, na lama. ( God knows como me identifico com isso ).
  Keith é pintado em todo o livro como um cara muito mal humorado, engraçado de tão ranzinza, explosivo e obstinado. Mick parece ser distante, frio, e bastante inteligente. Rod é um festeiro. Um playboy. E temos Charlie Watts, que tem as duas melhores cenas do livro: 
  É revelado que Charlie só anda de chofer. Tem medo de guiar. Mas coleciona carros. Seu favorito é um Alfa raríssimo. Vinho. Charlie adora vestir seu terno vinho, para combinar, ligar o motor, e ficar dentro do carro, parado, admirando as linhas do painel. 
  Outra de Charlie. Mick liga para Charlie as 4 da manhã e fala"" estou no estúdio com ideias e preciso de meu baterista aqui"". Charlie se levanta, toma banho, veste um de seus ternos da Saville Row, e vai de taxi ao estúdio. Entra quieto e dá um soco em Mick. E diz: "" Não sou seu baterista. Voce é meu cantor"". Isso é Charlie Watts. 
  No começo deste texto falei que seria melhor um outro cara ter escrito este livro. Isso porque Ronnie mal fala do Jeff Beck Group, nada conta dos Faces e foca quase que todo o livro nas excursões dos Stones. Legal, mas será que ele não sabe que os discos que ele fez com os Faces e aqueles que gravou com o Rod Stewart solo, são o ponto alto de sua carreira? Que qualquer dos discos onde ele esteve nos anos de 1969-1973 são melhores que aquilo que os Stones fizeram com ele? Well....uma pena, mas eu esperava mais sobre Ronnie Lane e Rod, sobre Maggie May e Oh La La, e menos sobre enormes shows na Austrália ou a gravação de Steel Wheels. 
  Ronnie Wood é o tipo do cara que todo mundo gosta. E por isso eu queria que ele contasse tudo. Que pena Ronnie! Sua bio é muito sem sal ! 

TIM MAIA, OS DISCOS

   Tim Maia pra mim é uma rua de terra onde eu andava no meio de muita gente, lixo e música. Os rádios ligados e Gostava Tanto de Voce rolava. Tim e Jorge Ben, Simonal e RC, esses eram os ídolos do povo jovem. Eu era criança, meu negócio era Monkees. Well...Se a gente pensar que o povo jovem hoje vai numas de sertanejo ou axé, funk ou Michel Teló....acho que piorou um bocadinho.
 Quando criança eu não gostava do Tim. Achava ele favela. Eu nasci já esnobe. Fazer o que? Mamãe passou sugar ni mim...Só na adolescência, que coincidiu com a baixa de Tim, é que comecei a gostar do cara. Lembro de ver ele, na fase Racional, tocando batera na tv Cultura e me deixando tonto de suingue. Fosse americano Tim Maia seria grande como Stevie Wonder. Pior é que ele sabia disso desde cedo. Ninguém, repito, ninguém tem a voz de Tim. Ele chega ao nível Otis Redding. Matador no balanço, matador na dor de cotovelo. 
 Tenho escutado os dois primeiros cds no carro. Trânsito parado, calor. Boto os cds e começo a cantar. Intensamente. Tim tem isso. Ele é intenso e voce, no carro, sem medo do ridiculo, abre os braços e solta o vozeirão. Cantando Tim eu engrosso a voz. Me sinto gordão. De Mulato Power. Balanço tudo e tô nem aí. Nada é mais suingue que esses dois discos. Objetivos. Certeiros. 
 Tim Maia é um gênio.
  
 
  
 

TIM MAIA, O FILME. ( E ALGO SOBRE AS BIOS DE ARTISTAS )

   Os primeiros minutos são muito ruins. A gente não consegue gostar do Tim Maia número dois. A voz é caricata. Mas o filme fica bom quando Tim é feito por outro ator. Toda a meninice, a ida aos EUA, a volta, a dureza em SP, o reencontro com RC. Toda essa parte, mais de 30 minutos, dá prazer. Bom. Bem bom. Mas...Como toda bio é preciso mostrar os males do sucesso, a queda, o reerguimento e a morte. Tudo muito óbvio, muito chato, muito arrastado. O diretor sente prazer em exibir tanta droga? Tanta chatice explícita? Tudo poderia ser encenado em 10 minutos. Mas não, é uma hora de lixo.
  Os atores estão bem legais. Menos o segundo Tim e o Roberto Carlos. Que é aquilo? Cartum? Casseta e Planeta? O filme não é uma comédia, mas RC é. Dá a impressão que ele caiu no filme errado. Well...É legal nesse tipo de filme ver caras que a gente gosta revividos. Adorei ver o Carlos Imperial. O ator tem todos os trejeitos e a voz. Espero que a molecada se ligue em quem foi esse ícone. Impera foi o cara!
  Tim Maia foi muito mais que aquilo que o filme mostra. Muito mais. De qualquer modo o crime é bem menor que aquele feito contra Gainsbourg, contra Ray Charles ou contra Jim Morrison. O gênero bio, sempre óbvio, tem nos dado muitos filmes chatos. O pior foi feito em 2005, Cole, a vida de Cole Porter, um caro, longo e bisonho mastodonte. Mesmo tendo Kevin Kline dando show como Cole. 
  Esse molde de filme vem no mínimo desde os anos 50 quando James Stewart e Anthony Mann fizeram um excelente The Glenn Miller Story. Os melhores sobre músicos, mais recentes, foram aquele sobre Dylan, de Todd Haynes e o filme sobre Johnny Cash, óbvio,  jamais chato.  Nos anos 90 houve Great Balls fo Fire, ótima bio de Jerry Lee Lewis.
  Existem muitos filmes bons sobre escritores. E também sobre pintores. As bios sobre esportistas costumam ser emocionantes. Mas as bios de músicos sempre seguem esse esquema de morte, flash back, luta, sucesso, drogas, queda e superação. Aff....Que tédio!
  Pena é que tão cedo ninguém fará outro filme sobre Tim. 

INGLESES PERDEM A VIRGINDADE EM NEW YORK....

   ...E quando voce a perde é for ever.
   Penso nos inocentes ainda cabaçudos. Mesmo que parecessem loucos ainda eram caipirinhas ingleses, ainda de pantufas e com seu cup of tea. Achando que vomitar no pub era o máximo! Ou dizer fuck na BBC. 
   Penso no Stone Roses excursionando pela América e se destruindo. No Happy Mondays pirando em becos de Detroit. New York engoliu a virgindade de vários ingleses que lá caíram e se perderam pra sempre. E mesmo os Beatles, que começaram a virar homens com Dylan e guiados por Dylan, melhoraram após a América, mas começaram a se desarmonizar. 
   Penso no Clash experimentando os USA e não segurando a barra. E nos Pistols morrendo a cada milha das highways. USA não é para ingleses, é para irlandeses. O U2 se descobriu na América. Os Stones só se tornaram os Stones após a viagem ao Alabama e New York. E o Led Zeppelin foi inflado pela América.
  Mas a maioria das desvirginizações foi traumática. O Who ficou para sempre a deriva depois de Woodstock. E um monte de gente desistiu por nunca conseguir comer a maçã americana: Roxy, T.Rex, Small Faces, Traffic etc etc etc. Os Smiths perderam o porque nos USA e após a adoração americana o Radiohead ficou preso na dúvida. O Oasis nunca foi big em New York e assim deixou seu destino a deriva. Porque New York é só para aqueles que sabem seduzir a sedutora. É preciso saber mexer a libido. 
  David Bowie caiu de nariz em New York e a conquistou. Fame foi number one. E quem o recebeu de braços abertos foi Lennon, o New Yorker. E em troca a terra de Andy quase o matou. Bowie, como 99% dos stars, pirou em Manhattan. De certa forma morreu. O Bowie londrino morreu aqui for ever. E mesmo o Bowie novaiorquino morreu aqui. Mas voltou em 1983, vampiro.
  TODOS os fãs de Bowie odiaram este disco. No preconceituoso mundo de 75 voce era ou black ou white. E white não fazia música assim. Sem solos, sem berros, sem suor, sem heroísmo. Bowie não se vende como herói. Ele seduz como bitch.
  O disco é um de seus melhores. E em nada lembra seus outros trabalhos. OU....digamos que tudo o que ele fez entre 1983-1990 foi Young Americans piorado. 
  Uma faixa como Win chega ao céu. O final é de uma beleza fria arrepiante. Mas todo o disco é soberbo. É pra dançar. E para escutar com atenção. Depois deste disco Paul Weller, Daft Punk, Blondie, Duran Duran, Madonna, George Michael, Inxs, Bryan Ferry encontraram seu caminho. Sem Young Americans quem abriria o caminho? Quem inventaria o soul branco?
   O disco é luxuoso, conceito inexistente no POP Rock até então. Bowie cria o conceito de luxo, de chic, de finésse.
   Nunca mais seríamos os mesmos.

AQUELE TEMPO PASSOU... ( FRAGMENTOS DE MEMÓRIA. SANTOS NAS DÉCADAS DE 40 E 50 )- LYGIA LOLO SILVA DE CARVALHO

   Lygia tenta, como eu, capturar em palavras escritas, o tempo que foi. Como eu, há a alegria de se conseguir solidificar em letras aquilo que parecia morto. A frustração ameaça, mas o gosto é mais forte. Somos, eu e ela, proustianos conscientes. Sabemos de nossa nostalgia por aquilo que foi vivido e principalmente por aquilo que poderia ter sido vivido. O mundo era melhor antes? Sem nenhuma dúvida. O simples fato de vivermos menos nas ruas, o silêncio aterrador que vivo hoje antes das aulas na USP ( como pode tanta gente de 19 anos ficar calada e parada ? ), a histeria depressiva que toma as cidades e essa solidão compartilhada que define nosso tempo, provam que na época da janela aberta, porta destrancada e fofocas entre muros baixos, tudo era mais ""gostoso"" porque tudo era mais lento.
  Mas o tempo de Lygia não é o meu. O tempo dela se faz entre 1938/1950. São seus anos de primário e ginásio. E de colegial. Viva ainda hoje, em 2014 ela lança, em novembro, seu primeiro livro. Gostaria que houvesse um próximo. Me identifico com ela porque o tempo de minha escola ( 1969/ 1980 ) via morrer o que restara de seu tempo. Ainda havia lentidão, espaço livre e alegria nas ruas. As pessoas andavam para fazer amigos e saíam para conversar e dançar. A azaração nascia numa conversa e se completava numa dança. Ainda tive aulas de francês, de desenho, de música e de boas maneiras. Ainda nos orgulhávamos de ser civilizados. 
  Santos era a terceira cidade mais importante do Brasil. Por causa do porto, em seu auge. Santos era limpa, era civilizada. Tinha campo de golfe, clubes de filatelia. Cinemas enormes, teatros de ópera e jardins, muitos jardins. Em Santos ficava o mais luxuoso hotel depois do Copa do Rio. E acima de tudo, Santos tinha a mania de ser inglesa. Empresas inglesas, de bondes, de trens, de comunicação, deixaram e davam esse caráter à cidade. Andava-se a pé, tomava-se chá e se prezava a educação e a pontualidade. 
  Lygia, vejo pelas fotos, era bonita. E tinha um rosto alegre. Na foto de hoje vejo que ela ainda é uma bela senhora. E sorri. Lia-se muito naquele tempo. Lygia sabe que hoje se vende mais livros, mas se lê menos. Os livros eram mais lidos então. Eram emprestados, divididos, usados. Todos liam em tempos sem TV. Claro que Lygia é da classe média. Mas vejo nas fotos de sua escola que seus colegas parecem pobres, e muito bem vestidos.
  Ela estudou numa escola estadual. E causa surpresa o excelente nível dessas escolas. Era dificil ser admitido numa escola do estado. Os mais preguiçosos estudavam em escolas particulares. A autora consegue nos fazer viver dentro dessa risonha escola. E muito do que eles faziam eu ainda fiz, mais de trinta anos depois. Uma ingenuidade boa, doce, que fazia o tempo parecer amigo. 
  A linguagem usada por Lygia é deliciosamente demodèe. Vários termos em francês, em inglês e gírias dos anos 40. E latim, claro, todos tinham latim na escola. E grego. Havia aulas aos sábados. E as férias eram longas. Sol, passeios, livros, bailes a rigor, namoricos, mais sol, idas a Águas da Prata, à São Paulo, chá no Mappin, rua Direita, chapéus e perfumes, estolas e smokings. E filmes! Três vezes por semana se ia ao cinema. Lygia amava filmes, amava Gene Tierney, Tyrone Power, William Powell. Impressiona, e eu ainda vivi isso, o modo como se via a América. Todos queriam ser americanos. Se adorava a cozinha americana, as roupas, os carros, as festas. Os EUA eram o céu na Terra. Eles eram ricos, bonitos e educados. Os EUA eram perfeitos. Era o tempo do soft power, a América conseguia vender ao mundo uma ideia de liberdade e de retidão perfeitas. Isso seria destruído a partir dos anos 50, mas na década de 40 o mundo americano ainda parecia perfeito. Lygia viveu isso. Meu pai morreu achando isso. 
  Adorei a descrição de Lygia do que foi a segunda-guerra.  E do medo que havia de uma terceira guerra entre EUA e URSS, nuclear. Lygia é, claro, anti-comunista. Também sou. Mas ela é um pouquinho exagerada. Well...
  Ela recorda TODOS os professores. E, como era comum então, compara-os a atores de Hollywood. Filha única, sua vida idilica é usufruida nesse universo de sol e de fins de tarde. Professores duros, bons, suaves, misteriosos, amigos, distantes, quentes, bonitos, esnobes, próximos.
  Ela deixa para o final as palavras sobre seu pai. Admirava-o muito. E, como todo pai de então, ele era amoroso e distante, correto e contido, protetor e rigoroso. 
  Não deu tempo de minha geração tomar sucos em hotéis decorados com cristais e veludos, ou marcar um chá das cinco em casas de tapetes macios e serviço impecável. As classe mais favorecidas eram muito mais classudas e sabiam viver em finésse e cultura. Hoje se gasta o dinheiro do teatro ou do museu em mais um carro ou numa balada regada a pó. A diferença de classes se dava mais pelos modos e pela cultura do que pelo simples dinheiro. 
  É um bom livro? Não para todos. É um ótimo presente para aquela tia que foi rica e não é mais. Ou para a sessentona de bom gosto. E para proustianos como eu. E voce?
  Feliz Natal. E não se esqueça que um só momento de beleza é uma alegria para sempre.
  Obrigado Lygia.

TS SPIVET/ WOODY ALLEN/ NICOLE KIDMAN/ WARREN BEATTY/ MARVEL/ PIERCE BROSNAN/ CARY GRANT

   THE YOUNG AND PRODIGIOUS T.S.SPIVET ( UMA VIAGEM EXTRAORDINÁRIA ) de Jeunet com Helena Bonham-Carter, Judy Davis, Kyle Catlett e Callum Keith Rennie.
Todos sabem o enredo: no meio da nada mora uma familia esquisitinha. O filho, aos 7 anos, cria um aparelho de moto-perpétuo. Ganha um prêmio do Smithsonian e viaja só para receber o prêmio. Well...os primeiros dez minutos são excelentes. E isso se deve a fotografia e ao ambiente. Depois o filme cai muito e fica até meio chato. A América que Jeunet mostra é um país francês. Ele não chega perto do que seja o ser americano. Assim como Wenders em Paris/Texas mostrou a América alemã, Jeunet esbugalha olhos franceses sobre o deserto. O filme ameaça emocionar, Descartes não deixa. O que seria um lindo filme bobo se fosse dirigido por um Tim Burton ou um Alexander Payne, se torna com Jeunet um filme travado. Tudo é quase aqui, quase bom, quase bonito, quase triste, quase engraçado. E quase ruim. Apesar de tudo eu gostei do filme. Porque? Porque ele é bonito. Porque eu gosto muito de Helena Bonham-Carter. Porque adoro filmes on the road. E porque em meio a toda aquela baboseirinha tristinha há uma nesga de verdadeiro afeto. Há amor pelos personagens, todos eles. O que trava é essa reticência de Jeunet, essa coisa de nunca deixar a coisa subir, aquecer, deixar o sentimento perder razão e aflorar. Não darei nota.
   NOVEMBER MAN de Roger Donaldson com Pierce Brosnan e Olga Kurylenko
Brosnan é um ex matador da CIA. Ele volta a ação em complicada trama de espionagem, traição e chantagem. O filme nunca ofende a inteligência e tem ação. Pierce tem fleugma, e incrivelmente consegue convencer. É o tipo de ator que gostamos de ver. Olga é belíssima! Mas estou cansado desses filmes cheios de batidas de carro, tiros e cenários cheios de russos frios e ruins e moças magrinhas e fatais. Nota 4.
   DIZEM QUE É PECADO de Joseph L. Mankiewicz com Cary Grant, Hume Cronyn e Jeanne Crain.
A poucas semanas vi 3 filmes de Mankiewicz e falei deles aqui. Todos excelentes. Pouca gente sabe que ele foi dos raros diretores a ganhar dois Oscars no mesmo ano, por roteiro e direção. Seu ponto fraco aparece todo aqui: a verborragia. Mankiewicz escreveu alguns dos melhores diálogos do cinema, mas às vezes passava do ponto. Este filme mostra Cary como um cirurgião de sucesso que desperta a inveja de um colega. O tema é ótimo, Cary se esforça e está ótimo, mas há diálogos muito longos, muito blá blá blá dispensável e uma cinematografia pobre. Parece TV. Nota 5.
   HEAVEN CAN WAIT ( O CÉU PODE ESPERAR ) de Warren Beatty com Warren Beatty, Julie Christie, Jack Warden, Dyan Cannon e Charles Grodin.
Um grande sucesso de 1978 que concorreu a vários Oscars e venceu apenas um. É a primeira direção de Warren Beatty e dá pra perceber isso. O filme tem sérios problemas de ritmo. Ele corre a de repente fica lento. A história é refilmagem de um lindo e muito melhor filme dos anos 40. Um homem morre por engano. É devolvido `a Terra em outro corpo e vemos então seu envolvimento com gente que não sabe que ele é outro. O tema daria uma comédia hilária, mas aqui o humor só funciona com Dyan Cannonm que está ótima. Julie está perdida, o filme não é para ela, e Warren, seu namorado então, desfila charme, mas não dá risos. O filme acaba sendo uma coisa estranha, uma comédia melancólica ou um drama leve. Assisti a ele na época, num cinema cheio na Paulista. O que senti então é o que voltei a sentir hoje, decepção. Nota 5.
   GRACE DE MÔNACO de Olivier Dahan com Nicole Kidman, Tim Roth e Frank Langella.
O filme me surpreendeu, ele é bastante bom. Isso porque nada tem de biográfico. Não se trata de vermos o casamento de Grace ou sua história. É a radiografia do momento crucial de uma nação, Monaco, de um planeta, a Terra e de uma mulher, ela. Grace sente falta do cinema, sente falta dos EUA e se sente negligenciada como mulher por seu marido, Rainier. Indecisa, ela tem de tomar uma decisão. Ou desiste e retorna ao cinema, ou se assume como princesa. O momento é terrível. A Argélia luta contra a França e De Gaulle quer se apossar do principado, a França precisa de dinheiro. Grace consegue, em golpe de estream sutileza, fazer com que De Gaulle não possa agir. Como? Veja o filme! Ele tem suspense, muito drama, realismo e atores excelentes. É uma das melhores atuações de Nicole. Aturdida, presa, com raiva, com medo, tudo misturado num pacote de beleza. Voces que são mais jovens saibam, Grace Kelly foi um mito. Maior que Angelina Jolie, Madonna... Lady Di chegou perto com uma diferença, Grace era muito mais bonita, inteligente e elegante. O filme é digno dela. Nota 7.
   MAGIA AO LUAR de Woody Allen com Colin Firth e Emma Stone.
Colin é um mágico na Europa de 1920. É levado por amigo à Riviera, onde ele deverá desmascarar uma vidente impostora. É mais um filme agradável de Woody Allen. Divertido, fácil de ver, gostoso. Mostra gente rica em lugares lindos, mostra bons atores em bons papéis. Demorou para Woody trabalhar com Colin Firth, meu ator favorito do cinema de agora. E Emma Stone é bonita e boa atriz. Mas Woody tem um grande problema: seu nome. Fosse o filme de um diretor novato, todos o elogiariam. Mas é de Woody...sabe como é, a gente espera um novo Hannah, Annie Hall, Manhattan....mas não! Woody é hoje um cara de bem com a vida, aproveitando para viajar, comer, beber e filmar. Ele filma apenas o que não lhe dá trabalho, apenas prazer. Seus filmes são como pequenos contos de um autor delicioso e de pouca ambição. São para usufruir. Nota 6.
   GUARDIÕES DA GALÁXIA de James Gunn com Chris Pratt e Zoe Saldana.
Muito, muito bom! Fazia tempo que não via uma aventura tão bem construída, tão cheia de humor, ação e prazer. Porque gostei tanto? Estava pronto para odiar! Mas os personagens são legais, as cenas nunca parecem bobas, e principalmente, não há medo de viajar, de se deixar levar pela fantasia. Uma delicia de filme. Espero pela continuação! Os Guardiões são muito legais! Nota 8.

O MUNDO DE HOJE? É DE PROUST E EU NÃO SABIA! ou SOMOS TODOS UNS MARCEIS.

   Aula de Teoria Literária ministrada por uma leve professora alemã. Uma das melhores coisas em voltar a estudar é quando voce pode desenvolver, em classe, em grupo, aquilo que voce absorveu sozinho ao longo da vida. Nesta manhã falamos de Benjamin, de Bergson, de Adorno e de Proust. Primeiro fato que nunca eu havia percebido: A valorização da memória é um fato moderno. Na poesia e na prosa de antes inexiste fascinação pela memória. O romance do século XVIII caminha sempre adiante. É no fim do século XIX e principalmente por todo o século XX, e cada vez mais, que se instaura a adoração do passado, a valorização da memória, da lembrança individual, daquilo que só voce viveu, viu e sentiu. Freud é apenas um sintoma desse novo sentimento. O mergulhar dentro de si e fora do mundo para achar sua memória.
  Antes não era assim. A memória era coletiva e pouco importava a memória de cada um. Mesmo obras confessionais, como as de Montaigne ou de Rousseau, falam do tempo avante, a lembrança sendo apenas um rápido apoio para o passo à frente. A memória se instalava na igreja, nas festas profanas ou religiosas, nos contos populares e no culto aos heróis. A memória compartilhada, de todos, a memória, mesmo que familiar, sempre inserida no conjunto de outras histórias. Teia de fatos que dizem respeito a todos.
  Hoje todos somos Proust. E se todos somos Proust, então a memória hiper-particular de Marcel se tornou a memória compartilhada por todos. Afinal, o francês sensível e nervoso influenciou mesmo aqueles que nunca o leram. Sim? Mais ou menos. Vamos ressaltar que Proust parte de si-mesmo e tem por alvo o mais si-mesmo possível. Se somos proustianos é porque vivemos a mesma ansia que atingiu Marcel e não porque temos as mesmas lembranças que ele. Proust intuiu aquilo que o mundo se tornaria, o mundo da rua negando e violando a matéria e nossa alma correndo para casa a fim de sobreviver. 
  Somos pessoas que dividem fotos de nossa infância com estranhos. Homens que produzem memórias sem parar. Olhamos e fotografamos incessantemente nosso rosto, observando as mudanças do tempo, analisando o que ele é. Nossa arte produz citações de citações, olha e reflete sem parar sobre tudo o que foi feito e parte dessa memória na tentativa de anular a memória. Colecionamos cacos de lixo na esperança de recordar algo. Damos valor a brinquedos sujos, livros rasgados, casas úmidas, mobilia riscada, esperando que esses objetos nos dêem uma narrativa, que eles nos contem uma história que fomos incapazes de viver.
  Procuramos em sites, lojas, museus, nossas madeleines. Um objeto que nos desperte. Que nos tire da surdez, da cegueira. Viajamos não para encontrar algo de completamente novo, mas viajamos para recordar alguma coisa que nunca vivemos. Ansiamos por histórias, por memórias, por tempo. Olhamos o Partenon como se ele fosse parte de nós. Não é. O Partenon, assim como New York ou Londres ou Tokyo ou Vienna nos recorda coisas que vimos de terceira mão. Não são memórias nossas, são madeleines que jamais nos cantarão um segredo. Paris irá nos lembrar a Paris de um filme, de um livro, de um sonho de outro. 
  Nossa memória nos obceca, mas ao mesmo tempo a tememos. Sentimos que nela perderemos algo. Perderemos a vida. Estranha condição pós-Proust. O francês aceitou o mergulho sem medo, nós nos paralisamos em medo. Memórias pela metade, lembranças fingidas, recordações compradas.
  A menina bonita usa um cabelo Chanel com saudades dos anos 20. Ela nasceu em 1995. O carro é anos 70. Quem o dirige nasceu em 1990. No rádio uma balada tipo 1966. Tudo lembra algo que não foi vivido, tudo faz esquecer, lembrando, a verdadeira lembrança, individual. Porque mesmo que se lembre e se reviva maio de 68, esse aparente coletivo não é coletivo, pois cada um ali vive um sonho particular em meio a uma massa sem rumo. A estranheza é tanta que já há no Brasil ou no Niger quem tenha saudades e memórias dos tempos celtas dos druidas e bruxos. 
  Nunca a infância foi tão adorada. As lembranças se espalham por desenhos, roupas, e pelas salas de terapia. Mas ao mesmo tempo, nunca se lembrou tão pouco da verdadeira infância. A vontade é de reviver e recordar como Proust, mas o que recebemos são apenas lembranças vagamente coletivas, redutoras, pobres. Queremos adentrar outra vez as portas do quarto de brincar e poder sentir, mesmo que por um segundo, a pureza dos dias e das palavras livres. Mas o que compramos é apenas um brinquedo enferrujado que balbucia uma frase gasta e sem valor. 
  O tempo só vale quando tem durée, valor, quando não pode ser medido. É isso o que queremos. É isso o que respira no ciclo da natureza, na semente e na colheita. É isso que respira nas festas. No nascimento e no enterro. Isso é dramatizado na missa, no canto ao redor da fogueira, no mito. É isso o que tentamos resgatar, é isso que Proust resgatou. Para si. Só para si. E para mais ninguém.
  O tempo, domado, contado, estudado, comprado, planejado, morto, é nossa obsessão. Olhamos para nosso passado na esperança de o salvar. Esquecemos o que Proust diz logo no começo de sua obra: Esse reencontro é acidental. Casual. Ele é pura sorte. Ir atrás dele é matar sua chance.
  Toda foto tirada com a intenção de servir como memória de um momento, está fadada a nada significar no futuro. O momento será capturado no acaso. Ou melhor, na Arte. Capturar o tempo sem o assassinar. Eis a tensão da arte moderna.
  Cèst Tout.

Roxy Music - Avalon



leia e escreva já!

O PLATONISMO EM ROCK, AVALON.

   Eu amava Pat Wonderful porque ela era linda. E se vestia, de uma forma discreta, melhor que qualquer menina que conheci. Até hoje. Jamais pensei em fazer amor com ela. Eu queria sair com ela. E isso nós fizemos. Meu desejo era poder desfilar pelas ruas ao seu lado. Fazer parte de seu mundo. 
 Wonderful tinha um doce perfume. Leve. E seus olhos negros pareciam abismos. Imagem óbvia...mas exata. Ela era uma bailarina. E caminhava pela vida como uma boneca de porcelana. O pescoço sempre ereto e as coxas finas e duras. O nariz empinado. Ela era pequena, e mesmo assim olhava o mundo de cima. Uma noite ela disse que eu era da mesma espécie que ela. Wonderful me fazia feliz. Ignorávamos toda a feiura do mundo. Conosco a vida era champagne, cristal e muita música. 
 Há um esnobismo sempre latente em mim. Nela isso era assumido. Da sacada de seu enorme apartamento, a paisagem era o clube Pinheiros, nós ficávamos madrugadas adivinhando futuros e alfinetando os mortais. Nossa carne era pó. O desejo era pelo etéreo. Assexuados, conseguíamos ter a ilusão de que o idilio duraria para sempre. Ela era Vênus e eu era Mercúrio. O Olimpo era a Terra.
 E sua voz, seu andar de bailarina, eles assombraram toda minha vida futura...
 Avalon é a trilha sonora desse mundo tão irreal que se fez mito. Ela existiu? Vejo fotos e sei que ela era exatamente como eu recordo. O cabelo castanho lustroso, curto, a boca aristocrática, a pele macia e rosada, um tipo de anoitecer de verão. 
 Em Avalon tudo é amor e nada é sexo. Aqui, 1982, Bryan cria o estilo que será dele forever. Milhares de guitarras fazendo uma tapeçaria de sons diminutos, percussão que ricocheteia em vielas de um oriente inexistente, e teclados oitentistas flutuando e harmonizando a elegância sublime de toda essa ourivesaria de sons preciosos. Há uma delicadeza de borboleta em todo som. Por isso a gente ouve e sente o odor de rosas.
 E há a voz. Inumana. Ela vem de um sonho e Bryan nunca mais irá acordar. Ele canta dormindo, profundamente adormecido. É a voz da vida de Tony Roxy e de Pat Wonderful. A voz que rodopia numa irrealidade esfumaçada de estações que ficam. Sem carne, pois a carne conhece a solidez e o tempo. E neste universo tudo é intocado e para sempre. 
 Ter criado este mundo atesta a verdade. Avalon, ilha onde vivem Arthur e Guinevere, é mais real que Londres ou que Bristol. Porque Avalon deu frutos e aquilo que dá filhos é real. Todo o Pop inglês classudo, feito entre 83/94, entrou no mundo de Avalon. Muito lixo foi aqui engendrado. E alguns minutos de pura beleza também.
 Talvez o meu pior viva neste canto. Não sei. 
 Avalon é feito sobremaneira de silêncio. O ruído está longe daqui, foi banido. Idealisticamente, tudo deve ser perfeição. 
 Pat era perfeita.
 Portanto, ela não podia ficar. 
 Platão.
 E o rock, o mais crú dos estilos, conhece com Roxy, o platonismo da pura ideia. 
 E fora daqui, só barulho.